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terça-feira, 11 de abril de 2023

Páscoa – parto de Vida e Liberdade

 

Marcelo Barros


 

Nestes dias, as Igrejas cristãs celebram a festa da Páscoa. Paróquias e congregações cantam hinos de alegria e proclamam: O Cristo ressuscitou! Comunidades e grupos que, além dos ritos, seguem a missão profética do Cristo gritam para toda a humanidade: O Amor Divino ressuscitou Jesus e essa subversão da Vida tem de provocar força nova para que possamos juntos vencer o desamor e a morte.

Na Amazônia, a dança dos Xapiris faz renascer a floresta e mantém o mundo de pé. Isso traz novo respiro contra garimpos e os males com os quais, durante séculos, a civilização do dinheiro tenta exterminar os povos originários. A teimosia dos Xamãs em invocar os espíritos da floresta é algo de próprio da cultura Yanomami, mas do seu modo, corresponde ao Aleluia da Páscoa cristã. No Nordeste, o Toré indígena nas aldeias e a dança da Jurema nas periferias urbanas têm seu valor autônomo. Não podem ser vistas apenas como tradução para outras culturas de expressões cristãs. No entanto, mesmo com suas características próprias, correspondem do seu jeito ao que para os cristãos é o anúncio alegre e feliz da ressurreição. Cremos que é o mesmo Espírito do Cristo Ressuscitado que, como cantamos, “enche o universo. Tudo abraça em seu saber e tudo enlaça em seu amor”. Esse Espírito é reconhecido pelas comunidades do Santo Daime como o Caboclo Juramadan, pelos povos indígenas do Nordeste no culto dos Encantados e pelas comunidades negras como Orixás, Inquices e Caboclos, cada qual com sua originalidade e características próprias. No entanto, essas diversas expressões de espiritualidade celebram a vitória da vida sobre a morte e da amorosidade sobre o desamor.

Atualmente, a Biologia confirma: o Mistério da Vida se dá pelo entrelaçamento e interdependência das células e dos corpos. O amor é, antes de tudo, fenômeno biológico.  Agora, a mensagem pascal nos diz que a culminância desta evolução é uma forma de  Amor-doação gratuita, que cria comunhão entre nós e nos impulsiona a fazer tudo o que é possível para que a humanidade se torne uma comunidade de irmãos e irmãs.

Para nós, cristãos e cristãs, as festas pascais são sempre ocasião para novamente acreditarmos que é possível recomeçar o caminho da Boa Nova. A ressurreição de Jesus confirma em nós o amor divino. Este amor toma conta de nossas vidas e nos dá força para impregnar de amor as estruturas da vida e da sociedade.

Neste momento brasileiro, um bom número de pessoas católicas e evangélicas, em nome de Jesus apoia políticas de direita contrárias aos interesses dos mais pobres e testemunha um Deus cruel e sectário, amigo dos que o adoram e vingativo com os que não aderem à Igreja. A boa notícia da ressurreição tem de ser profeticamente contrária a esse tipo de religião. Por isso, grupos cristãos de várias Igrejas preparam um Mutirão da Profecia para reafirmar ao mundo que seguir Jesus Ressuscitado é optar pela justiça, paz e misericórdia anunciada nas bem-aventuranças do evangelho. Desta Páscoa, até o 7 de setembro, quando no Brasil, ocorre o Grito dos Excluídos, muitos grupos cristãos se preparam para reafirmar o compromisso de comunhão com os mais pobres. A Páscoa nos faz viver uma Igreja a serviço de toda a humanidade e não somente das pessoas que creem.

Junto com todas as pessoas famintas e sedentas de justiça e paz, acendamos sobre a terra o fogo novo da paz e da solidariedade. A partir da alegria de crermos que Jesus ressuscitou, a nossa missão, como dizia Pedro Casaldáliga, é sair pelo mundo semeando e espalhando ressurreição.

sábado, 8 de abril de 2023

Como viver a Páscoa no meio de tantas crises?

 




                                     Leonardo Boff

         Muitas crises  estão assolando a humanidade: a crise econômica derrubando grandes bancos nos países centrais, a crise política com o ascenso mundial das políticas de direita e de extrema-direita, s crise das democracias em quase todos os países, a crise do Estado cada vez mais burocratizado, a crise do capitalismo globalizado que não consegue resolver os problemas que ele mesmo criou,gerando uma acumulação de riqueza em pouquíssimas mãos num mar de probreza e de miséria, a crise ética, pois não contam mais valores da grande tradição da  humanidade, mas o vale tudo pós moderno (every think goes), a crise do humanismo pois impera relações de ódio e de barbárie nas relações sociais, a crise de civilização que começou a introduzir a inteligência artificial autônoma que articula bilhões de algorítmos, toma decisões, independente da vontade humana, pondo em risco nosso futuro comum, a crise sanitária que atingiu toda a humanidade pelo Covid-19, a crise ecológica que, se não cuidarmos da biosfera, nos alerta para uma tragédia possível e terminal do sistema-vida e do sistema-Terra. Por detrás de todas estas crise há uma crise ainda maior: a crise do espírito que representa uma crise da vida humana neste planeta.

O espírito é aquele momento da vida consciente no qual nos damos conta de que pertencemos a um todo maior, terrenal e cósmico,que estamos à mercê de uma Energia poderosa e amorosa que sustenta todas as coisas e a nós mesmos. Temos a faculdade específica de com ela poder  dialogar e a ela nos abrir,identificando um Sentido maior que tudo perpassa e que atende ao nosso impulso de infinitude. A vida do espírito (que neurólogos chamam de”ponto Deus” no cérebro) vem soterrada pela votande irrefleável de acumulação de bens materiais, pelo cnsumismo, pelo egoismo e pela falta profunda de solidariedade.

Depois de agosto de 1945, os USA lançando duas bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, nos sbriu a consciência de que podemos nos auto-aniquilar. Esse risco aumentou com a corrida armamentista,incluindo nove nações, com armas químicas, biológicas e cerca de 16 mil ogivas nucleares. A atual guerra entre a Rússia e a Ucrânia fez com que Putin ameaçasse o uso de armas nucleares, trazendo o temor apocalíptico do fim da espécie humana.

Nesse cenário como celebrar a maior festa da cristandade que é a Páscoa, a ressurreição do Crucificado, Jesus de Nazaré? Ressurreição não deve ser entendida como  a reanimação de um cadáver como o de Lázaro. Ressurreição, nas palavras de São Paulo representa a irrupção do “novissimus Adam (1Cor 15,45), vale dizer, do ser humano novo, cujas infinitas virtualidades presentes nele (somos um projeto infinito) afloram totalmente. Desta forma comparece como uma revolução na evolução, uma antecipação do fim bom da vida humana. O Ressuscitado ganhou uma dimensão cósmica, nunca mais deixou o mundo e enche todo o universo.

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Nesse sentido a ressurreição não é a memória de um passado, mas a celebração de um presente, sempre presente a nos suscitar alegria, o suave sorriso na certeza de que a morte matada de Jesus de Nazaré, a sexta-feira santa, é só uma passagem para uma vida, livre da morte e plenamente realizada: a ressurreição. O horizonte sombrio se desanuviou e o irrompeu o Sol da esperança.

Pensando em termos do processo cosmogênico que tudo engloba, a ressurreição não está fora dele. Ao contrário, é uma emergência nova da cosmogênese e daí seu valor universal, para além do salto da fé. A ressurreição é a síntese da dialética, de onde Hegel tirou sua dialética, da vida (tese), da morte (antítese) e da ressurreição (síntese).Esta é o termo de tudo, agora antecipado para nossa alegria.  É o gênesis verdadeiro, não do começo, mas do fim já alcalçado.

Considero a versão do evangelho de São Marcos sobre a ressurreição a mais realista e verdadeira.Ele termina se texto com Jesus ressuscitado,dizendo às mulheres:”ide dizer aos apóstolos e a Pedro que ele (o Ressuscitado) vos precede na Galiléia. Lá o vereis com vos disse”(Mc 16,7). E assim termina. As aparições relatadas, é covicção dos estudiosos, seria um acréscimo posterior. Quer dizer: todos estamos a caminho da Galiléia para encontrar o Ressuscitado. Ele pessoalmente ressuscitou mas sua ressurreição não se completou enquanto seus irmãos e irmãs e a inteira natureza ainda não ressuscitaram.Estamos a caminho, esperados pelo Ressuscitado que ainda não se mostrou totalmente. Por esta razão, o mundo fenomenoligicamente continua o mesmo ou pior, com guerras e momentos de paz, com bondades e perversidades, como se não tivesse havido a ressureição como sinal de superação desta realidade ambigua.

Mesm assim depois que Cristo ressuscitou não podemos mais ficar tristes: o fim bom está garantido.

Boa festa de Páscoa para todos os que puderem realizar este percurso e também para aqueles que não o podem realizar.

Leonardo Boff escreveu: A ressurreição de Cristo e a nossa na morte, Vozes 1972 várias edições.

 

terça-feira, 19 de abril de 2022

Páscoa para nós e para o mundo

 Marcelo Barros


 

Parece estranho falar em Páscoa para o mundo, cada vez mais sufocado pela crueldade de uma elite sem coração que organiza a sociedade de modo a sacrificar milhões de pessoas. A imprensa ocidental denuncia os crimes do governo russo na Ucrânia e cala o genocídio provocado pelo império dos Estados Unidos, responsável pela maioria das 28 guerras que destroem o mundo atual. O governo chinês acusa o serviço de inteligência norte-americano de fabricar armas biológicas e usar até aves migratórias para espalhar epidemias mortais em países que o império considera indesejáveis.

Nestes dias, desde a sexta-feira, 15 de abril, as comunidades judaicas celebram a  Pessach de 2022, que chamam “A Festa da nossa libertação”. As Igrejas cristãs se incorporam a esse mesmo espírito e também celebram a Páscoa. Em todas as tradições religiosas, é o único caso de duas religiões diferentes celebrarem a mesma festa e ao mesmo Deus, embora com formas e até significados diversos. De fato, as Igrejas retomam a memória do Êxodo bíblico, mas celebram dão a essa festa o sentido do memorial da morte e da ressurreição de Jesus, como fonte de libertação total e de vida nova para toda a humanidade.

Falar em Páscoa para o mundo não significa pensar que este vá ser transformado por algum milagre ou deva ser incorporado a alguma tradição religiosa. A Páscoa teve o seu início na celebração da primavera no antigo Oriente Médio. Tribos festejavam a lua cheia e dançavam ao ar livre, saboreando as primícias da colheita ou do rebanho de ovelhas. Em hebraico, o termo Páscoa significa passos. Conforme a Bíblia, essa celebração anual da vida, tornou-se a comemoração da vitória do povo hebreu que, pela força do Espírito, se libertou da escravidão. Jesus celebrou a Páscoa, doando a sua vida e abrindo a toda a humanidade a possibilidade de viver a liberdade dos filhos e filhas do Amor Divino.

Não se pode reduzir a Páscoa apenas à celebração religiosa. Não foi essa a tradição bíblica e nem deve ser essa a visão cristã. Os evangelhos chamam de “reino de Deus” o mundo transformado, de acordo com o projeto divino de amor, justiça e paz.  Diariamente, os cristãos oram, não para que Deus os conduza a um mundo à parte e sim: “Venha a nós o teu reino”.

No Brasil atual, mais de 20 milhões vivem a insegurança alimentar. A cada dia, aumenta a população jogada nas ruas das cidades como refugiados em campos de concentração. Cada ano, o 19 de abril é consagrado pela ONU como o dia pan-americano dos povos indígenas. Em Brasília, representantes dos povos originários acampam para denunciar o permanente desrespeito da sociedade dominante aos direitos dos índios, assegurados pela Constituição de 1988. À medida que nos unimos à causa dos povos originários e todas as pessoas marginalizadas por este sistema cruel que domina o mundo, testemunhamos que um novo mundo é possível e nos dispomos a caminhar juntos, para que a justiça e a paz possam brilhar nas relações humanas e na nossa comunhão com a mãe Terra. Já idoso, Dom Pedro Casaldáliga ensinava: “Nossa missão é espalhar pelo mundo ressurreição”.  

 

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Páscoa: a irrupção do inesperado

                             Leonardo Boff


Os cristãos celebram na páscoa aquilo que ela significa: a passagem. No nosso contexto, é a passagem da decepção para a irrupção do inesperado. Aqui a decepção  é a crucificação de Jesus de Nazaré e o inesperado, sua ressurreição.

Ele foi alguém que passou pelo mundo fazendo o bem. Mais que doutrinas introduziu práticas sempre ligadas à vida dos mais fracos: curava cegos, purificava hansenianos, fazia andar coxos, devolvia à saúde a muitos doentes, matava a fome de multidões e até ressuscitava mortos. Conhecemos seu fim trágico: uma trama urdida entre religiosos e políticos o levaram à morte na cruz.

Os que o seguiam, apóstolos e discípulos, com o fim trágico  da crucificação ficaram profundamente frustrados. Todos,menos as mulheres que também o  seguiam,  começaram a voltar para suas casas. Decepcionados, pois esperavam que trouxe a libertação de Israel. Tal frustração aparece claramente nos dois discípulos de Emaús, provavelmente, um casal que caminhavam cheios de tristeza. A alguém que se uniu a eles no caminho dizem lamuriosos:”Nós esperávamos que fosse ele quem iria libertar Israel,mas já passaram três dias que o condenaram à morte”(Lucas 24,21).Esse companheiro, se revelou depois, como sendo Jesus ressuscitado, reconhecido na forma como benzeu o pão, o partiu e distribuiu.

A ressurreição estava fora do horizonte de seus seguidores. Havia um grupo em Israel que acreditavam na ressurreição mas no final dos tempos, a ressurreição entendida como uma volta à vida como sempre foi é.

Mas com Jesus aconteceu o inesperado, pois na história sempre pode ocorrer o inesperado e o improvável. Só que o improvável e o inesperado aqui são de outra natureza,um evento realmente improváqvel e inesperado: a ressurreição. Ela deve ser bem entendida: não se trata da reanimação de um cadáver como o de Lázaro. Ressurreição representa uma revolução dentro da evolução. O fim bom da história humana se antecipa. Ela significa o inesperado da irrupção do ser humano novo, como diz São Paulo, do “novissimo Adão”.

Este evento é realmente a concretização do inesperado. Teilhard de Chardin cuja mística é toda centrada na ressurreição como uma absoluta novidade dentro do processo da evolução a chamava de um “tremendous”, de algo, portanto, que mexe com todo o universo.

Essa é a fé fundamental dos cristãos. Sem a ressurreição não existiriam as comunidades cristãs. Perderiam seu evento fundador e fundante.

Por fim cabe ressaltar que os dois mistérios maiores da fé cristã estão intimamente ligadas à mulher: a encarnação do Filho de Deus com Maria (Lucas 1,35) e a ressurreição com Maria de Magadala (João 20,15). Parte da Igreja, a hierárquica, refém do patriarcalismo cultural, não atribuiu a este fato singular nenhuma relevância teológica. Ela seguramente está  nos desígnio de Deus e deveria ser acolhido com algo culturalmente inovador.

Nestes tempos sombrios, marcados pela morte e até com o eventual desaparecimento da espécie humana por um cataclismo nuclear, a fé na ressurreição nos rasga um futuro de esperança. Nosso fim não é a autodestruição dentro de uma tragédia final mas a a plena realização de nossas potencialidades pela ressurreição: a irrupção do homem e da mulher novos.

Feliz Páscoa a todos os que conseguem crer e também a quem não o consegue.

Leonardo  Boff é teólogo e escreveu: A ressurreição de Cristo e a nossa na morte, Vozes 2012.

  

 

 

quarta-feira, 7 de abril de 2021

"PÁSCOA DEPOIS DA PÁSCOA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS"

 


FREI ALOÍSIO FRAGOSO

(06/04/2021)

 

     Terminada a festa da Páscoa, na liturgia da Fé, retornamos de imediato ao drama da Paixão, ao cenário pandêmico de dores e medos, sem prazo definido de encerrar-se. Na Páscoa revivemos a ressurreição de Jesus, penhor da nossa ressurreição. Mas fica no ar uma pergunta para todos os tempos: quem removerá a pedra do túmulo, tornando visível o renascer da vida, a supremacia da vida?

     Dos que ocupam os poderes constituídos neste país, nada mais temos a esperar. Cansamos do circo, cansamos de oportunistas e prestigitadores (eles parecem querer dançar sobre 330.000 caixões mortuários).

      Quem removerá a pedra do túmulo? - Nós, nós o faremos, armados de ousadia, criatividade, inconformismo, rebeldia, paciência, guiados pelo poder revolucionário da Fé.

      Sinais vivos da ressurreição é o que não  falta, eles se espalham por toda parte, ao alcance de quem tem olhos para ver:

     São as crianças que trouxemos para habitar este mundo infectado. Elas clamam por vida, exigem as garantias para o seu futuro. Seu olhar evidencia que a vida já venceu a morte.

     São pais e mães que se sacrificam ao extremo, a fim de assegurar a unidade e a feliz convivência familiar, neste tempo de quarentena compulsória.

      São profissionais da saúde de todas as categorias que, sem pensar duas vezes, oferecem suas vidas no cuidado de outras vidas.

     São cientistas e pesquisadores que se fecham em seus laboratórios, impelidos pela obsessão de aperfeiçoar a arma confiável de vencer o vírus exterminador.

     São trabalhadores e trabalhadoras humildes, coveiros, zeladores, maqueiros, e outros mais, cumprindo sua missão de preservar visualmente a dignidade da pessoa humana.

      São pensadores geniais pondo ao nosso dispor idéias profundas que dão fundamento ideológico e místico às nossas lutas (Leonardo Boff, Jessé de Souza, Boaventura de Souza Santos, Marilena Chauí, Noam Chomsky, Djanira Ribeiro, José Mujica, Márcia Tiburi e outros tantos).

      São cantores clássicos e populares, poetas e repentistas que     nutrem nosso espírito de poesia e ternura ("hay que endurecer-se, pero sin perder la ternura, jamás").

     É a voz profética de um homem do povo, que ecoa universalmente, acompanhada de um refrão cada dia mais retumbante: "brilha uma estrela, cresce a esperança".

      São milhões de vozes de todas as crenças elevando-se ao Criador em súplicas incessantes: "Vinde, o' Deus, em nosso auxílio!"

     É o testemunho, que comove e convence, de um ancião que se tornou a referência moral da humanidade, o Papa Francisco.

      São claros sinais de que esta pandemia, e outras do passado e a previsão de outras no futuro, não conseguem deter a marcha da humanidade na execução do seu destino.

      E Deus, onde fica Deus neste palco, que Ele mesmo montou, desde o início da Criação? Se Ele estivese alheio a tudo isso, não mereceria o título de Deus, desabitaria nossas almas para sempre, mas não, nem pensar, Ele está presente e atuante, não como um pai "bonzinho" que faz os deveres de casa dos filhos e filhas, e sim como o Pai sensato, que aguarda, enquanto eles aprendem as lições de seus desacertos, e chega na hora oportuna com a sua misericórdia.

      Considerados no seu conjunto, estes sinais abrem o nosso entendimento para o mistério insondável da Cruz: a morte que carrega em si a imortalidade. Este mistério transfere-se para nossa experiência,

pois ao grito de uns "meu Deus, por que me abandonaste?" sucede-se o holocausto de outros que se sacrificam amorosamente. Aí está o derradeiro e supremo anúncio pascal: "Mais forte do que a morte é o amor" Ct.8,6.

     Só assim poderemos entender a morte de um Deus. E teremos razões suficientes de exclamar, neste tempo de Páscoa depois da Páscoa: FELIZ  PÁSCOA!

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

terça-feira, 6 de abril de 2021

PÁSCOA, INSURREIÇÃO E RESSURREIÇÃO

 Marcelo Barros


 

Quando, no Brasil, atingimos a marca de mais de doze milhões de pessoas que contraíram o coronavírus e a cada dia sobe descontroladamente o número de pessoas falecidas, não é fácil falar em esperança. Menos ainda, parece ter sentido em insistir em fazer festa. No entanto, a festa encerra em si mesma algo de terapêutico e profundamente humano que está no coração de todas as culturas. Mesmo em meio a todo sofrimento provocado por esta pandemia, há uma semana, as comunidades judaicas celebravam a festa da Páscoa. Nesta semana, são as Igrejas cristãs do Ocidente que entram no clima da festa pascal.  

Até hoje, nas comunidades judaicas, a Páscoa é chamada “Pezah zeman herutenu” : “a estação da nossa libertação”. O cristianismo fala de “festa da Ressurreição”. A forma e o conteúdo das celebrações variam, mas a raiz é a mesma. Na Páscoa judaica se recorda a noite na qual,  antigamente, o Senhor libertou os hebreus da escravidão. Os cristãos celebram essa memória e acrescentam o memorial da morte e ressurreição de Jesus. Ser cristão/ã é testemunhar ao mundo a energia da ressurreição, atuante em Jesus e por seu Espírito, em todas as pessoas que o acolhem.

 Os poderes da morte continuam agindo. O desamor organiza um mundo escravo do dinheiro e do poder. A sociedade dominante se mostra cada vez mais cruel e sem compaixão. Celebrar a Páscoa não vai mudar mecanicamente esta situação social, política e econômica que vivemos. Não transformará os corações empedernidos de quem promove ou apoia as desigualdades sociais e a injustiça estrutural sobre as quais a sociedade se baseia. Nada poderá eliminar a pandemia, nem transformar a realidade se aqueles que dominam a sociedade optam por salvar acima de tudo o comércio, mesmo à custa de milhares de vidas. Mas, no coração de muita gente, os gritos de Páscoa ressoam teimosamente. No meio das mais áridas paisagens, as flores resistem. Mesmo a lagarta mais asquerosa é chamada a uma mudança radical. Rompe o casulo, ganha asas para voar e se transforma em uma linda borboleta. É símbolo da vocação de todo ser humano para o caminho pascal da liberdade.

Na Bíblia, o termo ressurreição sempre aparece como sinônimo de levantamento. Ressuscitar é levantar para a vida e para a liberdade. O termo começou a ser usado para expressar a restauração da liberdade do povo. E Jesus o usou mas sempre para indicar a vida nova que o Pai lhe deu, mas também a energia divina para transformar o universo e renovar a vida de toda a humanidade.

O nosso saudoso mestre e profeta Pedro Casaldáliga dizia que a missão dos discípulos e discípulas de Jesus é espalhar ressurreição pelo mundo. Essa missão se realiza quando se opta por viver em comunidade como parábola de um mundo novo. Essa é a vocação das Igrejas cristãs: ensaiar uma nova forma de comunhão humana. No entanto, essa missão transcende as fronteiras e muros das Igrejas. Quem, durante esta pandemia, deixa sua zona de conforto e segurança e se arrisca a organizar a solidariedade às pessoas e comunidades mais vulneráveis testemunha a ressurreição. Quem luta pela democratização da água como bem comum da humanidade e de todos os seres vivos cultiva ressurreição. Quem luta contra a energia nuclear e defende o progresso humano com justiça e a partir dos mais vulneráveis semeia ressurreição. Quem no dia a dia refaz os pequenos gestos de carinho e cuida dos sinais de delicadeza entre as pessoas e com todos os seres vivos testemunha ressurreição.

Em cada atitude desta, é o próprio Jesus ressuscitado que se revela vivo entre nós. Mesmo com o corpo ferido e as chagas abertas nas mãos, nos pés e no peito, está vivo e resistente. Seus discípulos se alegram em vê-lo vivo e lembram sua palavra: “Filhinhos, no mundo vocês sempre terão aflições. Tenham coragem: eu venci o mundo”(Jo 16, 33). 

        

 

sábado, 3 de abril de 2021

A PÁSCOA DE UMA NOVA CIVILIZAÇÃO

                                                                     

Mauro Morelli 

Eis que de novo chega a Semana Santa reinando a pandemia com os males que a acompanham, obrigando-nos a fechar portas e portões, em debandada para salvar a própria pele! Na reclusão, perdendo fôlego e alegria de viver, batemos de frente com a angústia e o calafrio do risco eminente da morte se esgueirando para se aninhar nas profundezas de nosso ser.

Pouco a pouco janelas e portas vão se abrindo, pois o alarme para alguns é falso, nada mais do que uma gripezinha, que se afasta com tratamento precoce e, mais ainda, pelo poder de Deus acima de tudo. Vamos pois, porta a fora, para tocar a vida. Afinal, religião é religião; negócio é negócio. Como viver sem nossos botecos, restaurantes, supermercados e shopping centers, sem nossas festas, cultos e procissões?

Pe Dênis Cândido da SIlva

Nos templos e igrejas, sinagogas e terreiros, como nos demais espaços sagrados, com nossos ministros, guias espirituais, padres e pastores, ganhamos o céu sem perder a terra! Tudo continua como dantes, uns com muito, outros com muito pouco e a imensa maioria com quase nada! Sempre foi assim, é o normal da vida. Assim será e Deus seja louvado!

Porém, o tempo passa e o vírus vai ganhando mais força por causa de nossas falsas certezas. Mais do que uma gripe, a peste avança penetrando a fundo em casebres e palácios, uns morrendo à míngua, enquanto outros gozam de recursos que permitem atravessar a tormenta. Gritos e alaridos, protestos são ensaiados para defender a economia, enquanto a saúde despenca ladeira abaixo. O desespero bate nas portas das casas, dos templos e hospitais. Os centros de poder; alicerçados na falsidade de seus objetivos escusos e de alianças espúrias, permanecem omissos e coniventes com o genocídio galopante.

Nas entranhas degradadas da Mãe Terra, não mais fonte de vida, são gestados os vírus da peste que devora crianças, jovens e velhos. O senhorio humano desvairado e insano, rompeu a harmonia da Casa Comum. O tempo se esgota e nossa presença na Casa Comum se torna cada vez mais insuportável. Apelamos para o milagre, quando a resposta está com a ciência e com a consciência que exaltam e honram a biodiversidade e a unidade do pluralismo das formas de vida em comunhão.

Desta forma, confusos e perplexos, “provavelmente viveremos a Páscoa mais insólita de toda a história cristã. Talvez, com exceção de alguns períodos de perseguição em alguns países e em certas épocas da história, as maiores festas cristãs nunca ocorreram sem celebrações públicas. Talvez não tenha havido até agora uma Páscoa, numa tão grande parte do mundo, com as igrejas vazias e em muitos casos fechadas” (Tomáš Halík, O Tempo das Igrejas Vazias, ed. Paulinas, pp. 67-77).

Vamos, então, celebrar a Páscoa?! Mas qual Páscoa? Onde e como? Assim como nos questiona o teólogo tcheco Tomáš Halík, criado num regime ateu diverso do nosso, pretensamente católico e evangélico, estamos dispostos a superar as barreiras ideológicas para encontrar o caminho da fé em Deus que se revela identificado com os descartados, deserdados e crucificados da civilização do ter, do poder e do prazer?

Em plena crise civilizatória, estamos sonhando com a volta à normalidade? Logo mais com meio milhão de vidas ceifadas pela peste nutrida pelo descaso, deboche e omissão, vamos continuar delirando alicerçados em nossas crendices e religiosidade? Ou, rompendo com as amarras que nos escravizam, ousaremos passar pelo vale da morte onde sepultaremos as caricaturas de nossa idolatria e de nosso modo de viver que nos transformou em hóspedes insuportáveis na Casa Comum?

A pandemia torna-se para nós Kairós, uma dádiva do Amor Misericordioso que transforma a desgraça em graça! Muita coisa vai morrer e precisa morrer para o amanhecer do novo. Páscoa é a celebração da Vida triunfando sobre a Morte. Segundo Halík, “neste tempo, a fé de muitos crentes é sacudida, e também muitos “não-crentes” começam a interrogar-se sobre questões fundamentais” (Tomáš Halík, A Pandemia como Experiência Ecumênica. Demolição e Reconstrução, 2020).

A Páscoa é uma história de morte e ressurreição! Celebrar a Páscoa é uma decisão muito exigente, com implicações e desdobramentos que mudam o curso da história, seja a primeira reinando o Faraó, ou a de Jesus de Nazaré, que encerra a disputa entre Jerusalém e Garizim, pois Deus se encontra e se revela em Espírito e na Verdade da Vida; ou agora na pandemia, inaugurando uma nova civilização, em que tudo será novo ou não será!

Estamos dispostos a enterrar nosso modo de ser e de crer como Igreja? Como posso dizer que sou evangélico e católico, reduzindo a fraternidade ao círculo fechado e restrito dos que pensam e creem como nós cremos e pensamos?  Nada resolve mudar de Igreja ou descobrir novas estratégias e fazer piruetas mirabolantes para garantir a relevância e a adesão à nossa Igreja!

Coisa mais estéril e ridícula os gritos histéricos e a pressão para abrir e lotar os templos para louvar a Deus, bem como para acolher as generosas ofertas que garantam o esplendor e os serviços de seus templos.

Quantas coisas nos amarram e desfiguram, distanciando-nos dos primórdios da nossa herança e legado. Não havia senhores e nem servos, nem príncipes ou plebeus, nem ala masculina ou feminina, abastados e carentes; o ministério pastoral era exercido para uma Igreja toda ministerial, uma nova criatura que nasce mergulhando no mar de sangue e água que jorram da cruz.

Esperamos voltar com novas reflexões sobre o serviço convertido em poder, sobre as alianças que transformaram um pobre pescador em rei dos reis, pastores em príncipes revestidos com as pompas das cortes e palácios.

Quais os critérios que nos congregam e regem? Unidade no Pluralismo, Autonomia e Comunhão? Ou Centralização e Subserviência, Feudos e Senhorios?

Uma imagem contendo mesa, quarto

Descrição gerada automaticamente

Kcho, La Ultima Cena. 2011.Óleo sobre tela. 

 

Nesta Quinta Feira Santa, ao recordar a Santa Ceia, em nossos cultos e missas, estamos celebrando e vivendo a Eucaristia? O Concílio Vaticano II nos ensina que “a liturgia é o cume para o qual tende toda a ação da Igreja”. (Constituição Sacrosanctum Concilium, 10).

Jesus de Nazaré, o Verbo encarnado, despojado de glória e poder faz um gesto de escravo que lava os pés de seu senhor! Na Igreja, os últimos são os primeiros, os descartados são acolhidos, os chagados são curados?! Os impuros são acolhidos e purificados com o manto da misericórdia?!

A Eucaristia bem celebrada dispõe de duas Mesas para a Palavra e o Pão, pois a Palavra se fez Gente como nós e Pão que sustenta o peregrino. Eucaristia é Diálogo e Partilha do Amor Misericordioso. Acolher, entender, respeitar e amar as diferenças em suas variantes. Repartir o bocado, isto é, aquilo que é vida para mim.

Vamos celebrar a Páscoa em nossas casas, como nos primórdios, em volta da mesa, melhor se redonda, para o diálogo e a partilha que ajudem a entender quem nós somos, em que mundo vivemos e caminhar em busca de vida sempre mais plena.

“Se para muitos católicos a ida à missa dominical era um dos principais pilares da sua identidade cristã, agora terão de se questionar sobre o que pode ser uma nova e mais profunda fonte da sua vida de fé. O que faz de um cristão verdadeiro cristão, quando o funcionamento da Igreja tradicional de repente deixa de funcionar?” (Tomáš Halík, O Tempo das Igrejas Vazias, p.13).

Essa pandemia tornou nossas mesas mais vazias. Há uma ausência, um vazio, uma saudade. A mesa é profundamente um lugar eucarístico. Os evangelhos nos mostram Jesus em várias mesas, rodeado de gente, sobretudo de pecadores. O cardeal José Tolentino diz: “no centro da liturgia encontrarás a mesa. A mesa onde Jesus quis comer a Páscoa com os discípulos, a mesa de todas as refeições abertas onde acolheu os pecadores, a mesa da Eucaristia onde ele repetidamente se oferece” (José Tolentino Mendonça, Rezar de olhos abertos, ed. Quetzal, p.186).

Votos e preces para a Páscoa de uma nova civilização!

 

 

 

Dom Mauro Morelli é bispo emérito da Diocese de Duque de Caxias (Rio de Janeiro, Brasil); Padre Dênis Cândido da Silva é da Diocese de Luz (Minas Gerais, Brasil) e mestrando em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia em Belo Horizonte (Minas Gerais). 

 

 


terça-feira, 30 de março de 2021

PÁSCOA NO MUNDO E NO ÍNTIMO DE CADA SER

 Marcelo Barros


 

Neste ano, novamente, as comunidades cristãs terão de celebrar a Semana Santa ainda sob o peso da pandemia que, no Brasil, se torna cada vez mais ameaçadora. A orientação justa é celebrar em casa e nos unirmos à nossa comunidade por televisão ou internet. É pena não podermos celebrar o memorial da ceia de Jesus, da sua cruz e da sua ressurreição na comunhão concreta dos irmãos e irmãs de fé. No entanto, nossa reflexão tem de ir além das contingências e a melhor celebração desta Páscoa será a resistência e o testemunho de solidariedade às pessoas mais fragilizadas.

Neste ano de 2021, mais uma vez a celebração cristã da Páscoa coincide com a celebração da Peshá judaica. Em todas as sinagogas do mundo, a festa da Páscoa começou no sábado 27 de março e vai até o próximo sábado. Esta festa que o Judaísmo chama “a festa da nossa libertação” lembra a todo ser humano sua vocação para a liberdade.

Nestes dias que a tradição cristã chama de Semana Santa, as Igrejas recordam a última semana de Jesus em Jerusalém para celebrar a Páscoa. Jesus celebrou a Páscoa como todo judeu praticante. No entanto, em sua época, a Páscoa proposta pelo livro do Êxodo tinha se transformado em uma grande festa comercial, centralizada no templo e para fortalecer o poder e a riqueza dos sacerdotes. Por isso, Jesus quis dar a Páscoa um novo sentido que retomasse a espiritualidade libertadora do Êxodo e, ao mesmo tempo, a estendesse a toda a humanidade.

Imbuídos deste espírito, nesta quinta-feira à noite, iniciaremos a celebração cristã da Páscoa recordando a última Ceia de Jesus, profecia de partilha e doação de vida, apelo de unidade para toda a humanidade. Na sexta feira santa, celebramos a Páscoa da Cruz. Olhamos a paixão de Jesus, tomando formas novas nas cruzes de todos os oprimidos e oprimidas deste mundo e na dor da nossa mãe Terra. Na noite do sábado e madrugada do domingo, mesmo em casa e, portanto, de forma doméstica e laical, celebremos a vigília, mãe de todas as vigílias da Igreja.

Reunir-nos, mesmo virtualmente, para celebrar esta vigília, na amizade do grupo do qual participamos será como se ajudássemos a madrugada a nascer e despertássemos o Sol da Justiça para recriar o mundo e renovar nosso ser engravidando-o de ressurreição.

A celebração desta Semana Santa nos convida a olharmos para fora das Igrejas a tragédia da cruz que continua a ocorrer a cada dia, ao lado da nossa porta. Embora toda dor humana mereça solidariedade, consideramos como prolongamento da cruz de Jesus todo sofrimento físico ou psicológico, decorrente da missão para transformar o mundo. Também as angústias e dores que decorrem de uma sociedade que perdeu o coração.

Assim como um artista esculpe ou desenha uma cruz na parede, podemos ver levantados na cruz, povos inteiros aos quais desde os anos 1980, em El Salvador, o mártir Ignacio Ellacuría chamava de “povos crucificados”. Em cada país da América Latina se contam aos milhares as vítimas do sistema que, para manter o privilégio de uma pequena elite escravagista, provoca dor e morte em milhões de seres humanos. E esta dor e morte de cruz se propaga como pandemia. Em muitos países da América Latina, a cada dia, milhares de pessoas desaparecem, vítimas das milícias policiais e dos grupos de narcotráfico. Em todos os países, mulheres são vítimas do feminicídio e da violência machista. Na maior parte do continente, povos originários têm sua sobrevivência física e suas culturas ameaçadas. No Brasil, aumenta diariamente o número de jovens negros  assassinados nas periferias de nossas cidades. Esses são apenas alguns elementos da violência nossa de cada dia. 

Se celebrássemos a memória da cruz de Jesus indiferentes a essas crucificações atuais, nossa celebração não passaria de um cínico exercício de hipocrisia religiosa. Em meio ao agravamento desta pandemia, sentindo diariamente a fragilidade da vida, esta Páscoa deve ser profecia que nos dê força de resistência e clareza sobre a nossa missão na realidade atual.

Antigamente, éramos educados a compreender a morte e a ressurreição de Jesus como se fosse um drama em dois atos. Ele foi morto e, no terceiro dia, Deus lhe deu uma vida nova. A espiritualidade libertadora nos ensina que nossa fé será pascal se conseguirmos ver na própria cruz e mesmo na morte do Cristo e do povo, os sinais da força divina que vence a morte e aponta para a ressurreição como vitória da vida.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 21 de abril de 2020

PÁSCOA DA MÃE TERRA




Por Marcelo Barros

Embora não pareça, há profunda relação entre a celebração judaica e cristã da Páscoa e o dia da Mãe Terra que a ONU nos propõe celebrar no 22 de abril de cada ano. Cristo ressuscitado se manifesta a nós na terra que resiste e tenta superar o sistema que a agride e ameaça.

A maioria dos cientistas estão de acordo: a pandemia do Covid 19 foi mais rápida e cruel porque encontrou ambiente favorável na atmosfera poluída, nas águas profanadas pela mineração e na terra devastada pelo Capitalismo. Por isso, além de nos proteger como humanidade contra esse vírus mortal, é preciso deter a crise ecológica que fere o planeta. Para isso, a ONU nos convida a, mesmo em quarentena, comemorar o 22 de abril como “dia internacional da Mãe Terra”. O objetivo é nos fazer sentir como humanidade, filhos e filhas da Terra e, assim, renovar o nosso amor e nosso cuidado com nossa casa comum.

Há duas décadas, o Painel Intergovernamental da Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), introduziu a ideia de “ponto de virada”, ou o ponto do não retorno. É o momento no qual não há mais como retomar ao que era antes. Os estudos mostraram que mudanças em alguns ecossistemas influenciam em transformações que passam a ocorrer em outros, como efeito, ou como uma peça de dominó derruba a outra. Quando se atinge determinado ponto, não há mais como restaurar a vida.

Atualmente, geleiras da Antártica se derretem. Em dez anos, o Oceano Atlântico teve aumento de um grau na sua temperatura. A Amazônia é transformada em pastagem. Quase dois terços das grandes florestas do mundo estão destruídas ou em ameaça de destruição. Calcula-se que, cada ano, 50 mil espécies desaparecem da Terra. A cada dia, lançam-se no ar, na terra e na água  produtos químicos que, mesmo anos depois de lançados, continuam a causar morte. Aumenta a emissão de dióxido de carbono e outros gases que causam o efeito estufa na atmosfera. O buraco de ozônio que protege a atmosfera terrestre aumentou e ameaça a vida de populações inteiras e de muitas espécies animais. Assim, o aumento entre 1 e 2ºC será suficiente para atingir o pronto do não retorno.

Nestes meses de quarentena forçada da humanidade, um fenômeno surpreendeu a todos: em vários lugares do mundo, extremamente agredidos pela sociedade dominante, rapidamente, a natureza se revelou com energias de recuperação. Na lagoa de Veneza, bastou 15 dias sem barcos de petróleo a sujar as águas e já se viam peixes e pássaros marinhos nas margens e pontes da cidade. O mesmo fenômeno tem ocorrido em diversos lugares do mundo.

Muitas pessoas se perguntam quantos dias ainda faltam para voltarmos à normalidade. Essa normalidade seria o comércio aberto, as ruas cheias de veículos, os aviões atravessando todo o planeta. E os governos que cortam verbas para a saúde e educação gastam, como, no ano passado, um trilhão e 822 bilhões em armas, portanto, cinco milhões por dia... As previsões para esse ano é de soma maior. Querem forçar as pessoas a trabalharem, correndo riscos, apenas para saciar a ambição da pequena elite da humanidade que desfruta dos benefícios desse sistema. Com vírus ou sem vírus, em todo o mundo, aumenta a desigualdade social.  A maioria da humanidade simplesmente ignora isso e o planeta sofre as consequências. 

É urgente estabelecer novo modo do ser humano se inserir na comunidade de todos os seres vivos que habitam o planeta. É preciso mudar a economia de modo a torná-la compatível com a dignidade humana e com a sustentabilidade ecológica. O problema não é tecnológico. É sobretudo cultural, social e político. Por isso, temos de nos dar conta da gravidade da situação e nos comprometermos em viver um modo novo de nos relacionar com a Terra, a água e o conjunto da natureza.  

Nesse caminho, as religiões e tradições espirituais têm uma responsabilidade imensa. Todas as tradições espirituais redescobrem a relação com a Terra, a água e os elementos do universo como caminhos de intimidade com o Mistério Divino. Para salvar a vida na Terra, precisamos retomar um estilo de vida mais sóbrio e comunitário. Nessa celebração pascal, celebramos o Cristo Cósmico que ressuscita e assume o corpo do planeta Terra.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

sábado, 18 de abril de 2020

ISTO É UMA PASSAGEM, UMA PÁSCOA, UMA LIBERTAÇÃO






Estava tudo tão seco. As plantas pareciam mais gravetos do que plantas. Porém, de tal modo os relâmpagos alumiaram a escuridão da noite, seguido de trovões fazendo tremer a terra que pelas brechas da casa e o piso do chão a luz e o tremor se faziam sentir numa mistura de medo e vontade. Medo cheio de estupefação e encanto desses relâmpagos clareando o céu e dos trovões fazendo tremer a terra. Vontade de chuvas.

Chuvas para que as plantas voltassem a ser plantas, tudo verde, os açudes enchessem dando água a quem tem sede, o chão seco, a caatinga, os bichos e todos os sertanejos.
Assim, haveria também o cansaço gostoso de arar a terra suculenta e jogar as sementes e, muito mais ainda, a alegria da colheita cheia de feixes.

A chuva chega num torrencial. Parece cantiga de ninar, embora molhe todo mundo dentro de casa pelas goteiras nas telhas. Grita-se de alegrias com gritos maiores aos das trovoadas. Os olhos brilham de contentamento bem mais do que a luz dos relâmpagos. É Chuva. É passagem da seca para o inverno. É Páscoa! É como se tudo estivesse morto e passasse a viver de novo. A humanidade e natureza ressuscitaram.

A vida da gente às vezes é assim igual as mal traçadas linhas do parágrafo acima. Quantas páscoas, quantas passagens já tivemos em nossas vidas ou ainda devemos ter!
Quando uma relação conjugal está de mal a pior e o casal procura encarar os problemas e encontra um caminho de continuar a estrada juntos, isto é uma passagem, uma páscoa, uma libertação. Igualmente se pode dizer de um casamento que não deu certo. Quando os dois, esgotadas todas as possibilidades de continuarem juntos, decidem pela separação, isto é também passagem, páscoa e libertação.

Do mesmo modo quando uma pessoa já bem “estável” na sua vida profissional e econômica, decide mudar tudo, quase começando do zero, a busca de outros valores e um trabalho diferente, isto também é uma passagem, uma páscoa, uma libertação.

Ainda podemos de dizer de um padre, uma freira ou outro ministro religioso quando livre, consciente e voluntariamente deixam a batina e o hábito e seguem novos caminhos, é também uma passagem, uma páscoa, uma libertação.

Quando uma homossexual, gay ou lésbica, depois de um processo intenso, angustiante, contudo, também libertador, assume, privada ou publicamente sua orientação sexual, para vivê-la eticamente, isto também é uma passagem, uma páscoa, uma libertação.

Também quando alguém sai dos grilhões das drogas, do alcoolismo, do consumismo e hedonismo, é uma passagem, uma páscoa, uma libertação.

Quando a pessoa passa do conjunto de regras morais escravizantes, autistas e anacrônicas e passa a viver com Deus, segundo os ditames do sacrário, de suas consciências, à luz do evangelho e não dos manuais, isto é também uma passagem, uma páscoa, uma libertação.

Quando pessoas e grupos passam da miséria e da pobreza para uma condição econômica e social para viverem com dignidade, isto é também uma passagem, uma páscoa, uma libertação.

Quando se passa de uma prática de devastação ecológica para um desenvolvimento sustentável e preservação, isto é também uma passagem, uma páscoa, uma libertação.

Agora - prezado leitor e amiga leitora - a passagem, a páscoa e a libertação é passagem de parto, passagem pelo mar vermelho, passagem da morte para vida. São dores de mulher parindo uma nova criancinha. São medo e coragem misturados para a travessia do mar da vida. São agonias e angústias de Jesus no Getsemâni e Gólgota com as alegrias  e contentamentos Dele e dos discípulos na boca do Túmulo Vazio, dos encontros no Cenáculo, no Caminho de Emaús, a  beira do mar da Galiléia  ou nas águas mais profundas do Lago de Genesaré.

Façamos nossas passagens, ou se você está fazendo ou já fez, seja bendito você! Sabemos que não é fácil. Como numa alternância de luzes e de cores assim são as passagens, onde se misturam numa tensão escuridão e claridade, dúvidas e certezas, agonias e esperanças, medos e coragens, perdas e ganhos, custo e benefício, inquietudes e tranquilidade, equilíbrios e desequilíbrios, visível e invisível, exterior e interior, enfim,  mortes e ressurreições. Tudo isso junto. Mas é no meio da angústia que se caminha, se faz a passagem. Jesus bem disse em sua agonia: “Minha alma está angustiada até a morte”. Porém, feita a passagem, ele experimenta: “Eu sou a ressurreição e a vida”.

É Páscoa! Façamos também uma páscoa em nossas vidas! Escutemos os relâmpagos, vejamos os trovões, sintamos a chuva com tudo de bom e bonito que ela traz. Deixaremos de ser gravetos e passaremos a plantas com flores e frutos. Sejamos livres, “foi para liberdade que Cristo Ressuscitado nos libertou”.


FabioPotuiguar é presbítero, membro da Comissão de Justiça e Paz, coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter-religioso na Arquidiocese de Olinda e Recife e capelão da igreja Nossa Senhora da Assunção das Fronteiras.