O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador eucaristia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador eucaristia. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Eucaristia e o corpo feminino II



Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER   
   

         Com  a proximidade da festa de Corpus Christi, convém permanecermos em continuidade  com nossa reflexão na crônica da semana passada: a afinidade simbólica e real  da Eucaristia com o corpo da mulher. Nunca é suficiente o maravilhamento e a  ação de graças diante do milagre que faz com que o corpo da mulher seja o  sacramento, o sinal sensível pelo qual toda nova vida é gerada e  alimentada.
          Assim é que encontramos pelo mundo mulheres que vivenciam isso de diversas maneiras.  Sendo ou não mães biológicas; engravidando ou não; amamentando ou não.  A  realidade aberta de seus corpos permanece referência poderosamente evocativa
da presença real e da transubstanciação que a cada momento todo ser humano  é chamado a sinalizar com sua própria  corporeidade.

          Assim  foi com aquelas mulheres argentinas que com um pano branco na cabeça –  simbolizando as fraldas que haviam tantas vezes trocado em seus filhos  perdidos e desaparecidos – passeavam silenciosas sob a janela do ditador.   Eram donas de casa, mães e avós, apenas.  Começaram a reunir-se  para protestar diante da Casa Rosada, em Buenos Aires.  Foi-lhes dito que  não podiam ficar paradas ali nem falar.  Passaram então a caminhar  silenciosamente.  Todo dia, cada dia, durante muito  tempo.
         O que  traziam as chamadas “loucas” da Praça de Maio?  Traziam para o espaço  público a orfandade dos filhos e netos perdidos, que sabiam mortos e dos quais  reivindicavam ao menos os corpos para enterrá-los dignamente.  Traziam a  ausência dos netos apenas conhecidos e que nunca mais haviam visto. Queriam  criá-los, cuidá-los.  Nada mais privado e familiar do que a reivindicação  daquelas mulheres silenciosas que, com seu gesto eucarístico exposto em praça  pública, contribuíram para desestabilizar uma das mais sangrentas ditaduras do  continente.

          Assim  é também com tantas mulheres que vivem a dor e a frustração tremenda da  pobreza e da desnutrição que as leva a não ter nada em seu magro seio para  alimentar os filhos.  O bispo de Crateús atravessava a cidadezinha  pequena e pobre quando viu uma delas.  Com seu corpo extensivo, tinha  crianças no colo, nas costas, agarradas à saia, ao redor.  Mas o que lhe  chamou a atenção foi o choro desesperado do bebê que estava em seus braços.   Sem dúvida, tinha  fome.
          O bispo  aproximou-se da mulher esquálida e abatida.  E perguntou-lhe por que não  dava de mamar ao bebê. Ela disse não poder fazê-lo.  E ante sua  insistência, abriu o seio sobre o qual o bebê se atirou vorazmente.  E  sugou sangue.  Já não restava nada mais naquele seio que deveria estar  túrgido de leite, mas se apresentava vazio e seco como a terra do sertão onde  a mulher tentava fazer seus filhos sobreviverem à seca inclemente e à  injustiça diuturna e cruel.
          Outras  mulheres que não foram mães biológicas sentiram em si mesmas esse retorcer  eucarístico das entranhas na urgência do dom de sua vida para alimentar  outros.  É assim que Simone Weil, filósofa e mística francesa, pouco  antes de morrer, escreve “desejar ser devorada por Deus, transformada em  substância de Cristo  e dada em alimento a todos os desventurados cujo  corpo e alma sentem falta de alguma espécie de nutrição.”
            É assim  igualmente que Etty Hillesum, a jovem mística judia que morreu aos 29 anos na  câmera de gás em Auschwitz, escreveu em seu diário quando sentiu que as garras  do exército hitlerista se fechavam sobre seu frágil corpo. Enquanto servia e  ajudava os que como ela aguardavam o comboio que os levaria em viagem sem  volta para a Polônia, escreveu: “Eu parti meu corpo como pão e o reparti... E  por que não, eles estavam famintos e sentiam falta disso por tanto  tempo...”
          Corpo  partido e repartido, carne dada e comida e consumida.  Este é o gesto  derradeiro e definitivo de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, em sua  encarnação, vida, morte e ressurreição.  Esta é sua maneira de continuar  presente entre nós. Esta é a graça que temos todos nós, seres humanos – mas de  maneira especial as mulheres – de podermos ser presença real e alimento dado  para saciar todas as fomes que impedem a vida de ser plena.
Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora do Centro de Teologia  e Ciências Humanas da PUC-Rio, é autora de “O  mistério e o mundo” , recém lançado pela Editora Rocco.
Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br) 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

A Eucaristia e o corpo feminino



Por MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER



     A  Eucaristia não é um ritual íntimo e privado. Pelo contrário, tem implicações profundas e radicais nos  níveis antropológicos e sociais. Além disso, o núcleo do mistério -que a Igreja celebra como o ápice da fé e  sacramento da salvação e do amor - pode ser lida a partir de diferentes perspectivas teológicas. Aqui optamos por fazer isso a partir da perspectiva do corpo feminino. Nossa intenção é demonstrar a afinidade simbólica estreita entre a Eucaristia e o corpo feminino, bem como as implicações políticas desta afinidade.

        Hoje podemos ver que a presença real das mulheres em espaços públicos tem crescido consideravelmente. Isso é verdade na Igreja, bem como na reflexão teológica ou orientação espiritual. O fato é que, em todos os casos, a presença das mulheres dentro do social e dos organismos eclesiais aumentou de forma notável. Além disso, a maneira como as mulheres experienciam Deus e pensam sobre o mistério de Deus está sendo considerada cada vez mais como um objeto de trabalho acadêmico que  inspira toda a vida da Igreja.

     Em um universo onde o corpo é tão visível e, principalmente masculino, as mulheres entram como um fator perturbador. Este "problema" ocorre porque seus corpos são “outros”, expressando e tornando visível a experiência de Deus, o pensamento e o discurso sobre Deus, de uma forma diferente e particular. O corpo feminino torna-se então a condição de possibilidade de as mulheres introduzirem uma identidade específica para a discussão sobre espiritualidade, misticismo, e teologia.

     Este corpo feminino tem sido o "lugar" em que as mulheres exibem as suas experiências de ser "presença real" de Cristo no mundo e na Igreja. No entanto, esses mesmos corpos têm sido, em várias ocasiões, fonte de discriminação que as mulheres sofreram e continuam a sofrer na Igreja. Este é um fato terrível, que exige séria reflexão. Se é possível lutar contra a discriminação intelectual (pelo acesso a estudos e de formação), contra a injustiça profissional (buscando especialização e provar capacidade), o que se pode fazer com o próprio corpo? Além disso, as mulheres devem negar e ignorar seus próprios corpos, criados por Deus para ser honrados e entrar em profunda comunhão com o Criador? 

     As mulheres têm uma maneira de experimentar e falar sobre suas experiências espirituais, que são inseparáveis ​​de seus corpos. Apresentam e tornam visível a  própria corporeidade, quando  falam sobre o mistério de Deus, introduzindo uma novidade para a compreensão da vida espiritual e da ação do Espírito de Deus no mundo. Além disso, esse mesmo mistério  de Deus, afetando e configurando a corporeidade sexuada criada da mulher, revela outros aspectos de sua identidade que enriquecem o Povo de Deus.

     Há uma dimensão da vida cristã em que as mulheres surgem como sujeitos privilegiados, e esta é a identificação da sua corporeidade com o sacramento da Eucaristia. O corpo feminino é a expressão exata do sacramento em termos de transubstanciação" e "presença real" em que o corpo e sangue do Senhor sob as espécies  do pão e do vinho, são dadas ao povo como comida e bebida. Alimentar  outros com o próprio corpo é a suprema forma que  o próprio Deus escolheu para estar  definitiva e ensivelmente  presente no meio do seu povo. O pão que partimos e consumimos, que confessamos ser o corpo de Jesus Cristo, remete-nos para o grande mistério da sua encarnação, morte e ressurreição. É sua pessoa dada como alimento, é a sua vida corpórea  feita fonte de vida para os irmãos.
     Antropologicamente, as mulheres são as que têm em sua corporeidade a possibilidade física de viver e proclamar a ação divina realizada na Eucaristia. Durante todo o processo de gestação, parto, proteção e alimento da vida nova, temos o sacramento da Eucaristia, o divino ato por excelência, acontecendo de novo e de novo.

     Por isso, por causa de sua vocação eucarística expressa corporalmente, as mulheres hoje são chamados a reinventar e recriar, no interior do Povo de Deus, uma nova forma de serviço e ministério. Seus corpos,  fonte de tanta desconfiança e preconceito ao longo da história, são uma forma poderosa e iluminadora para uma Igreja que busca uma linguagem e uma imagética nova para comunicar-se em um mundo secularizado e plural.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. é autora de “Crônicas de cá e de lá” (editora Subiaco), que  pode ser  encomendado diretamente à escritora pelo e-mail –  agape@puc-rio.br – R$ 20,00
Copyright 2013 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)