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quinta-feira, 24 de março de 2022

RELÓGIO DO APOCALIPSE

 Frei Betto



       A Segunda Grande Guerra terminou com o mais abominável ato terrorista, cometido em dose dupla, registrado pela história da humanidade: as bombas atômicas lançadas pelo governo dos EUA, em agosto de 1945, sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki. Ao visitar Hiroshima, em maio de 2016, o presidente Obama, que equivocamente recebeu o Nobel da Paz em 2009, não teve a dignidade de pedir perdão.
       Logo após o genocídio das populações civis das duas cidades japonesas, um grupo de cientistas e analistas políticos, entre os quais Noam Chomsky, passou a se reunir todos os anos, em janeiro, para acertar o Relógio do Apocalipse (“Doomsday Clock”). O ponteiro dos minutos foi posicionado sete minutos antes da meia-noite. Atingir a meia-noite significa marcar o fim trágico da espécie humana no planeta Terra.
       Em 1953, quando EUA e União Soviética deram uma demonstração de força ao explodir bombas termonucleares, o ponteiro dos minutos avançou cinco casas e ficou posicionado em dois minutos para a meia-noite.
       A cada janeiro, o ponteiro dos minutos avança ou recua, dependendo do equilíbrio de forças bélicas no mundo. Contudo, no governo Trump ele parou em 1 minuto antes da meia-noite, e o ponteiro dos segundos passou a se mover. Hoje ele marca 100 segundos antes da hora do Apocalipse.
       Nos últimos anos, outro fator passou a pesar no movimento do relógio: a devastação socioambiental. Os cientistas que delimitam as eras geológicas qualificam a atual de Antropoceno, palavra derivada do grego “ánthropos”, humano, e “ceno”, novo. Ou seja, a ação humana altera o equilíbrio ambiental do planeta e ameaça a vida na Terra. No entanto, prefiro caracterizar a nossa era como Capitaloceno, a era do capital, na qual a apropriação privada da riqueza em mãos de poucos é encarada como um direito. E o que é pior, tal privilégio se situa acima de todos os direitos humanos.
       Os ponteiros dos segundos foram adiantados também por um terceiro fator: a infodemia, essa disseminação generalizada de fake news e ataques, inclusive de governantes, à ciência e à verdade. O ódio se alastra como uma pandemia, divide nações e famílias, mina as bases da democracia. ONU, governos e partidos políticos perdem credibilidade e abrem caminho para a imposição da lei do mais forte.
       Agora o relógio do Apocalipse posiciona seus ponteiros no último segundo antes da meia-noite. Basta a Rússia alastrar a guerra contra a Ucrânia para um dos países membros da Otan ou um dos países desta instituição – que deveria ter sido extinta em 1991, após a queda do Muro de Berlim – atacar a Rússia ou aumentar ostensivamente o poder de fogo da Ucrânia. Então os ponteiros marcarão meia-noite.
       Hoje, os EUA mantêm armas nucleares, não apenas em seu próprio território, mas em todo o mundo, inclusive na Europa. Cerca de 100 de suas ogivas nucleares se encontram na Bélgica, Alemanha, Itália, Holanda e Turquia, estados membros da Otan. 
       No governo Trump, os EUA se retiraram unilateralmente do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário (INF, na sigla em inglês) de 1987, um acordo de controle de armas com a Rússia, que imediatamente também se retirou. O abandono do tratado significa que cada país pode, agora, lançar mísseis com um alcance de até 5.500 quilômetros e, assim, enfraquecer a segurança dentro e ao redor da Europa. 
       É inegável que a saída dos EUA do INF suscitou no Kremlin a certeza de que a Casa Branca busca ficar próxima de suas fronteiras para instalar mísseis e reduzir o tempo de ataque às cidades russas. Além disso, os EUA constroem, atualmente, um novo sistema de mísseis, de 100 bilhões de dólares, que pode viajar quase 10 mil quilômetros, chamado GBSD (sigla em inglês para Ground Based Strategic Deterrent – Dissuasão Estratégica Terrestre). Este míssil é capaz de transportar armas nucleares e atingir qualquer lugar do planeta em poucos minutos. Se acontecer, então nenhum ouvido humano escutará soar o alarme do relógio do Apocalipse.

Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org
      
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sexta-feira, 4 de março de 2022

A insanidade dos cavaleiros do Apocalipse: Rússia e USA

 Leonardo boff


O livro do Apocalipse que narra os embates  finais de nossa história,entre as forças da morte e as da vida, nos pinta um cavalo de fogo que simboliza a guerra:”ao cavaleiro foi-lhe dada desterrar a paz da terra para que os homens se degolassem uns aos outros”(6,4).A guerra entre a Rússia e a Crimeia e a ordem do presidente russo de manter as armas nucleares em alerta máximo, nos suscitam a ação do cavalo de fogo, a degola da humanidade, vale dizer, um Armaggedon humano.

As sanções severíssimas impostas pela NATO e pelos USA à Federação Russa podem levar ao colapso toda a sua economia. Face a esse desastre nacional não se pode excluir a possibilidade de que o líder russo, não aceite a derrota como se Napoleão (1812) ou Hitler(1942) tivessem tomado o país, coisa que não conseguiram. Então realizaria as ameaças e iniciaria um ataque nuclear. Só o arsenal da Rússia pode destruir, por várias vezes humana a vida do planeta. E um revide pode danificar toda a biosfera sem a qual a nossa vida não poderia persistir.

Por detrás deste confronto Rússia/Ucrânia se ocultam forças poderosas em disputa pela hegemonia mundial: a Rússia, aliada à China e os USA. A estratégia deste último é mais ou menos conhecida, orientada por duas ideias-força:”um mundo e um só império”(os USA), garantido pela full-spectrum dominance: a dominação em todos os campos com 800 bases militares distribuídas pelo mundo, mas também com a dominação econômica, ideológica e cultural. Tal dominação completa fundaria a pretensão dos USA de sua “excepcionalidade”, de ser “a nação indispensável e necessária”, a ”âncora da segurança global” ou o “único poder”(lonely power) realmente mundial.

Nessa vontade imperial, a NATO (OTAN), por detrás da qual estão USA, se expandiu até os limites da Rússia. Só faltava mesmo inserção da Ucrânia para fechar o cerco. Mísseis colocados na fronteira ucraniana alcançariam Moscou em minutos. Daí se entende a exigência da Rússia da manutenção de neutralidade da Ucrânia, caso contrário seria invadida. Foi o que ocorreu com as perversidades que toda guerra produz. Nenhuma guerra é justificável porque assassina vidas humanas e vai contra o sentido das coisas que é a tendência de permitirem na existência.

A China, por sua vez, disputa a hegemonia mundial não por  via militar, mesmo aliada à Rússia, mas pela via econômica com seus grandes projetos como a Rota da Seda. Neste campo está ultrapassando os USA e alcançaria a hegemonia mundial até com um certo ideal ético, o de criar “uma comunidade de destino comum participado por  toda a humanidade, com sociedades suficientemente abastecidas”.

Mas não quero prolongar esta perspectiva bélica, verdadeiramente insana a ponto de ser suicidaria. Mas esse confronto de potências revela a inconsciência dos atores em tela acerca dos reais riscos que pesam sobre o planeta que, mesmo sem as armas nucleares, poderão pôr em risco a vida humana. Seja dito que todos os arsenais de armas de destruição em massa se mostraram totalmente inúteis e ridículas face a um pequeniníssimo vírus como o Covid-19.

Essa guerra revela que os responsáveis pelo destino humano não aprenderam a lição básica do Covid-19. Ele não respeitou as soberanias e os limites nacionais. Atingiu o inteiro planeta. A epidemia pede a instauração de uma governança global face a um problema global. O desafio vai além das fronteiras nacionais, é construir a Casa Comum.

Não se deram conta de que o grande problema é o aquecimento global. Já estamos dentro dele, pois, os eventos fatais de inundações de regiões inteiras, tufões e escassez de água doce, são visíveis.Temos somente 9 anos para evitar uma situação de não retorno.Se até 2030 atingirmos 1,5 graus Celsus de calor, seremos incapazes de controlá-lo e vamos na direção de um colapso do sistema-Terra e dos sistema-vida.

Encostamos nos limites de sustentabilidade da Terra. Os dados da Sobrecarga da Terra (Earth Overshoot) apontam que no dia 22 de setembro de 2020 esgotaram-se os recursos não renováveis, necessários para a vida.O consumismo que persiste, cobra da Terra o que ela já nã pode dar.Em resposta,ela nos envia vírus letais,aumenta o aquecimento,desestabiliza os climas e dizima milhares de seres vivos.

A superpopulação associada a uma nefasta desigualdade social com a grande maioria da humanidade vivendo na pobreza e na miséria,quando 1% dela controla 90% da riqueza e dos bens e serviços essenciais, podem conduzir a conflitos com incontáveis vítimas e à devastação de  inteiros ecossistemas.

Estes são os problemas,entre outros, que deveriam preocupar os chefes de estado, os CEOs das grandes corporações e os cidadãos, pois eles diretamente colocam em risco o futuro de toda a humanidade. Face a esse risco global é ridícula uma guerra por zonas de influência e de soberanias já obsoletas.

O que nos causa esperança são aqueles “Noés” anônimos que vicejam em todas as partes, a partir de baixo, construindo suas arcas salvadoras mediante uma produção que respeita os limites da natureza, por uma agro ecologia, por comunidades solidárias, por democracias sócio-ecológicas participativas, trabalhando a partir dos próprios territórios. Eles possuem a força da semente do novo e com uma nova mente (a Terra como Gaia) e com um novo coração (laço de afetivo e de cuidado para com a natureza) garantem um novo futuro com a consciência de uma responsabilidade universal e uma interdependência global. A guerra deles é contra a fome e a produção da morte e sua luta é por justiça para todos, promoção da vida e defesa dos mais fracos e desvalidos. Isso é o que deve ser. E o que deve ser, tem intrinsecamente uma força invencível.

Leonardo Boff é eco-teólogo, filósofo e escreveu Habitar a Terra:qual o caminho para a fraternidade universal? Vozes 2021.