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segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

E, DE REPENTE, AS LÁGRIMAS...

 


 

               Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            E qual será a razão de minhas lágrimas? Assistia à cerimônia de “inauguration” de Joseph Biden como presidente dos Estados Unidos. Havia emoção, alegria discreta, uma liturgia cívica belamente preparada. E a presença das 400 mil vítimas da Covid-19 no país simbolizadas por bandeiras, que tremulavam na manhã luminosamente ensolarada e ventosa. 

            Cultivo uma amizade crítica com o norte da América.  Tenho bons amigos e melhores colegas entre eles.   Nas vezes em que lá residi em diferentes universidades, fazendo semestres sabáticos e outras atividades acadêmicas, sempre experimentei admiração diante do respeito à liberdade, à democracia, à diferença.  São solidários e praticam essa solidariedade.  O mesmo acontece com a fé e a religião. Vivi bonitas experiências por lá em celebrações, sobretudo aquelas preparadas pelos latinos. E também nos espaços ecumênicos e inter-religiosos. 

            A realidade vivida por mim no passado não impede que me indignem certas tendências históricas e políticas internas e externas do país.  Critico seu imperialismo linguístico, uma certa arrogância que crê poder se apossar de tudo e de todos os ambientes como se seus fossem.  No entanto, aprendi a perceber que as feridas maiores da sociedade estadunidense são sentidas com dor por parte dos próprios cidadãos.  E quando se comprometem na luta contra elas, o fazem de corpo inteiro.  É assim com o racismo, a pena de morte, a questão das migrações e outros problemas maiores. 

            Com a eleição de Trump, o país se fraturou de maneira extremamente negativa.  A política agressiva e violenta do ex-presidente afetou a convivência interna do país, mas também e talvez principalmente, sua imagem externa.  Respirava-se um ambiente conflitivo e hostil com relação ao que sempre fora o perfil dos Estados Unidos como terra da acolhida e da liberdade. As crianças migrantes, separadas dos pais, habitando jaulas foi uma imagem que marcou o mundo inteiro. 

            Trump foi eleito em 2016.  E, em 2018, o Brasil deixou perplexos muitos que vimos a ascensão à presidência de um líder que apresentava perfil semelhante. A pandemia escancarou ainda mais a semelhança do estilo de governar.  A tragédia de milhares de vítimas repetiu-se lá e cá.

Diante desta realidade, a eleição presidencial nos Estados Unidos, em outubro, era esperada com ansiedade também aqui, ao sul do Equador.  Por isso, a cerimônia de hoje tocou certamente a afetividade de muitos brasileiros, que viram ali a esperança de algo semelhante para um futuro próximo. 

            A palavra de ordem que vigorou ao longo da cerimônia foi “união”.  Unir um país fraturado, curar as feridas provocadas pelos radicalismos e ódios.  O novo presidente fez seu juramento sobre uma Bíblia antiga, pertencente a sua família há 127 anos. Não era a primeira vez que servia de suporte e garantia ao juramento de serviço à nação de Joseph Biden. Ele usou a mesma Bíblia nas duas vezes em que jurou como vice-presidente de Barack Obama e nas sete vezes em que foi eleito senador pelo estado de Delaware. 

            E, então, de repente senti as lágrimas. Ali cabia emoção de gratidão e esperança.  Foi superado um momento difícil e doloroso para todo um povo. A democracia e a liberdade, mesmo ameaçadas até o último minuto, com tentativas de questionar a legitimidade da eleição e com a terrível invasão do Capitólio, venceram. Ali estava o presidente legitimamente eleito iniciando seu mandato. 

            Não será fácil para a dupla Biden-Harris responder todos os imensos desafios que tem pela frente.  Há uma pandemia em curso, com um número exponencial de vítimas. Há um país ferido e uma população que vive o luto de mais de 400 mil de seus filhos. Há um tecido social a recompor. 

            Mas há esperança e alegria.  Há um futuro possível.  Joe Biden teve que superar várias vezes o luto de seres queridos em sua própria vida.  Esse aprendizado deverá servir-lhe. Kamala Harris, sendo mulher, negra e de ascendência asiática, já nasceu devendo buscar a vida em cada passo de sua vitoriosa trajetória. Certamente isso fará a diferença em seu trabalho. 

            As lágrimas que correram pelo meu rosto trouxeram a esperança de que o Brasil também possa em breve viver um momento assim.  Nosso povo vergado pelas muitas adversidades dos últimos tempos merece acreditar que é possível,  continuar lutando, e esperando, e construindo um futuro digno de seu valor. 

 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

 

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

quinta-feira, 7 de julho de 2016

CHORO OU LÁGRIMAS DE CROCODILO?


Frei Betto


A história do Brasil é marcada por renúncias emblemáticas. D. Pedro I abdicou em favor do filho. Deodoro da Fonseca renunciou ao ver fracassar seu golpe de estado. Vargas idem, desgastado pelo Estado Novo. Jânio renunciou à presidência na tentativa de se tornar ditador, e Collor quando se viu ameaçado pelo impeachment.

      Renúncia de político não costuma ser um reconhecimento de que seu futuro será apenas rememorar o passado. É uma artimanha. D. Pedro I agiu assim para que Portugal não perdesse a sua mais importante colônia. Deodoro, para garantir que o poder continuasse em mãos dos militares. Vargas, para evitar que seus direitos político fossem cassados. Jânio, inebriado pela ideia de voltar como ditador nos braços do povo. E Collor, para se antecipar ao processo de impeachment.

      Eduardo Cunha renuncia à coroa, mas não à majestade. Seu maior temor é perder o mandato de deputado federal e, sem imunidade parlamentar, escorregar das luvas do STF para as masmorras da Lava Jato. Como em um teatro de bonecos, ele admite deixar o proscênio para, nos bastidores, prosseguir manipulando as cordas que regem os movimentos de tantos que literalmente comem em suas mãos.

      Há que tirar o chapéu para a habilidade política do ex-presidente da Câmara dos Deputados. Como é possível postergar por tanto tempo a cassação de seu mandato?

      Ora, não é ele o gênio do mal, e sim a máquina do Legislativo cujas engrenagens são articuladas para fazer coincidir imunidade com impunidade. Por isso, quase não se fala em reforma política.

      Todos os renunciantes tiveram futuro político compensador. D. Pedro I retornou a Portugal como imperador. Deodoro fez seu sucessor o marechal Floriano Peixoto e passou à história como o político que proclamou a República. Vargas voltou à presidência eleito pelo povo em 1954. Jânio foi eleito prefeito de São Paulo em 1985. E Collor, senador em 2007.

      Enquanto nossas instituições políticas se mantiverem como covil de corruptos, nepotistas, carreiristas, fisiologistas e malversadores, salvo honrosas exceções, é difícil acreditar que o choro de Eduardo Cunha significa algo mais do que lágrimas de crocodilo.


Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

AS LÁGRIMAS DO PRESIDENTE


Por Maria Clara Bingemer 


                  
Se o machismo da nossa sociedade ensina que homem não chora, o que dizer quando esse homem é o presidente dos Estados Unidos, nação mais poderosa do mundo?  Talvez por isso mesmo tenha sido tão tocante e surpreendente ver lágrimas rolando pela face ossuda e usualmente serena do presidente Obama.

Seu choro foi de impotência, raiva, compaixão... ou todos esses sentimentos somados. Em suas palavras, enquanto pronunciava discurso pelo controle das armas de fogo, homenageava as vítimas das mesmas, sobretudo as de pouca idade: “de estudantes em Columbine a alunos da primeira série em Newton, todas as famílias que nunca imaginaram que uma pessoa querida seria tirada de suas vidas pela bala de uma arma de fogo. Fico furioso cada vez que penso nessas crianças.” 

O presidente negro enfrenta uma barreira difícil: o lobby dos fabricantes de armas estadunidenses, organização poderosa que apoia o armamento dos cidadãos do país. Por isso, Obama vai com cautela.  Pretende reforçar o controle de antecedentes dos compradores de armas de fogo nos EUA, inclusive pela internet. Deseja igualmente que nos estados da federação as autoridades locais informem ao centro de dados nacional as estatísticas criminais sobre pessoas diagnosticadas com transtornos mentais ou antecedentes de violência familiar. Quer, além disso, que os vendedores de armas informem sobre roubos e extravios, a fim de que o estado possa ter um controle das armas em circulação, onde e desde quando. Localizar e apreender armas roubadas é, sem dúvida, uma forma de reduzir tragédias  produzidas pelas mesmas.

Pretende também minimizar os riscos do porte de armas diminuindo sua periculosidade, com a obrigatoriedade de instalação de  um dispositivo para impeder que sejam ativadas quando manipuladas por usuário não  autorizado. Evitará, assim, que uma criança possa atirar e ferir ou matar alguém com armas de propriedade de seus pais. Quantos relatos já ouvimos sobre crianças que, brincando com armas dos pais, dispararam e ceifaram vidas ou provocaram danos irreparáveis a famílias e comunidades inteiras, inclusive ao futuro da própria criança.

O presidente sabe que conta com a oposição de boa parte do congresso.  Se é verdade que uma parte significativa o apoia, a outra é radicalmente contra sua posição neste sentido. O Partido Republicano não esconde seu apoio incondicional ao uso de armas no país. Mas não se limita a isso: convoca a nação a não mais ignorar a série de atentados que tem acontecido em vários lugares, mas sobretudo em escolas.

O presidente já não pretende mais recorrer “às constantes desculpas de sempre para a falta de ação.” Declara que não funcionam mais, evocando e citando o grande Martin Luther King, que morreu assassinado há 50 anos, defendendo a paz.

Porém, além de Martin Luther King, há certamente outro inspirador para a posição de Obama e seu desejo aparentemente firme e inabalável de conseguir diminuir potencialmente as mortes provocadas pelo uso indiscriminado das armas nos EUA. Recente no tempo e em nossa memória está o discurso do papa Francisco ao Congresso estadunidense. Todos recordamos as corajosas palavras do pontífice quando questionou abertamente o livre comércio de armas: “Por que há tantas armas mortais sendo vendidas àqueles que pretendem infligir sofrimento a indivíduos e sociedades?” Se corajosa foi a pergunta, mais ainda a resposta dada pelo próprio papa: “Infelizmente a resposta, como todos nós sabemos, é: simplesmente por dinheiro; dinheiro encharcado de sangue, frequentemente de sangue inocente.” Francisco declarou em alto e bom som ser dever de todos acabar com o comércio de armas. 

Obama – citando Luther King -  acrescenta que não se pode mais inventar falsas desculpas.  É preciso agir. Sacudido pela emoção, vai dando passos concretos, um após o outro.  A luta não será fácil.

  Que Deus o ajude, assim como a todos aqueles que fazem qualquer esforço, por mínimo que seja, para diminuir o assustador poder da violência que ceifa vidas e dizima o futuro de gerações.

Por Maria Clara Bingemer, professora do departamento de teologia da PUC-Rio
A teóloga é autora de Teologia e literatura - Afinidades e segredos compartilhados (Ed. Vozes)
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