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segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

ASSÉDIO SEXUAL: UMA TERCEIRA VIA?


 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Os últimos dias foram marcados pelo debate sobre assédio sexual.  Em parte, graças a Deus, porque de assédio político e econômico estamos todos um pouco cansados.  

O discurso de Oprah Winfrey na festa do Globo de Ouro foi o clímax de uma caminhada legítima e positiva da mulher. Em busca do seu espaço e a paridade de direitos com o homem há várias décadas, a mulher hoje se nega a ser assediada e oprimida em um mundo ainda marcado pela supremacia masculina. 

Como mulher e negra – portanto duplamente vulnerável – Oprah deu voz a muitas de suas colegas do meio cinematográfico e artístico que trabalharam para construir uma carreira e no caminho foram submetidas a chantagens, assédios, passando até mesmo pelo “teste do sofá”. O discurso incluiu igualmente todas as vítimas de abusos e violências sexuais de qualquer espécie.  A apresentadora comoveu e convocou com seu inflamado e emocionado discurso. 

Pouco depois, outras mulheres tomaram a palavra.  Cem francesas publicaram uma carta com outra visão sobre a questão.  Entre elas, ninguém menos que a grande e belíssima atriz Catherine Deneuve e também a pensadora e escritora Catherine Millet.  Com a visão do feminismo francês – bem diferente do estadunidense – criticaram o tom com que as denúncias de assédio vêm sendo feitas do outro lado do Atlântico.  E apontaram para o que poderia ser um “machismo às avessas”, sendo os homens vítimas de denúncias irresponsáveis e extremistas. 

Catherine Deneuve pediu desculpas às vítimas pelo mal-estar que sua carta causou.  Mas deixou bem claro que o fazia “a elas e só a elas”.  Ou seja, não pretendia incluir em seu pedido de desculpas as feministas de além-mar.  As reações foram fortes e muitas, na França mesmo e nos Estados Unidos mais ainda. As cossignatárias francesas foram acusadas de serem inimigas da liberdade e coniventes com os abusos sexuais cometidos pelos homens contra as mulheres. 

Com temor e tremor, registro meu sentir.  Impossível não compreender e sentir-se solidária com as norte americanas, a luta delas e o luto pela pisoteada dignidade da mulher.  É fato que não apenas ao norte do Equador, e mais ainda ao sul, mulheres são usadas, abusadas, chantageadas e agredidas.  O assédio pode começar na família, protagonizado pelo pai, o tio, um amigo, o irmão, o primo. As histórias são muitas e dolorosas, compostas de silêncios, pânicos, lágrimas e o pavor de que a noite viesse, a casa dormisse e as visitas indesejáveis se aproximassem. 

A idade adulta e a entrada no mercado de trabalho não melhoram o panorama.  Na vida profissional, até mesmo nos mais inimagináveis e improváveis setores, o assédio se faz presente. E a sombra do abuso cerca, roça, toca, encosta, força e se tem algo de poder, chantageia. O comportamento sinistro é encoberto pela mentalidade que não escuta, não observa, não acredita.  E reforçada pelos que acham que a culpa é da vítima, que saiu de short ou decotada, provocando indevidamente a libido masculina.   

Por outro lado, a convivência entre homens e mulheres supõe uma diferença que quase nunca repele e quase sempre atrai. E esta pode se expressar em galanteios, admiração, olhares, que não podem ser apressadamente classificados de assédio ou abuso.  Este intercâmbio é necessariamente sexuado (não sexual) e pode ser vivido no respeito e dentro de limites éticos. E quando assim sucede, dignifica tanto o homem como a mulher. 

Não necessariamente a admiração de um homem por uma mulher deve derivar para assédio, abuso ou violência.  Portanto, não há que anatematizar qualquer iniciativa dos homens nesse sentido como digna de ser repelida, denunciada e execrada.  O manifesto das francesas não deixa de acertar neste ponto.  Só não me agrada a palavra “importunar”. A associação imediata se faz com “molestar”, que leva ao assédio e à repulsa ao mesmo.  Ninguém gosta de ser importunada, mas de ser admirada com respeito e delicadeza, sim.  Duvido que haja alguma mulher que não goste. 

Gosto que me ajudem a carregar a mala pesada, que abram a porta da sala ou do carro para que eu possa entrar, que puxem a cadeira para que eu me sente. Tantos amigos tive e tenho na vida que já fizeram isso, na frente de meu marido ou na sua ausência.  E jamais me senti assediada. E se o admirador se tornar insistente e inconveniente, a mulher é livre e adulta para fazê-lo sentir que o limite chegou e é melhor parar por ali.  

Entre o feminismo militante das estadunidenses e de muitos outros coletivos na Europa, no Brasil e em toda parte e a visão mais flexível das francesas, haverá uma terceira via?  Quero crer que sim.  E ela reside na tolerância zero com a violência sexual de qualquer tipo: física, emocional, profissional etc.  Porém não ao se criar uma atitude tão antitética em relação aos homens que transforme todos e cada um em potencial agressor e/ou inimigo.

Nada se constrói de positivo se a proposta é lutar apenas “contra” algo.  Lutar apenas “contra” o machismo não nos levará muito longe, parece-me.  Melhor é lutar a favor.  A favor de mais educação e formação para as mulheres, mais reconhecimento de sua competência, mais respeito à sua diferença, mais equidade e justiça para avaliar seu desempenho junto aos colegas homens, mais esforços para que a equiparação salarial para iguais competências seja uma realidade.

Senão, como ficariam as obras literárias, musicais e artísticas em que a beleza da mulher é cantada e louvada? A canção de Vinicius de Moraes e Tom Jobim sobre uma garota que passava em Ipanema rumo à praia celebra a beleza e o encanto daquela mocinha sem deslizar nem um milímetro para a grosseria ou a falta de respeito.  Por outro lado, há canções, textos pretensamente literários e manifestações supostamente artísticas que, na verdade, são de extremo mau gosto e desrespeito e não ajudam em nada o processo de emancipação da mulher. 

Um mundo onde não se possa mais cantar “Garota de Ipanema”, onde os poemas de Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda e outros sejam banidos como misóginos e machistas, onde as pinturas e esculturas que retratam o corpo feminino com suas curvas e relevos sejam postos sob suspeita será um mundo enfadonho, opaco e desagradável.  Não humanizará ninguém e muito menos as mulheres. 

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc)

  Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

TEXTO PARA SER LIDO NO EVENTO NO TEATRO CASA GRANDE PELA DEMOCRACIA E PELA ELEGIBILIDADE DE LULA



Por Leonardo Boff

Por razões de saúde na minha família, não pude estar neste evento no teatro OI Casagrande, no Leblon, pela democracia e pela elegibilidade do ex-presidente Lula. Como forma de estar presente envio este texto de reflexão.
Companheiros e companheiras, querido amigo e presidenciável Lula (lá onde estiver).
Saúdo a vocês todos e a todas que não se renderam à covardia, à mentira oficial e mediática, à explícita cumplicidade do Judiciário e à geral venalidade de boa parte da classe política.
Estamos num momento crucial de nossa história que nos obriga escolher um lado. Tornou-se claro que estão se enfrentando dois projetos que irão definir o futuro de nosso pais: a reconolização ou a refundação.
O projeto da reconolização do Brasil, força-o a ser mero exportador de commodities para os países centrais. Isso implica mais que privatizar os bens públicos mas de desnacionalizar nosso parque industrial, nosso petróleo, grandes instituições públicas, quem sabe, até universidades. Trata-se de dar o maior espaço possível ao mercado concorrencial e nada cooperativo e reservar ao Estado só funções mínimas.
Este projeto conta com aliados internos e externos. Os internos são aqueles que deram o golpe e aqueles 71.440 multibilionários que o IPEA sob Jessé Souza elencou e que controlam grande parte das finanças e financiam o Estado  com pesados juros. O aliado externo são as grandes corporações globais, interessadas em nosso mercado interno e principalmente o Pentágono que zela pelos interesses globais dos Estados Unidos.
O grande analista das políticas imperiais, recém falecido, Moniz Bandeira e  o notável intelectual norte-americano Noam Chomsky bem como Snowden nos revelaram a estratégia de dominação global. Ela se rege por três ideias forças: primeira, um mundo e um império; a segunda, a dominação de todo o espaço (full spectrum dominace), cobrindo o planeta com 800 bases militares, muitas com ogivas nucleares. É prevista, sob o olhar do neoliberal presidente da Argentina, Macri, uma grande base na tríplice fronteira (Brasil, Paraguai, Argentina) para controlar o Brasil e particularmente o Aquífero Guarani, decisivo para o futuro próximo de grande parte da humanidade sedenta e que poderia abastecer de água o Brasil por 300 anos; a terceira, desestabilizar os governos progressistas que estão construindo um caminho de soberania própria e que devem ser alinhados à lógica imperial.
A desestabilização não se fará por via militar, mas por via parlamentar, já ensaiada eficazmente em Honduras e no Paraguai e agora no Brasil. Trata-se de demolir as lideranças carismáticas, fazer da política o mundo do sujo e desmantelar políticas sociais para os pobres. Um conluio foi arquitetado entre parlamentares venais, estratos do judiciário, do ministério público e da polícia militar, secundados pela mídia conservadora que nunca apreciou a democracia e sempre apoiou os golpes.
Conseguiram apear a presidenta Dilma, democraticamente eleita e instalar um Estado de exceção, antipopular, corrupto e violento. Todos os itens político-sociais pioraram dia a dia.
O outro projeto é o da refundação de nosso país. Ele já vinha sendo esboçado muito antes mas ganhou força sob o governo do PT e aliados, para o qual a centralidade é dada aos milhões de filhos e filhas da pobreza, descendentes da senzala, apesar dos constrangimentos impostos pelo neoliberalismo imperante no mundo e no Brasil. Junto com a garantia do substrato vital para milhões de excluídos através dos vários projetos sociais, foi a dignidade humana, sempre aviltada, que foi resgatada. Esse é um dado civilizatório de magnitude histórica.
Para todos nós que estamos aqui presentes, esse projeto da refundação do Brasil sob outras bases, com uma democracia construída a partir de baixo, popular, participativa sócio-ecológica e aberta ao mundo constitui, certamente nosso sonho bom e nossa utopia alviçareira.
Três pilastras a sustentarão: a natureza de riqueza singular, fundamental para o equilíbrio ecológico da Casa Comum, a Terra, a nossa cultura criativa, original, diversa e apreciada no mundo inteiro e, por fim, o povo brasileiro inteligente, inventivo, hospitaleiro e místico a ponto de pensar que Deus é brasileiro.
Essas energias poderosas poderão construir nos trópicos, não direi o sonho de Darcy Ribeiro, a Roma dos trópicos, mas uma nação soberana, ecumênica que integrará os milhões de deserdados e que contribuirá à nova fase da humanidade, a planetária, com mais humanidade, humor, alegria e que sabe conjugar trabalho com festa. Importa derrotar as elites do atraso e anti-nacionais que representam um Brasil, agregado e sócio menor do projeto-mundo.
Não anuncio otimismo, mas esperança. Santo Agostinho que não era europeu mas africano, um dos maiores gênios do cristianismo, bispo de Hipona, hoje Tunísia, deixou escrito em sua biografia, as Confissões, esta palavra que será a minha última.
A esperança, já o disse muitas vezes, tem duas formosas irmãs: a indignação e a coragem.
indignação para rejeitar tudo o que se apresenta como injusto e ruim.
coragem para transformar a política do Brasil de ruim e péssima em boa e justa e refundar um Brasil onde todos possam caber, a natureza incluída.
Hoje precisamos cultivar a indignação contra as maldades oficiais que transbordaram o cálice da amargura. E a coragem para irmos às ruas, às praças, quem sabe, a Porto Alegre, para salvar a democracia, garantir a possibilidade da candidatura presidencial de Lula e assegurar um país soberano, nosso, com um destino definido pelo próprio povo.
Alimentamos a certeza que chegará o dia em que a justiça e a igualdade triunfarão. Uma sociedade não pode se sustentar sobre a injustiça, a profunda desigualdade e a violência estrutural. A luz tem mais direito que todas as trevas que nos estão ocultando o horizonte.
Obrigado a todos e caminhemos juntos no mesmo compromisso por um Brasil de tipo diferente.
Leonardo Boff
Petrópolis/ Rio, 16 de janeiro de 2018


Leonardo Boff é teólogo e escreveu o livro São José, a personificação do Pai, Vozes 2005.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

LULA E O JULGAMENTO DO JUDICIÁRIO


 por Frei Betto

       Lula, o mais destacado líder popular brasileiro da atualidade, vai a julgamento dia 24 de janeiro. Não há como ficar indiferente ao fato.
       A expectativa deixa a nação em suspenso. E a divide: de um lado, aqueles que já o pré-julgaram e esperam apenas que a sentença seja confirmada pelos juízes de Porto Alegre; de outro, os que afirmam não haver suficientes provas para condená-lo, e as acusações estão de tal maneira impregnadas de caráter político que extrapolam o exercício imparcial da Justiça.

       Estamos em ano de eleição presidencial. Vários candidatos em potencial aguardam o veredicto para tomarem uma decisão. Com Lula no páreo a disputa fica bem mais difícil para os neocandidatos. É o que apontam as pesquisas eleitorais.

       Lula adotou uma firme postura frente às acusações que lhe imputam: o ônus da prova cabe ao acusador. Ele se declara inocente, vítima de uma conspiração do Judiciário movido por forças aparentemente “ocultas”.

       Os que derrubaram Dilma e empossaram Temer miraram no que viram e acertaram no que não viram. Lula, após oito anos de mandato presidencial, saiu do Planalto com aprovação de 87% da opinião pública. É um dado significativo. E ainda conseguiu emplacar por duas vezes a eleição de Dilma para o comando do país.

       Armou-se um golpe parlamentar, à semelhança dos ocorridos em Honduras e Paraguai, defenestrou-se Dilma do poder para dar lugar a Temer, acusado de graves delitos. Porém, a costura saiu pior que o remendo. Temer não consegue alcançar 5% de aprovação. Governa graças ao descarado “franciscanismo” que mantém a maioria da Câmara dos Deputados refém dos cofres do Tesouro Nacional, cuja chave Temer traz em mãos.

       Nada indica que Temer logrará fazer aprovar a tão almejada (por ele) reforma da Previdência. Reeleger-se é muito mais importante para a bancada governista do que enfiar agora mais dinheiro no bolso e sofrer desgaste político. Afinal, muitos governistas ostentam no pescoço a corda da Lava Jato, e a reeleição é o modo mais indicado de se manterem afastados do patíbulo.

       Qualquer que seja o resultado do dia 24, Lula sai ganhando: absolvido, ficará livre das acusações que lhe são feitas. Se condenado, se tornará um mártir político do Judiciário que condena uns e se mantém cego e leniente diante de outras figuras políticas que cometeram delitos comprovados em imagens e gravações exibidas no noticiário.

       Na verdade, quem estará sentado no banco dos réus, dia 24, não será o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Será o Judiciário brasileiro.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), entre outros livros.
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

SOBRE VENCEDORES E VENCIDOS: UMA REFLEXÃO OPORTUNA E IMPORTUNA


Por Ivone Gebara

Em tempos de desesperança e tendência a se calar na multidão postamos um artigo de 2016 para reacender a chama da esperança.

“Não chore ainda não
Que eu tenho um violão
E nós vamos cantar
Felicidade aqui
Pode passar e ou vir
E se ela for de samba
Há de querer ficar"


Não chore presidenta Dilma porque tem muita gente no bom samba da dignidade que se recusa a calar sua voz, se recusa a parar de gingar, se recusa a parar de pensar, de escrever, de analisar o momento presente e de cantar, e cantar... Liberdade, liberdade, liberdade. A vida brasileira está confusa e atirar pedras ou lamentar o leite derramado não resolve a situação! Convencer os outros de que há uma única culpada de nossos atuais problemas é no mínimo assustador e incompreensível. O ser humano habituou-se a encontrar ‘bodes expiatórios’ que levam a culpa sem coletivizá-la e sem tornar a responsabilidade social e política uma responsabilidade comum assumida.

Não chore ainda não presidenta, não vale chorar porque os que se julgam vencedores e creem em sua vitória estão alegremente atribulados e acuados. Mas qual é mesmo essa vitória tão grande? Uma lei expressa em palavra inglesa, ‘impeachment’ pareceu mudar os rumos da vida de muitos e a sua? É ela que os tornou vitoriosos? É ela que nos tornou vencidos com você?

Depois de nosso orgulho de ter você como primeira presidenta, de saber de suas lutas e fraquezas como as de todas nós, com você estamos ouvindo novos impropérios sobre a incapacidade das mulheres de fazer política original e eficaz. Não nos deram muito tempo e nem muitos espaços...

Não chore presidenta... Tem muita gente sentindo a mesma raiva que você deve estar sentindo, mas reunindo forças de vida por que “tanto menino novo nasceu” nessa semana, tanto “jovem se apaixonou pela vida”, “tanto velho dançou nas praças”, “tantas andorinhas estão cantando”, tanta “flor nasceu no campo”,... Embora, o som do violão esteja fraco...

Não chore ainda não
Que eu tenho a impressão
Que o samba vem aí
E um samba tão imenso
Que eu às vezes penso
Que o próprio tempo
Vai parar pra ouvir

Olé, Olé, Olá..
.
Depois de uma noite de quase insônia na qual pedaços da fala da presidenta Dilma explicando e se defendendo em meio à fala acusatória de alguns senadores povoavam involuntariamente meus pensamentos, decidi levantar-me para não aumentar mais minha angústia. A música do Chico Buarque “Olé, Olé, Olá” estranhamente fazia um fundo musical insistente na minha tristeza. Passei do quarto para meu pequeno escritório e, não sei bem porque olhando minha estante de livros tomei em minhas mãos um velho livro sobre ‘a oração de Jesus' escrito em 1973, pleno período de governo militar, pelo saudoso amigo Padre José Comblin. Folheei o livro e algumas palavras que faziam as vezes de pequenos subtítulos começaram a desfilar sob meus olhos... Solidão, abandono, derrota, vencedores, vencidos, reconhecimento... Li um e outro parágrafo como se quisesse buscar neles a calma necessária para começar o dia. Sentia-me atravessada pelo dia e noite de julgamento de nossa presidenta e depois pelo dia do veredito final. Mal conseguia imaginar as noites que ela passou depois das perguntas ardilosas e armadilhas que os juízes senadores lhe estendiam. Parecia-me aviltante que ela tivesse que repetir várias vezes a mesma informação porque as excelências presentes só tinham em vista a pergunta que queriam lhe fazer em público. Mal ouviam o que ela dizia atentos aos seus celulares, às câmaras de televisão e a buscar um ou outro olhar de cumplicidade entre os seus pares. Sob o pretexto de julgar seus atos políticos se mostravam ao público como justos e justiceiros defendendo o pobre povo brasileiro contra a primeira mulher presidenta de nossa história!

Minha tribulação aumentou com essas lembranças e por isso resolvi escrever convencida que cantar, escrever, cozinhar 'parecem com não morrer' sobretudo diante da confusão do momento político e das trevas que sem querer invadem a alma.

Espontaneamente pensei que apenas fazer de novo críticas aos opositores de Dilma, à sua superficialidade democrática e humanista não aliviariam meu coração. Da mesma forma, cantar as glórias da presidenta não me parecia o melhor caminho. Provavelmente muitas amigas e amigos estariam fazendo as mesmas constatações e não tinha mais vontade de beber de novo da mesma massacrante situação vivida que parecia não me levar a nenhuma saída. Também fazer análises políticas a partir da conjuntura nacional e internacional não era o meu forte...

Lembrei-me então do que havia lido no livro de José Comblin e me voltou a ideia de que nem sempre os vitoriosos, os que têm o êxito imediato são de fato os construtores da história da dignidade humana. O êxito talvez gere a boa consciência do dever cumprido, da vitória aparente da legalidade, do bom resultado obtido pelo desempenho social, da vitória sobre os adversários... Entretanto, o êxito ou a vitória não levam à reflexão, a interiorização e análise de nossos comportamentos e sentimentos. Que insensatos /as somos! Inebriamo-nos facilmente com nossa própria imagem acreditando ser o centro do mundo. Esquecemos que a vitória de Pilatos, do Império Romano, dos doutores da lei e até do povo acusador na realidade foi o golpe mortal à liberdade. E por isso foi um golpetambém contra os acusadores. Condenar Jesus à crucifixão e à morte foi uma vitória daqueles a quem a integridade das ações de Jesus molestava no imediato. A História tem nos ensinado embora não tenhamos aprendido que não há uma relação lógica de coerência entre os atos humanos realizados e os resultados obtidos e, sobretudo os considerados vitoriosos ou exitosos. Provavelmente Hitler e seus aliados mais próximos sentiram-se vitoriosos quando as câmaras de gás e os fornos crematórios conseguiram eliminar milhares de seres humanos...

Estupenda vitória! Limpeza étnica realizada! Missão cumprida! Também os ditadores sanguinários da América Latina vibraram de alegria quando torturaram e mataram milhares dos chamados 'inimigos da pátria'... Afinal conseguiram o que esperavam, ou seja, eliminar os 'vermes' que buscavam a liberdade do povo. E quantas guerras vitoriosas foram glorificadas apenas porque as armas que mataram vidas significaram o sucesso das empresas produtoras de artefatos bélicos? A história humana é de fato eivada de uma mistura imensa de sentimentos, palavras, ações salvíficas e cruéis que levam à vida e à morte num movimento sem fim.

Quase sempre pensamos que a vitória é o resultado do sucesso provisório de nossa ideologia, de nossa empresa, de nossa competência ou de nosso sonho por mais extravagante que seja ele. Mas a história também acaba por desmentir a vitoria dos vencedores... Só que não a história imediata cheia de conflitos passionais, tecida de mentiras vestidas de verdade, de encobrimentos e acusações mútuas, de golpes de luva de pelica sob a qual se escondem alfinetes envenenados. Também não a história oficial dos Impérios que se sucedem e escrevem suas vitórias ensinadas e aprendidas nas escolas. Mas a história que desmente as grandes vitórias das guerras de uns contra os outros é a pequena história dos pequenos amores e das pequenas ações de justiça e solidariedade que sustentam a dignidade da vida. Essas pequenas histórias irrompem cada dia de diferentes maneiras...

Num campo de concentração um decide dar a vida no lugar de outro, a outra dá a sua porção de alimento à colega grávida, a lavadeira entrega seu salário para comprar o remédio para a filha da vizinha, um homem ajuda um marginal que matou seu filho, mulheres denunciam a violência infantil...

Estas e outras tantas pequenas histórias são as narrativas muitas vezes desconhecidas das pequenas vitórias da vida. Histórias ocultas, de personagens desconhecidos e insignificantes mantêm a chama da dignidade humana!

Para além das polarizações da história imediata na qual cada indivíduo espera convencer o outro ou atirá-lo num covil de leões famintos, para além do reducionismo da realidade limitada e perspectivista que apenas meus olhos são capazes de ver, há um tênue fio de contradição que se instaura em todas as posições. É ele que nos fará pensar e buscar a de novo a liberdade... É ele que convidará as novas gerações a analisar os fatos passados e perceber que é esse fio obscuro e incômodo, talvez enredado a muitos outros o portador da novidade que nos fará reviver com dignidade. É a contradição e o paradoxo de nossos atos que nos convida ao pensamento e a novas ações. É ele que revela a fragilidade de nossos pensamentos e de nossos atos e nos remete à limitada condição humana. É a suspeita em relação as nossas próprias verdades e interpretações, aos poderes que utilizamos aos abusos que deles fazemos que conduzem a História para frente. São esses incômodos no pensamento e nas emoções, na consciência e no coração que emergem sem querer e que persistem apesar dos pesares... São eles que desmentem a vitória dos vencedores imediatos e a tragédia vivida pelos vencidos que não são apenas os “outros” partidos, mas o povo vivendo em condições sub-humanas. São eles que restauram de novo a história da dignidade humana e nos fazem esperar de novo apesar dos medos que nos acompanham sempre.

No presente, os vencidos parecem cabisbaixos mesmo quando gritam sua dor e decepção nas praças públicas. Sentem-se feridos e abandonados até por quem antes parecia estar de seu lado...

Os vencidos são deixados aos seus próprios problemas e os que eram próximos deles até negam conhecê-los, os que antes os aconselhavam para serem ‘ganhadores’ desviam-se de seus caminhos, orgulhosos de serem também indiretamente vitoriosos, pois afirmam que seus sábios conselhos não foram seguidos. Facilmente, em meio à derrota, desenvolvem outras vitórias, alinham-se aos moralmente corretos, fazem teoria ‘clara e distinta’, explicam as razões dos vencidos, querem ser bons e justos sem perder a aura de sua moralidade. Escondem-se usando mil e um pretextos e não aderem mais à causa que os movia e os fazia brilhar no provisório palco da história. Hipócritas! Sepulcros caiados!

Os vencidos parecem desamparados... Nem suas velhas esperanças os sustentam visto que os vencedores parecem ter se apropriado delas... Apropriaram-se de seus feitos, de sua linguagem, de suas vestes, de seus amigos e de suas leis. Desnudaram os vencidos de suas crenças, roubaram a ‘bandeira nacional’ de todos e fizeram dela a veste de alguns privilegiados sedentos de glória e poder.

Porém, os vencidos por incrível que pareça não são apenas os que perderam uma partida de futebol, ou perderam as eleições, ou um trabalho, ou um lugar ao sol... Somos todos nós como humanidade buscando o sentido de sua vida embora só saibamos considerar a nossa individualidade.

Em tudo isso, ainda resta a contradição, o paradoxo, aquela experiência que nos mostra que no fundo todos nós somos menores que nossas vitórias e bem maiores que nossas derrotas. Todos nós somos de alguma maneira, vencidos e vencedores. Todos nós temos que recomeçar nossa busca comum de dignidade para além dos fracassos experimentados. Nosso futuro se chama hoje...

Por isso, querida presidenta Dilma, “não chore ainda não”, não choremos porque temos razões para não chorar... Olé, Olé, Olá...

Ivone Gebara é filósofa, religiosa e teóloga. Ela lecionou durante quase 17 anos no Instituto Teológico do Recife – ITER. Dedica-se a escrever e a ministrar cursos e palestras, em diversos países do mundo, sobre hermenêuticas feministas, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos e teológicos do discurso religioso. Entre suas obras publicadas estão Compartilhar os pães e os peixes, O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), O que é Cristianismo (2008), O que é Teologia Feminista (2007), As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade (2005), entre outras.