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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

CONCEPÇÃO DO SER HUMANO NOS LIMITES DE UMA ECOLOGIA INTEGRAL





Por Leonardo Boff

Em sua encíclica sobre “o Cuidado da Casa Comum” o Papa Francisco submeteu a uma rigorosa crítica o clássico antropocentrismo de nossa cultura a partir de uma visão de uma ecologia integral, cosmocentrada, dentro da qual o ser humano comparece como parte do Todo  e da natureza. Isso nos convida a revisarmos nossa compreensão do ser humano nos limites desta ecologia integral. Cabe enfatizar que as contribuições das ciências da Terra e da vida, subjacentes ao texto papal, vem englobadas pela teoria da evolução ampliada embora não a cita explicitamente. Elas nos trouxeram visões complexas e totalizadoras, inserindo-nos como um momento do processo global, físico, químico, biológico e cultural.
Após  todos estes conhecimentos nos perguntamos, não sem certa perplexidade: quem somos, afinal enquanto humanos? Tentanto responder, vamos logo dizendo : o ser humano é uma manifestação  da Energia de Fundo, donde tudo provem (Vácuo Quântico ou Fonte Originária de todo Ser); um ser cósmico, parte de um universo, possivelmente, entre outros paralelos, articulado em onze dimensões (teoria das cordas); formado pelos mesmos  elementos físico-químicos e pelas mesmas energias que compõem todos os seres; somos habitantes de uma galáxia média, uma entre duzentas bilhões; circulando ao redor  do Sol, estrela de quinta categoria, uma entre outras trezentas bilhões, situada a 27 mil anos luz do centro da Via-Láctea, no braço interior da aspiral de Órion; morando num planeta minúsculo, a Terra, tida como um super organismo vivo que funciona como um sistema que se autoregula, chamado Gaia.
Somos um elo da corrente sagrada  da vida; um animal do ramo dos vertebrados, sexuado, da classe dos mamíferos, da ordem dos primatas, da família dos hominidas, do gênero homo, da espécie sapiens/demens; dotado de um corpo de 30 bilhões de células e 40 bilhões de batérias, continuamente renovado por um sistema genético que se formou ao largo de 3,8 bilhões de anos, a idade da vida; portador de três níveis de cérebro com cerca cem  bilhões de neurônios: o reptiliano, surgido há 300 milhões de anos, que respondes pelos movimentos instintivos, ao redor do qual se formou o cérebro límbico, responsável pela nossa afetividade, há 220 milhões de anos, e por fim, completado pelo cérebro neo-cortical, surgido há cerca de 7-8 milhões de anos, com o qual organizamos conceptualmente o mundo.
Portador da psiqué com a mesma ancestralidade do corpo, que lhe permite ser  sujeito, psiqué habitada por todo tipo de emoções e  estruturada pelo princípio do desejo, com  arquétipos ancestrais  e coroada pelo o espírito que é aquele momento da consciência pelo qual se sente parte de um Todo maior, que o faz sempre aberto ao outro e  ao infinito; capaz de intervir na natureza, e assim de fazer cultura, de criar e captar significados e valores e se indagar sobre o sentido derradeiro do Todo e da Terra, hoje em sua fase planetária, rumo à noosfera pela qual mentes e corações convergirão numa Humanidade unificada.
Ninguém melhor que Pascal (+1662) para expressar o ser complexo que somos: “Que é o ser humano na natureza? Um nada diante do infinito, e um tudo diante do nada, um elo entre o nada e o tudo, mas incapaz de ver o nada de onde é tirado e o infinito para onde é atraido”. Nele se cruzam os três infinitos: o infinitamente pequeno, o infinitamente grande e o infinitamente complexo (Chardin). Sendo isso tudo, sentimo-nos inteiros mas incompletos e ainda nascendo pois percebemo-nos cheios de virtualidades que forçam por vir à tona. Estamos sempre na pré-história de nós mesmos. E apesar disso experimentamo-nos um projeto infinito que reclama seu objeto adequado, também infinito, que costumamos chamar de Deus ou de outro nome.
E  somos destinados à morte. Custa-nos acolher a morte como parte da vida e a dramaticidade do destino humano. Pelo amor, pela arte e pela fé pressentimos que a morte não é um fim, mas uma invenção da própria vida para nos transfiguramos através dela. E suspeitamos que no balanço final das coisas, um pequeno gesto de amor verdadeiro e incondicional vale mais que toda a matéria e a energia do universo juntas. Por isso, só vale falar, crer e esperar em Deus se Ele for sentido como prolongamento do amor, na forma do infinito.
Pertence à singularidade do ser humano não apenas apreender uma Presença, Deus, perpassando todos os seres, senão entreter com ele um diálogo de amizade e de amor. Intui que Ele seja o correspondente ao infinito desejo que sente, Infinito que lhe é adequado e no qual pode repousar.
Esse  Deus não é um objeto entre outros, nem uma energia qualquer  entre outras. Se assim fosse poderia ser detectado pela ciência. E não seria o Deus da experiência oceânia que não cabe em nenhuma fórmula. Ele comparece como aquele suporte, cuja natureza é Mistério, que tudo sustenta, alimenta e mantem na existência. Sem Ele tudo voltaria ao nada ou ao Vácuo Quântico de onde irrompeu.  Ele é a força pela qual o pensamento pensa, mas que não pode ser pensada. O olho que tudo vê mas que não pode ser visto. Ele é o Mistério sempre conhecido e sempre por conhecer indefinidamente. Ele perpassa e penetra até as entranhas de cada ser humano e do inteiro universo.
Podemos pensar, meditar e interiorizar essa complexa Realidade, feita de realidades. Mas é nessa direção deve ser concebido o ser humano. Quem ele é e qual é o seu destino derradeiro se perde no Incognoscível, sempre de alguma forma cognocível, que é o espaço do Mistério de Deus ou do Deus do Mistério. Somos seres sempre sendo indefinidamente. Por isso é uma equação que nunca se fecha e que permanece sempre em aberto. Quem revelará quem somos? Ninguém nos  quadros do mundo assim como existe e de uma ecologia por mais integral que se apresente.
Leonardo Boff é articulista do JB on line filosofo e escritor


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

ESPERANÇA ABRAÂMICA



Por Frei Betto

       Diz o livro do Gênesis que Abraão – patriarca do judaísmo, cristianismo e islamismo – “esperou contra toda esperança”. A atitude retrata o que vivemos hoje no Brasil. Onde colocar a nossa esperança?

       Trocou-se um governo ruim por outro muito pior. As políticas sociais estão sendo esgarçadas. A reforma trabalhista anulou direitos conquistados nos últimos 80 anos e sucateou a força de trabalho do brasileiro. O país está à venda para o capital estrangeiro. Em pleno século XXI ainda debatemos o fim da escravidão!

       Os três poderes da República estão desgastados. O Executivo é chefiado por uma quadrilha. No Legislativo predominam corruptos e oportunistas. O Judiciário carece de credibilidade, atrela-se ao partidarismo, abre mão de suas prerrogativas, como punir parlamentares, e se enreda em suas divergências internas.

       Ah, teremos eleições ano que vem! Ora, engana-se quem deposita as suas esperanças em um avatar. Ou em um Iluminado que, do alto de seu cavalo branco, haverá de brandir a sua espada da moralidade, da ordem e do progresso, e recolocar o Brasil nos trilhos.

       Há que ser realista: o perfil do Congresso a ser eleito em 2018 não será muito diferente do atual. A bancada do B (banco, bola, bala, boi e Bíblia) é muito poderosa. Embora esteja proibido o financiamento de campanha política por empresas, o poder econômico haverá de encontrar meios para financiar os conservadores que, hoje, dominam a política brasileira.

       Se alguém lhe perguntar, estimado(a) leitor(a), em quem você votará para deputado federal e senador ano que vem, o que responderia? E para presidente da República?

       Talvez você se inclua entre aqueles que já perderam até o último fio de esperança e, portanto, pretende anular o voto ou se abster nas eleições. Direito seu. Porém, é bom lembrar que em política não há neutralidade. Quem não gosta de política é governado por quem gosta. E ao dar as costas à política você passa cheque em branco aos atuais caciques políticos.

       Nossa esperança não deve se centrar em nomes, e sim em programas. O que pretendem os candidatos a presidente? Qual o programa de governo? Vão impedir o desmatamento da Amazônia, combater o trabalho escravo e defender as reservas indígenas e quilombolas? Vão aprovar a reforma tributária com imposto progressivo, e punir rigorosamente os sonegadores? Haverão de priorizar os direitos dos pobres ou o privilégio dos ricos?

       Coloco a minha esperança no grão de mostarda. Nos movimentos sociais. Nos que lutam por terra, moradia, saneamento e direitos sociais. Nos que combatem o feminicídio, a homofobia, o racismo e o fundamentalismo religioso. Nos que defendem a igualdade de gêneros e a diversidade de crenças religiosas.

       Uma nação se muda de baixo para cima. São as raízes que sustentam a árvore. São os alicerces que mantêm a casa de pé. Nosso voto deve cair na urna como semente promissora de um futuro melhor para o Brasil. Futuro de menos desigualdade, mais justiça social, mais saúde e educação de qualidade para todos.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.

 Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português, espanhol ou inglês - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

CORPORATIVISMO DO CLERO RELIGIOSO



por Ivone Gebara

Escrevo sobre o corporativismo do clero religioso embora seja o corporativismo dos políticos quando defendem seus próprios interesses individualistas que esteja na ordem do dia. Entretanto, sobre este corporativismo os meios de comunicação têm se debruçado à exaustão e nosso estômago e razão aguentado demasiadas agressões, sobretudo diante do que o contexto atual tem nos mostrado. Além disso, muitos especialistas têm escrito análises interessantes sobre esse fenômeno que revela a inconsistência de nossas instituições políticas nas quais manipuladores atuam a céu aberto.

Hoje, nesse mesmo contexto, quero escrever sobre o corporativismo do clero, do clero religioso, aquele que se diz submisso a vontade de Deus, aquele que se acredita guardião da tradição do bem e da justiça, aquele que se auto-identifica como arauto da mensagem de Jesus e fiel à sua postura ética. A ele outros ‘religiosos’, embora sem regras e sem ordens clericais, se juntam formando a gloriosa extirpe dos leigos servidores da moral tradicional e da Igreja. Representam talvez as teologias fundamentalistaspor oposição às teologias pluralistas como escreve Boaventura Sousa Santos em seu livro “Se Deus fosse um ativista dos direitos humanos”. Cortez 2014. Acreditam, talvez sem muita reflexão, que sua religião cristã é fundada numa Revelação divina eterna. Essa Revelação contém em si toda a História e por isso, segundo eles pode julgá-la segundo seus preceitos. Impõem, excluem e perseguem de forma sutil ou agressiva todas as pessoas que pleiteiam formas plurais de expressão da mesma fé cristã. Creem-se os únicos verdadeiros anunciadores da vontade divina que segundo eles é monolítica e intervêm na sociedade pluralista impedindo que seus membros reflitam de forma crítica sobre o mundo atual que é o nosso. Tal comportamento existiu no passado, mas no presente se reveste de formas especiais de manifestação. Ao criticá-los não estou destituindo-os de seu direito de existir, mas sim da usurpação que fazem do direito dos outros de pensar e agir de forma diferente. Estou criticando sua guerra ao pluralismo constitutivo de todas as vidas e em especial da vida humana nas suas múltiplas manifestações. Estou criticando seu fechamento dentro da comunidade cristã tornada quase um gueto. Negam o simples fato de que habitamos como diferentes o mesmo mundo e este dado não pode ser eliminado sob o risco de eliminarmos forças vitais.

corporativismo clerical é de direita, de esquerda, de centro e de muitas outras tendências conforme os interesses em jogo. Reproduzem as mesmas polarizações da política miúda caracterizada pela divisão de poderes; acusam-se mutuamente de conservadores e progressistas, etiquetam-se sem conhecer a origem histórica das etiquetas que colam uns nos outros. Apresentam-se ao público como mensageiros da ‘palavra de Deus’, como obreiros do Evangelho e em posse de um verniz religioso manipulam as massas com seus discursos, ameaças e muitas vezes com suas litúrgicas apresentações artísticas. Atraem multidões para si e estas os aplaudem e os glorificam quase como semideuses. Constroem comunidades virtuais que atacam outras como se fossem torcidas organizadas violentas e destrutivas de pessoas e instituições. Incitam ao ódio como forma de defesa da fé. Tudo virtualmente em nome de Deus, mas tudo com consequências desastrosas na vida de muitas pessoas.

Influenciam o agir de autoridades políticas e religiosas que inebriadas pelo número de seus seguidores confundem a popularidade superficial com a verdade. Eximem-se da responsabilidade de pensar os novos rostos e os novos desafios que constituem a sociedade plural em que vivemos e convivemos.
Alguns dentre eles, mesmo em época de fome generalizada, usam anéis e tiaras douradas. Vivem em casas confortáveis, quase palácios. Vestem-se de púrpura e sentam-se nos primeiros lugares de mesas cheias de iguarias saborosas oferecidas por indivíduos de grande prestígio social. Têm a reputação de sábios, instruídos na excelência do saber teológico espiritual capaz de conduzir o povo que julgam incapaz de seguir seu próprio caminho sem a ajuda de seus ‘legítimos pastores’. Eles mesmos estão convencidos de sua superioridade e, embora obrigados pela falsa humildade que lhes foi ensinada, tentam aparecer como iguais diante daqueles que os ouvem e se submetem a eles.

Hoje, talvez, já não obedeçam mais de fato a um poder central, mas cada um se faz ‘poder’ à sua imagem e semelhança imaginando que obedece a uma ortodoxia da verdade. Têm blogs, páginas, faces, seguidores, televisões a seu dispor... Disputam espaços na mídia ou convidam outros para fazê-lo em seu nome. Quando criticam alguém ou algum evento, imediatamente se auto-inocentam em nome de sua responsabilidade na preservação do povo de Deus ou da tradição que dizem defender. Hipocrisia e covardia não lhes faltam apesar da simplicidade e sociabilidade que acreditam ter e manifestar.

Atacam pessoas que pensam ou se apresentam de forma diferente apontando para a diversidade do mundo de hoje e para a necessidade de repensar a tradição cristãpara esse novo tempo. Vivem atacando os outros e, sobretudo as outras em nome de sua verdade que já não resiste mais à multifacetária realidade na qual vivemos. Refiro-me especialmente a ignorância desses doutos senhores em relação ao feminismo, à teologia feminista, ao movimento de mulhereslésbicasgaystrans e etc. Refiro-me ao seu racismo escondido e à sua xenofobia disfarçada. Refiro-me à sua misoginia flagrante ou disfarçada. Refiro-me às suas críticas e à falta de percepção quase proposital do mundo em que vivemos assim como das justas reivindicações de direitos de muitos grupos. Controlam as consciências assim como os meios de comunicação o fazem sem que percebamos seu controle e sua nefasta influência.

Apelam para o respeito e agem com desrespeito. Apelam para os bons costumes e agem imaginando que apenas seus costumes são bons. Falam de um mundo mítico e ludibriam as pessoas com esperanças vãs. Falam de justiça, mas não movem uma palha para que ela aconteça.

Fazem-me lembrar do profeta Isaias embora o contexto seja outro. “Esse povo é rebelde, constituído de filhos desleais, de filhos que se recusam a ouvir a Verdade e dizem aos videntes: ‘ não queirais ver’ e aos seus profetas: ‘ Não procureis ter visões que nos revelem o que é reto’. Dizei-nos antes coisas agradáveis, procurai ter visões ilusórias. Afastai-vos do caminho, apartai-vos da vereda, fazei desaparecer da nossa presença a Santidade”. Isaias 30, 9 a 11.
Isaias continua denunciando a mentira, a fraude, a tortuosidade dos caminhos apresentados como caminhos de justiça e de Deus. De que Deus?

Mas de quem estou falando? O que estou querendo denunciar? Estou falando da má fé, da surdez, da cegueira, do dogmatismo de tantos clérigos e ‘leigos’ em relação aos fundamentos de sua fé. Quero denunciar a máfia da religião, mesmo daquela que se apresenta de forma digna e defensora dos pobres. Ela também se esconde como amante e proprietária da verdade e não é capaz de reconhecer os limites de suas afirmações. Quero especialmente denunciar a perseguição que muitas mulheres têm sofrido nas Igrejas cristãs e particularmente na Igreja Católica romana através da censura a seus trabalhos, através da proibição de sua expressão nos espaços ditos de Igreja, através da anulação de cursos e conferências de que estão sendo vítimas.

Quando um bispo ou um cardeal ou o núncio proíbem uma professora de cumprir sua responsabilidade em assessorias previamente aceitas e, sobretudo a convite de comunidades locais esses senhores apelam para que se evite o escândalo das novas idéias radicais e se mantenha a fé e os costumes. Fé de que tempos e a partir de que costumes? Não percebem a indissociabilidade de nossos corpos, de nossos gêneros, de nossas diferentes culturas e tempos. Não percebem a contradição dos poderes que dizem representar?

Na realidade me parece que essas autoridades estão no mesmo ato da proibição dos cursos e conferências declarando a comunidade cristã como incapaz, como ‘menor’ para julgar seus processos formativos. Estão declarando a comunidade cristã incapaz de discernimento e de análise do mundo em que vivem. Estão impedindo-a de escolher seus rumos mesmo que apareçam mais tarde como equivocados. Talvez essa seja a parte mais triste dessa triste história de nossa atualidade eclesial. Ou seja, a exclusão da comunidade cristã do direito de pensar, do direito de escolher, de assumir sua responsabilidade diante da vida corrente e de seus múltiplos desafios e transformações.

sistema religioso vigente apesar de algumas aberturas mantêm-se através de poderosas ‘estruturas de ordem’. A partir delas se afirmam normas, comportamentos, ensinamentos como se fossem realidades objetivas indiscutíveis. Por isso mesmo, esses senhores ‘pastores’ julgam-se donos de suas ‘ovelhas’, únicos capazes de encontrar os bons caminhos para seu ‘rebanho’, únicos capazes de orientar suas escolhas e as formas políticas que escolheram para se orientar na sociedade atual. Não estaria na hora de mudar a imagem das ovelhas submissas a um pastor e introduzir a imagem dos amigos/as que conversam juntos, que discernem e que olham para a necessidade uns dos outros?

Sem dúvida, através das autoridades religiosas, o ‘Santo Oficio’, hoje Congregação para a Doutrina da Fé, continua sub-repticiamente exercendo suas funções através de outras formas de coerção. Na maioria das vezes não há mais o decreto romano de interdição vindo diretamente do Vaticano, mas o decreto romano se faz local e se expande de forma assustadora tomando posse de lugares, de instituições, de meios de comunicação onde apenas ‘uma verdade’ pode ser transmitida e ensinada. Recusam-se ao diálogo, não querem conversar sobre as questões atuais mesmo quando são convidados por suas vítimas. Fazem ouvidos surdos a esses apelos.
Às vezes, chegam a crer que entendem de todos os assuntos a partir de sua leitura das Escrituras e de sua teologia. Controlam corpos, definem comportamentos, definem teorias, julgam a arte e a literatura, determinam mediações sociológicas e filosóficas, sem o menor diálogo com as comunidades plurais que constituem as igrejas. A discussão que reduz as questões de gênero à ideologia e a crítica ao feminismo como destruidor da família estão nessa linha. Da mesma forma a nota da Arquidiocese de Porto Alegre em relação à Exposição do Santander cultural “Queer museu” (11/9/2017) torna-se mais um exemplo do que estou querendo denunciar. Ao mesmo tempo em que falam de combater o preconceito falam do respeito às minorias. Quais preconceitos combatem? A quais minorias se referem? E qual o respeito que dedicam aos seus fiéis e não fiéis? Dizem que o ‘museu cultural queer’ é uma agressão a fé e ao corpo. Mais uma vez, qual fé e qual corpo?

Entretanto, não criticam os que são dogmáticos defensores da ordem estática. Não chamam a atenção à sua ação destrutiva, às guerrilhas que organizam pela internet para desabonar pessoas e instituições. Não impedem sua violência física e simbólica. Não proíbem e não condenam esses malvados súditos de expressarem seu ódio pelos ‘diferentes’ em meio a essa profunda confusão em que vivemos. Estes malvados não querem ouvir outras vozes, não querem conhecer outras realidades. Estão convencidos que agem segundo a ordem de Deus e que essa ordem imutável trará a salvação para todos.

Talvez muitos dirão que confundo as coisas e que há que distinguir os bons hierarcas dos grupos incontroláveis. Há que distinguir, mas nessa ‘salada’ que é a nossa tudo se confunde, sobretudo quando as autoridades religiosas não enfrentam as questões que afligem as comunidades.

Os tradicionalistas podem pensar de seu jeito e segundo sua escolha, mas não podem impor esse caminho para aquelas e aqueles que nascendo ou acolhendo uma comunidade católica como umas das referências de sua vida se vejam obrigadas/os a calar diante da pretensa hegemonia de interpretação teológica e ética que as autoridades impõem.

corporativismo clerical mantém as injustiças contra todas e todos que se sentem excluídos das formulações teológicas e políticas dos hierarcas e de seus sustentadores. O corporativismo clerical mantém a censura às novas ideias e decide o que acolhe e o que rejeita no seio das comunidades cristãs. Elas não têm voz e nem vez para se organizarem de forma diferente.

baixo clero, facilmente se defende e acusa o alto clero em relação ao que foi proibido. Mas sempre acabam se submetendo. Fazem corpo entre si e, mesmo se no corpo haja dissidências teóricas ou apenas retóricas, seu lamento muitas vezes parece falso como uma desculpa de cortesia e sem fundamento real. Mesmo pessoas as mais bem intencionadas envolvem-se nessas discussões e acabam se limitando a apoios formais que na realidade não produzem nenhum efeito de revisão e mudança no comportamento do clero e de seus cúmplices e subordinados. Não assumem sua responsabilidade pessoal na mudança. Estão sempre a jogar para o outro a responsabilidade pelo que está acontecendo e em última análise apoiam-se em Deus, pois afirmam agir segundo sua vontade ou segundo as Escrituras. Nessa linha descartam levianamente tudo o que parece ser diferente de seu conceito de injustiça social. Não percebem que a injustiça é entranhada em diferentes comportamentos humanos, até o mais cotidianos, até os mais litúrgicos, os mais domésticos. Isentam-se das chamadas responsabilidades menores aquelas que têm a ver com o mundo doméstico e de suas mantenedoras enquanto se mostram proclamadores de sua justiça social. Escolhem sua forma de justiça sem perceber a interdependência entre elas. E, é nesse ‘bom e salutar’ espírito que acabam destruindo a tradição ética dos Evangelhos e tornando o cristianismo inviável para aqueles que não se enquadram na ordem metafísica perfeita dos funcionários de Deus.

A propaganda antifeminista que encabeçam é a atração mais exuberante de concordismo em relação a uma ‘pequena tradição’ e, a meu ver, um alimento suculento entregue aos fascismos políticos de nosso tempo. Os preconceitos contra as mulheres aumentam a violência contra elas e incitam ao ódio às minorias étnicas e sexuais que constituem o chamado ‘povo brasileiro’. Um fosso se abre no interior das igrejas cristãs. Cada vez mais perdem membros oficialmente identificados à instituição. Diante do obscurantismo de seus líderes leigos ou clérigos há um notável abandono ou um recuo em relação às conquistas de um humanismo plural e respeitoso da diferença.

Não pretendo que eliminemos o pluralismo de direita, de esquerda ou de centro. Gostaria que eliminássemos as formas de exclusão e destruição de nós mesmos. Gostaria que percebêssemos que o direito à diferença é um direito vital e quanto mais o outro é diferente mais tenho que respeitá-lo e esperar que me respeitem. O respeito não é a conivência com o mal e não é também o ataque mortífero àqueles que não pensam como eu. Aceitar o paradoxo da vida, aceitar que nenhum pensamento explica todas as vidas e, além disso, como já dizia Hannah Arendt em vários textos de ‘Compreender’ (Companhia das Letras, 2008) que ‘ a realidade se apresenta diretamente ao homem como incerta, incompreensível e imprevisível’. Por isso não conseguimos resolver nossos problemas a partir dos conflitos do pensamento, das morais, dos partidos políticos. Há que desenvolver em nós um ‘coração de carne’, sensível à dor do outro, sensível a diferença do outro que me atormenta e ao mesmo tempo é condição da vida comum. Nenhuma pessoa pode se erigir em dona da verdade... Somos todos caminhantes e não há caminhos bons e verdadeiros antecipadamente. Sem nenhuma pretensão a ter razão ouso apenas pensar e propor de novo o respeito efetivo à diversidade.


Ivone Gebara é filosofa e teóloga feminista. Foi professora do Instituto de Teologia do Recife e trabalhou na formação de agentes de pastoral para o meio popular sobretudo do nordeste do Brasil. Doutora em Filosofia e Doutora em Ciências religiosas é autora de muitos livros e artigos. Vive atualmente em São Paulo e pertence à Congregação das Irmãs de Nossa Senhora.
É uma das principais defensoras da Teologia Feminista, irmã da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora. Aos 73 anos, tem mais de 30 livros publicados e dezenas de artigos sobre a temática 

terça-feira, 21 de novembro de 2017

DOS POBRES VEM A SALVAÇÃO



Por Marcelo Barros

No domingo passado, em Roma, o papa Francisco encerrou uma Semana especial de comunhão e solidariedade com os pobres para cumprir a proposta de, a cada ano, no domingo anterior à festa de Cristo Rei, todas as comunidades católicas celebrarem "o dia mundial dos pobres". Nesse ano, o tema escolhido para a reflexão foi a palavra da carta de João: "Não amemos somente com palavras...".

Mesmo dentro da Igreja, grupos tradicionalistas acusam o papa de "pauperismo", uma preocupação exagerada com os pobres que, em si, a Igreja sempre ajudou, mas não deveria fazer disso seu único discurso. Mesmo consciente dessas críticas, o papa Francisco se mantém fiel à sua opção profética de lembrar ao mundo que o único caminho para a paz é a solidariedade e a superação do egoísmo e desumanidade de uma sociedade dominante que só visa o lucro. Na sua carta sobre a alegria do evangelho, ele escreveu: "Às vezes, sentimos a tentação de ser cristãos mantendo uma distância prudente das chagas do Senhor. Jesus quer que toquemos na miséria humana, na carne sofredora das pessoas. Ele espera que renunciemos à tendência de ficar distantes dos dramas humanos. Devemos nos manter ligados à vida dos outros. Assim, conheceremos a força da ternura. Ao fazermos isso, a vida se complica, mas é maravilhoso e vivemos a experiência de ser povo" (EG 270). 
Aos cristãos que se perguntam se isso seria missão de uma comunidade cristã, o papa responde: "A Igreja é a única sociedade que existe para aqueles que não fazem parte dela". É o que ele chama de "Igreja em saída" (E G 24).

Nesses dias, o comitê internacional que prepara o próximo Fórum Social Mundial confirma: A forma de organizar o mundo a partir do Capitalismo e da competição está fracassando. A concentração da riqueza nas mãos de apenas sessenta ricos do mundo, o desemprego estrutural provocado por esse modelo de desenvolvimento e a destruição da Terra e da natureza determinam um aumento da insegurança que toma conta das cidades. Isso põe em risco o futuro do planeta e da vida sobre a terra.

No Brasil, o governo e o congresso  nos fazem retroceder às leis existentes antes da abolição da escravatura. Os meios de comunicação social repetem mentiras sobre a necessidade da reforma da previdência. As privatizações a entrega das riquezas nacionais nas mãos do Império e das empresas multinacionais se multiplicam. Diante de tudo isso, os movimentos sociais e as comunidades de base resistem insistindo: "Nenhum direito a menos". 

Mesmo sendo vítimas de uma cada vez maior escalada de violências, os povos indígenas propõem para toda a humanidade um caminho novo: reorganizar as sociedades a partir do paradigma do Bem-viver. Nos morros cariocas e nas periferias de nossas cidades, jovens formam grupos musicais de reggae e hip-hop e criam um ambiente de solidariedade e uma cultura de resistência. Mesmo em meio a riscos de vida e a um ambiente de muita violência, esses grupos alternativos revelam que o amor é possível e, mesmo depois de todos os perigos, as luzes se acendem na madrugada do mundo. Essas pessoas e seus grupos escutam ainda hoje aquilo que, conforme o evangelho, Jesus disse aos discípulos. Após lavar os seus pés, Jesus afirmou: "Vocês serão felizes se fizerdes uns com os outros isso mesmo que eu fiz a vocês: abaixar-se diante dos outros e os servir" (Cf. Jo 13, 17).

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.br