O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador QUANDO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador QUANDO. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 14 de junho de 2023

PALAVRAS DE PEDRO - PERGUNTAS QUANDO CAMINHAS

 


 Dom Pedro Casaldáliga



Perguntas quando caminhas

 

Quando caminhas

perguntas.

Respondes

quando caminhas,

se é que, caminhando, escutas.

Tu és a palavra ouvida

quando vives caminhando

com todos os que caminham.

 

Pedro Casaldáliga, Fogo e cinza ao vento.

Foto: Douglas Mansur

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

#pl2903não

#NãoAoMarcoTemporal

#MarcoTemporalNão

@fperecasaldaliga

@irmandadedosmartires

@douglasmansur

terça-feira, 9 de agosto de 2022

Quando fé e religião entram em conflito

 Marcelo Barros


 

Na compreensão judaico-cristã, a fé significa a opção de assumir um modo de viver que traduza o projeto divino para o mundo. Isso implica em conversão progressiva da própria pessoa e empenho na transformação do mundo. Não se deve confundir fé e crenças. Alguém pode ser muito crédulo; pode acreditar em coisas extraordinárias e não ter a fé como opção.

Atualmente, é comum pensar a fé como algo privado que diz respeito apenas à intimidade de cada pessoa. De fato, o ser humano só se torna plenamente pessoa no convívio social. A fé reduzida à privacidade de cada um é proposta falsa do individualismo capitalista. Só se vive a fé em comunidade. Isso é que fez com que, no decorrer da história, surgissem tantas religiões, cada uma com sua riqueza e suas originalidades. A religião sistematiza a experiência comunitária da fé, sem com ela se confundir. Nem esgota em si a riqueza da espiritualidade. Existem espiritualidades não ligadas a uma religião concreta.

Por seu caráter institucional, a religião se baseia em tradições e tende sempre a ser mais conservadora. Infelizmente, no decorrer da história, muitas vezes, as religiões contribuíram não para a paz e a justiça e sim para a manutenção de preconceitos que dividem a humanidade em pessoas puras e impuras, santas e pecadoras. Em nome de Deus, semearam ódio e violências e, assim, contribuíram para guerras e conflitos. Muitas guerras que, hoje, dominam o mundo desapareceriam, se, realmente, as religiões fossem forças construtoras de Justiça e de Paz.

Na América Latina, o Cristianismo veio com os conquistadores. Em nome de Deus, legitimou a colonização. Até hoje, há padres e pastores, grupos católicos e evangélicos que apoiam políticas que sustentam injustiças estruturais da sociedade de classes. Quando pessoas que se dizem ministros de Igrejas defendem uma política baseada no ódio e na violência, é sinal de que trocaram o evangelho de Jesus por interesses pessoais ou grupais de lucro e prestígio. Jesus só pode se sentir ofendido com a tal Marcha para Jesus, convertida em palco de propaganda de um governo genocida. 

Em cada religião, ou mesmo fora delas, os/as profetas são pessoas que insistem para que as Igrejas voltem à Palavra libertadora de Deus e retomem o projeto divino do Amor e da Solidariedade como Justiça. Nas diversas religiões, sempre há novos profetas. No Hinduísmo, fazem o que, na primeira metade do século XX, o Mahatma Gandhi fez na Índia ao lutar contra o colonialismo a partir da não-violência ativa. Nos Estados Unidos,  o pastor Martin-Luther King liderou a luta pacífica pelos direitos civis do povo negro. Na América Latina, Dom Oscar Romero e milhares de homens e mulheres deram a sua vida para testemunhar que Deus é Amor e, como afirmou  o profeta Jeremias: “o seu nome é Justiça” (Jr 23, 6). O evangelho é força de libertação moral e espiritual, mas também social e política.  

Na atual campanha política do Brasil, quem crê que Deus é Amor e busca viver a espiritualidade, precisa testemunhar que se Deus existe, não pode ser de direita. Não deveríamos permitir que o seu nome seja manipulado por pessoas que gritam “Deus acima de tudo” e propõem discriminações, ódio e violência. O Conselho Mundial de Igrejas, que reúne 349 Igrejas cristãs, realizará neste mês de agosto a sua XI Assembleia geral  que ocorrerá na Alemanha e terá como tema: “O amor de Cristo conduz o mundo à reconciliação e à unidade”. É importante que, no Brasil, crentes das mais diferentes confissões cristãs compreendam isso e aceitem ser testemunhas dessa boa notícia.

 

 

terça-feira, 17 de maio de 2022

Quando é preciso desobedecer

 Marcelo Barros 


A ONU propõe que se consagre o dia 15 de maio para aprofundar o direito de “objeção de consciência” e divulgá-lo para que todos os países o acatem. A objeção de consciência é a atitude de quem, por convicção religiosa, social ou política, se nega a pegar em armas e a participar de guerras ou atos violentos. Objetar é se negar a cumprir uma lei que fere a consciência pessoal ou comunitária. Há objeção de consciência quando a pessoa se nega a cumprir ordens antiéticas, ou que firam a vida. A violência, mesmo se esta é institucional, ou seja perpetrada pelo Estado, nunca construirá um mundo de paz e justiça.

Em Israel, jovens recrutados ao serviço militar obrigatório se negam a combater palestinos. Nos Estados Unidos, muitos negros e índios e brancos se negam a ir fazer guerra em outros países. Muitos desses rapazes e moças invocam o direito de objeção de consciência. Jornalistas se demitem para não serem obrigados a escrever notícias mentirosas que servem apenas aos interesses dos proprietários dos meios de comunicação e a favorecer a guerra da elite dominante do mundo contra os pobres.

Homens e mulheres, admirados no mundo inteiro, alguns até premiados com o Nobel da Paz, foram ou ainda são, em seus países, considerados como rebeldes e desobedientes. Para os budistas tibetanos, o Dalai Lama, é a 14a reencarnação do Buda da Compaixão, mas, para o governo chinês, é um dissidente, desobediente às leis. Na Índia da primeira metade do século XX, o Mahatma Gandhi foi preso e condenado como subversivo. Atualmente, o mundo inteiro o considera um profeta e libertador do povo. A partir dos anos 1950, nos Estados Unidos, o pastor Martin-Luther King foi, diversas vezes, preso e condenado, mas só assim conseguiu garantir o reconhecimento dos direitos civis da população negra.

O prêmio Nobel da Paz foi dado a dois latino-americanos ilustres: a Rigoberta Menchu que viveu anos sem poder voltar à Guatemala para não ser morta e a Adolfo Perez Esquivel que, durante anos, era constantemente ameaçado de prisão na Argentina. No Brasil da ditadura militar, Dom Hélder Câmara, era escutado no mundo inteiro, enquanto, em nosso país, os meios de comunicação não podiam divulgar nada que falasse em seu nome.

Se a objeção de consciência é direito de toda pessoa diante do poder social e político, com maior razão ainda, as religiões e Igrejas deveriam reconhecer um direito à dissidência e à objeção de consciência diante de um poder religioso autoritário ou, por qualquer razão, injusto.

Nenhum pastor, padre ou bispo tem direito de impor aos fieis suas preferências políticas ou partidárias. Ninguém tem direito de impor convicções morais em nome da fé.

Conforme a Bíblia, quando as autoridades religiosas de Jerusalém proibiram os apóstolos a falar no nome de Jesus, estes responderam: “Entre obedecer a Deus e aos homens, é melhor obedecer a Deus”(At 5, 29). 

A negação do direito à liberdade pessoal de opção social e política abre a porta ao fundamentalismo religioso, hoje, responsável por muitos atos de intolerância e mesmo de violência.

O que, na Bíblia, caracteriza a fé cristã é o aprendizado da liberdade interior e social. Paulo escreveu aos coríntios: “Onde estiver o Espírito do Senhor, aí haverá liberdade” (2 Cor 3, 17). E aos gálatas: “Foi para que sejamos livres que Cristo nos libertou. Vocês não devem aceitar, por nenhum pretexto, voltar à situação de não liberdade” (Gl 5, 1. 13).  

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

QUANDO DEUS SE CALA

 Frei Betto


 

       Chega a amiga sem o sorriso que lhe é peculiar. Recebo-a no parlatório do convento com o pressentimento de que algo lhe esmaga o coração. Então, desabafa. Fala do genocídio (mais de 630 mil mortos) promovido pelo governo federal ao minimizar a pandemia e negar a ciência; das invasões de terras indígenas; do feminicídio alarmante; dos múltiplos casos de racismo; dos sucessivos assassinatos de crianças, no Rio, por supostas “balas perdidas”. E antes de se calar, conclui: “Não suporto o silêncio de Deus”. 

       Uma longa pausa se abre entre nós. Porque não me julgo portador de elixires capazes de consolar os aflitos. Também carrego minhas angústias e tantas interrogações que me oprimem o coração. O silêncio de Deus também me inquieta. Não creio em um deus “pronto socorro” que venha em resposta às minhas súplicas. Nem mesmo sei quem é Deus, digo a ela, por mais que os catecismos e as teologias se esforcem em defini-lo. Pura bravata!

       Admito que Deus extrapola todos os nossos conceitos e nossas palavras, ideias e fantasias. Não cabe na mente nem na alma dos humanos. É radicalmente o Outro! O Inominável, como o considera o centésimo nome da divindade na lista muçulmana.

       Mesmo na Bíblia - com raras exceções, como no batismo de Jesus (Marcos 1,11) -, Deus se cala. Faz-se presente disfarçado de nuvem, de brisa suave, de sopro, de anjo etc. É o “Deus absconditus” (oculto) de Pascal. Fez silêncio inclusive na agonia do Filho pregado na cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, clamou Jesus ao ecoar o Salmo 22 (Marcos 15,34). Aquele que Jesus tratava com tanta intimidade, a ponto de chamá-lo Abba - “meu pai querido”, em aramaico - agora estava tão distante que foi invocado pelo nome genérico. 

       Deus também fez silêncio nos campos de concentração nazistas. Até o papa Bento XVI, ao visitar Auschwitz, em abril de 2010, exclamou: “Por que, Senhor, permaneceste em silêncio? Como pudeste tolerar  isto? Onde estavas nesses dias?” Da mesma forma, o salmista clamou: “Meus Deus, eu grito de dia e não me respondes!” (Salmo 22,2). E Javé adverte no livro dos Provérbios"Vocês me chamarão, mas não responderei; procurarão por mim, e não me encontrarão.” (1,28). 

       Deus é definitivamente um ser insondável, enigmático. É isso, na opinião de João da Cruz, que nos permite crer ou não crer. “Onde tu te escondes?”, indaga o místico espanhol, ao fazer eco ao profeta Isaías: “Tu és um Deus que se esconde” (45,15).

       Minha amiga diz que está em crise de fé. Como os amigos de Jó. Recordo o conselho de Alfred de Vigny: “Nunca fale e nunca escreva sobre Deus. Restitua-lhe o silêncio com o silêncio”. 

       Esse silêncio significa a morte de Deus, como alertou Nietzsche? Óbvio que não. A religiosidade está em plena ascensão no mundo. Nos EUA é politicamente incorreto se declarar ateu… Figuras como o papa Francisco e o Dalai Lama se destacam como as mais respeitáveis.

       Mas convém assinalar que Deus também é evocado pelos terroristas, pelos  autocratas, como Bolsonaro, e seu nome é amplamente tomado em vão e utilizado para justificar as mais terríveis atrocidades. 

       “Graças a Deus”, roga uma família que, por pouco, não foi esmagada pela grande pedra que se desprendeu no canyon de Capitólio (MG). E o que dizer aos familiares das vítimas fatais? Dizer que não mereceram a bênção de serem agraciados pela mão salvadora de Deus?

       Digo à minha amiga que prezo com profundo respeito o silêncio de Deus. De certa forma, invejo-o. Nesse mundo tão ruidoso, de zoadas auditivas e virtuais, guardar silêncio é uma atitude de profunda sabedoria. De saúde psíquica. Não vale a pena falar se minhas palavras não forem melhores que o meu silêncio.

       Temos medo do silêncio. Deus não, o que comprova a sua sapiência. Temos dificuldades frente a tudo que requer silêncio, como dormir, orar, meditar, ocupar-se com um livro… O silêncio nos atordoa. E tememos o mais definitivo dos silêncios – a morte.

     Digo à minha amiga que não creio em Deus, creio em Jesus. E, por tabela, no Deus de Jesus. Mas não sei quem ele é e nem isso me preocupa. Apenas sei que, segundo Jesus, ele pode ser encontrado em todo e qualquer gesto de amor. A fé é um salto no vazio. Creio sem saber. O foco de minha fé não é Deus, é Jesus. E mais do que ter fé em Jesus, quero ter a fé de Jesus. Como escrevi no poema Domingo no circo: “Domingo redondo aberto picadeiro ∕ Ensolarado por tão forte ardor ∕ Me refunde, queima, alucina: ∕ Olhos vendados, sem rede sobre o chão, ∕ Atiro-me do trapézio em teu amor.” 

     Após nossa conversa, minha amiga parecia menos angustiada. Fez-se prolongado e leve silêncio entre nós. Até que ela se levantou, deu-me um abraço apertado e partiu em silêncio. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Aldeia do silêncio” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 ®Copyright 2022 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

 

sábado, 3 de julho de 2021

ATÉ QUANDO!


Prof. Martinho Condini

 

João Pedro Mattos Pinto, 14 anos, João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, Marcelo Guimarães, 38 anos, Lucas Matheus, 10 anos, Alexandre da Silva, 11 anos, Fernando Henrique 12 anos e muitos outros. O que eles têm em comum? São seres humanos, adultos, jovens ou crianças, todos negros que foram espancados, assassinados ou desapareceram e foram encontrados mortos, em diferentes lugares do Brasil. Quantos seres humanos negros, neste momento estão sendo humilhados, espancados ou assassinados? Os números são assustadores, aproximadamente 75% dos assassinatos de adultos no Brasil são de seres humanos negros.

 É indiscutível a luta dos negros ao longo da história desse país para terem seus direitos e sua dignidade reconhecida e respeitada de verdade. Não adianta fazer “leis antiracistas” se não houver um processo de conscientização coletiva em relação a essa questão asquerosa da nossa história. É inconcebível que tenhamos em 2021 programas de TV transmitidos em rede nacional em horário nobre, com manifestações racistas e preconceituosas como maneira de obter audiência de público e para que as pessoas fiquem nas redes sociais comentando o “show real”. Isto é no mínimo insana, uma excrescência humana, de uma sociedade forjada nos valores racistas e preconceituosos advindos da nossa formação histórica ibérica, cristã-judaíca, burguesa capitalista de supremacia branca.

Até quando teremos que refletir sobre a frase do abolicionista Joaquim Nabuco escrita no seu livro “Minha formação” no final do século XIX: ‘A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil’.  Não devemos nos esquecer que o Brasil, em 1888, foi o último país ocidental a oficializar o fim da escravidão. Infelizmente, os mais de 350 anos de escravidão em nosso país, deixou uma cicatriz permanente e incurável e fez dela parte fundante da formação cultural brasileira. Acredito que nem Nabuco tinha noção da profundidade da sua frase e jamais imaginaria que em pleno século XXI, ou seja, 133 anos após a abolição ainda teríamos o racismo como o problema mais grave da nossa sociedade. Como podemos falar de um Estado laico democrático de direito onde ainda vigoram costumes que privilegiam a vontade da supremacia branca, num país onde a maioria da população é afro descente, onde apesar da existência de leis antirracista, nos tribunais o predomínio daqueles que lá estão de toga fazem parte da elite branca.

Acredito que será por meio da educação a maneira mais eficiente de eliminarmos esse “câncer social”, que nos atormenta diuturnamente. Enquanto você está lendo este artigo algum homem, mulher ou jovem negro sofre algum tipo de preconceito ou violência em algum lugar desse país. É preciso dar um basta. Só seremos uma nação democrática, livre e digna quando todos os cidadãos e cidadãs deste país forem tratados e respeitados independente de sua condição econômica, social, étnica e religiosa e a educação tem um papel fundamental nesse processo.

 

 *  O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com      

 

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

QUANDO A VENTANIA SOPRAR

 



Kinno Cerqueira [1]

 

O que somos? O que nos habita? O que desejamos? O que nos move? São questões que, a um só tempo, nos põem a contemplar a escuridão que somos e desnudam a impossibilidade de dizermo-nos a nós próprios.

Somos crepúsculo, noite e nascer do sol, porém, jamais dia claro. Somos mistério, mistério, mistério...

Nosso existir é uma ciranda cuja primeira voz é uma presença sempre intuída e pressentida, embora nunca sabida nem vista.

A voz que move as cirandas é misteriosa: ouvimo-la qual ventania assobiante a seduzir-nos à embriagante dança da vida.

A voz assobiante assalta-nos por dentro: leva de nós o medo de atirarmo-nos na vida, instaurando em nosso interior um gélido vazio cujo contrário não seria outro que não um ardente caso de amor com a vida.  

Nossas noites de amor com a vida, a lembrança de seus cálidos lábios e de sua pele caliente sob o cobertor da loucura não encontram palavras que permitam romancear o mais profundo de tão sublime experiência orgástica.  

Palavras são casas nas quais habitamos. Para não sermos eternamente indigentes, criamos religiões, as quais são ensaios precários, embora belos, de romancear experiências de amor que tivemos com a vida sob a misteriosa presença da erótica ventania assobiante.

No romanceamento judaico-cristão, escutamos a confissão de um desses amantes da vida, Jesus de Nazaré: “A ventania sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que foi parido pela ventania” (Jo 3,8).

Sua experiência de enamoramento da vida não poderia ser poetizada de melhor forma, senão nestas palavras mesmas que deixam ver a imprevisibilidade do amor, os arroubos da paixão, os assaltos do tesão.

Amantes não sabem para onde vão. Seu destino comum lhes é desvelado paulatinamente e somente à medida que se lançam na imprevisível dança do amor, pois, como dissera um amante de língua portuguesa, “quem ama nunca sabe o que ama nem sabe por que ama, nem o que é amar” (Fernando Pessoa).

Nascer da ventania é, sem dúvida, o estado de quem se sente renascido das quentes águas do amor. Na vida do amante Jesus de Nazaré, essa experiência foi tão forte que ele chegou a dizer: “eu sou a vida” (Jo 14,6), confissão apaixonada de quem está tão enamorado da vida a ponto de se sentir um com ela.

No romanceamento dos povos originários desta terra, escutamos falar da Curviana, ventania suave a correr pelas matas e cidades noite adentro, deusa dos ventos e da neblina, brisa misteriosa que, com sua dança circular, encanta forasteiros para que estes se enamorem da terra e nunca mais queiram voltar para os lugares donde saíram. Ventania fria que solicita um abraço de amor entre a pessoa humana e a terra, a Curviana.    

Na paisagem da semântica do romanceamento da etnia iorubá ou nagô, como é mais conhecida no Brasil, Oyá-Iansã é o nome do orixá feminino cuja essência é a liberdade recriadora da vida. Oyá-Iansã, senhora das tempestades e da chuva, corporifica a transgressão feminina de recusa à mediocridade de espaços fechados e a entrega de si à apaixonante aventura de amar perdidamente a vida.

A ventania assobiante do romanceamento judaico-cristão, mais conhecida como Ruah, a Curviana dos povos originários e Oyá-Iansã da etnia iorubá são tentativas de exprimir com palavras a presença da misteriosa voz que nos seduz à ciranda, a inebriante dança da vida.

Misteriosa voz que nos chama a dar as mãos, melodia sedutora e canto irresistível, presença ausente e ausência mais que presente, alameda florida que se abre como caminho no qual nos aguardam os lábios da vida.

Quando a ventania vos soprar, dançai. O amor sopra onde quer...

 

[1] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

QUANDO A SEXUALIDADE ERA CELEBRADA NA IGREJA




Por leonardo boff

É ideia comum de que a moral católica no tocante à sexualidade é rigorista e até preconceituosa. Isso se deve, em grande parte, à influência de Santo Agostinho que interpretava a transmissão do pecado original que macula toda a existência humana, através da relação sexual. Todos os que nascem dessa relação são portadores desse pecado. Por causa desta interpretação que se tornou doutrina dominante, se estabeleceu uma relação negativa e até preconceituosa entre sexo e pecado.
Entretanto, nem sempre foi assim. Dentro da mesma Igreja, há tradições e doutrinas que veem no prazer e na sexualidade uma manifestação da criação boa de Deus, uma centelha do Divino e uma participação na natureza mesma de Deus. Esta linha se liga à tradição bíblica que vê com naturalidade e até com regozijo o amor entre um homem e uma mulher. Com forte carga erótica, o livro do Cântico dos Cânticos celebra o jogo do amor, a beleza dos corpos dos amantes, dos seios, dos lábios e dos beijos. Curiosamente neste livro bíblico nunca aparece o nome de Deus. Mesmo sem nomear Deus, este livro foi recolhido no Cânon dos livros tidos como inspirados. Nem precisava referir-se a Deus, pois São João nos revela que a verdadeira natureza de Deus é amor (1 Jo 4,16). Então Deus estava aí.
A base teológica para esta visão positiva radica na fé na encarnação do Filho de Deus. Ele assumiu tudo o que é humano, portanto, também a sexualidade, a libido e o imaginário ligado a ela e o amor. Daí dizer-se que não existe mais nada de profano em si. Tudo foi tocado e transfigurado pela realidade divina, feita humana. Pela encarnação, a sexualidade faz parte do Filho de Deus. A sexualidade aqui não deve ser reduzida à genitalidade, mas significa todo o envolvimento afetivo e as trocas amorosas, com as características próprias do feminino e respectivamente do masculino.
Tal assunção trouxe à sexualidade humana uma dimensão sagrada. Depois da encarnação de Deus, ela não pode mais constituir um tabu, um pesadelo ou um fator que transmite a desgraça do pecado original. É uma dimensão privilegiada na qual o ser humano experimenta a força vulcânica do desejo, a ternura, o amor e o prazer. Tudo isso pode fundar uma experiência prazerosa de Deus. O próprio Deus se revela nas vidas dos seres humanos diferentes e desejantes. Deste encontro nasce o maior fruto da cosmogênese que é a vida humana .
Para ilustrar esta tradição, cabe referir aqui uma manifestação que perdurou na Igreja romano-católica por mais de mil anos, conhecida pelo nome de “risus paschalis”, o “riso pascal”. Ela significava a simbolização do prazer genital-sexual no espaço sagrado, na celebração da maior festa cristã, a da Páscoa.
Trata-se do seguinte fato, estudado com grande erudição por uma teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli (Il risus paschalis e il fondamento teologico del piacere sessuale, Brescia 2004): Para ressaltar a explosão de alegria da Páscoa em contraposição à tristeza da Quaresma, o sacerdote na missa da manhã de Páscoa devia suscitar o riso no povo. E fazia-o por todos os meios, mas sobretudo recorrendo à simbólica sexual. Contava piadas picantes, usava expressões eróticas e encenava gestos que insinuavam relações sexuais. E o povo ria que ria. Traduzia destarte o caráter inocente e decente do riso pascal.
Esse costume é atestado por fontes históricas já em 852 em Reims na França e se estendeu por todo o Norte da Europa, pela Itália e pela Espanha, até 1911 perto de Frankfurt na Alemanha. O celebrante assumia a cultura dos fiéis em sua forma popularesca e para nós, que perdemos a naturalidade do sexo, parece-nos até obscena. O próprio teólogo Joseph Ratzinger, depois Papa, em um de seus escritos se refere, embora criticamente, ao risus pascalis para expressar a vida nova inaugurada pela Ressurreição. Afirmava ainda que somente a partir da crença na Ressurreição voltou verdadeiramente o sorriso na humanidade e não apenas o riso. O sorriso desanuviado e livre, manifestado no “riso pascal” sexual expressaria a alegria que a ressurreição trouxe ao mundo.
Podemos discutir o método pouco adequado para suscitar tal riso. Mas ele revela na Igreja uma outra postura, positiva e não condenatoria da sexualidade. Aventar tais fatos não significa querer escandalizar os fiéis ou questionar a doutrina da Igreja. Mas ela nos obriga a relativizar a rigidez oficial face à sexualidade, acentuada de modo especial nos últimos Papas  mas superada no documento do Papa Francisco Amoris laetitia cujo título diz tudo: “a alegria do amor”. No fundo se trata de devolver sentido e alegria à vida humana, chamada à mais vida e não só à renúncia e ao sacrifício. E por que não expressá-la na linguagem da sexualidade criada e querida por Deus?
Há que se reconhecer que esta visão mais natural predomina na vida concreta dos cristãos. Estes obedecem mais à lógica dos reclamos profundos da existência humana sexuada e perpassada pelo desejo do que às doutrinas frias da moral e da ética cristãs de cariz  rigorista. A alegria da vida que triunfa definitivamente pela ressurreição, encontrou no risus pascalis uma expressão da sexualidade redimida, inocente, prazerosa e sagrada. Por que não gaiamente recordá-la?
Leonardo Boff escreveu com Rose-Marie Muraro Feminino e Masculino:uma nova consciência para o encontro das diferenças, Record 2003.


quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

QUANDO HELDER CAMARA CAPTA A DOR DA IGREJA




Por Eduardo Hoornaert

Num dos mais pungentes poemas que o Padre José (veja meu texto anterior, intitulado: ‘quando Helder Camara capta da dor do mundo’) dita ao Bispo Helder - um poema traspassado de compaixão e tristeza - a igreja católica aparece como um ‘velho portão enferrujado’:

Velho portão enferrujado
Que já perdeste a memória
De abrir e fechar
E te espantas com a chave
Gostaria de abrir-te
Pela paixão que sinto
De ver portas e portões escancarados.
Mas devo respeitar o teu repouso,
A tua ferrugem, a tua segunda natureza
Que quase te transforma
Em muro (Carta Circular 2-3/03/1965, II,II, p. 238).

Escrito no início de março de 1965, um ano depois da posse de Helder Camara como Arcebispo de Recife, esse poema sintetiza dolorosamente a impressão que ele guarda de seu primeiro ano no ofício. Por mais que Helder o puxe ou empurre, o velho portão não deixa passar os pobres. Helder se lembra que, no Vaticano, os guardas suíças deixam passar cardeais, arcebispos e bispos, mas estendem a lança para impedir a entrada de pessoas não credenciadas. Ele se lembra das alucinações de 1962, quando viu o Imperador Constantino atravessar a galope a Basílica de São Pedro. Imagens confusas de procissões, mitras e estolas, grandiosas cerimônias na Basílica de São Pedro.
Helder, que sente paixão de ver portas e portões escancarados, mesmo assim deve respeitar o repouso do portão enferrujado, sua ferrugem, sua segunda natureza. Um portão que quase se transforma em muro, de tão desacostumado a dar passagem, que fica espantado pela chave, como se se tratasse de arma que pudesse ferir.
O Padre José bem sabe que chaves, para Helder, servem para abrir, não para fechar. Isso ele já sabe desde 1947, quando dita a Helder ainda simples sacerdote um poema atravessado pela paixão de abrir e acolher:

Senti-me triste comigo
Surpreendendo-me
com um molho de chaves na mão.
Se todos somos filhos do mesmo Pai
Para que fechar
O que deve ser comum?
Senhor,
Que ao menos meu coração
Não tenha portas,
Nem ferrolhos,
Nem chaves.
Que ao menos minha alma
 (Vigília 16-17/01/1947. Acervo do Instituto Dom Helder Câmara [IDHeC], Recife).

A dor da igreja, sentido por Helder, não se deve ao fato que ela perde fiéis para as igrejas evangélicas, nem ao fato que muitos a abandonam e se declaram ‘sem religião’. Ele sente dor por experimentar que o velho portão enferrujado já não está escancarado a todos os meus irmãos. Para que fechar o que deve ser comum?

Helder Camara não é sociólogo nem historiador, mas suas imagens e intuições merecem a atenção de sociólogos e historiadores. A imagem da ferrugem (velho portão enferrujado), por exemplo. Os químicos dizer que o ferro é um material ‘de transição’. Exposto ao ar e à umidade, se corrói e tende a voltar ao seu estado mineral original. A ferrugem é sinal de uma volta ‘às origens’. Do mesmo modo, quando uma igreja ‘enferruja’, ela sinaliza uma tendência de voltar à sua origem, ou seja, a um projeto eclesiástico formulado ao longo de um período que vai mais ou menos do século IV ao século XIII, assentado sobre o princípio do consenso clerical (veja um texto meu publicado neste blog em 07/08/2018, intitulado ‘A cortina eclesiástica’).

A imagem do velho portão enferrujado pode chocar, mas retrata uma realidade vivida no dia-a-dia. Queiram ou não seus responsáveis atuais, a igreja tende a retornar à sua origem, aos tempos medievais. É doloroso perceber isso, como é doloroso sentir o pouco que se faz para reverter a situação.

Preparando-se a participar da quarta e última sessão do Concílio Vaticano II, o Arcebispo de Recife recebe mais uma visita do Padre José, que lhe dita o seguinte poema:

Sonhei que o Papa enlouquecia
Ele mesmo ateava fogo
Ao Vaticano
e à Basílica de São Pedro.
Loucura sagrada,
porque Deus atiçava o fogo
que os bombeiros, em vão,
tentavam extinguir.
O Papa, louco,
saía pelas ruas de Roma,
dizendo adeus aos Embaixadores
credenciados junto a Ele,
jogando a tiara no Tibre,
espalhando pelos pobres
o dinheiro todo
do Banco do Vaticano.
Que vergonha para os cristãos!
Para que um Papa
viva o Evangelho,
temos de imaginá-lo
em plena loucura! (Carta Circular 18-19/02/1965, II, II, p. 192).

Um poema realmente louco. Fala da loucura sagrada de um papa que joga a tiara (papal) no Rio Tibre, ateia fogo no Vaticano, diz adeus a todo o aparelhamento diplomático que o cerca e espalha pelos pobres o dinheiro todo do Banco do Vaticano. Loucura total. Não se sabe quem é realmente louco, se é o papa ou o Vaticano. O poema é claro: o Vaticano é um desvio, um caminho equivocado, uma loucura. É a prisão do papa. Louco não é o papa que joga a tiara no Rio Tibre, louco é o papa que a ostenta. Louco não é o papa que espalha pelos pobres o dinheiro todo do Banco do Vaticano, louco é quem acredita que um papa necessita de um banco para governar a igreja. E assim por diante. 
Aqui vai exposta, de modo pungente, a dor da igreja: que vergonha para os cristãos: para que um Papa viva o Evangelho, temos de imaginá-lo em plena loucura! Os católicos não sabem por onde se virar, se admiram tal ou tal papa que lhes parece bom, se rejeitam o papado de vez ou se atribuem sua dor a ver o papado tão vinculado à burocracia eclesiástica clerical. Não enxergam claramente onde está o nó da questão, o que Vaticano realmente representa nisso todo, pois as informações que recebem costumam andar envoltas pela hipocrisia que costuma envolver as informações que vêm de Roma.

Por que o papa não se desvincula do Vaticano? Por que ele não vai morar numa paróquia em Roma? Helder fala sério, pois ele mesmo, três anos depois de compor o poema que aqui comento, em 1968, se muda do Palácio Episcopal de Recife para uma sacristia. Mesmo assim, ele tem de se apresentar como um Dom Quixote para dizer algo que tenha impacto. Em vigílias angustiadas, o Padre José segura as rédeas do cavalo Rocinante no momento em que Dom Quixote penetra na Basílica de São Pedro. Ele está triste. Não irrompe a galope no recinto sagrado (como o Imperador Constantino numa alucinação de Helder Camara que data de 1962), mas mantém a lança em riste, pronto a investir contra qualquer um que se atreva a dizer que a Basílica de Roma é a casa de Deus.

O Padre José fala sem rodeios: o papa tem de sair do Vaticano, renunciar ao poderio sobre o Estado Vaticano, deixar de ser reconhecido como soberano pelos poderes políticos do mundo, renunciar ao ‘primado de poder’, assumir o ‘primado do amor’ (como recomenda o evangelho), renunciar a modos capitalistas de administração financeira, não se apresentar como ‘infalível’, não impor sua opinião, não se elevar acima dos demais. Assim será de novo o ‘bispo de Roma’, o primeiro entre iguais, bispo entre bispos, sendo o primeiro por viver na cidade onde – segundo a tradição – o primeiro dos apóstolos estaria enterrado.

Em novembro de 1964, ao participar em Roma da terceira sessão do Concílio Vaticano II, o Arcebispo recorda dolorosamente que, em Recife, ele vive com Deus na casa da Mãe Igrejagovernada pela sogra:

Senhor, assim como o esposo leva a jovem esposa
Para uma casa que ela não conhece, governada pela sogra,
Tu me trouxeste para viver contigo
em casa da Mãe Igreja (Carta Circular 29-30/11/1964, II,II, p. 44).

Três meses depois, já de volta em Recife, as mesmas imagens doloridas. Deus lhe parece um padrasto. Pior: um sádico, um torturador:

Que estranho gosto possuis
de parecer Padrasto
quando Te sei
tão profundamente Pai?
Tu me deixas
sem saída e sem resposta.
Jamais Te senti um sádico
às gargalhadas
enquanto nos contorcemos
nas torturas que nos preparas.
O incrível,
em certas circunstâncias,
é o teu silêncio,
o teu mutismo,
quando uma palavra tua
um simples som,
mudaria tanto travo
em alegria interior. (Carta Circular 18-19/02/1965, II, II, 192).

O Arcebispo sofre a pior tortura: o silêncio de Deus. Ele ainda terá de passar por muitos anos pela prova da dor, da incompreensão e do silêncio de Deus para, finalmente, em 1978, na idade de 69 anos, encontrar a ‘igreja em saída’ (como se expressa o atual Papa). Mas isso já é tema de um próximo texto.

Por enquanto junto aqui algumas palavras baseadas num texto do teólogo espanhol Xavier Pikasa (acessível pela Internet), que consideram o que o abandono do Vaticano pelo papa pode significar para a igreja católica. Deixar o Vaticano não significa desprezar o papado nem o Vaticano, mas criar novos horizontes. Nada contra um Vaticano que atue como cúria diocesana do bispo de Roma. Mas há de se soltar o papa, ele excede de longe o Vaticano. Por sua autoridade moral, está em condições de lançar pontes de diálogo entre as culturas do mundo, de ser um sinal concreto da universalidade e da comunicação entre os habitantes da terra, em nome do evangelho. Alguém cujo trabalho consiste em tecer solidariedade, acolhida, fraternidade, sempre segundo a mensagem de Jesus.
Pois passaram os tempos dos grandes chefes religiosos, desde os Sumos Sacerdotes de Jerusalém até os Sacerdotes Sagrados do Egito, do México e de muitos outros lugares. O fato do papa se apresentar, no mundo de hoje, como o único a se manter nessa posição de ‘grande chefe religioso’, não é um bom sinal. Isso pode alisar a vaidade dos católicos, mas é contraproducente. Pois a experiência do passado demonstra que a concentração de um poder religioso nas mãos de uma só pessoa não é precisamente a melhor forma de divulgar na humanidade uma mensagem, por valiosa que seja. Pelo contrário, a história mostra que a melhor divulgação de uma mensagem de valor, como a do evangelho, está na superação do poder. Que o diga Jesus em sua conversa com o Grão-Inquisidor no subsolo da Catedral de Sevilha, no famoso episódio do romance ‘Os Irmãos Karamazov’ de Dostoievski.

O Padre José dita e Helder escreve:

Deus atiça o fogo que devora o Vaticano.
Os bombeiros tentam em vão extinguir um fogo sagrado.

Um fogo que consume projetos de poder. O ‘poder do papa’ não é o poder de um homem situado acima dos demais, mas o poder da ‘graça de Deus’. A revolução cristã se opera fora dos círculos do poder, em trabalhos de base. No momento em que conferências episcopais, dioceses e paróquias passam a se organizar ‘sinodalmente’ (outra expressão do atual Papa), sem recorrência a um poder que viria de cima, as coisas começam a funcionar a contento. Assembleias e encontros criam uma igreja oriunda de um diálogo continuado.
Está claro: se os católicos quiserem agir como cristãos, eles têm de sair de instituições ‘imperialistas’ de poder, dominadas pelo capitalismo, para voltar a caminhar nas intempéries da vida, com todos e todas que esperam dias melhores.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.


NOTA DE O PORTA VOZ: As cartas conciliares, reunidas nas OBRAS COMPLETAS, encontram-se à venda no IDHeC – Instituto Dom Helder Camara