O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador Marcelo Barros. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Marcelo Barros. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 26 de setembro de 2023

Encontro do Povo de Deus – Junto na Caminhada

Marcelo Barros



A comunidade ecumênica de Taizé na França e mais 60 organizações ecumênicas, assim como várias federações de igrejas  evangélicas estão convidando juventudes de todo o mundo para se unir em oração e vigília em um projeto chamado em inglês Togheter (juntos). É um processo de diálogo e de caminho em comum que jovens de 18 a 35 anos são chamados a percorrer. Enquanto em Roma, no dia 4 de outubro, se abre a primeira sessão mundial do Sínodo dos Bispos sobre o caminho da sinodalidade que a Igreja deve percorrer, as mais diversas juventudes da Igreja e do mundo são convidadas a se reunirem para ensaiarem caminhos para a unidade e a paz da humanidade, no cuidado com a Mãe-Terra, nossa casa comum.


O início desse processo acontecerá no sábado 30 de setembro e foi convocado pelo papa Francisco. No domingo, 15 de Janeiro deste ano, em Roma, no final da oração do Angelus, o Papa Francisco anunciou que os trabalhos da próxima assembleia do Sínodo da Igreja Católica serão recedidos por uma vigília ecumênica de oração, a ser realizada, no sábado 30 de Setembro na Praça de São Pedro. Ele afirmou:

«O caminho da unidade dos cristãos e o caminho da conversão sinodal da Igreja estão ligados. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para anunciar que no sábado 30 de Setembro haverá uma vigília de oração ecuménica na Praça de São Pedro, onde confiaremos a Deus os trabalhos da 16ª Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos. Para os jovens que virão à vigília, haverá um programa especial durante todo o fim-de-semana, animado pela Comunidade de Taizé. Desde já, convido os irmãos e as irmãs de todas as confissões cristãs a participar neste "Encontro do Povo de Deus»

Esse Encontro do Povo de Deus está sendo preparado há vários meses por representantes de cerca de 50 organizações e entidades de várias Igrejas e de caráter ecumênico. Ao mesmo tempo que jovens de 18 a 35 anos, vindos de toda a Europa se encontrarão na noite do sábado, 30 de setembro, na Praça de São Pedro, em Roma, as organizações desse projeto Togheter propõem que nas mais diferentes regiões, por todo esse mundo de Deus, jovens e adultos se encontrem em vigílias de oração e de caminhada para formar uma rede de energia amorosa e de paz que inunde o mundo.

Na escuridão de nossas noites, vamos acender velas que simbolizem luz para os caminhos a seguir. Assim, poderemos retomar a profecia do projeto divino da Paz e da Justiça, de forma não violenta, a partir da organização de pequenas comunidades de Pastoral de Juventude  (PJ), de redes ecumênicas de jovens ou de grupos independentes que possam ser células e laboratórios que ensaiem um novo mundo possível.

Quem quiser seguir as informações sobre a vigília em Roma, veja:

https://together2023.net/pt/info-page/genese-do-projecto/

Quem desejar se inscrever, aí vai o site para a inclusão: 

https://together2023.net/pt/info-page/carta-de-inclusao/

Nesse momento do mundo, para enfrentarmos os desafios atuais, as guerras, conflitos e divisões que ferem a família humana, precisamos escutar de modo novo e diferente os gritos dos povos crucificados pelo Capitalismo e pela desumanidade da elite que se apodera para si dos bens de toda a terra.

É o Espírito de Deus, a Divina Ruah, que nos chama e nos abre um caminho para avançarmos com o Cristo, como companheiros de viagem, juntamente com a multidão dos/das excluídos/as que vivem à margem das nossas sociedades. Nessa viagem, num diálogo que reconcilia, queremos recordar que precisamos uns dos/as outros/as, não para quepossamos ser mais fortes juntos, mas como contribuição para a paz na família humana.

Queremos juntos escutar os gritos e gemidos da Mãe Terra e, assim, no encontro e na escuta mútua, caminhemos juntos como o povo de Deus, profecia de uma humanidade reconciliada e unida. E aí experimentaremos a verdade do que escreveu o apóstolo Paulo: “Onde estiver o Espírito de Deus, aí haverá a liberdade” (2 Cor 3, 6).

terça-feira, 12 de setembro de 2023

No grito dos excluídos, o Mutirão da Profecia


Marcelo Barros


Nesta próxima semana, ao mesmo tempo que, por todo o Brasil,

acontecem cerimônias e eventos que recordam a independência do nosso

país, também as categorias mais pobres expressarão o seu grito por Vida e

por Libertação. Desde 1995, as comemorações da independência do Brasil

têm sido marcadas pelas manifestações populares que se chamam Grito dos

Excluídos. Esse evento teve origem em meio às pastorais sociais ligadas à

CNBB na realização da 2ª Semana Social Brasileira. E embora tenha sido

iniciativa das pastorais sociais, desde o começo, o Grito dos Excluídos e

excluídas se abriu à participação dos movimentos populares e de entidades

cristãs ecumênicas como o CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

Neste ano, o 29º Grito tem como sempre o tema: “Vida em

Primeiro Lugar” . O lema é a pergunta: “Você tem Fome e Sede de Quê?”.

A ideia é provocar entre o povo o diálogo baseado na escuta sobre essas

questões. O objetivo é responder quais as fomes e sedes que o nosso povo

sente. Assim, a partir dos anseios do povo mais empobrecido, poderemos

buscar soluções que acabem com toda forma de exclusão e violência.

Atualmente, de norte a sul, em todo o país, há mobilizações do

Grito dos Excluídos. Realiza-se como manifestação coletiva que se soma à

construção em processo da 6ª Semana Social Brasileira. Estão mobilizadas

as pastorais de Igrejas cristãs, movimentos populares e pessoas de boa

vontade sensíveis aos sofrimentos dos mais pobres para que possamos

defender e garantir os direitos dos pobres e marginalizados. Desde os seus

inícios, o Grito dos Excluídos e excluídas nos confirma que não há

verdadeira independência do país, se a imensa maioria do povo vive em

condições de pobreza injusta e de insegurança alimentar. Só poderemos

considerar o país independente no dia em que conseguirmos superar a

imensa desigualdade social e garantir os direitos fundamentais à Vida, à

alimentação, à educação, à moradia e à saúde para todos os brasileiros e

brasileiras.


Essa realidade que vivemos hoje tem profundas raízes no sistema

da colonização que se instalou em nosso continente há mais de 500 anos e

se fortaleceu através das tentativas de extermínio dos povos indígenas e da

escravização dos povos sequestrados na África. Infelizmente, ao legitimar

essa estrutura iníqua, a Igreja Católica e outras Igrejas cristãs contraíram

uma dívida histórica com as populações vítimas desse sistema. Cumpre

agora saldar essa dívida.


Desde tempos imemoriais, os impérios usaram as religiões e os

cultos para se perpetuarem no poder. Por isso, durante toda a história, em

diversas culturas e nas mais diferentes linguagens espirituais, surgiram


profetas e profetizas que protestaram contra a religião usada como

instrumento do poder para dominar as pessoas. Na Bíblia, os antigos

profetas e profetizas sempre insistiram que o nome de Deus é Justiça

libertadora. Maria, mãe de Jesus cantou que se Deus é Deus, derruba do

trono os poderosos e eleva os pequenos. Na sinagoga de Nazaré, Jesus

afirma que o Espírito Divino desceu sobre ele para realizar a libertação de

todas as pessoas oprimidas. Não foi por engano que os funcionários do

templo e da religião ritual o prenderam e o entregaram aos militares

romanos para ser condenado a morrer na cruz!


Atualmente, Francisco, bispo de Roma, propõe uma Igreja em

saída que cuida dos migrantes, dos pobres e das populações excluídas,

apesar de um grande número de padres e bispos se agarrarem a uma

religião autocentrada e tentarem reativar o Catolicismo barroco de tempos

passados.

Diante disso, cristãos de várias Igrejas têm sentido o chamado divino para

reafirmar o caráter profético da fé cristã e querem unir as suas vozes ao 29º

Grito dos Excluídos através do Mutirão da Profecia.


É preciso dizer claramente ao mundo que a fé e a espiritualidade

devem tornar as pessoas mais humanas e atentas ao cuidado dos pobres.

Para isso, temos os sacramentos da Igreja, que, ou são sinais de partilha e

comunhão de vida para todos e todas, ou não são de Jesus Cristo. Assim, a

fé no Evangelho que Jesus anunciou como boa nova de libertação para toda

a humanidade nos levará a clamar que ninguém passe fome nem sede.

terça-feira, 18 de julho de 2023

O Caminho espiritual da solidariedade compassiva


Marcelo Barros 


Para os povos da América Latina e movimentos populares, o mês de julho traz recordações importantes. No dia 24 de julho de 1783, nasceuSimon Bolívar, o libertador. Em julho, países como Cuba e Nicaráguacelebram dias importantes no processo de sua libertação. No 17 de julho,recordamos a páscoa de Bartolomeu de las Casas, que, no século XVI,atuou no Caribe, no sul do México e na América Central. Era fradedominicano que, ao ver o sofrimento dos índios se converteu e se tornoumissionário e teólogo para lutar contra a escravidão. Defendeu a dignidadedos índios junto ao rei da Espanha e escreveu o primeiro tratado de teologiae espiritualidade que ensina: nos corpos dos índios escravizados, é o próprio Jesus Cristo que é explorado pelos que se dizem cristãos.

Atualmente, quase cinco séculos depois, podemos lamentar queao protestar contra a escravidão indígena, Las Casas não tenha sabido denunciar o próprio sistema colonizador em si mesmo. E há quem o acuse de ter aceito o tráfico e a escravidão dos africanos para substituir os índios nas minas e engenhos da colonização. Não há provas disso. De fato, ao morrer em 1566, Las Casas não chegou a antever esse problema. O tráfico de africanos sequestrados para ser escravos na América floresceu mais em época posterior, a partir das últimas décadas do século XVI. Seja como for mesmo com suas contradições, os escritos desse grande missionário são referência para nova concepção intercultural de missão e de leitura da história a partir das vítimas e não dos vencedores.

A espiritualidade lascasiana sustenta que a missão cristã não pode ter como objetivo conquistar adeptos para a fé. Deve valorizar a presença divina em toda realidade humana e respeitar a diversidade das culturas. Se não for assim, as missões católicas e evangélicas levam às comunidades indígenas não a boa notícia do evangelho de Jesus e sim destruição das culturas, colonialismo e morte.

Ainda em nossos dias, no Brasil, povos indígenas continuam massacrados, vítimas de um modelo de progresso que olha os índios como estorvo para a concentração de terras, o agronegócio e os lucros das grandes empresas. Na Amazônia, os Ianomami e vários outros povos continuam perseguidos e massacrados.

A memória de Las Casas nos chama a defender a vida e a liberdade dos índios pelas razões humanas e sociais, mas também como exigência espiritual da nossa fé. Não podemos aceitar projetos como o Marco Temporal que nega aos povos originários o direito a suas terras ancestrais. Em 1815, em sua “Carta a Jamaica”, Simon Bolívar considera o elemento religioso como aglutinante da alma americana e formula “a necessidade urgente de uma união de nossos povos, ligados por elementos culturais e religiosos comuns”.

Nestes dias, de 18 a 22 de julho, em Rondonópolis, MT, se reúne o XV Encontro intereclesial de comunidades eclesiais de base com o tema: CEBs; Igreja em saída, na busca da vida plena para todos e todas!” O lema do encontro é a palavra bíblica: “Vejam! Eu vou criar Novo Céu e uma Nova Terra” (Is 65, 17). O Amor Divino quer realizar essa renovação da vida e do mundo através de nós. Essa deve ser a nossa espiritualidade.

terça-feira, 20 de junho de 2023

Festas juninas e a cidadania

 Marcelo Barros



Na segunda quinzena de junho, em várias regiões do Brasil, o clima é de festas juninas. Em São Luis e algumas cidades do Maranhão, os festejos do Bumba-meu-boi recordam costumes que vêm de séculos. Por todo o Nordeste, a fogueira e comidas de milho verde são acompanhadas por Quadrilhas e brincadeiras próprias da festa. Caruaru e Campina Grande disputam entre si quem tem o maior São João do mundo.

Para as culturas tradicionais, tanto dos povos indígenas, como das populações do campo e do sertão, junho representa o tempo da colheita do milho no Nordeste e no sul, a coleta do mate. Ainda há povos indígenas, para os quais esses festejos comemoram o início do ano novo. Na cordilheira dos Andes, as comunidades indígenas festejam o Inti-Rami, a festa do rei Sol, inscrita nos calendários oficiais da Bolívia, Peru e Equador. Na Argentina, Paraguai e sul do Brasil, os Guarani chamam este tempo de Ara Pyaú (Tempo Novo). É o batismo da erva mate, o ka’a  nheemongaraí, cujas projeções sobre o ano novo são interpretadas pelo Xeramoi (pajé). Também se celebra a cerimônia de nominação, quando as crianças recebem o nome guarani dado pelo pajé. Devido a influências católicas, esse ritual é chamado de “batismo guarani”.

As danças juninas mais comuns vieram das cortes da Europa. Quadrilhas eram danças da nobreza europeia nos tempos da colonização. O povo se apropriou delas e as democratizou. Atualmente, nos chamados “casamentos caipiras”, figuras como a do padre e do juiz da roça são caricaturados. Assim, pessoas pobres que não têm voz na sociedade expressam sua crítica social e seu protesto. O fato de tomar como padroeiros das festas juninas Santo Antônio, São João Batista e São Pedro se vincula aos tempos em que tudo era religioso. Revela resistência cultural e liga esses santos à realidade dos pobres de hoje. O espírito dessas festas pede que as pessoas e comunidades possam ir além da criatividade com a qual ensaiam uma dança de quadrilha ou encenação caipira. É urgente ensaiar uma sociedade nova na qual todos e todas sejam protagonistas e restabelecer a dignidade da Política, colocada a serviço do Bem Comum.

Enquanto o povo brinca as festas juninas, políticos de direita se organizam para impedir o governo federal de cumprir suas metas e fazer o Brasil voltar. O presidente da Câmara mostra suas garras de coronel que faz política em função de si mesmo.  O governo que, para vencer eleições teve de fazer acordo com ampla faixa de partidos e bancadas, é coagido a pagar preço altíssimo.  Em meio a tudo isso, a governabilidade oficial, garantida pela relação entre os três poderes, acaba dificultando a comunicação direta do governo com o povo que continua sendo mais testemunha e assistente da politicagem dos grandes do que participante ativo em uma Política na qual todos possam ser cidadãos e cidadãs.  

Para quem vive um caminho espiritual, religioso ou não, se trata de sinalizar o projeto de um mundo novo possível. Do seu modo e em sua linguagem lúdica, as festas juninas traduzem uma palavra que os evangelhos atribuem a São João Batista: “Mudem de vida porque o projeto divino no mundo está próximo!” (Mt 3, 2).

terça-feira, 2 de maio de 2023

Convite para um Mutirão da Profecia

 Marcelo Barros


No mundo, o Brasil continua sendo um dos países campeões em desigualdade social. Neste panorama, muitos ministros e grupos pentecostais, evangélicos e católicos dão testemunho de um Deus que não é Amor e legitima o ódio, a violência e as discriminações sociais.  As pesquisas revelam que entre os dez brasileiros mais ricos do mundo, dois se dizem pastores de Igrejas cristãs.

Infelizmente, alguns grupos católicos e evangélicos, inclusive parte do clero e de pastores não ligam a fé com a justiça e apoiam políticas contrárias aos direitos da população mais pobre. Nas paróquias e comunidades locais, promovem um tipo de devocionalismo superficial de caráter espiritualista, que parece inocente, mas encobre um ritualismo religioso que tenta abafar a profecia da fé e legitimar a sociedade injusta e desumana.

Diante disso, é bom recordar a proposta que, em 1968, os bispos católicos da América Latina afirmaram: “Que se apresente cada vez mais nítido, na América Latina, o rosto de uma Igreja pobre, missionária e pascal, desligada de todo poder temporal e corajosamente comprometida na libertação de cada ser humano e de toda a humanidade” (Medellin. 5, 15).

Atualmente, não basta mais que nossas Igrejas falem em “pastoral da dimensão sócio-transformadora da fé, até porque, se a fé cristã vem de Jesus, o modo dele viver a fé tem a profecia como eixo fundamental e estruturante de toda a sua vida e sua ação. Para reafirmar isso, em várias regiões do Brasil, cristãos e cristãs de várias Igrejas se mobilizam e convidam pessoas de todas as religiões para, juntos, renovar o compromisso das Igrejas e religiões com a libertação de toda a humanidade e da mãe-Terra. 

Há quase 60 anos, durante o Concílio Vaticano II, um grupo de bispos católicos assumiram um compromisso de assumirem a pobreza evangélica e a comunhão com os pobres como estilo de vida e jeito de ser da Igreja. Em 2019, em Roma, durante o Sínodo para a Amazônia, bispos, padres, missionários e pastores evangélicos, junto com representantes dos povos originários renovaram esse mesmo compromisso de comunhão com os pobres e “por uma Igreja com rosto amazônico, pobre e servidora, profética e samaritana”.

Em nossos dias, essa proposta se atualiza pelo convite a um mutirão da profecia. Até o dia 7 de setembro, dia nacional do Grito dos Excluídos, os grupos cristãos e até núcleos ligados a outras expressões de fé são convidados a expressar, do modo que quiserem e da forma que desejarem, o caráter profético da sua espiritualidade. O importante é que renovem sua aliança com as categorias mais pobres de nossa população e com o cuidado com a mãe-Terra e com a Ecologia Integral. 

 

terça-feira, 11 de abril de 2023

Páscoa – parto de Vida e Liberdade

 

Marcelo Barros


 

Nestes dias, as Igrejas cristãs celebram a festa da Páscoa. Paróquias e congregações cantam hinos de alegria e proclamam: O Cristo ressuscitou! Comunidades e grupos que, além dos ritos, seguem a missão profética do Cristo gritam para toda a humanidade: O Amor Divino ressuscitou Jesus e essa subversão da Vida tem de provocar força nova para que possamos juntos vencer o desamor e a morte.

Na Amazônia, a dança dos Xapiris faz renascer a floresta e mantém o mundo de pé. Isso traz novo respiro contra garimpos e os males com os quais, durante séculos, a civilização do dinheiro tenta exterminar os povos originários. A teimosia dos Xamãs em invocar os espíritos da floresta é algo de próprio da cultura Yanomami, mas do seu modo, corresponde ao Aleluia da Páscoa cristã. No Nordeste, o Toré indígena nas aldeias e a dança da Jurema nas periferias urbanas têm seu valor autônomo. Não podem ser vistas apenas como tradução para outras culturas de expressões cristãs. No entanto, mesmo com suas características próprias, correspondem do seu jeito ao que para os cristãos é o anúncio alegre e feliz da ressurreição. Cremos que é o mesmo Espírito do Cristo Ressuscitado que, como cantamos, “enche o universo. Tudo abraça em seu saber e tudo enlaça em seu amor”. Esse Espírito é reconhecido pelas comunidades do Santo Daime como o Caboclo Juramadan, pelos povos indígenas do Nordeste no culto dos Encantados e pelas comunidades negras como Orixás, Inquices e Caboclos, cada qual com sua originalidade e características próprias. No entanto, essas diversas expressões de espiritualidade celebram a vitória da vida sobre a morte e da amorosidade sobre o desamor.

Atualmente, a Biologia confirma: o Mistério da Vida se dá pelo entrelaçamento e interdependência das células e dos corpos. O amor é, antes de tudo, fenômeno biológico.  Agora, a mensagem pascal nos diz que a culminância desta evolução é uma forma de  Amor-doação gratuita, que cria comunhão entre nós e nos impulsiona a fazer tudo o que é possível para que a humanidade se torne uma comunidade de irmãos e irmãs.

Para nós, cristãos e cristãs, as festas pascais são sempre ocasião para novamente acreditarmos que é possível recomeçar o caminho da Boa Nova. A ressurreição de Jesus confirma em nós o amor divino. Este amor toma conta de nossas vidas e nos dá força para impregnar de amor as estruturas da vida e da sociedade.

Neste momento brasileiro, um bom número de pessoas católicas e evangélicas, em nome de Jesus apoia políticas de direita contrárias aos interesses dos mais pobres e testemunha um Deus cruel e sectário, amigo dos que o adoram e vingativo com os que não aderem à Igreja. A boa notícia da ressurreição tem de ser profeticamente contrária a esse tipo de religião. Por isso, grupos cristãos de várias Igrejas preparam um Mutirão da Profecia para reafirmar ao mundo que seguir Jesus Ressuscitado é optar pela justiça, paz e misericórdia anunciada nas bem-aventuranças do evangelho. Desta Páscoa, até o 7 de setembro, quando no Brasil, ocorre o Grito dos Excluídos, muitos grupos cristãos se preparam para reafirmar o compromisso de comunhão com os mais pobres. A Páscoa nos faz viver uma Igreja a serviço de toda a humanidade e não somente das pessoas que creem.

Junto com todas as pessoas famintas e sedentas de justiça e paz, acendamos sobre a terra o fogo novo da paz e da solidariedade. A partir da alegria de crermos que Jesus ressuscitou, a nossa missão, como dizia Pedro Casaldáliga, é sair pelo mundo semeando e espalhando ressurreição.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Sinodalidade e Caminhada Libertadora

 Marcelo Barros


 

Daqui a um mês, o papa Francisco completará dez anos como bispo de Roma e papa, ou seja, patriarca-primaz das Igrejas da comunhão católico-romana em todo o mundo. O que marca este aniversário é o seu convite para que toda a Igreja Católica se organize a partir da Sinodalidade.

De fato, a Sinodalidade foi a forma da Igreja se organizar durante os primeiros séculos. Ao convocar o Sínodo, o papa citou João Crisóstomo, que, no século IV afirmava: “Sinodalidade é o jeito normal de ser Igreja”.  

Etimologicamente, Sinodalidade significa “caminhar juntos”. No Brasil, desde 1970, estimuladas pela 2ª Conferência dos Bispos Latino-americanos,  várias Igrejas locais se abriram às comunidades eclesiais de base. Essas dioceses mais abertas sempre foram pluralistas. Contavam com grupos de tendências diversas, mas, as Cebs  influíram muito no seu modo de viver a missão. Essas Igrejas locais se tornaram conhecidas como “Igrejas da Caminhada”. Apesar de não se definirem como sinodais, viviam a Sinodalidade como “caminhada” de inserção no mundo social e político, a partir da Espiritualidade Ecumênica Libertadora.

O principal inimigo desta Sinodalidade a partir de baixo foi o próprio Vaticano, que, até que Francisco se tornasse bispo de Roma, não apoiou a Caminhada das Cebs e das dioceses que se organizaram a partir delas.  Até então, as Igrejas locais que se inseriram profeticamente na caminhada dos pobres sofreram perseguições e foram marginalizadas.

Atualmente, muitas dioceses e paróquias privilegiam como modo de viver a fé um devocionalismo barroco sentimental e pouco profundo. Em visita recente ao sul da Itália, o papa Francisco se referiu a esse gosto de muitos clérigos jovens como nostalgia do tempo de suas avós.

De fato, o projeto pastoral de muitas dioceses e paróquias é o retorno à Cristandade, ou seja, a uma Igreja centralizada, com hierarquia poderosa e influente. É um modelo de Igreja, claramente anti-sinodal, baseado na divisão entre sagrado e profano e centrado na exterioridade do culto e na rigidez de regras morais, imposta ao menos aos de fora.

Nesta, a maioria dos religiosos/as, padres e bispos acolhe a proposta da Sinodalidade, porque o papa mandou e nos ambientes eclesiásticos, é o assunto da moda. No entanto, não se deixam penetrar pelo espírito da Sinodalidade. Não querem viver uma Igreja sinodal.

A eclesiologia da Igreja local, proposta pelo Concílio Vaticano II, ao afirmar que cada Igreja particular é plenamente Igreja e não apenas filial de Roma ainda é pouco compreendida e aceita. Mesmo alguns setores abertos e ligados à caminhada dos pobres critica o clericalismo e o autoritarismo de Roma, mas o aceita, se este puder lhe ser favorável.

 A sinodalidade pede de nós superarmos o Direito Canônico e os argumentos de cúria.  Pretender Sinodalidade em Igreja clerical e baseada no poder hierárquico é querer tornar possível a quadratura do círculo.

A base do sistema de Cristandade é a fé em um Deus como Senhor todo-poderoso que legitima as estruturas injustas do mundo. Divide as pessoas em crentes e descrentes, santos e pecadores. É um deus narcisista que precisa ser agradado para salvar as almas. Conforme os evangelhos, Jesus combateu e denunciou este tipo de religião. Por isso, os sacerdotes do templo pediram ao governador romano para condená-lo à morte. 

Já no final do Concílio Vaticano II, ao assinarem o Pacto das Catacumbas, um grupo de bispos se comprometeu a romper com o modelo autoritário do poder e se tornarem pobres junto com os pobres, em uma Igreja servidora da humanidade. Há anos, o saudoso profeta Pedro Casaldáliga afirmava que a Igreja de Jesus Cristo não é democrática, porque tem de ir além da Democracia e ser Comunhão. A Sinodalidade não põe em questão a diversidade de ministérios. Reconhece e valoriza os carismas de coordenação eclesial, mas pede que se renuncie ao estilo de poder hierárquico que nada tem a ver com Jesus e o seu evangelho.

Esta proposta da Sinodalidade não diz respeito só internamente à Igreja. Caminhar juntos e suscitar estruturas participativas é desafio espiritual, mas também social e político para toda a sociedade. Mais do que em outras épocas, em vários países, a Democracia é posta à prova por grupos de elite e governantes que admiram o autoritarismo e elogiam ditaduras militares. Torna-se assim, ainda mais urgente o apelo do papa Francisco em sua carta-encíclica  Fratelli Tutti: o desafio de construir uma fraternidade universal que assegure Paz e Justiça eco-social para todos e todas, tendo a Vida em primeiro lugar.  Sob outros nomes e com outras designações, o projeto de Sinodalidade para as Igrejas pode e deve valer para toda a sociedade como caminho para um novo mundo possível.

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

A Justiça e a reconciliação do Brasil

 Marcelo Barros


             No Brasil, mesmo se a maioria da população se manifestou a favor da Democracia, há uma fratura da sanidade social que nenhuma lei pode consertar. Ainda há pessoas que temem o Comunismo como fantasma que aparecesse à luz do sol e como se houvesse risco de nevar na Amazônia.

Essa epidemia de boatos, mentiras e de fabricação de medos e de antagonismos odiosos não é espontânea, nem será desmontada apenas com argumentos racionais. Foi planejada e fabricada para legitimar a destruição do processo social que, nas últimas décadas, a sociedade civil tem conquistado e fortalecido. Ela não será vencida enquanto o Brasil continuar sendo o terceiro país do mundo em desigualdade social.

 No dia 15 de janeiro, o mundo inteiro celebra a memória do nascimento de Martin-Luther King, o pastor negro que, nos anos 1960, nos Estados Unidos, coordenou a luta da população negra pela igualdade social e por seus direitos civis. Enquanto ele vivia, a grande mídia norte-americana tentou destruí-lo de todos os modos possíveis. Depois que foi assassinado, se tornou herói.

Mais de 50 anos depois dessa vitória legal do povo negro, tanto nos Estados Unidos, como na maioria dos países do mundo, a humanidade ainda não eliminou o apartheid social e econômico. Na América Latina, quase sempre, ser negro é sinônimo de ser pobre. A África do Sul superou o apartheid político, mas mantém uma imensa desigualdade racial, baseada na divisão econômica. Com relação a isso, ainda ressoam as palavras do pastor Martin-Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. Mais do que a violência de poucos, me assusta a omissão de muitos”. Ele explicava: “Uma pessoa que não descobriu nada pela qual aceitaria morrer, não está ainda pronta para viver”.

A memória de profetas como o pastor Martin-Luther King nos assegura que, mesmo com todos os ataques do império, ninguém conseguirá destruir os melhores sonhos dos nossos povos. Mesmo se, infelizmente, nem sempre as religiões têm colaborado para que a humanidade possa realizar o sonho divino de paz e de justiça social, precisamos reforçar os grupos cristãos e de outras tradições espirituais que testemunhem Deus como Amor e não como legitimador do ódio e das violências.  Neste ano de 2023, teremos em julho em Rondonópolis, no Mato Grosso, o XV Encontro nacional das Comunidades Eclesiais de Base e no começo de novembro em Salvador o III Encontro de Juventudes e Espiritualidade Libertadora.

Essa espiritualidade, religiosa ou não, consiste na opção de viver como se estivéssemos ensaiando o futuro que desejamos e assim tornamos realidade o Bem-viver com o qual sonhamos. A Bíblia, outros livros sagrados e as tradições orais das espiritualidades negras e dos povos originários nos revelam um projeto divino de paz, justiça e comunhão entre os seres humanos e com a natureza e nos chamam a viver isso. O pastor Martin-Luther King nos recordava: “Lembremo-nos de que existe no mundo um poder de amor que é capaz de abrir caminho onde não há caminho e de transformar o ontem escuro em um amanhã luminoso”.   

 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Para que este ano novo se torne de fato Novo

 Marcelo Barros


Nestes dias, por todo o mundo, as pessoas dizem umas às outras os votos de feliz ano novo. Há quem acredite que, pelo fato de se falar, o desejo se torna realidade, quase de modo automático. Outros pensam que o próprio desenrolar do tempo faz as coisas ficarem melhores.

Alguns povos tradicionais ainda guardam costumes como, na noite do ano novo, queimar toda a roupa usada e iniciar esse tempo com vestimentas brancas ou novas, símbolo de renovação da vida. Na madrugada do primeiro dia do ano, fieis dos cultos afrodescendentes vão às praias e rios com flores e oferendas aos espíritos do céu e da terra. Em nome de todos os seres humanos, cantam sua disposição de amor e comunhão universal.

As perspectivas de 2023 para o mundo não parecem otimistas. A ambição das grandes potências, o interesse das industrias armamentistas e os projetos imperialistas dos Estados Unidos e da Rússia mantêm a guerra na Ucrânia e garantem outras guerras pelo mundo. A ONU ainda tenta salvar a ecologia a partir de projetos capitalistas como entregar a defesa da natureza a grandes empresas. A água continua sendo tratada como mercadoria a ser privatizada. Mesmo sabendo que as pandemias ameaçam toda a humanidade e ninguém se salva sozinho, a Organização Mundial da Saúde ainda se omite em relação à campanha mundial para que todas as vacinas contra vírus sejam gratuitas e para todos e todas.

Na América Latina, o sonho de uma pátria grande solidária exige mais esforços. A guerra dos meios de comunicação contra qualquer transformação do mundo a favor dos empobrecidos continua implacável.

No Brasil, o ano novo foi marcado pela imagem da posse de um novo governo. Na cerimônia, ficou marcada para a história a imagem de um velho índio, a criança negra, a catadora de material reciclável e mais outras pessoas, representativas da população mais empobrecida ao subir a rampa do palácio do Planalto com o presidente Lula. Tomara que este gesto tão forte de simbolismo não se dilua na cultura vigente que ainda mantém uma separação gritante entre governo e sociedade civil. No dia da posse, o ritual prevê o encontro do Presidente eleito com o Congresso e os poderes constituídos, mas o povo é mantido do lado de lá da cerca armada depois do lençol de água que separa o palácio da população. Parece que ao povo compete apenas acenar e aplaudir.

Para que, no Brasil e no mundo, este ano novo se torne realmente um tempo novo, será necessário firmar as bases de uma sociedade civil organizada a partir da inclusão social e de uma educação para a Paz, a não-violência e o diálogo. Sem dúvida, as religiões que, durante séculos, conviveram com as desigualdades e as injustiças sociais e muitas vezes as legitimaram, têm agora a função de desenvolver uma espiritualidade libertadora que testemunhe Deus como Amor e não como poder opressor.

No Fórum Social, ocorrido em Túnis, na África, em 2015, havia um grande folder no qual estava escrito: "A humanidade precisa de uma verdadeira revolução. Só a nossa ousadia pode torná-la possível". Essa ousadia comunitária parte da convicção de que o amanhã pode ser diferente. Para os cristãos, nos alegra mais ainda a fé de que, nesse caminho, estamos sempre acompanhado por Jesus ressuscitado que disse a seus discípulos/as: "Eu estarei com vocês todos os dias, até que esse tempo se complete" (Mt 28, 20).

 

 

 

 

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A profecia do Natal para toda a humanidade

 Marcelo Barros


 

No dia 24, véspera da festa do Natal, a liturgia latina costuma repetir um refrão, baseado no livro do Êxodo: “Hoje, todos saberão que o Senhor virá e amanhã verão a sua glória”. “Do mundo, será destruída a iniquidade e sobre nós brilhará a salvação”.

Atualmente, a iniquidade do mundo se tornou mais escandalosa. A desigualdade social se multiplica. Milhões de pessoas são excluídas de condições mínimas de vida sadia. Fome e miséria aumentam. Diariamente, milhares de crianças morrem por não terem acesso à água potável. Além disso, o armamentismo ameaça a própria segurança do planeta. 

O evangelho do Natal nos assegura: “A Palavra divina se faz carne em nós e em todas as criaturas” (Jo 1, 14). Essa palavra ressoa, hoje, no grito surdo da mãe Terra, agredida e ameaçada em suas condições de vida. Ecoa nos campos contaminados pelos agrotóxicos. É o grito sufocado da irmã Água transformada em mercadoria e privatizada.

Essa palavra de dor e de resistência da mãe Terra, da Água e de toda a natureza se faz carne e é acolhida e respondida na luta de resistência de tantas pessoas. Pensemos na luta heroica de tantos/as profissionais da saúde nos tempos mais difíceis da pandemia e ainda hoje. Assim, a resistência dos povos indígenas, dos lavradores sem-terra e dos pequenos agricultores, assim como a organização dos trabalhadores/as das cidades e a sobrevivência de tanta gente sem teto, sem trabalho e sem comida. 

Neste Natal, cantar que será destruída a iniquidade do mundo é profecia que nos anima e nos compromete com a esperança. Esperança vai além das fronteiras da fé cristã. É algo que diz respeito a toda a humanidade. Ao ser palavra de amor para toda a humanidade, a mensagem de Natal nos chama a sermos cada vez mais humanos e cuidadores/as do planeta. Isso significa nos abrir cada vez mais aos outros. Implica em priorizar o diálogo, a convivência; reconhecer a dignidade inviolável das pessoas e de todo ser vivo. Quem não é capaz de aceitar o diferente não sabe o que é Natal.

Jesus de Nazaré se revelou como homem (do gênero masculino), mas acolhe também a dimensão divina do feminino. Revela que Deus é Pai e Mãe e permite que o chamemos de Ele ou Ela. Na realidade do nosso mundo tão ferido por desigualdades sociais, raciais e de gênero, o Natal nos revela os rostos plurais do Espírito. Faz-nos descobrir cada ser humano, homem ou mulher, homo, hetero, ou trans, como imagens do amor divino.

Desde criança, Jesus não é encontrado pelos religiosos de Jerusalém e sim pelos pastores do campo. Manifesta-se não no templo e sim nos barracos e acampamentos, como foi a gruta e a manjedoura de Belém. Assim, hoje, o Espírito, Ventania do Amor Divino,  se revela de formas diversas, mas sempre a partir da comunhão com as pessoas mais vulneráveis.

A Palavra feita carne no Natal nos faz reconhecer a presença divina nas manifestações de todas as culturas e religiões. No Brasil, o Natal nos compromete na defesa das comunidades indígenas e afrodescendentes, na luta pela terra e pelo direito a viver suas culturas e expressões religiosas.

A encarnação de Jesus, celebrada neste Natal, deve nos fazer reconhecer e valorizar a permanente encarnação do Espírito Divino nos terreiros afro e ocas indígenas. Em nosso continente, mais do que o Cristianismo, as religiões negras e indígenas foram instrumentos de resistência cultural. Ajudaram as pessoas escravizadas de ontem e as excluídas de hoje a manter reconhecida a sua dignidade humana. 

O mundo inteiro se transforma em imenso presépio. Não do Menino Jesus que, hoje é o Cristo Ressuscitado que nos vem pelo Espírito. É essa energia materna de amor que cobriu Maria com sua sombra e, hoje, fecunda o universo com seu amor e sua força libertadora.

 

Feliz Natal para você e para todos os seus entes queridos. 

Abraço carinhoso do irmão Marcelo Barros

 

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

A mais revolucionária proposta de Jesus

 Marcelo Barros


 

Nestes dias, de 11 a 15 de novembro, em Olinda e Recife, a Igreja Católica realizou o XVIII Congresso Eucarístico Nacional, reunindo milhares de pessoas em grandes celebrações, um simpósio teológico e outras atividades para aprofundar o sentido da Eucaristia. Os Congressos eucarísticos surgiram a partir do século XIX, em outro contexto histórico. Nasceram ligados à devoção eucarística e à preocupação de manifestar publicamente ao mundo a fé na presença de Jesus no pão consagrado. 

A partir do Concílio Vaticano II (1962- 1965), a Igreja Católica mudou a visão sobre a sua missão no mundo e o sentido da eucaristia. O Concílio nos fez aprofundar os evangelhos. Estes nos mostram que Jesus retoma a Páscoa judaica e a atualiza. Na Páscoa, como todo o povo de Deus, Jesus celebra a memória da libertação da escravidão do Egito, mas a radicaliza o mais que pode. Propõe a partilha do pão e do vinho, como expressão do mandamento novo que dá aos discípulos/as: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

Os apóstolos e muita gente do povo esperavam que ele cumprisse a função política de libertar Israel do domínio romano. Jesus frustrou essa expectativa. Centrou a sua atividade profética contra a religião ritual do templo e propôs uma libertação que não parte de armas e sim de uma transformação interior no modo de ser das pessoas e das culturas que suscita relações comunitárias de igualdade, comunhão de bens e cuidado recíproco.  

De acordo com os evangelhos, na noite em que seria preso e condenado, Jesus ceia com os discípulos e discípulas. Ali, revela o sentido profundo da entrega da sua vida e pede que ao partilhar o pão e o vinho na refeição, a comunidade faça a memória da Páscoa e aceite doar a sua vida.

Assim sendo, a veracidade da eucaristia não consiste apenas na fidelidade material ao rito. O gesto litúrgico deve corresponder à verdade da vida. Provavelmente, por isso, o quarto evangelho, no lugar de contar a instituição da eucaristia, descreve que, na ceia, Jesus lava os pés dos discípulos e manda que isso seja feito por todos, uns com os/as outros/as.

O Concílio Vaticano II recuperou a dimensão comunitária da eucaristia. Como dizia Santo Agostinho: o pão é o sinal da comunidade que é o corpo de Cristo. Hoje, cada vez mais a Igreja se dá conta de que a relação entre celebração e  vida é desafio permanente. Se a comunhão da eucaristia não leva às pessoas a um novo modo de organizar a vida, baseado na partilha,  a celebração perde muito da sua veracidade.

Este XVIII Congresso Eucarístico aconteceu em um momento do Brasil, no qual uma onda de mentiras e notícias falsas amedrontou comunidades católicas e protestantes com a ameaça do Comunismo. Pelo medo irreal de que templos sejam fechados e leis morais da Igreja desobedecidas, não poucos pastores e fieis deram ao mundo o triste testemunho de uma Igreja não amorosa e nada solidária com os mais empobrecidos. Provavelmente, muitos dos padres e católicos que se posicionam a favor do autoritarismo e da violência não percebem que essa cruzada contra o fantasma do comunismo contém uma postura extremamente anti-eucarística, já que é discrimanatória e pouco amorosa.

A eucaristia exige de nós o cuidado de não desligar o rito da proposta eucarística de Jesus que é a de um mundo renovado a partir do amor solidário, em uma sociedade sem armas e sem discriminações sociais, inclusiva e aberta a todos e todas. Ao escolher como tema deste Congresso “Pão em todas as mesas”, como canta uma de nossas mais belas canções, a Igreja Católica no Brasil assume a proposta feita pelo papa Francisco no 52º Congresso Eucarístico em Budapeste: “A celebração da Eucaristia deve gerar uma cultura eucarística, porque impele a transformar em gestos e comportamentos de vida a graça de Cristo que se doou totalmente. (…) A Eucaristia deve se traduzir em cultura eucarística, capaz de inspirar os homens e as mulheres de boa vontade nos âmbitos da caridade, da solidariedade, da paz, da família e do cuidado com a criação” (Cf. https://pontosj.pt/especial/por-uma-cultura-eucaristica/).

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b


 

terça-feira, 15 de novembro de 2022

A mais revolucionária proposta de Jesus

 Marcelo Barros


 

Nestes dias, de 11 a 15 de novembro, em Olinda e Recife, a Igreja Católica realizou o XVIII Congresso Eucarístico Nacional, reunindo milhares de pessoas em grandes celebrações, um simpósio teológico e outras atividades para aprofundar o sentido da Eucaristia. Os Congressos eucarísticos surgiram a partir do século XIX, em outro contexto histórico. Nasceram ligados à devoção eucarística e à preocupação de manifestar publicamente ao mundo a fé na presença de Jesus no pão consagrado. 

A partir do Concílio Vaticano II (1962- 1965), a Igreja Católica mudou a visão sobre a sua missão no mundo e o sentido da eucaristia. O Concílio nos fez aprofundar os evangelhos. Estes nos mostram que Jesus retoma a Páscoa judaica e a atualiza. Na Páscoa, como todo o povo de Deus, Jesus celebra a memória da libertação da escravidão do Egito, mas a radicaliza o mais que pode. Propõe a partilha do pão e do vinho, como expressão do mandamento novo que dá aos discípulos/as: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

Os apóstolos e muita gente do povo esperavam que ele cumprisse a função política de libertar Israel do domínio romano. Jesus frustrou essa expectativa. Centrou a sua atividade profética contra a religião ritual do templo e propôs uma libertação que não parte de armas e sim de uma transformação interior no modo de ser das pessoas e das culturas que suscita relações comunitárias de igualdade, comunhão de bens e cuidado recíproco.  

De acordo com os evangelhos, na noite em que seria preso e condenado, Jesus ceia com os discípulos e discípulas. Ali, revela o sentido profundo da entrega da sua vida e pede que ao partilhar o pão e o vinho na refeição, a comunidade faça a memória da Páscoa e aceite doar a sua vida.

Assim sendo, a veracidade da eucaristia não consiste apenas na fidelidade material ao rito. O gesto litúrgico deve corresponder à verdade da vida. Provavelmente, por isso, o quarto evangelho, no lugar de contar a instituição da eucaristia, descreve que, na ceia, Jesus lava os pés dos discípulos e manda que isso seja feito por todos, uns com os/as outros/as.

O Concílio Vaticano II recuperou a dimensão comunitária da eucaristia. Como dizia Santo Agostinho: o pão é o sinal da comunidade que é o corpo de Cristo. Hoje, cada vez mais a Igreja se dá conta de que a relação entre celebração e  vida é desafio permanente. Se a comunhão da eucaristia não leva às pessoas a um novo modo de organizar a vida, baseado na partilha,  a celebração perde muito da sua veracidade.

Este XVIII Congresso Eucarístico aconteceu em um momento do Brasil, no qual uma onda de mentiras e notícias falsas amedrontou comunidades católicas e protestantes com a ameaça do Comunismo. Pelo medo irreal de que templos sejam fechados e leis morais da Igreja desobedecidas, não poucos pastores e fieis deram ao mundo o triste testemunho de uma Igreja não amorosa e nada solidária com os mais empobrecidos. Provavelmente, muitos dos padres e católicos que se posicionam a favor do autoritarismo e da violência não percebem que essa cruzada contra o fantasma do comunismo contém uma postura extremamente anti-eucarística, já que é discrimanatória e pouco amorosa.

A eucaristia exige de nós o cuidado de não desligar o rito da proposta eucarística de Jesus que é a de um mundo renovado a partir do amor solidário, em uma sociedade sem armas e sem discriminações sociais, inclusiva e aberta a todos e todas. Ao escolher como tema deste Congresso “Pão em todas as mesas”, como canta uma de nossas mais belas canções, a Igreja Católica no Brasil assume a proposta feita pelo papa Francisco no 52º Congresso Eucarístico em Budapeste: “A celebração da Eucaristia deve gerar uma cultura eucarística, porque impele a transformar em gestos e comportamentos de vida a graça de Cristo que se doou totalmente. (…) A Eucaristia deve se traduzir em cultura eucarística, capaz de inspirar os homens e as mulheres de boa vontade nos âmbitos da caridade, da solidariedade, da paz, da família e do cuidado com a criação” (Cf. https://pontosj.pt/especial/por-uma-cultura-eucaristica/).

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b




 

 

terça-feira, 8 de novembro de 2022

A tarefa da Reforma a ser sempre retomada


Marcelo Barros


 

As recentes eleições no Brasil chamaram atenção do mundo inteiro para a importância do fator religioso na campanha de candidatos que se apresentaram como candidatos de Deus e de Igrejas, nas quais era mal visto quem não votasse de acordo com o indicado pelo padre ou pastor.

Nestas eleições que se concluíram neste domingo, enquanto mais da metade da população brasileira votava no presidente Lula por ver na proposta de sua candidatura a retomada da Democracia e maior cuidado com as categorias mais empobrecidas do povo, católicos e evangélicos tradicionalistas pediam a Deus ou a Nossa Senhora para libertar o Brasil da esquerda e do que chamam fantasmagoricamente de Comunismo. Deus deve ter se sentido como quando, na copa de futebol,  jogadores de dois times rivais fazem promessa para Deus dar a vitória ao seu time e Deus tem de escolher de qual time será torcedor.   

Na sociedade brasileira, a ingerência de Igrejas em eleições e na Política não é algo novo. Desta vez, a novidade foi o uso e abuso das redes sociais, assim como o fato de alguns pastores e padres se servirem de fake-news e mentiras deslavadas, sem nenhum escrúpulo ético ou religioso.

A aliança de grande parte de ministros e grupos eclesiásticos com a direita violenta revela atração de caráter quase erótico das  hierarquias pelo autoritarismo político e pelo sonho de retomar o poder sobre a sociedade.  

               A Igreja Católica chegou ao Brasil de braço dado com os colonizadores, em cujas fazendas mantinham capelães que legitimavam religiosamente a escravidão de negros e índios. Com pouquíssimas exceções, bispos e padres sempre apoiaram reis e senhores. Nas primeiras décadas do século XIX, quando quase todos os países do continente já eram independentes, o papa ainda publicava bulas que obrigavam os católicos latino-americanos a se submeterem aos reis de Espanha e Portugal.

              Na segunda metade do século XIX, vieram Igrejas evangélicas. Traziam na bagagem uma cultura típica do sul dos Estados Unidos: racista, escravocrata e favorável à supremacia branca de perfil protestante. 

              Até meados do século XX, no Brasil, era normal os bispos católicos  indicarem candidatos para o povo votar e a Liga Eleitoral Católica (LEC) dizia em quem os católicos não podiam votar.

Na década de 1960, vários países do continente viveram sob ditaduras. Com algumas exceções, as autoridades eclesiásticas apoiaram os militares contra o fantasma do Comunismo, com os mesmos argumentos que, ainda hoje, muitos padres e pastores usam para apoiar a extrema direita. Nada de novo debaixo do sol. A única novidade é a acirrada competição entre grupos católicos tradicionalistas e comunidades pentecostais e evangélicas de tendência fundamentalista para ver quem consegue reimplantar no Brasil um regime de Cristandade.

Em 2019, a parábola do filme “Divino Amor” do cineasta Gabriel Mascaro previa para 2027 um Brasil evangélico, dominado pela Igreja do Divino Amor. A festa do Carnaval tinha sido abolida e a única religião permitida era a seita do Divino Amor, que reduzia Deus às conveniências sociais, econômicas e também sexuais dos ministros eclesiásticos.

Do mesmo modo, vários grupos católicos lutam com unhas e dentes para serem eles a impor o Brasil católico do jeito deles e em nome de Jesus. Como canta sarcasticamente o grupo teatral “Companhia do Tijolo”: Jesus manda dizer que não gosta de marcha para Jesus. Prefere os atabaques e o ritmo dos terreiros. Não rejeita uma cervejinha com amigos no bar da esquina, como fazia no tempo em que convivia com as pessoas que os religiosos do templo julgavam como infiéis e de vida errada.

Agora, precisamos de profetas e profetizas que recordem aos interessados: Deus não assinou contrato de exclusividade com ninguém. A este novo tipo de doutores da lei e sacerdotes dos novos templos de Salomão ou de Malafaias, sejam pentecostais, sejam católicos, Jesus repete o que disse aos antigos fariseus: “Em verdade, vos digo: os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes de vós no reino de Deus” (Mt 21, 31).

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b