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domingo, 15 de maio de 2011

OS RISCOS E A ARROGÂNCIA DO IMPÉRIO




por LEONARDO BOFF









Conto-me entre os que se entusiasmaram com a eleição de Barack Obama para Presidente dos EUA, especialmente vindo depois de G. Bush Jr, Presidente belicoso, fundamentalsta e de pouqíssimas luzes. Este acreditava da iminência do Armagedon bíblico e seguia à risca a ideologia do Destino Manifesto, um texto inventado pela vontade imperial norteamericana, para justificar a guerra contra o México, segundo o qual os EUA seriam o novo povo escolhido por Deus para levar ao mundo os direitos humanos, a liberdade e a democracia. Esta excepcionalidade se traduziu numa histórica arrogância que fazia os EUA se arrogarem o direito de levar ao mudo inteiro, pela política ou pelas armas, o seu estilo de vida e sua visão do mundo.

Esperava que o novo Presidente não fosse mais refém desta nefasta e jorjada eleição divina, pois anunciava em seu programa o multilateralismo e a não hegemonia. Mas tinha lá minhas desconfianças, pois atrás do Yes, we can (“sim, nós podemos”) podia se esconder a velha arrogância. Face à crise econômico-financeira apregoava que os EUA mostrou em sua história que podia tudo e que ia superar a atual situação. Agora por ocasião do assassinato de Osama bin Laden ordenada por ele ( num Estado de direito que separa os poderes, tem o Executivo o poder de mandar matar ou não cabe isso ao Judiciário que manda prender, julgar e punir?) caiu a máscara. Não teve como esconder .a arrogância atávica.

O Presidente, de extração humilde, afrodescentente, nascido fora do Continente, primeiramente muçulmano e depois convertido evangélico, disse claramente:”O que aconteceu domingo envia uma mensagem a todo o mundo: quando dizemos que nunca vamos esquecer, estamos falando sério”. Em outras palavras: “Terrorristas do mundo inteiro, nós vamos assassinar vocês”. Aqui está revelada, sem meias palavras, toda a arrogância e a atitude imperial de se sobrepor a toda ética.

Isso me faz lembrar uma frase de um teólogo que serviu por 12 anos como assessor da ex-Inquisição em Roma e que veio me prestar solidariedade por ocasião do processo doutrinário que lá sofri. Confessou-me:”Aprenda da minha experiência: a ex-Inquisição, não esquece nada, não perdoa nada e cobra tudo; prepare-se”. Efetivamente assim foi o que senti. Pior ocorreu com um teólogo moralista, queridíssimo em toda a cristandade, o alemão, Bernhard Hâring, com câncer na garganta a ponto de quase não poder falar. Mesmo assim foi submetido a rigoroso interrogatório na sala escura daquela instância de terror psicológico por causa de algumas afirmações sobre sexualidade. Ao sair confessou:“o interrogatório foi pior do que aquele que sofri com a SS nazista durante a guerra”. O que significa: pouco importa a etiqueta, católico ou nazista, todo sistema autoritário e totalitário obedece à mesma lógica:cobra tudo, não esquece e não perdoa. Assim prometeu Barack Osama e se propõe levar avante o Estado terrorista, criado pelo seu antecessor, mantendo o Ato Patriótico que autoriza a suspensão de certos direitos e a prisão preventiva de suspeitos sem sequer avisar aos familiares, o que configura sequestro. Não sem razão escreveu Johan Galtung, norueguês, o homem da cultura da paz, criador de duas instituições de pesqusa da paz e inventor do método Transcend na mediação dos conflitos (uma espécie de política do ganha-ganha): tais atos aproximam os EUA ao Estado fascista.

O fato é que estamos diante de um Império. Ele é consequência logica e necessária do presumido excepcionalismo É um império singular, não baseado na ocupação territorial ou em colônias mas nas 800 bases militares distribuidas pelo mundo todo, a maioria desnecessária para a segurança americana. Elas estão lá para meter medo e garantir a hegemonia no mundo. Nada disso foi desmontado pelo novo Imperador, nem fechou Guantânamo como prometeu e ainda mais, enviou trinta mil soldados ao Afeganistão para uma guerra de antemão perdida.

Podemos discordar da tese básica de Abraham P. Huntington em seu discutido livro O choque de civilizações. Mas nele há observações, dignas de nota, como esta: “a crença na superioridade da cultura ocidental é falsa, imoral e perigosa”(p.395). Mais ainda:”a intervenção ocidental provavelmente constitui a mais perigosa fonte de instabilidade e de um possível conflito global num mundo multicivilizacional”(p.397). Pois as condições para semelhante tragédia estão sendo criadas pelos EUA e pelos seus súcubos europeus.

Uma coisa é o povo norte-americano, bom, ingenioso, trabalhador e até ingênuo que admiramos, outra é o Governo imperial, que não respeita tratados internacionais que vão contra seus interesses e capaz de todo tipo de violência. Mas não há impérios eternos. Chegará o momento em que ele será um número a mais no cemitério dos impérios mortos.

QUANDO A CONSCIÊNCIA MANDA DESOBEDECER



Por MARCELO BARROS

As escolas e religiões pregam a obediência como virtude importante. Entretanto, a própria Organização das Nações Unidas (ONU) consagra o 15 de maio como “o dia mundial da objeção de consciência”. Assim, fica claro que toda pessoa tem o direito de desobedecer, quando a ordem dada se opõe à sua consciência. Em Israel, jovens recrutados ao serviço militar obrigatório invocam a objeção de consciência para se negar a combater palestinos ou queimar casa de pessoas pobres, ato comum perpetrado pelas tropas de ocupação israelita. Nos Estados Unidos, por objeção de consciência, muitos jovens se negam a fazer guerra em outros países do mundo. E vários religiosos foram presos por rasgarem em um ato público e diante do Congresso Nacional o seu documento de incorporação militar. É uma atitude oposta a dos generais nazistas que se defenderam das acusações de genocídio, sob o pretexto de que tinham matado inocentes por obediência a seus superiores. Deveriam ter desobedecido. Em vários países do mundo, grupos religiosos e civis se negam a pegar em armas e exigem substituir os treinamentos militares por ações pacíficas. Fazem serviço civil no lugar do serviço militar obrigatório e a lei reconhece este direito.




No Brasil, a Constituição garante aos jovens brasileiros este direito. Entretanto, as leis complementares até agora ainda não foram sancionadas. Por isso, o direito da objeção de consciência ainda não se pode exercer verdadeiramente. Poucos brasileiros têm consciência disso. A ONU consagra toda esta semana para aprofundar este direito e divulgar esta atitude pacifista. Só se reconhece a dignidade humana onde a consciência individual e a fé de cada grupo forem respeitadas.






A espiritualidade ecumênica compreende a obediência não como mera execução mecânica de uma ordem dada, mas como abertura interior que leva a pessoa a escutar e acolher livremente a palavra e as propostas de outro. Esta liberdade interior permite o diálogo e se for o caso o dissenso e a discordância. Há pessoas que executam uma ordem recebida de forma tão mecânica que sua atitude não é humana. Ao contrário alguém pode discordar de uma orientação e não cumpri-la, mantendo-se, entretanto, fiel ao espírito do diálogo. A obediência crítica e amorosa propõe a colaboração mútua no lugar da competição e contém um elemento subversivo à mesquinhez do mundo.




De fato, no decorrer da história, a humanidade têm progredido mais pela ação de pessoas que ousam desafiar as leis e inovar os costumes do que através daquelas que simplesmente seguem caminhos convencionais. Os grandes líderes espirituais da humanidade foram pessoas que romperam com o sistema e, para exercer sua profecia, ousaram desobedecer a autoridades constituídas e a leis vigentes.




A sociedade considera “objeção de consciência” a atitude de quem, por convicção religiosa, social ou política, se nega a pegar em armas e a participar de guerras e atos violentos. Homens e mulheres, admirados no mundo inteiro, alguns até premiados com o Nobel da Paz, em seus países, foram considerados como rebeldes e desobedientes. Para os budistas tibetanos, Sua Santidade, o Dalai Lama, é a 14a reencarnação do Buda da Compaixão, mas, para o governo chinês, é um dissidente, desobediente às leis. O prêmio Nobel da Paz foi dado a dois latino-americanos ilustres: a Rigoberta Menchu, índia maya que viveu anos sem poder voltar à Guatemala para não ser assassinada e a Adolfo Perez Esquivel, advogado que, durante anos, era constantemente ameaçado de prisão na Argentina. No Brasil da ditadura militar, Dom Hélder Câmara, era escutado no mundo inteiro, enquanto, em nosso país, os meios de comunicação não podiam divulgar nada que falasse em seu nome. No passado, Gandhi e Martin Luther King foram presos e condenados como desobedientes às leis oficiais. Para os católicos, os mártires são testemunhas da fé. Muitos foram condenados à morte por se negar a reconhecer o imperador como divino; Outros foram mortos por se negarem a pegar em armas. Do ponto de vista da fé, são heróis, mas a sociedade da época os condenou como desrespeitadores das leis e criminosos.
Objetar é opor-se a cumprir uma lei que fere a nossa consciência. A violência, seja cometida por uma pessoa individual, seja institucional, ou cometida pelo Estado, nunca construirá um mundo de paz e justiça.




Há objeção de consciência quando a pessoa se nega a cumprir ordens antiéticas. Em alguns países, cidadãos exigem saber a destinação exata do pagamento de seus impostos. E não aceitam pagar impostos se o dinheiro for aplicado em sociedades que fabricam armas ou investem em negócios anti-éticos. Em todo o mundo, há consumidores que não compram carne de fazendas que destroem florestas e dizimam a natureza.




Se a objeção de consciência é direito de toda pessoa diante do poder social e político, com maior razão ainda, as religiões e Igrejas deveriam reconhecer um direito à dissidência e à objeção de consciência diante de um poder religioso autoritário ou, por qualquer razão, injusto. Conforme a Bíblia, quando as autoridades de Jerusalém proibiram os apóstolos a falar no nome de Jesus, estes responderam: “Entre obedecer a Deus e aos homens, é melhor obedecer a Deus. Por isso, nós desobedecemos a vocês”(At 5, 29).

AS MULHERES E O RABI DE NAZARÉ



por MARIA CLARA BINGEMER

Qual o segredo daquele homem para que exercesse tal atração sobre as mulheres? O que, nele, lhes chamava a atenção de forma que elas, ao encontrá-lo, mudavam radicalmente de vida e passavam a segui-lo por toda parte com ardor e paixão? Qual o segredo da sedução que sobre elas exercia a ponto de chamar a atenção de todos à sua volta e sua relação com elas destacar-se com indiscutível clareza ao longo de todos os quatro Evangelhos? Em um contexto patriarcal como era o seu, como aquelas mulheres – tantas – se atreveram a sair de seu anonimato, de seu confinamento na esfera do privado para ganhar a esfera pública, as estradas, ruas e caminhos, a fim de seguir o filho do carpinteiro fazedor de milagres e sedutor das multidões?

No mês de maio – mês das mães, das noivas, de Maria, da mulher, enfim – parece oportuno refletir e escrever sobre a mulher. E hoje nosso assunto é a relação da mulher com Jesus, o rabi de Nazaré.

Um olhar para os evangelhos pode levar-nos a vislumbrar um homem que viveu uma especial Aliança e sintonia com as mulheres de seu tempo, que fundou uma comunidade e inaugurou um estilo de vida onde elas eram bem-vindas e tinham seu lugar. O que nos é dado conhecer do Jesus histórico através dos relatos evangélicos o mostra como o iniciador de um movimento itinerante carismático, onde homens e mulheres são admitidos em relações de fraterna amizade.

Diferente do movimento de João Batista, com marcado acento sobre a ascese e a penitência, diferente também de Qumrân, onde só os homens são admitidos, o movimento que Jesus instaura se caracteriza -ademais da preocupação central da pregação do Reino como projeto histórico concreto- pela alegria, a participação sem preconceitos em festas e refeições às quais são admitidos pecadores e marginalizados em geral, e pela ruptura com uma série de tabus que caracterizavam a sociedade de seu tempo.

Dentre essas rupturas, certamente uma das mais evidentes é aquela que o extraordinário Rabi realiza em sua relação com a mulher. Sua prática com elas, situada em um contexto patriarcal se mostra não só inovadora, mas também chega a ser chocante. Apesar de não haver deixado nenhum ensinamento formal com respeito ao problema, a atitude de Jesus para com as mulheres é tão insólita que chega a surpreender até os mesmos discípulos ( Jo 4,27).

É comum aos quatro evangelhos o fato de que as mulheres formam parte da assembleia do Reino convocada por Jesus, na qual não são simples componentes acidentais, mas ativas e participantes (Lc 10, 38-42) e ainda beneficiárias privilegiadas de seus milagres (cfr. Lc 8,2; Mc 1,29-31; Mc 5,25-34; Mc 7,24-30, etc.)

Em poucas palavras: Jesus confia nas mulheres. Não as teme como portadoras de tentação e perigosa sensualidade. Não se perturba em sua presença com a atitude arrogante e discriminadora de muitos profissionais da religião de seu tempo, que veem sempre na mulher um perigo a evitar e um demônio a exorcizar. Pelo contrário, as acolhe, ensina-lhes os segredos do seu coração, derrama sobre elas seu carinho que cura o corpo e a alma. E lhes confia uma missão, mesmo a mais importante, que é a de anunciar aos discípulos a boa nova da Ressurreição em primeira mão.

A revolucionária e inovadora maneira com que Jesus tratava as mulheres vem a ser, portanto, perfeitamente coerente com o Evangelho no que ele tem de mais essencial: a Boa Nova anunciada aos pobres libertos em prioridade por Jesus: os deserdados, os rejeitados, os pagãos, os pecadores e os marginalizados de toda sorte, entre os quais se incluem as mulheres e as crianças, não consideradas pela sociedade como importantes e válidos em termos de cidadania civil e religiosa. A todos estes, Jesus os faz destinatários privilegiados de seu Reino, integrando-os plenamente na comunidade de filhos de Deus, porque com seu olhar divino, informado constantemente pelos movimentos do Espírito e pela relação filial com o Pai, sabe discernir em todos estes pobres – nos quais está incluída a mulher – valores ignorados: “a vida preciosa do caniço pisoteado ou o fogo não extinto da mecha que ainda fumega.“

Através dessas discípulas, dessas testemunhas, começou o grande movimento que dividiu a história em dois e configurou a cultura e a civilização de toda uma parte do mundo. A aliança das mulheres com o Mestre de Nazaré foi e continua sendo poderosa fonte de vida, e vida em abundância para todos.

Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.


Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

domingo, 1 de maio de 2011

CINCO BREVES TEXTOS



por EDUARDO HOONAERT









Já passamos um mês sem o 'padre-mestre' José Comblin. Mas temos seus escritos e sua herança espiritual. Como ele manifestou o desejo de ser enterrado ao lado do padre Ibiapina (e efetivamente se executou seu desejo), pensei que fosse de alguma utilidade rememorar aqui alguns dados da vida do padre-mestre do século XIX, modelo de José Comblin. Os pontos de sintonia são impressionantes. Publiquei em meu blog em cinco breves textos:
- Ibiapina 01: o advogado. A vida de Ibiapina antes de 1850. Posicionamentos, problemas, conflitos.
- Ibiapina 02: a virada. Os anos 1850-53. Uma nova decisão. Uma nova espiritualidade.
- Ibiapina 03: o missionário. Um novo tipo de missão. A educação popular.
- Ibiapina 04: intuições de Ibiapina (três viradas na vida)
- Ibiapina 05: literatura (os 3 estudos mais importantes).
Juntei um texto que já circulou na internet e que é igualmente de caráter biográfico: 'O que José Comblin nos contou em 2007'. Para acessar, digite http://www.eduardohoornaert.blogspot.com/ Bondade ler seguindo a numeração (p. ex. Ibiapina 01, 02, etc.), pois o blog nem sempre obedece à numeração.
Espero que esses textos sirvam para aprofundar a herança que José nos deixou.

Eduardo.