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terça-feira, 20 de junho de 2017

A FESTA NO MEIO DA LUTA

Por Marcelo Barros


Alguém que viesse de outro planeta poderia se espantar com o povo brasileiro. Em meio a todos os problemas sociais e políticos do país, em várias regiões, o povo se entrega às alegrias das festas juninas.

Evidentemente, as festas populares podem ser expressões de mera alienação social e política. Através delas, as pessoas esquecem, ao menos por instantes, as lutas cotidianas da vida. No entanto, podem também servir de ensaio para uma mais eficiente organização popular. Assim, revelam uma resistência cultural que os meios de comunicação não conseguem vencer.

Na Bolívia, Peru e Equador, na noite do 24 de junho ou nos dias próximos, os índios festejam o Inti-Rami, festa do Sol, celebração principal do ano novo andino. É o correspondente aos festejos juninos do Brasil. Algumas dessas danças tiveram sua origem em cortes da Europa. Hoje, as pessoas se vestem como gente da roça, mas executam danças da nobreza de outros séculos. Em brincadeiras como casamentos caipiras, figuras como padres e juízes da roça são caricaturadas, porque só se interessam por dinheiro e poder. 

Essas críticas revelam o modo como as camadas mais empobrecidas do povo podem expressar sua crítica e seu protesto social. Até os santos são envolvidos no clima de festa. Santo Antônio é considerado santo casamenteiro. São João Batista é uma criança que vem brincar nas fogueiras do povo e São Pedro se torna companheiro de festas. O povo liga os santos às realidades da vida cotidiana.  


O caráter lúdico da crítica popular, latente nas brincadeiras juninas pode ser ensaio de uma sociedade nova na qual todos são protagonistas. Assim, na alegria e de forma despretensiosa, grupos e comunidades populares sinalizam uma realidade nova que se aproxima ao que os evangelhos chamam de reinado de Deus. Do seu modo e em sua expressão laical, essas festas trazem alegria e criam certa unidade nas comunidades. Parecem cumprir a palavra do mensageiro de Deus no evangelho que, ao anunciar o nascimento do profeta João Batista, prometeu: "Por seu nascimento, muitos se alegrarão" (Lc 1, 14). Ao criticar a sociedade dominante e expressar uma palavra dos pobres, as festas juninas expressam a verdade que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque a realização do projeto de Deus no mundo está próximo!” (Mt 3, 2). 

 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

QUANDO A AMIZADE CHEGA TARDE

 Maria Clara Lucchetti Bingemer



            A amizade é uma das formas mais nobres de amor.  Já o grande filósofo Aristóteles, na Grécia Antiga, a definia como  "uma forma de excelência moral" ou "concomitante com a excelência moral", "extremamente necessária à vida".  E prosseguia:  "De fato, ninguém deseja viver sem amigos, mesmo dispondo de todos os outros bens".

            Em seu livroÉtica a Nicomaco, o Estagirita disserta sobre a amizade:  "Com efeito, a amizade é uma parceria, e uma pessoa está em relação a si própria da mesma forma que em relação ao amigo; em seu próprio caso, a consciência de sua existência é um bem, e, portanto, a consciência da existência de seu amigo também o é, e a atuação desta conscientização se manifesta quando eles convivem; é, portanto, natural que eles desejem conviver. E qualquer que seja a significação da existência para as pessoas e seja qual for o fator que torna a sua vida digna de ser vivida, elas desejam compartilhar a existência de seus amigos; sendo assim, alguns amigos bebem juntos, outros jogam dados juntos, outros se juntam para os exercícios do atletismo ou para a caça, ou para o estudo da filosofia, passando seus dias juntos na atividade que mais apreciam na vida, seja ela qual for; de fato, já que os amigos desejam conviver, eles fazem e compartilham as coisas que lhes dão a sensação de convivência".

            Os amigos de Carlos Eduardo Albuquerque Maranhão, o Sarda, o Cadu, desejavam com ele conviver como faziam no tempo em que eram alunos do Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro.  Naquele tempo, todos admiravam o colega rebelde, de cabelos longos, luminosa inteligência e grande sensibilidade artística.  Diferente, Cadu contestava a disciplina, as diretrizes do colégio, mas era alguém alegre, do bem, querido e com muitos amigos entre os colegas.

            Essa convivência um dia foi interrompida quando o Sarda tropeçou com as drogas em seu caminho.  Aliás, esse fantasma disfarçado de amigo aparece e assombra muito pessoas de grande sensibilidade, que buscam seu lugar no mundo com mais trabalho que os outros. E Cadu, ou Sarda, ou Carlos Eduardo cedeu às seduções das substâncias que o faziam viajar e certamente nos primeiros tempos lhe proporcionavam euforia, gostosas sensações; que lhe aguçavam a inteligência e aumentavam ainda mais a sensibilidade e o gosto musical. A morte do melhor amigo contribuiu certamente para que a “viagem” do querido colega e companheiro de tantos se aprofundasse em mergulho sem volta que foi acabar na Cracolândia, em São Paulo.

            Ali ele foi encontrado, muitos anos depois, pelos amigos que nunca o esqueceram.  Ao verem sua foto no jornal, em meio ao reboliço da polícia que invadia o local, retirando dali os habitantes, os que nunca haviam esquecido Carlos Eduardo foram à sua procura.  Pois amigo não esquece.  Pode ficar longe no tempo e no espaço, mas quando recebe um alerta, a amizade reemerge, volta e sai no encalço do amigo para encontrá-lo, abraçá-lo e retomar a convivência.  Igualmente para ajudá-lo se necessário.

            E Sarda estava em situação de extrema necessidade.  Chegara a um grau perigoso de uso de drogas.  Sua saúde se encontrava seriamente debilitada.  Perdera peso, dentes.  Só não perdera a sabedoria e a alegria que o levavam a fazer declarações extremamente articuladas sobre a ação da prefeitura na Cracolândia e outras coisas mais. Foi encontrado pelos amigos, que o atenderam no mais urgente e imediato: deram-lhe banho, roupas, alimento.  Buscaram uma clínica para interná-lo, a fim de quí se tratasse e tornasse a ser livre. Abriram uma lista de doações para custear-lhe o tratamento, caro e dispendioso, em uma clínica especializada. 

            Sarda estava alegre, feliz com o reencontro.  A mídia publicou suas fotos e tudo levava a esperar por um final feliz.  Ele queria tratar-se, desejava libertar-se do vício.  E os amigos se desvelavam e punham à disposição tudo que podiam para ajudar a que esse desfecho acontecesse. No entanto, a morte se antecipou e colheu Sarda pelo coração.  Aquele coração sensível, enfraquecido ao máximo pelo uso contínuo de substâncias químicas, parou de bater poucos dias após o ingresso na clínica.

            A amizade chegou tarde e não conseguiu arrancar Sarda ou Cadu das garras dessa que é a inevitável companheira de todo viciado.  Mas – e isso é talvez o mais importante – alegrou seus últimos dias de uma maneira que apenas a relação gratuita e amorosa consegue fazer.  Sarda se sentiu acompanhado, querido, amado.  Voltou a ver que era importante para outras pessoas, que sua vida tinha valor e sentido para aqueles que com ele cresceram e se formaram nos bancos escolares, nos recreios, nas conversas intermináveis, nos passeios a pé de volta do colégio. 

            A tristeza e a frustração dos amigos foram pungentes.  Agora que ele estava começando a viver, como aconteceu isso que ceifou seu projeto tão brutalmente?  Agora que o tinham reencontrado era muito cruel perdê-lo novamente. No entanto, que os acompanhe novamente o grande Aristóteles, que diz: "Quando as pessoas são amigas não têm necessidade de justiça, enquanto mesmo quando são justas necessitam da amizade". 

            Esse grupo que se dispôs a ajudar o colega em situação de rua e de vício com o mesmo carinho dos anos da infância e da adolescência experimentou a graça da amizade que independe do êxito das iniciativas e ultrapassa as maiores frustrações.  Foi bom experimentar que é possível amar alguém profundamente mesmo quando ele ou ela não tem absolutamente nada para dar em troca.  É bom sentir a gratuidade da relação que sempre os ligará a Sarda/Cadu, para além dos limites da vida e da morte. 

            Sarda descansa em paz.  Sem crises de abstinência, angústia, fissura ou outros incômodos e distúrbios provocados pela droga.  A seus amigos fica a saudade, temperada por aquilo que o grande Jorge Luis Borges chamou de vício: a amizade que não pode não amar, não ajudar, não conviver, não se relacionar.  A amizade que dispensa até a justiça, pois pertence à ordem da graça e da gratuidade.  Bendito Sarda, que do fundo do poço onde caiu ainda pôde ensinar tudo isso a seus colegas e amigos que agora se sentem mais unidos graças à sua passagem tardia e efêmera em meio a eles. 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quinta-feira, 15 de junho de 2017

FRANÇOIS HOUTART E MIGUEL D’ESCOTO, SERVOS DOS OPRIMIDOS


Por Frei Betto



       François Houtart transvivenciou no último 6 de junho, no Equador. Tinha 92 anos, e o entusiasmo revolucionário de um jovem de 20. Nosso último encontro foi em março deste ano de 2017, quando fiz uma série de palestras em Quito a convite do presidente Rafael Correa. François me acompanhou todo o tempo. Fomos juntos a Pucahuaico, onde se encontra enterrado o corpo de monsenhor Leônidas Proaño, bispo indígena identificado com a Teologia da Libertação. A capela, aos pés do vulcão Imbabura, estava repleta de índios e gente do povo. Houtart presidiu a celebração eucarística.

No dia seguinte, Rafael Correa nos ofereceu um almoço. Havia sido aluno de François em Lovania, Bélgica, onde durante anos Houtart formou, em Sociologia e Ciências da Religião, alunos oriundos da periferia do mundo, entre os quais o colombiano Camilo Torres e o brasileiro Pedro Ribeiro de Oliveira, que nos relata:

       “Em 1975, voltei à Bélgica para iniciar o doutorado. A primeira reunião de trabalho com Houtart, meu orientador, desmontou tudo que eu tinha preparado para a tese sobre catolicismo popular. Disse que ela era insuficiente, porque não trazia uma explicação sociológica. Para aumentar meu espanto, acrescentou: ‘Como você não deve ignorar, só a teoria marxista é realmente explicativa. As outras são apenas descritivas.’ Saí dali atordoado, sem entender como um padre, que havia sido perito no Concílio, tendo colaborado até na redação da Gaudium et Spes, havia se tornado marxista sem deixar a Igreja. Aos poucos fui entendendo: ele fazia oposição ativa à guerra dos EUA contra o Vietnam, e foi assim que descobriu, na teoria da luta de classes, um instrumento teórico capaz de elucidar o que estava em jogo naquela guerra, nos movimentos anticolonialistas da África e da Ásia, e nas ditaduras latino-americanas. O melhor é que me convenceu de uma vez por todas. Na última vez em que participamos juntos de um congresso de Sociologia da Religião, éramos os únicos sociólogos a usar o instrumental marxista para explicar fatos religiosos. Brinquei com ele, pedindo que demorasse bastante a morrer, para eu não ficar sozinho usando Marx para entender a religião...”

       François era alto, tinha os olhos muito claros e sorria com facilidade, mesmo ao manifestar, no Fórum Social Mundial de Porto Alegre, em 2005, pertinentes críticas ao governo brasileiro na presença do presidente Lula. De fala pausada, seu raciocínio científico era didático, pois abandonara a Europa para viver na América Latina e se dedicar aos movimentos sociais de países de nosso continente, da África e da Ásia. Em 2016, assessorou o congresso nacional do MST, em Brasília.

       Convivemos em várias ocasiões ao participar de eventos no Brasil, em Cuba, na Nicarágua e na Bolívia. Eu sempre me perguntava como um homem acima dos 80 anos encontrava tanto ânimo para viajar mundo afora, muitas vezes carregando uma pesada mala com livros de sua autoria, sem jamais se queixar de se hospedar em uma tenda indígena no alto dos Andes, em um assentamento do MST no Brasil ou em uma cabana de plantadores de arroz no Vietnam.

       Em seus anos de estudo em Roma, François teve como colega um jovem chamado Karol Wojtyla. Contou-me que o seminarista polonês tinha obsessão por aprender idiomas. Aproveitava as férias para se deslocar para as regiões da Europa nas quais lhe fosse ensinada uma nova língua. Certa ocasião, acompanhou Houtart até a Bélgica, interessado em aprimorar seu francês e conhecer o flamengo.

Uma noite, Wojtyla retornou à casa sob forte chuva. Seus sapatos poloneses haviam sido arruinados pela água. François encontrou um seminarista belga que, por calçar o mesmo número do polonês, pode lhe ceder um novo par. Décadas depois, já sacerdote, o doador dos sapatos quis ser recebido pelo papa João Paulo II. A burocracia alegou falta de agenda. Ao encaminhar uma nota ao pontífice, recordando os sapatos, as portas do Vaticano se abriram.
Em 2016, Houtart me convidou ao Equador para um seminário sobre a encíclica socioambiental Louvado Sejas, do papa Francisco. Do trabalho conjunto naqueles dias resultou a publicação, assinada por nós dois, Laudato Si - Cambio Climático y Sistema Económico (Quito, Centro de Publicaciones, Pontifícia Universidad Católica del Ecuador, 2016).

Na viagem que, em março último, fizemos à região andina do Equador, François me narrou sua participação, aos 15 anos, na resistência contra a ocupação nazista na Bélgica. Ele e um amigo decidiram fabricar uma bomba caseira para descarrilar um trem de soldados de Hitler. Não tiveram êxito e o atentado lhe valeu um puxão de orelhas da mãe. Contou-me ainda que tinha mais de dez irmãos. Há uma década, com todos vivos, se reuniram para comemorar os 1.000 anos da soma de suas idades.

      Na visita de João Paulo II a Cuba, em janeiro de 1998, Fidel convidou Houtart para assessorá-lo, em companhia de Pedro Ribeiro de Oliveira, do teólogo italiano Giulio Girardi e de mim. Foram dias de intenso trabalho comunitário.

Formação operária

      Em 2016, François me remeteu um interessante relato sobre a sua formação, que aqui transcrevo em espanhol:
       “Durante mis años de seminário en Malines (Bélgica), participaba en numerosas reuniones de la JOC (Juventud Obrera Católica) en Valonia y en Bruselas, durante las vacaciones. Ahí fue donde descubrí  la situación de la clase obrera de esa época (1944-1949). Justo después de la postguerra, el esfuerzo de reconstrucción de Europa estuvo acompañado por una sobre explotación del trabajo, y las condiciones sociales de los jóvenes eran particularmente escandalosas.”

“Los congresos de la JOC regionales y nacionales permitían informarse sobre el marco más general de la situación económica y social. Además, pude visitar diferentes fábricas y minas de carbón. La JOC belga me puso en contacto con el movimiento en Francia, en los Países Bajos, en Inglaterra, en Alemania, en España, y poco a poco la dimensión internacional se convirtió también en una parte importante de mi introducción en el mundo del trabajo.”

“En numerosas ocasiones, me entrevisté con Monseñor Cardijn (fundador de la JOC) y estuve muy impresionado por su combatividad, su insistencia sobre la incompatibilidad entre la injusticia social y la fe Cristiana, y sobre su conocimiento de la vida de los jóvenes trabajadores. Descubrí también el método pedagógico, el no partir de arriba imponiendo un saber, sino de abajo, descubriendo la realidad: ver, juzgar, actuar.”

“Esta experiencia me incitó a pedir, después de mi ordenación sacerdotal, iniciar estudios de Ciencias Sociales y Políticas en la Universidad Católica de Lovaina. Me pasé 3 años ahí, quedándome en permanente contacto con la JOC, siguiendo ciertas secciones, viajando por Europa para encuentros con el movimiento. Mi tesis de licenciatura estuvo dedicada al estudio de las estructuras pastorales de Bruselas, habiendo descubierto, por una parte, su ausencia en los medios obreros, y por otra la identificación de la cultura religiosa cristiana con la cultura burguesa, creando un divorcio con la clase obrera y, particularmente, los jóvenes.”

“Durante el último año de mis estudios en Lovaina, fui el capellán del Hogar de los Jóvenes Trabajadores en Bruselas, un servicio de la JOC para los jóvenes que habían estado confrontados a la Justicia de la Juventud.”

“En el plan europeo, es en Francia donde tuve más contactos, particularmente en la región parisina: St Denis y otros suburbios. Me hice amigo de algunos sacerdotes obreros, e incluso me quedaba a vivir en sus casas.”

“Después de conseguir una beca por estudios para la Universidad de Chicago (1952-1953), con el fin de continuar la Sociología Urbana y la Sociología de la Religión, residí en una parroquia donde trabajaba al capellán de la JOC de la ciudad. Fue también la ocasión de bastantes encuentros con la JOC de los Estados Unidos. Durante las vacaciones de Pascua de 1953, fui a La Habana para asistir a un Congreso de la JOC de América Central y del Caribe, donde estuvo presente Cardijn. Pude tener reuniones con secciones locales y entrevistarme con el  capellán nacional de Cuba. Esto me metió en la problemática latinoamericana, que deseaba conocer desde hacía tiempo. Después del congreso acompañé al capellán de la JOC de Haití a Puerto Príncipe, y me pasé una semana en el país en visitas y reuniones con el movimiento haitiano.”

“Luego di clases durante un semestre en la Universidad de Montreal, y también participé en actividades del movimiento. De ahí me trasladé de nuevo a América Latina y durante 6 meses recorrí casi todos los países, desde México hasta Argentina, siempre con la JOC, gracias a los contactos conseguidos durante los congresos internacionales. Fue una gran escuela el descubrir el continente desde abajo. Una vez más, descubrí los abismos entre los ricos y los pobres y la explotación increíble de los jóvenes urbanos y rurales. Fui golpeado por el papel de los sacerdotes  apegados al movimiento en la renovación de una Iglesia tan alejada del pueblo y tan próxima a las élites y oligarquías sociales. Eran activos en todos los campos: social, litúrgico, pastoral, bíblico. Una gran parte de estos sacerdotes pertenecían a las órdenes religiosas y bastante de ellos habían estudiado en Europa.”

“Este contacto con América Latina fue el que me hizo iniciar, en 1958, un estudio socio-religioso sobre el conjunto del continente, con equipos en cada país, varias veces con miembros de la JOC. Se terminó en 1962 y fue publicado en unos cuarenta volúmenes, lo que llevó al Consejo Episcopal Latinoamericano pedirme una síntesis en tres lenguas para distribuir en la entrada del Concilio Vaticano II al conjunto de los obispos y a acompañarle comoperitus durante los 4 años del trabajo conciliar.”

“El cardenal Cardijn me había pedido entre tanto si aceptaría ser el capellán internacional del movimiento, lo que evidentemente me interesaba mucho, pero mi obispo, el cardenal Van Roey no aprobó esta idea.”

“Después, habiendo trabajado en Asia, durante las vacaciones de la Universidad de Lovaina, donde impartía Sociología de la Religión, me puse en contacto también con la JOC en Sri Lanka, en la India, en Vietnam, en Corea del Sur, en Filipinas. Con mi colega, Geneviève Lemercinier, nos hicimos cargo de un seminario de formación para el análisis social para los militantes de la JOC de Hong Kong. En África del Sur, en pleno apartheid, participé durante 3 días en una reunión nacional con jóvenes trabajadores blancos, negros y mestizos, lo cual en principio estaba prohibido, en un convento de los Padres Oblatos, en Bloemfontein.”

“En cualquier parte, de América Latina, Ásia y África, me he reunido en los años siguientes con antiguos miembros de la JOC, tanto en los sindicatos, como en las ONG de desarrollo, o en el seno de partidos políticos progresistas y también revolucionários, como en Nicarágua o en Bolívia.”

“Las enseñanzas que sacado de la JOC han sido numerosas y fundamentales. En primer lugar, fue el conocimiento del mundo obrero, de sus luchas, de sus organizaciones. Después, fue el método: ver, juzgar, actuar, que da un marco de reflexión muy eficaz para el análisis de las realidades y para la puesta en marcha de una acción que les sea adaptada. Si estudié Sociología y si continué constantemente el trabajo de investigación, era para afinar el "ver" en sociedades muy diferentes y complejas. Esto también me permitió descubrir que se podía leer la sociedad desde arriba, pero también desde abajo, y que la opción del Evangelio era leer el mundo con los ojos de los pobres y de los oprimidos. No existe una ciencia neutra, sobre todo en el marco de las ciencias humanas.”

“La pedagogía de la JOC y su adaptación a un medio específico de jóvenes trabajadores, a menudo a duras penas alfabetizados, me ha enseñado a utilizar un lenguaje sencillo, a estructurar correctamente el raciocinio para que sea comprendido, en una palabra a bajarse del pedestal académico y también de aprender de los que tienen un saber práctico a menudo despreciado por el saber llamado "sabio".”
“Por fin, es también la JOC que me ha llevado a profundizar la dimensión social del Evangelio, y a comprender que lo que pide el Señor es el amor eficaz. No se trata únicamente de una actitud personal, sino que este amor implica la construcción de una sociedad justa y de seguir el ejemplo de Jesús en su sociedad, donde anunció los valores del Reino de Dios, el amor al prójimo, la justicia, la igualdad, la misericordia, la paz, y combatió todos los poderes opresores, económicos, sociales, políticos e incluso religiosos. No en vano murió (ejecutado) sobre la cruz.” (Quito, 01.03.16)

A transvivenciação

Nidia Arrobo Rodas, que trabalhava com François na Fundação Povo Indígena do Equador, relata os últimos momentos dele:
“Nuestro querido François se fue como vivió, con una serenidad total, entero, lúcido, diáfano, de pie.... En la víspera, luego de un Acto de Denúncia en el IAEN (Instituto de Altos Estudios Nacionales) sobre el genocídio Tamil, cenamos como de costumbre la "sopita" que tanto le gustaba y para él era imprescindible al caer la tarde tomarla en comunión en nuestra mini residencia y, como de costumbre, se fue a dormir... Claro que en su habitación siguió trabajando... No sabemos hasta que hora... Porque hasta las once de la noche aún recibimos sus emails.”
 “Al amanecer, intuimos que se ha levantado para ir a la ducha y las fuerzas le faltaron... Se ha puesto la salida de cama, se ha sentado en su sillón relax muy próximo a su cama, y con su mano en el corazón se quedó durmiendo el sueño más profundo de su vida, muy  plácidamente, sin hacer ningún ruido, muy calladito..  Un infarto masivo... A las siete y media de la mañana... se despertó en Dios.”
“Precisamente en el mes de abril fuimos al cardiólogo, a instancias mias, porque sentía que se agitaba mucho y como que le faltaba el occígeno... El cardiólogo le pidió hacerse una cirugía de la arteria del corazón, pues se había estrechado, y el marca pasos ya no respondía como hace cuatro años que se lo puso. Le dije: François, la cirugía es inminente... El optó por hacercela en Bélgica por sugerencia del mismo cardiólogo... Pero por más que le insistia, no tomó la decisión de viajar enseguida: ‘Tengo muchos compromisos, tengo que terminar la cátedra Houtart en el mes de junio y me voy’ me dijo. De nuevo le dije que era mucho tiempo de espera... Pero él era dueño absoluto de su voluntad y de sus decisiones... Optó por terminar aquí todo lo previsto y viajar en junio a  Bélgica para su cirugía, que deportivamente decía, es algo muy pequeño.”

“Con esto, tenía pasajes comprados y maletas listas, para viajar ayer (9 de junio), pero primero a Bogotá, luego una semana en Cuba, luego una semana en Brasil y llegar a finales de junio a su Bélgica...”

 “Yo sabía que él libremente optó por vivir con nosotros, se sentía feliz, vivió feliz... y pienso que en el fondo de su corazón quizó terminar aquí mismo sus días.”

 “La última celebración tuvo lugar - a pedido mio - en el IAEN, el propio miércoles, exactamente a las cinco de la tarde, día y hora en la que tenía terminar el programa de su cátedra este año.”

“Estamos desolados... Fuimos felices con su presencia jovial, llena de amistad, finura de espíritu, delicadezas y de detalles increíbles; pero al mismo tiempo sé que él fue feliz en medio de nosotros... Siempre nos lo decía y esto me llena de gozo y gratitud.”

“Sin embargo a él lo sentimos entre nosotros, el está vivo y sigue y seguirá vivo y resucitado en las luchas de liberación de todos los empobrecidos de todo el mundo, y en los dolores de parto con los que gimen los PUEBLOS INDIGENAS y nuestra Pachamama.”

“Como consta en su testamento, lo cremamos... y lo más pronto sus cenizas reposarán junto a las de su madre en su Bélgica natal.”

Miguel D’Escoto

       Dois dias depois de Houtart nos deixar, perdi outro amigo, também sacerdote e revolucionário como ele, o padre Miguel D’Escoto, falecido aos 84 anos. Ministro das Relações Exteriores da Nicarágura sandinista entre 1979 a 1990, presidiu a Assembleia Geral da ONU em 2008 e 2009. 

      Filho de diplomata, D’Escoto nasceu em Los Angeles, em 1933. Fez-se sacerdote pela congregação de Maryknoll e foi um dos fundadores da editora novaiorquina Orbis Books, que em 1977 publicou nos EUA meu livro Cartas da prisão com o título Against principalities and powers.

      Foi D’Escoto que recebeu Lula e a mim em Manágua, por ocasião do primeiro aniversário da Revolução Sandinista, em julho de 1979. Levou-nos à casa de Sérgio Ramirez, então vice-presidente do país, na noite de 19 de julho, quando então conhecemos e conversamos longamente com Fidel Castro.

      Em janeiro de 1980, ele veio a São Paulo, em companhia de Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, participar do primeiro congresso mundial da Teologia da Libertação. Foi um dos oradores da Noite Sandinista, no TUCA, teatro da Universidade Católica de São Paulo.

      No domingo, 29 de novembro de 1981, em Manágua, reencontrei-o em sua casa, que pertencera ao executivo que presidira o Banco Central da Nicarágua à época da ditadura Somoza. Ali se encontravam Daniel Ortega; o secretário-geral da Frente Sandinista de Libertação Nacional, René Nuñez; os padres Gustavo Gutiérrez, Pablo Richard, Fernando Cardenal, Uriel Molina, e o ministro do Bem-Estar Social, padre Edgard Parrales.

      D'Escoto acabava de retornar do México e descrevia em detalhes as recentes conversas sobre a América Central entre o presidente López Portillo e o general Alexander Haig, secretário de Estado dos EUA. Na atenção dos convivas, uma indisfarçável satisfação pela eficiência da espionagem sandinista dentro do governo mexicano.

      Falamos da conjuntura da Igreja, da campanha internacional contra a Revolução e sobre a Juventude Sandinista, agora aos cuidados de Fernando Cardenal. Preocupava-me o caráter mecanicista do marxismo divulgado entre os jovens sandinistas, mera apologética de antigos manuais russos. Insisti na importância de os sacerdotes no poder - D'Escoto, Parrales e os irmãos Cardenal - explicitarem publicamente sua vida de fé. Temia que projetassem uma imagem mais política que cristã.

      No sábado, 16 de novembro de 1984, em Manágua, retornei à casa de D'Escoto. Perguntei-lhe por que não fora à reunião da OEA em Brasília. “Para não valorizar a OEA” – respondeu -, “que continua servindo de instrumento nas mãos dos Estados Unidos, contra a soberania dos povos da América Central.”

      Celebramos a eucaristia sob o alpendre de vime do quintal. Lemos e meditamos o evangelho de Mateus 4, 25 ss. D'Escoto desabafou: “Estou com o corpo e a mente cansados, pois já não acompanham o ritmo acelerado que as circunstâncias me impõem. Sonho em desfrutar da solidão, em ter tempo para mim e não ter que ficar sempre atento ao telefone. No entanto, sei que, por enquanto, isso é apenas um sonho. De minha intimidade com Jesus arranco as forças que me sustentam.”

      Ao fim da celebração, me disse: “Quero duas coisas de você: leio com muito gosto o último livro de Dom Pedro Casaldáliga. Soube que, em breve, ele irá à Espanha. Peça-lhe que, antes, passe por Nicarágua. E insista com Dom Paulo Evaristo Arns para que venha à posse de Daniel, dia 10 de janeiro próximo.

      “Por que você não liga agora para Dom Paulo?” - sugeri.
      Tentamos, mas o cardeal de São Paulo não se encontrava em casa.
      Onze dias depois dei pessoalmente o recado a Dom Paulo Evaristo Arns. No ano seguinte, Dom Pedro Casaldáliga visitou a Nicarágua.

      Em março de 1986, reencontrei-o em Havana, em companhia de Rosario Murillo, atual vice-presidente da Nicarágua e esposa de Daniel Ortega, e de Manuel Piñeiro, chefe do Departamento de América do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba. Falamos longamente sobre a situação da Nicarágua e do apoio explícito que os bispos Obando e Vega davam à política agressiva de Reagan. D'Escoto era de opinião que os padres, religiosos e leigos deviam enfrentar corajosamente o arcebispo de Manágua, partindo, se necessário, para a desobediência eclesiástica. Isso lhe valeu, posteriormente, a suspensão, por parte do papa João Paulo II, do exercício de seu sacerdócio, medida revogada pelo papa Francisco.

      Em janeiro de 1989, em Havana, nos vimos na comemoração dos 30 anos da Revolução Cubana. Ele se entreteve em longa conversa com Leonardo Boff sobre a teologia da Trindade. “É a base da minha espiritualidade”, ouvi-o dizer. E lamentou a situação de seu país: “O mais duro para o povo da Nicarágua não é a agressão americana, mas a falta de apoio da Igreja.”

      Tivemos outros encontros posteriores, como na época em que presidia a Assembleia Geral da ONU, o que o levou a descrer inteiramente da eficácia dessa importante instituição, manipulada pelos interesses da Casa Branca.

      Com o desaparecimento de François Houtart e Miguel D’Escoto perdem a América Latina, a causa dos pobres e a Teologia da Libertação. Deixam-nos um legado de como viver a fé cristã em um mundo dividido entre poucos biliardários e multidões de miseráveis, e do que significa ser discípulo de Jesus nesse conturbado início do século XXI.

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.

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quarta-feira, 14 de junho de 2017

ONDE O PAPA FRANCISCO E SÃO PAULO SE ENCONTRAM.


por Eduardo Hoornaert



Entre as não poucas surpresas que o Papa Francisco causa, há uma que merece particular atenção: sua aproximação com as ideias do apóstolo Paulo. Embora o atual papa não costume citar São Paulo, vale a pena prestar atenção ao fato que ambos militam a favor dos imigrantes. Na sua Carta aos Romanos, Paulo abre perspectivas de vida ao imigrantes orientais em Roma, assim como Papa Francisco se empenha a criar espaços de vida aos imigrantes na Europa de hoje. É nesse sentido que apresento a Carta aos Romanos neste trabalho. Você verá sem dificuldade que os pontos de comparação com as situações que hoje, tais quais são denunciadas pelo atual papa, assim também com as iniciativas no sentido de remediar a essas situações, são impressionantes.

Roma, uma cidade de imigrantes.

No tempo do surgimento do cristianismo, Roma é uma encruzilhada de povos. O bispo Irineu, no século II, escreve acertadamente: ‘para lá tudo converge’. Cidade de perto de um milhão de habitantes (um número enorme para a época), a Capital do Império é o local para onde se dirigem imigrantes, principalmente provenientes das províncias orientais, em busca de trabalho. Em Roma se fala grego, uma língua adotada pelos que vêm da Síria, da Ásia Menor, da Capadócia, do Egito e dos diversos países em torno do Mar Mediterrâneo. Pois o grego de Roma é como o inglês hoje: uma língua mal falada (a ‘koinè’), mas que possibilita a comunicação entre as ‘nações’. Só na administração, no exército e entre os imigrantes provenientes da África se fala latim.

A influência de Roma sobre esses povos das províncias nunca foi construtiva, como nos lembra o historiador inglês Toynbee. Roma nunca apresentou ideias realmente novas, nunca teve carisma, sempre manipulou, dominou, imperou. A verdadeira vida cultural e espiritual provém das cidades-estados do Oriente, como Atenas, Antioquia, Alexandria, Éfeso, Corinto, Esparta, etc. Cidades helenizadas, decerto, mas onde pulsa a vida dos povos originários. Roma apenas traz o patriarcalismo (patria potestas; pater familias), a ‘Paz Romana’ (a paz como ordem imposta, tranquilidade dos submissos, sob o jugo dos poderosos) e o famoso ‘Direito Romano’, indispensável para que a Paz Romana possa funcionar. Um direito não baseado na democracia grega, mas de caráter corporativista, patriarcal e autoritário.

Entre o luxo e o lixo.

A sociedade romana, sem classes no sentido atual da palavra, funciona através do‘apadrinhamento’. Para sobreviver, é preciso ter um ‘padrinho’, do qual se espera receber favores. O próprio estado romano é um grande e beneficente padrinho, que escolhe seus apadrinhados. O número fechado dos que são beneficiados em Roma com distribuições gratuitas de ‘pão e circo’ (‘panem et circenses’) é restrito a não mais de 200.000 pessoas, ou seja, 20 % da população da megacidade. Os demais são os chamados ‘humildes’: escravos, libertos, infames (pessoas sobre as quais não convém falar em ambientes bem-educados, como gladiadores, bestiários, dançarinos, cantores, prostitutas, mulheres, crianças), cardadores (que cardam a lã e o linho), sapateiros, pisoeiros (que trabalham nos moinhos de pisoar os panos e os couros), carpinteiros, os que estão no curtume. 

Eles vivem nas estreitas e fedorentas ‘insulae’ (favelas) da grande cidade.  Pois, como se diz, para viver em Roma é preciso abrir os olhos (para contemplar os esplendores de templos e palácios) e tapar o nariz (para poder suportar o fedor). É preciso, sobretudo, reprimir o sentimento do coração ao ver o abandono em que vive a imensa maioria. Roma vive entre o luxo e o lixo. Para gostar de Roma, é preciso manter o coração insensível diante dos sofrimentos do ‘povo profano e vulgar’ e não interferir nos mecanismos que fazer funcionar a sociedade: dinheiros públicos drenados para mãos privadas, ganhos oficiais investidos em grandes propriedades de terra, a taxação regressiva, que cai com enorme peso sobre os ombros dos artesãos, comerciantes e agricultores, enquanto os ricos praticamente não pagam impostos.

O movimento de Jesus em Roma.

O cristianismo emergente é um dos ingredientes do ‘caldeirão romano’, um conglomerado de diversas correntes (chamadas em grego ‘heresias’) que se formam em torno de mestres apreciados. Nas décadas 130-160, por exemplo, em Roma convivem seguidores de Valentino, que vem do Egito, de Marcião, proveniente da Capadócia, de Taciano da Mesopotâmia e de Justino da Palestina. Ireneu é de Esmirna e é em Roma que Tertuliano, o africano, encontra o montanismo, um movimento proveniente da Frígia.

Não podemos perder de vista que, em Roma, esses militantes das diversas correntes do movimento de Jesus vivem todos ‘em paróquia’, um termo grego que indica os que vivem sem casa, na rua, entregues à própria sorte. A reação do movimento cristão diante da ‘paróquia’ é explicada pelo historiador J. H. Elliott em seu livro ‘Um Lar para quem não tem Casa, Interpretação sociológica da Primeira Carta de Pedro’ (Edições Paulinas, São Paulo, 1985). Naquela carta, atribuída a Pedro, se explica como os seguidores de Jesus vivem seu ‘tempo de paróquia' (1Pd 1, 17), fora de sua pátria, sem cidadania romana (2, 11), sem estabilidade, sem segurança. 

 Para essas pessoas, o movimento procura antes de tudo criar um ‘lar’, um abrigo social, um apoio emocional, uma nova cidadania, um recanto de paz e fraternidade no meio da cidade cruel, uma ‘casa de Deus para quem não tem casa’ (2, 11 comparado com 2, 18): Deus oferece sua casa aos que não têm casa (2, 5 e 4,17). Os que são forçados a viver como ‘domésticos’ (2, 18) em famílias bem situadas, encontram na comunidade cristã um aconchego. Ali se sentem em casa, à vontade. A Carta recomenda: ‘aproveitem do tempo de sua paróquia para levar uma vida exemplar no meio dos que não conhecem a Deus’ (2, 12). Esse modelo ‘paroquiano’ não só funciona em Roma, mas igualmente em Corinto (Carta de Clemente), na Síria (Didaqué e Carta de Tiago), na região do Mar Egeu (Carta a Timóteo), em Alexandria (Carta de Barnabé), em diferentes cidades da Ásia Menor (Cartas de Inácio de Antioquia).

A Carta aos Romanos.

É dentro desse contexto imigrante que se situa a Carta aos Romanos (doravante Rm). Ao longo da história, grandes inteligências se debruçaram sobre essa Carta e a interpretaram sob diversos ângulos, sem dar a devida atenção à realidade da imigração dentro da qual se situa a Carta. Assim, Agostinho (século V) vê na Carta uma confirmação de sua doutrina do pecado original (Rm 5), Anselmo de Cantuária (século XI) enxerga nela a doutrina do sacrifício de Cristo em benefício de toda a humanidade (Rm 3, 21-26), enquanto Lutero (século XVI) nela se baseia para afirmar que ‘o justo se justifica pela fé’ (Rm 1, 17) e combater uma igreja baseada em indulgências, romarias e devoções.

Não podemos dizer que essas leituras históricas devem ser descartadas, mas é bom ficar atento ao fato que elas, em sua maioria, são baseadas numa leitura ‘fora do contexto’. Retira-se uma frase, por vezes uma expressão ou mesmo uma palavra, e com isso se procura enfocar um determinado problema contemporâneo do comentarista, sem prestar a devida atenção à intencionalidade própria do autor de Rm. Vale, então, se colocar a pergunta: como Paulo chegou à ideia de escrever os núcleos do movimento de Jesus existentes em Roma? Qual o ímpeto que o leva a escrever um texto tão impactante? Qual a ideia que o impulsiona?

Paulo é informado acerca da situação do movimento em Roma.

No ano 54, residindo em Corinto, Paulo se prepara para viajar à Espanha, e pensa passar por Roma onde pretende visitar as comunidades que ali conseguiram se formar. Nisso, recebe a visita de um casal, Aquilas e Prisca, que acaba de chegar de Roma e traz as últimas notícias (Rm 16, 3-4). A conversa lhe rende muito, pois o casal informa acerca da política do jovem Imperador Nero em relação aos judeus que, alguns anos antes, tinham sido banidos da cidade de Roma por seu padrasto Claudio. Parece que o novo Imperador quer sinalizar que Roma acolhe sem distinção todas as ‘nações’ (leia: os imigrantes). Contudo, acrescentam Aquilas e Prisca, o gesto do novo Imperador não vem acompanhado de nenhum programa social que facilite a integração desses pobres e desamparados, que afluem em grande número à capital.

 Abandonados à própria sorte, eles vagam por ruas e alamedas, arranjam-se em praças públicas e cometem furtos para sobreviver. Então as forças de repressão entram em campo e reprimem os imigrantes do Oriente, sob os aplausos dos habitantes bem situados.
Essa situação, dizem Aquilas e Prisca, atinge em cheio a congregação de militantes do movimento de Jesus que conseguiu se estabelecer em Roma. Os arranjos de Nero, ao mesmo tempo em que facilitam o afluxo de imigrantes judeus na congregação de Jesus, aumentam nela determinadas tensões internas já existentes. Acirra-se o tradicional desentendimento entre três segmentos de militantes no movimento: judeus que falam aramaico, judeus que se expressam em grego (chamados ‘helenistas’) e não judeus, chamados ‘gregos’ ou ‘gentios’. Por causa de suas experiências no Oriente, Paulo entende perfeitamente essa problemática e percebe, com pesar, que um problema que afeta desde muito o movimento no Mediterrâneo oriental, na Síria e na Ásia, agora se manifesta em Roma também. É um problema endêmico do mundo de imigrantes.

Paulo toma posição.

As informações fornecidas por Aquilas e Prisca reforçam em Paulo a convicção que o movimento de Jesus está assentado em premissas diametralmente opostas aos planos e arranjos da administração do Império Romano. Essa administração pretende difundir a Paz Romana, enquanto o movimento propugna o ‘universalismo das nações’. O impressionante consiste no fato que um cidadão romano (Paulo de Tarso) se projeta, na Carta aos Romanos, como líder anti-romano, ou seja, opositor da ideia da Paz Romana, do Direito Romano, do patriarcalismo romano. Ele entende perfeitamente aonde a administração romana quer chegar quando chama os agrupamentos esparsos de imigrantes em Roma indiscriminadamente pelo termo genérico ‘nações’ (gentios). Gregos, frígios, macedônios, gálatas, capadócios, judeus etc., todos são tratados como sendo parte de ‘nações’ a serem assimiladas pela política unificadora da Paz Romana.

Pois o relacionamento do Estado Romano com esses segmentos da sociedade é basicamente de ordem repressiva. Paulo sabe como vivem as diversas ‘nações’ numa metrópole como Antioquia. Ele compreende que as coisas se passam mais ou menos da mesma forma em Roma. Ele sabe que todas essas ‘nações’ enfrentam basicamente os mesmos problemas, compartilham os mesmos sofrimentos e esperanças. Todas elas vivem ‘em exilio’ (em ‘paróquia’: Rm 15, 18), muitas vezes sem teto, sem amparo por parte das autoridades e sem segurança. Os imigrantes são normalmente escravos ou servidores subalternos. Paulo compreende que o mais importante, para abrir um horizonte de vida para essas populações sofredoras, consiste em dar às ‘nações’ um senso de coesão, por cima das diferenças. Para Paulo, trata-se de estabelecer um relacionamento dinâmico com o universo dos imigrantes, judeus e não judeus. Nada de discutir assuntos que possam dividir os grupos entre si, nada no sentido de insistir em diferenças entre línguas, religiões, usos e costumes, nada no sentido de defender um segmento (os judeus, por exemplo), em detrimento de outro. Para Paulo, defender ‘as nações’ significa dinamizar a coesão entre todos os grupos de imigrantes. O povo de Deus não é etnia, religião ou língua. É a união existente entre os mais diversos grupos étnicos, linguísticos e religiosos.

A (oculta) linguagem irônica da Carta aos Romanos.

Paulo não pode falar em termos explícitos do plano que tem em mente, já que a oficialidade romana exerce um controle contínuo sobre o universo dos imigrantes. Ele opta por tomar de empréstimo, dando-lhes um discreto toque irônico, terminologias costumeiras do linguajar palaciano imperial. Ele fala em ‘Jesus Cristo Nosso Senhor’, uma expressão palaciana que insinua o seguinte: Jesus é o verdadeiro Senhor das nações, não Nero. A recomendação no sentido de ‘obedecer ao Nosso Senhor Jesus, Ungido, Filho de Deus, nosso Pai’ (Rm 15, 18) deixa entender algo assim: ‘não obedeçam ao Senhor Nero, Filho de Deus, Pai das nações’. ‘Olhar para Jesus’ é o mesmo que ‘não olhar para o Imperador’. 

Esse modo de interpretar formulações clássicas do linguajar cristão não nos é costumeiro e pode parecer estranho. Mas é acompanhar o que se escreve hoje sobre esse particular, principalmente entre autores norte-americanos, que interpretam Rm a partir da estratégia seguida por militantes de Jesus dentro de grandes cidades do Império Romano. Se você quiser saber mais sobre esse tema, leia, por exemplo:  Crossan, J.D. & Reed, J.L., Em Busca de Paulo. Como o apóstolo de Jesus opôs o Reino de Deus ao Império Romano, Paulinas, São Paulo, 2007, ou ainda: Horsley, R.A., Paulo e o Império, Paulus, São Paulo, 2004.

O universalismo militante.

Numa frase memorável da Carta aos Gálatas, Paulo expressa de forma lapidar o que, em sua opinião, tem de ser o comportamento entre as ‘nações’:

Não há judeu ou grego,
senhor ou escravo,
homem ou mulher,
somos todos unidos em Jesus, o Ungido (Gl 3, 28).

A frase é de grande ousadia. Numa sociedade em que pessoas do sexo masculino têm a seu serviço um ou mais escravos e ‘governam’ as suas mulheres, falar em ‘grego, mulher, escravo’ é coisa ousada. É confrontar o ‘forte’ (judeu, macho, senhor) com o ‘fraco’ (grego, mulher, escravo). Gerd Theissen aprofundou esse tema num texto intitulado ‘Os Fortes e os Fracos em Corinto’ (Theissen, G., Sociologia da Cristandade primitiva, Ed. Sinodal, São Leopoldo, 1987, 133-147). Ali se vê que o universalismo de Paulo é um universalismo ‘desordenado’ (a expressão é do filósofo esloveno Slavoj Zizek), ou seja, irreconciliável com os ordenamentos da sociedade estabelecida. Um universalismo militante.

É fazendo esse tipo de considerações que descobrimos o tema central da Carta aos Romanos. Ele vai enunciado bem no início da carta, precisamente no versículo 16 do primeiro capítulo:

Não tenho vergonha da mensagem:
Poder de Deus que intenciona a salvação de todos que lhe dão fé
O judeu em primeiro lugar, mas o grego também.

Eis o ponto: equiparar judeu e grego, grego e bárbaro (Rm 1, 14), sábio e ignorante, com Lei ou sem Lei, circunciso ou incircunciso, observador ou não do sábado, frequentador ou não do Templo. Equiparar todos que ‘vivem na fidelidade’ (Rm 1, 17). Eis o leitmotiv, a ideia que impulsiona. Quem lê Rm atentamente percebe que os trechos, tão diversificados entre si, em forma de espiral, de diálogo ou de desabafo, na realidade giram todos em torno da questão do universalismo militante. Foi isso que o filósofo francês Alain Badiou nos lembrou em 1997 ao escrever seu livro ‘Saint Paul, La Fondation de l’Universalisme’ (Presses Universitaires de France, Paris, 1997).

É a reconciliação (Rm 5, 1-11): todas as nações são chamadas por Deus. Mas cada uma a seu modo. Há o modo judeu, que opera por meio da circuncisão, da Lei, do sábado e do kashkrut, mas há igualmente o modo grego, ou seja, dos mais diversos povos que compõem a população metropolitana, que opera segundo ditames cultuais e culturais próprios. Cada povo segue a ‘fidelidade’ por meio de ritos apropriados à sua cultura. Deus não rejeita cultos e culturas, ele rejeita ‘a injustiça dos homens que mantêm a verdade prisioneira da injustiça’ (Rm 1, 18).

A ‘desconsideração’.

Podemos concluir chamando a atenção para um aspecto importante do ecumenismo de Paulo, Ele recomenda uma postura de ‘desconsideração’ em relação ao que eventualmente possa opor ‘nação’ contra ‘nação’ em termos de raça, religião, nacionalidade, gênero, posição social ou mentalidade. Para Paulo, não adianta discutir esses pontos. Ele não trata de ritos, dietas, observância de dias santos, pureza cerimonial, correta execução de atos litúrgicos, diferentes confissões religiosas, opções sexuais. São assuntos vivamente discutidos na época, mas Paulo não lhes dá importância: ‘a circuncisão não é nada, o prepúcio não interessa’ (1Cor 7, 18). 

Quando lhe perguntam se os ‘goim’ (‘gente de fora’, os que não são ‘filhos da Aliança’, termo traduzido em português por ‘gentios’) devem ser circuncidados para aderir ao movimento de Jesus, ele responde categoricamente: ‘não’. O movimento tanto comporta circuncisos como incircuncisos. Um seguidor de Jesus trata da mesma forma quem pertence ao ‘am berit’ (povo eleito) e quem é ‘goi’, ou seja, não é ‘filho de Abraão’. ‘O Ungido derrubou o muro’ (entre as nações); ‘não é a circuncisão ou a não circuncisão que tem importância, mas o ser na nova criação’ (Gl 6, 15-16). Quem é da ‘nova criação’ desconsidera discussões legalistas, rituais, litúrgicas, religiosas. Discussões que não levam a nada e só servem para opor entre si pessoas, nações, culturas. 

O dom inestimável do Papa Francisco.

Fiz as considerações acima, em torno da Carta aos Romanos, para mostrar que em muitos pontos as posturas de São Paulo combinam com os posicionamentos do Papa Francisco. O papa faz um elo por cima de um arco de dois mil anos, ele recorre diretamente á primeira tradição cristã e penso que é nesse sentido que ele é, para o mundo de hoje (não só para a igreja católica), um ‘dom inestimável’, como escreve o filósofo polonês Zygmunt Bauman, falecido no mês de janeiro 2017.

Não posso deixar de citar aqui alguns parágrafos de um pequeno artigo que Bauman escreveu a respeito do papa, e que, assim penso, combinam bem com o que escrevi acima acerca da comparação entre o papa atual e São Paulo:

Entre os personagens hoje dotados de autoridade em nível mundial, somente Jorge Mario Bergoglio compreendeu e definiu claramente as prioridades a serem enfrentadas: 

- recordar a importância da arte do diálogo, que nunca aprendemos o suficiente e que, neste momento, parece esquecida: uma conversa que leva a considerar os pontos de vista, os valores e as prioridades diferentes das nossas; uma conversa que não visa a derrotar, humilhar ou ridicularizar um adversário, mas guiada pela empatia e voltada à compreensão recíproca, capaz de elaborar um ‘modus convivendi’ e uma verdadeira solidariedade comum no trabalho conjunto para tornar o mundo mais hospitaleiro para a bondade, a justiça, a misericórdia e o amor;

- lutar contra a desigualdade galopante e profunda, contra a pobreza e o sofrimento e a humilhação que provoca, junto com a rejeição ou a falta de respeito pela dignidade humana e, portanto, também contra as suas causas: avidez, cegueira moral, indiferença à dor dos outros seres humanos, acompanhada por autorreferencialidade de interesses, intenções e ações;
 
- inserir esses e outros problemas de gravidade semelhante nos currículos das escolas de todos os níveis, do mais baixo ao mais alto; Francisco confiou à educação a tarefa de fazer renascer os critérios morais perdidos e restaurar vitalidade aos valores espirituais para levá-los de volta à magnificência e à eminência corroídas por um materialismo sem limites, por um consumismos desenfreado e por uma busca de lucro continua e desonesta. Desse modo, ele nos convidou para nos prepararmos para uma luta longa e difícil; na educação, não há soluções rápidas, atalhos, resultados imediatos. Como nos adverte e nos ensina o antigo provérbio chinês: “Se os seus projetos forem para um ano, semeie grão; se os seus projetos forem para dez anos, plante árvores; se os seus projetos forem para cem anos, eduque as pessoas’ (veja IHU, Unisinos, São Leopoldo).

  Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/