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segunda-feira, 15 de maio de 2017

A FIGURA PARADOXAL DA BELEZA


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



          A beleza é uma das faces de Deus que mais instiga e fascina o homem na revelação de seu mistério. Rodin esclarece que “não há, na realidade, nem estilo belo, nem desenho belo, nem cor bela. Existe apenas uma única beleza, a beleza da verdade que se revela. Quando uma verdade, uma ideia profunda, ou um sentimento forte explode numa obra literária ou artística, é óbvio que o estilo, a cor e o desenho são excelentes. Mas eles só possuem essa qualidade pelo reflexo da verdade.”.

          Esta afirmação nos remete a uma afirmação teológica fundamental.  Se a fé nos diz que Deus é a verdade, a experiência humana ao longo dos séculos e milênios tem nos revelado que a verdade é bela, ou que o belo é o verdadeiro.  Beleza e Verdade são outros nomes para o Deus que as diversas religiões vêm nomeando ao longo dos tempos, experimentando em suas vidas e vendo-se por elas fascinadas. 

            Contemplar a Deus, experimentar sua presença tem sido descrito com palavras, imagens e metáforas muito próximas daquelas utilizadas para  descrever a experiência estética.  Na tradição judaico-cristã e na rica mística gerada pelo cristianismo, a ética e o apelo ao compromisso no serviço ao outro anda de par com a experiência do fascínio e deslumbramento pela contemplação da beleza desse Outro que fascina e atemoriza com a força de sua sedução.  A mística tem, inegavelmente, uma dimensão estética.


            Porém, de que estética e de que beleza se trata?  Certamente não da beleza dos padrões ditados pelos parâmetros humanos.  A beleza do divino é desconcertante e imprevisível, apresentando-se freqüentemente com visibilidade e signo invertido e paradoxal, deixando aquele ou aquela que a experimenta perplexo e fascinado, buscando captar a direção que lhe é mostrada com tal experiência.

            Desde os primeiros séculos do cristianismo, opõem-se duas concepções relativas à interpretação da figura de Cristo e sua representação.  Orígenes foi um dos primeiros a defender a representação de um Cristo perfeitamente belo.  Apoiava-se no salmo de David, que cantava: “Oh mais belo dos filhos dos homens, reina, triunfa pelo fulgor atraente de tua beleza”.  Esta sublimação do Cristo respondia às concepções teológicas de São Gregório de Nissa, de São Jerônimo, de Santo Agostinho e São João Crisóstomo.

          Por outro lado, os monges e Padres da Igreja da África e da Ásia Menor se recusavam representar um Cristo de beleza fulgurante.  Seguiam nisto o profeta Isaías: “ O Filho do Homem é sem beleza e sem brilho, nós o vimos e o desconhecemos.  Era um objeto de desprezo, o último dos homens, um homem das dores e conhecendo a enfermidade.  Não tinha graça nem beleza que pudesse atrair nossos olhares.” São Cirilo de Alexandria, bispo de Jerusalém, e São Basílio, bispo de Cesaréia, foram partidários de uma representação austera, melhor adaptada ao Cristo, que recusou todas as tentações do mundo, veio para a redenção dos pecadores e foi crucificado vergonhosamente com os escravos. 

          Ao longo da história do Cristianismo, estas duas tendências vão se alternar  sobre as representações da figura de Jesus Cristo.  Ora será representado com esplendor e glória dentro dos cânones de beleza vigentes em cada época, como os Cristos bizantinos e renascentistas, ora  representado e venerado inseparável do mistério de sua cruz, com as mais dolorosas representações de seu sofrimento e suplício, no qual os seres humanos verão sua salvação e esperança, no consolo de seu próprio sofrimento e dor.

          Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia  da PUC-Rio e autora de "Violência e Religião" (Editora PUC-Rio/Edições Loyola), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)


segunda-feira, 28 de abril de 2014

“A beleza salvará o mundo”: Dostoiewski nos ensina como



por Leonardo Boff


Dos gregos aprendemos e isso atravessou  os séculos, que todo ser, por diferente que seja, possui três características transcendentais (estão sempre presentes pouco importa a situação, o lugar e o tempo): ele é o unum, o verum e o bonum, quer dizer ele goza de uma unidade interna que o mantem na existência, ele é verdadeiro, porque se mostra assim como de fato é e é bom porque desempenha bem o seu lugar junto aos demais ajudando-os a existirem e coexistirem.

Coube aos mestres franciscanos medievais, como Alexandre de Hales e especialmente São Boaventura que, prolongando uma tradição vinda de Dionísio Aeropagita e de Santo Agostinho, acrescentarem ao ser mais uma característica transcendental: o pulchrum vale dizer, o belo. Baseados, seguramente na experiência pessoal de São Francisco que era um poeta e um esteta de excepcional qualidade, que “no belo das criaturas via o Belíssimo,” enriqueceram nossa compreensão do ser com a dimensão da beleza. Todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem hediondos, se os olharmos com afeição, nos detalhes e no todo, apresentam, cada um a seu modo, uma beleza singular na maneira como neles tudo vem articulado com um equilíbrio e harmonia surpreendentes.

Um dos grandes apreciadores da beleza foi Fiodor Dostoiewski. A beleza era tão central em sua vida, conta-nos Anselm Grün, monge beneditino e grande espiritualista, em seu último livro “Beleza: uma nova espiritualidade da alegria de viver ”(Vier Türme Verlag 2014) que o grande romancista russo deslocava-se pelo menos uma vez ao ano até Dresde, na Alemanha, só para contemplar na capela a formosa Madona Sixtina de Rafael. Permanecia longo tempo em contemplação diante daquela esplêndida figura. Tal fato é surpreendente, pois seus romances penetraram nas zonas mais obscuras e até perversas da alma humana. Mas o que o movia, na verdade, era a busca da beleza pois nos legou a famosa frase:”A beleza salvará o mundo”dita no livro O Idiota.

No romance Os irmãos Karamazov aprofunda a questão. Um ateu Ipolit pergunta ao príncipe Mynski como “a beleza salvaria o mundo”? O príncipe nada diz mas vai junto a um jovem de 18 anos que agonizava. Aí fica cheio de compaixão e amor até ele morrer. Com isso nos quis dizer: beleza é o que nos leva ao amor co-dividido com a dor; o mundo será salvo hoje e sempre enquanto houver essa atitude.

Para Dostoiewski a contemplação da Madona de Rafael era a sua terapia pessoal, pois sem ela desesperaria dos homens e de si mesmo, diante de tantos problemas que vivia. Em seus escritos descreveu pessoas más e destrutivas e outras que mergulhavam nos abismos do desespero. Mas seu olhar, que rimava amor com dor compartida, conseguia ver beleza na alma dos mais perversos personagens. Para ele, o contrário do belo não era o feio mas o espírito utilitarista e o uso dos outros, roubando-lhe assim a dignidade.
“Seguramente não podemos viver sem pão, mas também é impossível existir sem beleza ”repetia. Beleza é mais que estética; possui uma dimensão ética e religiosa. Ele via em Jesus um semeador de beleza. “Ele foi um exemplo de beleza e a implantou na alma das pessoas para que através da beleza todos se fizessem irmãos entre si”. Ele não se refere ao amor ao próximo; a contrário: é a beleza que suscita o amor e nos faz ver no outro um próximo a amar.

A nossa cultura dominada pelo marketing vê a beleza como uma construção do corpo e não da totalidade da pessoa. Então surgem métodos e mais métodos de plásticas e botoxs para tornarem as pessoas mais “belas”. Por ser construída, é uma beleza sem alma. E se repararmos bem, nesta estética fabricada, emergem pessoas com uma beleza fria e com uma aura de artificialidade, incapaz de irradiar. Daí irrompe a vaidade, não o amor, pois a beleza tem a ver com amor e a comunicação. Dostoiewski observa, nos Irmãos Karamazov, que um rosto é belo quando você percebe que nele litigam Deus e o Diabo entorno do bem e do mal. Quando percebe que o bem venceu, irrompe a beleza expressiva, suave, natural e irradiante. Qual beleza é maior? A do rosto frio de uma top-model ou a do rosto enrugado e cheio de irradiação da Irmã Dulce de Salvador, Bahia, ou a da Madre Tereza de Calcutá? A beleza, característica transcendental, se revela como irradiação do ser. Nas duas Irmãs, a irradiação é manifesta, na top-model existe mas é esmaecida.

O Papa Francisco conferiu especial importância na transmissão da fé cristã à via pulchritudinis (a via da beleza). Não basta que a mensagem seja boa e justa. Ela tem que ser bela, pois só assim chega ao coração das pessoas e suscita o amor que atrai ( Exortação A alegria do Evangelho, n 167). A Igreja não visa o proselitismo mas a atração que vem do amor e da beleza da mensagem que causa fascínio e produz esplendor.

A beleza é um valor em si mesmo. É gratuita e sem interesse. É como a flor que floresce por florescer pouco importa se a olham ou não, como diz o místico Angelus Silesius. Quem não se deixa fascinar por uma flor que sorri gratuitamente ao universo? Assim devemos viver a beleza no meio de um mundo de interesses, trocas e mercadorias. Então ela realiza sua origem sânscrita Bet-El-Za que quer dizer:”o lugar onde Deus brilha”. Brilha por tudo e nos faz também brilhar pelo belo que se irradia de nós.

Leonardo Boff escreveu A força da ternura, Editora Mar de Ideias, Rio 2011.
É filósofo e teólogo, escritor, assessor do projeto Cultivando Agua Boa da Itaipu Binacional  e um dos co-redatores da Carta da Terra

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sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Buscando a Grande Beleza


Por Maria Clara Bingemer


          O filme é sublime e belo.  Como há muito não via nas telas da sétima arte.  Direção, produção, fotografia, trilha sonora, tudo é de uma beleza que enleva, impressiona, a ponto de quase tirar o fôlego. O ator principal, que rouba a cena, transformando todo o resto do elenco em coadjuvantes, atua com maestria e transmite emoção e admiração, com charme, na medida certa e domínio perfeito da arte da representação e do estar em cena.

          Em suma, se fosse apenas isso, já seria muito. Bastante.  Mas não é só isso.  Há mais, muito mais!  Talvez o trunfo maior de “A grande beleza”, dirigida com grande talento por Paolo Sorrentino, é ter também uma temática que vai direto ao nosso coração pós-moderno e perdido no vazio dos dias que se escoam e nos quais muitas vezes não encontramos sentido.

          O personagem é um escritor decadente, que faz inevitavelmente recordar o jornalista Marcello Rubini de “La dolce vita”, vivido pelo inesquecível Marcello Mastroianni. Jep Gambardella, representado pelo excelente Toni Servillo, é o escritor de um só livro que nunca mais conseguiu encontrar inspiração em meio ao vazio da mundanidade em que vive. Quando o filme começa, expressa o desejo de poder que o tomava quando chegou a Roma: não apenas tornar-se um mundano, mas o rei dos mundanos.  Não apenas ser o sucesso das festas, mas ter poder de fazê-las fracassar.

          Em um intrigante jogo invertido de poderes, a mundanidade que o escritor “bon vivant” queria controlar, dominar e metabolizar em sua pessoa, volta-se contra ele e começa a devorar-lhe a inspiração para escrever, a paz interior, a capacidade de amar e a alegria de viver. Incapaz de encontrar o tema e a inspiração para escrever, Jep Gambardella vive de festa em festa, onde ninguém se olha nem se ama e onde é praticamente impossível ter uma conversa sincera e profunda com qualquer pessoa.

          As situações de irrealidade fragmentada da pós-modernidade decadente na Roma de Berlusconi carecem totalmente de sentido e geram em quem não perdeu ainda totalmente a consciência nem a capacidade de desejar um vazio profundo, oco e atemorizante, que pode terminar no suicídio, como o do jovem artista rico; na overdose da stripper; no sucesso literário “fake” da senhora rica que pretende escrever literatura engajada levando uma vida luxuosa; como o de quase todos que cercam um Jep Gambardella perplexo e algo atemorizado.

          O ambiente em que se desenrola sua vida, que não consegue chegar ao porto de um novo livro que clama para ser escrito, é líquido, daquela liquefação com a qual o sociólogo polonês Zygmunt Bauman descreve o mundo contemporâneo.  Nenhum terreno parece firme para os pés e toda beleza tem ar de irreal e enganosa, gerando insegurança e carência de sentido.

          Em meio a isso, uma frase dita pelo protagonista tilinta como um sinal de alerta para ele e para o espectador: “Busco a grande beleza”.  Todo o filme, na verdade, é a narrativa dessa busca, que já dura mais de quarenta anos e ainda está em curso.  Jep Gambardella é um escritor que um dia vislumbrou essa beleza, talvez no amor de sua juventude, que aparece mais de uma vez em duas tomadas de cenas luminosas do cineasta Sorrentino. Ele hoje vive ainda das “rendas” deste único livro de sucesso de quase meio século de idade e sentindo-se solitário e perdido.

          Não deixa de ser instigante o fato de o personagem se dizer em busca da grande beleza quando parece dela cercado por todos os lados na deslumbrante Roma que a câmera de Paolo Sorrentino faz aparecer ainda mais luminosamente esplendorosa. Certamente Jep Gambardella não tem as lentes adequadas para ver essa beleza que se desdobra luxuosamente à sua frente, anestesiado pela insossa opacidade da vida que se passa de noite, entre uma festa e outra, onde o que conta é aparecer, seja qual for o expediente que para isso se utiliza, e o único resultado é o tédio infinito, a desesperada sensação da inutilidade do viver, a falta de sentido e de objetivos suficientes para preencher os vazios existenciais prenhes de nulidade.

          Há alguns lampejos de encontro dessa grande beleza na retina de Gambardella: o amor que sente pela stripper que acaba morrendo ao seu lado; o alumbramento da sua juventude no rosto e no corpo da primeira amada de cuja morte toma conhecimento no começo do filme; o encontro com Suor Maria, a freira velha e desdentada que com um leve sopro provoca a revoada dos cisnes que pousaram no terraço e sobe de joelhos, com suas fracas forças, a Scala Santa.

          A meta da vida de Gambardella é também a nossa, a de todos: buscar a grande beleza.  Toda uma vida não alcança para encontrá-la.  E uma vez vislumbrada, há que seguir buscando-a, desenvolvendo a virtude da atenção, pois certamente ela se revelará onde menos pensamos poder encontrá-la.

         Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio.   A   teóloga é autora de “O  mistério e  o mundo – paixão por Deus em tempo de descrença”  (Editora Rocco).
 Copyright 2014 – MARIA CLARA LUCCHETTI TBINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.brhttp://agape.usuarios.rdc.puc-rio.br/