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quinta-feira, 23 de julho de 2015

SAUDADES REMOTAS


Por Frei Betto



     Velhos têm saudades remotas. Talvez não se lembrem onde deixaram os óculos ou em que gaveta guardaram a última conta de luz. São capazes, no entanto, de recordar a infância e o dia em que ganharam de presente um cavalinho de pau.

     Quem sabe o próprio cérebro se retorce na direção do passado, como o último olhar do navegante desterrado de sua pátria. Sim, guardo na memória a foto de meus sapatos de solas de pneu, o uniforme escolar recendendo a sabão de coco, os cadernos e os livros disciplinadamente encapados com papel encerado.

     Guardo saudades do milk-shake da lanchonete De Lucca, do picolé de chocolate da padaria Savassi, dos bondes a escorregarem pelos trilhos que teciam colares prateados pelas ruas arborizadas de Belo Horizonte.

      Tiro da memória retalhos imateriais: o respeito às mulheres e aos idosos, a quem os mais jovens cediam assento nos transportes coletivos; a veneração aos professores, mestres em ampliar conhecimentos e impor disciplina; a reverência aos valores espirituais; os domingos de missa obrigatória.

     Saudades de remar no lago do Parque Municipal, dos piqueniques à beira da lagoa da Pampulha, dos quintais a ensombrearem as casas desprotegidas do medo.

     Sinto o sabor do refrigerante Guarapan; do doce de leite servido nas feiras em copinhos de sorvete; dos pastéis de nata; das balas de coco recortadas a tesoura; e até do que o paladar rejeitava, como a Emulsão Scott à base de óleo de fígado de bacalhau.

      Saudades da infância despreocupada pelas ruas mal iluminadas, do matagal dos terrenos baldios, dos gibis e das figurinhas de coleção. Do trânsito desestressado, dos políticos que morriam pobres, dos trens revestidos de pujança e poesia.

     Recordo os carnavais de rua ao ritmo de uma graciosidade que ainda não se transformara em espetáculo; as procissões com suas Verônicas sensuais a enxugar o rosto macerado de Jesus; os desfiles de 7 de setembro em que os militares eram aplaudidos, desarmados do estigma da ditadura.

     De tanto sonhar com um futuro melhor, hoje me surpreendo acreditando que melhor foi o passado. Não havia crianças de rua, a escola pública era disputada pelas famílias abastadas, as drogas não ameaçavam, de terrorismo nem se falava.

     Vivia-se em um mundo encantado, respirava-se ar saudável, havia decoro.

     Ilusão ou era mesmo um mundo melhor? Não, naqueles tempos era inimaginável falar em proteção do meio ambiente, supor um presidente negro na Casa Branca ou um ex-metalúrgico no Alvorada. Não se concebia a Ásia e a África sem colônias europeias, nem a opinião pública indignada com trabalho escravo, desrespeito aos direitos humanos e políticos corruptos.

     Em muitos aspectos a humanidade piorou: hoje está mais desigual, injusta e beligerante. Trabalha-se por dinheiro, não por ideal. A competitividade supera a solidariedade, assim como a estética corporal predomina sobre a ética espiritual. Há mais religiosidade e menos espiritualidade.

     Contudo, prefiro guardar o pessimismo para dias melhores.

Frei Betto é escritor, autor do romance policial “Hotel Brasil” (Rocco), entre outros livros.
    
Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso Perdido – viagens ao mundo socialista” (Rocco), entre outros livros.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

SAUDADES AO PÉ DE UM IPÊ AMARELO



 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer
  

    Neste momento, meus olhos e pensamento se dirigem para um ipê amarelo. Sob ele repousam e vivem as cinzas do grande educador, teólogo, psicanalista e poeta, o escritor Rubem Alves, falecido há poucos dias.  O ipê amarelo – a beleza – e Cecília Meireles e Fernando Pessoa – a poesia – foram e são, por vontade do próprio Rubem, seus últimos e definitivos companheiros.

    Trata-se de uma morte em perfeita coerência com a vida.  Pois quem semeou mais beleza do que ele, com seu pensar e seus escritos?  Quem jamais viveu tão poeticamente como ele, espalhando poesia por onde passava e ajudando os corações humanos a amá-la?

    Rubem Alves nasceu em 1933 e faleceu em 2014, aos 80 anos.  Já há algum tempo conversava longamente com a morte e transmitia o conteúdo de suas conversas aos leitores e ouvintes.  Assim, por ele e com sua autoridade, ficamos sabendo que quem não conversa com a morte é um irremediável tolo.  Mas isso não significa que Rubem Alves fosse alguém triste ou macambúzio.  Pelo contrário, poucas pessoas amaram mais a vida do que ele. A ponto de dizer que não tinha medo da morte, mas sim pena de ir-se, de despedir-se desta vida tão bonita e que tanto lhe deu.

     Tive contato com Rubem Alves desde os anos 1970, quando ingressei na Faculdade de Teologia da PUC-Rio.  Ali, seus textos eram lidos e debatidos por alguns, pois sempre havia a suspeita se seriam realmente textos rigorosos, teológicos, dignos da formalidade da academia. Alguns sem dúvida o eram: como o famoso Teologia da Esperança, um dos primeiros livros sobre Teologia da Libertação; ou o de Filosofia da Religião, que se tornou um clássico, O que é religião, além do Enigma da Religião e O suspiro dos oprimidos.

     O maravilhoso Conversas com quem gosta de ensinar devolveu o gosto e a alegria a muitas vocações pedagógicas frustradas em nosso país, onde a educação é tristemente maltratada e empurrada para um desonrado último lugar. Ensinar, para Rubem, era uma paixão.  E ele ansiava por transmitir esta paixão a outros, sobretudo aos que tinham diante de si, em seu cotidiano, uma turma de alunos ávidos por aprendizagem e crescimento.

     Os que acompanhamos sua trajetória percebemos que à certa altura da vida a poesia ganhou definitivamente espaço no coração e na criação de Rubem.  E seus textos começaram a ser sempre mais poéticos... sem perder em nada a profundidade e a seriedade que sempre tiveram.

     Lembro-me de um que me marcou de maneira especial: Tênis e frescobol, sobre a relação amorosa entre homem e mulher, o casamento, enfim sobre uniões duradouras e compromissos longevos.  Nunca li nada tão leve, delicioso e, ao mesmo tempo, tão verdadeiro.  Distribuí-o a todos os jovens casais que conhecia e posso testemunhar que foi de grande fruto.

Assim era o querido Rubem Alves.  Amigo da beleza e da poesia.  Aprendiz de vida conversando com a morte.  Crente de uma fé que apostava na pedagogia purificada e purificante do olhar e esperava a ressurreição dos corpos.  Mestre apaixonado pela arte de ensinar e pela transformação que vislumbrava vendo os olhos dos alunos a cada coisa aprendida.  Apaixonado pelas palavras que ajudavam o ver mais, mais longe, mais profundo.

A saudade que sua partida nos provoca é imensa.  Como viver sem ele, seu jeito simples de falar tão belamente sobre as coisas mais sérias e complicadas?  Como não ouvir mais as perguntas sábias e desconcertantes com que nos fazia pensar: por que o caqui é vermelho? Voltarei para o lugar onde estive sempre, antes de nascer, antes do Big Bang? 

Porém, com ele mesmo aprendemos que “a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”.  Sentindo a saudade do mestre admirado e querido, a alma me conduz para o pé do ipê amarelo, onde suas cinzas foram lançadas; e me faz voar para mergulhar e olhar com seus olhos a poesia de Cecília e Pessoa; e me faz olhar as pérolas que as ostras produzem com outros olhos e sentimento; e me faz amar as palavras, para que elas digam com mais verdade o que o olhar contempla.

Muito aprendi, muito aprendemos com Rubem Alves, com sua refinada simplicidade, com sua alma de poeta, com seu olhar transfigurado pela beleza.  Importa agora seguir suas pegadas de pedagogo encantado e encantador.  E seguir, como ele, encantando gerações para que descubram, em meio à opacidade cinzenta da vida, o multicolorido das flores e das asas das borboletas.

 Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros. (wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape)

 Copyright 2014 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

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