por Maria Clara Lucchetti Bingemer
Há situações na vida em que a dor é tão grande que as palavras serão sempre inúteis para consolá-la ou exorcizá-la. Apenas o silêncio denso e presente pode ser uma atitude compassiva e misericordiosa. Calar-se diante da dor dos outros, da dor de todos e também nossa é a única atitude possível.
Esta é a situação que hoje vive o Brasil, assolado e machucado mortalmente pela pandemia do coronavírus que açoita a torto e a direito, entrando pelos corpos de todas as idades e categorias de pessoas e levando embora vidas que são amadas, queridas e vão deixar um vazio e uma falta imensos no coração de tantos.
Diante de tantos mortos, de tanta tragédia o que se pode fazer? Quantas vezes não fizemos essa pergunta a nós mesmos, enquanto diante de nossos olhos desfilavam os caixões, os prantos, os gritos de dor, os enterros em vala comum enfileirados às dezenas, às centenas. O que fazer? Como ajudar? Como consolar todos estes e estas que choram os mortos dos quais nem puderam despedir-se, que se foram sem um último carinho, uma última presença, um último adeus?
Há mães que choram a perda dos filhos inexplicavelmente perdidos e se foram antes delas, vitimados por um vírus que todos dizem que ataca sobretudo os mais velhos. Mas há filhos órfãos de todas as idades, que choram impotentes a perda de seus maiores, de seus ancestrais: pais, mães, avôs e avós. Não conseguiram protegê-los, tiveram que vê-los desaparecer pela porta da UTI de onde nunca mais saíram. Ou então correram desesperados atrás de um respirador e um leito de terapia intensiva que nunca veio e tiveram que vê-los sufocar nas cadeiras ou no chão das emergências.
O que se pode fazer por essas pessoas que têm o coração em carne viva? Como podemos ajudar a amenizar a dor de todos que hoje vivem num país transformado em um gigantesco cemitério? Como chamar a atenção para essa dor anônima e profunda que afoga o Brasil em lágrimas e indignação muda? Como fazer algo que ressoe e pressione sem violência aqueles que desejamos retirar de sua ausência irresponsável, a fim de que assumam seu lugar no combate a essa pandemia?
A resposta, ou pelo menos um começo dela, talvez possa ser encontrado no livro do profeta Jeremias que, em pleno exílio, proclama o sofrimento do povo. E o simboliza com a dor de uma mãe que não quer ser consolada. “Ouve-se uma voz em Ramá, pranto e amargo choro; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque os seus filhos já não existem".
Raquel – mãe em Israel, mãe dos filhos de Jacó e mãe do povo - recusa o consolo das palavras. Reivindica o direito do gemido e do pranto solitário. Somente ela conhece a dor que a prostra. O melhor a dar-lhe é o silêncio. Silêncio orante, presente, solidário. Inspirado por essa dor sem consolo, o profeta põe diante de seus ouvintes a dor de Raquel, digna e solitária. Como a de tantas e tantos que não puderam enterrar seus mortos na pandemia que vivemos.
Inspirados por essa dor e por essa necessidade imperiosa de um silêncio que conscientize, denuncie e regenere, a Comunidade da Trindade, em Salvador, Bahia, lançou a campanha Silêncio pela dor. Convida a todos, brasileiros ou estrangeiros, a aderir e expor nas redes sociais sua solidariedade a essa dor coletiva e gigante com uma palavra, um gesto, uma imagem, uma frase.
Subir hoje a hashtag #Silênciopelador é o nosso modo de chorar e con-doer-nos com a dor da pátria mãe que vê seus filhos irem embora sem nada poder fazer para salvá-los. E que assiste igualmente outros filhos seus obstaculizando os caminhos que a ciência oferece para que haja menos mortes, menos luto e menos dor em nosso território.
Nosso silêncio pela dor deve preparar o futuro que Deus guardou para o Brasil que hoje geme sob o luto. A dor não será a última palavra. O profeta Jeremias garante: “Assim diz o Senhor: "Contenha o seu choro e as suas lágrimas, pois o seu sofrimento será recompensado", declara o Senhor.
Calemo-nos, então, pela dor. E convidemos outros, tantos quantos pudermos, a fazer o mesmo. Nosso silêncio será mais eloquente do que mil palavras que até agora se mostraram inúteis. Que nosso silêncio ecoe por todo lado, trazendo de volta a solidariedade, a união e a compaixão. #Silênciopelador
A teóloga é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo” (Editora Rocco), entre outros livros.
Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>
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segunda-feira, 20 de julho de 2020
SILÊNCIO PELA DOR
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
O PAPA FRANCISCO E A LUTA PELA PALAVRA 02
Por Eduardo Hoornaert.
A luta do Papa Francisco
por uma palavra evangélica merece ser situada diante de um amplo horizonte
histórico. Assim se percebe melhor sua importância. Neste segundo texto acerca
da ‘luta pela palavra’, regrido ao século II dC, uma época bem próxima à vida
de Jesus, para mostrar que ali já se trava um embate em torno da palavra, algo
que tem a ver com a atual luta do Papa Francisco. Embora se possa dizer que
toda a história do cristianismo, de certo modo, é uma luta pela palavra
evangélica e que a tradição de Jesus, nesse particular, atravessa uma história
de sucessos e fracassos, fidelidades e traições, equívocos e acertos, temos de
reconhecer que alguns episódios são particularmente significativos. São
encruzilhadas. Posições assumidas por muito tempo podem ser abandonadas, novos
caminhos trilhados. O Papa Francisco está numa dessas encruzilhadas. Enfim, o
que acontece nestes dias na cúpula da igreja católica pode mudar o curso da
igreja católica em pontos importantes.
A luta pela Palavra nos
inícios do movimento de Jesus.
Os atuais debates em
torno do Papa Francisco ganham mais nitidez quando consideramos determinados
textos das origens do cristianismo. Quando, por exemplo, voltamos a atenção a
textos como o Evangelho de João, que já conserva traços de uma luta pela
palavra no seio dos grupos de discípulos na Ásia Menor, apenas 70 anos após a
morte de Jesus. Escrito por volta do ano 100, esse evangelho trata de um tema
que voltará frequentemente na história do cristianismo, um tema que diferencia
o cristianismo dos demais movimentos religiosos da época: o Espírito Santo.
Os evangelhos sinóticos
(Marcos dos anos 70, Lucas e Mateus dos anos 80) mencionam também o papel do
Espírito Santo na vida de Jesus e se seus discípulos, mas com um realce menor
que o de João, que é categórico: o movimento de Jesus é um movimento
impulsionado pelo Espírito Santo. O texto fundamental, aqui, narra uma conversa
entre Jesus e fariseu Nicodemos, que lemos no capítulo 3 do Evangelho de João.
Após desnortear seu interlocutor com considerações aparentemente contraditórias
(nascer de novo, etc.), Jesus diz ao fariseu perplexo: o Espírito sopra
onde quer. Igual ao vento. Aqui há um eco do Evangelho de Marcos,
onde se narra, na nos primeiros versículos do primeiro capítulo, que Jesus, ao
subir das águas do Jordão, é imediatamente impulsionado pelo Espírito Santo ao
deserto, para um embate de quarenta dias com o Adversário. O Espírito sopra
onde quer e leva Jesus para onde quer. No Evangelho de João, quando se aproxima
o fim de Jesus, o Espírito Santo aparece como o sustento da comunidade em
situações angustiantes. Jesus diz: ele será o ‘Defensor’ (o texto usa o termo
‘Paráclito’) dos discípulos, nas investidas do Adversário que se
aproximam: Rogarei ao Pai e ele lhes dará um Defensor a permanecer para
sempre com vocês (14, 16); Mas o Defensor lhes ensinará tudo e
recordará tudo que eu lhes disse (14, 26); O Espírito da verdade dará
testemunho de mim. E vocês também darão testemunho (15, 26); É do
interesse de vocês que eu vá embora: pois se não for o Defensor virá a vocês (Jo
16, 7);Quando vier o Espírito da Verdade, ele os conduzirá à plena verdade (16,
13). Jesus confia o futuro do movimento ao Espírito Santo, que ensinará
tudo, recordará tudo que eu lhes disse. Podemos dizer que o cristianismo
é o Espírito Santo em ação.
É a partir de afirmações
tão fortes que teólogos do século II, como Ireneu (ca. 130-202) e Tertuliano
(160-220), entendem que o Espírito Santo é ‘unius substantiae’ (da mesma
substância) do Filho Jesus, ‘igual ao Filho’ (palavras de Tertuliano em seu
escrito ‘Contra Práxeas’). Não há nada, na história do cristianismo, que se
compare a esse reconhecimento: o Espírito Santo faz parte da divindade. Isso
significa que Deus age que nem um vento ‘que sopra onde quer’. Não há como
captar o cristianismo em regulamentos doutrinários e morais. Ele escapa sempre,
como o vento, e abre um campo de liberdade, criatividade, inovação, ação
revolucionária, profetismo. O Defensor quebra paradigmas universalmente em
vigor, derruba cânones e regulamentos, abre horizontes de liberdade. Com ele, o
profetismo cristão entra na lista dos movimentos revolucionários, a sacudir a
inércia, causar perturbação e insegurança nos que procuram canalizar o
movimento de Jesus. Tertuliano, no final do século II, expressa essa ideia com
palavras lapidares: ‘quem expulsa a profecia, afugenta o Paráclito’ (prophetiam
expullit, Paracletum fugavit).
Com essas considerações
abrimos o rol de inúmeras tensões e frequentes conflitos que marcam a história
do cristianismo. Aqui, no intuito de reforçar a importância da atual luta do
Papa Francisco, comento dois episódios marcantes do século II dC: o caso de
Marcião e o caso de Montano, ambos considerados em torno do tema da luta pela
Palavra do Espírito Santo.
A palavra do Espírito
Santo: Marcião.
O caso de Marcião,
ocorrido entre 120 e 144 dC, ilustra bem o que acabo de escrever. Conto
brevemente a história, mas antes advirto: toda a documentação disponível em
torno de Marcião está imbuída de um forte teor de repulsa diante daquele que
será, por longos séculos, considerado o ‘pai dos hereges’, o primeiro grande
herege. Temos, pois, que ler essa documentação com espírito crítico e nos
deixar guiar, por exemplo, por historiadores do quilate de Adolfo von Harnack,
que, em sua ‘História dos Dogmas’, em que descreve a formação do dogma cristão
nos três primeiros séculos, assume a postura crítica que se espera de um bom
historiador.
Por volta de 120 dC,
apenas noventa anos após a morte de Jesus, aparece em Roma um cristão vindo do
Oriente do Império, chamado Marcião de Sínope, um importante porto marítimo
situado no Mar Negro (chamado, na época, de Pontus Euxinos. no norte da atual
Turquia). Filho de um rico armador de navios, ele pede licença para ser aceito
numa das comunidades cristãs existentes na metrópole e paga, inclusive, uma
fiança.
Marcião é uma
personalidade marcante. Não gosta do que vê em Roma e manifesta logo sua
discordância. Para ele, o Jesus que se venera entre os cristãos romanos não
corresponde ao Jesus de Nazaré. Como se pode praticar ritos que são próprios
dos sacerdotes romanos, se Jesus não gosta de sacerdotes? Como se pode seguir
regulamentos, se Jesus não liga para regulamentos, não se importa com questões
de pureza e impureza, não lembra a obrigação de ‘subir’ ao Templo para as
festas, não insiste no pagamento de impostos estipulados pelas autoridades,
enfim, não segue as prescrições legais? Jesus fala em pão, casa, filhos,
sustento da família, idosos, produção agrícola, trabalho de cada dia. Eis o que
importa para ele. Alerta diante do perigo do enriquecimento (‘não se pode
servir a dois senhores’) e ensina que é preciso estar sempre disposto a servir.
Marcião não vê nada disso em Roma.
Os fiéis de Roma se
assustam, Não encontrando argumentos a contradizer o imigrante do Ponto. Então,
para manter a paz entre seus fiéis, os presbíteros resolvem, em 144 dC,
devolver a Marcião o dinheiro que ele doou ao se apresentar e pedir que ele se
retire de Roma. Decepcionado, o ‘mestre’ vencido regressa para o Ponto onde,
longe dos grandes centros, organiza uma igreja, a igreja marcionita, que
subsiste até o século VI. Depois desaparece nas brumas da história.
Essa história deixa um
gosto amargo na boca. Os cristãos de Roma não conseguem enxergar a ação do
Espírito Santo nas palavras e atitudes do imigrante Marcião. A mensagem de
Jesus será tão difícil de ser compreendida?
Há de se considerar aqui
que, no decorrer do século II, as comunidades cristãs - na medida em que se
tornam mais numerosas, com maior número de participantes e maior visibilidade –
acolhem pessoas que já não gostam de ver um Jesus tão radicalmente comprometido
com os condenados da terra. A tendência é de se alinhar à política do poder do
estado, como se pode verificar nos escritos de Justino (100-160 dC), por
exemplo. Aparecem diversas tendências. Alguns dizem que o ensino desses mestres
prejudica ‘as pessoas simples’ e semeia divisão. Marcião não é o único a ser
afastado nesses anos decisivos, a mesma sorte sendo reservada a mestres como
Valentino, Taciano e Montano (cuja história conto em seguida). Aparece o termo
‘herege’, que serve para discriminar os que não seguem a linha predominante.
Aparecem pastoralistas que, querendo apagar o fogo, aconselham moderação, lutam
pela unificação, mas, mesmo assim, concordam em traçar uma linha divisória
entre ‘ortodoxos’ e ‘hereges’. Mestres que são exigentes em termos de pobreza e
despojamento perdem audiência. O tema Espírito Santo é controverso. Estamos
diante de um momento decisivo na história do cristianismo.
A palavra do Espírito
Santo: Montano.
Apenas 14 anos após o
afastamento de Marcião, em 158 dC, eclode mais um movimento a agitar as mentes
dos líderes cristãos durante décadas.
O palco, agora, é a
Frígia (centro-oeste da atual Turquia). Um certo Montano, um sacerdote de
Cibele convertido ao cristianismo, cria, em Pepusa, uma localidade rural perto
de Filadélfia, na Frígia, um movimento de escravos, libertos e trabalhadores
rurais da região. Ela vai acompanhado de duas mulheres profetisas, Priscila e
Maximila, que – no linguajar da época – falam em línguas, se extasiam e
gritam: aparece o Defensor(Paráclito), que se manifesta com
gemidos inefáveis (Rm 8, 26) e grita: Abba, Pai (Gl 4, 6).
Cita-se o Dito 44 do Evangelho de Tomé: Quem quer que blasfeme contra o
Espírito Santo não será perdoado, seja na terra, seja no céu, um Dito que
aparece nos evangelhos sinóticos e em textos como o Diatesseron de Taciano, uma
frase frequentemente repetida nos primeiros tempos do movimento de Jesus
(Harnack, I, 427). Blasfemar contra o Espírito Santo é se desviar do caminho de
Jesus. Se o Defensor se revela agora na Frígia, uma região tão desprezada e
discriminada quanto a Galileia de Jesus, é prova que ali se pratica a legítima
tradição de Jesus.
Antes de continuar,
repito aqui o que escrevi acerca da tradição em torno de Marcião: as fontes
literárias disponíveis sobre o montanismo estão igualmente recheadas de
preconceitos, exageram nos aspectos negativos, tratam o montanismo como se
fosse uma heresia.
Pesquisas sérias apuraram
que se trata aqui de um movimento de gente pobre, escrava, liberta, gente do
campo, iletrada, que retoma textos do Evangelho de João como os que citei acima
(Jo 14, 16; 14, 26; 15, 26; 16, 7) e os aplica a Montano, Priscila, Maximila. O
Espírito Santo lhes dita o que têm a dizer. Palavras que alimentem a esperança
dos pobres, ditas de modo livre imaginoso. Assim, a profetisa Priscila, com
ingênua ousadia, se diz Cristo aparecido em forma de mulher (Harnack,
I, 429). Um mundo de cristofanias e teofanias, com um entusiasmo ainda não
abafado, bem ao gosto do povo. O nascimento de Jesus num presépio, os anjos e
os pastores, a fuga ao Egito, Jesus entre os doutores em Jerusalém. O menino
Jesus brinca com São João Batista, ajuda seu pai São José na carpintaria.
Histórias que o povo guarda com carinho e transmite de geração em geração. Os
profetas passam pelas comunidades, ensinam as coisas de Jesus de um modo que as
pessoas entendem facilmente, são bem acolhidos pela população. Os documentos
aludem a uma ‘explosão de profetismo’ no final do século II, que vai muito além
da Frígia e atinge largos espaços das partes orientais do Império Romano.
Os intelectuais cristãos,
os chamados ‘Padres da Igreja’, não reagem todos do mesmo modo diante do
montanismo. Se, de um lado, percebem que o caráter convulsivo das manifestações
pró e contra Montano demonstra que algo está errado com o sistema que se
pretende implantar no movimento cristão, de outro lado ficam intimidados com a
força de uma reação por parte dos bispos. Como acontece frequentemente na
história da humanidade, os mais organizados vencem a parada. No caso do
montanismo, os bispos são a parte mais organizada. Sua vitória impõe
conformidade e silêncio. Muitos intelectuais hesitam e, com o tempo, acabam se
conformando. Enquanto Ireneu ainda demonstra simpatia pelo montanismo,
Tertuliano é bem mais reticente. Em princípio, ele simpatiza com os montanistas
e, com sua pena afiada, escreve a frase lapidar que talvez melhor descreve o
valor perene de movimentos como o montanismo e o profetismo em geral: ‘Ubi
tres, ibi ecclesia, licet laici: onde se reúnem três, há igreja, mesmo se são
leigos’ (Exortação à Castidade). Mas, paradoxalmente, Tertuliano aceita
determinados princípios diametralmente opostos à ideia leiga. Ele aceita a
‘regra apostólica’, a ‘sucessão apostólica’, a ‘reserva exclusiva’, além de
concordar com a ideia que o tempo da revelação do Espirito Santo teria expirado
com a morte do último apóstolo. Efim, ele acaba pendendo do lado do
‘apostólico’. Segundo von Harnack, essa contradição em Tertuliano se deve ‘a
uma convicção não cristã, mas romana, segundo a qual toda religião postula leis
firmes e ordenações estáveis’ (Harnack I, 434).
Por volta de 177, o
montanismo alcança Roma, onde suscita controvérsias. Ali aparece um certo
Praxeas, ‘confessor’ proveniente da Frígia, que vem predispor o bispo local
(ainda não se fala em papa) contra o ‘Paráclito’. A repressão é rápida. Quatro
bispos romanos sucessivos se pronunciam contra o ‘Paráclito’ (Harnack I, 742) e
são logo acompanhados por bispos da Ásia, que cerram fileiras contra Montano.
Por volta do ano 200 dC se percebe um recuo dos profetas e um avanço dos
bispos. Os primeiros Sínodos episcopais da história do cristianismo são
dirigidos contra o montanismo. O tom dos textos conservados é ríspido e severo,
tende a desmoralizar os profetas, que só estariam dizendo bobagem, coisas sem
sentido, confundindo os fiéis, espalhando ideias contraditórias, agitando as
comunidades, desorientando e fanatizando. Significativa a omissão do termo
‘profeta’ e a insistência no termo ‘apóstolo’. Apóstolos contra profetas, eis a
questão. Apóstolos apresentados como herdeiros de uma missão recebida de Jesus,
que atravessa a história por meio da ‘sucessão apostólica’, de uma dinastia de
bispos. O bispo é a atualidade, o profeta é o passado. Os profetas antigos,
como Isaías, Jeremias e outros, terminam sua missão com a morte do último
apóstolo. Não há mais profetas. Os apóstolos herdam a missão profética.
Em tudo isso, não se pode
esquecer que os textos desses primeiros Sínodos são redigidos ‘no calor da
hora’, ou seja, marcados pelas emoções do momento. Emoções claramente
anti-montanistas, anti-Paráclito. O historiador não atribui a esse tipo de
textos um valor além do que ressalta de uma análise contextualizada. Quando os
Sínodos afirmam que só os apóstolos são mediadores da revelação, eles estão em
guerra contra um movimento que pretende o contrário. Em outras palavras, o
confronto com o montanismo postula uma interpretação a ser realizada dentro do
princípio do contexto (Harnack, II, 387). Seja como for, a restrita atribuição
da revelação ao universo ‘apostólico’ e a retirada de credenciais ao
‘profético’ acabam convencendo muita gente. A ‘auctoritas scripta’
(predominância da tradição escrita sobre a tradição oral) vence as falas de
gente iletrada, as falas de Montano, Priscila, Maximila. Por trás, se
desvaloriza a ação do Espírito Santo na história, e isso é muito sério.
Nesse sentido se pode
dizer que o Credo de Niceia (do ano 325) segue uma conduta já traçada pelos Sínodos
do início do século III. Nele, toda a atenção se concentra na figura de Jesus,
a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ‘Theon ek Theou’ (Deus de Deus). Só no
final parece, como se fosse um apêndice, a frase ‘kai eis to Agion Pneuma’ (e
também no Espírito Santo). E ponto final (o Credo de Calcedônia, no final do
século IV, acrescenta: ‘que falou pelos profetas’). Medo de uma igreja por
demais profética? De uma igreja liderada por ‘mestres’ livres, diretamente
inspirados pelo Espírito Santo? Da influência do ‘mestre’ Ario de Alexandria,
contra quem se dirigem todas as baterias em Niceia? Os bispos vêm acompanhados
por sacerdotes intérpretes de textos bíblicos. Não há registro da presença de
‘mestres’ (profetas) no Concílio de Niceia, que consagra a vitória dos
sacerdotes ‘apostólicos’ sobre os mestres ‘espirituais’.
A Palavra do Espírito
Santo: o Papa Francisco.
Eis o que vale rememorar
hoje, no embate entre o papa e alguns cardeais. Vale rememorar que o movimento
montanista provoca uma divisão de águas no organograma da igreja cristã. Há um
antes e um depois da intervenção episcopal daqueles tempos remotos. Muda a
política global da instituição cristã. Como escreve Adolfo von Harnack em sua
‘História dos Dogmas’, o que acontece no final do século II determina o
curso ulterior do cristianismo. E, de modo ainda mais pungente: a
primeira ortodoxia vira heresia. O corpo episcopal toma oficialmente conta dos
destinos da tradição cristã, e os resultados dessa decisão perduram até nossos
dias. Bispos contra profetas, palavras de ordem contra o Espírito Santo.
À primeira vista, a
história do Papa Francisco tem nada a ver com histórias tão antigas como a de
Marcião e Montano. Além disso, o atual Papa não costuma evocar o tema do
Espírito Santo. Mas não se pode deixar de observar o seguinte: o atual papa não
se projeta propriamente como líder de uma religião peculiar, mas como
interlocutor em questões que atingem a sociedade humana em geral. Isso é muito
importante. É um sinal do Espírito Santo que sopra onde quer.
Num texto que publiquei
em meu blog dois meses atrás sob o mesmo título ‘O Papa Francisco e a Luta pela
Palavra’, chamei a atenção ao fato que Francisco fala em ‘não julgar’, ‘dar
preferência a processos’, ‘ser igreja em saída’, ‘não insistir sempre nas
mesmas questões’, etc. Embora essas expressões esporádicas não
explicitem uma tese, penso que não se pode ignorar que Francisco não sai em
defesa de ‘princípios católicos’, como fizeram seus antecessores desde o
surgimento da Idade Moderna, não aborda temas como ‘tradição apostólica’,
‘sucessão apostólica’ (bispos sucessores dos apóstolos), ‘reserva apostólica’
(a revelação divina reservada aos apóstolos e seus sucessores), os temas de um
embate entre bispos e montanistas no início do século III, largamente
integrados na tradição da oficialidade cristã. Ele se move num outro patamar.
Se é para evocar aqui
essa antiga contenda entre o ‘profético’ e o ‘apostólico’, como faço nestas
páginas, há de se dizer que Francisco está do lado do ‘profético’, do
‘Paráclito’, do Espírito Santo. Suas palavras abandonam lugares comuns, desde
muito integrados no discurso da oficialidade cristã e isso causa estranheza em
muita gente, enquanto cria distância diante do que dizem cardeais como Müller,
Brandmüller e Burke, que dizem as coisas de sempre, fáceis de serem entendidas
pela maioria dos católicos. Pois a história ensina que, quando uma mesma
narrativa se repete ao longo de séculos por meio dos mesmos gestos, das mesmas
palavras, das mesmas imagens e dos mesmos ritos, a mente humana passa a
considerá-la normal e até normativa. Assimila essa narrativa e dela se
apropria. Estamos tão habituados a ver mitras e estolas, capas e casulas,
báculos episcopais e invocações solenes, preces codificadas sempre repetidas,
estamos tão acostumados a ver o papa falar do evangelho num dos mais suntuosos
cenários da Europa Ocidental, que achamos isso normal. A luta pela palavra
evangélica é ingrata e dura. Palavras ‘fáceis’, sempre repetidas, garantem
sucesso político. Isso em contraste com o Papa Francisco, que opta por palavras
‘difíceis’. Como as do Espírito Santo.
Eduardo Hoornaert foi professor catedrático
de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da
Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do
cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
NA LUTA PELA SAÚDE O DIA DOS/DAS ENFERMOS/AS
Por Marcelo Barros
Embora a, cada ano, a
ONU consagre o 07 de abril, como “dia mundial da saúde”, já desde os anos 90, é
no 11 de fevereiro, festa da Virgem de Lourdes, que a Igreja Católica comemora
o “Dia mundial do enfermo”. Não é ruim que haja duas datas anuais em que
possamos recordar que saúde não é luxo nem artigo de comércio. É direito humano
universal e necessidade de primeira categoria. Em um mundo no qual mais de um
bilhão de pessoas sofre de extrema pobreza, agravada desde o início deste
século XXI, a fome se torna epidemia e a saúde se transforma em algo quase
inalcançável.
A Organização Mundial
da Saúde (OMS) define a saúde como “o
estado de completo bem-estar físico, psíquico, mental e social”. De acordo
com essa compreensão, a saúde consiste não apenas em não estar doente, mas em
alcançar um equilíbrio de vida sadia. As religiões antigas chamavam isso de salvação, no sentido de plenitude da
vida e da graça divina em nossas vidas. A diferença entre uma pessoa santa e uma pessoa sana (sadia) é apenas um t. Isso não liga doença e pecado, culpa ou
erro pessoal. Recorda que saúde plena é a realização total da vida. A tradição
afro-brasileira denomina esta energia de Axé.
Se se aplicar
rigidamente a definição da OMS, ninguém pode-se
considerar com plena saúde. Todos estamos continuamente na luta para vencer alguma
fragilidade do corpo e do espírito que atenta contra o que seria a saúde
profunda. Somos todos/as mais ou menos doentes. A saúde é um ideal a ser
buscado cada dia.
No mundo moderno, os
Estados assumiram que a saúde e sua proteção é direito humano. A sociedade tem
obrigação de zelar pelo bem estar físico e psíquico de seus membros.
Infelizmente, os governos de ideologia neoliberal decidiram diminuir ao máximo os
encargos do Estado. O Banco Mundial defende que os investimentos na saúde têm
dois tipos de serviço: os competitivos,
passiveis de financiamento (por exemplo, campanhas de vacinação) e os discricionários, oferecidos à
sociedade, de acordo com a capacidade de aquisição das pessoas. Isso significa
que o cuidado com saúde tem de ser comprado. De fato, na maior parte dos
países, como no Brasil atual, se multiplicam os planos privados. Vende-se
saúde, como se fosse Coca-Cola.
A Constituição Brasileira estabelece que “saúde é direito de todos e dever do
Estado”. Depois de uma longa luta dos
movimentos populares, a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), no início
da década de 90, foi uma grande conquista da sociedade brasileira. Poucos anos depois,
o governo de Fernando Henrique Cardoso aprovou um plano de terceirização da
saúde que só não destruiu totalmente o SUS, porque os movimentos sociais e
comunidades lutaram muito para denunciá-lo e para garantir as conquistas da
Constituição. A partir daí, em muitos Estados, os governos entregam a
administração de hospitais públicos e até do Sistema de Saúde a organizações
privadas, denominadas de organizações sociais. Estas recebem hospitais e
equipamentos públicos. O Estado investe e gasta, mas é o setor privado que
administra e lucra. Mesmo neste sistema iníquo, veem-se sinais e testemunhos de
generosidade humana, amor gratuito e doação por parte de médicos/as,
enfermeiros/as e agentes de saúde. Entretanto, é claro que o sistema privado só
cuida da saúde se tem lucros e benefícios, pois essa é a sua natureza. Por isso, é importante que organizações da
sociedade civil e de Igrejas se esforcem para chamar a atenção de todos para o
cuidado com as pessoas doentes.
Neste 11 de fevereiro de 2019, a Igreja Católica
celebra o XXVII Dia mundial do Doente que será celebrado de modo especial em
Calcutá na Índia. Para essa celebração, por conhecer essa realidade de um mundo
que tende a transformar tudo, até a saúde, em mercadoria o papa Francisco propôs o tema evangélico “Recebestes de graça,
dai de graça” (Mt 10, 8).
Na carta publicada pelo papa para esse dia, o papa
insiste em denunciar “a cultura do descarte e da indiferença”. Para
contrabalançar essa realidade, pede que se coloque “a generosidade gratuita como paradigma capaz de desafiar o
individualismo e a fragmentação social dos nossos dias e para promover novos
vínculos e formas de cooperação humana”. Escreve ainda: “O cuidado dos doentes precisa de
profissionalismo e ternura, assim como de gestos gratuitos, imediatos e
simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é
«querido».
No Brasil,
atualmente, parece que muita gente prefere escolher o ódio e a violência como
caminhos sociais e políticos. Certamente, isso adoece. O papa tem razão ao
lembrar: Só o amor cura e dá saúde.
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE À GREVE DE FOME PELA LIBERDADE DE LULA
“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
pois serão saciados” (Mateus 5,6)
O Fórum Articulação de Leigas e Leigos solidariza-se com
todas e todos que, diante de da realidade de devastação que passa o País, com
os efeitos do Golpe Jurídico Parlamentar, fazem greve de fome voluntária e
involuntariamente e, em especial, com os companheiros que desde de o dia 31 de
Julho de 2018 estão fazendo em protesto por Justiça e Democracia: Vilmar
Pacífico, Zonália Santos (MST), Frei
Sérgio Gröjen, Rafaela Alves, Jaime Amorim (Movimento de Pequenos Agricultores
-MPA) e Luiz Gonzaga Silva ( Gegê, da Central de Movimentos Populares)
Entendemos que estes corajosos e bravos companheiros estão
tomando uma posição radical de privação do alimento do corpo em nome de todos
que sentem diversas formas de fome. A fome do alimento de um Brasil que
retornou ao Mapa da Fome da ONU. Fome de saúde por todos que estão vendo os
programas de saúde terem seus recursos retirados para pagar as dívidas do País
aos rentistas nacionais e internacionais do deus mercado. A fome de educação de
todos que vêm a possibilidade do fechamento de escolas, universidades e centros
de pesquisa públicas estatais. Fome de justiça por todos os perseguidos, porque
são de uma classe historicamente explorada e excluída. Fome de Democracia e de
respeito à vontade do povo.
Por fim clamamos a estes companheiros que cessem esta
violência ao próprio corpo, embora entendamos que a verdadeira violência vem
dos traidores do povo, que perseguem diuturnamente os excluídos e massacram o
trabalhador.
Com seus sacrifícios já demonstraram sua honra e seu valor
bem como a bravura e fibra do povo brasileiro que, ao contrário do que dizem os
dominadores, sempre lutou e deu sua vida por um País mais justo e fraterno.
Irmãos, vocês já entraram para o rol dos heróis do povo - Zumbi, Dandara,
Margarida, Ir. Dorothy, Dom Helder, Chico Mendes e tantos outros que a lista
seria interminável.
Qualquer que seja a decisão que tomem estaremos solidários e
seguiremos em orações para que sejam guiados pela força do Divino Espírito
Santo e cuidados pela mãe Nossa Sra. Aparecida e a “armadura de Deus, para que
possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis, depois de terem feito
tudo” (Efésios 6:13)
Assinam pelo Fórum de Articulação de Leigas e Leigos de
Olinda e Recife os grupos e Movimento Sociais listados a baixo
CEB´s
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
Centro Educacional Profissionalizante do Flau - Turma do Flau
Comissão de Justiça e Paz
Omissão Pastoral da Terra
Grito dos Excluídos
Grupo de Leigos Católicos Igreja Nova
Grupo Encontro da Partilha
Grupo Fé e Política Dom Helder Câmara
Grupo Mulher Maravilha
IDheC – Instituto Dom Helder Camara
Instituto Humanitas
Mística e Revolução - MIRE
Movimento de Cursilhos de Cristandade da Arquidiocese de
Olinda e Recife
Movimento de Mulheres Contra o Desemprego
MPC – Movimento de Profissionais Cristãos
MTC/NE II - Movimento de Trabalhadores Cristãos
Pastoral das pessoas em situação de rua
RCB – Renovação Cristã do Brasil
Tenda da Fé
Trapeiros de Emaús
quinta-feira, 26 de julho de 2018
USO DO ESTADO PELA IGREJA
por Frei
Betto
O
prefeito do Rio, Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus,
promoveu reunião secreta com mais de 200 pastores evangélicos, a 4 de julho,
para instruí-los sobre o uso da máquina estatal, a fim de obterem vantagens a
templos e fiéis, como isenção de impostos e prioridade em exames de saúde. O
abuso resultou-lhe em pedido de impeachment por parte do legislativo carioca.
A
relação Igreja e Estado foi sempre conturbada. O Cristianismo nasceu da ruptura
de Jesus com dois estados: o Sinédrio judaico, pelo qual foi condenado, e o
poder romano, pelo qual foi executado na cruz.
Durante
três séculos os cristãos, perseguidos pelo Império Romano, foram obrigados a
manifestar sua fé nas catacumbas. Em 313, o imperador Constantino deu um golpe
de mestre: devido à popularidade dos cristãos, aliou-se a eles.
A
meu ver, a Igreja não converteu Constantino à fé cristã. Foi o imperador romano
que converteu a Igreja às mordomias imperiais. É o que retratam as cartas de
São Jerônimo. Os bispos passaram a merecer a honra de príncipes, e o papa se
tornou monarca absoluto, a ponto de, em 800, o papa Leão III coroar o imperador
Carlos Magno, fundador do Sacro Império Romano-Germânico, que dominou a Europa
pelos sete séculos posteriores.
Ao
longo da história, Estado e Igreja sempre tentaram cooptar um ao outro, como o
comprova o período colonial brasileiro até 1872, quando o imperador tinha a
prerrogativa de nomear bispos.
Na
União Soviética, após tentativa fracassada de erradicar a religião, Stálin se
empenhou em cooptar a Igreja Ortodoxa Russa, sem sucesso.
Nos
países capitalistas, fez-se um acordo de cavalheiros. O Estado concede
privilégios à Igreja, como isenção de impostos e direito de manter escolas e
universidades que mercantilizam a educação. A Igreja, por sua vez, adota
obsequioso silêncio diante das mazelas e dos abusos do Estado.
Atuei
dez anos na retomada do diálogo entre governo e Igreja Católica em Cuba. Frente
ao distanciamento crítico dos bispos em relação ao socialismo, certa vez um
deles indagou se meu propósito era ver a Igreja apoiar a Revolução.
Respondi
que o papel da Igreja, segundo o Evangelho, não é dar apoio ou se opor ao
Estado. É servir ao povo, sobretudo os mais pobres e excluídos, como fez e
propôs Jesus. Caso o Estado oprima o povo, haverá inevitável conflito com a
Igreja, como ocorreu no Brasil após a ditadura militar promulgar o AI-5. Caso o
Estado sirva e promova o povo, haverá harmonia entre as duas instituições.
O
direito do pobre é o critério evangélico de avaliação do Estado. Nessa
sociedade secularizada e plural, a Igreja não tem o direito de pretender impor
seus preceitos por via da lei civil, nem querer reduzir os espaços de outras
denominações religiosas.
Uma
Igreja que coloca seus interesses corporativos e patrimoniais acima das
necessidades e dos direitos do conjunto da população não entendeu a proposta do
Evangelho. Jesus foi enfático: “Vim para que todos tenham vida e vida em
abundância” (João 10, 10). Leia-se: alimentação, saúde, educação
etc. para todos. Ele não disse: “Vim para privilegiar vida a meus discípulos, e
os demais que se virem.”
O
aparelhamento do Estado por religiões é um retrocesso histórico que reacende
fogueiras inquisitoriais.
Frei
Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros
livros.
Copyright 2018 – FREI BETTO – Favor não divulgar este
artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-losem
qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato
para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com)
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sábado, 23 de setembro de 2017
PELA DEMOCRACIA NO BRASIL – IV TRIBUNAL TIRADENTES
Dia 25 de
setembro de 2017, às 19 horas, no teatro TUCARENA da PUC
Julgamento
das práticas nocivas e danosas do Congresso brasileiro
O Tribunal Tiradentes é um tribunal
especial. É simbólico, é como se fosse um teatro. Mas como todo tribunal de
justiça ele terá um juiz, um acusador, um defensor, testemunhas e jurados.
Qualquer semelhança com o
Tribunal Russell, constituído em 1966 para condenar simbolicamente os crimes de
guerra cometidos no Vietnã, não é mera coincidência,cf. explicado acima.
O que o Tribunal Tiradentes vai
Julgar
O Tribunal Tiradentes vai julgar as
práticas do Congresso brasileiro, onde a maioria dos deputados e senadores não
estão cumprindo sua tarefa que é fazer as leis e fiscalizar o
presidente com o fim de promover uma vida digna para todo o povo
brasileiro.
Em vez disso o Congresso está
aprovando leis que só interessam a uma mínima parte da população. Os deputados
e senadores que assim votam estão atendendo a seus próprios interesses e aos
interesses dos que os financiam para serem eleitos. Eles não estão fiscalizando
o presidente e ainda por cima muitos estão envolvidos na corrupção. É por isso
que só ouvimos falar que político não presta.
No Tribunal Tiradentes também se vai
defender o Congresso como ele deve ser numa democracia.
E para que vai servir o Tribunal
Tiradentes, se é só um teatro?
- Vai servir para que nós todos,
cidadãs e cidadãos, tomemos consciência da importância que tem o
Congresso. Numa democracia de verdade o poder pertence ao povo e o Congresso
representa o povo.
- Vai servir para que nos esforcemos
sempre para conversar (em casa, com os vizinhos, com os amigos, na rua, no
bairro, no café, no ônibus, no metrô, nas filas que temos que enfrentar todo
dia) sobre o Congresso que queremos.
- Vai servir para que, como simples
cidadãs e cidadãos, cumpramos um papel de informação equilibrada que
infelizmente as TVs e os jornais não estão cumprindo.
- Vai servir para nos prepararmos
para quando tiver eleições. Nesse momento teremos que lembrar que os deputados
e senadores (isto é o Congresso) é que tem o poder para definir os rumos do país.
Venha e ajude a divulgar!
Tribunal Tiradentes no teatro
TUCARENA da PUC, na esquina da rua Bartira com rua Monte Alegre n.1024,
2a feira 25 de setembro, 19 horas. Veja na Internet:www.tribunaltiradentes.org
Contato:ttiradentes@uol.com.br
Contatos de imprensa: Cecilia Bacha
(11) 9 8548 7374
quarta-feira, 26 de julho de 2017
NOTA DE APOIO AOS EDUCADORES DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DO RECIFE E REPÚDIO AO TRATAMENTO DISPENSADO PELA PREFEITURA.
Recife: 26 de Julho de 2017
“Política, queridas irmãs
e queridos irmãos, não é só política partidária. Política é, antes de tudo,
preocupação com os grandes problemas humanos e com os direitos fundamentais do
homem. Cristo veio trazer paz ao mundo. Pode haver paz se as injustiças só
fazem crescer? Não vão na onda de quem diz que primeiro é preciso fazer o bolo
crescer, para dividi-lo. O bolo já está sendo preparado e está sendo comido”. Dom Helder Camara - Circular, 2 de dezembro
de 1980
O Fórum Articulação de
Leigos Cristãos, inspirado no chamado do Papa Francisco que nos chama a ser Igreja de saída, Igreja
de rua, Igreja do povo de Deus e em comunhão com a nossa Arquidiocese, vem a
público externar sua preocupação e repúdio ao lamentável tratamento que o
Prefeito da Cidade do Recife, Exmo. Sr. Geraldo Júlio dispensou aos professores
e professoras da rede municipal de ensino do Recife.
O lastimável impedimento
do acesso de paramédicos para atendimento a pessoas em situação de risco de
saúde viola completamente a moral cristã e os Direitos Humanos.
Vale salientar que a
ocupação do gabinete do prefeito foi um ato desesperado da classe dos
servidores da educação municipal que viu seus esforços em abrir canal de
diálogo totalmente frustrados pelo administrador público. Os professores lutam
há meses pela dignidade salarial e por melhores condições de trabalho.
Os diversos relatos sobre
a forma como foram tratados os professores denota táticas de tortura
psicológica e isso é inadmissível por todos os motivos, sobretudo em se
tratando de funcionários públicos, dentro do prédio onde funciona a
administração da cidade. Quem trata o professor como lixo não tem capacidade
para administrar nada, muito menos uma cidade.
Queremos que o Prefeito,
que se diz cristão, reflita sobre seus atos à luz do Evangelho e reveja sua
determinação em não dialogar com os professores. Nosso desejo é que prevaleçam
os valores humanos, que devem ser prioridade em qualquer situação.
Conclamamos os alunos e
alunas, funcionários e funcionárias do setor de educação, bem como os pais dos
alunos da rede municipal de ensino, a apoiarem nosso protesto contra a
violência sofrida pelos professores, não apenas por solidariedade, mas pela
consciência de que a luta deles é justa e visa um futuro melhor para todos.
Na esperança do
cumprimento da justiça e da preservação dos valores morais, humanos e cristãos,
desejamos a todos paz e bem
Fórum
Articulação de Leigos Cristãos na Arquidiocese
de Olinda e Recife
CEBs – Comunidades Eclesiais de Base
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
Centro Educacional Profissionalizante do Flau (Turma do
Flau)
Fé e Política Dom Helder Câmara
Grupo de Leigos Católicos Igreja Nova
Grupo de Partilha Amigos para Sempre na Fé e na Vida
Encontro da Partilha
Tenda da Fé
IDHeC - Instituto Dom Helder Câmara
Mística e Revolução - MIRE
Movimento de Cursilhos de Cristandade da Arquidiocese
de Olinda e Recife
Movimento de Mulheres Contra o Desemprego
Movimentos de Trabalhadores Cristãos – MTC/NE II
Pastoral Carcerária
PJMP – Pastoral da Juventude do Meio Popular
Marcadores:
apoio,
ARTICULAÇÃO,
cristãos,
EDUCADORES,
ENSINO,
fórum,
LEIGOS,
NOTA,
PELA,
PREFEITUR,
RECIFE,
REDE MUNICIPAL,
REPÚDIO TRATAMENTO. DISPENSADO
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