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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

QUANDO A VENTANIA SOPRAR

 



Kinno Cerqueira [1]

 

O que somos? O que nos habita? O que desejamos? O que nos move? São questões que, a um só tempo, nos põem a contemplar a escuridão que somos e desnudam a impossibilidade de dizermo-nos a nós próprios.

Somos crepúsculo, noite e nascer do sol, porém, jamais dia claro. Somos mistério, mistério, mistério...

Nosso existir é uma ciranda cuja primeira voz é uma presença sempre intuída e pressentida, embora nunca sabida nem vista.

A voz que move as cirandas é misteriosa: ouvimo-la qual ventania assobiante a seduzir-nos à embriagante dança da vida.

A voz assobiante assalta-nos por dentro: leva de nós o medo de atirarmo-nos na vida, instaurando em nosso interior um gélido vazio cujo contrário não seria outro que não um ardente caso de amor com a vida.  

Nossas noites de amor com a vida, a lembrança de seus cálidos lábios e de sua pele caliente sob o cobertor da loucura não encontram palavras que permitam romancear o mais profundo de tão sublime experiência orgástica.  

Palavras são casas nas quais habitamos. Para não sermos eternamente indigentes, criamos religiões, as quais são ensaios precários, embora belos, de romancear experiências de amor que tivemos com a vida sob a misteriosa presença da erótica ventania assobiante.

No romanceamento judaico-cristão, escutamos a confissão de um desses amantes da vida, Jesus de Nazaré: “A ventania sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que foi parido pela ventania” (Jo 3,8).

Sua experiência de enamoramento da vida não poderia ser poetizada de melhor forma, senão nestas palavras mesmas que deixam ver a imprevisibilidade do amor, os arroubos da paixão, os assaltos do tesão.

Amantes não sabem para onde vão. Seu destino comum lhes é desvelado paulatinamente e somente à medida que se lançam na imprevisível dança do amor, pois, como dissera um amante de língua portuguesa, “quem ama nunca sabe o que ama nem sabe por que ama, nem o que é amar” (Fernando Pessoa).

Nascer da ventania é, sem dúvida, o estado de quem se sente renascido das quentes águas do amor. Na vida do amante Jesus de Nazaré, essa experiência foi tão forte que ele chegou a dizer: “eu sou a vida” (Jo 14,6), confissão apaixonada de quem está tão enamorado da vida a ponto de se sentir um com ela.

No romanceamento dos povos originários desta terra, escutamos falar da Curviana, ventania suave a correr pelas matas e cidades noite adentro, deusa dos ventos e da neblina, brisa misteriosa que, com sua dança circular, encanta forasteiros para que estes se enamorem da terra e nunca mais queiram voltar para os lugares donde saíram. Ventania fria que solicita um abraço de amor entre a pessoa humana e a terra, a Curviana.    

Na paisagem da semântica do romanceamento da etnia iorubá ou nagô, como é mais conhecida no Brasil, Oyá-Iansã é o nome do orixá feminino cuja essência é a liberdade recriadora da vida. Oyá-Iansã, senhora das tempestades e da chuva, corporifica a transgressão feminina de recusa à mediocridade de espaços fechados e a entrega de si à apaixonante aventura de amar perdidamente a vida.

A ventania assobiante do romanceamento judaico-cristão, mais conhecida como Ruah, a Curviana dos povos originários e Oyá-Iansã da etnia iorubá são tentativas de exprimir com palavras a presença da misteriosa voz que nos seduz à ciranda, a inebriante dança da vida.

Misteriosa voz que nos chama a dar as mãos, melodia sedutora e canto irresistível, presença ausente e ausência mais que presente, alameda florida que se abre como caminho no qual nos aguardam os lábios da vida.

Quando a ventania vos soprar, dançai. O amor sopra onde quer...

 

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

terça-feira, 30 de maio de 2017

A VENTANIA DA LIBERDADE

Por Marcelo Barros


No mais íntimo de cada pessoa, há uma permanente busca de sentido para a vida. Todos os seres humanos têm em comum o desejo íntimo e insaciável por algo mais profundo do que a mera cotidianidade e as necessidades imediatas. Há uma fome e sede de infinito. Mesmo se nos deixamos absorver pelas correrias do dia a dia, dentro de nós pulsa um misterioso apelo para um reencontro mais profundo conosco mesmo, para uma relação solidária com as outras pessoas e com o universo. Quem crê em Deus não pode vê-lo como uma entidade fora da realidade. Ao contrário, é um segredo de Amor presente e por trás de tudo o que existe. No fundo, é esse mistério de amor que todos os seres humanos pressentem e no qual buscam saciar sua sede de mais vida. No século IV, Santo Agostinho afirmou: "O coração humano vive inquieto até que possa repousar em Ti".

Conforme a fé cristã, a abertura ao Espírito é dom e corresponde a um chamado divino colocado no mais profundo de nós. O povo antigo acreditava que o Espírito Divino era uma ventania que sacode tudo e renova a vida. Em uma das tradições religiosas afro-brasileiras, a ventania é expressão de Iansã, o Orixá dos ventos e das tempestades. Em hebraico, o termo "espírito" é “ruah”, ventania. Na primeira página, o Gênesis afirma que antes que Deus pusesse ordem na criação, "a ventania divina pairava sobre as águas (Gn 1, 2). Mais tarde, quando os hebreus precisavam atravessar o Mar Vermelho para se libertar da escravidão do Egito, a ventania divina soprou durante toda a noite, separando as águas, para que o povo pudesse atravessar o mar a pé enxuto (Ex 14).

Na Bíblia, muitas vezes, o Espírito Divino toma a expressão feminina de mãe carinhosa a soprar a vida sobre a primeira humanidade (Adão), depois a fazer com o povo uma aliança de amor, baseada no casamento entre verdade e amor fidelidade e ternura. Conforme o evangelho de João, quando ressuscitou, Jesus apareceu aos discípulos reunidos e, assim como na criação da humanidade, Deus tinha soprado sobre o ser humano lhe dando vida, Jesus soprou sobre os seus discípulos e discípulas para lhes dar a vida nova do Espírito” (Jo 20, 19- 23).

Nesse próximo domingo,  mais uma vez, as Igrejas encerram as festas anuais da Páscoa com a celebração de Pentecostes. No Centro-oeste e em outras regiões do Brasil, as folias do Divino saem às ruas com seus ritos, suas melodias e seus tambores. Invocam o Espírito sobre a natureza ameaçada e sobre esse nosso mundo que parece tão sem rumo. 

Hoje, homens e mulheres das mais diversas religiões, assim como pessoas que não seguem nenhum credo, se engajam em buscar “um novo mundo possível”. Deixam-se tocar pela brisa suave da ventania divina e se mobilizam ao ver o fortalecimento de movimentos populares, indígenas e negros em todo o nosso continente. Quem abrir os olhos verá que há algo de novo acontece. Em todo o mundo, a realidade social e política tem se tornado mais dura e cruel. No entanto, os movimentos sociais têm se unido na luta pacífica por mais justiça e paz. Mesmo em meio a muitas contradições, a presença do Espírito em nós, não nos deixa perder a esperança. A festa de Pentecostes vem nos lembrar nossa vocação para a liberdade. Em suas cartas, Paulo nos assegura: “Vocês não vivem mais sob o domínio dos instintos egoístas (carne), mas sob o Espírito e o próprio Espírito Divino habita em vocês” (Rm 8, 9).  "Onde estiver o Espírito de Deus, aí haverá liberdade" (2 Cor 3, 17). "Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou" (Gal 5, 13).


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.