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quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

O ESPÍRITO DE JESUS DE NAZARÉ 02.

 



Eduardo Hoornaert

Seria ilusão, de nossa parte, pressupor que captemos com facilidade o espírito de Jesus de Nazaré. Nossas ideias e imagens a seu respeito são marcadas por uma osmose cultural criada ao longo de muitos séculos, na qual todos e todas ficamos envolvidos/as, queiramos ou não.

A dificuldade de se captar o espírito de Jesus vem dos inícios. Já em diversos textos do Novo Testamento se sente como uma saudade ‘levítica’ toma conta das nucleações cristãs, o desejo de se voltar aos sacrifícios, ao templo, ao altar, ao sacerdócio. Que se retire de Jesus o pó da estrada, a mesa dos publicanos, a aldeia dos samaritanos, os sítios da Galileia, o perfume das mulheres, o convívio com pescadores, cobradores de alfândega e impostos, o cheiro dos albergues, a poeira das praças públicas. Que se lhe vista a capa da decência sacerdotal, que se lhe ponha nas mãos o gesto suave e na boca a fala mansa dos religiosos.

Mesmo os evangelistas, que escrevem entre os anos 70 e 100, nem sempre captam a novidade de Jesus com a devida clareza. Marcos, dos anos 70, cria a imagem impactante de Jesus milagreiro a animar e encorajar seus ouvintes (muitos deles imigrantes judeus em Roma); para Mateus, que escreve nos anos 80, Jesus é o prometido Rei de Israel, o herdeiro do trono de Davi, o Emanuel de Isaías, o ponto culminante da antiga Lei de Israel, enquanto Lucas, provavelmente na mesma década, elabora um texto muito bem escrito, em que Jesus aparece como uma pessoa de rara sensibilidade social, principalmente em relação a mulheres e pobres, mas não deixa de ceder a um imaginário popular que vai crescendo, principalmente na descrição do seu nascimento e de sua infância. João, o último evangelista, que escreve por volta do ano 100, se monstra um artista consumado, ao ponto de nos fazer crer que suas cenas correspondem invariavelmente a episódios reais. Há de se ler os Evangelhos, como, aliás, todos os textos que nos vêm de tão longe, com critério, pois são inevitavelmente marcados por tempo e espaço, cultura e limitações ideológicas. Os diversos retratos de Jesus que emergem dos Evangelhos nem sempre correspondem fielmente ao que efetivamente aconteceu na vida de Jesus nem à mensagem que ele quis transmitir. 

É possível chegar ao que ‘efetivamente aconteceu’ com Jesus? Eis uma questão que ocupa teólogos e historiadores desde alguns séculos (como comprovam as pesquisas sobre ‘Jesus histórico’), mas quer me parecer que Moingt envereda por outras trilhas. Se entendo bem o que ele escreve, o jesuíta francês parte do pressuposto que os Evangelhos nos permitem enxergar algo mais importante que os dados da vida de Jesus historicamente verificáveis. Eles nos permitem ter uma noção da ideia que Jesus mesmo se fazia de sua vida pública, eles revelam sua ‘autoconsciência’, sua interpretação do que estava acontecendo consigo e em seu redor, enfim, o espírito que o animava. Isso é importante, pois nos dá a oportunidade de construir uma imagem de Jesus que escape às contingências de uma historia passageira e abra horizontes universais, além dos tempos, além dos espaços. Embora encontremos um Jesus mergulhado numa cultura peculiar, com modos peculiares de falar e agir, podemos neles descobrir algo absoluto, algo que não passa, algo que ultrapassa a fragilidade e incompletude do acontecer histórico, algo que vale para todos os tempos e todos os lugares. Eis o que significa a expressão ‘ espírito de Jesus’.

Resolvi então reunir alguns textos evangélicos que me parecem expressar esse espírito de Jesus de Nazaré, o que ele pensava de si mesmo. Neste texto provisório, reúno esses textos em torno de cinco itens. Sei que há como apresentar de modo diferente, mas - afinal – o presente texto nada mais pretende ser que um convite no sentido de se concentrar nas ideias que o próprio Jesus se fazia de si mesmo e de sua ação.

Imagino Jesus falando quatro frases: ‘ Minha missão consiste em difundir o Reino de Deus na terra’; ‘Combato demônios e trago anjos do céu’; ‘Meu coração transborda de alegria, mas ao mesmo tempo fico inquieto’; ‘Não vim chamar justos, mas reprovados’.

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‘Minha missão consiste em difundir o Reino de Deus na terra’.

‘O Reino de Deus, desde toda a eternidade estabelecido no céu, desce à terra. Eu recebi de Deus a missão de anunciar essa chegada e isso me causa uma intensa alegria’. Desde jovem, Jesus escuta na sinagoga o seguinte salmo:

 

Deus,

Dê ao rei seus julgamentos e sua justiça ao filho do rei.

Ele julga seu povo com justiça

As vítimas com julgamento.

As montanhas trazem a paz ao povo

E as colinas a justiça.

Ele esmaga quem oprime.

Eles tremerão de você

De geração em geração.

Como sol e lua.

Ele desce como a chuva sobre a relva

Como todas essas gotas que irrigam a terra.

O justo floresce durante seus dias

Paz total,

Até o fim das luas...

Todos os reis se inclinam diante dele,

Todos os povos se lhe sujeitam.

Sim, ele liberta o pobre que chama.

O mais humilde,

Aquele que não tem ninguém.

Ele protege a vítima e o pobre

Ele salva o ser dos pobres,

Ele resgata o ser deles da violência e da opressão (Salmo 72, 1-7 e 11-14).

Eis o Reino de Deus, pensa Jesus. E ele resolve difundir esse Reino em sua terra natal. Para tal, acumula energias suficientes de se pôr a caminho e andar incansavelmente pelas aldeias da Galileia. A expressão ‘Reino de Deus’ (ou ‘Reino dos Céus’) vem 53 vezes em Mateus, 19 vezes em Marcos, 45 vezes em Lucas e 5 vezes em João. Ela expressa o espírito que move Jesus.

As narrativas evangélicas mostram que essa autoconsciência de Jesus não cai do céu, mas tem a ver com o que ele vem percebendo ao longo de sua experiência com João Batista. Lemos no versículo 14 do primeiro capítulo do Evangelho de Marcos que Jesus, depois que João (Batista) foi preso, voltou à Galileia proclamar o Alegre Anúncio de Deus. Por que ele não ficou batizando na região do Jordão, no Sul do país, mesmo sem o Mestre Batista? Teria sido lógico. Por que ele abandona os trabalhos de penitência? Só pode ter uma resposta: na opinião de Jesus, seu Mestre Batista não entende o que seja o Reino de Deus. Jesus não briga com João (pois ulteriormente lamentará sua morte), mas interrompe os trabalhos no Jordão e volta à terra natal. Significativamente, ele não volta a Nazaré, sua aldeia natal, mas se estabelece em Cafarnaum, uma cidade pesqueira de intenso trânsito comercial, onde se fala até grego na comercialização de pescado.  A intenção é clara: Jesus pretende alcançar o ‘mundo grande’, aonde a novidade que ele vem trazer terá eventualmente melhor recepção que no interior da Galileia, onde impera o tradicionalismo.

Jesus se apresenta como um rabi. Marcos escreve: Jesus ensinava nas sinagogas (em plural), e era honrado por todos (Mc 1, 15). Ele assume o rabinato sem processo burocrático, e isso vem a postular algumas palavras de explicação.

O rabinato judaico repousa sobre uma sabedoria antiga: ninguém consegue viver uma nova mensagem, principalmente quando essa vem a contrastar com modos tradicionais de se viver, sem seguir um mestre, um ‘sábio’, um profeta, um conhecedor das Escrituras, um orientador, um rabi. Repetidos ‘slogans’ dos primeiríssimos tempos do movimento de Jesus, dos anos 40 a 60 (antes da redação dos Evangelhos), falam da urgência e da importância de se falar, de comunicar-se, e, do outro lado, de se ouvir, de ficar atento. ‘Quem tem ouvidos ouça’; ‘olhos, ouvidos e mentes’, ‘amém, amém, eu digo’. O discípulo precisa, em primeiro lugar, saber seguir e escutar seu mestre, seu rabi. Depois de dar a boa orientação, o mestre devolve seus discípulos à complexidade da vida, não as retém numa instituição. O rabi não é propagandista, não faz proselitismo. Ele pode deixar o trabalho rabínico a qualquer momento. Como convém a um rabi sério, Jesus evita concentrações de muita gente, não gosta de aparecer, permanece fora, em lugares desertos (Mc 1, 45) ou se refugia na montanha (Jo 6, 15). Mas nem sempre consegue. Outro ponto em que Jesus corre o perigo de ser mal entendido: a seu entender, o Reino de Deus não se apresenta com sinais ostensivos: Não se diga: Ei-lo aqui! Ei-lo ali! Pois o Reino de Deus está no meio de vocês (Lc 17, 20-22). Uma ação em profundidade, com pouca gente, não um movimento de massa. Um trabalho exigente:

 Vocês escutaram: olho por olho, dente por dente.

Mas eu digo: não resistam ao mal.

Alguém lhe bate na face direita? Ofereça a outra.

Alguém lhe tira a túnica? Dê-lhe também o manto.

Alguém o obriga a carregar suas bagagens ao longo de uma légua a pé? Ande duas.

Vocês ouviram: ame seu próximo e odeie seu inimigo.

Mas eu digo: ame seu inimigo, reze por quem o persegue.

Assim você será filho do Pai que está nos céus.

Que mérito há em amar os que nos amam?

É assim que amam os fiscais de impostos.

Ajam como devem agir, assim como seu Pai nos céus age como deve ser (Mt 5, 38-48)

 Uma proposta de caráter ‘mundano’:

 Vejam: cegos veem, coxos andam,

Leprosos são purificados, surdos ouvem, mortos ressuscitam.

Uma alegre mensagem aos pobres.

Feliz aquele que não me entende mal (Mt 11, 5).

Passando pela praia do Mar de Genesaré, Jesus chama alguns pescadores a acompanhá-lo em suas andanças. E passando pelo entreposto de cobrança de impostos, na estrada que leva a Cafarnaum, ele chama o publicano Levi (Mt 9, 9), como ainda vou comentar adiante.

A ideia do Reino de Deus provoca nas pessoas um novo entendimento do mundo. Não se trata mais de seguir os feitos de Moisés e dos patriarcas, o êxodo, a travessia do mar vermelho, a passagem pelo deserto por quarenta anos. Trata-se de experimentar algo novo: o Reino que vem. 

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 ‘Combato demônios e trago anjos do céu’.

‘Se Deus quer estabelecer seu Reino na terra, é que esta fica sob o domínio do Grande Adversário, que causa prostituições, roubos, assassinatos, adultérios, ambições desmedidas, maldades, malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância, insensatez (Mc 7, 21-22), com resultados desastrosos: cegueira, surdez, paralisia, mendicância, pobreza’.

Jesus procura se desvencilhar do mundo de seu Mestre Batista no Jordão, habitado por um turbilhão de demônios, ‘sopros imundos’ e ‘impuros’. Ele enxerga Michael, Gabriel, Rafael, os protetores da vida. Enxerga, com Isaías, serafins em torno do trono de Deus, vê anjos guardiões da vida, condutores de astros e homens, protetores dos filhos de Deus. O batismo de João está superado, pois fica baseado na premissa de uma interminável luta entre o bem e o mal, entre a virtude e a maldade, entre os anjos e os demônios. A nova premissa consiste na conversão de demônios em anjos, da maldade em bondade.

Isso já se lê nos primeiros versículos do Evangelho de Marcos: impelido pelo Sopro para o deserto, (Jesus) esteve quarenta dias sendo tentado por Satanás: vivia entre as feras, mas os anjos o serviam (Mc 1, 12-13). O deserto é ambivalente: é povoado por demônios (Mt 12, 43), fica isolado de Deus (Lc 8, 29), mas, ao mesmo tempo, é frequentado por anjos (Mc 1, 13). A desolada solidão do deserto deprime, mas ao mesmo tempo contém esperanças de vida. ‘O deserto é fértil’ (Helder Camara). Seguindo o exemplo dos hebreus que ficaram quarenta anos no deserto, unicamente armados com a confiança em Deus, Jesus passa pelo deserto para afastar ilusões e alimentar esperanças. É no deserto que Jesus percebe que o Reino de Deus está se aproximando, algo que aqueles que vivem em torno do Templo de Jerusalém mal percebem. O deserto diz, a cada instante: Mudem de vida, o Reino de Deus está próximo (Mt 3, 1).

Voltando do deserto como vencedor, Jesus se torna exorcista. Ele cura expulsando demônios. Na mentalidade da época, plantas, animais, pessoas, tudo evoca anjos ou demônios. Os anjos da saúde e do bem-estar, os demônios da dor e da infelicidade. Essas duas poderosas realidades, além do raciocínio humano, não se atingem por argumentos ou raciocínios, mas sim por autoridade moral, força de oração e de jejum. A doença revela o poder dos demônios, a saúde demonstra o poder do bem.

O poder de Jesus revela-se pela primeira vez na sinagoga de Cafarnaum. Ao avistar Jesus, num dia de sábado, um homem possuído de um espírito impuro, que costuma ficar sentado na entrada daquela sinagoga, grita: Que queres de nós, Jesus nazareno? Veio para arruinar-nos? Sei quem é você: o santo de Deus. Jesus responde: Cale-se e saia dele. E o demônio sai. A reação do povo é imediata: Até mesmo aos espíritos impuros dá ordens, e eles lhe obedecem! (Mc 1, 23-28). Eis o primeiro exorcismo.

A partir desse momento, Jesus não consegue mais fugir do assédio popular. Assim surge, nos evangelhos (que pertencem à segunda geração do movimento de Jesus, pois são dos anos 70-100), a imagem de um Jesus exorcista, em contínua luta contra um Opositor que se revela de muitos modos, seja numa pessoa com a espinha dorsal curvada (Lc 13, 16), seja em gritos solitários em torno de sepulcros (Mc 5, 5), etc. Percebendo, de longe, a presença do exorcista, o Opositor se mostra agitado, pois enxerga em Jesus um sinal da chegada do Reino. Se eu expulso demônios pelo dedo de Deus, é que o Reino de Deus chegou para vocês (Lc 11, 20). Uma força misteriosa acompanha Jesus por onde anda. Quando uma mulher, que sofre de hemorragia, toca a fímbria de sua veste, ele sente uma força sair de si. ‘Quem tocou minhas roupas? Quem me tocou?’ (Mc 5, 30-31). Essas citações representam apenas uma parte de histórias contadas na roça (na virada do arado), na soleira da casa, na fonte, um pouco por toda parte: e por onde ele entrou nos povoados, nas cidades ou nos campos, colocaram os doentes nas praças rogando que lhes permitisse ao menos tocar a fímbria de sua veste. E todos os que o tocavam eram curados (Mc 6, 56). Jesus milagreiro, vencedor do poder de Satanás!

Um dos textos mais significativos acerca do poder exorcista de Jesus vem no capítulo 5 do Evangelho de Marcos, no episódio de Gerasa, onde Jesus cura um possesso por sopro impuro. O geraseno restabelecido é o protótipo do devoto cristão: agradecido e emocionalmente ligado a seu benfeitor, ao ponto de querer acompanhá-lo (Mc 5, 18). Mas ele não o permitiu e lhe disse: ‘Vá para tua casa e para os teus e anuncia-lhes tudo o que fez por ti o Senhor Deus em sua misericórdia’ (Mc 5, 19). O rapaz, vestido, calmo, curado, é restituído ao convívio da aldeia, onde espalha a fama de Jesus.

Todos esses exemplos demonstram que, na mentalidade da época em Palestina, curar doentes e expulsar demônios constituem, afinal, a mesma coisa (Mc 1, 34). Constituem, igualmente, sinais da chegada do Reino na terra. A resposta também é sempre a mesma: gratidão e devoção. As pessoas, que se aglomeram em torno de Jesus, já anunciam as massas de devotos dos séculos subsequentes: E de novo a multidão se apinhou, de tal modo que eles não podiam se alimentar (Mc 3, 20). Quando os letrados dizem que Jesus está possuído por Beelzebu, é pelo príncipe dos demônios que ele expulsa demônios, ele responde: Como pode Satanás expulsar Satanás? (Mc 3, 22-23). Satanás provoca doença e sofrimento, Jesus opera saúde e bem-estar. 

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‘Meu coração transborda de alegria, mas ao mesmo tempo fico inquieto’.

 O primeiro milagre praticado por Jesus, no segundo capítulo do Evangelho de Marcos, que mencionei acima, já vai impregnado de uma inconfundível alegria: o Reino de Deus é uma alegria perpétua, uma cura contínua, uma festa de cada momento. Jesus irradia uma contagiosa alegria.

Ele mesmo não interpreta seus numerosos gestos de cura e ajuda como o povo os entende. O que, para o povo, é ‘milagre’, expressão de algum poder mágico, para Jesus é sinal claro da irrupção do Reino de Deus na terra. Daí sua alegria. Como sabe que o povo costuma interpretar mal suas curas, ele declara, em Lc 7, 23: feliz quem me compreende. ‘Feliz quem compreende que aqui se trata da irrupção do Reino de Deus na terra, que se manifesta nos seguintes sinais:

Os cegos recobrem a visão

Os coxos andam

Os leprosos são purificados

Os surdos ouvem

Os mortos ressuscitam

Os pobres recebem a Alegre Notícia (o evangelho) (Lc 7, 22).

Uma verdade escondida a sábios e entendidos. Obrigado, Pai, Senhor do céu e da terra. Tu escondes essas coisas para sábios e entendidos, só as desvelas a crianças (Lc 10, 21).

Nos primeiros 24 versículos do capítulo 10 do Evangelho de Lucas se conta que Jesus manda 72 discípulos, de dois em dois, para aldeias da Galileia, a fim de socorrer as pessoas, cuidar dos doentes e submeter os demônios. Quando esses discípulos voltam entusiasmados da missão, dizendo que mesmo os demônios se submetem a nós, Jesus exulta: Eu vi o Adversário cair do céu que nem um relâmpago (vv.17-21). Marcos relata o episódio com outras palavras: e expulsavam muitos demônios, e curavam muitos doentes, ungindo-os com óleo (Mc 6, 13).

Jesus investe muita energia na formação de seus apóstolos. Para ele, são os doze patriarcas de um novo Israel para ficarem perto dele, serem enviados em seu nome e ter autoridade para expulsar os demônios. ‘Eu preparo para vocês um Reino como meu Pai preparou um para mim: vocês comerão e beberão na minha mesa no meu Reino, ficarão no trono e reinarão sobre as doze tribos de Israel’ (Mc 3, 14-15).  

Ao mesmo tempo, Jesus manifesta inquietação e impaciência. Ele constata que sua Alegre Mensagem, seu Evangelho, não passa com facilidade ao pessoal das sinagogas. Numa sucessão de seis metáforas, o Evangelho de Lucas, 12, 49-59 descreve essa inquietação: o fogo ainda não pegou, o novo batismo ainda não aconteceu, a desunião no seio da família ainda não se instalou. Eu vim derramar fogo sobre a terra e gostaria tanto que pegasse logo. Tenho de ser batizado num (novo) batismo e me atormento, pois não vejo a hora disso acontecer. Vocês pensam que vim trazer a paz sobre a terra? Nada disso. Eu trago a desunião. Doravante, se cinco pessoas moram numa casa, elas estarão divididas, três contra duas ou duas contra três. Pai contra filho e filho contra pai, mãe contra filha e filha contra mãe, sogra contra nora e nora contra sogra. Jesus gostaria que essas ‘desarrumações’ aconteçam logo, desde agora (v. 52). E reclama: ‘os camponeses sabem que as nuvens no Oeste anunciam chuva e o vento do Sul anuncia calor, mas vocês não sabem interpretar os sinais do tempo’.  Vocês já tiveram oportunidade para perceber a que eu vim, mas não usam a cabeça (v. 57). Vocês não se decidem, não descobrem o que é certo, não pensam pela própria cabeça (em grego ‘krinein’). Jesus constata, com tristeza, que os fiéis das sinagogas se comportam como aqueles dois homens que vão ao juiz resolver uma questão de dívida (vv. 58 e 59), em vez de resolver a questão entre si, em vez de tomar a iniciativa e pensar pela própria cabeça.

Toda a narrativa de Lucas está impregnada da ânsia de Jesus em difundir, o mais rápido possível, o Reino de Deus na terra. Vim para isso, e queria tanto ver que ele se espalhe (Lc 12, 49). Para ele, os 72 discípulos que andam pelas aldeias são apenas as primícias de gerações a derramar fogo sobre a terra (Lc 12, 49).

Embora o texto de Marcos seja predominantemente ‘milagreiro’ e represente o entendimento de muita gente que comenta ações praticadas por Jesus, ele deixa transparecer que Jesus se incomoda com a empolgação que está causando.  A partir do capítulo 8, o evangelista apresenta um Jesus que parece querer fugir das multidões em seu entorno, mas não o consegue. Atravessa o Lago de Genesaré, vai para longe da Galileia, para lugares desconhecidos como Gerasa (Mc 5, 1) e Dalmanuta (8, 10), mesmo para a longínqua Cesareia de Filipe (8, 27). Sem muito sucesso: mesmo do outro lado do lago de Genesaré, em Betsaida, ou no território de Tiro, o pessoal o reconhece e persegue (Mc 7, 24). Seus próprios apóstolos lhe dedicam uma devoção extremada. Pedro lhe diz: Tu és o Ungido (Mc 8, 29), não quer ouvir falar de sofrimento a seu respeito. Jesus retruca impetuosamente: Afasta-te de mim, Satanás, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens (Mc 8, 33).

Há de se reconhecer que, para os apóstolos, andar com Jesus não é coisa fácil. Eles lidam com uma pessoa inquieta, que não vê a hora chegar para que apareçam pessoas capazes de entender a novidade que ele vem trazer. Uma pessoa que repete sempre: é tempo de agir, de tomar iniciativas, não de seguir cegamente o líder: ‘eu não sou um oráculo, minhas palavras não são decisivas, não obrigo ninguém a me seguir. O que quero é que se bote fogo nesse mundo, que se mergulhe esse mundo num batismo para valer, que se discutem em família minhas propostas’. Jesus, decididamente, não quer seguidores. Ele quer apóstolos, pessoas que assumam responsabilidades. Mas suas propostas não são fáceis.

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‘Não vim chamar justos, mas reprovados’.

Realmente, as propostas de Jesus não são fáceis. Isso fica claro num episódio contado por três evangelistas (Mc 2, 13-17, Lc 5, 27-32 e Mt 9, 9-13), o que, por sinal, demonstra a importância que a tradição lhe atribuiu. Em minha opinião, trata-se de um dos episódios da vida de Jesus mais difíceis a serem compreendidos.

Cito aqui a versão de Marcos: ‘De novo, ele (Jesus) saiu pela beira-mar. As multidões vinham a ele e ele lhes ensinava. No caminho, ele viu Levi, filho de Alfeu, sentado no entreposto fiscal, onde ele coletava impostos, e lhe disse: ‘siga-me’. Levi se levantou e o seguiu. Ele estava em casa, alongado para a refeição. Ele tinha consigo e com seus discípulos coletores de impostos e gente banida da sociedade, que eram muitos a segui-lo. Os letrados do partido dos fariseus, vendo isso, resmungavam com seus discípulos: ‘o quê? Ele come com a ralé, com coletores de impostos? Jesus ouviu a conversa, e lhes disse: ‘não são os sadios que necessitam de médicos, mas os doentes. Não vim chamar justos, mas reprovados’ (Mc 2, 13-17)Mateus diz o mesmo em outras palavras: agora, tentem compreender: prefiro compaixão a regulamentos. Não vim chamar gente em regra, mas marginalizados (Mt 9, 13).

‘Tentem compreender’. Será que Jesus compactua com pessoas que vivem explorando o povo camponês, que exercem trabalhos de moral duvidosa? Por que não chama fariseus, letrados, sacerdotes, gente honrada, respeitada pelos bem-pensantes, mas prefere pescadores, camponeses e coletores de impostos?  

Não é fácil. Há de se abrir o leque.

- Em primeiro lugar, há de se observar que os termos gregos ‘dikaios’ (gente de bem, gente ‘em regra’, justo) e ‘hamartôlos’ (gente do mal, gente não ‘em regra’) de Mateus 9, 13 são traduções de terminologias aramaicas. Mateus escreve para judeus, com sua mentalidade peculiar. Gente ‘em regra’ contra gente ‘não em regra’, ‘justo’ contra ‘descumpridor da Lei’. A tradução do segundo termo por ‘pecador’ não é muito feliz, pois pode conduzir a uma compreensão errada do texto.

Como compreender? Nos tempos de Jesus, a venerável Lei (em hebraico: Torá) de Moisés se encontra numa situação de deplorável deturpação. Virou um código de 613 preceitos formais, que funcionam como instrumentos repressores nas mãos dos 18 mil sacerdotes que percorrem as aldeias da Palestina para apoiar uma política de cobrança de impostos em cima do povo camponês, ao repetir - por exemplo – que as pessoas que não pagam impostos são ‘ pecadores’ e ‘fora da lei’. Uma verdadeira extorsão. Eles insistem em dizer que ‘ninguém é justo’ (leia: seguidor da Lei) se não pagar três impostos: o do Rei Herodes Antipas, do Templo e daquele que é ocasionalmente cobrado pela guarnição romana sediada em Jerusalém.

Para Jesus, a Torá está agonizando. Não está morta, mas profundamente corrompida por ingerências políticas. Jesus, no fundo, respeita a Lei, ou seja, a Lei de Moisés. Jesus pensa que a ainda pode ser salva. Como? Pela desobediência. É preciso infringir as leis, não para destruí-las, mas para torná-las inoperantes enquanto não sejam reformuladas. Uma postura de desobediência civil, que vai lhe custar a morte. Contudo, a desobediência, que Jesus prega, não é destrutiva, mas pedagógica. A Lei, colocada em quarentena, tem condições de se livrar dos preceitos corruptos e recuperar sua autoridade primordial, a ideia original de Moisés.

É dentro desse enquadramento que precisa ler as frases não vim chamar gente ‘em regra’mas marginalizados, não vim chamar justos, mas reprovados. Como sabe que essa sua postura é de difícil compreensão por parte de seus ouvintes, ele adverte: Tentem compreender: prefiro compaixão a regulamentos (Mt 9, 13).

- Uma segunda observação: a postura de Jesus diante dos rejeitados pela Lei tem a ver com fatos ocorridos em sua vida. Desde criança, a exemplo dos pais, ele ‘sobe a Jerusalém’ a cada ano. Percorre a pé os aproximadamente 120 km. que separam a Galileia da Cidade Santa dos judeus, para participar da festa de Páscoa. Sempre com grande expectativa no coração: Vocês se aproximam do monte de Sião, da cidade de Deus vivo, de Jerusalém celeste, miríades de anjos em festa (Hb 12, 22). No monte Sião está o Templo de Deus, brilha a Luz das nações, está a Casa de Ihwh (Sl 23, 6):

 Eu quero morar na casa de Ihwh

todos os dias de minha vida

Contemplar a beleza de Ihwh

Descobrir sua morada (Sl 29, 4).

Mas, com o correr dos anos, Jesus vai entendendo melhor o que acontece no Templo e isso lhe traz uma grande desilusão: o Templo está sendo profanado por aqueles que deveriam guardar a mensagem de Deus Pai. Não corresponde às expectativas do peregrino Jesus. Certo momento, ele grita: a casa de meu Pai é uma casa de oração e vocês fazem dela um covil de ladrões (Jo 2, 17). Chocado e decepcionado, Jesus percebe que o Templo marginaliza os chamados ‘fora da regra’, ‘fora da lei’, ‘desobedientes’, ‘ralé’, ‘gentinha’, que na realidade formam a imensa maioria do povo, representam os 94 % analfabetas da população da Palestina.

Jesus volta sua atenção para as pessoas que encontra na beira do caminho dos peregrinos a Jerusalém. Vendedores, pedintes, sempre prontos a executar algum serviço em troca de dinheiro. Ele formula um novo programa: felizes os pobres, deles é o Reino de Deus. Irrompe uma nova imagem de Deus. Aparece um Deus que não gosta de ritos e regulamentos, não quer ser adorado de joelhos (um rito da corte persa), se aborrece com o cheiro de carne assada em sacrifícios sagrados, com a fumaça dos turíbulos e as vestimentas pomposas dos sacerdotes, enfim, sente aversão por palavras e gestos rituais.

Como Jesus recomeça em novas bases, ele compreende agora que a chegada do Reino depende da disposição em começar de novo. O caso paradigmático é o de Levi. Lembro que ele é um funcionário do rei Herodes Antipas, que mandou instalar um posto de peagem na estrada que dá acesso a Cafarnaum. Por que ele atende tão prontamente ao apelo de Jesus (Mt 9, 9)? Não penso que seja só um impulso do momento nem uma reação espontânea causada pelo fascínio da figura de Jesus, mas de algo que estava se gestando no subconsciente do funcionário desde bastante tempo: vale a pena gastar meu tempo e minhas energias para exercer um ofício que no fundo carece de base moral? Levi bem sabe que esses impostos são na realidade extorsões. Não é melhor mudar de rumo e andar com esse rabi, que demonstra um espírito tão decidido e destemido a favor do povo? Levi transforma-se de cobrador de impostos em apóstolo. Sua alegria está registrada nos três textos que aqui comento. Lucas escreve: Levi deu em sua casa um grande festim em honra de Jesus (Lc 5, 29).  Para Marcos, esse ‘festim’ teria acontecido na casa de Jesus (Mc 2, 15) enquanto Mateus fala simplesmente que a festa teria acontecido ‘numa casa ‘ (Mt 9, 10).

O caso de Levi (que a lista dos apóstolos menciona invariavelmente sob o nome Mateus) constitui um exemplo de como se processa a chegada do Reino de Deus na concretude de vidas humanas. Trata-se realmente de uma irrupção, uma chamada, uma conversão (em grego: metanoia). Deixar para trás eventuais falhas cometidas. Recomeçar, manter uma alegria permanente, uma esperança a todo custo: as coisas vão melhorar. Colocar-se ao lado de pobres e pequenos (Mt 20, 25-27), não fazer diferença entre circuncisos e pagãos (Rm 10, 12), cultos e bárbaros (Col 1, 3, 11), cidadãos e imigrantes (1Cor 12, 13), homens e mulheres (Gl 3, 28). Curvar-se diante do fraco, dar a mão para que esse se levante, ser ‘bom samaritano’. Eis a chegada do Reino de Deus, a compreensão do espírito de Jesus de Nazaré.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

 

 

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O PAPA FRANCISCO E A LUTA PELA PALAVRA 02




Por Eduardo Hoornaert.

A luta do Papa Francisco por uma palavra evangélica merece ser situada diante de um amplo horizonte histórico. Assim se percebe melhor sua importância. Neste segundo texto acerca da ‘luta pela palavra’, regrido ao século II dC, uma época bem próxima à vida de Jesus, para mostrar que ali já se trava um embate em torno da palavra, algo que tem a ver com a atual luta do Papa Francisco. Embora se possa dizer que toda a história do cristianismo, de certo modo, é uma luta pela palavra evangélica e que a tradição de Jesus, nesse particular, atravessa uma história de sucessos e fracassos, fidelidades e traições, equívocos e acertos, temos de reconhecer que alguns episódios são particularmente significativos. São encruzilhadas. Posições assumidas por muito tempo podem ser abandonadas, novos caminhos trilhados. O Papa Francisco está numa dessas encruzilhadas. Enfim, o que acontece nestes dias na cúpula da igreja católica pode mudar o curso da igreja católica em pontos importantes.

A luta pela Palavra nos inícios do movimento de Jesus.

Os atuais debates em torno do Papa Francisco ganham mais nitidez quando consideramos determinados textos das origens do cristianismo. Quando, por exemplo, voltamos a atenção a textos como o Evangelho de João, que já conserva traços de uma luta pela palavra no seio dos grupos de discípulos na Ásia Menor, apenas 70 anos após a morte de Jesus. Escrito por volta do ano 100, esse evangelho trata de um tema que voltará frequentemente na história do cristianismo, um tema que diferencia o cristianismo dos demais movimentos religiosos da época: o Espírito Santo.

Os evangelhos sinóticos (Marcos dos anos 70, Lucas e Mateus dos anos 80) mencionam também o papel do Espírito Santo na vida de Jesus e se seus discípulos, mas com um realce menor que o de João, que é categórico: o movimento de Jesus é um movimento impulsionado pelo Espírito Santo. O texto fundamental, aqui, narra uma conversa entre Jesus e fariseu Nicodemos, que lemos no capítulo 3 do Evangelho de João. Após desnortear seu interlocutor com considerações aparentemente contraditórias (nascer de novo, etc.), Jesus diz ao fariseu perplexo: o Espírito sopra onde quer. Igual ao vento. Aqui há um eco do Evangelho de Marcos, onde se narra, na nos primeiros versículos do primeiro capítulo, que Jesus, ao subir das águas do Jordão, é imediatamente impulsionado pelo Espírito Santo ao deserto, para um embate de quarenta dias com o Adversário. O Espírito sopra onde quer e leva Jesus para onde quer. No Evangelho de João, quando se aproxima o fim de Jesus, o Espírito Santo aparece como o sustento da comunidade em situações angustiantes. Jesus diz: ele será o ‘Defensor’ (o texto usa o termo ‘Paráclito’) dos discípulos, nas investidas do Adversário que se aproximam: Rogarei ao Pai e ele lhes dará um Defensor a permanecer para sempre com vocês (14, 16); Mas o Defensor lhes ensinará tudo e recordará tudo que eu lhes disse (14, 26); O Espírito da verdade dará testemunho de mim. E vocês também darão testemunho (15, 26); É do interesse de vocês que eu vá embora: pois se não for o Defensor virá a vocês (Jo 16, 7);Quando vier o Espírito da Verdade, ele os conduzirá à plena verdade (16, 13). Jesus confia o futuro do movimento ao Espírito Santo, que ensinará tudo, recordará tudo que eu lhes disse. Podemos dizer que o cristianismo é o Espírito Santo em ação.

É a partir de afirmações tão fortes que teólogos do século II, como Ireneu (ca. 130-202) e Tertuliano (160-220), entendem que o Espírito Santo é ‘unius substantiae’ (da mesma substância) do Filho Jesus, ‘igual ao Filho’ (palavras de Tertuliano em seu escrito ‘Contra Práxeas’). Não há nada, na história do cristianismo, que se compare a esse reconhecimento: o Espírito Santo faz parte da divindade. Isso significa que Deus age que nem um vento ‘que sopra onde quer’. Não há como captar o cristianismo em regulamentos doutrinários e morais. Ele escapa sempre, como o vento, e abre um campo de liberdade, criatividade, inovação, ação revolucionária, profetismo. O Defensor quebra paradigmas universalmente em vigor, derruba cânones e regulamentos, abre horizontes de liberdade. Com ele, o profetismo cristão entra na lista dos movimentos revolucionários, a sacudir a inércia, causar perturbação e insegurança nos que procuram canalizar o movimento de Jesus. Tertuliano, no final do século II, expressa essa ideia com palavras lapidares: ‘quem expulsa a profecia, afugenta o Paráclito’ (prophetiam expullit, Paracletum fugavit).

Com essas considerações abrimos o rol de inúmeras tensões e frequentes conflitos que marcam a história do cristianismo. Aqui, no intuito de reforçar a importância da atual luta do Papa Francisco, comento dois episódios marcantes do século II dC: o caso de Marcião e o caso de Montano, ambos considerados em torno do tema da luta pela Palavra do Espírito Santo.

A palavra do Espírito Santo: Marcião.

O caso de Marcião, ocorrido entre 120 e 144 dC, ilustra bem o que acabo de escrever. Conto brevemente a história, mas antes advirto: toda a documentação disponível em torno de Marcião está imbuída de um forte teor de repulsa diante daquele que será, por longos séculos, considerado o ‘pai dos hereges’, o primeiro grande herege. Temos, pois, que ler essa documentação com espírito crítico e nos deixar guiar, por exemplo, por historiadores do quilate de Adolfo von Harnack, que, em sua ‘História dos Dogmas’, em que descreve a formação do dogma cristão nos três primeiros séculos, assume a postura crítica que se espera de um bom historiador.

Por volta de 120 dC, apenas noventa anos após a morte de Jesus, aparece em Roma um cristão vindo do Oriente do Império, chamado Marcião de Sínope, um importante porto marítimo situado no Mar Negro (chamado, na época, de Pontus Euxinos. no norte da atual Turquia). Filho de um rico armador de navios, ele pede licença para ser aceito numa das comunidades cristãs existentes na metrópole e paga, inclusive, uma fiança.
Marcião é uma personalidade marcante. Não gosta do que vê em Roma e manifesta logo sua discordância. Para ele, o Jesus que se venera entre os cristãos romanos não corresponde ao Jesus de Nazaré. Como se pode praticar ritos que são próprios dos sacerdotes romanos, se Jesus não gosta de sacerdotes? Como se pode seguir regulamentos, se Jesus não liga para regulamentos, não se importa com questões de pureza e impureza, não lembra a obrigação de ‘subir’ ao Templo para as festas, não insiste no pagamento de impostos estipulados pelas autoridades, enfim, não segue as prescrições legais? Jesus fala em pão, casa, filhos, sustento da família, idosos, produção agrícola, trabalho de cada dia. Eis o que importa para ele. Alerta diante do perigo do enriquecimento (‘não se pode servir a dois senhores’) e ensina que é preciso estar sempre disposto a servir. Marcião não vê nada disso em Roma.

Os fiéis de Roma se assustam, Não encontrando argumentos a contradizer o imigrante do Ponto. Então, para manter a paz entre seus fiéis, os presbíteros resolvem, em 144 dC, devolver a Marcião o dinheiro que ele doou ao se apresentar e pedir que ele se retire de Roma. Decepcionado, o ‘mestre’ vencido regressa para o Ponto onde, longe dos grandes centros, organiza uma igreja, a igreja marcionita, que subsiste até o século VI. Depois desaparece nas brumas da história.

Essa história deixa um gosto amargo na boca. Os cristãos de Roma não conseguem enxergar a ação do Espírito Santo nas palavras e atitudes do imigrante Marcião. A mensagem de Jesus será tão difícil de ser compreendida?

Há de se considerar aqui que, no decorrer do século II, as comunidades cristãs - na medida em que se tornam mais numerosas, com maior número de participantes e maior visibilidade – acolhem pessoas que já não gostam de ver um Jesus tão radicalmente comprometido com os condenados da terra. A tendência é de se alinhar à política do poder do estado, como se pode verificar nos escritos de Justino (100-160 dC), por exemplo. Aparecem diversas tendências. Alguns dizem que o ensino desses mestres prejudica ‘as pessoas simples’ e semeia divisão. Marcião não é o único a ser afastado nesses anos decisivos, a mesma sorte sendo reservada a mestres como Valentino, Taciano e Montano (cuja história conto em seguida). Aparece o termo ‘herege’, que serve para discriminar os que não seguem a linha predominante. Aparecem pastoralistas que, querendo apagar o fogo, aconselham moderação, lutam pela unificação, mas, mesmo assim, concordam em traçar uma linha divisória entre ‘ortodoxos’ e ‘hereges’. Mestres que são exigentes em termos de pobreza e despojamento perdem audiência. O tema Espírito Santo é controverso. Estamos diante de um momento decisivo na história do cristianismo.

A palavra do Espírito Santo: Montano.

Apenas 14 anos após o afastamento de Marcião, em 158 dC, eclode mais um movimento a agitar as mentes dos líderes cristãos durante décadas.

O palco, agora, é a Frígia (centro-oeste da atual Turquia). Um certo Montano, um sacerdote de Cibele convertido ao cristianismo, cria, em Pepusa, uma localidade rural perto de Filadélfia, na Frígia, um movimento de escravos, libertos e trabalhadores rurais da região. Ela vai acompanhado de duas mulheres profetisas, Priscila e Maximila, que – no linguajar da época – falam em línguas, se extasiam e gritam: aparece o Defensor(Paráclito), que se manifesta com gemidos inefáveis (Rm 8, 26) e grita: Abba, Pai (Gl 4, 6). Cita-se o Dito 44 do Evangelho de Tomé: Quem quer que blasfeme contra o Espírito Santo não será perdoado, seja na terra, seja no céu, um Dito que aparece nos evangelhos sinóticos e em textos como o Diatesseron de Taciano, uma frase frequentemente repetida nos primeiros tempos do movimento de Jesus (Harnack, I, 427). Blasfemar contra o Espírito Santo é se desviar do caminho de Jesus. Se o Defensor se revela agora na Frígia, uma região tão desprezada e discriminada quanto a Galileia de Jesus, é prova que ali se pratica a legítima tradição de Jesus.

Antes de continuar, repito aqui o que escrevi acerca da tradição em torno de Marcião: as fontes literárias disponíveis sobre o montanismo estão igualmente recheadas de preconceitos, exageram nos aspectos negativos, tratam o montanismo como se fosse uma heresia.

Pesquisas sérias apuraram que se trata aqui de um movimento de gente pobre, escrava, liberta, gente do campo, iletrada, que retoma textos do Evangelho de João como os que citei acima (Jo 14, 16; 14, 26; 15, 26; 16, 7) e os aplica a Montano, Priscila, Maximila. O Espírito Santo lhes dita o que têm a dizer. Palavras que alimentem a esperança dos pobres, ditas de modo livre imaginoso. Assim, a profetisa Priscila, com ingênua ousadia, se diz Cristo aparecido em forma de mulher (Harnack, I, 429). Um mundo de cristofanias e teofanias, com um entusiasmo ainda não abafado, bem ao gosto do povo. O nascimento de Jesus num presépio, os anjos e os pastores, a fuga ao Egito, Jesus entre os doutores em Jerusalém. O menino Jesus brinca com São João Batista, ajuda seu pai São José na carpintaria. Histórias que o povo guarda com carinho e transmite de geração em geração. Os profetas passam pelas comunidades, ensinam as coisas de Jesus de um modo que as pessoas entendem facilmente, são bem acolhidos pela população. Os documentos aludem a uma ‘explosão de profetismo’ no final do século II, que vai muito além da Frígia e atinge largos espaços das partes orientais do Império Romano.

Os intelectuais cristãos, os chamados ‘Padres da Igreja’, não reagem todos do mesmo modo diante do montanismo. Se, de um lado, percebem que o caráter convulsivo das manifestações pró e contra Montano demonstra que algo está errado com o sistema que se pretende implantar no movimento cristão, de outro lado ficam intimidados com a força de uma reação por parte dos bispos. Como acontece frequentemente na história da humanidade, os mais organizados vencem a parada. No caso do montanismo, os bispos são a parte mais organizada. Sua vitória impõe conformidade e silêncio. Muitos intelectuais hesitam e, com o tempo, acabam se conformando. Enquanto Ireneu ainda demonstra simpatia pelo montanismo, Tertuliano é bem mais reticente. Em princípio, ele simpatiza com os montanistas e, com sua pena afiada, escreve a frase lapidar que talvez melhor descreve o valor perene de movimentos como o montanismo e o profetismo em geral: ‘Ubi tres, ibi ecclesia, licet laici: onde se reúnem três, há igreja, mesmo se são leigos’ (Exortação à Castidade). Mas, paradoxalmente, Tertuliano aceita determinados princípios diametralmente opostos à ideia leiga. Ele aceita a ‘regra apostólica’, a ‘sucessão apostólica’, a ‘reserva exclusiva’, além de concordar com a ideia que o tempo da revelação do Espirito Santo teria expirado com a morte do último apóstolo. Efim, ele acaba pendendo do lado do ‘apostólico’. Segundo von Harnack, essa contradição em Tertuliano se deve ‘a uma convicção não cristã, mas romana, segundo a qual toda religião postula leis firmes e ordenações estáveis’ (Harnack I, 434).

Por volta de 177, o montanismo alcança Roma, onde suscita controvérsias. Ali aparece um certo Praxeas, ‘confessor’ proveniente da Frígia, que vem predispor o bispo local (ainda não se fala em papa) contra o ‘Paráclito’. A repressão é rápida. Quatro bispos romanos sucessivos se pronunciam contra o ‘Paráclito’ (Harnack I, 742) e são logo acompanhados por bispos da Ásia, que cerram fileiras contra Montano. Por volta do ano 200 dC se percebe um recuo dos profetas e um avanço dos bispos. Os primeiros Sínodos episcopais da história do cristianismo são dirigidos contra o montanismo. O tom dos textos conservados é ríspido e severo, tende a desmoralizar os profetas, que só estariam dizendo bobagem, coisas sem sentido, confundindo os fiéis, espalhando ideias contraditórias, agitando as comunidades, desorientando e fanatizando. Significativa a omissão do termo ‘profeta’ e a insistência no termo ‘apóstolo’. Apóstolos contra profetas, eis a questão. Apóstolos apresentados como herdeiros de uma missão recebida de Jesus, que atravessa a história por meio da ‘sucessão apostólica’, de uma dinastia de bispos. O bispo é a atualidade, o profeta é o passado. Os profetas antigos, como Isaías, Jeremias e outros, terminam sua missão com a morte do último apóstolo. Não há mais profetas. Os apóstolos herdam a missão profética.

Em tudo isso, não se pode esquecer que os textos desses primeiros Sínodos são redigidos ‘no calor da hora’, ou seja, marcados pelas emoções do momento. Emoções claramente anti-montanistas, anti-Paráclito. O historiador não atribui a esse tipo de textos um valor além do que ressalta de uma análise contextualizada. Quando os Sínodos afirmam que só os apóstolos são mediadores da revelação, eles estão em guerra contra um movimento que pretende o contrário. Em outras palavras, o confronto com o montanismo postula uma interpretação a ser realizada dentro do princípio do contexto (Harnack, II, 387). Seja como for, a restrita atribuição da revelação ao universo ‘apostólico’ e a retirada de credenciais ao ‘profético’ acabam convencendo muita gente. A ‘auctoritas scripta’ (predominância da tradição escrita sobre a tradição oral) vence as falas de gente iletrada, as falas de Montano, Priscila, Maximila. Por trás, se desvaloriza a ação do Espírito Santo na história, e isso é muito sério.

Nesse sentido se pode dizer que o Credo de Niceia (do ano 325) segue uma conduta já traçada pelos Sínodos do início do século III. Nele, toda a atenção se concentra na figura de Jesus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ‘Theon ek Theou’ (Deus de Deus). Só no final parece, como se fosse um apêndice, a frase ‘kai eis to Agion Pneuma’ (e também no Espírito Santo). E ponto final (o Credo de Calcedônia, no final do século IV, acrescenta: ‘que falou pelos profetas’). Medo de uma igreja por demais profética? De uma igreja liderada por ‘mestres’ livres, diretamente inspirados pelo Espírito Santo? Da influência do ‘mestre’ Ario de Alexandria, contra quem se dirigem todas as baterias em Niceia? Os bispos vêm acompanhados por sacerdotes intérpretes de textos bíblicos. Não há registro da presença de ‘mestres’ (profetas) no Concílio de Niceia, que consagra a vitória dos sacerdotes ‘apostólicos’ sobre os mestres ‘espirituais’.

A Palavra do Espírito Santo: o Papa Francisco.

Eis o que vale rememorar hoje, no embate entre o papa e alguns cardeais. Vale rememorar que o movimento montanista provoca uma divisão de águas no organograma da igreja cristã. Há um antes e um depois da intervenção episcopal daqueles tempos remotos. Muda a política global da instituição cristã. Como escreve Adolfo von Harnack em sua ‘História dos Dogmas’, o que acontece no final do século II determina o curso ulterior do cristianismo. E, de modo ainda mais pungente: a primeira ortodoxia vira heresia. O corpo episcopal toma oficialmente conta dos destinos da tradição cristã, e os resultados dessa decisão perduram até nossos dias. Bispos contra profetas, palavras de ordem contra o Espírito Santo.

À primeira vista, a história do Papa Francisco tem nada a ver com histórias tão antigas como a de Marcião e Montano. Além disso, o atual Papa não costuma evocar o tema do Espírito Santo. Mas não se pode deixar de observar o seguinte: o atual papa não se projeta propriamente como líder de uma religião peculiar, mas como interlocutor em questões que atingem a sociedade humana em geral. Isso é muito importante. É um sinal do Espírito Santo que sopra onde quer.

Num texto que publiquei em meu blog dois meses atrás sob o mesmo título ‘O Papa Francisco e a Luta pela Palavra’, chamei a atenção ao fato que Francisco fala em ‘não julgar’, ‘dar preferência a processos’, ‘ser igreja em saída’, ‘não insistir sempre nas mesmas questões’, etc.  Embora essas expressões esporádicas não explicitem uma tese, penso que não se pode ignorar que Francisco não sai em defesa de ‘princípios católicos’, como fizeram seus antecessores desde o surgimento da Idade Moderna, não aborda temas como ‘tradição apostólica’, ‘sucessão apostólica’ (bispos sucessores dos apóstolos), ‘reserva apostólica’ (a revelação divina reservada aos apóstolos e seus sucessores), os temas de um embate entre bispos e montanistas no início do século III, largamente integrados na tradição da oficialidade cristã. Ele se move num outro patamar.

Se é para evocar aqui essa antiga contenda entre o ‘profético’ e o ‘apostólico’, como faço nestas páginas, há de se dizer que Francisco está do lado do ‘profético’, do ‘Paráclito’, do Espírito Santo. Suas palavras abandonam lugares comuns, desde muito integrados no discurso da oficialidade cristã e isso causa estranheza em muita gente, enquanto cria distância diante do que dizem cardeais como Müller, Brandmüller e Burke, que dizem as coisas de sempre, fáceis de serem entendidas pela maioria dos católicos. Pois a história ensina que, quando uma mesma narrativa se repete ao longo de séculos por meio dos mesmos gestos, das mesmas palavras, das mesmas imagens e dos mesmos ritos, a mente humana passa a considerá-la normal e até normativa. Assimila essa narrativa e dela se apropria. Estamos tão habituados a ver mitras e estolas, capas e casulas, báculos episcopais e invocações solenes, preces codificadas sempre repetidas, estamos tão acostumados a ver o papa falar do evangelho num dos mais suntuosos cenários da Europa Ocidental, que achamos isso normal. A luta pela palavra evangélica é ingrata e dura. Palavras ‘fáceis’, sempre repetidas, garantem sucesso político. Isso em contraste com o Papa Francisco, que opta por palavras ‘difíceis’. Como as do Espírito Santo.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.