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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Cartãozinho de Natal do menino Jesus às crianças de hoje

 


Queridos irmãozinhos e irmãzinhas,

Se vocês olhando o presépio e virem lá o Menino Jesus e se encherem de fé de que Deus se fez um menino,uma criança, como um de nós e que Ele é o Deus que está sempre conosco,especialmente com as crianças que estão famintas e no meio de guerras,

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas a presença secreta do Menino Jesus, de modo especial naqueles que perambulam pelas ruas,sujas e pedindo comida,

Se vocês conseguirem fazer renascer a criança escondida no seus pais, nas pessoas adultas e em todos os convidados para que surja nelas o amor, a ternura, o carinho, o cuidado e a amizade com todo mundo,de modo particular nesse tempo no qual reinou ódio, mentiras, calúnias e até mortes por terem opiniões diferentes,

Se vocês ao olharem para o presépio descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho, como milhares de crianças nestes tempos sombrios de pandemia e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e se quiserem dividir um pouco do que têm e desejarem quando forem adultas, mudar este estado de coisas,

E se vocês, imbuídas da fé, se derem conta de que, embora criança que choraminga e busca o peito de sua mãe Maria, é o Divino que não veio para nos julgar, mas para brincar e se alegrar conosco,

Se vocês ao verem, no presépio, a vaca, o boi, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela Menino Jesus e que todos, estrelas, pedras,  árvores, animais e humanos, somos todos irmãos e irmãs e formamos a grande Casa de Deus,

Se vocês olharem para o alto e virem o céu enfeitado de estrelas, grandes e pequenas e recordarem que sempre há uma estrela semelhante a de Belém sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos,

Então saibam que eu  estou chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia, que só o Pai saberá, em que chegaremos todos, humanidade e universo, na Casa do Pai e Mãe de bondade para sermos juntos eternamente felizes. E então será uma festa como a do Natal, sem fim, pela eternidade afora.

                                    Belém, 25 de dezembro do ano 1.

                                    Assinado: Menino Jesus

 

domingo, 6 de novembro de 2022

Inquietantes distúrbios mentais no Brasil de hoje.

 Eduardo Hoornaert.


 

Celebrou-se a vitória eleitoral de Lula, no dia 30 de outubro passado. Mas, todos e todas sabemos que ele ganhou por um triz e que a ameaça bolsonarista perdura. Não poucos analistas se limitam a qualificar o bolsonarismo de fascismo e autoritarismo. Será suficiente? Isso toca na raiz da questão? Não há de se cavar mais fundo? Neste texto, apresento alguns pontos para a reflexão. E, como sempre, recorro a observações de ordem histórica.  

 

O dia 20 de fevereiro de 1933 na Chancelaria do Reich alemão.

 

O dia 20/02/1933, na Alemanha, especificamente em Berlim, é uma memória raramente evocada. Contudo, trata-se de um dia de grande significado para quem quer ir mais fundo em problemas que nos afligem hoje.

Naquele dia, 24 senhores entram no edifício da Chancelaria alemã em Berlim, a convite de German Goering, ministro do Chanceler Adolf Hitler. Alguns nomes nos são conhecidos: Carl von Siemens (conglomerado industrial que abrange diversos setores), Wilhelm von Opel (marca de um automóvel de grande qualidade), Gustav Krupp (aço, armas, munições), Albert Vögler (munições). Esses senhores, com seus pares, representam, pois, as mais poderosas empresas industriais e comerciais do país: BASF, Bayer, Agfa, Opel, IG Farben, Siemens, Allianz, Telefunken. Goering toma a palavra e explica que a proposta de ‘redenção da Alemanha’ necessita de dinheiro, muito dinheiro. Se não, fracassa. E vai direto ao que interessa: os 24 senhores são convidados a fazer doações. Depois, Hitler fala e diz mais ou menos o mesmo. Por fim, os industriais formam um fila, se aproximam do guichê e fazem suas doações (Éric Vuillard, L’ ordre du jour, Actes Sud, 2017).

Eis um daqueles raros momentos em que a história expõe suas vísceras. Fica claro: Hitler, sem o apoio financeiro desses exatos 24 senhores, e do que eles representam, não pode prosperar.

Deu no que deu. Hitler fracassa. O estranho é que, após o clarão de veracidade que se abriu em 20/02/1933, a pesada cortina de mentira, circunlocução e ocultamento baixa de novo sobre a evidência da colaboração fundamental das grandes empresas alemães, que entre 1933-1945 não hesitaram em recorrer a mão de obra escrava (presos dos campos de concentração) para aumentar seus lucros. Em 1945, enquanto Hitler desce aos infernos, seus financistas sobem aos céus. Não são cobrados. Pelo contrário, no após-guerra, no período de reconstrução da Alemanha, ganham aplausos de todo canto e experimentam um crescimento sensacional. A empresa Volkswagen, por exemplo, criada no reboque do combinado em 20/02/1933, faz rodar seus carros pelas estradas do mundo.

 

Um ataque à inteligência.

 

O exemplo que acabo de evocar tem muito a ver com a atualidade. O projeto Hitler 1933 e o projeto Bolsonaro 2018-22 têm, pelo menos, um ponto em comum: a aliança com o grande capital, com o anseio irresponsável por lucro acima de tudo. E, digamos logo a palavra: com capitalismo. O que precisa compreender, pois, é que o capitalismo constitui um ataque à inteligência humana.

Os 24 senhores alemães, de 20/02/1933, no íntimo, desprezam Hitler, mas enxergam nele uma oportunidade para aumentar seus negócios e ganhar mais dinheiro. O mesmo se diga dos mega-empresários brasileiros. Eles desprezam Bolsonaro, mas não hesitam em apoiá-lo politicamente. Por uma razão óbvia: com ele há como ganhar mais dinheiro que com Lula. Acontece que esses grandes empresários esquecem uma coisa: o capitalismo se vinga deles, tirando-lhes a lucidez e levando-os a um labirinto donde não conseguem mais sair.

 

Para esclarecer esse ponto, recorro ao pensador sul-coreano Byung-Chul Han, que nasceu em Seul, Coreia do Sul, em 1959, e foi para a Alemanha, onde ganha hoje uma audiência e uma visibilidade crescentes. A tese de Byung-Chul Han, bastante inovadora, é que o capitalismo ataca nossa capacidade de refletir. Cito aqui um texto seu, tirado de seu livro Capitalism and the Death Drive (Capitalismo e pulsão de morte).

O que costumamos chamar ‘progresso’ é na realidade um crescimento tumoral, uma proliferação cancerosa no organismo social. Esses tumores passam por metástases sem fim e crescem com uma inexplicável energia mortífera. Num determinado ponto, o crescimento capitalista não é mais produtivo, mas antes destrutivo. O capitalismo, desde bastante tempo, ultrapassou esse ponto. Suas forças destrutivas não só causam catástrofes ecológicas e sociais, mas provocam igualmente colapso mental. A compulsão destrutiva causa, ao mesmo tempo, afirmação de si e destruição de si. Nós nos aperfeiçoamos para a morte. Pois, competição brutal termina em destruição. Ela produz uma frieza emocional e indiferença, tanto diante de outros quanto diante de si mesmo. As consequências devastadoras do capitalismo fazem pensar que, aqui, uma ‘pulsão de morte’ esteja atuando. Inicialmente, Freud hesitou em introduzir ‘pulsão de morte’ em suas análises, mas, com o tempo, ele admitiu que ‘não podia deixar de considerá-la’, e ela se tornou gradativamente central em seu pensamento. Hoje fica impossível pensar sobre capitalismo sem tomar em consideração a pulsão de morte.

Eu mesmo abordei brevemente esse tema num texto recentemente publicado pelo Blogger, intitulado ‘Pulsão de vida e pulsão de morte no Brasil de hoje’.  O capitalismo provoca doença no sistema mental humano. Uma doença que pode levar à morte (de outros e de si mesmo). Os textos de Byung-Chul Han são um chamado à resistência frente a fenômenos como a produtividade sem limites e a servidão consentida, realidades contemporâneas que estão nos deixando doentes.

 

 

 

 

 

 

Embora a obra de Byung-Chul Han já seja aclamada em ambientes intelectuais, ainda não se popularizou o suficiente.

 

Cito mais um trecho de sua autoria: Quem fracassa na sociedade capitalista do rendimento, se acha responsável por isso e se envergonha, em vez de questionar a sociedade ou o sistema. É nisso que consiste a especial inteligência do regime em que vivemos: na auto-exploração. A pessoa direciona a agressão a si mesma. Essa auto-agressividade não transforma o explorado em revolucionário, mas em depressivo. Depressivo e potencialmente agressivo.

Por que os caminhoneiros, que, logo depois das eleições do dia 30 de outubro pp., provocaram uma parada ao longo de grandes estradas brasileiras, falam com tanto aprumo que ‘não podemos aceitar o resultado das urnas, porque tudo foi manipulado’, ‘lutamos pela democracia’, ‘lutamos por nossas famílias’, ‘combatemos a imoralidade’, ‘não apoiamos um condenado pela justiça’, ‘somos democratas’, ‘somos de Jesus’, ‘somos contra a imoralidade’, ‘defendemos nossas crianças’, ‘os esquerdistas são bandidos’? Frases que podem ser questionadas, uma por uma, mas que passam por ‘verdades eternas’, na defesa de ‘Deus, família, liberdade e propriedade’.

 

A máscara do progresso.

 

O que os caminhoneiros em greve parecem não perceber, é que o capitalismo costuma andar mascarado. E que uma de suas máscaras mais usadas e a do ‘progresso’. Aqui vou de novo para a história.

 

Em 1949, no primeiro discurso oficial da história transmitido pela televisão, acompanhado por milhões de pessoas ao mesmo tempo, o Presidente americano Harry Truman (1945-1953) passa da clássica narrativa de um Ocidente que tem a missão de civilizar e evangelizar (leia: colonizar) o Sul Global, para um discurso novo. Ele diz que, doravante, os Estados Unidos e a Europa Ocidental (os países ricos) recebem a missão de se tornar modelos para o resto do mundo em termos de ajuda humanitária, caridade, altruísmo e generosidade. É, em germe, a narrativa progressista, desenvolvimentista. Truman distancia-se do discurso colonialista, mas de maneira nenhuma fala em justiça entre os países do Norte e suas antigas colônias. Não toca no nexo causal entre a riqueza do Norte e a pobreza do Sul. Ele fala de uma nova missão ‘divina’, a substituir o domínio colonial de séculos. Uma missão de generosidade e abertura. O Norte tem de ‘impregnar’ o mundo de ajuda humanitária e de democracia. O discurso corresponde ao estado dos espíritos após da Segunda Guerra Mundial. Apresenta-se como moderno e atrativo. Ganha corações e mentes. Todo mundo fala em desenvolvimento e progresso. Expressões que, até hoje, não desapareceram do vocabulário.

Um resultado concreto da fala de Truman é a criação da Organização Mundial do Comércio (WTO em inglês), baseada numa distinção entre ‘países desenvolvidos’ e ‘países subdesenvolvidos’ (ou, de modo mais elegante: ‘em desenvolvimento’). Os Estados Unidos constituem o país ‘desenvolvido’ por excelência. Representando hoje apenas 4,2 % da população mundial, pode tomar a dianteira, pois é ‘desenvolvido’. O mesmo se diga dos G7, os sete países mais ‘desenvolvidos’ do mundo: EEUU, Inglaterra, Canadá, Alemanha, França, Itália, Japão, embora só representem 7 % da população mundial. Subdesenvolvidos (ou ‘em processo de desenvolvimento, portanto afastados de organismos decisórios) são os BRICs (China, Índia, Rússia, África do Sul, Brasil), que representam 40 % da população do mundo. Ninguém percebe o absurdo da classificação, feita por Truman, pois logo se justifica: se o Sul Global não se ‘desenvolve’, é porque lida com má administração de recursos públicos, corrupção, organização insuficiente e influência de ideologias perversas (leia: comunismo). Criam-se termos que circulam pelo mundo: ‘primeiro mundo’, ‘terceiro mundo’, ‘mundo desenvolvido’, ‘mundo subdesenvolvido’.  Evidências estatísticas a demonstrar que o esquema de Truman não corresponde à realidade, como a que apresentei acima, são contornadas ou camufladas.

Essa camuflagem, por si só, já denota distúrbios mentais inquietantes.  Não se mostra que países ricos se distanciam sempre mais de países pobres; que um minúsculo grupo de riquíssimos controla a economia, a política e a religião; que a maioria da população fica sem voz e sem vez. O tema da igualdade de direito entre todos os seres humanos é cuidadosamente afastado dos debates. Pois o mundo é desigual ‘por natureza’ (uma tese já defendida pelo velho Aristóteles) e, portanto, falar em igualdade entre países é algo subversivo. Pois a pobreza é um dado da natureza (o ‘servus ex natura’ da doutrina aristotélica). O discurso se baseia numa interpretação social e política do evolucionismo de Darwin: na ‘struggle for life’ vencem os mais fortes, desfalecem os mais fracos. 

Nas mesas de negociação volta, invariavelmente, a mesma recomendação: que os países ‘desenvolvidos’ deem as mãos aos ‘países em desenvolvimento’. Uma recomendação que, concretamente, resulta em contribuições monetárias. Propõe-se que os países ‘desenvolvidos’ reservem uma porcentagem dos impostos para organizações oficiais que se ocupem em fazer chegar o dinheiro ao seu devido destino e encontrem a melhor aplicação. Isso significa, numa mentalidade desenvolvimentista: mais estradas, mais automóveis, mais viadutos, mais aviões, mais aeroportos. Dinheiro tem de rolar. Milton Friedman, o papa do desenvolvimentismo, diz em 1970: temos de combater o subdesenvolvimento por meio do mercado. Outro ícone da época, Robert McNamara, faz eco: a agenda dos pobres postula transferências monetárias. Em que direção? Estudos mostram que, em troca de cada dólar doado ‘para o desenvolvimento’, 24 dólares vão para os países ricos.

 

Não somos imunes.

 

Ninguém está imunizado contra o ‘vírus’ capitalista. Pois ele atua nos interstícios da vida política, social e cultural. Todos e todas corremos o perigo de não enxergar o outro, a outra. E isso é sinal de doença mental.

 

O ‘outro’ é um conceito em crise.  Quanto mais iguais somos, mais a produção capitalista aumenta: ‘Agro é top!’. O único lema: ‘igualar’. Quando uma notícia ‘viraliza’ e enche os celulares, aumenta o poder dos ‘influenciadores’.  O vírus se espalha por meio do desejo de pertencer a um coletivo que marche em uníssono. Pois a ‘diferença’ é contrária aos objetivos do capitalismo. Todos e todas com seus smartphones. Sem isso, o mercado é prejudicado. Isso leva a um conformismo radical, uma enorme passividade, que reduz o ser humano à condição de cliente ou de produtor. Eis uma realidade que atinge a todos e todas, que sejamos bolsonaristas ou lulistas. Ninguém está imune.

 

Uma luz que nos vem do passado: Bandung 1955.

 

Uma luz, num passado bastante distante, brilha no horizonte. Refiro-me ao ‘Encontro Internacional sobre Desenvolvimento’, realizado em Bandung, Indonésia, entre 18 e 24 abril 1955, do qual participaram representantes de 29 países da Ásia e da África (A América Latina não participou). Bandung 1955 é um sopro de pensamento saudável em meio de um mundo gradativamente entregue a doenças mentais. Após 67 anos, Bandung continua na frente, pois – pelo que me consta – não se realizaram outras iniciativas internacionais com a mesma clareza nos posicionamentos.

A originalidade desse encontro consiste numa inversão total de perspectiva em relação a conflitos mundiais, expressa nas seguintes palavras: o problema do mundo não consiste na oposição entre o Ocidente e o Oriente, mas entre o Norte e o Sul. A contradição do mundo não se origina na oposição política entre um Oeste capitalista e um Leste socialista (como divulga a grande imprensa ao lançar o tema da ‘guerra fria’), mas da exploração econômica do Sul negro ou mestiço, moreno e pobre, pelo Norte branco, rico e poderoso.

A linguagem do Encontro na Indonésia é um sinal de inteligência saudável em meio a um universo de meias-verdades, circunlocuções, diplomacias e hipocrisias. Enfim, em meio a sinais claros de distúrbios mentais.

 

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A MATERNIDADE HOJE E SEMPRE

Maria Clara Bingemer


            Celebrou-se uma vez mais o Dia das Mães, esperado ansiosamente pelo comércio como a data mais lucrativa depois do Natal.  Significa para alguns uma festa em família, alegre e regada a boa comida, e muita alegria. Para outros traz com crueza o vazio da ausência impossível de ser preenchida daquela que já se foi. Filhos e netos riem com a matriarca ainda presente, outros choram com saudades e recordando os dias de convivência que vivem na memória para sempre. 

            Lembrei-me, durante o alegre encontro familiar e também depois dele, de minha netinha mais nova que um dia me perguntou: “Vovó e a sua mãe?  Onde ela está? “Respondi: “Morreu há tempos querida.” Ela então ficou pensativa e disse: “Ah é?  Eu não sabia que mãe morria”. Senti que ali a inocência de sua infância havia recebido um golpe duro.  Ela acabava de descobrir que tudo e todos que vivem, mesmo aquela que é a fonte da vida e cuida da vida incessantemente, morrem. 

            À semelhança de Maria Victoria, minha querida neta, está intrigado com a morte das mães o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, que escreveu: “Por que Deus permite/ Que as mães vão-se embora?” E explica nos versos seguintes a razão de sua pergunta: “Mãe não tem limite/É tempo sem hora/Luz que não apaga/Quando sopra o vento//E chuva desaba”

            Quando falham todos os apoios e as seguranças, quando as ameaças parecem ganhar terreno, mãe é um porto seguro que fala de amor para sempre, de vida gestada, nutrida, abrigada, protegida.  Colo de mãe é o antídoto para perigos e medos.  A aliança da mãe é com a vida.  E quantas já não houve e há que deixam de lado todos os afazeres para estabelecer-se à cabeceira do filho doente? Ou que se dedicam quando todas as esperanças já foram perdidas, a fim de arrancar um minuto a mais, um suspiro além de vida de onde já todo movimento parece haver desertado? Ou ainda aquelas que procuram incessantemente e com o melhor das forças que lhes restam os filhos desaparecidos por alguma cruel ditadura ou pela violência urbana? 

            Mãe não tem limite, como diz Drummond, nem de tempo, nem de espaço, nem de racionalidade nem de previsibilidade.  Amor de mãe faz explodir todas as expectativas e as fronteiras dos ritmos humanos e segue iluminando e aquecendo mesmo quando sopram ventos e chuvas desabam, arrastando destroços e anunciando catástrofes. 

            Não à toa a Bíblia Hebraica nos diz que o amor de Deus se compara com o de uma mãe. É o profeta Isaías quem fala: “Haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Contudo, ainda que ela se esquecesse, Eu jamais me esquecerei de ti!” 

            A relação com a mãe é o primeiro canal para a transcendência que o ser humano experimenta.  Já desde a vida aquática e uterina, nadando nessas águas que o protegem e ao mesmo tempo o alimentam e o mantêm vivo.  Uma vez saída do ventre materno, a criança experimenta sua identidade de ser relacional através da mãe, que a pega ao colo, a amamenta, a lava e cuida, e lhe devolve o olhar com o qual começa a vislumbrar a existência. 

            Há, portanto, na maternidade algo de sagrado, se o sagrado é precisamente esse ponto de encontro e conexão entre o biológico e a emergência da representação e da autotranscedência.  São as mães aquelas que primeiro dão à criança a possibilidade de participar da riqueza destas duas dimensões: o biológico e o simbólico; o físico e o espiritual; a unidade e a pluralidade que gera a relacionalidade. É a mãe que começa a ensinar a cada um e cada uma que gestou em seu ventre e pariu para o mundo a bela aventura de viver no cruzamento entre duas exigências: uma fisiológica, corporal, sexual; outra da ordem da representação, dos ideais e dos projetos. 

            Assim também é a mãe que abre ao filho a possibilidade de realizar sua vocação, que é tornar-se um ser de palavra.  A língua mãe será por ela pronunciada e ensinada – ao ouvido, no acalanto, nas canções – e se tornará língua falada, palavra pronunciada nos lábios do bebê que ouve e posteriormente chegará ao milagre da linguagem. 

            Por isso, ela aproxima o filho e através dele, os outros, da eternidade e do divino.  Voltemos sobre isso ao poema de Drummond: “Mãe, na sua graça/É eternidade/Por que Deus se lembra/Mistério profundo/De tirá-la um dia?” Como aquela que tem tão inquebrantável aliança com a vida se vai deixando uma saudade e um vazio que nada preenche?

            Não a resposta, mas um começo dela, está no próprio verso do poeta: Mistério Profundo. O mistério da fé é que Deus jamais abandona aquilo que criou.  As mães são suas parceiras nessa obra eterna de tecer e voltar a tecer a vida, fazendo-a sempre mais complexa e mais bela.  Deus é Espírito, que sopra onde quer e não se sabe de onde vem nem para onde vai.  Assim é com as mães que um dia partem.  Mas partindo permanecem: nos ensinamentos, na memória, nos traços que ficam nos rostos e nos corpos dos filhos, nos rastros de amor que possibilitaram tantas coisas que talvez sem esse excesso de dedicação e ternura não aconteceriam.  

O poeta Drummond, depois de dizer, aborrecido que fosse ele rei do mundo baixaria uma lei de que mãe não morre nunca, chega depois à misteriosa resposta que consola os corações de todas as orfandades: “Mãe ficará sempre/ Junto de seu filho/ E ele, velho embora/ Será pequenino/ Feito grão de milho”.  O desejo expresso pelo poeta, embora não seja decreto do Senhor, de certa forma se realiza. 

Talvez esta seja a melhor resposta para a inocência ferida de minha netinha querida. As mães se vão, mas depois da primeira dor da irreparável perda, os filhos vão perceber que elas, de fato, não os deixaram. Estão com eles de modo mais profundo e forte do que antes.  E os fazem eternamente sentir-se filhos, crianças, oferecendo seu colo uma e outra vez para abrigar todo sentimento e consolar toda dor. 

O Dia das Mães é comemorado por todas nós que tivemos e temos a graça de viver a maternidade. E também aquelas e aqueles que não a viveram, mas experimentam a cada dia a beleza de poder realizar o gesto redentor do cuidado que protege a vida de todas as ameaças:  restaurando forças, tratando feridas e reafirmando que o amor é mais forte que a morte. 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de Crônicas de cá e de lá, entre outros livros.

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

segunda-feira, 21 de março de 2022

HOJE, ANIVERSÁRIO DELA - INSURREIÇÃO DE ELLIS

 Marcelo Mário de Melo

 


Tu-arte és maior que Ellis-CPF-Regina.

Marulham em ti os vôos e abismos

que assomam nos lampejos do gênio

o vagido das vacas parindo

os urros dos garrotes castrados

o galope dos garanhões

tomando as éguas de assalto

o choque dos meteoritos

as chamas das estrelas cadentes

os mendigos ouvindo os sinos de Natal

o corpo despencando do andaime

o cão ante o cadáver do dono

o preso na câmara de gás

a criança morrendo no ventre

o rato roendo as entranhas

o encanto da chuva com sol

a agudeza dos estilhaços de vidro

o corte fundo de navalha

a luz do brilhante

o som do cristal

o balé da caixinha de música

A corrida na roda gigante.

as imagens na Casa dos Espelhos

a moça nua no rio

o esplendor da campina florida

o corpo quente do amante

o apito do trem no meio do sonho

o eclipse

a girândola

a uva na boca

o ácido nos olhos

o carinho e a fúria

o avião e o submarino

o cemitério e o circo

 

Diante de Tuarte

os fortins racionalistas se esboroam

o corte no dedo o coração as pestanas

latejam nas tuas diástoles

que marejam lágrimas

deixando-nos despidos

simplesmente humanos.

 

(Penitenciária Professor Barreto Campelo, janeiro de 1978, Itamaracá-PE, depois de ver na TV Ellis cantar O Bêbado e o Equilibrista)

sexta-feira, 11 de março de 2022

Atualização do que significa o jejum para hoje

 Leonardo boff


 

        O Papa Franciscoo entende o cristianismo não como um fóssil do passado, mas como um organismo vivo que se relaciona sempre com o tempo presente e se renova. É então que ele mostra sua permanente atualidade e enriquece o sentido de nossa vida.

Assim fez com o jejum que os católicos costumam fazer na quarta-feira de cinzas, após o carnaval e no começo da quaresma (os 40 dias que antecedem à páscoa) e na sexta-feira santa na qual se recorda a morte de Jesus na cruz.

O jejum é uma constante em todas as tradições religiosas. Seu significado transcende o não tomar alimentos e não beber água. Renuncia-se a eles, fundamentais para a vida, para repensar o sentido da vida e se perguntar pelo lugar que Deus ocupa em sua vida. Os grandes nomes da nossa tradição judaico-cristã jejuaram. Assim Moisés, João Batista, São Paulo, Jesus e Francisco de Assis entre tantos outros.

Chuang-Tzu fala do jejum do coração que é a origem da unidade interior e da liberdade do espírito. É fazer-se, por um momento, uma janela que é uma parte vazia da parede mas que, por causa dela, toda a sala se enche de luz (Thomas Merton, A Via de Chuang-Tzu, Vozes,1993,71-72).

Vejamos a inteligente atualização do jejum pelo Papa Francisco.

1- *Cumprimente* sempre e em todo lugar.

 2- *Dar graças*  (mesmo que não “devas” ou deseje fazê-lo).

 3- Lembre às pessoas o quanto você os *ama*.

 4- *Cumprimentar com alegria* às pessoas que você vê todos os dias.

5- *Ouvir* o que o outro tem a dizer, sem pré julgamentos, *com amor*.

 6- Parar para *ajudar*. Estar *atento a quem precisa* de você.

 7- *Animar* a alguém

 8- *Comemorar as qualidades e os êxitos* do outro.

 9- *Separar* o que não usa e *doar* a quem necessita.

 10- *Ajudar quando necessário* para que o outro descanse.

 11- *Corrigir com amor*, não calar por medo.

12- *Ter boas relações* com os que estão *perto de você*.

13 – *Limpar o que usar em casa*. 

14- *Ajudar os outros a superar obstáculos*.

 15- *Telefonar* para seus pais, se tiver a felicidade de tê-los.

Em seguida, confere um conteúdo concreto ao jejum.

• *Jejue de palavras ofensivas* e transmita palavras gentis.

• *Jejue de descontentamentos* e  se encha de gratidão.

• *Jejue da raiva* e encha-se de mansidão e paciência.

• *Jejue de pessimismo* e se encha de esperança e otimismo.

• *Jejue de preocupações* e encha-se de confiança em Deus.

• *Jejue de queixas* e se encha das coisas simples da vida

• *Jejue das pressões* e se encha de oração

• *Jejue das tristezas e amarguras* e encha de alegria o coração.

• *Jejue de egoísmo* e encha-se compaixão e pelos demais.

• *Jejue da falta de perdão* e encha-se de atitudes de reconciliação.

• *Jejue das palavras* e se encha de silêncio e de escuta aos outros.

Se todos nós tentarmos este jejum, o cotidiano se encherá de: 

Paz, de Confiança, de Alegria e deVida.

Não há o que comentar esses ousados preceitos, apenas tentar vivê-los com perseverança.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu com frei Betto Mística e espiritualidade, Vozes  2010.

 

terça-feira, 8 de março de 2022

Igualdade de gênero hoje para um amanhã sustentável

 Marcelo Barros 


 

Este é o tema que a ONU escolheu para a comemoração do dia mundial da mulher neste ano de 2022. Esta data, promovida pela ONU (Organização das Nações Unidas), celebra as conquistas sociais, econômicas, culturais e políticas que as mulheres realizam no mundo e reforça a luta das mulheres pelo reconhecimento de sua dignidade, igualdade de direitos e protagonismo na construção de um mundo de iguais.

O tema deste ano sublinha que a causa da igualdade de gêneros é fundamental para toda humanidade e não só para as mulheres e tem profunda relação com a sustentabilidade do planeta. Só no respeito à diversidade de gêneros e no caminho da igualdade será possível a sustentabilidade da vida no planeta. Infelizmente, neste ano, celebramos esta data em meio às notícias da guerra na Ucrânia que revela as ambições do imperialismo dos Estados Unidos e o seu projeto de colocar mísseis nucleares na fronteira da Rússia, assim como também mostra os sonhos de hegemonia mundial da Rússia e da China. Em uma guerra como essa, as principais vítimas são sempre as populações mais pobres e entre elas, as mulheres e as crianças.

Infelizmente, no Brasil, na comemoração do 08 de março, precisamos nos dar conta de que, diariamente, aumentam as várias formas de violência contra a mulher. Muitas mulheres têm sofrido agressões dentro da própria casa, muitas vezes por parte dos companheiros. Ainda é comum o estupro e pior ainda o feminicídio, assassinato de mulheres, pelo fato de serem mulheres. Além disso, a violência contra a mulher também toma caráter coletivo no tráfico de mulheres para a prostituição forçada que existe em todos os continentes e em certas políticas que insistem na discriminação da mulher. 

Devemos todos, homens e mulheres, valorizar e celebrar de todas as formas que pudermos o dia internacional da mulher, para que este possa se estender por todos os dias do ano como tempo de integração de gêneros e o mundo se torne espaço de comunhão no qual mulheres e homens possam viver a complementação de iguais.

Para quem cultiva a espiritualidade, seja em qual for a tradição religiosa ou fora das religiões, o Amor se manifesta como energia fecunda de vida. Os povos indígenas a veneram como Pachamama, mãe Terra. As tradições afrodescendentes a honram nas grandes Mães da vida,  como Iemanjá, Nanã, Obá, Euá, Oxum e Iansã.  A tradição bíblica revela que a divina Ruah, ventania, que os textos traduzem como Espírito Santo, se revela na força própria da mulher e no encanto do feminino em nossas vidas. Na carta aos gálatas, Paulo afirma: “Homens ou mulheres, somos todos um só no Cristo, Jesus nosso Senhor” (Cf. Gl 3, 28).

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b

sexta-feira, 24 de dezembro de 2021

Natal: os Herodes de ontem, de hoje e a Divina Criança

 


Leonardo Boff


 

Os ancestrais relatos sobre o “Divus Puer”(a Criança Divina) ganham sempre novas significações consoante a mudança dos tempos e dos contextos históricos.Nós os lemos e interpretamos com os olhos de hoje, no quadro de uma situação sombria,marcada pela morte de milhões do mundo inteiro e de milhares entre nós sob o ataque traiçoeiro de um vírus letal. Descobrimos similitudes e poucas diferenças entre o Natal de outrora e de hoje.Na verdade, numa leitura simbólica, temos a ver com algo que afeta a todos os humanos.

De um lado, temos José e Maria, sua esposa, grávida de nove meses.Eles vem de Nazaré, do norte da Palestina para o sul, em Belém. São pobres como a maioria dos artesãos e camponeses mediterrâneos. Às portas de Belém, Maria entra em trabalho de parto:  segura a barriga pois a longa caminhada acelerou o processo. Batem à porta de uma hospedaria. Ouvem o que os pobres na história sempre ouvem:”não tem lugar para vocês na hospedaria”(Lc 2,7).

Abaixam a cabeça e se afastam preocupados. Como ela vai dar à luz? Sobrou-lhes, na vizinhança, uma estrebaria  de animais. Ai há uma manjedoura com palhas,  um boi e um jumento que, estranhamente, permanecem quietos, observando. Ela dá a luz a um menino entre os animais. Faz frio. Ela o envolve com panos e ajeita-o nas palhinhas. Choraminga alto como todos os recém nascidos.

Há pastores que velam à noite, vigiando o rebanho.São considerados impuros e por isso desprezados, por estarem sempre às voltas com os animais e seus excrementos. Surpreendentemente, uma luz os envolveu e escutaram do Alto uma voz lhes anunciando:”não temais anuncio-vos uma grande alegria que é para todo o povo;acaba de nascer o  Salvador; este é o sinal: encontrareis um menino envolto em panos,deitado numa manjedoura”. Ao porem-se, pressurosos, a caminho ouviram um cântico mavioso, de muitas vozes, vindo do Alto:”Glória a Deus nas alturas e paz na Terra aos homens  por Deus amados”(Lc 2,8-18). Chegam e se confirmou tudo o que lhes fora comunicado: aí está um menino, tiritando, enfaixado em panos e deitado na manjedoura,em companhia de animais.

Algum  tempo depois,eis que vem descendo o caminho, três sábios do Oriente. Sabiam interpretar as estrelas. Chegam. Extasiam-se pela misteriosidade da situação. Identificam no menino aquele que iria sanar a existência humana ferida. Inclinam-se, reverentes, e deixam presentes simbólicos. Com o coração leve e maravilhados, tomam o caminho de volta, evitando a cidade de Jerusalém, pois aí reinava uma pessoa terrivelmente belicosa.

Lição: Deus entrou no mundo, na calada da noite,sem que ninguém o soubesse. Não há pompa nem glória, que imaginaríamos adequadas a um menino que é Deus. Mas preferiu vir fora da cidade, entre animais. Não constou na crônica da época,nem em Jerusalém, muito menos em Roma. No entanto,aí está Aquele que o universo estava gestando dentro de si há bilhões de anos, aquela “luz verdadeira que ilumina cada pessoa que vem a este mundo”(Jo 1,10).

Devemos respeitar e amar a forma como Deus quis entrar neste mundo: anônimo como anônimos são as grandes maiorias pobres e menosprezadas da humanidade.Quis começar lá em baixo para não deixar ninguém de fora. A situação humilhada e ofendida deles foi aquela que o próprio Deus  quis fazer sua.

Mas há também sábios e homens estudiosos das estrelas do universo e que captam atrás das aparências o mistério de todas as coisas. Entrevem neste menino de corpinho tiritante, que molha os paninhos,choraminga e busca, faminto, o seio da mãe, o Sentido Supremo de nossa caminhada e do próprio universo.Para eles é também Natal.

É verdade o que se conta por aí: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino”.

Esse é um lado, alvissareiro: um raio de luz no meio da noite escura. Um pouco de luz tem mais direito que todas as trevas. Daí nos vem salvamento, uma revolução dentro da evolução que, de forma antecipada, chegou à sua plenitude. Em fim…

Mas há o outro lado, sombrio e também trágico. Há um Herodes que se sente ameaçado em seu poder de soberano pela presença deste menino. José,atento, logo se dá conta:ele quer mandar matar o menino. Foge para o Egito com Maria e o menino ao colo que dorme, busca o seio e volta a dormir.

Herodes é sanguinário. Por segurança mandou matar todas as crianças de Belém e arredores de dois anos para baixo.Assim não escaparia o menino Jesus. Então se ouviu um dos lamentos mais comoventes de todas as Escrituras:”Em Ramá se ouviu uma voz, muito choro e gemido: é Raquel que chora os filhos assassinados e não quer ser consolada porque os perdeu para sempre”(Mt 2,18).

Os Herodes se perpetuam na história. Entre nós temos um que não ama a vida, que zomba do vírus letal,que não se compadece das lágrimas e choros de milhares de famílias quer perderam filhos, irmãos, parentes e amigos. Não se sentem consoladas enquanto não se fizer justiça. Nega proteção vacinal a crianças e a jovens entre 5 a 11 anos. Eles podem ser contaminados, contaminar e até morre.Não quer porque não quer, na contramão da ciência e dos países que estão vacinando suas crianças. Acostumou-se ao negacionismo, parecendo ter feito um pacto com o vírus. Ouvem-se vozes de pais e de avós,vindas de todos os lados:”quero a vida de meus filhos e filhas; quero que os vacinem; quero que vacinem meus netos e netas”.

Como o faraó, endureceu seu coração e alimenta o propósito do Herodes do tempo do menino.Mas haverá sempre uma estrela,como a de Belém, a iluminar nossos caminhos.Por mais perverso que seja o nosso Herodes não pode impedir que o sol nasça cada manhã nos trazendo esperança, aquele que foi chamado “O Sol da Esperança”.

Essa alegria é inaudita: a nossa humanidade,fraca e mortal, a partir do Natal começou a pertencer ao próprio Deus.Por isso algo nosso já foi eternizado pelo Divino Menino que nos garante que os Herodes da morte jamais triunfarão. Feliz Natal a todos com muita luz e discreta alegria.

Leonardo Boff é teólogo e escreveu O Sol da Esperança: Natal, histórias, poesias e símbolos, Mar de Ideias, Rio 2007; Natal: a humanidade e a jovialidade de nosso Deus, Vozes 2009. Para encomendar:contato@leonardoboff.eco.br

 

terça-feira, 31 de agosto de 2021

HERANÇA DA PROFECIA PARA HOJE

 

Marcelo Barros

Enquanto em Brasília, o presidente se esmera em diariamente fabricar alguma crise para distrair o povo e desviar a atenção da tragédia atual que o Brasil atravessa, os movimentos sociais e os grupos  organizados nas bases preparam para a próxima semana mais um Grito pela Vida e pelos Direitos de todos/as. Nesse contexto, recordamos a memória de três bispos católicos que, pela sua atuação para além da Igreja, se tornaram profetas da paz e da justiça para todo o nosso povo. No mesmo dia 27 de agosto, recordamos o falecimento de Dom Helder Camara, (1999) que foi arcebispo de Olinda e Recife, Dom Luciano Mendes de Almeida (2006) que presidiu a conferência dos bispos católicos no Brasil e foi arcebispo de Mariana, MG e de Dom José Maria Pires (2017), arcebispo de João Pessoa, PB. Poucos dias antes,
lembrávamos Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, que também nos deixou em agosto (12/08/2006). Cada um desses pastores tinha o seu carisma próprio e o seu jeito de ser profeta, mas todos viveram o serviço pastoral, procurando despertar a vocação profética de todas as pessoas movidas pelo amor solidário.

Nenhum desses pastores passou pelo sofrimento de ver, em nossos dias, setores das Igrejas cristãs se revelarem cúmplices do governo do ódio e defenderem a barbárie. Pastores e grupos eclesiais tradicionalistas parecem dar razão ao que dizia o famoso cineasta norte-americano Woody Allen: “Deus deve ser um cara bom, mas os amigos dele, eu não recomendaria”.

Esse é um desafio que vem desde a época de Jesus: o nosso modo de viver a fé e a nos inserir na vida social testemunha quem é o Deus no qual acreditamos. A maior revolução dos evangelhos foi que Jesus contestou a religião cultual e discriminatória do templo de Jerusalém e nos ensinou que Deus é Amor e só pode amar. Se é Deus, não poderia ser o Senhor todo-poderoso, amigo dos seus amigos e inimigo perigoso de quem não aceitar submeter-se aos seus caprichos.

Infelizmente, quando, na história, uma Igreja cristã adere a um império e se torna aliada dos poderosos do mundo, ela legitima uma visão cruel e mesquinha de Deus. Assim, os povos originários das Américas, assim como africanos e asiáticos, conheceram o Cristianismo colonizador e aliado dos europeus conquistadores.  Apesar da resistência de alguns missionários, quase todas as Igrejas foram coniventes com a escravidão e corresponsáveis pela perseguição e condenação às culturas originárias de nossos povos. Por isso, temos uma dívida histórica com as comunidades indígenas e negras. E esses bispos profetas, dos quais, neste final de agosto, recordamos a memória, nos deram exemplo de consagração a serviço dos mais pobres.

Atualmente, em todo o continente latino-americano, os povos indígenas se articulam em organizações independentes que propõem um novo paradigma de civilização para toda a humanidade: o bem viver. Trata-se de uma transformação social e política baseada na prioridade do bem comum e da relação do ser humano consigo mesmo e com a mãe Terra e toda a natureza. Essa busca do bem-viver radicaliza a democracia a partir do diálogo comunitário e aprofunda uma espiritualidade que vê o Amor divino presente em todo o universo. Exige profunda transformação cultural e social. Para quem é cristão, lembra o que escreveu Paulo aos romanos: “Não se conformem com esse mundo, mas o transformem pela renovação de suas mentes” (Rm 12, 1).


 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br