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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Cartãozinho de Natal do menino Jesus às crianças de hoje

 


Queridos irmãozinhos e irmãzinhas,

Se vocês olhando o presépio e virem lá o Menino Jesus e se encherem de fé de que Deus se fez um menino,uma criança, como um de nós e que Ele é o Deus que está sempre conosco,especialmente com as crianças que estão famintas e no meio de guerras,

Se vocês conseguirem ver nos outros meninos e meninas a presença secreta do Menino Jesus, de modo especial naqueles que perambulam pelas ruas,sujas e pedindo comida,

Se vocês conseguirem fazer renascer a criança escondida no seus pais, nas pessoas adultas e em todos os convidados para que surja nelas o amor, a ternura, o carinho, o cuidado e a amizade com todo mundo,de modo particular nesse tempo no qual reinou ódio, mentiras, calúnias e até mortes por terem opiniões diferentes,

Se vocês ao olharem para o presépio descobrirem Jesus pobremente vestido, quase nuzinho, como milhares de crianças nestes tempos sombrios de pandemia e lembrarem de tantas crianças igualmente pobres e mal vestidas e sofrerem no fundo do coração por esta situação desumana e se quiserem dividir um pouco do que têm e desejarem quando forem adultas, mudar este estado de coisas,

E se vocês, imbuídas da fé, se derem conta de que, embora criança que choraminga e busca o peito de sua mãe Maria, é o Divino que não veio para nos julgar, mas para brincar e se alegrar conosco,

Se vocês ao verem, no presépio, a vaca, o boi, as ovelhas, os cabritos, os cães, os camelos e o elefante pensarem que o universo inteiro é também iluminado pela Menino Jesus e que todos, estrelas, pedras,  árvores, animais e humanos, somos todos irmãos e irmãs e formamos a grande Casa de Deus,

Se vocês olharem para o alto e virem o céu enfeitado de estrelas, grandes e pequenas e recordarem que sempre há uma estrela semelhante a de Belém sobre vocês, acompanho-os, iluminando-os, mostrando-lhes os melhores caminhos,

Então saibam que eu  estou chegando de novo e renovando o Natal. Estarei sempre perto de vocês, caminhando com vocês, chorando com vocês e brincando com vocês até aquele dia, que só o Pai saberá, em que chegaremos todos, humanidade e universo, na Casa do Pai e Mãe de bondade para sermos juntos eternamente felizes. E então será uma festa como a do Natal, sem fim, pela eternidade afora.

                                    Belém, 25 de dezembro do ano 1.

                                    Assinado: Menino Jesus

 

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

A mais revolucionária proposta de Jesus

 Marcelo Barros


 

Nestes dias, de 11 a 15 de novembro, em Olinda e Recife, a Igreja Católica realizou o XVIII Congresso Eucarístico Nacional, reunindo milhares de pessoas em grandes celebrações, um simpósio teológico e outras atividades para aprofundar o sentido da Eucaristia. Os Congressos eucarísticos surgiram a partir do século XIX, em outro contexto histórico. Nasceram ligados à devoção eucarística e à preocupação de manifestar publicamente ao mundo a fé na presença de Jesus no pão consagrado. 

A partir do Concílio Vaticano II (1962- 1965), a Igreja Católica mudou a visão sobre a sua missão no mundo e o sentido da eucaristia. O Concílio nos fez aprofundar os evangelhos. Estes nos mostram que Jesus retoma a Páscoa judaica e a atualiza. Na Páscoa, como todo o povo de Deus, Jesus celebra a memória da libertação da escravidão do Egito, mas a radicaliza o mais que pode. Propõe a partilha do pão e do vinho, como expressão do mandamento novo que dá aos discípulos/as: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

Os apóstolos e muita gente do povo esperavam que ele cumprisse a função política de libertar Israel do domínio romano. Jesus frustrou essa expectativa. Centrou a sua atividade profética contra a religião ritual do templo e propôs uma libertação que não parte de armas e sim de uma transformação interior no modo de ser das pessoas e das culturas que suscita relações comunitárias de igualdade, comunhão de bens e cuidado recíproco.  

De acordo com os evangelhos, na noite em que seria preso e condenado, Jesus ceia com os discípulos e discípulas. Ali, revela o sentido profundo da entrega da sua vida e pede que ao partilhar o pão e o vinho na refeição, a comunidade faça a memória da Páscoa e aceite doar a sua vida.

Assim sendo, a veracidade da eucaristia não consiste apenas na fidelidade material ao rito. O gesto litúrgico deve corresponder à verdade da vida. Provavelmente, por isso, o quarto evangelho, no lugar de contar a instituição da eucaristia, descreve que, na ceia, Jesus lava os pés dos discípulos e manda que isso seja feito por todos, uns com os/as outros/as.

O Concílio Vaticano II recuperou a dimensão comunitária da eucaristia. Como dizia Santo Agostinho: o pão é o sinal da comunidade que é o corpo de Cristo. Hoje, cada vez mais a Igreja se dá conta de que a relação entre celebração e  vida é desafio permanente. Se a comunhão da eucaristia não leva às pessoas a um novo modo de organizar a vida, baseado na partilha,  a celebração perde muito da sua veracidade.

Este XVIII Congresso Eucarístico aconteceu em um momento do Brasil, no qual uma onda de mentiras e notícias falsas amedrontou comunidades católicas e protestantes com a ameaça do Comunismo. Pelo medo irreal de que templos sejam fechados e leis morais da Igreja desobedecidas, não poucos pastores e fieis deram ao mundo o triste testemunho de uma Igreja não amorosa e nada solidária com os mais empobrecidos. Provavelmente, muitos dos padres e católicos que se posicionam a favor do autoritarismo e da violência não percebem que essa cruzada contra o fantasma do comunismo contém uma postura extremamente anti-eucarística, já que é discrimanatória e pouco amorosa.

A eucaristia exige de nós o cuidado de não desligar o rito da proposta eucarística de Jesus que é a de um mundo renovado a partir do amor solidário, em uma sociedade sem armas e sem discriminações sociais, inclusiva e aberta a todos e todas. Ao escolher como tema deste Congresso “Pão em todas as mesas”, como canta uma de nossas mais belas canções, a Igreja Católica no Brasil assume a proposta feita pelo papa Francisco no 52º Congresso Eucarístico em Budapeste: “A celebração da Eucaristia deve gerar uma cultura eucarística, porque impele a transformar em gestos e comportamentos de vida a graça de Cristo que se doou totalmente. (…) A Eucaristia deve se traduzir em cultura eucarística, capaz de inspirar os homens e as mulheres de boa vontade nos âmbitos da caridade, da solidariedade, da paz, da família e do cuidado com a criação” (Cf. https://pontosj.pt/especial/por-uma-cultura-eucaristica/).

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b


 

terça-feira, 15 de novembro de 2022

A mais revolucionária proposta de Jesus

 Marcelo Barros


 

Nestes dias, de 11 a 15 de novembro, em Olinda e Recife, a Igreja Católica realizou o XVIII Congresso Eucarístico Nacional, reunindo milhares de pessoas em grandes celebrações, um simpósio teológico e outras atividades para aprofundar o sentido da Eucaristia. Os Congressos eucarísticos surgiram a partir do século XIX, em outro contexto histórico. Nasceram ligados à devoção eucarística e à preocupação de manifestar publicamente ao mundo a fé na presença de Jesus no pão consagrado. 

A partir do Concílio Vaticano II (1962- 1965), a Igreja Católica mudou a visão sobre a sua missão no mundo e o sentido da eucaristia. O Concílio nos fez aprofundar os evangelhos. Estes nos mostram que Jesus retoma a Páscoa judaica e a atualiza. Na Páscoa, como todo o povo de Deus, Jesus celebra a memória da libertação da escravidão do Egito, mas a radicaliza o mais que pode. Propõe a partilha do pão e do vinho, como expressão do mandamento novo que dá aos discípulos/as: “Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei” (Jo 13, 34).

Os apóstolos e muita gente do povo esperavam que ele cumprisse a função política de libertar Israel do domínio romano. Jesus frustrou essa expectativa. Centrou a sua atividade profética contra a religião ritual do templo e propôs uma libertação que não parte de armas e sim de uma transformação interior no modo de ser das pessoas e das culturas que suscita relações comunitárias de igualdade, comunhão de bens e cuidado recíproco.  

De acordo com os evangelhos, na noite em que seria preso e condenado, Jesus ceia com os discípulos e discípulas. Ali, revela o sentido profundo da entrega da sua vida e pede que ao partilhar o pão e o vinho na refeição, a comunidade faça a memória da Páscoa e aceite doar a sua vida.

Assim sendo, a veracidade da eucaristia não consiste apenas na fidelidade material ao rito. O gesto litúrgico deve corresponder à verdade da vida. Provavelmente, por isso, o quarto evangelho, no lugar de contar a instituição da eucaristia, descreve que, na ceia, Jesus lava os pés dos discípulos e manda que isso seja feito por todos, uns com os/as outros/as.

O Concílio Vaticano II recuperou a dimensão comunitária da eucaristia. Como dizia Santo Agostinho: o pão é o sinal da comunidade que é o corpo de Cristo. Hoje, cada vez mais a Igreja se dá conta de que a relação entre celebração e  vida é desafio permanente. Se a comunhão da eucaristia não leva às pessoas a um novo modo de organizar a vida, baseado na partilha,  a celebração perde muito da sua veracidade.

Este XVIII Congresso Eucarístico aconteceu em um momento do Brasil, no qual uma onda de mentiras e notícias falsas amedrontou comunidades católicas e protestantes com a ameaça do Comunismo. Pelo medo irreal de que templos sejam fechados e leis morais da Igreja desobedecidas, não poucos pastores e fieis deram ao mundo o triste testemunho de uma Igreja não amorosa e nada solidária com os mais empobrecidos. Provavelmente, muitos dos padres e católicos que se posicionam a favor do autoritarismo e da violência não percebem que essa cruzada contra o fantasma do comunismo contém uma postura extremamente anti-eucarística, já que é discrimanatória e pouco amorosa.

A eucaristia exige de nós o cuidado de não desligar o rito da proposta eucarística de Jesus que é a de um mundo renovado a partir do amor solidário, em uma sociedade sem armas e sem discriminações sociais, inclusiva e aberta a todos e todas. Ao escolher como tema deste Congresso “Pão em todas as mesas”, como canta uma de nossas mais belas canções, a Igreja Católica no Brasil assume a proposta feita pelo papa Francisco no 52º Congresso Eucarístico em Budapeste: “A celebração da Eucaristia deve gerar uma cultura eucarística, porque impele a transformar em gestos e comportamentos de vida a graça de Cristo que se doou totalmente. (…) A Eucaristia deve se traduzir em cultura eucarística, capaz de inspirar os homens e as mulheres de boa vontade nos âmbitos da caridade, da solidariedade, da paz, da família e do cuidado com a criação” (Cf. https://pontosj.pt/especial/por-uma-cultura-eucaristica/).

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b




 

 

quinta-feira, 14 de abril de 2022

A CONDENAÇÃO DE JESUS

 Frei Betto


 

       Entramos na Semana Santa, quando se comemora a prisão, morte e ressurreição de Jesus, episódios centrais para a fé de todos nós, cristãos. Para quem tem fé, Jesus é o Salvador, o Filho de Deus presente entre nós. Para o historiador, um profeta apocalíptico que percorreu a Palestina na primeira metade do século I, defendeu os direitos dos pobres, criticou a ocupação do Império Romano, denunciou a religião opressiva do Templo de Jerusalém e morreu na cruz. 

       Desde o século XVIII se intensificou o debate sobre o Jesus histórico. O filósofo alemão Hermann Reimarus inaugurou os estudos não confessionais sobre a vida de Jesus. Bauer, Couchoud, Drews e, mais tarde, os partidos comunistas, defenderam que ele jamais existiu. Tal conclusão foi desprezada pela quase totalidade da crítica, e Bultmann disse que nem valia a pena discutir o assunto. Há mais evidências da existência de Jesus do que a de Sócrates e, no entanto, não se coloca em dúvida o que Platão nos transmitiu a respeito do famoso filósofo. 

       Do ponto de vista histórico, não há muitas certezas a respeito de Jesus, exceto o que nos informam o Novo Testamento, em especial os quatro evangelhos, e alguns autores judeus e romanos, como Flávio Josefo. E ainda hoje perdura uma interrogação: quem foi o responsável por sua morte? Infelizmente, a primeira resposta da Igreja foi culpar os judeus. Preconceito infundado que favoreceu o antissemitismo. E, ainda hoje, malha-se Judas – cujo nome é associado ao judaísmo – no sábado de Aleluia. 

       A leitura crítica do Novo Testamento nasceu na Alemanha, se estendeu pela França, com Renan, Loisy, Goguel e Guignebert e, em seguida, para o Reino Unido e os Estados Unidos, onde, ainda hoje, a discussão é calorosa. Os judeus também participaram com Klausner e Montefiore. 

       Três teses se destacam como principais. A primeira, que os verdadeiros culpados foram os judeus. A segunda, que foram os romanos. A terceira, que a culpa foi de ambos: o Sinédrio – a suprema corte religiosa e política do judaísmo no século I -, como denunciante e acusador, e o interventor romano, o governador Pôncio Pilatos, como juiz e executor. 

       Ora, hoje em dia a Igreja admite que os Evangelhos não são livros de história, nem registros judiciais. Por isso, é inútil pretender encontrar neles um relato preciso do julgamento de Jesus. Na verdade, os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) se contradizem em vários pontos, como nos relatos dos dois ladrões crucificados ao lado de Jesus, do sonho da mulher de Pilatos e da interferência de Herodes Antipas, governador da Galileia.

        Contudo, Mateus, Marcos e Lucas concordam em um ponto: Jesus foi preso à noite por uma turba de judeus, que o levou imediatamente para o Sinédrio. Para Lucas, o prisioneiro foi conduzido à casa de Caifás, o Sumo Sacerdote. João acrescenta em seu evangelho que, em apoio aos guardas do Templo, havia uma guarnição romana. Ou seja, os romanos participaram da captura, já que sobre o Nazareno pesava a suspeita de sedição. Afinal, dentro do reino de César ele ousara anunciar outro reino possível – o de Deus, baseado em novas relações pessoais e sociais - o amor e a partilha dos bens. 

       Naquela madrugada, o prisioneiro político compareceu à presença de Pilatos para ser julgado. Isso significa que o governador romano já tinha sido avisado e estava decidido a processá-lo.

       Tais circunstâncias induziram muitos autores a concluir que a denúncia teria partido das autoridades judaicas, alarmadas com a atividade do pregador itinerante, que já se tornara conhecido ao expulsar os vendilhões do Templo. 

       Pela ótica do Sinédrio, pesava sobre Jesus a acusação de blasfêmia, já que ousara se autoproclamar Messias. Pela ótica dos romanos, de crime de lesa-majestade, já que teria se arvorado em rei dos judeus. Enquanto a primeira acusação pouco importava aos judeus, a segunda merecia a pena de morte na cruz. Embora os evangelhos tendam a ressaltar a culpa dos sacerdotes e até mesmo dos judeus, e atenuar o papel de Pilatos, a sentença final foi proferida pelo interventor imperial.

       No século passado, o Concílio Vaticano II, após longa discussão, aboliu a infâmia de acusar o povo judeu de deicídio. O que diz, entretanto, o julgamento da história? Ora, saber algo de preciso sobre o Jesus histórico é quase impossível, como salientou, há um século, o renomado médico e teólogo Albert Schweitzer, que tudo abandonou na Alemanha para cuidar, na África, de pacientes muito pobres.

       As certezas que temos sobre o Jesus histórico são muito poucas. E pelo que sabemos de sua morte só se pode concluir, com o historiador das religiões, o francês Charles Guignebert, que o Nazareno foi submetido a um julgamento romano, por uma acusação romana, condenado por um juiz romano a uma pena exclusivamente romana, e afixada sobre sua cabeça uma sentença romana ofensiva aos judeus: Iesus Nazarenus Rex Iudeorum (Jesus Nazareno, rei dos judeus). Assim, do ponto de vista puramente histórico a culpa do assassinato de Jesus foi romana. 

       Hoje, Jesus continua virtualmente assassinado por todos aqueles que usam em vão o seu nome para legitimar fake news, opressões, governos tirânicos e desigualdades sociais.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Natal: Jesus X Papai Noel


Prof. Aquino Júnior


O natal é a celebração do nascimento de Jesus: “A Palavra de Deus que se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14); o Emanuel – “Deus conosco” (Mt 1, 23) que veio trazer a salvação, como indica o nome Jesus: Deus salva (Lc 1, 31). E os evangelhos narram essa salvação se concretizando na vivência do amor fraterno, até com os inimigos, especialmente com os caídos à beira do caminho, os pobres e marginalizados. Jesus mostra como o amor a Deus é inseparável do amor ao próximo e como nosso amor ao próximo é critério e medida de nosso amor a Deus. Nisso consiste a Boa Notícia do reinado de Deus anunciado/realizado por Jesus: Quando Deus reina sobre um povo, reina a fraternidade, a justiça, a misericórdia e a paz. E isso é uma Boa Notícia sobretudo para os pobres e marginalizados deste mundo.

Infelizmente, o natal tem sido cada vez mais associado a mercado. É um tempo bom para o comércio. Tempo de comprar e dar presente. A imagem de “papai Noel” tem se tornado muito mais presente e representativa do natal que o Menino Jesus na manjedoura. Mas há uma diferença fundamental entre Jesus e papai Noel: Jesus anuncia e instaura a justiça do Reino que é Boa Notícia para os pobres e marginalizados e escândalo para os ricos e poderosos; papai Noel movimenta o mercado que enriquece cada vez mais os ricos e exclui os pobres. Se no reinado de Deus há lugar para todos os que queiram viver como irmãos, a começar dos últimos da sociedade; no mercado só há lugar para quem tem o que vender ou comprar. Enquanto Jesus movimenta a sociedade em função da fraternidade, o mercado movimenta a sociedade em função do lucro, transformando tudo em mercadoria – até a religião, o natal…

Mas para muitas pessoas religiosas parece não haver contradição entre Jesus e papai Noel ou entre o reinado de Deus (lógica da fraternidade) e o mercado (lógica do lucro). Por isso não se escandalizam ou nem se sentem incomodadas com o fato de a imensa maioria da população brasileira se declarar cristã (católica ou protestante) e o Brasil ser o país com a 2ª maior concentração de renda do mundo: 1% mais rico concentra 29% da renda total. Já quando se trata do Índice de Desenvolvimento Humano, o Brasil ocupa a 79ª posição no ranking mundial. Não percebem que isso é fruto de uma sociedade organizada em função do lucro e não em função da fraternidade e que o verdadeiro senhor dessa sociedade é o Mercado e não Jesus Cristo.

Celebrar o natal de Jesus Cristo é ir na contramão dessa sociedade de mercado que transforma tudo em mercadoria, que identifica felicidade com consumo e que faz do lucro o valor e o objetivo supremos da vida. É voltar às galileias/periferias e assumir a causa dos malditos/amaldiçoados desse mundo. É cultivar uma cultura da solidariedade. É movimentar a sociedade em função da fraternidade. É defender os direitos humanos. É fortalecer os movimentos populares nas lutas por direitos e justiça social.

Numa sociedade que marginaliza e exclui tanta gente é preciso voltar às periferias e fazer ecoar de novo (com a própria vida!) a Boa Notícia que vem do Céu: “Nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor”!

 

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

O ESPÍRITO E JESUS DE NAZARÉ 03


Eduardo Hoornaert


 

Num primeiro trabalho de uma série que publico sob o título ‘o espírito de Jesus’, refletimos sobre o fato que não nos é fácil recuperar esse espírito, pois somos herdeiros e herdeiras de uma longa tradição que nem sempre correspondeu (nem corresponde) ao que animava Jesus de Nazaré. Num segundo texto consideramos mais positivamente a ideia que o próprio Jesus tinha de suma missão. Nesta terceira proposta de reflexão, proponho que nos façamos a seguinte pergunta: a leitura dos evangelhos conduz, por si só e automaticamente, à compreensão do espírito de Jesus?

Essa pergunta não é de ontem. Nos últimos dois séculos se empreenderam sucessivos esforços no sentido de se chegar à maior compreensão do que Jesus disse e/ou do que se disse ou escreveu a respeito de seus ditos e feitos, por meio da leitura dos evangelhos. 

Nessa ‘busca de Jesus’ se percorreram diversas etapas, que apresento aqui sumariamente:

1. Em 1862, fazem cerca de 170 anos, o escritor francês Ernest Renan lançou o tema ‘Jesus histórico’. Com isso se inaugurou a leitura histórico-crítica dos evangelhos, que rendeu trabalhos de grande valor, ao longo de todos esses anos. Não dá para citar aqui os estudos publicados nem as iniciativas empreendidas. Só realço o surgimento, em 1985, nos Estados Unidos, de um ‘Jesus Seminar’, fundado por iniciativa de Robert Funk, que consiste em uma reunião ‘virtual’ de especialistas (chegou a reunir 200 ‘fellows’), a emitir valorizações fundamentadas acerca da autenticidade histórica de fatos e ditos atribuídos a Jesus nos evangelhos.

2. O método histórico-crítico trouxe consigo uma maior atenção ao modo específico em que os evangelistas escrevem. Percebeu-se que os evangelhos são, basicamente, narrativos. O ‘narrative approach’ rendeu igualmente trabalhos valiosos e fez com que os exegetas começassem a mostrar interesse na filosofia linguística.

Eu mesmo publiquei, cinco anos atrás, um ensaio, intitulado ‘Em busca de Jesus de Nazaré: uma análise literária’ (Paulus, São Paulo, 2016), em que constato que os primeiros escritores cristãos (entre nos anos 50 e 70) lançam olhares diversificados sobre a figura de Jesus. Enquanto Paulo (inícios dos anos 50) vê em Jesus ‘o Ungido de Deus’, o escritor anônimo da Carta aos Hebreus (entre 65 e 70) nele enxerga ‘o Sacerdote segundo Melquisedec’. E para Marcos (no início dos anos 70), Jesus é um profeta na linha de Elias. Na introdução de meu livro, Marcelo Barros observou, acertadamente: ‘quem conta um conto, aumenta um ponto’. Realmente, quem conta uma história costuma ‘aumentar um ponto’.

3. A questão é: por que os evangelistas ‘aumentam um ponto’? Para tornar suas histórias mais atraentes e desse modo captar melhor a atenção de seus ouvintes? Para fomentar a admiração por Jesus (que mais tarde vira veneração e até adoração)? O evangelista Marcos deixa entender que não é só isso. Depois de relatar dois sucessivos supermilagres de multiplicação de pães por Jesus (capazes de atrair poderosamente a atenção sobre sua figura), ele põe na boca de Jesus uma pergunta intrigante: Vocês ainda não entendem? (Mc 8, 20-21).

Entender o quê? Essa pergunta nos leva a prestar atenção ao caráter específico da linguagem evangélica, ou seja, faz com que sejamos levados a praticar uma análise estrutural do tipo de discurso que encontramos nos evangelhos, mesmo se isso nos parece inusitado. Se, nos evangelhos, muitas histórias sobre Jesus não passam pelo crivo da autenticidade histórica (segundo os critérios do ‘Jesus Seminar’, por exemplo), isso não significa que elas têm de ser rejeitadas ‘ipso facto’. Elas podem, mesmo não correspondendo ao que efetivamente foi dito ou operado por Jesus, expressar algo diferente.

Afinal, o que diferencia uma narrativa evangélica de tantas outras narrativas? Eis o tema deste terceiro texto sobre o espírito de Jesus. Divido minhas considerações em três pontos: (1) O que aprendemos com a prática de leitura dos evangelhos nos primeiros tempos? (2) O que é um texto performativo?; (3) A narrativa da ressurreição de Jesus leva a quê? Antes de iniciar meu arrazoado, faço questão de mencionar que, na a elaboração das presentes considerações, muito me serviram os trabalhos de dois jesuítas franceses: Michel de Certeau (1925-1985) e Joseph Moingt (1925-2020). 

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 O que aprendemos com a prática de leitura dos evangelhos nos primeiros tempos?

No tempo do cristianismo emergente, a população da Palestina comportava 97 % de iletrados ou pouco letrados. A situação em outras regiões do então Império Romano não deve ter sido muito diferente. Nessas condições, como nos informam os historiadores, os evangelhos são lidos em voz alta por um leitor ou uma leitora diante de um grupo, que não fica em silêncio, mas reage por meio de gestos, exclamações e outras manifestações de entusiasmo e concordância, ou então de repulsa (contra os inimigos de Jesus). No capítulo 14 da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, assistimos a uma reunião de cristãos na cidade de Corinto, na Grécia, por volta dos anos 52-53, apenas uns 20 anos após a morte de Jesus. Agitação, gritos, gestos exaltados, falas em ‘línguas’. Como num culto pentecostal. É preciso que Paulo intervenha e diga que ele prefere cinco palavras inteligíveis a dez mil palavras ‘em línguas’ (v. 19). E adverte: todos podem se expressar, um por umpara instruir a todos e encorajar a todos (v. 31).

Com esse mergulho na realidade vivida, já estamos em condições de avançar uma primeira resposta à pergunta que encabeça este parágrafo: o que aprendemos com a prática da leitura do Evangelho nos primeiros tempos do cristianismo? Aprendemos que o texto evangélico desperta, nos ouvintes, reações, por vezes estranhas e exageradas, mas sempre propositivas, diante das situações em que vivem.

Eles são sujeitos a tensões continuadas, como nos informa a história. Há, de um lado, a pressão exercida pelo ‘stablishment’ judaico, que rejeita o movimento de Jesus. O Evangelho de João apresenta essa tensão de modo muito original, quando apresenta uma cena em que Jesus, pendurado na cruz, procura unir a Mãe Judaísmo com o Filho Cristianismo. Ele se dirige à mulher (não é sua mãe), que está em baixo da cruz, e diz: Mulher, eis seu filho. Em seguida, ele diz ao discípulo amado, também presente em baixo da cruz, e diz: Eis sua mãe (Jo 19, 26). O judaísmo, ‘mãe do cristianismo’, frente ao cristianismo, ‘discípulo do judaísmo’. (Eis uma leitura do referido versículo, feita pelo bispo John Shelby Spong, da Igreja Episcopal dos Estados Unidos, em seu livro ‘The fourth Gospel’). O evangelista João (que escreve por volta do ano 100, o que explica muita coisa) insinua, sutilmente, que Jesus se preocupa com a falta de aceitação mútua entre judaísmo e cristianismo. Uma preocupação que prenuncia a falta de diálogo entre judaísmo e cristianismo, que perdura até hoje.

Há, de outro lado, as tensões com o Império Romano, que se protelam por longos três séculos e criam inúmeros sofrimentos. Só menciono de passagem alguns nomes que simbolizam as contínuas perseguições contra cristãos por parte de autoridades romanas: Suetônio (70-140 dC), Tácito (50-120 dC), Marco Aurélio (imperador entre 161 e 180), Septímio Severo (imperador entre 195 e 211), Valeriano (imperador a partir de 257) e Diocleciano (imperador a partir de 284). Já nos evangelhos se podem detectar marcas dessas tensões (capítulo 13 do Evangelho de Marcos, por exemplo). As primeiras gerações cristãs convivem com contínuas tensões.

Exegetas, que tomam em consideração essas condições peculiares da divulgação do cristianismo nos primeiros tempos, optam por abandonar a rígida separação entre textos evangélicos historicamente autênticos e textos ‘suspeitos’, ou seja, abandonam uma abordagem histórico-crítica exclusivista. Por exemplo, o corte drástico entre ‘ditos autênticos’ e ‘ditos redacionais’ de Jesus (os primeiros representariam apenas 18 % dos 1500 ditos a ele atribuídos, segundo o ‘Jesus Seminar’). Quem conhece o modo em que os evangelhos eram lidos nesses primeiros tempos, não admite um corte tão fora da vida vivida. Ele tem em mente que os primeiros tempos do movimento de Jesus eram perpassados por muito sofrimento, muita comoção, muita luta; que os exageros, excessos de linguagem e imaginações desvairadas, em narrativas evangélicas, podem ser entendidos como contrapesos a situações sofridas.

O leitor dos evangelhos, que se mostra sensível à história vivida do cristianismo, deixa para trás o frio positivismo de uma linguagem técnica e dogmática. Procura entender os sentimentos e sofrimentos, as esperanças e aspirações, que caracterizam a emergência do movimento de Jesus no palco da história. Ele percebe o caráter ‘performativo’ dos textos evangélicos.

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O que é um texto ‘performativo’?

Aqui retomo, após quase 50 anos, anotações feitas por mim durante numa semana informal de estudos que tivemos (umas 12 pessoas) com Michel de Certeau, entre os dias 29/7 e 03/8 de 1974, em Recife. Ao me propor redigir este terceiro texto sobre o espírito de Jesus, essa semana tão longínqua me veio à mente. Reli velhos papéis, decifrei rascunhos e percebi que há muito que dizer sobre os evangelhos por meio de uma análise estrutural da linguagem humana. Pois esse foi o tema abordado por Michel de Certeau na mencionada semana de 1974. Para definir o tema de suas falas, ele, francês, usou um adjetivo que não encontrei no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, mas que, mesmo assim, escrevo aqui: ‘performativo’.

Ao aceitar trabalhar conosco, Michel não pretendia dizer coisas novas, mas quis nos introduzir num universo por nós largamente desconhecido: o dos ‘linguistas’. A presença de Michel entre nós fez com que tomássemos consciência que uma das mais importantes novidades filosóficas do século XX consistiu na linguística, na análise de linguagens. O século XX nos trouxe figuras como Propp, Bakhtin, Wittgenstein e, numa geração posterior, Noam Chomsky, Ricoeur, Todorov, Bourdieu, Foucault. Ao constatar o grande sucesso do livro ‘Preconceito linguístico’, de Marcos Bagno (Loyola, São Paulo, 2009), que alcançou no Brasil o número de 200.000 exemplares vendidos, em 52 edições, vejo com alegria que a leitura linguística de textos está penetrando no mundo universitário brasileiro. Bagno explica: ‘um texto é como um peixe. Só existe peixe vivo dentro da água, só existe texto vivo dentro da linguagem. Um texto só fica vivo quando é lido dentro de seu devido ambiente linguístico. Fora desse ambiente, fica morto e sem sentido’. E ainda: ‘não existimos fora da linguagem, não conseguimos nem imaginar o que é não ter linguagem. Para nós a realidade não existe, o que existe é a tradução que dela nos faz a linguagem, implantada em nós de forma tão intrínseca e essencial quanto nossas células e nosso código genético. Ser humano é ser linguagem’.

Michel de Certeau, sabendo que estava diante de ‘agentes pastorais’, foi logo dizendo: a finalidade do evangelho consiste em ‘performar’ o ouvinte. Aparentemente designativo, o texto evangélico é, na realidade, performativo. Tenciona ‘performar’ um bom ouvinte/leitor, uma boa ouvinte/leitora. Eis a finalidade do texto evangélico.

Cabem aqui umas palavras sobre o caráter metafórico da linguagem humana. A metáfora diz uma coisa querendo significar outra. Essa simples verdade da vida diária é capaz de desnortear cientistas versados em linguagem técnica, puramente designativa, inclusive teólogos versados em dogmas e verdades expressas em termos técnicos. De outro lado, a linguagem humana pressupõe um ‘contrato’ silencioso entre destinador (escritor) e destinatário (ouvinte, leitor). Um contrato que diz mais ou menos o seguinte: ‘estou falando ou escrevendo para animar ações, não para emitir verdades ou pronunciar vereditos considerados eternos’. Esse contrato tácito é mais importante que o conteúdo enunciado. Pois se o destinatário não capta o contrato, ele não entende nada do que se diz. No ‘contrato evangélico’, o destinatário tem de entrar no jogo do destinador e aceitar que este pretende modificá-lo. Eis a condição preliminar para se ler o evangelho com fruto.  Ele tem de aceitar que o ‘evangelista’ pretende lhe transmitir a ‘alegria do evangelho (da Boa Nova)’ quando não existe, aparentemente, nenhum motivo de se alegrar. O discurso evangélico elimina progressivamente os modos errados de se entender as palavras e passa a falar de coisas que faltam na realidade. Fala do Reino de Deus, que não existe; fala do amor ao próximo, que não existe; fala do Povo de Deus, que não existe; fala em evangelização, que não existe; fala em sinodalidade, que não existe. A falta de ‘existência’, subjacente ao discurso evangélico, é um apelo para que as coisas venham a existir: o Reino de Deus, o amor ao próximo, a evangelização, a sinodalidade. Não é um discurso negativista, cínico e descrente, é um discurso de esperança. O texto evangélico não constata, mas alimenta a esperança. O performativo vai camuflado no narrativo, ao ponto de ‘mexer’ com o ouvinte, fazer com que ele reaja, saia de seu torpor e adquira o espírito de Jesus.

Depois da invenção da imprensa, no século XVI, não falamos mais em ‘ouvintes’, mas em ‘leitores’. As ‘palavras’ viraram ‘textos’. Textos que transmitem, a seu modo, as palavras de Jesus. Do mesmo modo que as palavras, esses textos se destinam a ‘tocar’ os leitores de hoje. Estão à procura de quem permite ‘ser tocado’, para além da pura narrativa. Pois o texto não é inerte, ele faz uma coisa, ele opera um novo modo de ver as coisas, de entender a vida. A eficácia do texto consiste em mudar a posição do destinatário (ouvinte/leitor) diante da sociedade em que vive. A parábola de Jesus faz com que as palavras não tenham mais o mesmo sentido no início e no final da narrativa. No caso da parábola da semente, os apóstolos precisam da ajuda de Jesus (o destinador da parábola) para entender o que ele quer dizer. E Jesus explica que o sentido da parábola consiste em modificar seu ouvinte/leitor. Depois de entender a parábola, o destinatário não é mais o mesmo. Ficou ‘tocado’, compreende que a narrativa está a serviço de sua conversão. Eis o ponto. Jesus não ordenar (‘faça isso, faça aquilo’), ele conta uma história: ‘um samaritano passou, e viu o homem deitado à beira da estrada, etc.’. Em vez de dar uma ordem, Jesus narra uma história. Eis seu método, o método das parábolas. Ele prepara seu ouvinte/leitor a ver o mundo em seu redor de modo diferente, a ser ‘bom samaritano’.

O evangelho não serve para orientar, mas para clarificar, tornar as coisas claras. O ouvinte (leitor) enxerga ou não enxerga, abre os olhos ou prefere continuar cego. É ele que tem de mudar, por vontade própria. Isso supõe que seja inteligente e se disponha a entrar no jogo de uma linguagem que nem sempre lhe se apresenta clara (é o caso dos apóstolos, que nem sempre entendem o que Jesus lhes diz). Uma linguagem clara, mas sutil e muito exigente. Será que o ouvinte/leitor está disposto a mudar? Disposto a entrar no jogo, a se deixar interpelar por Jesus?

Entendida desse modo, a cristianização não consiste em ocupar espaços físicos (paróquias) ou sociais (hierarquias), mas no desafio de práticas concretas. A mediação não passa pela instituição, mas pela mística, pela inteligência intuitiva de um Deus que age no mundo, e que se comporta como aquele ‘homem forte’ do texto de Marcos, aquele ladrão que penetra num mundo dominado por poderes estranhos a Deus. O ladrão não entra pela porta, ele penetra por brechas entreabertas.

As lições que nos foram dadas por Michel de Certeau em 1974 ainda hoje nos ajudam a captar o espírito de Jesus por meio da leitura dos evangelhos. Agora compreendemos melhor a superexposição de Jesus em determinadas narrativas evangélicas, como na cena em que ele acalma a tempestade por simples palavras, ou quando anda sobre as águas, transforma água em vinho (600 litros!), alimenta quatro mil pessoas com cinco pães (sobram cinco cestos com restos de pão), ordena que o falecido Lázaro saia de seu sepulcro. Entendemos melhor o episódio em que se narra que os pescadores Pedro e André deixam logo o barco, a rede, os empregados e o pai, sem discutir nem pedir maiores informações, ou a cena em que Levi, o cobrador de impostos, se levanta sem dizer nada e segue Jesus sem nada questionar. Entendemos que essas e outras narrativas evangélicas têm um teor performativo, expressam a urgência em se meter na obra da pregação do Reino de Deus, com Jesus.

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A narrativa da ressurreição de Jesus leva a quê?

O mais impressionante discurso evangélico é a narrativa da ressurreição de Jesus. Um discurso gestado lentamente no emergente movimento de Jesus, e que ganhou progressivamente espaço no jovem movimento, ao longo de um transcurso de aproximadamente cem anos, entre os anos 50 e 150 dC.

Tudo começa com o ‘grito da ressurreição’. Ressoa no grupo formado por Paulo em Corinto, nos inícios da década de 50 dC: o Ungido despertou dos mortos! (1Cor 15, 12), provavelmente dentro  do clima que Paulo evoca no capítulo 14 da mesma Carta, que já comentei acima.  Um grito de entusiasmo, que arrasta as pessoas a ações ousadas, em meio a dificuldades, decepções, lutas e incompreensões. Um grito a expressar força, entusiasmo e persistência. A ressurreição eleva o ânimo dos discípulos e lhes confere coragem. Encontramos algo parecido no evangelho de Lucas (12, 49-51), quando Jesus grita: vim derramar fogo sobre a terra, e como desejo que inflame logo tudo!

No Evangelho de Marcos, as coisas se passam de modo mais progressivo que na Carta de Paulo. Para entender isso, há de se observar que o referido Evangelho, em sua versão original (por volta do ano 70, aproximadamente 40 anos após a morte de Jesus), termina com o versículo 8 do capítulo 16, onde se lê que as mulheres têm medo. Acontece, na edição do Novo Testamento que você tem em mãos, se acrescentam 11 versículos, (vv.9 a 20), que foram inseridos por copistas oitenta anos depois de Marcos, por volta do ano 150. Embora esse acréscimo não apareça nos três principais manuscritos que rendem o Novo Testamento inteiriço (o Sinaiticus, o Alexandrinus e o Vaticanus), ele costuma ficar incluído nas edições correntes dos evangelhos.

A diferença entre o texto original (Mc 16, 1-8) e os acréscimos (9-20) é muito instrutivo. Por meio dela, somos capazes de acompanhar a paulatina penetração da narrativa da ressurreição na primeira tradição cristã.

No texto do ano 70 se conta que as mulheres entram no sepulcro onde esperam encontrar o corpo de Jesus e se encontram, estupefatas, com um homem jovem vestido de roupa branca, que lhes diz: avisem aos seus discípulos (de Jesus) e a Pedro: Ele já foi a frente, a Galileia. Lá o verão (vv. 6-7). Mas as mulheres não disseram nada a ninguém. Elas tinham medo (v. 8).

No acréscimo dos anos 150 se contam coisas bem diferentes: Jesus aparece a Maria Madalena, mas ninguém acredita no que ela diz (vv. 9-11). Depois aparece a dois que iam ao campo (v. 12), mas o pessoal não acredita no que estes dizem. Finalmente, Jesus aparece aos Onze reunidos para a refeição, e lhes ordena: Em marcha! Andem pelo mundo inteiro proclamar a Boa Nova a todos os homens! (v. 15). E o texto termina com as palavras: Os Onze saíram, proclamaram a Boa Nova por todo canto e operaram muitos prodígios (v. 20). Palavras entusiasmadas. Não podiam ser mais ‘performativas’!

Há, pois, uma progressão. Enquanto as mulheres têm medo, os Onze partem resolutos para os quatro cantos do mundo divulgando o evangelho. As lideranças cristãs do ano 150, resolutamente, resolvem enfrentar perseguição, marginalização, difamação, até morte violenta em consequência da divulgação da Boa Nova de Jesus. Por volta do ano 100, o evangelista João conta a mesma história de modo diferente. No capítulo 21, Pedro parece querer esquecer a experiência fracassada das andanças com Jesus, e diz: vou pescar. Seus colegas pescadores concordam: Vamos com você (Jo, 21, 3). Mas aí acontece o inesperado: enquanto eles não conseguem pescar nenhum peixe, um passante casual na praia (Jesus) aconselha lançar a rede do outro lado. Aí pegam nada menos que cento e cinquenta e três grossos peixes. A rede só não rasga por milagre (vv. 1-14). Os apóstolos-pescadores se dão conta como são lentos de compreensão. E eles partem para a missão.

Em todos esses episódios, a linguagem é simples, mas ao mesmo tempo sutil e exigente. O texto postula que o ouvinte/leitor se mostre disposto a enfrentar as consequências concretas de seu comprometimento com Jesus. Eis a dificuldade da fé na ressurreição. O ouvinte/leitor tem de entender que aqui não se trata de falar, mas de agir. A ressurreição é uma narrativa em função de uma ação. Não é de caráter designativo, mas ‘operacional’. O ressuscitado está disposto a recomeçar sempre, não abandona o projeto (não volta a ‘pescar’), faz sua parte, cumpre sua missão. A boa compreensão da narrativa da ressurreição mostra que a finalidade do cristianismo consiste em suscitar ações. Que o cristianismo não é uma religião, não é um culto, não é uma instituição. É uma prática, uma mística (no sentido que expliquei em meu texto anterior ‘O espírito de Jesus 01’).

A narrativa da ressurreição apela para uma história humana a serviço da conversão. Narra-se uma história, conta-se uma parábola. O significado? A morte não tem a última palavra, ‘a luta continua’. Como na parábola da semente, a narrativa elimina progressivamente os modos errados de se entender as coisas e ressalta afinal o modo certo. A intenção consiste em ‘performar’ um ‘bom ouvinte/leitor’, uma ‘boa ouvinte/leitora’. Alguém que entende de que se trata, aplica o narrado à vida e muda de postura na vida.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O ESPÍRITO DE JESUS DE NAZARÉ 02.

 



Eduardo Hoornaert

Seria ilusão, de nossa parte, pressupor que captemos com facilidade o espírito de Jesus de Nazaré. Nossas ideias e imagens a seu respeito são marcadas por uma osmose cultural criada ao longo de muitos séculos, na qual todos e todas ficamos envolvidos/as, queiramos ou não.

A dificuldade de se captar o espírito de Jesus vem dos inícios. Já em diversos textos do Novo Testamento se sente como uma saudade ‘levítica’ toma conta das nucleações cristãs, o desejo de se voltar aos sacrifícios, ao templo, ao altar, ao sacerdócio. Que se retire de Jesus o pó da estrada, a mesa dos publicanos, a aldeia dos samaritanos, os sítios da Galileia, o perfume das mulheres, o convívio com pescadores, cobradores de alfândega e impostos, o cheiro dos albergues, a poeira das praças públicas. Que se lhe vista a capa da decência sacerdotal, que se lhe ponha nas mãos o gesto suave e na boca a fala mansa dos religiosos.

Mesmo os evangelistas, que escrevem entre os anos 70 e 100, nem sempre captam a novidade de Jesus com a devida clareza. Marcos, dos anos 70, cria a imagem impactante de Jesus milagreiro a animar e encorajar seus ouvintes (muitos deles imigrantes judeus em Roma); para Mateus, que escreve nos anos 80, Jesus é o prometido Rei de Israel, o herdeiro do trono de Davi, o Emanuel de Isaías, o ponto culminante da antiga Lei de Israel, enquanto Lucas, provavelmente na mesma década, elabora um texto muito bem escrito, em que Jesus aparece como uma pessoa de rara sensibilidade social, principalmente em relação a mulheres e pobres, mas não deixa de ceder a um imaginário popular que vai crescendo, principalmente na descrição do seu nascimento e de sua infância. João, o último evangelista, que escreve por volta do ano 100, se monstra um artista consumado, ao ponto de nos fazer crer que suas cenas correspondem invariavelmente a episódios reais. Há de se ler os Evangelhos, como, aliás, todos os textos que nos vêm de tão longe, com critério, pois são inevitavelmente marcados por tempo e espaço, cultura e limitações ideológicas. Os diversos retratos de Jesus que emergem dos Evangelhos nem sempre correspondem fielmente ao que efetivamente aconteceu na vida de Jesus nem à mensagem que ele quis transmitir. 

É possível chegar ao que ‘efetivamente aconteceu’ com Jesus? Eis uma questão que ocupa teólogos e historiadores desde alguns séculos (como comprovam as pesquisas sobre ‘Jesus histórico’), mas quer me parecer que Moingt envereda por outras trilhas. Se entendo bem o que ele escreve, o jesuíta francês parte do pressuposto que os Evangelhos nos permitem enxergar algo mais importante que os dados da vida de Jesus historicamente verificáveis. Eles nos permitem ter uma noção da ideia que Jesus mesmo se fazia de sua vida pública, eles revelam sua ‘autoconsciência’, sua interpretação do que estava acontecendo consigo e em seu redor, enfim, o espírito que o animava. Isso é importante, pois nos dá a oportunidade de construir uma imagem de Jesus que escape às contingências de uma historia passageira e abra horizontes universais, além dos tempos, além dos espaços. Embora encontremos um Jesus mergulhado numa cultura peculiar, com modos peculiares de falar e agir, podemos neles descobrir algo absoluto, algo que não passa, algo que ultrapassa a fragilidade e incompletude do acontecer histórico, algo que vale para todos os tempos e todos os lugares. Eis o que significa a expressão ‘ espírito de Jesus’.

Resolvi então reunir alguns textos evangélicos que me parecem expressar esse espírito de Jesus de Nazaré, o que ele pensava de si mesmo. Neste texto provisório, reúno esses textos em torno de cinco itens. Sei que há como apresentar de modo diferente, mas - afinal – o presente texto nada mais pretende ser que um convite no sentido de se concentrar nas ideias que o próprio Jesus se fazia de si mesmo e de sua ação.

Imagino Jesus falando quatro frases: ‘ Minha missão consiste em difundir o Reino de Deus na terra’; ‘Combato demônios e trago anjos do céu’; ‘Meu coração transborda de alegria, mas ao mesmo tempo fico inquieto’; ‘Não vim chamar justos, mas reprovados’.

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‘Minha missão consiste em difundir o Reino de Deus na terra’.

‘O Reino de Deus, desde toda a eternidade estabelecido no céu, desce à terra. Eu recebi de Deus a missão de anunciar essa chegada e isso me causa uma intensa alegria’. Desde jovem, Jesus escuta na sinagoga o seguinte salmo:

 

Deus,

Dê ao rei seus julgamentos e sua justiça ao filho do rei.

Ele julga seu povo com justiça

As vítimas com julgamento.

As montanhas trazem a paz ao povo

E as colinas a justiça.

Ele esmaga quem oprime.

Eles tremerão de você

De geração em geração.

Como sol e lua.

Ele desce como a chuva sobre a relva

Como todas essas gotas que irrigam a terra.

O justo floresce durante seus dias

Paz total,

Até o fim das luas...

Todos os reis se inclinam diante dele,

Todos os povos se lhe sujeitam.

Sim, ele liberta o pobre que chama.

O mais humilde,

Aquele que não tem ninguém.

Ele protege a vítima e o pobre

Ele salva o ser dos pobres,

Ele resgata o ser deles da violência e da opressão (Salmo 72, 1-7 e 11-14).

Eis o Reino de Deus, pensa Jesus. E ele resolve difundir esse Reino em sua terra natal. Para tal, acumula energias suficientes de se pôr a caminho e andar incansavelmente pelas aldeias da Galileia. A expressão ‘Reino de Deus’ (ou ‘Reino dos Céus’) vem 53 vezes em Mateus, 19 vezes em Marcos, 45 vezes em Lucas e 5 vezes em João. Ela expressa o espírito que move Jesus.

As narrativas evangélicas mostram que essa autoconsciência de Jesus não cai do céu, mas tem a ver com o que ele vem percebendo ao longo de sua experiência com João Batista. Lemos no versículo 14 do primeiro capítulo do Evangelho de Marcos que Jesus, depois que João (Batista) foi preso, voltou à Galileia proclamar o Alegre Anúncio de Deus. Por que ele não ficou batizando na região do Jordão, no Sul do país, mesmo sem o Mestre Batista? Teria sido lógico. Por que ele abandona os trabalhos de penitência? Só pode ter uma resposta: na opinião de Jesus, seu Mestre Batista não entende o que seja o Reino de Deus. Jesus não briga com João (pois ulteriormente lamentará sua morte), mas interrompe os trabalhos no Jordão e volta à terra natal. Significativamente, ele não volta a Nazaré, sua aldeia natal, mas se estabelece em Cafarnaum, uma cidade pesqueira de intenso trânsito comercial, onde se fala até grego na comercialização de pescado.  A intenção é clara: Jesus pretende alcançar o ‘mundo grande’, aonde a novidade que ele vem trazer terá eventualmente melhor recepção que no interior da Galileia, onde impera o tradicionalismo.

Jesus se apresenta como um rabi. Marcos escreve: Jesus ensinava nas sinagogas (em plural), e era honrado por todos (Mc 1, 15). Ele assume o rabinato sem processo burocrático, e isso vem a postular algumas palavras de explicação.

O rabinato judaico repousa sobre uma sabedoria antiga: ninguém consegue viver uma nova mensagem, principalmente quando essa vem a contrastar com modos tradicionais de se viver, sem seguir um mestre, um ‘sábio’, um profeta, um conhecedor das Escrituras, um orientador, um rabi. Repetidos ‘slogans’ dos primeiríssimos tempos do movimento de Jesus, dos anos 40 a 60 (antes da redação dos Evangelhos), falam da urgência e da importância de se falar, de comunicar-se, e, do outro lado, de se ouvir, de ficar atento. ‘Quem tem ouvidos ouça’; ‘olhos, ouvidos e mentes’, ‘amém, amém, eu digo’. O discípulo precisa, em primeiro lugar, saber seguir e escutar seu mestre, seu rabi. Depois de dar a boa orientação, o mestre devolve seus discípulos à complexidade da vida, não as retém numa instituição. O rabi não é propagandista, não faz proselitismo. Ele pode deixar o trabalho rabínico a qualquer momento. Como convém a um rabi sério, Jesus evita concentrações de muita gente, não gosta de aparecer, permanece fora, em lugares desertos (Mc 1, 45) ou se refugia na montanha (Jo 6, 15). Mas nem sempre consegue. Outro ponto em que Jesus corre o perigo de ser mal entendido: a seu entender, o Reino de Deus não se apresenta com sinais ostensivos: Não se diga: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! Pois o Reino de Deus está no meio de vocês (Lc 17, 20-22). Uma ação em profundidade, com pouca gente, não um movimento de massa. Um trabalho exigente:

 Vocês escutaram: olho por olho, dente por dente.

Mas eu digo: não resistam ao mal.

Alguém lhe bate na face direita? Ofereça a outra.

Alguém lhe tira a túnica? Dê-lhe também o manto.

Alguém o obriga a carregar suas bagagens ao longo de uma légua a pé? Ande duas.

Vocês ouviram: ame seu próximo e odeie seu inimigo.

Mas eu digo: ame seu inimigo, reze por quem o persegue.

Assim você será filho do Pai que está nos céus.

Que mérito há em amar os que nos amam?

É assim que amam os fiscais de impostos.

Ajam como devem agir, assim como seu Pai nos céus age como deve ser (Mt 5, 38-48)

 Uma proposta de caráter ‘mundano’:

 Vejam: cegos veem, coxos andam,

Leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos ressuscitam.

Uma alegre mensagem aos pobres.

Feliz aquele que não me entende mal (Mt 11, 5).

Passando pela praia do Mar de Genesaré, Jesus chama alguns pescadores a acompanhá-lo em suas andanças. E passando pelo entreposto de cobrança de impostos, na estrada que leva a Cafarnaum, ele chama o publicano Levi (Mt 9, 9), como ainda vou comentar adiante.

A ideia do Reino de Deus provoca nas pessoas um novo entendimento do mundo. Não se trata mais de seguir os feitos de Moisés e dos patriarcas, o êxodo, a travessia do mar vermelho, a passagem pelo deserto por quarenta anos. Trata-se de experimentar algo novo: o Reino que vem. 

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 ‘Combato demônios e trago anjos do céu’.

‘Se Deus quer estabelecer seu Reino na terra, é que esta fica sob o domínio do Grande Adversário, que causa prostituições, roubos, assassinatos, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância, insensatez (Mc 7, 21-22), com resultados desastrosos: cegueira, surdez, paralisia, mendicância, pobreza’.

Jesus procura se desvencilhar do mundo de seu Mestre Batista no Jordão, habitado por um turbilhão de demônios, ‘sopros imundos’ e ‘impuros’. Ele enxerga Michael, Gabriel, Rafael, os protetores da vida. Enxerga, com Isaías, serafins em torno do trono de Deus, vê anjos guardiões da vida, condutores de astros e homens, protetores dos filhos de Deus. O batismo de João está superado, pois fica baseado na premissa de uma interminável luta entre o bem e o mal, entre a virtude e a maldade, entre os anjos e os demônios. A nova premissa consiste na conversão de demônios em anjos, da maldade em bondade.

Isso já se lê nos primeiros versículos do Evangelho de Marcos: impelido pelo Sopro para o deserto, (Jesus) esteve quarenta dias sendo tentado por Satanás: vivia entre as feras, mas os anjos o serviam (Mc 1, 12-13). O deserto é ambivalente: é povoado por demônios (Mt 12, 43), fica isolado de Deus (Lc 8, 29), mas, ao mesmo tempo, é frequentado por anjos (Mc 1, 13). A desolada solidão do deserto deprime, mas ao mesmo tempo contém esperanças de vida. ‘O deserto é fértil’ (Helder Camara). Seguindo o exemplo dos hebreus que ficaram quarenta anos no deserto, unicamente armados com a confiança em Deus, Jesus passa pelo deserto para afastar ilusões e alimentar esperanças. É no deserto que Jesus percebe que o Reino de Deus está se aproximando, algo que aqueles que vivem em torno do Templo de Jerusalém mal percebem. O deserto diz, a cada instante: Mudem de vida, o Reino de Deus está próximo (Mt 3, 1).

Voltando do deserto como vencedor, Jesus se torna exorcista. Ele cura expulsando demônios. Na mentalidade da época, plantas, animais, pessoas, tudo evoca anjos ou demônios. Os anjos da saúde e do bem-estar, os demônios da dor e da infelicidade. Essas duas poderosas realidades, além do raciocínio humano, não se atingem por argumentos ou raciocínios, mas sim por autoridade moral, força de oração e de jejum. A doença revela o poder dos demônios, a saúde demonstra o poder do bem.

O poder de Jesus revela-se pela primeira vez na sinagoga de Cafarnaum. Ao avistar Jesus, num dia de sábado, um homem possuído de um espírito impuro, que costuma ficar sentado na entrada daquela sinagoga, grita: Que queres de nós, Jesus nazareno? Veio para arruinar-nos? Sei quem é você: o santo de Deus. Jesus responde: Cale-se e saia dele. E o demônio sai. A reação do povo é imediata: Até mesmo aos espíritos impuros dá ordens, e eles lhe obedecem! (Mc 1, 23-28). Eis o primeiro exorcismo.

A partir desse momento, Jesus não consegue mais fugir do assédio popular. Assim surge, nos evangelhos (que pertencem à segunda geração do movimento de Jesus, pois são dos anos 70-100), a imagem de um Jesus exorcista, em contínua luta contra um Opositor que se revela de muitos modos, seja numa pessoa com a espinha dorsal curvada (Lc 13, 16), seja em gritos solitários em torno de sepulcros (Mc 5, 5), etc. Percebendo, de longe, a presença do exorcista, o Opositor se mostra agitado, pois enxerga em Jesus um sinal da chegada do Reino. Se eu expulso demônios pelo dedo de Deus, é que o Reino de Deus chegou para vocês (Lc 11, 20). Uma força misteriosa acompanha Jesus por onde anda. Quando uma mulher, que sofre de hemorragia, toca a fímbria de sua veste, ele sente uma força sair de si. ‘Quem tocou minhas roupas? Quem me tocou?’ (Mc 5, 30-31). Essas citações representam apenas uma parte de histórias contadas na roça (na virada do arado), na soleira da casa, na fonte, um pouco por toda parte: e por onde ele entrou nos povoados, nas cidades ou nos campos, colocaram os doentes nas praças rogando que lhes permitisse ao menos tocar a fímbria de sua veste. E todos os que o tocavam eram curados (Mc 6, 56). Jesus milagreiro, vencedor do poder de Satanás!

Um dos textos mais significativos acerca do poder exorcista de Jesus vem no capítulo 5 do Evangelho de Marcos, no episódio de Gerasa, onde Jesus cura um possesso por sopro impuro. O geraseno restabelecido é o protótipo do devoto cristão: agradecido e emocionalmente ligado a seu benfeitor, ao ponto de querer acompanhá-lo (Mc 5, 18). Mas ele não o permitiu e lhe disse: ‘Vá para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor Deus em sua misericórdia’ (Mc 5, 19). O rapaz, vestido, calmo, curado, é restituído ao convívio da aldeia, onde espalha a fama de Jesus.

Todos esses exemplos demonstram que, na mentalidade da época em Palestina, curar doentes e expulsar demônios constituem, afinal, a mesma coisa (Mc 1, 34). Constituem, igualmente, sinais da chegada do Reino na terra. A resposta também é sempre a mesma: gratidão e devoção. As pessoas, que se aglomeram em torno de Jesus, já anunciam as massas de devotos dos séculos subsequentes: E de novo a multidão se apinhou, de tal modo que eles não podiam se alimentar (Mc 3, 20). Quando os letrados dizem que Jesus está possuído por Beelzebu, é pelo príncipe dos demônios que ele expulsa demônios, ele responde: Como pode Satanás expulsar Satanás? (Mc 3, 22-23). Satanás provoca doença e sofrimento, Jesus opera saúde e bem-estar. 

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‘Meu coração transborda de alegria, mas ao mesmo tempo fico inquieto’.

 O primeiro milagre praticado por Jesus, no segundo capítulo do Evangelho de Marcos, que mencionei acima, já vai impregnado de uma inconfundível alegria: o Reino de Deus é uma alegria perpétua, uma cura contínua, uma festa de cada momento. Jesus irradia uma contagiosa alegria.

Ele mesmo não interpreta seus numerosos gestos de cura e ajuda como o povo os entende. O que, para o povo, é ‘milagre’, expressão de algum poder mágico, para Jesus é sinal claro da irrupção do Reino de Deus na terra. Daí sua alegria. Como sabe que o povo costuma interpretar mal suas curas, ele declara, em Lc 7, 23: feliz quem me compreende. ‘Feliz quem compreende que aqui se trata da irrupção do Reino de Deus na terra, que se manifesta nos seguintes sinais:

Os cegos recobrem a visão

Os coxos andam

Os leprosos são purificados

Os surdos ouvem

Os mortos ressuscitam

Os pobres recebem a Alegre Notícia (o evangelho) (Lc 7, 22).

Uma verdade escondida a sábios e entendidos. Obrigado, Pai, Senhor do céu e da terra. Tu escondes essas coisas para sábios e entendidos, só as desvelas a crianças (Lc 10, 21).

Nos primeiros 24 versículos do capítulo 10 do Evangelho de Lucas se conta que Jesus manda 72 discípulos, de dois em dois, para aldeias da Galileia, a fim de socorrer as pessoas, cuidar dos doentes e submeter os demônios. Quando esses discípulos voltam entusiasmados da missão, dizendo que mesmo os demônios se submetem a nós, Jesus exulta: Eu vi o Adversário cair do céu que nem um relâmpago (vv.17-21). Marcos relata o episódio com outras palavras: e expulsavam muitos demônios, e curavam muitos doentes, ungindo-os com óleo (Mc 6, 13).

Jesus investe muita energia na formação de seus apóstolos. Para ele, são os doze patriarcas de um novo Israel para ficarem perto dele, serem enviados em seu nome e ter autoridade para expulsar os demônios. ‘Eu preparo para vocês um Reino como meu Pai preparou um para mim: vocês comerão e beberão na minha mesa no meu Reino, ficarão no trono e reinarão sobre as doze tribos de Israel’ (Mc 3, 14-15).  

Ao mesmo tempo, Jesus manifesta inquietação e impaciência. Ele constata que sua Alegre Mensagem, seu Evangelho, não passa com facilidade ao pessoal das sinagogas. Numa sucessão de seis metáforas, o Evangelho de Lucas, 12, 49-59 descreve essa inquietação: o fogo ainda não pegou, o novo batismo ainda não aconteceu, a desunião no seio da família ainda não se instalou. Eu vim derramar fogo sobre a terra e gostaria tanto que pegasse logo. Tenho de ser batizado num (novo) batismo e me atormento, pois não vejo a hora disso acontecer. Vocês pensam que vim trazer a paz sobre a terra? Nada disso. Eu trago a desunião. Doravante, se cinco pessoas moram numa casa, elas estarão divididas, três contra duas ou duas contra três. Pai contra filho e filho contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra. Jesus gostaria que essas ‘desarrumações’ aconteçam logo, desde agora (v. 52). E reclama: ‘os camponeses sabem que as nuvens no Oeste anunciam chuva e o vento do Sul anuncia calor, mas vocês não sabem interpretar os sinais do tempo’.  Vocês já tiveram oportunidade para perceber a que eu vim, mas não usam a cabeça (v. 57). Vocês não se decidem, não descobrem o que é certo, não pensam pela própria cabeça (em grego ‘krinein’). Jesus constata, com tristeza, que os fiéis das sinagogas se comportam como aqueles dois homens que vão ao juiz resolver uma questão de dívida (vv. 58 e 59), em vez de resolver a questão entre si, em vez de tomar a iniciativa e pensar pela própria cabeça.

Toda a narrativa de Lucas está impregnada da ânsia de Jesus em difundir, o mais rápido possível, o Reino de Deus na terra. Vim para isso, e queria tanto ver que ele se espalhe (Lc 12, 49). Para ele, os 72 discípulos que andam pelas aldeias são apenas as primícias de gerações a derramar fogo sobre a terra (Lc 12, 49).

Embora o texto de Marcos seja predominantemente ‘milagreiro’ e represente o entendimento de muita gente que comenta ações praticadas por Jesus, ele deixa transparecer que Jesus se incomoda com a empolgação que está causando.  A partir do capítulo 8, o evangelista apresenta um Jesus que parece querer fugir das multidões em seu entorno, mas não o consegue. Atravessa o Lago de Genesaré, vai para longe da Galileia, para lugares desconhecidos como Gerasa (Mc 5, 1) e Dalmanuta (8, 10), mesmo para a longínqua Cesareia de Filipe (8, 27). Sem muito sucesso: mesmo do outro lado do lago de Genesaré, em Betsaida, ou no território de Tiro, o pessoal o reconhece e persegue (Mc 7, 24). Seus próprios apóstolos lhe dedicam uma devoção extremada. Pedro lhe diz: Tu és o Ungido (Mc 8, 29), não quer ouvir falar de sofrimento a seu respeito. Jesus retruca impetuosamente: Afasta-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens (Mc 8, 33).

Há de se reconhecer que, para os apóstolos, andar com Jesus não é coisa fácil. Eles lidam com uma pessoa inquieta, que não vê a hora chegar para que apareçam pessoas capazes de entender a novidade que ele vem trazer. Uma pessoa que repete sempre: é tempo de agir, de tomar iniciativas, não de seguir cegamente o líder: ‘eu não sou um oráculo, minhas palavras não são decisivas, não obrigo ninguém a me seguir. O que quero é que se bote fogo nesse mundo, que se mergulhe esse mundo num batismo para valer, que se discutem em família minhas propostas’. Jesus, decididamente, não quer seguidores. Ele quer apóstolos, pessoas que assumam responsabilidades. Mas suas propostas não são fáceis.

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‘Não vim chamar justos, mas reprovados’.

Realmente, as propostas de Jesus não são fáceis. Isso fica claro num episódio contado por três evangelistas (Mc 2, 13-17, Lc 5, 27-32 e Mt 9, 9-13), o que, por sinal, demonstra a importância que a tradição lhe atribuiu. Em minha opinião, trata-se de um dos episódios da vida de Jesus mais difíceis a serem compreendidos.

Cito aqui a versão de Marcos: ‘De novo, ele (Jesus) saiu pela beira-mar. As multidões vinham a ele e ele lhes ensinava. No caminho, ele viu Levi, filho de Alfeu, sentado no entreposto fiscal, onde ele coletava impostos, e lhe disse: ‘siga-me’. Levi se levantou e o seguiu. Ele estava em casa, alongado para a refeição. Ele tinha consigo e com seus discípulos coletores de impostos e gente banida da sociedade, que eram muitos a segui-lo. Os letrados do partido dos fariseus, vendo isso, resmungavam com seus discípulos: ‘o quê? Ele come com a ralé, com coletores de impostos? Jesus ouviu a conversa, e lhes disse: ‘não são os sadios que necessitam de médicos, mas os doentes. Não vim chamar justos, mas reprovados’ (Mc 2, 13-17)Mateus diz o mesmo em outras palavras: agora, tentem compreender: prefiro compaixão a regulamentos. Não vim chamar gente em regra, mas marginalizados (Mt 9, 13).

‘Tentem compreender’. Será que Jesus compactua com pessoas que vivem explorando o povo camponês, que exercem trabalhos de moral duvidosa? Por que não chama fariseus, letrados, sacerdotes, gente honrada, respeitada pelos bem-pensantes, mas prefere pescadores, camponeses e coletores de impostos?  

Não é fácil. Há de se abrir o leque.

- Em primeiro lugar, há de se observar que os termos gregos ‘dikaios’ (gente de bem, gente ‘em regra’, justo) e ‘hamartôlos’ (gente do mal, gente não ‘em regra’) de Mateus 9, 13 são traduções de terminologias aramaicas. Mateus escreve para judeus, com sua mentalidade peculiar. Gente ‘em regra’ contra gente ‘não em regra’, ‘justo’ contra ‘descumpridor da Lei’. A tradução do segundo termo por ‘pecador’ não é muito feliz, pois pode conduzir a uma compreensão errada do texto.

Como compreender? Nos tempos de Jesus, a venerável Lei (em hebraico: Torá) de Moisés se encontra numa situação de deplorável deturpação. Virou um código de 613 preceitos formais, que funcionam como instrumentos repressores nas mãos dos 18 mil sacerdotes que percorrem as aldeias da Palestina para apoiar uma política de cobrança de impostos em cima do povo camponês, ao repetir - por exemplo – que as pessoas que não pagam impostos são ‘ pecadores’ e ‘fora da lei’. Uma verdadeira extorsão. Eles insistem em dizer que ‘ninguém é justo’ (leia: seguidor da Lei) se não pagar três impostos: o do Rei Herodes Antipas, do Templo e daquele que é ocasionalmente cobrado pela guarnição romana sediada em Jerusalém.

Para Jesus, a Torá está agonizando. Não está morta, mas profundamente corrompida por ingerências políticas. Jesus, no fundo, respeita a Lei, ou seja, a Lei de Moisés. Jesus pensa que a ainda pode ser salva. Como? Pela desobediência. É preciso infringir as leis, não para destruí-las, mas para torná-las inoperantes enquanto não sejam reformuladas. Uma postura de desobediência civil, que vai lhe custar a morte. Contudo, a desobediência, que Jesus prega, não é destrutiva, mas pedagógica. A Lei, colocada em quarentena, tem condições de se livrar dos preceitos corruptos e recuperar sua autoridade primordial, a ideia original de Moisés.

É dentro desse enquadramento que precisa ler as frases não vim chamar gente ‘em regra’mas marginalizados, não vim chamar justos, mas reprovados. Como sabe que essa sua postura é de difícil compreensão por parte de seus ouvintes, ele adverte: Tentem compreender: prefiro compaixão a regulamentos (Mt 9, 13).

- Uma segunda observação: a postura de Jesus diante dos rejeitados pela Lei tem a ver com fatos ocorridos em sua vida. Desde criança, a exemplo dos pais, ele ‘sobe a Jerusalém’ a cada ano. Percorre a pé os aproximadamente 120 km. que separam a Galileia da Cidade Santa dos judeus, para participar da festa de Páscoa. Sempre com grande expectativa no coração: Vocês se aproximam do monte de Sião, da cidade de Deus vivo, de Jerusalém celeste, miríades de anjos em festa (Hb 12, 22). No monte Sião está o Templo de Deus, brilha a Luz das nações, está a Casa de Ihwh (Sl 23, 6):

 Eu quero morar na casa de Ihwh

todos os dias de minha vida

Contemplar a beleza de Ihwh

Descobrir sua morada (Sl 29, 4).

Mas, com o correr dos anos, Jesus vai entendendo melhor o que acontece no Templo e isso lhe traz uma grande desilusão: o Templo está sendo profanado por aqueles que deveriam guardar a mensagem de Deus Pai. Não corresponde às expectativas do peregrino Jesus. Certo momento, ele grita: a casa de meu Pai é uma casa de oração e vocês fazem dela um covil de ladrões (Jo 2, 17). Chocado e decepcionado, Jesus percebe que o Templo marginaliza os chamados ‘fora da regra’, ‘fora da lei’, ‘desobedientes’, ‘ralé’, ‘gentinha’, que na realidade formam a imensa maioria do povo, representam os 94 % analfabetas da população da Palestina.

Jesus volta sua atenção para as pessoas que encontra na beira do caminho dos peregrinos a Jerusalém. Vendedores, pedintes, sempre prontos a executar algum serviço em troca de dinheiro. Ele formula um novo programa: felizes os pobres, deles é o Reino de Deus. Irrompe uma nova imagem de Deus. Aparece um Deus que não gosta de ritos e regulamentos, não quer ser adorado de joelhos (um rito da corte persa), se aborrece com o cheiro de carne assada em sacrifícios sagrados, com a fumaça dos turíbulos e as vestimentas pomposas dos sacerdotes, enfim, sente aversão por palavras e gestos rituais.

Como Jesus recomeça em novas bases, ele compreende agora que a chegada do Reino depende da disposição em começar de novo. O caso paradigmático é o de Levi. Lembro que ele é um funcionário do rei Herodes Antipas, que mandou instalar um posto de peagem na estrada que dá acesso a Cafarnaum. Por que ele atende tão prontamente ao apelo de Jesus (Mt 9, 9)? Não penso que seja só um impulso do momento nem uma reação espontânea causada pelo fascínio da figura de Jesus, mas de algo que estava se gestando no subconsciente do funcionário desde bastante tempo: vale a pena gastar meu tempo e minhas energias para exercer um ofício que no fundo carece de base moral? Levi bem sabe que esses impostos são na realidade extorsões. Não é melhor mudar de rumo e andar com esse rabi, que demonstra um espírito tão decidido e destemido a favor do povo? Levi transforma-se de cobrador de impostos em apóstolo. Sua alegria está registrada nos três textos que aqui comento. Lucas escreve: Levi deu em sua casa um grande festim em honra de Jesus (Lc 5, 29).  Para Marcos, esse ‘festim’ teria acontecido na casa de Jesus (Mc 2, 15) enquanto Mateus fala simplesmente que a festa teria acontecido ‘numa casa ‘ (Mt 9, 10).

O caso de Levi (que a lista dos apóstolos menciona invariavelmente sob o nome Mateus) constitui um exemplo de como se processa a chegada do Reino de Deus na concretude de vidas humanas. Trata-se realmente de uma irrupção, uma chamada, uma conversão (em grego: metanoia). Deixar para trás eventuais falhas cometidas. Recomeçar, manter uma alegria permanente, uma esperança a todo custo: as coisas vão melhorar. Colocar-se ao lado de pobres e pequenos (Mt 20, 25-27), não fazer diferença entre circuncisos e pagãos (Rm 10, 12), cultos e bárbaros (Col 1, 3, 11), cidadãos e imigrantes (1Cor 12, 13), homens e mulheres (Gl 3, 28). Curvar-se diante do fraco, dar a mão para que esse se levante, ser ‘bom samaritano’. Eis a chegada do Reino de Deus, a compreensão do espírito de Jesus de Nazaré.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.