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sábado, 23 de setembro de 2017

PELA DEMOCRACIA NO BRASIL – IV TRIBUNAL TIRADENTES


Dia 25 de setembro de 2017, às 19 horas, no teatro TUCARENA da  PUC
Julgamento das práticas nocivas e danosas do Congresso brasileiro

O Tribunal Tiradentes é um tribunal especial. É simbólico, é como se fosse um teatro. Mas como todo tribunal de justiça ele terá um juiz, um acusador, um defensor, testemunhas e jurados.
Qualquer semelhança com o Tribunal Russell, constituído em 1966 para condenar simbolicamente os crimes de guerra cometidos no Vietnã, não é mera coincidência,cf. explicado acima.

O que o Tribunal Tiradentes vai Julgar
O Tribunal Tiradentes vai julgar as práticas do Congresso brasileiro, onde a maioria dos deputados e senadores não estão cumprindo sua tarefa que é fazer as leis e fiscalizar o presidente  com o fim de promover uma vida digna para todo o povo brasileiro.
Em vez disso o Congresso está aprovando leis que só interessam a uma mínima parte da população. Os deputados e senadores que assim votam estão atendendo a seus próprios interesses e aos interesses dos que os financiam para serem eleitos. Eles não estão fiscalizando o presidente e ainda por cima muitos estão envolvidos na corrupção. É por isso que só ouvimos falar que político não presta.
No Tribunal Tiradentes também se vai defender o Congresso como ele deve ser numa democracia.
E para que vai servir o Tribunal Tiradentes, se é só um teatro?
- Vai servir para que nós todos, cidadãs e  cidadãos, tomemos consciência da importância que tem o Congresso. Numa democracia de verdade o poder pertence ao povo e o Congresso representa o povo.
- Vai servir para que nos esforcemos sempre para conversar (em casa, com os vizinhos, com os amigos, na rua, no bairro, no café, no ônibus, no metrô, nas filas que temos que enfrentar todo dia) sobre o Congresso que queremos.
- Vai servir para que, como simples cidadãs e cidadãos, cumpramos um papel de informação equilibrada que infelizmente as TVs e os jornais não estão cumprindo.
- Vai servir para nos prepararmos para quando tiver eleições. Nesse momento teremos que lembrar que os deputados e senadores (isto é o Congresso) é que tem o poder para definir os rumos do país.
Venha e ajude a divulgar!
Tribunal Tiradentes no teatro TUCARENA da  PUC, na esquina da rua Bartira com rua Monte Alegre n.1024, 2a feira 25 de setembro, 19 horas. Veja na Internet:www.tribunaltiradentes.org 
                         

Contato:ttiradentes@uol.com.br
Contatos de imprensa: Cecilia Bacha (11) 9 8548 7374 


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ESTAMOS JÁ EM PLENA DITADURA CIVIL RUMO À MILITAR?


Por Leonardo Boff

O que vivemos atualmente no Brasil não pode sequer ser chamado de democracia de baixíssima intensidade. Se tomarmos como referência mínima de uma democracia sua relação para com o povo, o portador originário do poder, então ela se nega a si mesma e se mostra como farsa.

Para as decisões que afetam profundamente o povo, não se discutiu com a sociedade civil, sequer se ouviram movimentos sociais e os corpos de saber especializado: o salário mínimo, a legislação trabalhista, a previdência social, as novas regras para a saúde e a educação, as privatizações de bens públicos fundamentais como é, por exemplo, a Eletrobrás e campos importantes de petróleo do pré-sal, bem como as leis de definem a demarcação das terras indígenas e, o que é um verdadeiro atentado à soberania nacional, a permissão de venda de terras amazônicas a estrangeiros e a entrega de vasta região da Amazônia para a exploração de variados minérios a empresas estrangeiras.

Tudo está sendo feito ou por PECs, decreto ou por medidas provisórias propostas por um presidente, acusado de chefiar uma organização criminosa e com baixíssimo apoio popular que alcança apenas 3%, propostas estas enviadas, a um parlamento com 40% de membros acusados ou suspeitos de corrupção.

Que significa tal situação senão a vigência de um Estado de exceção, mais, de uma verdadeira ditadura civil? Um governo que governa sem o povo e contra o povo, abandonou o estatuto da democracia e claramente instaurou uma ditadura civil. Assim pensa um de nossos maiores analistas politico Moniz Sodré, entre outros. É exatamente isso que estamos vivendo neste momento no Brasi. Na perspectiva de quem vê a realidade política a partir de baixo, das vítimas deste tipo novo de violência, o país assemelha-se a um voo cego como um avião sem piloto. Para onde vamos? Nós não sabemos. Mas os golpistas o sabem: criar as condições políticas para o repasse de grande parte da riqueza nacional para um pequeno grupo de rapina que segundo o IPEA não passa de 0,05 de populacão brasileira, (um pouco mais de 70 mil milhardários) que constituem as elites endinheiradas, insaciáveis e representantes da Casa Grande, associadas a outros grupos de poder anti-povo, especialmente de uma mídia empresarial que sempre apoiou os golpes e teme a democracia.

Transcrevo um artigo de um atento observador da realidade brasileira, vivendo no semi-árido e participando da paixão das vítimas de uma das maiores estiagens de nossa história: Roberto Malvezzi. Seu artigo é uma denúncia e um alarme: Da ditadura civil para a militar.

“Antes do golpe de 2016 sobre a maioria do povo brasileiro trabalhador ou excluído, já comentávamos em Brasília, num grupo de assessores, sobre a possibilidade de uma nova ditadura no Brasil. E nos ficava claro que ela poderia ser simplesmente uma “ditadura civil”, sem necessariamente ser militar. Entretanto, como em 1964, ela poderia evoluir para uma ditadura militar. Naquele momento pouquíssimos acreditavam que o governo poderia ser derrubado.

Para mim não há dúvida alguma que estamos em plena ditadura civil. É um grupo de 350 deputados, 60 senadores, 11 ministros do Supremo, algumas entidades empresariais e as famílias donas da mídia tradicional que impuseram uma ditadura sobre o povo. As instituições funcionam, como dizem eles, mas contra o povo e apenas em favor de uma reduzidíssima classe de privilegiados brasileiros. Claro, sempre conectados com as transnacionais e poderes econômicos que dominam o mundo.

Portanto, nós, o povo, fomos postos de fora. Tudo é decidido por um grupo de pessoas que, se contadas nos dedos, não devem atingir mil no comando, com um grupo um pouco maior participando indiretamente.

Acontece que o golpe não fecha, não se conclui, porque a corrupção, velha fórmula para aplicar golpes nesse país, hoje é visível graças a uma mídia alternativa presente e cada vez mais poderosa. E a corrupção está em todos os níveis da sociedade brasileira, sobretudo nos hipócritas que levantaram essa bandeira para impor seus interesses.

Mas, a corrupção é apenas o pretexto. Segundo a visão de Leonardo Boff, o objetivo do golpe é reduzir o Brasil que funcione apenas para 120 milhões de brasileiros. Os 100 milhões restantes vão ter que buscar sobreviver de bicos, esmolas e participação em gangs, quadrilhas e tráfico de armas e drogas.

Então, começam aparecer sinais do verdadeiro pensamento de quem está no comando, uma reunião da Maçonaria, um general falando a verdade do que vai nos bastidores, a velha mídia com a opinião de “especialistas”, nas mídias sociais os saudosos da antiga ditadura dizendo que “quem não é corrupto não precisa ter medo dos militares”.

Enfim, estão plantando a possibilidade da ditadura militar. Para o pequeno grupo que deu o golpe ela é excelente, a melhor das saídas. Nunca foram democráticos. Não gostam do povo. Inclusive nessa Câmara e nesse Senado, poucos vão perder seus cargos ou ir para a cadeia.

O pior de uma ditadura civil ou militar é sempre para o povo. As novas gerações não conhecem a crueldade de uma ditadura total.

É de gelar a alma o silêncio da sociedade diante das declarações do referido general”. 

Que Deus e o povo organizado nos salvem.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

ESPIRITUALIDADE EM TEMPOS DE CRISE


por Frei Betto

       O Brasil se parece, hoje, a uma pessoa atropelada por um caminhão e que, apesar de graves ferimentos, escapa viva. Machucados e maculados estão a política, a ética, a cidadania, a representação parlamentar, embora a economia dê sinais de recuperação, malgrado os 14 milhões de desempregados.

       Dizia Santo Agostinho que a esperança tem duas filhas diletas: a indignação e a coragem. A indignação, para contestar o que não está bem. A coragem, para mudar a situação.

       Frente a tão nefasta conjuntura, associada à crescente violência (homicídios, assaltos, drogas), a nação reage com indignação (em conversas e redes digitais) e apatia (nas ruas e movimentos sociais).

       A indignação se manifesta em expressões de ódio e desprezo; a apatia, na sensação de que é inútil protestar nas ruas, já que se tirou um governo ruim para dar lugar a outro pior...

       O que isso tem a ver com espiritualidade? Ora, dela depende o nosso ânimo. Quando nos deixamos levar pelo niilismo somos tragados pela inércia e pelo individualismo. Essa indiferença corrói a nossa subjetividade, e objetivamente legitima o poder que nos submete a seus degenerados propósitos.

       Toda a narrativa bíblica é um libelo à resistência e à esperança. Não há nela um único livro que não retrate o conflito histórico e o embate entre opressores e oprimidos. No entanto, Javé suscita o novo quando em volta tudo parece decrépito: da gestação de Sara, já idosa, à ação libertadora de Moisés contra o faraó em cuja família ele cresceu; da brisa suave de Elias ao pequeno Davi, de quem nada se esperava.

       Deus se encarnou em uma conjuntura profundamente conflituosa. A Palestina estava submetida pelo Império Romano. Herodes promoveu o infanticídio. José, Maria e Jesus se refugiaram no Egito. João Batista assassinado pelo governador Herodes Antipas. Jesus criticado por fariseus e saduceus; expulso da sinagoga; traído por um dos discípulos; preso, torturado e julgado por dois poderes políticos e executado na cruz. Sua ressurreição, entretanto, comprovou que a justiça prevalecerá sobre a injustiça e a vida sobre a morte.

       Tempos de crise requerem a espiritualidade do grão de mostarda: pequeno e insignificante, mas dele pode brotar o que, no futuro, mudará o rumo da história. Espiritualidade do tesouro escondido e de quem sabe que vale a pena cavar o terreno até encontrá-lo. Espiritualidade do cego Bartimeu que, por confiar na ação divina, voltou a ver com clareza.

       A espiritualidade é uma atitude subjetiva de paciência histórica e atuação confiante para mudar o atual estado de coisas. Não basta o protesto; urge ter propostas. Não é suficiente reclamar, é preciso agir. De nada vale odiar, falar mal, criticar. Mais vale arregaçar as mangas e, como dizia João Batista, empunhar o machado e centrá-lo na raiz da árvore apodrecida.

       A espiritualidade impede introjetar-nos o que ocorre à nossa volta. Não somatizar a realidade circundante. Ao contrário, desse distanciamento brechtiano reunir energias para transformar o velho em novo, o arcaico em moderno, o ceticismo em esperança.

       Nos anos de 1960, eu pensava que o meu futuro pessoal haveria de coincidir com o tempo histórico. Hoje, sei que não participarei da colheita, mas faço questão de morrer semente.

       O futuro será sempre fruto do que semearmos no presente. Não há saída pela inesperada irrupção de um avatar político nem pelo retrocesso ao passado. A espiritualidade em tempos de crise exige cabeça fria, mente alerta, coração solícito. Não se deixar afogar nas marés negativas.

       A história está repleta de exemplos de homens e mulheres que tinham tudo para se enclausurar em seus nichos familiares e profissionais e, no entanto, ousaram erguer a bandeira de um futuro melhor: Gandhi, Luther King, Mandela, Chico Mendes, Zilda Arns e a albanesa Anjesé Gonxhe Bojaxhiu, mais conhecida como madre Teresa de Calcutá.

       Aos olhos de seus contemporâneos, Jesus fracassou. Aos olhos da história, marcou definitivamente a história humana. Porque confiou que a menor das sementes se transforma na mais frondosa árvore.

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgareste artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

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Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português, espanhol ou inglês - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria

E-mail - mhgpal@gmail.com

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

DOGMAS E HERESIAS DE ALGUMAS TEOLOGIAS FEMINISTAS


Por Ivone Gebara

Escrevo para um espaço de defesa da Pastoral Popular. Não sei dizer se a teologia feminista tem a ver com a pastoral popular. Minhas dúvidas são fundadas visto que a teologia feminista crítica não parece ter modificado o que ainda se ensina na teologia e mesmo na maioria das pastorais populares. Talvez depois da leitura desse texto vocês possam entender melhor a minha dúvida.
Desde a década de 1980 faço teologia feminista. De teóloga da libertação passei a ser teóloga feminista da libertação. Em termos bastante simples isto significa que acordei e fui acordada para a problemática cultural, social e religiosa das mulheres que em meio à premência das lutas libertárias contra os imperialismos e as ditaduras se organizava em muitos lugares. O nó do problema era a especial opressão vivida pelas mulheres denunciada desde a segunda metade do século XX por muitas intelectuais e grupos. Esta denúncia nunca foi seriamente acolhida pela teologia da libertação embora algumas mulheres teólogas fossem acolhidas nas reuniões organizadas pelos teólogos.
A teologia feminista na Igreja Católica constitui-se como uma espécie de heresia à dogmática tradicional. Hoje digo heresia, pois estou convencida disso. Entretanto, não uso mais essa palavra com um sentido negativo. O dogma (dokeo, do grego) é a ‘verdade que tem que ser ensinada’ e a heresia (airesis) é ‘a afirmação que discorda do dogma’, que abre brechas para a escolha, para opções, para o pensamento ditado pelas diferentes circunstancias da vida. É nesse sentido que me considero parte de uma heresia e não na linha daqueles que crêem que existe uma só verdade à qual temos que nos curvar.
Ultimamente, tenho sido de novo atropelada por pessoas e grupos que infelizmente são muito ouvidos pela maioria do episcopado brasileiro. Estes grupos acusam-me de feminista, defensora do aborto, da ideologia de gênero, contraria aos valores da família, desobediente ao Magistério, falsa religiosa etc. A acusação aparece como se eles estivessem com a verdade e do lado de Deus. Eu e outras mulheres e homens estaríamos do lado da mentira e do Diabo.
Creio que precisamos entender mais profundamente, embora de forma breve o que está acontecendo para além das emoções e julgamentos que nos habitam.
Vivemos do ponto de vista cultural, político e econômico numa grande instabilidade que não vem de hoje, embora estivéssemos sentido-a de forma mais aguda nesse momento. Todos querem explicações e acusam-se mutuamente de ser a causa dos males do mundo. É como se precisássemos de ‘bodes expiatórios’ ou ‘cabras expiatórias’ que representem a razão de nossos males. Nessa perspectiva, pergunto-me qual é o mal que representa o feminismo para os grupos que se crêem arautos da verdade ‘revelada’ por seu Deus? Qual é o mal do feminismo para o cristianismo? Para responder a essas questões é preciso dizer em grandes linhas o que tem feito o feminismo e a teologia feminista na nossa cultura.
O feminismo apesar de seus limites desvendou as injustiças sociais, políticas e legais em relação às mulheres e outros grupos. Da mesma forma a teologia feminista desvendou um processo semelhante nas estruturas e nos conteúdos teológicos vigentes por mais libertadores que queiram apresentar-se. Denunciou as estruturas androcentricas tanto na organização, nas políticas e nos conteúdos teológicos do passado e do presente. Denunciou as justificações que fazem da cultura e dos poderes de odor totalitário. Estas denúncias mudam o dogma masculino e os dogmas afirmados como ‘revelações’ de Deus. Sua pretensão epistemológica não é mais aceitável nos dias de hoje. Ela representa uma forma de totalitarismo cognitivo que passa a ser uma espécie de pedagogia de dominação religiosa do povo.
Por muito tempo as mulheres permaneceram como reféns das teorias teológicas em relação a elas, a seu corpo, ao seu poder e submissão e desde o século XIX e XX têm denunciado a cumplicidade das teologias com as políticas de submissão das mulheres. As teologias feministas inspiradas pelo feminismo e por outras leituras dos Evangelhos e da Tradição vão propor outra forma de conhecimento. Vão partir da quotidianeidade da vida, apreender os problemas diversos que se revelam e através deles entender o amor ao próximo e a nós mesmas.  Tenho refletido muito sobre isso e sido pouco compreendida pelos donos da religião de ‘mão única’.
Outro problema central que enfrentamos hoje tem a ver com as questões da sexualidade e reprodução humana ou em outros termos, com o tratamento parcial, injusto que atribuímos às diferentes orientações sexuais na sociedade e na Igreja. Tenho também refletido sobre essas questões à luz de outra interpretação da tradição cristã, talvez mais ética do que metafísica. Reflito sobre nossos corpos de mulheres que engravidam e parem muitas vezes sem escolha e são tratados como ‘objetos’ pecadores e submissos às vontades e leis masculinas. Escrevo e falo da violência que nos é feita em casa e na rua bem pouco considerada pelas igrejas cristãs. Falo da ocultação de nosso valor e da falta de representação significativa nas instancias decisórias das instituições religiosas. Insisto no pouco investimento que se faz na formação das mulheres na Igreja e da falta de respeito que se têm em relação a seu saber.
Isto tudo me leva a afirmar o fato de que na vida nem tudo pode ser rigorosamente regrado pela razão e pela religião dogmática. Os imprevistos, os escorregos, as limitações fazem parte da vida humana e nos ensinam coisas diferentes. Nessa linha não há apenas um único remédio, o oferecido pela hierarquia da Igreja e, sobretudo por uma poderosa elite política que controla a sexualidade humana. Há muitos caminhos diversos e às vezes até contraditórios que podem até ajudar a solucionar um problema ou aliviá-lo.
Tenho falado e escrito sobre todas essas coisas nas minhas aulas, conferências e textos. Reconheço que nesse sentido sou herética assim como tantas outras pessoas o foram para tentar renovar as visões do mundo. Minha postura gera tensões. Resolvi não me defender. Sigo apenas explicando minhas razões e minhas opções éticas. Com alegria percebo que há pessoas e grupos que se encontram com minha maneira feminista de refletir a vida e a história presente. Não tomo o feminismo como uma teoria perene e única verdade. O feminismo é hoje, porque nasceu de nossas necessidades... Amanhã será provavelmente outro o teor de nossas lutas.
Para além do dogma e da heresia gostaria que existisse um diálogo maior entre nós, a partir do qual pudéssemos ouvir uns aos outros e até aprender. Não sei se esse desejo é possível no contexto atual. Mas ele faz parte de minha crença na possibilidade de crescimento qualitativo dos seres humanos. E a vida continua...
Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.
É uma das principais defensoras da Teologia Feminista, irmã da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora. Aos 73 anos, tem mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática