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sexta-feira, 21 de julho de 2017

A CRISE BRASILEIRA NO CONTEXTO DA NOVA GUERRA FRIA


Por Leonardo Boff


  
O problema fundamental da crise brasileira não está na corrupção que é endêmica e tolerada pelas instâncias oficiais, porque dela se beneficiam. Se fossem resgatados os milhões e milhões de reais que anualmente os grandes bancos e as empresas deixam de recolher ao INSS, tornaria supérflua uma reforma da Previdência.

O problema não é apenas Lula ou Dilma e muito menos Temer.  O centro da questão é a disputa no quadro da nova guerra-fria entre USA e China: quem vai controlar a sétima economia mundial e como alinhá-la à lógica do Império norte-americano, impedindo a penetração da China nos nossos países, especialmente no Brasil pois ela precisa manter seu crescimento com recursos que nós possuímos.

Esta estratégia começou a ser implementada com a Lava-Jato e seu juiz Sérgio Moro e a entourage de promotores, vários preparados nos USA. Prosseguiu com o impeachment da presidenta Dilma via parlamento, incorporou, setores do ministério público, da polícia federal, parte do STF e dos partidos conservadores, claramente neoliberais e ligados ao mercado.

Todas estas instâncias servem de forças auxiliares ao projeto maior do Império. Com uma vantagem: essa submissão vem ao encontro dos propósitos dos herdeiros da Casa Grande que jamais toleraram que alguém da senzala ou filho da pobreza, chegasse à Presidência e inaugurasse políticas sociais de inclusão das classes subalternas, capazes de pôr em xeque seus privilégios. Preferem estar seguros ao lado dos USA, como sócios menores, do que aceitar transformações no status quo favorável a eles.

Para os USA, o Brasil é um espaço no Atlântico Sul, a descoberto. Não pode continuar, pois consoante uma das ideias-força do Pentágono: o “full spectrum dominance”(a dominação de todo espectro territorial), o Brasil deve estar sob  controle. Daí a presença da quarta frota próxima a nossas águas territoriais e ao pré-sal. A visão imperial e belicista se expressa pelas 800 bases militares pelo mundo afora também várias na América Latina.

A China, em contrapartida, segue outra estratégia. Escolheu o caminho econômico e não o belicista. Por aí pensa ter chances de triunfar. O grande projeto da Eurásia, “O caminho da Seda” que envolve 56 países com um orçamento de ajuda ao desenvolvimento de 26 trilhões de dólares, faz com que marque sua presença também no Brasil e na América Latina.

Nesse jogo de titãs, a estratégia norte-americana conta no Brasil com fortes aliados: os que perpetraram o golpe parlamentar, jurídico e mediático contra Dilma. Estão impondo um neoliberalismo mais radical que nos países centrais. Ele implica liquidar politicamente com a liderança popular de Lula através dos vários processos movidos contra ele pelo juiz justiceiro Sergio Moro da Lava-Jato. Eles todos seguem o figurino imperial imposto. Por isso, Moro se viu obrigado a condenar Lula, mesmo sem base jurídica suficiente, como o tem revelado eminentes juristas, do quilate de Dalmo Dalari e de Fábio Konder Comparato e por outra via, o grande analista político Moniz Bandeira.

Em termos gerais, para os USA trata-se de impedir que governos progressistas cheguem ao poder com um projeto de soberania e que reforcem um novo sujeito político, vindo debaixo, das periferias, com políticas anti-sistêmicas mas que implicam a inclusão de milhões na sociedade, antes comandada por elites retrógradas, excludentes e inimigas de qualquer avanço que venha a ameaçar seus privilégios. Precisamos ter clareza: partidos com projetos claramente neoliberais, que colocam todo valor no mercado e todos os vícios no Estado que deve ser diminuído, como tem mostrado com vigor Jessé Souza e que freiam até com violência a ascensão das classes subalternas, são representantes subalternos desta estratégia imperial norte-americana e contra a China, envolvendo o Brasil nesta trama, que para nós, no fundo, é anti-povo e anti-nacional.

Às nossas oligarquias não interessa um projeto de nação soberana com um governo que com políticas sociais diminua a nefasta desigualdade social (injustiça social) e que aproveite nossas virtualidades seja da riqueza ecológica, da criatividade do povo e da posição estratégica geopoliticamente. Basta-lhes ser aliados agregados do Império norte-americano com o suporte europeu, pois assim veem garantidos seus privilégios e salvaguardada a natureza de sua acumulação absurdamente concentradora e anti-social. Daí que reeleger Lula seria a maior desgraça para o projeto imperial e aos oligopólios nacionais internacionalizados.

Essa é a real luta que se trava por debaixo das lutas político-partidárias, do combate à corrupção e à punição de corruptos e corruptores. Esta é importante, mas não acaba em si mesma. Não podemos ser ingênuos. Importa ter claro que ela se ordena ao alinhamento ao Império norte-americano de costas ao povo, negando-lhe o direito de construir o seu próprio caminho e de, com outros, dar uma feição menos malvada à planetização, impondo limites ao Grande Capital em escala mundial.


Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu”Paixão de Cristo, paixão do mundo”, Vozes 2001.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

DESIGUALDADE DE RENDA


por Frei Betto



       É alarmante a desigualdade de renda no Brasil. Dos bens declarados à Receita Federal por quem paga imposto de renda, 47% representam dinheiro investido no cassino do mercado financeiro (ações, CDBs, títulos de renda fixa, poupança etc).

       Os donos desses recursos, na linguagem do sistema financeiro, são chamados  correntistas de Private Banking.Ou seja, merecem atendimento especial nos bancos por disporem de muito dinheiro. Por exemplo, no Bradesco só entra nessa categoria quem deposita mais de R$ 5 milhões.

       Segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), no final de 2016 oPrivate Banking brasileiro tinha estocado R$ 831,6 bilhões, montante vindo de apenas 112 mil clientes ou 54,1 mil famílias. Tais clientes formam a mais poderosa elite do país.

       Graças aos juros elevados (o Banco Central manteve por 10 meses a taxa de 14,25%) e à valorização de 40% das ações na Bolsa de Valores, os investimentos dessas 112 mil pessoas físicas engordaram 11,7%.

       Já os menos ricos, aqueles que possuem menos de R$ 1 milhão, somaram 63,8 milhões de pessoas. Elas aplicaram no mercado financeiro R$ 854,7 bilhões, sendo que 62,5% das pessoas preferiram a caderneta de poupança, de pouca rentabilidade. Considerada a inflação de 6,29%, elas tiveram um ganho de apenas 3,3%.

       Enquanto o número de pequenos investidores diminuiu 4% em relação a 2015, o de grandes teve alta de 16,1%, o que comprova que a renda do brasileiro se concentra sempre mais em menos mãos.

       Desses 112 mil ricaços, apenas 0,4% aplicaram na caderneta de poupança. Os demais preferiram ativos de renda fixa (33,8%) e fundos de investimento (44,2%).

       O detalhe que chama a atenção é o fato desses 112 mil brasileiros aumentarem as suas fortunas sem contribuir para fazer crescer a capacidade produtiva do país e gerar empregos.

       Muitas aplicações financeiras são isentas de impostos ou têm a sua escala de imposto reduzida na proporção do tempo em que permanecem no banco. Aliás, os ricos da América Latina figuram entre os que menos pagam impostos no mundo. No continente, os 10% mais ricos concentram 71% da riqueza, e pagam apenas 5,4% de seus rendimentos em impostos. No Brasil, cerca de 6% (dados da Cepal)Nos EUA, o percentual é de 14,2%. No Reino Unido, 25%. Na Suécia, 30%.

       As três principais razões da injustiça fiscal na América Latina, onde os ricos pagam menos impostos que os pobres, são o tributo regressivo, a evasão fiscal e os incentivos fiscais.

       Para ter caixa e aplicar recursos, os governos recolhem impostos diretos (sobre rendimentos e imóveis citados na declaração de imposto de renda) e impostos indiretos (contidos em todo produto que consumimos).

       Os diretos são óbvios, quem ganha mais paga mais. Os indiretos, injustos, pois ricos e pobres pagam o mesmo imposto ao comprar arroz, gasolina, roupa, remédios etc.

       Embora a arrecadação de impostos tenha crescido mais de 42% nos últimos anos na América Latina (no Brasil chega a 35% do PIB, quando a média continental é de 21%...), apenas 1/3 desse volume provem de taxação sobre a renda. Os restantes 2/3 vêm do consumo. Ora, em uma sociedade justa o peso dos impostos cairia sobre a renda e o patrimônio (os mais ricos), e não sobre o consumo (os mais pobres).

       Outro fator de injustiça é a sonegação. A Cepal calcula que chegue a 320 bilhões de dólares por ano na América Latina. Graças a competentes advogados e hábeis contadores, muitas empresas e ricos conseguem escapar da mordida do Leão.

       E há os incentivos fiscais. Ou seja, uma empresa deveria pagar ao Leão o valor 10, mas entrega apenas 1, graças a deduções, isenções e exceções na lei. Os empresários alegam que, ao receberem desoneração tributária, estarão em condições de baratear seus produtos e serviços, além de poupar capital para novos investimentos.

       Um dos resultados desses três nefastos privilégios às elites é o déficit fiscal cada vez maior (os governos gastam mais do que arrecadam). Daí o ajuste fiscal imposto por Temer e cujo buraco ele espera que seja coberto, não pela adoção do imposto progressivo, e sim pelas reformas trabalhista e da Previdência. Em suma, os pobres pagarão pelos ricos.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros.
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quarta-feira, 19 de julho de 2017

”ENQUANTO ALGUNS PROTESTAM A CARAVANA PASSA…”


Por Ivone Gebara



A imagem usada pelo ‘presidente’ Temer para celebrar a aprovação pelo Senado da Reforma Trabalhista ontem foi de uma fina crueldade.  Qual é a caravana que passa? E passa onde? E passa sobre quem?

Passa sobre corpos estendidos, sobre corpos famintos e sofridos que reclamam por casa, terra, trabalho e pão. A caravana passa, massacra e mata porque os cavaleiros e os cavalos estão gordos de tanto comerem a comida do povo.

Os cavaleiros armados e com armaduras são mantidos por outros de ‘corpos sutis’ que de seus escritórios em qualquer lugar do mundo jubilam de alegria diante da vitória expressiva de Mamón. É Mamón sua divindade suprema. Por ele sacrificam vidas que nada significam para seu culto e sua glória. É Mamón que governa seu mundo.

Os políticos do governo são títeres de Mamón. São seus servos que apenas o ajudam a engordar seus cofres, suas Bolsas e dominar a terra em troca de benefícios que o fogo e as traças um dia comerão.

Não gozarão individualmente de seus roubos. A bendita morte os alcançará. Um AVC, um infarto fulminante, um tumor maligno, um desastre inesperado, uma diarreia incontrolável os eliminarão.

Mas enquanto isso não acontece imaginam-se imortais. Creem em seu poder. Corrompem-se mutuamente para gozar num instante breve das deliciosas iguarias recebidas pela glorificação de Mamón. Já recebem seus prêmios agora enquanto o povo ‘lazarento’ come migalhas caídas de suas mesas. Falam de humanidade e de respeito na medida em que estas palavras lhes servem. As banalizam para aparecer como cidadãos justos e dignos. Enganam os incautos e os que já não têm mais forças para entender o que está acontecendo no país e no mundo.

As bravas senadoras da oposição mantiveram a fibra das mulheres fortes defensoras do povo até o fim.  Sentadas à mesa da presidência do Senado durante seis horas além das que gritavam e apoiavam-nas de seus lugares, tudo fizeram para impedir a ‘caravana’ de passar. Último recurso, talvez, mas um recurso digno que ficará na história política do país como o grito daquelas e daqueles que não podem dobrar-se e negociar o inegociável. O inegociável é a piora das condições de vida do povo brasileiro, ou melhor, da maior parte do povo.

Parabéns Fátima, Gleise, Vanessa, Regina, Lídice e tantas outras como Erundina, Benedita, Katia que bravamente com outros oposicionistas gritaram por justiça expondo-se à caravana loucamente desenfreada. E ainda assim, as senadoras foram acusadas por jornalistas e políticos de não agirem por força própria, mas por manipulações masculinas de fora. Incrível ousadia de querer virar o jogo desprestigiando a força das mulheres! E não só isto, foram também acusadas de perturbadoras da ordem do honrado Senado federal, algo nunca visto antes. Como se a mentira dos senadores fosse a ordem e a denúncia da mentira pelas mulheres fosse a desordem.

Mais uma vez confundem o povo com seus discursos sobre a ordem, sobre a lei, sobre a necessidade de modernização, sobre um bem que querem dar ao povo. Um ‘bem’ sem que o povo o escolha!

Insistem em dizer que as leis da CLT foram inspiradas por Mussolini e escritas e aprovadas por Getúlio, um ditador. Quando lhes serve, Getúlio é santo do povo e quando não, é ditador. Camaleões da república colorindo-se conforme seus interesses! Insensatos que não distinguem o bem comum do individualismo que os caracteriza!

Para que povo governam eles? Qual é a democracia que se sustenta fora dos apelos e necessidades reais do povo?

Aqui está a chave do problema. É que imaginamos estar numa democracia, mas estamos apenas nominalmente, apenas retoricamente,  apenas para encher a boca com essa palavra esvaziada de seu sentido original. Não há democracia por aqui! O que há é algo sem nome, algo confuso parecido com uma oligarquia, uma gerontocracia ou, como disseram alguns, uma corruptocracia. Tudo pela e para a Bolsa, nada para os pobres!

Estamos todas e todos misturados nessa massa pegajosa sem saber como sair dela, como limpar nossas mãos e nosso corpo de sua aderência incômoda. Não temos ainda a água pura que possa nos ajudar a limpar as mãos, o corpo, as mentes e o coração. O ar poluído desse momento nos sufoca. Tudo está alterado e em ebulição como se estivéssemos num dilúvio de proporções nacionais e mundiais. Ainda não avistamos terra firme. Ainda não dá para mandar nossos pássaros para ver se há algum ramo verde para além do dilúvio. Mas dá para esperar que de repente um ramo verde possa aparecer e nutrir a esperança da reconstrução de nosso país. Dá para algumas e alguns darem-se as mãos e pensar em caminhos alternativos.

Parabéns bravas mulheres!

Vocês nos fazem lembrar as mulheres rurais de Chipko do Himalaia que não tiveram outro recurso para salvar seus bosques senão abraçar-se às árvores quando estas iam ser cortadas. Vocês nos fizeram pensar nas sufragistas que expuseram seus corpos às muitas manifestações para terem o direito ao voto. Vocês nos fizeram pensar nas mulheres sem terra e sem teto que continuam lutando nesse país de cabeça erguida.

Parabéns senadoras!

Vocês são o ramo verde, ainda que apenas um broto de pequenas proporções que nos fazem esperar e crer num Brasil onde todas e todos possam caber com dignidade.  Reconhecendo nossos limites pessoais e institucionais e dentro dessa massa pegajosa na qual todas e todos estamos, continuaremos dizendo Não a esta insana e corrupta ‘caravana’!

Parabéns a nós todas e todos que mantemos nossas lâmpadas acesas em meio à obscuridade de nosso tempo!


Ivone Gebara é filósofa, religiosa e teóloga. Ela lecionou durante quase 17 anos no Instituto Teológico do Recife – ITER. Dedica-se a escrever e a ministrar cursos e palestras, em diversos países do mundo, sobre hermenêuticas feministas, novas referências éticas e antropológicas e os fundamentos filosóficos e teológicos do discurso religioso. Entre suas obras publicadas estão Compartilhar os pães e os peixes, O cristianismo, a teologia e teologia feminista (2008), O que é Cristianismo (2008), O que é Teologia Feminista (2007), As águas do meu poço. Reflexões sobre experiências de liberdade (2005), entre outras.

terça-feira, 18 de julho de 2017

O SEQUESTRO DE DEUS


Por Marcelo Barros


Quem acompanha a crise social e política brasileira, assim como a realidade social de países que se dizem cristãos, podem perceber que Deus tem sido sequestrado por um grupo sem escrúpulos. Há séculos, religiosos usam o nome divino a seu bel prazer e testemunham ao mundo um Deus cruel e contrário à imagem do Pai amoroso e solidário que Jesus testemunhou e com o qual a maioria das tradições religiosas concorda. O nome de Deus serviu para legitimar cruzadas, inquisições, guerras santas e conquistas violentas. Nos anos 60, Dom Helder Camara se lamentava de que os países ricos mais responsáveis pelas desigualdades sociais do mundo se dizem cristãos. Bancos escrevem na parede o nome de Deus. Impérios imprimem em suas células de dinheiro: Nós confiamos em Deus". A um jovem que lhe disse: "Sou ateu", o bispo Pedro Casaldáliga perguntou: "De qual Deus você é ateu?". Isso nos faz compreender o cineasta Woody Allen quando afirma: "Deus deve ser um cara bom, mas parece dominado por amigos pouco recomendáveis".
Nas últimas décadas, pessoas de diversas tradições espirituais têm se consagrado a libertar Deus dessas prisões que desfiguram o seu nome e a sua honra. Não podemos mais aceitar ver o nome de Deus associado à perversidade do desamor. Um dos aspectos mais tristes da atual crise brasileira é o papel que parlamentares e hierarcas cristãos nela desempenham. É possível compreender que proprietários de grandes empresas sejam favoráveis a leis que diminuam direitos dos trabalhadores pobres e já explorados. Não podemos nos espantar se impérios patrocinam golpes de Estado para garantir a manutenção da sua dominação sobre países periféricos. Não é anormal que a embaixada norte-americana pague brasileiros ambiciosos e sem ética, capazes de, no congresso e no governo, servir aos interesses de seus patrões. No entanto, é difícil explicar a lógica pela qual parlamentares que se dizem evangélicos aprovam em bloco a reforma trabalhista que viola direitos dos pobres como a aposentadoria e torna o país ainda mais desigual e injusto. Isso pode parecer coerente com grupos  que creem: Jesus é o caminho, mas o pastor da nossa Igreja é o pedágio. Mas, como explicar que até alguns cardeais católicos foram vistos no palácio a visitar o presidente? Como entender que bispos que se dizem pastores se mostram insensíveis ao sofrimento dos mais pobres, atingidos pela medida que congela gastos sociais por 20 anos e massacrados por tantas outras  medidas desse governo surreal? Diante disso, cristãos e não cristãos podem duvidar que eles pertençam à mesma Igreja do papa Francisco que se solidariza com sindicatos e movimentos sociais. No entanto, junto a esses hierarcas, há grupos cristãos na contramão do evangelho, no qual Jesus afirma: "Quero a misericórdia e não o sacrifício, ou seja, a religião cultual" (Mt 9, 13).
No século VI, o papa Gregório Magno escrevia: "Existem dois tipos de idolatria. Uma é adorar deuses falsos. O outro é corromper a imagem do Deus verdadeiro e adorar o Deus Vivo de uma maneira falsa. Adora-se a Deus de forma falsa quando a adoração não é baseada na prática da justiça e da solidariedade".   
Durante a segunda guerra, em um campo de concentração nazista, Etty Hillesum, jovem judia de 27 anos, escrevia em seu diário: "Aqui nessa realidade terrível, descubro dentro de mim um poço muito profundo. Deus está no fundo desse poço. Quero chegar até ele. No entanto, percebo que para isso, preciso cavar e retirar muito lixo acumulado (lixo depositado pela própria religião). Só após retirar muito entulho, consigo acessar esse Deus que está no mais profundo do meu ser. Então, lhe direi: Meu Deus, nessa situação em que estamos aqui, sei que você não pode nos ajudar. Se alguém pode ajudar o outro, serei eu que tenho de ajudar você, que está sendo julgado mal. Eu é que tenho de ajudá-lo a não ser visto como culpado ou envolvido de alguma forma nessa iniquidade que sofremos".
Na realidade atual brasileira, o nome de Deus tem sido vilipendiado. Na noite da votação do impedimento da presidente na Câmara, vários deputados foram votar com a Bíblia na mão e gritaram que votavam em nome de Deus. Posteriormente, a imprensa noticiou que, em Nova York, quando foi à reunião da ONU o próprio Temer declarou publicamente que a decisão de derrubar a presidenta teve como objetivo possibilitar a aprovação das reformas econômicas desejadas pela elite. Nesse ano, a cada votação do Congresso, a bancada que usa o nome de Deus o faz contra o povo e contra a justiça. Da parte das Igrejas cristãs, só uma minoria de bispos e pastores (menos de um terço do episcopado católico do país) têm se pronunciado do lado dos pobres e dos seus direitos. Deus precisa ter seu nome resgatado da lama em que foi jogado. Está na hora em que cada pessoa de fé é chamada a ligar a sua espiritualidade ao compromisso de solidariedade social. É preciso que pessoas de Deus, de qualquer religião e quem busca uma espiritualidade e ética de amor, se unam aos movimentos sociais, para que não prevaleça o consenso dos maus. Que, no Brasil, se possa de novo acreditar na palavra que Deus afirmou através do profeta Miquéias: "Já te disse o que quero de ti: é só que ponhas em prática a justiça, vivas a solidariedade e caminhes na presença de Deus" (Mq 6, 8).  

     Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.