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terça-feira, 11 de abril de 2023

Páscoa – parto de Vida e Liberdade

 

Marcelo Barros


 

Nestes dias, as Igrejas cristãs celebram a festa da Páscoa. Paróquias e congregações cantam hinos de alegria e proclamam: O Cristo ressuscitou! Comunidades e grupos que, além dos ritos, seguem a missão profética do Cristo gritam para toda a humanidade: O Amor Divino ressuscitou Jesus e essa subversão da Vida tem de provocar força nova para que possamos juntos vencer o desamor e a morte.

Na Amazônia, a dança dos Xapiris faz renascer a floresta e mantém o mundo de pé. Isso traz novo respiro contra garimpos e os males com os quais, durante séculos, a civilização do dinheiro tenta exterminar os povos originários. A teimosia dos Xamãs em invocar os espíritos da floresta é algo de próprio da cultura Yanomami, mas do seu modo, corresponde ao Aleluia da Páscoa cristã. No Nordeste, o Toré indígena nas aldeias e a dança da Jurema nas periferias urbanas têm seu valor autônomo. Não podem ser vistas apenas como tradução para outras culturas de expressões cristãs. No entanto, mesmo com suas características próprias, correspondem do seu jeito ao que para os cristãos é o anúncio alegre e feliz da ressurreição. Cremos que é o mesmo Espírito do Cristo Ressuscitado que, como cantamos, “enche o universo. Tudo abraça em seu saber e tudo enlaça em seu amor”. Esse Espírito é reconhecido pelas comunidades do Santo Daime como o Caboclo Juramadan, pelos povos indígenas do Nordeste no culto dos Encantados e pelas comunidades negras como Orixás, Inquices e Caboclos, cada qual com sua originalidade e características próprias. No entanto, essas diversas expressões de espiritualidade celebram a vitória da vida sobre a morte e da amorosidade sobre o desamor.

Atualmente, a Biologia confirma: o Mistério da Vida se dá pelo entrelaçamento e interdependência das células e dos corpos. O amor é, antes de tudo, fenômeno biológico.  Agora, a mensagem pascal nos diz que a culminância desta evolução é uma forma de  Amor-doação gratuita, que cria comunhão entre nós e nos impulsiona a fazer tudo o que é possível para que a humanidade se torne uma comunidade de irmãos e irmãs.

Para nós, cristãos e cristãs, as festas pascais são sempre ocasião para novamente acreditarmos que é possível recomeçar o caminho da Boa Nova. A ressurreição de Jesus confirma em nós o amor divino. Este amor toma conta de nossas vidas e nos dá força para impregnar de amor as estruturas da vida e da sociedade.

Neste momento brasileiro, um bom número de pessoas católicas e evangélicas, em nome de Jesus apoia políticas de direita contrárias aos interesses dos mais pobres e testemunha um Deus cruel e sectário, amigo dos que o adoram e vingativo com os que não aderem à Igreja. A boa notícia da ressurreição tem de ser profeticamente contrária a esse tipo de religião. Por isso, grupos cristãos de várias Igrejas preparam um Mutirão da Profecia para reafirmar ao mundo que seguir Jesus Ressuscitado é optar pela justiça, paz e misericórdia anunciada nas bem-aventuranças do evangelho. Desta Páscoa, até o 7 de setembro, quando no Brasil, ocorre o Grito dos Excluídos, muitos grupos cristãos se preparam para reafirmar o compromisso de comunhão com os mais pobres. A Páscoa nos faz viver uma Igreja a serviço de toda a humanidade e não somente das pessoas que creem.

Junto com todas as pessoas famintas e sedentas de justiça e paz, acendamos sobre a terra o fogo novo da paz e da solidariedade. A partir da alegria de crermos que Jesus ressuscitou, a nossa missão, como dizia Pedro Casaldáliga, é sair pelo mundo semeando e espalhando ressurreição.

segunda-feira, 8 de março de 2021

CAROLINA MARIA DE JESUS: A FOME, A LIBERDADE, O SONHO

 


        Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            Hoje, Dia Internacional da Mulher, não posso deixar de registrar minha emoção ao ler a notícia de que no último dia 25 de fevereiro de 2021 Carolina Maria de Jesus recebeu o Doutorado Honoris Causa pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).  Em meio a todo o caos que o Brasil vive, com a aceleração exponencial da pandemia, a escassez de vacinas, as decisões e hesitações chocantes do governo e o drama do aumento da pobreza, enfim uma novidade luminosa.

            Minha relação com a escrita dessa mulher negra e favelada vem de longe, de minha adolescência quando, aluna do Colégio Sion, recebemos a indicação do livro “Quarto de despejo. Diário de uma favelada” como leitura importante a ser feita para o curso de português.  Já antes da leitura, impressionou-me a biografia da autora.  Carolina começara a escrever ainda criança, em sua Minas natal. E com os escassos dois anos de escolaridade, apaixonou-se pelo ato de escrever e levou-o para a vida inteira. Vida essa que se desenrolaria em boa parte em São Paulo, na favela do Canindé, para onde foi após a morte da mãe.  Ali criou seus três filhos trabalhando como catadora de recicláveis, além de fazer eventuais faxinas e lavar roupa para fora. O papel que retirava do lixo servia para compor um diário de suas experiências e reflexões, que depois resultariam em seu primeiro livro. Vendeu 3 milhões de exemplares e foi traduzido para 16 idiomas. 

            Hoje, com o olhar que os muitos anos de teologia me concederam vejo que na escrita de Carolina concretiza-se uma das muitas frases lapidares de Dom Pedro Casaldáliga, bispo do Araguaia, profeta e poeta recentemente falecido: “Só existem dois absolutos: Deus e a fome”. Ambos são os personagens centrais da obra da doutora Carolina.  Lutando contra a fome e buscando a sobrevivência, Carolina registrou e criou seus filhos sozinha, sem marido ou companheiro. Nunca se casou e os três filhos foram frutos de relacionamentos diferentes que tivera.  

            Nessa luta infindável e diuturna, a fome é companheira inseparável de Carolina. “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago. Mordendo seu estômago e o de seus filhos, trazendo-lhe às vezes a tentação de acabar com tudo para não sentir mais sua dolorosa presença, a escritora pensa e dialoga com ela. Pesa-lhe mais a fome dos filhos do que a sua própria: “Os meninos estão nervosos por não ter o que comer” ou “os meus filhos estão sempre com fome”. A fome própria, no entanto, está presente de fato com toda a sua crueza e crueldade.  E Carolina constata: “É preciso conhecer a fome para saber descrevê-la”. E essa lhe parece uma condição necessária para poder exercer com justiça um cargo público de responsabilidade:  “O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora”.

Com sua impressionante imaginação e talento literário, Carolina atribui até mesmo uma cor à fome: o amarelo. Ao mesmo tempo, o amarelo em seu livro é a cor da vida. Todos os dias a escritora abria a janela, olhava para o céu e lá estava o sol, amarelo e luminoso. Essa luz, a cada manhã era mensagem de esperança de uma vida melhor, onde as trevas da fome e da miséria seriam vencidas e suplantadas.  

Carolina é uma mulher livre, que por prezar tanto sua liberdade jamais se casou.  Vê a vida que levam suas vizinhas oprimidas pelo machismo dos companheiros e se regozija de sua escolha de vida. As mulheres que moram na favela como ela e vivem com seus homens devem “mendigar e ainda apanhar.  Parece tambor.  À noite, enquanto elas pedem socorro, eu tranquilamente, no meu barracão, ouço valsas vienenses... Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas.” 

Que mulher é essa que identifica o gênero musical das valsas para expressar sua tranquilidade de mãe sozinha e sem companheiro?  É a mesma que transcende a miséria através da escrita e envia inclusive mensagens a Deus, em quem pensa e com quem dialoga, olhando em volta e sentindo sua dura e injusta realidade. “Será que Deus sabe que existem as favelas, que os favelados passam fome?”. “Só Deus para ter dó de nós”. “Deus é sombrio. É o advogado dos humildes. Os pobres são criaturas de Deus”.  “Deus precisa iluminar os bancos para que os pretos sejam felizes.” 

Essa poeta era agraciada por Deus com sonhos consoladores e iluminados como os profetas e os patriarcas bíblicos.  Ali experimentava a plenitude que sua vida de favelada não lhe permitia tocar no cotidiano. "... Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo. Meu vistido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organizaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso. Quando despertei, pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetáculo, por isso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh´alma dolorida. Ao Deus que me protege, envio os meus agradecimentos."

Que a doutora Carolina, discípula da fome e do Deus verdadeiro, inspire todas as mulheres para seguir vivas, enfrentando a realidade, lutando pela liberdade e deleitando-nos com os sonhos deslumbrantes que o Deus da vida nos concede generosamente. 


Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de
 “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 Maria Helena Guimarães Pereira

MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

MONSENHOR CASALDÁLIGA – PEDRO LIBERDADE



Por Roberto E. Zwetsch

Dom Pedro, pastor, poeta, profeta,
Pedro irmão, amigo, defensor
De gente humilde, esquecida,
Como abandonado era o sertão onde ele foi morar
Viver, evangelizar.

E então ser bispo, articulador, semente de resistência.
São Félix do Araguaia nunca mais foi a mesma
Depois que ele chegou!

A carta de uma Igreja na Amazônia em conflito com o latifúndio
E a marginalização (1971)
Inaugurou um grito, instituiu o que mais tarde
Passaria a se chamar “uma igreja com rosto amazônico”.

Mas foi como uma senha,
Causou furor nos inimigos da gente pequena,
Espantou os governantes, fruto de um golpe militar e
Civil, apoiado pela elite de sempre.

O golpe outro, aquele que durou 21 anos,
Que hoje se repete no novo golpe deste século 21
E já nasce torto, obscuro, violento,
Dominado pelo conluio de forças
Midiáticas, parlamentares, judiciais,
Que agem amparadas na lei higienicamente burlada,
Forçada, quebrada ao sabor dos interesses.

Mas não menos covarde como outrora.

Pedro entre nós resiste, chora, ora, preservando
A mesma verve, embora o corpo sofra e grite.

A lucidez o mantém vivo, alerta, solidário sempre
Com a Amazônia, os povos da floresta,
O papa Francisco, o último Sínodo,
Aquele da ecologia integral
Que uniu num só espírito
A luta da terra e a luta dos pobres.

Pedro sonhou com este conclave maior fazia muito
E o viveu na solidão do sertão do Mato Grosso
Cercado pelo carinho do seu povo e da comunidade.

Teria estado lá com seus irmãos e irmãs
Não fosse a debilidade vivida no limite,
Na fé e na ousadia teimosa de quem aprendeu
– a duras penas – a dizer: Não!

À injustiça, à desigualdade, à violência, ao crime hediondo,
Diante da desfaçatez, ele foi sempre enfático: Não!

E pagou um alto preço pela ousadia.

Em seu lugar, pregou a união dos diferentes,
A comunhão dos pequenos, a partilha do pouco,

A vivência da fé na coragem de ser,
A alegria da festa comunitária, a criançada
A correr feliz na beira do grande rio
Que ele conheceu como poucos em suas muitas
Travessias, atento às margens, aos pássaros,
Às tartarugas e aos peixes voadores.

Nunca se furtou à conversa com os canoeiros,
Os peões de fazenda, as moças das vilas,
Os jovens das escolas,
As avós famintas, os lavradores sem terra
Que produziam feijão, macaxeira, banana,
As frutas do quintal.

Essa gente amiga que sempre o abrigou
Nas casas de palha, de barro batido,
Onde havia rede e um café passado na hora.
Por isso mesmo, casa fraterna e mesa repartida.

Pedro teve por báculo o remo tapirapé,
Como anel, o tucum dos povos indígenas,
Por mitra, o chapéu de palha
E por calçado a sandália de borracha.
Escândalo episcopal, profecia encarnada no corpo,
Na mente e no espírito inquieto da
Insurreição do evangelho.

Viveu a colegialidade do ministério com
O clero, as religiosas e o povo das comunidades
Sempre à escuta da sabedoria popular.
Hoje vive sua própria páscoa, travessia,
Na entrega do corpo, da vida, da inteligência,
Da fé, dos sonhos que sonhou
de olhos abertos e espírito apaixonado.

Uma entrega que se mostra símbolo de utopia
E do compromisso maior
Na senda aberta pelo Senhor dos Passos,
O Cristo Jesus de Nazaré e de todos os povos.

Em comunhão com Pedro, seguiremos seu caminho
Na unidade do Espírito da Liberdade.

O Deus de toda paz o cubra de bênção, de amor
De misericórdia e de compaixão.
A alegria do evangelho vencerá,
Ah, vencerá mesmo, Pedro,
Ainda que a maldade pareça infinita.

Vem, Senhor Jesus!
No fim, permanecem a fé, a esperança e o amor.
Mas o maior é e sempre será o Amor!

Pelotas, novembro de 2019.
Roberto E. Zwetsch
Pastor luterano


quinta-feira, 21 de novembro de 2019

LIBERDADE E JUSTIÇA SOCIAL




Frei Betto

        Na década de 1980, visitei com frequência países socialistas. As viagens decorreram de convites dos governos daqueles países, interessados no diálogo entre Estado e Igreja. Acreditavam que a Teologia da Libertação poderia contribuir nesse sentido.

        Do que observei concluí que socialismo e capitalismo não lograram vencer a dicotomia entre justiça e liberdade. Ao socializar o acesso a bens materiais básicos e direitos elementares (alimentação, saúde, educação, trabalho, moradia e lazer), o socialismo implantara um sistema mais justo que o capitalismo.

        Ainda que incapaz de evitar a desigualdade social e, portanto, estruturas injustas, o capitalismo instaurou, aparentemente, liberdades – de expressão, reunião, locomoção, crença etc. – que não se viam nos países socialistas.

        Residiria o ideal um sistema capaz de reunir a justiça social predominante no socialismo com a liberdade individual vigente no capitalismo? Ora, a dicotomia é inerente ao capitalismo. A liberdade que nele predomina não condiz com os princípios de justiça. Seus pressupostos paradigmáticos – competitividade, livre iniciativa, hegemonia do mercado – são antagônicos aos princípios socialistas (e evangélicos) de solidariedade, partilha, defesa dos direitos dos pobres e da soberania da vida sobre os interesses do capital.

        No capitalismo, a apropriação individual, familiar e/ou corporativa da riqueza é direito protegido por lei. E a aritmética ensina que, quando um se apropria em demasia, muitos são desapropriados. A opulência de poucos decorre da carência de muitos. A história da riqueza no capitalismo é uma sequência de guerras, saques, roubos, invasões, anexações, especulações etc.

        Hoje, a riqueza da maioria das nações desenvolvidas decorre da pobreza dos países ditos emergentes. Ainda agora os parâmetros que regem a OMC são claramente favoráveis às nações metropolitanas e desfavoráveis aos países exportadores de matérias-primas e mão-de-obra barata.

        Um país capitalista que agisse segundo os princípios da justiça social cometeria suicídio sistêmico; deixaria de ser capitalista. Nos anos 1980, fui questionado, ao proferir palestra em Uppsala, por que o Brasil, com tanta fartura, não conseguia erradicar a miséria, como fizera a Suécia. Perguntei-lhes: “Quantas empresas brasileiras estão instaladas na Suécia?” Fez-se prolongado silêncio. Naquela época, nenhuma empresa brasileira operava naquele país. Em seguida, indaguei: “Sabem quantas empresas suecas estão presentes no Brasil?” Todos sabiam que havia marcas suecas em quase toda a América Latina, como Volvo, Scania, Ericsson e a SKF, mas não precisamente quantas no Brasil. “Vinte e seis”, esclareci. (Hoje são mais de 100). Como falar em justiça quando um dos pratos da balança comercial é obviamente favorável ao país exportador em detrimento do importador?

        Se a injustiça social é inerente ao capitalismo, poderia alguém objetar: mas não é verdade que neste sistema o que falta em justiça sobra em liberdade? Nos países capitalistas não predominam o pluripartidarismo, a democracia, o sufrágio universal, e cidadãos não manifestam com liberdade suas críticas, crenças e opiniões? Não podem viajar livremente e até mesmo escolher viver em outro país, sem precisar imitar os refugiados mediterrâneos?

        De fato, nos países capitalistas a liberdade existe apenas para a minoria que dispõe de recursos. Para os demais, vigora a liberdade virtual. Como falar de liberdade de expressão de uma faxineira? É uma liberdade virtual, pois ela não dispõe de meios para exercitá-la.

        Por que os votos dessa gente jamais produzem mudanças estruturais? No capitalismo, devido à abundância de ofertas e à indução publicitária ao consumo supérfluo, qualquer pessoa que disponha de renda é livre para escolher, nas gôndolas dos supermercados, entre diferentes marcas de sabonetes ou sucos. Tente-se, porém, escolher um governo disposto a reduzir os privilégios dos ricos e ampliar os direitos dos mais pobres! Tente-se alterar o sacrossanto “direito” de propriedade (baseado na sonegação desse direito à maioria). E por que Europa e EUA fecham suas fronteiras aos imigrantes dos países pobres? Onde a liberdade de locomoção?

        Sem os pressupostos da justiça social, não se pode assegurar liberdade para todos.


Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.
® Copyright 2019 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE À GREVE DE FOME PELA LIBERDADE DE LULA



Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
pois serão saciados” (Mateus 5,6)

O Fórum Articulação de Leigas e Leigos solidariza-se com todas e todos que, diante de da realidade de devastação que passa o País, com os efeitos do Golpe Jurídico Parlamentar, fazem greve de fome voluntária e involuntariamente e, em especial, com os companheiros que desde de o dia 31 de Julho de 2018 estão fazendo em protesto por Justiça e Democracia: Vilmar Pacífico,  Zonália Santos (MST), Frei Sérgio Gröjen, Rafaela Alves, Jaime Amorim (Movimento de Pequenos Agricultores -MPA) e Luiz Gonzaga Silva ( Gegê, da Central de Movimentos Populares)

Entendemos que estes corajosos e bravos companheiros estão tomando uma posição radical de privação do alimento do corpo em nome de todos que sentem diversas formas de fome. A fome do alimento de um Brasil que retornou ao Mapa da Fome da ONU. Fome de saúde por todos que estão vendo os programas de saúde terem seus recursos retirados para pagar as dívidas do País aos rentistas nacionais e internacionais do deus mercado. A fome de educação de todos que vêm a possibilidade do fechamento de escolas, universidades e centros de pesquisa públicas estatais. Fome de justiça por todos os perseguidos, porque são de uma classe historicamente explorada e excluída. Fome de Democracia e de respeito à vontade do povo.

Por fim clamamos a estes companheiros que cessem esta violência ao próprio corpo, embora entendamos que a verdadeira violência vem dos traidores do povo, que perseguem diuturnamente os excluídos e massacram o trabalhador.

Com seus sacrifícios já demonstraram sua honra e seu valor bem como a bravura e fibra do povo brasileiro que, ao contrário do que dizem os dominadores, sempre lutou e deu sua vida por um País mais justo e fraterno. Irmãos, vocês já entraram para o rol dos heróis do povo - Zumbi, Dandara, Margarida, Ir. Dorothy, Dom Helder, Chico Mendes e tantos outros que a lista seria interminável.

Qualquer que seja a decisão que tomem estaremos solidários e seguiremos em orações para que sejam guiados pela força do Divino Espírito Santo e cuidados pela mãe Nossa Sra. Aparecida e a “armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis, depois de terem feito tudo” (Efésios 6:13)

Assinam pelo Fórum de Articulação de Leigas e Leigos de Olinda e Recife os grupos e Movimento Sociais listados a baixo

CEB´s
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
Centro Educacional Profissionalizante do Flau - Turma do Flau
Comissão de Justiça e Paz
Omissão Pastoral da Terra
Grito dos Excluídos
Grupo de Leigos Católicos Igreja Nova
Grupo Encontro da Partilha
Grupo Fé e Política Dom Helder Câmara
Grupo Mulher Maravilha
IDheC – Instituto Dom Helder Camara
Instituto Humanitas
Mística e Revolução - MIRE
Movimento de Cursilhos de Cristandade da Arquidiocese de Olinda e Recife
Movimento de Mulheres Contra o Desemprego
MPC – Movimento de Profissionais Cristãos
MTC/NE II - Movimento de Trabalhadores Cristãos
Pastoral das pessoas em situação de rua
RCB – Renovação Cristã do Brasil
Tenda da Fé
Trapeiros de Emaús

terça-feira, 30 de maio de 2017

A VENTANIA DA LIBERDADE

Por Marcelo Barros


No mais íntimo de cada pessoa, há uma permanente busca de sentido para a vida. Todos os seres humanos têm em comum o desejo íntimo e insaciável por algo mais profundo do que a mera cotidianidade e as necessidades imediatas. Há uma fome e sede de infinito. Mesmo se nos deixamos absorver pelas correrias do dia a dia, dentro de nós pulsa um misterioso apelo para um reencontro mais profundo conosco mesmo, para uma relação solidária com as outras pessoas e com o universo. Quem crê em Deus não pode vê-lo como uma entidade fora da realidade. Ao contrário, é um segredo de Amor presente e por trás de tudo o que existe. No fundo, é esse mistério de amor que todos os seres humanos pressentem e no qual buscam saciar sua sede de mais vida. No século IV, Santo Agostinho afirmou: "O coração humano vive inquieto até que possa repousar em Ti".

Conforme a fé cristã, a abertura ao Espírito é dom e corresponde a um chamado divino colocado no mais profundo de nós. O povo antigo acreditava que o Espírito Divino era uma ventania que sacode tudo e renova a vida. Em uma das tradições religiosas afro-brasileiras, a ventania é expressão de Iansã, o Orixá dos ventos e das tempestades. Em hebraico, o termo "espírito" é “ruah”, ventania. Na primeira página, o Gênesis afirma que antes que Deus pusesse ordem na criação, "a ventania divina pairava sobre as águas (Gn 1, 2). Mais tarde, quando os hebreus precisavam atravessar o Mar Vermelho para se libertar da escravidão do Egito, a ventania divina soprou durante toda a noite, separando as águas, para que o povo pudesse atravessar o mar a pé enxuto (Ex 14).

Na Bíblia, muitas vezes, o Espírito Divino toma a expressão feminina de mãe carinhosa a soprar a vida sobre a primeira humanidade (Adão), depois a fazer com o povo uma aliança de amor, baseada no casamento entre verdade e amor fidelidade e ternura. Conforme o evangelho de João, quando ressuscitou, Jesus apareceu aos discípulos reunidos e, assim como na criação da humanidade, Deus tinha soprado sobre o ser humano lhe dando vida, Jesus soprou sobre os seus discípulos e discípulas para lhes dar a vida nova do Espírito” (Jo 20, 19- 23).

Nesse próximo domingo,  mais uma vez, as Igrejas encerram as festas anuais da Páscoa com a celebração de Pentecostes. No Centro-oeste e em outras regiões do Brasil, as folias do Divino saem às ruas com seus ritos, suas melodias e seus tambores. Invocam o Espírito sobre a natureza ameaçada e sobre esse nosso mundo que parece tão sem rumo. 

Hoje, homens e mulheres das mais diversas religiões, assim como pessoas que não seguem nenhum credo, se engajam em buscar “um novo mundo possível”. Deixam-se tocar pela brisa suave da ventania divina e se mobilizam ao ver o fortalecimento de movimentos populares, indígenas e negros em todo o nosso continente. Quem abrir os olhos verá que há algo de novo acontece. Em todo o mundo, a realidade social e política tem se tornado mais dura e cruel. No entanto, os movimentos sociais têm se unido na luta pacífica por mais justiça e paz. Mesmo em meio a muitas contradições, a presença do Espírito em nós, não nos deixa perder a esperança. A festa de Pentecostes vem nos lembrar nossa vocação para a liberdade. Em suas cartas, Paulo nos assegura: “Vocês não vivem mais sob o domínio dos instintos egoístas (carne), mas sob o Espírito e o próprio Espírito Divino habita em vocês” (Rm 8, 9).  "Onde estiver o Espírito de Deus, aí haverá liberdade" (2 Cor 3, 17). "Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou" (Gal 5, 13).


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.




segunda-feira, 6 de março de 2017

TEMPO DE EXERCITAR A LIBERDADE

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 


Talvez uma das palavras mais importantes nos dias que vivemos seja  liberdade.  Todos a usam, todos a desejam, todos pensam vivê-la.  E, no entanto, é talvez uma das palavras que mais se presta a equívocos.

Iniciamos o tempo da Quaresma.  Tempo de conversão, de voltar às raízes da opção fundamental.  Tempo de apalpar de novo com paixão o sentido da vida escolhido e, às vezes, desgastado, esquecido, negligenciado.  Tempo de, mais que nada, exercitar a liberdade e torná-la opção vital e vivida, superando a cada passo ambiguidades e distorções.

Diante de uma multiplicidade de opções, somos livres para escolher.  Livres de uma liberdade que se testa na clivagem e no laboratório da vida individual de cada um. Trata-se de uma liberdade que depende da multiplicidade de possibilidades.  E que vive e se multiplica quanto mais essa multiplicidade de possibilidades é mantida. Por isso, paradoxalmente, pode tornar-se uma liberdade vazia e enganosa, uma vez que não se tem a coragem de colocar uma possibilidade acima das outras: escolher uma significa rejeitar outras e isso não entra na dinâmica do jogo do consumo e da volatilidade de nossa sociedade. Em outras palavras, selecionar, rejeitar, cancelar, nada disso está previsto como parte do processo.  
Como diz lapidarmente Bauman, “como no caso dos signos, que têm chances de comunicar-se na medida em que permaneçam livres de significados, a essência da escolha livre é o esforço para abolir a escolha.”

O ímpeto de um desejo de consumo estimulado por um raio de oferta sempre maior torna então a autogratificação, a satisfação, impossíveis. Decidir começa a se tornar algo extremamente difícil e quase impossível porque significa renunciar a outras possibilidades para escolher uma; ou escolher uma para ser colocada acima das outras. Vivemos escravizados sob uma “tirania de possibilidades” que nos acossa constantemente, multiplicando as ofertas diante de nós, sem deixar-nos espaço de liberdade para escolher, dizer que sim ou que não.

Muitas vezes queremos dizer sim sem dizer  não, deixando todas as opções em aberto.  Isso acontece no ato de consumir bens perecíveis ou voláteis, mas também nas escolhas afetivas e nas opções de vida.  Em um momento diz-se sim ao casamento, ou à entrada em um estado de vida, ou a uma profissão, a uma vocação. Ou à maternidade ou à paternidade.   Mas deixa-se interiormente a porta aberta para outras opções que virão mais tarde.  Todos os relacionamentos, empregos, casas, carreiras, vocações, parecem ter datas de validade e prazos de vencimento.

   Não é à toa que a etimologia das palavras “decidir” e “ decisão” fala de corte, separação. Toda escolha que implica uma decisão tem que apreciar uma pluralidade de possibilidades e caminhos e “cindir”, cortar as restantes para permanecer com uma.  Há que separar cortando, ainda que a duros golpes para que haja realmente escolha e decisão. Talvez seja preciso cortar na carne.  Pois que seja, se assim o pede a fidelidade a uma liberdade que abre sempre mais para um horizonte sempre mais amplo.

       Às vezes acreditamos que decidimos bem, mas devido a uma série de correntes que se movem dentro de nós e nos arrastam, nossos caminhos podem ser desviados para portos que não havíamos escolhido. E aqui estão em jogo não apenas as grandes opções, mas a qualidade de nossas vidas cotidianas, que podem inadvertidamente ser desvalorizadas pela dinâmica da cultura que se instalou em nós.

       Como diz K. Gergen, “nossa pessoa, nosso “eu” saturado de informações, de propostas de consumo, de possibilidades diferentes de organizar a vida, de relações reais ou virtuais, de ofertas de todos os estilos, vai se convertendo em um “eu “colonizado.  Quando se nos apresenta uma situação nova, já temos uma infinidade de respostas possíveis arquivadas dentro de nós”. E o resultado é que não conseguimos exercitar plenamente a nossa liberdade.

A Quaresma deseja chamar-nos a isso, facilitar-nos esse tempo qualitativo de exercício da liberdade.  Enquanto caminhamos em direção à Páscoa do Senhor, somos chamados a olhar nossos hábitos, nossas escolhas, nossas decisões.  E a revê-las em um exercício de honestidade, iluminado pela fé e pelo amor.

Que esse tempo nos faça mais livres.  E mais dispostos a exercitar essa liberdade.  Santa Quaresma para todos e todas.

 Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-RJ.  A    teóloga é autora de “O  mistério e o mundo – Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora Rocco.
Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>