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sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Uma Igreja samaritana e cuidadora da vida

 Leonardo Boff


 

Segunda observação: O atual caos sanitário, ecológico, social, político e espiritual é o desdobramento do paradigma que dominou os últimos três séculos de nossa história, agora globalizada. Os pais fundadores da modernidade do século XVII entendiam o ser humano como o dominus, o maître et possesseur (Descarte) da natureza e não como parte dela. Para eles a Terra não tem finalidade e a natureza não tem valor em si mesma, mas apenas ordenada ao ser humano que dela pode dispor à vontade. Esse paradigma modificou a face da Terra, trouxe benefícios inegáveis, mas em sua ânsia de tudo dominar criaram o princípio da autodestruição, de si mesmos e da natureza com armas químicas, biológicas e nucleares. O fim do mundo não é mais coisa de Deus, mas do próprio ser humano que se apropiou da própria morte. Chegamos a tal ponto que o secretário-geral da ONU, António Guterrez, disse recentemente na COP no Egito sobre a mudança de regime climático devido ao aquecimento global que cresce de forma inesperada: “Ou fazemos uma aliança climática ou uma aliança de suicídio coletivo”.

Diante do paradigma do domnius, O Papa Francisco na já citada encíclia Fratelli tutti propõe outro paradigma:  do frater, o do irmão e da irmã, o da fraternidade universal e da amizade social (n.6; 128). Desloca o centro: de uma civilização técnico-industrial, antropocêntrica e individualista para uma civilização de solidariedade, preservação e cuidado de toda a vida.

Sabemos por dados científicos que todos os seres vivos compartilham o mesmo código genético básico, os 20 aminoácidos e as mesmas quatro bases nitrogenadas, desde a célula mais primitiva de 3,8 bilhões de anos, passando pelos dinossauros, pelos cavalos e nos legando. É por isso que somos de fato, e não retórica ou misticamente, irmãos e irmãs. Isso é reafirmado pela Carta da Terra, bem como pelas duas encíclicas ecológicas do Papa Francisco.

Esses dois paradigmas são hoje altamente confrontados. Seguindo o paradigma do senhor e dono que usa o poder para dominar tudo, até as últimas dimensões da matéria e da vida, certamente caminhamos para um armagedom ecológico, com risco de extermínio da vida na Terra. Seria o justo castigo pelas ofensas e injúrias que infligimos à Mãe Terra durante séculos e séculos. Ela continuará seu curso ao redor do sol, mas sem nós.

Com a mudança para o paradigma do frater, do irmão e da irmã, abre-se uma janela de salvação. Vamos superar a visão apocalíptica da ameaça do fim da espécie humana, para uma visão de esperança, de que podemos e devemos mudar de rumo e sermos de fato irmãos e irmãs dentro de uma mesma Casa Comum, incluindo a natureza. Seria uma glória viver e conviver com o ideal andino, do bien vivir em harmonia entre os humanos e com toda a natureza.

 

Este é o contexto no qual deve situar-se a ação da Igreja, que se pretende samaritana e cuidadora de tudo o que existe e vive.

O Papa Francisco de Roma, inspirado pelo outro Francisco, o de Assis, percebeu a gravidade da situação dramática do sistema-Terra e do sistema-vida. Ele formulou uma resposta. Na Laudato Sì: como cuidar da Casa Comum, convidou a todos a uma conversão ecológica global”(n.5), também “a  uma paixão por cuidar do mundo”…”uma mística que nos encoraja, impulsiona nós, fomenta e dá sentido à ação pessoal e comunitária” (n.216). No Fratelli tutti foi ainda mais radical: “estamos no mesmo barco, ou todos nos salvamos ou ninguém se salvará” (n.32).

Acredito que os elementos das duas encíclicas ecológicas do Papa Francisco podem servir de inspiração.

A primeira coisa é pela missão de ser samaritano e cuidador de toda a vid. Mas por onde começar? Aqui o Papa revela sua atitude básica, muitas vezes repetida em encontros com movimentos sociais, seja em Santa Cruz de la Sierra na Bolívia ou mesmo em Roma:

 «Não esperem nada de cima porque sempre vem mais do mesmo ou até pior; comecem por vocês mesmos», «de baixo, de cada um de vocês, para lutar pelo que há de mais concreto e local, até a última esquina do país e do mundo» (Fratelli n.78). O Papa sugere o que é hoje a ponta da discussão ecológica global: trabalhar o território, o biorregionalismo que permite a verdadeira sustentabilidade, com a agroecologia, uma democracia popular e participativa que humanize as comunidades e articule o local com o universal (Fratelli n .147).

De mãos dadas com a parábola do bom samaritano, faz uma análise rigorosa das várias personagens que entram em cena e aplica-as à economia política, culminando com a pergunta: «com quem te identificas (com o homem ferido na estrada , com o sacerdote, com o levita ou com o estrangeiro, o samaritano, desprezado pelos judeus? Esta pergunta é dura, direta e decisiva. Com qual deles você se parece? (Fratelli n.64). O Bom Samaritano torna-se modelo de amor social e político (n. 66).

Como nunca antes na história, a Igreja, seja local ou universal, deve mostrar-se samaritana porque milhões e milhões caíram nas estradas, como os 33 milhões de famintos no Brasil ou que morre de doenças causadas pela fome. É cruel constatar que 1% da humanidade detém mais riqueza de 4,6 bilhões de pessoas. Eles são cruéis e impiedosos..

As Igrejas mostraram-se samaritanas, especialmente com os mais vulneráveis. Uma imensa onda de solidariedade tem se manifestado nos movimentos cristãos que têm oferecido centenas de toneladas de produtos agroecológicos e milhões de pratos de comida aos marginalizados das periferias das cidades.

Curiosamente, o Papa Francisco, no arco do novo paradigma da fraternidade universal e do amor social. dá um significado político a dimensões que sempre foram tratadas no campo da subjetividade, como ternura, cuidado e gentileza. Afirma que “na política há lugar para o amor com ternura: ao mais pequeno, ao mais fraco, ao mais pobre; eles devem nos amolecer e ter o ‘direito’ de encher nossa alma e nosso coração; sim, são nossos irmãos e irmãs e como tais devemos amá-los e tratá-los assim» (Fratelli n.194)

Ele se pergunta o que é a ternura e responde: «é o amor que se torna próximo e concreto; é um movimento que vem do coração e atinge os olhos, os ouvidos, as mãos” (n.196).

Da mesma forma, define a bondade em seu aspecto político, que significa “«um estado de espírito que não é duro, duro, rude, mas afável, gentil, que apóia e conforta. A pessoa que possui esta qualidade ajuda os outros a tornar a sua existência mais suportável» (Fratelli n.223). Este é um desafio para os políticos, dirigido também aos bispos e aos padres: fazer uma revolução da ternura.Da mesma forma, ele vê a solidariedade como uma forma de “cuidar da fragilidade humana” (Fratelli n.115).

A essência da Igreja, cujas raízes se encontram na comunhão das três Pessoas divinas, reside na communio e não na sacra potestas. O Papa Francisco, especialmente na Laudato Sì, traduz em termos de ecologia moderna e física quântica: um fio comum percorre todo o texto, sustentando “que tudo está relacionado e nada existe fora do relacionamento” (LS n.117;120).

A missão da Igreja é construir pontes, pontes afetivas entre todos e com a natureza. É reconstruir as relações rompidas pelo individualismo da cultura do capital. De fato, a bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que a essência específica do ser humano é cooperar e relacionar-se com todos. Não existe gene egoísta, formulado por Dawkins no final dos anos 60 do século passado sem nenhuma base empírica. Todos os genes estão inter-relacionados entre si e dentro das células. Nesse sentido, o individualismo, valor supremo da cultura do capital, é antinatural e não tem suporte biológico.

Outro ponto fundamental da missão samaritana da Igreja é o cuidado de toda a criação. O cuidado essencial pertence a todos os seres vivos e, segundo a antiga fábula do cuidado, do escravo Higino, aprofundada por Martin Heideger em seu Ser e Tempo, o cuidado é da essência do humano sem a qual ninguém subsistiria.

O cuidado também é uma constante cosmológica: as quatro forças que sustentam o universo (gravitacional, eletromagnética, nuclear fraca e nuclear forte) atuam sinergicamente com extremo cuidado sem o qual não estaríamos aqui refletindo sobre essas coisas.

O cuidado supõe uma relação amigável da vida, protetora de todos os seres porque os vê como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi o descuido com a natureza, devastando-a, que fez com que os vírus perdessem seu habitat, preservado por milhares de anos, e passassem para o ser humano. O ecofeminismo deu uma contribuição significativa para a preservação da vida e da natureza com a ética do cuidado, porque o cuidado adquire uma densidade especial nas mulheres.

Outro ponto fundamental na missão da Igreja é a solidariedade. Está no coração da nossa humanidade e por si só é um valor eclesiológico como se pôde constatar nas comunidades da Igreja primitiva.

 Os bioantropólogos nos revelaram que, quando nossos ancestrais antropóides buscavam sua comida, eles não a comiam isoladamente. Eles os levaram para o grupo e serviram a todos começando pelos mais novos, depois pelos mais velhos e depois todos os outros. Daí surgiu a comensalidade e um senso de cooperação e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu dar o salto da animalidade à humanidade. O que era válido ontem também é válido hoje.

Essa solidariedade não existe apenas entre os humanos. É outra constante cosmológica: todos os seres coexistem, estão envolvidos em redes de relações de reciprocidade e solidariedade para que todos possam se ajudar a viver e coevoluir. Mesmo o mais fraco, com a colaboração de outros, subsiste, tem seu lugar no grupo dos seres e coevolui.

O sistema do capital não conhece a solidariedade, apenas a competição que produz tensões, rivalidades e verdadeiras destruições de outros concorrentes com base na maior acumulação.

Hoje o maior problema da humanidade não é o econômico, nem o político, nem o cultural, nem o religioso, mas a falta de solidariedade com os outros seres humanos que estão ao nosso lado. O capitalismo não ama a pessoa, apenas sua capacidade de produção e consumo.

Como cristãos, seguindo Jesus, devemos fazer do fato da solidariedade essencial uma opção consciente: solidariedade desde os últimos e invisíveis, desde aqueles que não contam para o sistema vigente e são considerados como zeros econômicos, dispensáveis. Aqui reside a base espiritual e teológica da Teologia da Libertação, cujo eixo central é a opção pelos pobres, contra a sua pobreza e a favor da sua libertação.

Qual é o projeto social sonhado pelo Papa Francisco, fundado na fraternidade universal e no amor social? O que resulta de seus textos e pronunciamentos é uma sociedade biocentrada. A vida com toda a sua diversidade deixa de ter centralidade. A economia e a política estão ao vosso serviço para que esta vida se mantenha na Terra, a Terra seja entendida como Mãe viva e generosa.

 

Tudo isso não pode ser apenas um projeto formulado intelectualmente com todos os recursos técnicos e científicos de que dispomos. Temos que incorporar algo fundamental: a razão cordial ou sensível. É esse tipo de inteligência que reside no mundo da excelência, que nos move e fomenta a ética, a espiritualidade e o cuidado de tal forma que construímos um vínculo afetivo com a Mãe Terra, Pachamama ou Gaia.

A razão intelectual, importante para dar conta da complexidade de nossas sociedades, tem apenas cerca de 7-8 milhões de anos. A razão cordial ou sensível tem cerca de 2020 milhões de anos e surgiu quando os mamíferos surgiram no processo de evolução. A mãe, ao dar à luz sua criação, a ama, cuida dela e a defende. Nós, humanos, somos mamíferos racionais, repletos de carinho, cuidado e carinho com nossos filhos e filhas.

Hoje essa dimensão afetiva está praticamente ausente nos processos técnico-científicos, típicos do nosso paradigma moderno. É importante enriquecer a razão intelectual com a razão sensível e cordial para nos levar a amar e cuidar da Terra e da natureza. Em sua encíclica Laudato Sí, o Papa Francisco mostra várias vezes poeticamente esse motivo cordial e sensível. Ele vê em São Francisco “o exemplo por excelência de cuidado… tinha um coração universal” (LS n.10). Em outro lugar diz com profunda cordialidade: “Tudo está relacionado e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs em uma maravilhosa peregrinação… que também nos une com ternura ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e a Mãe Terra” (LS n.92;86).

Sem o resgate dos direitos do coração, não vamos nos comprometer com a salvação dos “comuns”, nem vamos estabelecer um laço afetivo com a irmã floresta, com a irmã água, enfim, com todos os seres da natureza da qual fazemos parte.

Unidos de coração e mente, podemos dar sustentabilidade ao projeto de uma civilização biocentrada. O próximo passo da humanidade é começar a dar forma a esse tipo de civilização, que poderá garantir um futuro abençoado para nossa Casa Comum, a natureza incluído.

Termino com uma frase do livro da Sabedoria, citada pelo Papa na encíclica Laudato Sì (n.89): “Sim, tu amas todos os seres e não odeias nada do que fizeste, se odiasses alguma coisa  não  a  terias criado… preservas a todos, ó soberano amante da vida” (Sb 11,24.26). Um Deus que é um amante apaixonado da vida não vai permitir que seus filhos e filhas pereçam assim miseravelmente. Esperamos que haja mudanças substanciais na consciência da humanidade, face às ameaças que poderão exterminá-la, o que será, em suma, “uma conversão ecológica global” (LS n.5) e assim continuaremos a viver e brilhar neste pequeno e radiante planeta Terra, nossa Grande Mãe e Casa Comum

 

 Dixit et salvavi animam meam.

*Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor. Ele escreveu: Ecologia: grito da Terra-grito dos pobres, Vozes 2000; com o cosmólogo Mark Hathaway, The Tao of Liberation: Exploring Transformational Ecology, N.York 2010

 

segunda-feira, 18 de abril de 2022

FRANCISCO: ESTRATÉGIA DA IGREJA E DO REINO DE DEUS

                                                           Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            O Papa Francisco tem demonstrado muitas qualidades e virtudes ao longo de seus nove anos de pontificado. Diferentes pessoas e instâncias têm apreciado e elogiado publicamente sua sensibilidade humana e pastoral, sua inteligência que responde prontamente às perguntas difíceis ou mesmo insidiosas de jornalistas e curiosos, sua capacidade de pensar de forma ampla e grande os problemas do mundo e as crises pelas quais passa a humanidade neste século XXI. 

            Sob sua liderança, a Igreja Católica – que ele sempre desejou “em saída” – ultrapassou realmente o nível eclesiástico como único fórum de diálogo e ganhou as praças, as ruas, os espaços acadêmicos, as instituições seculares.  Enfim, por todo o planeta, entre católicos e não católicos, crentes e não crentes, a figura de Francisco é respeitada e ouvida como única liderança positiva existente na atualidade. 

            Por outro lado, não são poucos igualmente os inimigos do Papa que, aberta ou em segredo, militam incansavelmente contra suas iniciativas.  Minam Francisco como pessoa, suas propostas, fazem movimentos que são obstáculos aos movimentos por ele iniciados, acusam-no infundadamente. E, sobretudo, adotam uma atitude de silêncio mal-intencionado, interpretado como macabra aposta que o Papa, agora com 84 anos, envelhece e seu pontificado não deve durar muito.  Nos bastidores correm nomes sobre seu possível sucessor. 

            No entanto, os detratores de Francisco fazem mal em não levar em conta uma das virtudes mais importantes do Papa: seu gênio estratégico.  Bergoglio é alguém que pensa e vê longe.  E age em consequência. Por isso, vem realizando desde o início de seu tempo à frente da igreja de Roma e como chefe da Igreja Católica uma reforma já iniciada com decisões pontuais e significativas. 

            É assim que a nomeação dos bispos com “cheiro de ovelha”, de perfil mais pastoral e mais próximos ao povo começa a ser visível e apresentar volume e espessura nas fileiras episcopais. Do mesmo modo, as nomeações de cargos importantes de coordenação e decisão dentro da cúria romana: de mulheres, leigos e outros segmentos representativos do povo de Deus, que até então permaneciam fora deste corpo que faz funcionar o cotidiano da Igreja Católica. 

            Criou também novos dicastérios, extinguindo outros ou reagrupando-os por afinidade.  Assim, foi promovendo um certo “enxugamento” de uma cúria que se encontrava pesada devido à existência de uma multiplicidade de organismos e setores para além de suas necessidades reais e, sobretudo, pastorais. Por trás da estratégia do pontífice pode-se vislumbrar o desejo de que uma cúria mais ágil e enxuta sirva melhor ao único propósito da existência da Igreja, qual seja, o de anunciar o Evangelho. 

            Como confirmação do que se diz acima, no último dia 19 de março, festa de São José, foi anunciada uma nova Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana e seu serviço à Igreja e ao mundo. A nova Constituição entrará em vigor a partir do domingo, 5 de junho, festa de Pentecostes. Seu título diz muito sobre o conteúdo e principalmente a respeito da intenção e objetivo com os quais é promulgada:  Praedicate evangelium.  

            O Papa não reforma a cúria apenas pelo desejo de reformá-la ou mesmo para afastá-la do que fizeram seus predecessores.  Reforma-a para que  possa realizar melhor seu serviço por excelência, que é a pregação do Evangelho, o anúncio da Boa Notícia de Jesus Cristo ao mundo de hoje. E a festa de Pentecostes é escolhida propositalmente para a entrada em vigor dessa reforma tão esperada e por fim realizada: é a festa da liberdade e da abertura universal.  A festa na qual o Espírito, como artífice da linguagem total, quebra as barreiras linguísticas e semânticas, rompe as barreiras das diferenças e abre ouvidos e línguas ao diálogo e ao entendimento.

            Uma cúria pesada e carregada de excessivas estruturas não ajuda a esse diálogo que Francisco vem tentando incansavelmente realizar.  Uma cúria reformada, mais enxuta e mais leve, seguramente será um instrumento poderoso para abrir caminhos e corações na direção de mais vida para todos, construindo uma fraternidade universal onde todos os seres vivos possam chegar à vida em plenitude.

            É hora de aplaudir e louvar o pontífice por sua estratégia que não recua diante de nada que possa ajudar a Igreja a realizar o sonho de Jesus: o Reino de paz, justiça e amor. 

Somos agradecidíssimos, Santo Padre.  Siga em frente e conte com nossa oração e nossa colaboração.  Amém. 

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas Editora), entre outras obras.



 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Igreja: carisma e poder: 40 anos

  Leonardo Boff


 

O Centro de Estudos Bíblicos (CEBI) do Sergipe organizou entre 25-28 de outubro uma série de palestras sobre o livro Igreja: carisma e poder que celebra 40 anos de sua publicação em 1981. O CEBI é uma articulação nacional de grupos populares e ecumênicos que estudam a Bíblia de forma aprofundada, como inspiração de práticas inovadoras para dentro da Igreja e também libertárias na sociedade. O propósito era mostrar a atualidade dos temas nele tratados que articulam a Igreja com a sociedade e os modelos de Igreja vigentes.

Foi este livro que foi ajuizado em 1984 pela Congregação da Doutrina da Fé levando seu autor, no caso eu, a um verdadeiro processo judicial. Culminou em 1985 com uma “notificação” e não um decreto condenatório, proibindo a reedição do livro e a imposição ao autor de um tempo de “silêncio obsequioso”. Não se faz nenhuma condenação doutrinária, apenas se diz como conclusão:”Esta Congregação sente-se na obrigação de declarar que as opções aqui analisadas de Frei Leonardo Boff  são de tal natureza que põe em perigo a sã doutrina da da fé, que esta Congregação tem o dever de promover e tutelar”

Observa-se que não se trata de doutrinas (campo dos dogmas) mas de “opções”(campo da moral) que podem significar um “perigo”. Evitado este perigo, não há porquê não seguir adiante nas opções que eram e continuam sendo: a centralidade do pobres e de sua libertação, o poder como serviço e não como centralização e a constituição legítima de comunidades eclesiais de base, como uma reinvenção da Igreja nos meios populares (eclesiogênese).

Lendo-se todo o texto do Card.Joseph Ratzinger expondo os tais “perigos” nota-se um equívoco de leitura. Leu-se não Igreja:carisma e poder, mas Igreja: carisma ou poder.Esta alternativa não se encontra em nenhuma página do livro. Afirma-se a legitimidade de um poder na Igreja junto com o carisma.

Seguramente o ponto central que a Congregação viu como “perigo”foi o confronto entre um modelo de Igreja, sociedade hierarquizada de poder sagrado e outro modelo de Igreja, comunidade fraterna de iguais com funções diferentes. O primeiro modelo dominante é o da Igreja-grande-instituição composta de clérigos, portadores do poder sagrado e de leigos sem poder de decisão nenhum.Aqui surgem as desigualdades, especialmente fechando as portas ao ministério sacerdotal às mulheres e impondo a lei do celibato obrigatório a todo o corpo clerical. O outro modelo é o da Igreja-rede-de-comunidades, todos sujeito de poder sagrado, exercido em funções(carismas) diferentes.

Ambos os modelos se  reportam ao passado da Igreja, o primeiro especialmente ao evangelho de São Mateus que confere grande importância a Pedro(Mt 16,18;18,16) que originará a centralização, chamada de “cefalização”(tudo se concentra na cabeça); o segundo às cartas de São Paulo que referem uma Igreja, comunidade de irmãos e irmãs, dotada de muitos carismas (funções e serviços), especialmente, em suas Cartas aos Coríntios, aos Romanos e aos Efésios. Para São Paulo o carisma pertence à cotidianidade e significa simplesmente funções ou serviços, todos animados pelo Espírito Santo e pelo Cristo ressuscitado, cabeça Igreja e no cosmos,implicando uma descentralização do poder, presente em todos e todas.

O fato histórico é, resumidamente, o seguinte: até o  século IV a Igreja, fundamentalmente, era uma comunidade fraternal. Do momento em que o cristianismo foi declarado pelo imperador Constantino (325) “religião lícita”, por Teodósio (391) “religião obrigatória” para todos, proibindo o paganismo até culminar com o imperador Justiniano (529) transformando os preceitos cristãos em leis civis, gestou-se, então, a Igreja-grande-instituição. De religião perseguida, passou a religião perseguidora dos pagãos. Sendo “religião obrigatória”, todos tiveram que assumir a fé cristã, criando uma Igreja de massa, não por conversão mas por obrigatoriedade sob medo e ameaça de morte.

Com a decadência do império romano, o bispo de Roma Leão Magno (440-461) assume o poder e o título de Papa (abreviação de pater patrum, pai dos pais), até então reservado aos imperadores. Assume-se junto o estilo imperial, os palácios, o báculo, a estola, o manto (mozeta) símbolo do poder monárquico, a púrpura e outros símbolos imperiais e pagãos que perduram até os dias de hoje.

A Igreja-grande-instituição não passou pela prova do poder. Nela se realizou o que afirma Thomas Hobbes no Levitã (1615):”Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”(cap.X). Começa a acumulação do poder dos Papas até chegar com o Papa Gregório VII com o seu Dictatus Papae (a ditadura do Papa) a proclamar o Papa com senhor absoluto sobre Igreja e sobre os imperadores ou reis. Já não bastava ser sucessor de Pedro. O Papa Inocêncio III (+1216) se anunciou como vigário de Cristo e, por fim, Inocêncio IV(+1254) se arvorou representante de Deus. Hoje ainda se atribui ao Papa, consoante do direito canônico, um poder  que, parece, pertencer somente a Deus. O Papa  é portador de um poder sagrado”supremo, ordinário,pleno, imediato e universal”(cânon 331). A isso, desde de 1869, se acrescentou a infalibilidade em assuntos de fé e moral. Mais não se poderia ir.

A consequência é o surgimento de uma Igreja-sociedade piramidal,monárquica, rígida e rigorosa, que em termos doutrinários, de seus inquiridos, foi a minha experiência, nada esquece,nada perdoa e tudo cobra. Nesse modelo de Igreja se verifica o que o psicanalista C.G.Jung afirmava:”Onde prevalece o poder não há mais lugar para a ternura nem para o amor”.

Os únicos Papas que romperam com esta tradição, ciosa de seu poder sagrado e monárquico, foi o bom Papa João XXIII e explicitamente o Papa Francisco que, em suas primeiras palavras,disse governar a Igreja na caridade e não no poder sagrado. Por isso cobra dos pastores uma “revolução da ternura”.

Face a esse modelo, hoje em profunda crise estrutural, surgiu o outro modelo da igreja, rede-de-comunidades fraternais. Ela sempre existiu na história da Igreja, particularmente, nas ordens e congregações religiosas, mas nunca conseguiu ser hegemônica. Mas ganhou densidade na vasta rede de comunidades eclesiais de base, atualmente, espalhadas em todo o universo cristão e ecumênico. Nelas o poder é serviço real, cotidiano e por todos participado na medida em que cada um tem o seu lugar na comunidade. São muitos serviços e funções  (carismas), quem prega, quem ensina,quem organiza a liturgia, quem visita os enfermos, quem trabalha com os jovens, todos em pé de igualdade, consoante São Paulo (1Cor 7,7;12,29).Há uma função (carisma) singular que é o de criar a unidade e a coesão na comunidade fazendo com que todos os serviços (carismas) confluam para o bem comum: é o serviço da presidência da comunidade. Como tal, preside também a eucaristia, não como função exclusiva, mas simultânea com as demais. Sua função não é concentrar mas coordenar.

Este modelo traduz melhor a mensagem e o exemplo do Jesus histórico que não quis nenhum poder e que estabeleceu todo o poder como serviço e não como dominação (Mt 23,11). Esse modelo apresenta-se como uma outra forma de organizar a herança de Jesus, de gestar uma Igreja mais conforme com o seu sonho, de todos irmãos e irmãs (Mt 23,8).

Este modelo comunional se apresenta mais adequado à verdadeira evangelização que significa encarnar a mensagem cristã nas mais diferentes culturas e assimilando seus modos de ser. A igreja emergiria como um imenso tapete colorido, feita uma teia imensa de comunidades cristãs, diferentes em seus corpos, mas todas unidas no mesmo testemunho da vida nova trazida por Jesus morto e ressuscitado. Caminharia junto com o processo de mundialização que lentamente constrói a Casa Comum, o mundo necessário, dentro do qual estão os vários mundos culturais (asiático, africano, latino, indígena etc). Aí estará a Igreja-grande-instituição que seguramente persistirá mas sem a hegemonia atual e principalmente a rede imensa de comunidades cristãs diversas e unidas no mesmo testemunho do Ressuscitado e de seu Espírito, junto com outras igrejas e  caminhos espirituais a serviço de uns e de outros e da única Casa Comum que temos, a Mãe Terra.

Leonardo Boff escreveu Igreja: carisma e poder, Record, Rio de Janeiro 2005;Eclesiogênese: a reinvenção da Igreja,Record,Rio de Janeiro 2008; Francisco de Assis e Francisco de Roma: uma nova primavera na Igreja, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2015.

 

terça-feira, 13 de abril de 2021

IGREJA CONFESSANTE E UMA FÉ ADULTA


 


Marcelo Barros

 

No mundo todo, a realidade da pandemia revela que este modelo de sociedade não funciona mais. Isso se tornou ainda mais evidente no Brasil que se transforma em um grande cemitério. Entre nós a Covid teve como principais aliados a sociedade baseada nas injustiças sociais e um governo que parece feliz em facilitar o trabalho do vírus assassino. Em tudo isso, um dos elementos mais escandalosos é o apoio por parte de amplos setores do Cristianismo católico e evangélico a essa política que ama a violência, prega discriminações sociais e se proclama inimigo da Amazônia e da natureza.

Diante dessa realidade, no mês de abril recordamos a vida de dois mártires cristãos, ambos vindos de Igrejas evangélicas. No dia 04 de abril de 1968, nos Estados Unidos, era assassinado o pastor batista Martin-Luther King por sua luta em defesa dos direitos civis da população negra. No dia 09 de abril de 1945, no campo de concentração de Flossemburg, na Alemanha, foi enforcado o pastor Dietrich Bonhoeffer por ter se colocado contra o Nazismo e pregar que a Igreja só é cristã se se opuser a qualquer política totalitária de ódio e se assumir a defesa de negros, judeus e quaisquer minorias oprimidas.

Martin-Luther King afirmava: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. Mais do que a violência de poucos, me assusta a omissão de muitos”.

Quando em 1933, na Alemanha, Hitler chegou ao poder, muitos bispos, padres e pastores acolheram favoravelmente o advento do Nazismo. Em particular, o grupo dos chamados "cristãos-alemães" tornou-se porta-voz da ideologia nazista dentro da Igreja. Eles chegaram a pedir que as Igrejas eliminassem de suas Bíblias o Antigo Testamento, por ter sido escrito por judeus. Na Igreja Luterana, os pastores aceitaram fazer um acordo com o governo. Por este acordo, concordavam em não ordenar padre ou pastor que não fosse branco, de raça ariana. Bonhoeffer foi o primeiro a se opor a isso e a defender publicamente que a Igreja tinha o dever de se opor à injustiça política. Ele passou a organizar a resistência política dentro das Igrejas.

A Igreja se dividiu em duas e a maioria dos ministros e comunidades era favorável ao regime. Ao contrário, se chamava Igreja Confessante a minoria de pastores e comunidades que se opunham ao Nazismo. Eram os que se pronunciavam claramente contrários à prisão e assassinato de judeus, comunistas e homossexuais perseguidos pelo sistema. Em 1943, Bonhoeffer foi preso, acusado de ajudar um grupo de judeus a fugirem da Alemanha. Na prisão e depois no campo de concentração, Bonhoeffer escreveu livros e uma coleção de cartas. Ali ele afirmava: “Ninguém que tenha fé cristã tem o direito de fugir para a dimensão religiosa e não assumir posição crítica frente ao que está acontecendo”.  Conseguiu ser libertado, mas, em julho de 1944, foi preso novamente, desta vez por ter participado de um atentado contra Hitler. Desta vez, foi condenado à morte e acabou executado.

Bonhoeffer é considerado um dos maiores teólogos cristãos do século XX. Ele viveu a fé engajada no mundo em uma ação social crítica e libertadora. Essa espiritualidade o levou a dar a sua vida como mártir contra a política assassina. Denunciou um modelo de Igreja ligado ao poder político opressor. Ele rejeitava um deus tapa-buraco das necessidades humanas, ao qual recorremos quando não conseguimos resolver nossos problemas. Pregava contra uma piedade que nos tira do mundo. Propunha “viver na intimidade de Deus, mas como se Deus não existisse”. Isso significava assumir uma responsabilidade humana de adultos que não precisam de Deus para ser pessoas justas, dignas e solidárias.

A celebração da Páscoa pode nos ajudar a viver isso. Conforme a fé cristã, a partir da ressurreição, o Cristo não está nos templos. Está em nós para nos tornar mais humanos/as e capazes de amar.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

SER LEIGO NA IGREJA HOJE

 Por Cesar Kuzma


 

De um modo geral, as pessoas podem entender (ou achar) que todos aqueles que participam de uma maneira ou outra da Igreja ou de alguma comunidade podem ser denominadas assim, isto é, são “leigos”. Por um lado, isso é correto. É o que distingue os fiéis em suas vocações e missões específicas. No entanto, tal afirmação não mostra o todo e, provavelmente, não seria a informação mais precisa. Além disso, esta simples definição ou distinção parece dividir a Igreja em classes e nesta divisão os leigos se tornam aqueles que possuem uma importância menor, pois são vistos sempre de modo passivo, receptivos ou como parte de uma grande massa que se deixa envolver por certa religiosidade ou comportamento, mas que nem sempre tem discernimento do que se vive e professa.

A distinção que tento fazer aqui é entre membros atuantes (que buscam um sentido na sua própria vocação) e aqueles e aquelas que são apenas frequentadores de igrejas, mesmo tendo certa devoção ou religiosidade. O que insisto em dizer é que “ser leigo” faz parte de um itinerário vocacional que deve ser assumido, que deve gerar compromisso e entendimento, num caminho de construção de autonomia e de busca de maturidade na fé. Ser leigo na Igreja hoje é tomar parte no batismo que se recebeu, fazendo opção por Cristo e pelo Reino anunciado por ele. É dar vida a uma causa, deixando-se tocar por Deus e refletindo esta experiência em ações concretas na história, no dia a dia, na dinâmica da vida e de frente a todos os dramas e tramas humanos que a sociedade nos apresenta. Ser leigo na Igreja hoje é buscar seguir Jesus de um modo próprio, livre, sem amarras, orientado por um Reino que nos chama e nos convida ao serviço, especificamente, no mundo. Olhando desta maneira, os leigos serão mais do que se tenta apresentar, mas serão vistos como parte constitutiva da missão da Igreja no mundo, onde através de sua vida e testemunho buscam transformar as estruturas e santificar a vida em sua volta. Esta é a proposta que se avançou no Concílio Vaticano II e que deve ser resgatada, recuperada e assumida.

O leigo é parte constitutiva da missão eclesial e esta missão não pode ser pensada sem ele. O leigo não é o destino da missão, como aquele que será trazido para dentro, evangelizado ou conquistado, mas ele é sujeito de sua própria fé (doc. 105 da CNBB) e deve caminhar de um jeito próprio. É o que diz o Documento de Aparecida (2007), ao afirmar que os leigos possuem um jeito próprio de ser e fazer Igreja, e isso dever ser construído com autenticidade e coerência. Evidentemente que, este jeito próprio se dá num trabalho de comunhão, numa dinâmica de crescimento mútuo, pela qual ninguém é mais importante que o outro ou ocupa o centro, apenas Cristo é o centro e, ao seu redor, cada vocação desenvolve e alimenta o seu carisma. Todavia, na atual conjuntura eclesiástica, quando vemos crescer o clericalismo e um conservadorismo, faz-se necessário dizer que os leigos devem avançar em mais espaços ou devem se tornar resistência nos poucos espaços que possuem. Faz-se necessário, em alguns ambientes, dizer que existem e que possuem uma voz própria, chamando a atenção para aquilo que é específico de sua vocação/missão.

Os leigos são chamados a um serviço no mundo e este mundo hoje é exigente para os cristãos. Por isso que é fundamental reforçar a dimensão pública da fé, o trabalho construído no dia a dia, no esforço em decidir fazer algo que vise a construção de uma nova sociedade. Este é campo específico dos leigos. Uma nova sociedade também se faz com uma nova concepção política, com um novo direcionamento na educação, com uma nova percepção dos dramas familiares, com um olhar atento aos jovens e a todos aqueles e aquelas que são vítimas da sociedade, que são excluídos e que se tornam “sobrantes” neste sistema econômico que explora e mata.

Estas exigências reclamam uma presença mais atuante de leigos e leigas, e é onde se deve pautar a sua vocação. Isto é ser leigo hoje.

 

 

Teólogo leigo, casado e pai de dois filhos. Doutor em Teologia e professor-pesquisador do Departamento de Teologia da PUC-Rio. Presidente da SOTER (Sociedade de Teologia e Ciências da Religião).

 

* Este artigo foi publicado originalmente no Portal das CEBs : http://portaldascebs.org.br/2020/10/20/chamados-a-acao-a-uma-igreja-em-saida-por-cesar-kuzma/

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

IGREJA E HOMOSSEXUALIDADE

 

Frei Betto


        Não há base científica, ética ou teológica para afirmar que a essência da sexualidade humana é unicamente heterossexual. O matrimônio heterossexual não é, historicamente, o único existente, e não se deve erigi-lo em modelo único e obrigatório para todos. 

 

       Todos nós, batizados na Igreja Católica, sabemos que durante séculos os fiéis foram induzidos a obedecer, não a pensar. Autoridade e verdade coincidiam... Mas desde o Concílio Vaticano II, na década de 1960, a Igreja (e não necessariamente bispos e padres) passou a respeitar a autonomia da razão e das ciências.      

Muitos temas-tabus que perduraram séculos na Igreja foram derrubados com o tempo. Ainda peguei o tempo da missa em latim, puro ato de fé, já que eu não entendia nada do que o padre rezava. E, ainda hoje, a doutrina oficial católica estabelece que, no matrimônio, o casal só pode ter relações sexuais se houver intenção de procriar. Meu professor de teologia moral comentava que isso não é bem um princípio teológico, e sim zoológico... Todas as pesquisas demonstram que nem 10% dos fiéis respeitam esse preceito, mesmo entre casais conservadores.

       Já o tema da homossexualidade prossegue como tabu. Prova disso é a polêmica suscitada em torno da notícia de que o papa Francisco admite a união civil de casais homoafetivos. Foi o que ele declarou quando cardeal em Buenos Aires, em 2010, e em entrevistas concedidas em 2014 e 2017. Porém, a repercussão veio somente agora, por conta de um documentário sobre o seu pontificado. A poeira que a declaração levantou fez com que, na semana seguinte, o Vaticano declarasse que não foi bem isso que o papa afirmou no filme, que teria sido equivocadamente editado etc. etc.

       Ora, todos sabem que papas são prisioneiros do Vaticano e, embora sejam monarcas absolutos, a Cúria Romana trata de controlá-los o mais possível, por considerar a defesa da instituição mais importante que a liberdade dos filhos e filhas de Deus.

       No livro “As bodas das semelhanças”, John Boswell demonstra que o matrimônio homossexual, admitido na Igreja entre os séculos VI e XIII, era oficiado por sacerdotes e tinha a mesma validade do matrimônio heterossexual. 

       A partir do século XIV, a homossexualidade passou a ser um tabu moral, “pecado inominável”, “amor que não se atreve a dizer o nome”. A relação homossexual chegou a ser considerada mais perversa que assassinato, incesto e canibalismo.     

       Antes do ano 1000, não havia propriamente casamento religioso. Os noivos se declaravam marido e mulher diante da comunidade de fé e de Deus. Ainda hoje a doutrina da Igreja diz que eles são os ministros do sacramento do matrimônio, ao contrário do que muitos julgam, por atribuírem o protagonismo ao sacerdote. A bênção do padre é apenas um arremate à união do casal.

       Na Idade Média, o amor não era o principal motivo da união de duas pessoas, embora pudesse existir, tanto que se aceitava o concubinato e era frequente o divórcio. Somente no IV Concílio de Latrão, em 1215, a Igreja assumiu o matrimônio como sacramento e passou a estabelecer regras canônicas à sua celebração.  

       Em antigos manuscritos litúrgicos gregos se encontram registros de matrimônios de casais homoafetivos na Itália, na ilha de Patmos e no mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai.

       Na clássica obra de Boswell, 114 páginas reproduzem dezoito textos que comprovam a celebração do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo: modo de receber o sacerdote; posicionamento do casal; leituras e orações; hinos e salmos prescritos etc.

       Alguém pode objetar que a Bíblia condena a homossexualidade. Ora, ela foi escrita em um contexto machista e patriarcal. Por que tanta insistência dos conservadores em destacar os únicos versículos de suposta condenação da homossexualidade (Gênesis 19,1-28; Levítico 18,22 e 20,13; Romanos 1,27) e fechar os olhos a tantas outras condenações? 

       Vejamos: Êxodo permite que um pai venda a filha como escrava (21,7) e prevê pena de morte para quem trabalhar no sábado (35,2). Levítico proíbe que se toque em uma mulher em seu período de “impureza” menstrual (15,19-24). E admite que se escravizem estrangeiros (25,44). Para o Levítico, comer mariscos é uma abominação (11,10) e proíbe de se aproximar do altar quem tem defeito na vista (21,20). Será que, hoje, não incorremos em ofensa a Deus por não respeitar tais preceitos bíblicos? 

       Não há base científica, ética ou teológica para afirmar que a essência da sexualidade humana é unicamente heterossexual. O matrimônio heterossexual não é, historicamente, o único existente, e não se deve erigi-lo em modelo único e obrigatório para todos. 

       Do ponto de vista ético, a sexualidade humana, seja ela hetero ou homossexual, não pode ser definida em função da procriação, e sim do amor que une duas pessoas que decidem ter um projeto de vida em comum, no qual se inclui ou não a procriação. Como afirma a Primeira Carta de João (4,7-8), “Todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus... porque Deus é amor.”

 

Frei Betto é escritor, autor de “Sexo, orientação sexual e ‘ideologia de gênero’”, entre outros livros. Livraria Virtual: freibetto.org

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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

FRATELLI TUTTI - O CAPITALISMO NA DOUTRINA DA IGREJA

 


 Por Pe Fabio dos Santos Potiguar

ECONOMIA VIRGENTE

 

Na Encíclica Fratelli Tutti, sobre a Fraternidade e a Amizade Social, lançada em Assis no último dia 03 de outubro, o Papa Francisco cita o poeta, compositor e cantor brasileiro, também diplomata, o Vinicius de Moraes. “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na vida” (215). A encíclica é sobre encontros. O mundo precisa de encontros, o mundo precisa se encontrar. “ Assim, falar de cultura do encontro significa que nos apaixona, como povo, querer encontrar-nos, procurar pontos de contato, lançar pontes, projetar algo que envolva a todos. Isto tornou-se uma aspiração e um estilo de vida” (216). O papa encontrou na vida e nas palavras do Pobrezinho de Deus, São Francisco de Assis, o título para essa Carta. Somos todos irmãos, diria e irmãs! Aliás, a decisão de escrevê-la nasceu do encontro com o Grande Imã Ahmad Al-Tayyeb quando assinaram juntos, no Egito, o Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da fraternidade humana em Abud Dhabi em 04 de fevereiro de 2019.

 Gostaria de partilhar algumas reflexões e pistas que o papa nos aponta sobre o modelo econômico vigente e, também, acerca do diálogo ecumênico, inter-religioso e cultural.

 Economia Neoliberal.

O Papa Francisco, em conformidade com a Doutrina Social da Igreja já expressa nas encíclicas, no catecismo, no compêndio e nos pronunciamentos dos seus antecessores faz uma crítica contundente a uma economia que não tenha como centralidade a dignidade da pessoa humana, a justiça social e o respeito ecológico.

O próprio Catecismo que condena o comunismo, condena igualmente o capitalismo, não em si mesmo, mas quando desumano ou selvagem, como é frequentemente.

O Papa Bento XVI, em 2007, no seu livro Jesus de Nazaré criticou “a crueldade do capitalismo, do colonialismo e do poder dos ricos sobre os pobres. Confrontados com o abuso do poder econômico, com a crueldade do capitalismo que rebaixa os homens a mercadorias, nós começamos a ver mais claramente os perigos da riqueza e a entender em uma nova maneira o que Jesus queria ao nos alertar sobre a opulência”. Vai repetir outras vezes, como fez na Mensagem de Ano Novo de 2013: “Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado”. No mesmo ano, poucos dias depois, falou aos participantes os participantes da XXIV Assembleia Plenária do Pontifício Conselho Cor Unum: “o capitalismo selvagem gerou crise, desigualdade e miséria".

 O mesmo podemos dizer do papa São João Paulo II na sua histórica visita a Cuba em janeiro de 1998. ” Ressurge em vários lugares uma forma de neoliberalismo capitalista que subordina a pessoa humana e condiciona o desenvolvimento dos povos às forças cegas do mercado, impondo um gravame, a partir dos seus centros de poder, aos povos menos favorecidos com ônus insuportáveis. Assim, por vezes, impõem-se às nações, como condições para receber novas ajudas, programas econômicos insustentáveis. Deste modo, assiste-se no concerto das nações ao enriquecimento exagerado de poucos à custa do empobrecimento crescente de muitos, de forma que os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres”.

O neoliberalismo é marcado pelo chamado Estado Mínimo. Tivemos como triste exemplos no país, as reformas trabalhista e da previdência, além do congelamento por vinte anos de recursos para as políticas nas áreas da saúde, da educação, dentre outras. A economia não deve ser regida pelo Estado, mas pelo mercado. Por eles modelos ser em contrária a Doutrina a Igreja, elas são condenados.

 O Papa Francisco na Fratelli Tutti também condena esse modelo. Já o havia feito em seu Encontro com os Movimentos Sociais em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, em 2015. “Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza? Se isso é assim – insist – digamo-lo sem medo: Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos.... E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra, como dizia São Francisco”. Vai repeti-lo tantas outras vezes, especialmente na encíclica Laudato Si.

Mas, assim escreve o papa na sua nova encíclica. 

“O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja. O neoliberalismo reproduz –se sempre igual a si mesmo, recorrendo à mágica teoria do «derrame» ou do «gotejamento» - sem a nomear – como única via para resolver os problemas sociais. Não se dá conta de que a suposta redistribuição não resolve a desigualdade, sendo, esta, fonte de novas formas de violência que ameaçam o tecido social. Por um lado, é indispensável uma política económica ativa, visando «promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial», para ser possível aumentar os postos de trabalho em vez de os reduzir. A especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental, continua a fazer estragos” (168). O papa continua afirmando a importância dos Movimentos Sociais na participação nesse processo como verdadeiros protagonistas. “É necessário pensar a participação social, política e económica segundo modalidades tais «que incluam os movimentos populares e animem as estruturas de governo locais, nacionais e internacionais com aquela torrente de energia moral que nasce a integração dos excluídos na construção do destino comum. Implica superar a ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres, e muito menos inserida num projeto que reúna os povos” (169).

 Faço questão de citar os três últimos papas, mas poderia citar os papas Leão XIII, Pio XI, São João XXIII E São Paulo VI. Você poderá encontra-los no decorrer da leitura da Encíclica Fratelli Tutti.

 De fato, o deus mercado. O Catecismo da Igreja nos números 2424 e 2425 é muito claro quando condena, por um lado, o ateísmo do materialismo histórico e, o por outro, o ateísmo do materialismo do capitalismo.

 “Uma teoria que faça do lucro a regra exclusiva e o fim último da atividade econômica, é moralmente inaceitável. O apetite desordenado do dinheiro não deixa de produzir os seus efeitos perversos e é uma das causas dos numerosos conflitos que perturbam a ordem social. Um sistema que «sacrifique os direitos fundamentais das pessoas e dos grupos à organização coletiva da produção», é contrário à dignidade humana (166). Toda a prática que reduza as pessoas a não serem mais que simples meios com vista ao lucro, escraviza o homem, conduz à idolatria do dinheiro e contribui para propagar o ateísmo. «Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mt 6, 24; Lc 16, 13).

 “A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias, associadas, nos tempos modernos, ao «comunismo» ou ao «socialismo». Por outro lado, recusou, na prática do «capitalismo», o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano. Regular a economia só pela planificação centralizada perverte a base dos laços sociais: regulá-la só pela lei do mercado é faltar à justiça social, «porque há numerosas necessidades humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado». É necessário preconizar uma regulação racional do mercado e das iniciativas económicas, segundo uma justa hierarquia dos valores e tendo em vista o bem comum”.

O papa São João Paulo II condenava o capitalismo neoliberal não era porque ele era comunista. Condenava porque ele era católico. O papa emérito Bento XVI condena o capitalismo neoliberal não era porque é comunista. Condenava porque ele é católico. O Papa Francisco condena o capitalismo neoliberal não é porque ele é comunista. Condena porque ele é católico, ele é cristão. Porque ele é o papa.

Os papas condenam o capitalismo neoliberal porque são papas. Do mesmo modo, todos os católicos que são norteamos pelo Catecismo da Igreja pastoreada pelos sucessores de Pedro. 

Desejo que esta esteja singela tentativa de construir pontes, realizar diálogos através desse singelo trabalho possa ter contribuído.

Que o PAI, por meio do seu FILHO encarnado-morto-ressuscitado, derrame o ESPÍRITO SANTO para restaurar a verdade, superar as discórdias, fazer crescer a unidade na diversidade e, a vivermos em paz para sua maior glória e bem da Esposa do seu Unigênito, Cristo Jesus. Amém.

Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife