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sábado, 1 de dezembro de 2012

ESCREVER-SE


por MARIA CLARA BINGEMER
    Um escritor francês de quem muito gosto, Gilbert Cesbron, dizia que o único critério de verificação para alguém saber se é realmente ou não um escritor é perguntar-se se pode viver sem escrever.

          Fiz a mim mesma esta pergunta algumas, várias, muitas vezes.  E a resposta foi sempre a mesma.  Não, não consigo viver sem a página em branco – agora tela em branco -  que me convoca e a pena na mão que treme, hoje substituída pelos dedos no teclado... que também tremem.
          Por que o tremor? Por causa do temor... íntimo, profundo e quase santo da responsabilidade que é criar um texto, formar palavras, agrupar letras, encadear sílabas que outros lerão.  E quando o leitor ou leitora é apenas o eu que treme não é menor o temor, nem menos avultada a responsabilidade. 


          Pois escrever é fixar, é guardar, é inscrever no tempo e no espaço da folha ou da tela algo que, mesmo desconhecido para a maioria, passará a fazer parte da história da humanidade como síntese única e experiência irrepetível.  E porque sabiam disso, os grandes mestres espirituais da história sempre disseram a seus discípulos que escrevessem.  


          E porque os discípulos obedeceram temos hoje a monumental obra de Teresa de Ávila acessível a nossos olhos, corações e mentes.  Algo análogo aconteceu com muitos outros e outras que, mesmo não obedecendo a outro em quem reconheciam autoridade para tal, escolheram escrever-se e narrar-se a página de um anônimo caderno impulsionados por razões interiores profundas e verdadeiras.


          Pois ao lado da escolha por escrever para dar sentido à vida está presente igualmente a pulsão pela escrita de si para salvar-se da morte.  Quem escreve um diário busca, além de entender-se e ao mundo que o rodeia, colocar-se protegido do caos e do tempo que passa, inexorável.  E assim, como afirma Maurice Blanchot, salvar o vivido no escrito e salvar a vida mediante a escrita.  


          Em todo caso, exercício ascético, literário ou filosófico, o fato é que escrever-se é uma prática recorrente e viva por parte da humanidade.  Testemunhas disso são os preciosos diários e livros confessionais e de memórias que brotaram da experiência e da pena de tantos gênios e santos (como Santo Inácio de Loyola, Etty Hillesum.  E também Pedro Nava, Walter Benjamin e inúmeros outros e outras).


          Michel Foucault, em seu memorável texto “A escrita de si”, reflete sobre  a escrita dos movimentos interiores como exercício ascético.  Escrever os próprios desejos, pensamentos, impulsos, é aprender a conhecê-los e consequentemente poder dominá-los e exercer controle sobre eles.  Assim também escrever tentações, maus desejos, pensamentos destrutivos, arranca o desejo do anonimato em que se encontra, escondido ao fundo da liberdade humana,  e o expõe no código da escrita.  


          Refletindo sobre a vida de Santo Antão, famoso padre do deserto, campeão de ascese e santidade, Santo Atanásio – citado por Foucault no texto acima -  exalta as virtudes da escrita como disciplina excelente que descobre os maus pensamentos, tentações e pecados ao próprio indivíduo e exerce papel semelhante ao da comunidade que corrige fraternamente o homem religioso que busca a perfeição. “Aquilo que os outros são para o asceta numa  comunidade, sê-lo-á o caderno de notas para o solitário” .


          No fundo, toda essa reflexão vai demonstrando que por mais objetiva que seja a escrita e por maior neutralidade que pretenda o escritor, escreve-se sempre para si mesmo e a partir de si mesmo.  Não escreve quem não passou pelo crivo da experiência a narrativa que constrói, os personagens que cria, as situações que inventa.  E tampouco as definições, argumentações e teses que rigorosamente encadeiam no texto acadêmico, dirigindo-se à razão alheia, mas não deixando de tocar nos elementos vitais sem os quais essa razão não merece o nome de humana. 


          Em um tempo em que a narrativa – como experiência, como exercício, como prática lúdica ou docente – parece estar em crise ou mesmo desaparecendo, a escrita de si adquire o cunho de resistência, resiliência, de quem não desiste de permanecer na contramão do tempo cronológico.
 


 
Autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco) Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio

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ESTUDAR TEOLOGIA HOJE


por FREI BETTO


       Soa anacrônico falar em teologia – estudo dos temas relacionados a Deus – em uma época de hiper-racionalismo, dominada pelas duas filhas diletas da modernidade: a ciência e a tecnologia.


       Ora, se olharmos em volta vemos que a teologia se faz necessária e atual. Com a crise das ideologias libertárias, após a queda do Muro de Berlim, há emergência dos fundamentalismos religiosos, tanto no Ocidente quanto Oriente, pautando políticas agressivas que ignoram leis e princípios humanitários.


       Em nome de Deus, atos terroristas são perpetrados, o mundo é dividido entre “eixo do mal” e “eixo do bem”, pessoas de crenças religiosas diferentes são encaradas como hereges ou até mesmo diabólicas. Mesmo na eleições no Brasil o tema religião adquire preponderância.


       Não se pode entender o mundo atual e suas perspectivas futuras sem um mínimo de conhecimento teológico. Por que judaísmo, cristianismo e islamismo derivam do mesmo patriarca Abraão? Quais as convergências e diferenças entre essas três religiões do livro? O que têm a nos ensinar as religiões orientais, como o budismo? Como as tradições religiosas indígenas e africanas marcam a América Latina e o Brasil?


       O Concílio Vaticano II (1962-1965) procurou atualizar a Igreja Católica. Hoje, seus desdobramentos exigem um novo perfil de Igreja e uma nova evangelização, na qual os leigos desempenham papel preponderante. O aprendizado da teologia nos permite compreender melhor as resistências de setores católicos às decisões do Concílio, a tensão entre clericalismo e secularização, os impasses do ecumenismo e do diálogo inter-religioso, os fenômenos do agnosticismo e do ateísmo.


       Enganam-se aqueles que pensam ser a teologia uma “metafísica dos anjos”, que exige necessariamente conhecimentos de grego e de latim. A teologia é um amplo leque de possibilidades de apreensão do Mistério que imprime à nossa existência um caráter transcendente. Graças a seu estudo, penetramos no mundo bíblico, desvendamos a história da Igreja, conhecemos a patrística grega e latina, entendemos melhor o papel das Comunidades Eclesiais de Base e da Teologia da Libertação, identificamos nos fatos da atualidade política o pano de fundo religioso.


       Um bom curso de teologia supre esta grande falha da Igreja Católica: não oferecer aos adultos uma atualização catequética. Muitos guardam, na idade adulta, noções próprias da catequese infantil. Ora, não se pode dirigir um carro por ter aprendido a andar de velocípede. O estudo da teologia articula conhecimentos religiosos com outros ramos do saber, como filosofia, antropologia, ecologia, astrofísica etc.


       É essa atualização que a Escola Dominicana de Teologia, em São Paulo, oferece a seus alunos e alunas. Aberta a leigos(as), religiosos(as) e seminaristas, dispõe de uma biblioteca que abriga 50 mil volumes e conta com recursos de tecnologia da informática.


       Venha estudar teologia! Venha para a Escola Dominicana de Teologia!
       Contatos: secretaria@edt.edu.br
ou tel. (11) 2592-0372. Rua São Daniel, 119, próximo ao metro Alto do Ipiranga, São Paulo. Peça o programa do curso e outras informações.
 


PORQUE DAR GRAÇAS


por MARCELO BARROS


No Brasil, desde os anos da ditadura, os governos têm se esforçado para integrar no calendário festivo a última quinta feira de novembro como dia nacional de ação de graças. Apesar dos cultos feitos em catedrais e de shows de músicas religiosas, promovidos por prefeituras, esse feriado norte-americano não se enraizou no Brasil. Nos Estados Unidos e alguns outros países marcados pela cultura norte-americana, o dia de ação de graças é uma grande festa de confraternização. Só quem não dá graças é o peru morto na véspera para alimentar as famílias que agradecem. 

Sem dúvida, é positivo que sejamos educados e sempre convidados a desenvolver sentimentos de reconhecimento e gratidão. É importante ser gratos a Deus ou para quem não crê, cantar como Violeta Parra, “gracias à la vida”, uns aos outros e ao universo. A gratidão e a alegria de dizer sim fazem parte de uma postura de amor. E há sempre mil razões para se alegrar e para dar graças. Mas, para que a ação de graças seja verdadeira tem de ser coerente e justa. Não podemos usar a ação de graças como argumento para atribuir a Deus, ou ao destino e à vida, coisas que nada têm a ver com Deus ou com a bênção da vida. É provável que até hoje, muitas pessoas atribuam a Deus a riqueza que possuem, o êxito que tiveram ao explorar os outros ou o fato de que outros morreram, mas a tal pessoa que agradece escapou sã e salva. Há movimentos espiritualistas, católicos e evangélicos, que leem ao pé da letra o versículo do salmo que diz como palavra de Deus para o seu fiel: “Podem cair mil ao teu lado, dez mil à tua direita, a ti nada de mal atingirá” (Cf Salmo 91, 7). 

Sobre tudo isso, é preciso deixar claro: o Deus que salva alguns privilegiados e deixa morrer ou sofrer uma porção de outros filhos não é pai de todos. Ao contrário, é o Deus do capitalismo selvagem. Não merece nossa adoração. É o ídolo ao qual os ricos podem agradecer o fato de ter uma casa confortável, o carro do ano ou uma boa conta no banco. Assim, no dia de ação de graças, uma pequena elite tem muito o que agradecer, enquanto a multidão dos empobrecidos ou agradece os bens espirituais, já que não possuem nada, ou iludidos e alienados, agradece ao Deus da elite os benefícios dados aos seus patrões.

Na Bíblia, o livro dos Salmos é a coleção dos hinos de louvor e agradecimento a Deus. Os salmos nos ensinam a um louvor que sempre une a pessoa que ora à comunidade de todo o povo de Israel e à história real da humanidade. A relação com Deus não se dá na legitimação das estruturas injustas. No mundo, ocorrem muitas coisas que não são do agrado de Deus e nem correspondem à sua vontade. Agradecer a Deus a obtenção de riquezas injustas é insultá-lo e chamá-lo de protetor de ladrões e malfeitores, diz o livro do Eclesiástico (Eclo 18, 34 ss). Os evangelhos contam que Jesus agradeceu ao Pai de uma forma muito diferente: “Pai, eu te agradeço, porque escondeste tuas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos simples e aos pequeninos” (Mt 11, 25).   

O CAMINHO COMO ARQUÉTIPO


por LEONARDO BOFF

Tenho especial fascínio por caminhos, especialmente caminhos de roça, que sobem penosamente a montanha e desaparecem na curva da mata. Ou caminhos cobertos de folhas de outono, multicores e emtardes mortiças, pelos quais andava nos meus tempos de estudante, nos Alpes do sul da Alemanha. É que os caminhos estão dentro de nós. E há que se perguntar aos caminhos o porquê das distâncias, porquê, por vezes, são tortuosos, cansativos e difíceis de percorrer. Eles guardam os segredos dos pés dos caminhantes, o peso de sua tristeza, a leveza de sua alegria ao encontrar apessoa amada.
O caminho constitui um dos arquétipos mais ancestrais da psiqué humana. O ser humano guarda a memória de todo o caminho perseguido pelos 13,7 bilhões de anos do processo de evolução. Especialmente guarda a memória de quando nossos antepassados emergiram: o ramo dos vertebrados, a classe dos mamíferos, a ordem dos primatas, a família dos hominidas, o gênero homo, a espécie sapiens/demens atual.

Por causa desta incomensurável memória, o caminho humano apresenta-se tão complexo e, por vezes, indecifrável. No caminho de cada pessoa trabalham sempre milhões e milhões de experiências de caminhos passados e andados por infindáveis gerações. A tarefa de cada um éprolongar este caminho e fazer o seu caminho de tal forma que melhore e aprofunde o caminho recebido, endireite o torto e legue aos futuros caminhantes, um caminho enriquecido com sua pisada.

Sempre o caminho foi e continua sendo uma experiência de rumo que indica a meta e, simultaneamente, ele é o meio pelo qual se alcança a meta. Sem caminho nos sentimos perdidos, interior e exteriormente. Mergulhamos na escuridão e na confusão. Como hoje, a humanidade, sem rumo e num voo cego, sem bússula e estrelas a orientar as noites ameaçadoras.
Cada ser humano é homo viator, é um caminhante pelas estradas da vida. Como diz o poeta cantante indígena argentino Atahulpa Yupanki, “o ser humano é a Terra que caminha”. Não recebemos a existência pronta. Devemos construí-la. E para isso importa rasgar caminho, a partir epara além dos caminhos andados que nos antecederam. Mesmo assim, o nosso caminho pessoal e particular nunca é dado uma vez por todas. Tem que ser construído com criatividade e destemor. Como diz o poeta espanhol António Machado: “caminhante, não há caminho, se faz caminho caminhando”.
Efetivamente, estamos sempre a caminho de nós mesmos. 

Fundamentalmente, ou nos realizamos ou nos perdemos. Por isso, há basicamente dois caminhos como diz o primeiro salmo da Bíblia: o caminho do justo e o caminho do ímpio, o caminho da luz ou o caminho das trevas, o caminho do egoísmo ou o caminho da solidariedade, o caminho do amor ou o caminho da indiferença, o caminho da paz ou o caminho do conflito. Numa palavra: ou o caminho que leva a um fim bom ou o caminho que leva a um abismo.

Mas prestemos a atenção: a condição humana concreta é sempre a coexistência dosdois caminhos e o entrecruzamento entre eles. No bom caminho se esconde também o mau. No mau, o bom. Ambos atravessam nosso coração. Essa é o nosso drama que pode se transformar em crise e até em tragédia.

Como é difícil separar totalmente o joio do trigo, o bom do mau caminho, somos obrigados fazer umaopção fundamental por um deles: pelo bom embora nos custe renúncias e até nos traga desvantagens; mas pelo menos nos dá a paz da consciência e a percepção de fazermos o certo. E há os que optam pelo caminho do mal: este é mais fácil, não impõe nenhum constrangimento, pois vale tudo contanto que traga vantagens. Mas cobra um preço: a acusação da consciência e os riscos de punições e até da eliminação.
Mas a opção fundamental confere a qualidade ética ao caminho humano. Se optamos pelo bom caminho, não serão pequenos passos equivocados ou tropeços que irão destruir o caminho e seu rumo. O que conta realmente frente à consciência e diante dAquele que a todos julga com justiça, é esta opção fundamental.

Por esta razão, a tendência dominante na teologia moral cristã é substituir a linguagem de pecado venial ou mortal por outra mais adequada à unidade do caminho humano: fidelidade ou infidelidade à opção fundamental. Não se há de isolar atos e julga-los desconectados da opção fundamental. Trata-se de captar a atitude básica e o projeto de fundo que se traduz em atos e que unifica a direção da vida. Se esta opta pelo bem, com constância e fidelidade, será ela que conferirá maior ou menor bondade aos atos, não obstante os altos e baixos que sempre ocorrem mas que não chegam a destruir o caminho do bem. Este vive no estado de graça. Mas há também os que optaram pelo caminho do mal. Por certo passarão pela severa clínica de Deuscaso acolherem misericórdia de suas maldades.

Não há escapatória: temos que escolher que caminho construir e como seguir por ele, sabendo que “viver é perigoso”(G. Rosa). Mas nunca andamos sós. Multidões caminham conosco, solidárias no mesmo destino acompanhadas por Alguém chamado:”Emanuel, Deus conosco”.