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domingo, 29 de maio de 2011

OS GAYS E A BÍBLIA


OS GAYS E A BÍBLIA artigo de Frei Betto
por Frei Betto



É no mínimo surpreendente constatar as pressões sobre o Senado para evitar a lei que criminaliza a homofobia. Sofrem de amnésia os que insistem em segregar, discriminar, satanizar e condenar os casais homoafetivos.

No tempo de Jesus, os segregados eram os pagãos, os doentes, os que exerciam determinadas atividades profissionais, como açougueiros e fiscais de renda. Com todos esses Jesus teve uma atitude inclusiva. Mais tarde, vitimizaram indígenas, negros, hereges e judeus. Hoje, homossexuais, muçulmanos e migrantes pobres (incluídas as “pessoas diferenciadas”...).
Relações entre pessoas do mesmo sexo ainda são ilegais em mais de 80 nações. Em alguns países islâmicos elas são punidas com castigos físicos ou pena de morte (Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos, Iêmen, Nigéria etc).

No 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 2008, 27 países membros da União Europeia assinaram resolução à ONU pela “despenalização universal da homossexualidade”.

A Igreja Católica deu um pequeno passo adiante ao incluir no seu Catecismo a exigência de se evitar qualquer discriminação a homossexuais. No entanto, silenciam as autoridades eclesiásticas quando se trata de se pronunciar contra a homofobia. E, no entanto, se escutou sua discordância à decisão do STF ao aprovar o direito de união civil dos homoafetivos.

Ninguém escolhe ser homo ou heterossexual. A pessoa nasce assim. E, à luz do Evangelho, a Igreja não tem o direito de encarar ninguém como homo ou hétero, e sim como filho de Deus, chamado à comunhão com Ele e com o próximo, destinatário da graça divina.

São alarmantes os índices de agressões e assassinatos de homossexuais no Brasil. A urgência de uma lei contra a homofobia não se justifica apenas pela violência física sofrida por travestis, transexuais, lésbicas etc. Mais grave é a violência simbólica, que instaura procedimento social e fomenta a cultura da satanização.

A Igreja Católica já não condena homossexuais, mas impede que eles manifestem o seu amor por pessoas do mesmo sexo. Ora, todo amor não decorre de Deus? Não diz a Carta de João (I,7) que “quem ama conhece a Deus” (observe que João não diz que quem conhece a Deus ama...).

Por que fingir ignorar que o amor exige união e querer que essa união permaneça à margem da lei? No matrimônio são os noivos os verdadeiros ministros. E não o padre, como muitos imaginam. Pode a teologia negar a essencial sacramentalidade da união de duas pessoas que se amam, ainda que do mesmo sexo?

Ora, direis ouvir a Bíblia! Sim, no contexto patriarcal em que foi escrita seria estranho aprovar o homossexualismo. Mas muitas passagens o subtendem, como o amor entre Davi por Jônatas (I Samuel 18), o centurião romano interessado na cura de seu servo (Lucas 7) e os “eunucos de nascença” (Mateus 19). E a tomar a Bíblia literalmente, teríamos que passar ao fio da espada todos que professam crenças diferentes da nossa e odiar pai e mãe para verdadeiramente seguir a Jesus.

Há que passar da hermenêutica singularizadora para a hermenêutica pluralizadora. Ontem, a Igreja Católica acusava os judeus de assassinos de Jesus; condenava ao limbo crianças mortas sem batismo; considerava legítima a escravidão e censurava o empréstimo a juros. Por que excluir casais homoafetivos de direitos civis e religiosos?

Pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais. Todos são filhos amados por Deus. Todos têm como vocação essencial amar e ser amados. A lei é feita para a pessoa, insiste Jesus, e não a pessoa para a lei.


Frei Betto é escritor e assessor de movimentos sociais, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
www.freibetto.org - twitter:@freibetto

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CONHEÇO UM HOMEM


por Leonardo Boff

Esbelto, de figura elegante, sempre fumando seu palheiro, ele foi um desbravador. Quando os colonos italianos não tinham mais terras para cultivar na Serra Gaúcha, eles, em grupo, emigraram para o interior de Santa Catarina, para as terras de Concórdia, notória por ser a sede das mais conhecidas empresas de carnes do pais, a Sadia e a Perdigão. Não havia nada, exceto alguns caboclos, sobreviventes da guerra do Contestado e grupos de indígenas kaigan. Reinavam os pinheirais, soberbos, a perder de vista.

Os colonos italianos vieram, organizados em caravanas, trazendo seu professor, seu puxador de reza e uma imensa vontade de trabalhar e de fazer a vida a partir do nada. Ele estudara vários anos com os jesuitas de São Leopoldo e acumulara vasto saber humanístico. Sabia latim e grego e lia em linguas estrangeiras. Viera para animar a vida daquela povera gente. Era mestre-escola, figura de referência e respeitadíssimo. Dava aulas de manhã e de tarde. À noite ensinava português para colonos que só falavam em casa italiano e alemão. Ao lado disso, abriu uma escolinha com os mais inteligentes para formá-los como guarda-livros para fazer a contabilidade das bodegas e vendas da região.

Como os adultos tinham especial dificuldade em aprender, usou um método criativo. Fez-se representante de uma distribuidora de rádios. Obrigava cada família a ter um rádio em casa e assim aprender o “brasilian” ouvindo programas em português. Montava cataventos e pequenos dínamos onde havia uma cascata para que pudessem recarregar as baterias. Como mestre-escola era um Paulo Freire avant la lettre. Conseguiu montar uma biblioteca de dois mil livros. Obrigava cada familia a levar um livro para casa, lê-lo e no domingo, depois da reza do terço em latim, formava-se uma roda onde cada um contava em português o que havia lido e entendido. Nós, pequenos, ríamos, a mais não poder, pelo português ruim que falavam. Não ensinava apenas o básico, mas tudo o que um colono devia saber: como medir terras, como devia ser o telhado do paiol, como tirar os juros, como cuidar da mata ciliar e tratar os terrenos com grande declive. Introduzia-nos nos rudimentos de filologia, ensinando-nos as palavras latinas e gregas. Nós pequenos, sentados atrás do fogão por causa do frio géiido, devíamos recitar todo o alfabeto grego, alpha, beta, gama, delta, teta...E mais tarde no colégio, nos enchíamos de orgulho ao mostrar aos outros e até aos professores donde vinham as palavras. Aos onze filhos incitava-os à muita leitura. Eu decorava frases de Hegel e de Darwin, sem entendê-las, para dar a impressão que tinha mais cultura que os outros.

Mas era um mestra-escola no sentido pleno da palavra porque não se restringia às quatro paredes. Saía com os alunos para contemplar a natureza, explicar-lhes os nomes das plantas, a importância das águas e das árvores frutíferas. Naqueles interiores distantes de tudo, funcionava como farmacêutico. Salvou dezenas de vidas usando a piniscilina sempre que chamado, não raro, tarde da noite. Estudava em livros técnicos os sintomas das doenças e como tratá-las.

Naqueles fundos ignotos de nosso pais, havia uma pessoa angustiada por problemas políticos e metafísicos. Criou até uma pequena roda de amigos que gostavam de discutir “coisas sérias” mas mais que tudo para ouvi-lo. Sem interlocutores, lia os clássicos do pensamento como Spinoza, Hegel, Darwin, Ortega y Gasset. Passava longas horas à noite colado ao rádio para escutar programas estrangeiros e se informar do andamento da segunda guerra mundial.

Era crítico à Igreja dos padres porque estes não respeitavam os vizinhos, todos protestantes alemães, condenados já ao fogo do inferno por não serem católicos. Opunha-se com dureza àqueles que discriminavam os “negriti” e os “spuzzetti”(os que cheiravam mal). A nós, filhos, obrigava-nos a sentar na escola sempre ao lado deles para aprender a respeitá-los e a conviver com os diferentes.

Sua piedade era interiorizada. Passou-nos um sentido espiritual e ético de vida: ser sempre honesto, nunca enganar e confiar irrestritamente na Providência divina. Para que seus onze filhos pudessem estudar e chegar à universidade vendia, aos pedaços, todas as terras que tinha ou herdara. No fim, vendeu até a própria casa. Sua alegria era sem limites quando vínhamos de férias pois assim podia discutir horas e horas conosco. E nos batia a todos. Morreu jovem, com 54 anos, extenuado de tanto trabalho e de serviço em função de todos. Sabiaa que ia morrer. Sonhava conversar com Platão, discutir com Santo Agostinho e estar entre os sábios. Na mesma hora e no mesmo dia em que embarquei no navio para estudar na Europa seu coração deixou de bater. Vim saber somente quando cheguei em Munique. Os irmãos e as irmãs inscreveram seu lema de vida na sua tumba:”De sua boca ouvimos, de sua vida aprendemos: quem não vive para servir não serve para viver”.

No dia 25 de maio de 2011 ele completaria cem anos. Este mestre-escola sábio e interiorano era Mansueto Boff, meu querido e saudoso pai.

JUSTIÇA TARDIA


por Maria Clara Bingemer




A mídia noticia dois casos de justiça tardia que elevam o nível da esperança nossa de cada dia. Os protagonistas são um jornalista e um padre. O jornalista Antonio Pimenta Neves, réu confesso de assassinato, foi preso após onze anos. O padre Júlio Lancelotti, que lutava para provar sua inocência há quatro anos, foi finalmente inocentado.

Já faz tanto tempo... mas no coração de João Gomide, pai de Sandra, a dor queima viva e hemorrágica como no primeiro dia. Sandra partiu para o haras e ali mesmo, em meio aos cavalos que tanto amava, foi morta com dois tiros nas costas. Pimenta Neves, o ex-chefe e depois namorado, muitos anos mais velho que a moça, não aceitava a ruptura que o fim do namoro traria. Sandra caiu ao chão e seu sangue foi bebido pela terra de Ibiúna.

João Gomide e a mulher lutaram o quanto puderam para ver o assassino da filha preso. Pimenta Neves, influente e com uma boa rede de relações, muniu-se de competentes advogados e conseguiu recorrer uma e muitas vezes até que finalmente na última terça feira foi preso e condenado a pagar indenização aos pais da vítima. Com a saúde abalada, fragilizado pela idade, João Gomide não sente mais ódio nem alimenta desejos de vingança. A falta da filha dói no fundo do peito e pesa como sombra de tristeza sobre sua velhice que imaginava alegre e calma, no convívio familiar. Não deseja mal ao homem que destruiu seu futuro. Apenas se alegra com a justiça acontecida e espera poder viver os anos que lhe restam em paz.

Os moradores de rua e menores infratores de São Paulo conhecem bem o Padre Júlio, anjo da guarda de suas vidas e apóstolo de suas causas desde muito tempo. Nomeado pelo então cardeal Dom Paulo Evaristo Arns vigário episcopal do povo da rua, Padre Júlio podia ser visto uma e outra vez denunciando ameaças de extermínio, acompanhando situações de sofrimento e perigo extremos, agindo aqui e ali para defender os direitos dos últimos excluídos da sociedade.

A notícia de que estava vivendo a dolorosíssima situação de ser vítima de extorsão por um daqueles a quem mais ajudou caiu como uma bomba em meio a todos os que o admirávamos, a ele e a seu evangélico trabalho. Acossado há anos, Pe. Julio finalmente – com apoio de Dom Odilo Scherer, atual arcebispo de São Paulo – procurou a polícia. E do dia para a noite, o sacerdote cuja rotina era trabalhar com o povo da rua e cuidar da mãe idosa que com ele residia, viu-se envolvido em infernal torvelinho de acusações e linchamento moral. Exposto na mídia, desacreditado no trabalho que fazia, vasculhado pela justiça, viveu uma autêntica via-crucis. Com a reputação comprometida e arranhada, sob suspeita de todos inclusive de certos segmentos da Igreja, Pe. Julio recolheu-se a um discreto silêncio.

Em 2007, seus detratores foram inocentados por falta de provas. Porém, há pouco tempo cometeram o erro de novamente procurar o padre para ameaçá-lo. Não sabiam - nem agressor nem vítima – que “no meio da rua havia uma câmera, havia uma câmera no meio da rua”. O delegado, avisado, requereu as imagens e condenou o agressor a sete anos de prisão. Pe. Julio finalmente vê a verdade vir à tona e trazer à luz sua inocência. Sem ódio no coração, espera que agora acreditem nele e em seu testemunho. E sofre a perda da mãe que, idosa, faleceu devido à dor que experimentava pelo sofrimento do filho.

Para João Gomide e sua esposa, que apalpam o vazio da alegre presença de Sandra em sua casa; para Júlio, que declara haver aprendido que não há amor sem dor, o acontecer da justiça, ainda que tardio, traz alívio e esperança de poder viver em paz e sem sobressaltos.

Para nós, fica a lição de que a justiça humana é lenta e morosa e, muitas vezes, tardia. Quem devolverá a João a presença da filha? Quem devolverá a Júlio integralmente a tranquilidade com que exercia seu ministério antes deste episódio? No entanto, quando acontece, traz esperança de que a impunidade nem sempre fique com a última palavra.

Em todo caso, mesmo quando a justiça humana falha, a justiça divina não só não falha como não é apenas retributiva, punindo culpados e resgatando inocentes. Ela é, sim, restaurativa, a todos restaurando pelo mistério sem lógica de um amor incondicional. Mesmo através da dor e da desventura, esse amor brilha e revela nossa fragilidade entretecida com a dignidade de sermos filhos de Deus.


Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).


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A DIVERSIDADE RECONCILIADA




por Marcelo Barros



Quando o presidente Obama foi à televisão se vangloriar de que tinha comandado o assassinato de Bin Laden, quando este, desarmado, via televisão em sua casa, um amigo evangélico norte-americano me contou que um pastor presidente de uma Igreja nos Estados Unidos manifestou-se pedindo do presidente uma ética diferente que respeite a sacralidade da vida e exija justiça, mas não vingança. Quando um assessor comunicou ao presidente esta reação do pastor, este respondeu:

- Esta declaração não terá repercussão porque estes pastores não se entendem entre si. Eu me preocuparia se, ao menos, várias Igrejas se unissem e juntas fizessem um pronunciamento neste sentido. Como isso é impossível, podemos continuar dando as cartas.

Para mostrar que o diálogo e a unidade entre as diferentes Igrejas é possível e é importante como profecia para o mundo, a cada ano, várias Igrejas consagram uma semana à oração e ao diálogo pela unidade dos cristãos. No hemisfério sul, este ano, isso ocorrerá nesta próxima semana e contará com cultos ecumênicos, encontros de oração e iniciativas de diálogo entre as Igrejas. A cada ano, uma federação local de Igrejas escolhe um tema comum. Em geral, estes temas têm sido propostos por Igrejas do mundo dos pobres. Neste ano, o tema escolhido vem da descrição que a Bíblia faz da primeira comunidade cristã em Jerusalém: "Unidos no ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2, 42). Mais do que uma descrição da realidade, a unidade da primeira comunidade cristã é uma proposta de vida e um objetivo a ser alcançado por todas as Igrejas. Sempre que se conseguiu atingir este ideal, foi em meio à grande diversidade de culturas e de formas de expressar a fé. No tempo do Novo Testamento, uma parte das comunidades cristãs era de pessoas vindas do Judaísmo, marcadas pela espiritualidade e pela tradição judaica. Na mesma comunidade, havia irmãos e irmãs convertidos de cultos orientais e do mundo cultural grego. Outros grupos internos se diziam discípulos de João Batista, o profeta. Mesmo a partir desta grande diversidade cultural e teológica, havia uma unidade de fé e ação. Isso não foi alcançado através de uma estrutura hierárquica rígida. A organização centralizada cria uniformidade. É unidade de forma, mas não de espírito e de fé. As comunidades dos primeiros séculos não caíram também na tentação do dogmatismo que confunde a fé com as expressões e formulações das quais esta se reveste nas diferentes culturas. Ninguém condenou quem não pensava como a maioria. As cartas de Paulo contém uma teologia e propõem um tipo de espiritualidade. A carta de Tiago contém uma interpretação da fé diversa de Paulo. O evangelho de Mateus dá um testemunho sobre Jesus diferente do que nos é dado em Lucas e João. Esta diversidade não impediu a unidade de fé, nem o diálogo entre as comunidades. Conforme o livro dos Atos dos Apóstolos, esta unidade deve se basear no ensinamento que os discípulos receberam de Jesus, na comunhão da vida, na repartição do alimento e nas orações em comum.

Este ensinamento dos apóstolos sobre o qual se firma a unidade é o testemunho do projeto divino que Jesus trouxe para o mundo. Este projeto se concretiza através do testemunho dos irmãos e irmãs que viram Jesus ressuscitado, presente na comunidade (koinonia) e na solidariedade. O mais importante sinal desta presença divina é a “partilha do pão”, que, hoje, as Igrejas chamam de “ceia do Senhor” ou de “eucaristia”.

Infelizmente, ao se adaptarem às culturas religiosas do Império Romano, as Igrejas se tornaram menos comunidades locais como eram no início e reforçaram mais o aspecto cultual do que o elemento comunitário e social que, nos primeiros séculos, as tinha caracterizado. Hoje, “unir-se em torno do ensinamento dos apóstolos” chama as Igrejas a se constituírem como Igrejas pascais, abertas à missão e capazes de dialogar com o mundo atual. A comunhão fraterna e a repartição do pão recordam que a vocação da Igreja cristã é ser profecia de um mundo novo e de partilha.

Quem vê as Igrejas divididas pode não se dar conta de como esta divisão testemunha contra o projeto divino de ver a humanidade como uma só irmandade. A unidade dos cristãos não é um projeto apenas eclesiástico. Deseja unir as comunidades que crêem em Cristo no serviço solidário para construirmos juntos um mundo de comunhão e de paz. Afinal, segundo o evangelho, na véspera de sua paixão, Jesus orou ao Pai: “que todas as pessoas que crêem em mim sejam unidas, como eu e Tu somos Um, para que o mundo possa crer que tu me enviaste” (Jo 17, 19).