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segunda-feira, 20 de julho de 2020

SILÊNCIO PELA DOR

 por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Há situações na vida em que a dor é tão grande que as palavras serão sempre inúteis para consolá-la ou exorcizá-la.  Apenas o silêncio denso e presente pode ser uma atitude compassiva e misericordiosa. Calar-se diante da dor dos outros, da dor de todos e também nossa é a única atitude possível. 

            Esta é a situação que hoje vive o Brasil, assolado e machucado mortalmente pela pandemia do coronavírus que açoita a torto e a direito, entrando pelos corpos de todas as idades e categorias de pessoas e levando embora vidas que são amadas, queridas e vão deixar um vazio e uma falta imensos no coração de tantos. 

            Diante de tantos mortos, de tanta tragédia o que se pode fazer?  Quantas vezes não fizemos essa pergunta a nós mesmos, enquanto diante de nossos olhos desfilavam os caixões, os prantos, os gritos de dor, os enterros em vala comum enfileirados às dezenas, às centenas. O que fazer? Como ajudar? Como consolar todos estes e estas que choram os mortos dos quais nem puderam despedir-se, que se foram sem um último carinho, uma última presença, um último adeus? 

            Há mães que choram a perda dos filhos inexplicavelmente perdidos e se foram antes delas, vitimados por um vírus que todos dizem que ataca sobretudo os mais velhos.  Mas há filhos órfãos de todas as idades, que choram impotentes a perda de seus maiores, de seus ancestrais: pais, mães, avôs e avós.  Não conseguiram protegê-los, tiveram que vê-los desaparecer pela porta da UTI de onde nunca mais saíram.  Ou então correram desesperados atrás de um respirador e um leito de terapia intensiva que nunca veio e tiveram que vê-los sufocar nas cadeiras ou no chão das emergências. 

            O que se pode fazer por essas pessoas que têm o coração em carne viva?  Como podemos ajudar a amenizar a dor de todos que hoje vivem num país transformado em um gigantesco cemitério? Como chamar a atenção para essa dor anônima e profunda que afoga o Brasil em lágrimas e indignação muda? Como fazer algo que ressoe e pressione sem violência aqueles que desejamos retirar de sua ausência irresponsável, a fim de que assumam seu lugar no combate a essa pandemia?

            A resposta, ou pelo menos um começo dela, talvez possa ser encontrado no livro do profeta Jeremias que, em pleno exílio, proclama o sofrimento do povo.  E o simboliza com a dor de uma mãe que não quer ser consolada. Ouve-se uma voz em Ramá, pranto e amargo choro; é Raquel que chora por seus filhos e recusa ser consolada, porque os seus filhos já não existem".

            Raquel – mãe em Israel, mãe dos filhos de Jacó e mãe do povo -  recusa o consolo das palavras.  Reivindica o direito do gemido e do pranto solitário.  Somente ela conhece a dor que a prostra.  O melhor a dar-lhe é o silêncio. Silêncio orante, presente, solidário. Inspirado por essa dor sem consolo, o profeta põe diante de seus ouvintes a dor de Raquel, digna e solitária. Como a de tantas e tantos que não puderam enterrar seus mortos na pandemia que vivemos. 

            Inspirados por essa dor e por essa necessidade imperiosa de um silêncio que conscientize, denuncie e regenere, a Comunidade da Trindade, em Salvador, Bahia, lançou a campanha Silêncio pela dor.  Convida a todos, brasileiros ou estrangeiros, a aderir e expor nas redes sociais sua solidariedade a essa dor coletiva e gigante com uma palavra, um gesto, uma imagem, uma frase. 

            Subir hoje a hashtag #Silênciopelador é o nosso modo de chorar e con-doer-nos com a dor da pátria mãe que vê seus filhos irem embora sem nada poder fazer para salvá-los.  E que assiste igualmente outros filhos seus obstaculizando os caminhos que a ciência oferece para que haja menos mortes, menos luto e menos dor em nosso território. 

            Nosso silêncio pela dor deve preparar o futuro que Deus guardou para o Brasil que hoje geme sob o luto.  A dor não será a última palavra. O profeta Jeremias garante: “Assim diz o Senhor: "Contenha o seu choro e as suas lágrimas, pois o seu sofrimento será recompensado", declara o Senhor.

            Calemo-nos, então, pela dor.  E convidemos outros, tantos quantos pudermos, a fazer o mesmo.  Nosso silêncio será mais eloquente do que mil palavras que até agora se mostraram inúteis. Que nosso silêncio ecoe por todo lado, trazendo de volta a solidariedade, a união e a compaixão.  #Silênciopelador

 A   teóloga é  professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco), entre outros livros.

 

 Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

O PAPA FRANCISCO E A LUTA PELA PALAVRA 02




Por Eduardo Hoornaert.

A luta do Papa Francisco por uma palavra evangélica merece ser situada diante de um amplo horizonte histórico. Assim se percebe melhor sua importância. Neste segundo texto acerca da ‘luta pela palavra’, regrido ao século II dC, uma época bem próxima à vida de Jesus, para mostrar que ali já se trava um embate em torno da palavra, algo que tem a ver com a atual luta do Papa Francisco. Embora se possa dizer que toda a história do cristianismo, de certo modo, é uma luta pela palavra evangélica e que a tradição de Jesus, nesse particular, atravessa uma história de sucessos e fracassos, fidelidades e traições, equívocos e acertos, temos de reconhecer que alguns episódios são particularmente significativos. São encruzilhadas. Posições assumidas por muito tempo podem ser abandonadas, novos caminhos trilhados. O Papa Francisco está numa dessas encruzilhadas. Enfim, o que acontece nestes dias na cúpula da igreja católica pode mudar o curso da igreja católica em pontos importantes.

A luta pela Palavra nos inícios do movimento de Jesus.

Os atuais debates em torno do Papa Francisco ganham mais nitidez quando consideramos determinados textos das origens do cristianismo. Quando, por exemplo, voltamos a atenção a textos como o Evangelho de João, que já conserva traços de uma luta pela palavra no seio dos grupos de discípulos na Ásia Menor, apenas 70 anos após a morte de Jesus. Escrito por volta do ano 100, esse evangelho trata de um tema que voltará frequentemente na história do cristianismo, um tema que diferencia o cristianismo dos demais movimentos religiosos da época: o Espírito Santo.

Os evangelhos sinóticos (Marcos dos anos 70, Lucas e Mateus dos anos 80) mencionam também o papel do Espírito Santo na vida de Jesus e se seus discípulos, mas com um realce menor que o de João, que é categórico: o movimento de Jesus é um movimento impulsionado pelo Espírito Santo. O texto fundamental, aqui, narra uma conversa entre Jesus e fariseu Nicodemos, que lemos no capítulo 3 do Evangelho de João. Após desnortear seu interlocutor com considerações aparentemente contraditórias (nascer de novo, etc.), Jesus diz ao fariseu perplexo: o Espírito sopra onde quer. Igual ao vento. Aqui há um eco do Evangelho de Marcos, onde se narra, na nos primeiros versículos do primeiro capítulo, que Jesus, ao subir das águas do Jordão, é imediatamente impulsionado pelo Espírito Santo ao deserto, para um embate de quarenta dias com o Adversário. O Espírito sopra onde quer e leva Jesus para onde quer. No Evangelho de João, quando se aproxima o fim de Jesus, o Espírito Santo aparece como o sustento da comunidade em situações angustiantes. Jesus diz: ele será o ‘Defensor’ (o texto usa o termo ‘Paráclito’) dos discípulos, nas investidas do Adversário que se aproximam: Rogarei ao Pai e ele lhes dará um Defensor a permanecer para sempre com vocês (14, 16); Mas o Defensor lhes ensinará tudo e recordará tudo que eu lhes disse (14, 26); O Espírito da verdade dará testemunho de mim. E vocês também darão testemunho (15, 26); É do interesse de vocês que eu vá embora: pois se não for o Defensor virá a vocês (Jo 16, 7);Quando vier o Espírito da Verdade, ele os conduzirá à plena verdade (16, 13). Jesus confia o futuro do movimento ao Espírito Santo, que ensinará tudo, recordará tudo que eu lhes disse. Podemos dizer que o cristianismo é o Espírito Santo em ação.

É a partir de afirmações tão fortes que teólogos do século II, como Ireneu (ca. 130-202) e Tertuliano (160-220), entendem que o Espírito Santo é ‘unius substantiae’ (da mesma substância) do Filho Jesus, ‘igual ao Filho’ (palavras de Tertuliano em seu escrito ‘Contra Práxeas’). Não há nada, na história do cristianismo, que se compare a esse reconhecimento: o Espírito Santo faz parte da divindade. Isso significa que Deus age que nem um vento ‘que sopra onde quer’. Não há como captar o cristianismo em regulamentos doutrinários e morais. Ele escapa sempre, como o vento, e abre um campo de liberdade, criatividade, inovação, ação revolucionária, profetismo. O Defensor quebra paradigmas universalmente em vigor, derruba cânones e regulamentos, abre horizontes de liberdade. Com ele, o profetismo cristão entra na lista dos movimentos revolucionários, a sacudir a inércia, causar perturbação e insegurança nos que procuram canalizar o movimento de Jesus. Tertuliano, no final do século II, expressa essa ideia com palavras lapidares: ‘quem expulsa a profecia, afugenta o Paráclito’ (prophetiam expullit, Paracletum fugavit).

Com essas considerações abrimos o rol de inúmeras tensões e frequentes conflitos que marcam a história do cristianismo. Aqui, no intuito de reforçar a importância da atual luta do Papa Francisco, comento dois episódios marcantes do século II dC: o caso de Marcião e o caso de Montano, ambos considerados em torno do tema da luta pela Palavra do Espírito Santo.

A palavra do Espírito Santo: Marcião.

O caso de Marcião, ocorrido entre 120 e 144 dC, ilustra bem o que acabo de escrever. Conto brevemente a história, mas antes advirto: toda a documentação disponível em torno de Marcião está imbuída de um forte teor de repulsa diante daquele que será, por longos séculos, considerado o ‘pai dos hereges’, o primeiro grande herege. Temos, pois, que ler essa documentação com espírito crítico e nos deixar guiar, por exemplo, por historiadores do quilate de Adolfo von Harnack, que, em sua ‘História dos Dogmas’, em que descreve a formação do dogma cristão nos três primeiros séculos, assume a postura crítica que se espera de um bom historiador.

Por volta de 120 dC, apenas noventa anos após a morte de Jesus, aparece em Roma um cristão vindo do Oriente do Império, chamado Marcião de Sínope, um importante porto marítimo situado no Mar Negro (chamado, na época, de Pontus Euxinos. no norte da atual Turquia). Filho de um rico armador de navios, ele pede licença para ser aceito numa das comunidades cristãs existentes na metrópole e paga, inclusive, uma fiança.
Marcião é uma personalidade marcante. Não gosta do que vê em Roma e manifesta logo sua discordância. Para ele, o Jesus que se venera entre os cristãos romanos não corresponde ao Jesus de Nazaré. Como se pode praticar ritos que são próprios dos sacerdotes romanos, se Jesus não gosta de sacerdotes? Como se pode seguir regulamentos, se Jesus não liga para regulamentos, não se importa com questões de pureza e impureza, não lembra a obrigação de ‘subir’ ao Templo para as festas, não insiste no pagamento de impostos estipulados pelas autoridades, enfim, não segue as prescrições legais? Jesus fala em pão, casa, filhos, sustento da família, idosos, produção agrícola, trabalho de cada dia. Eis o que importa para ele. Alerta diante do perigo do enriquecimento (‘não se pode servir a dois senhores’) e ensina que é preciso estar sempre disposto a servir. Marcião não vê nada disso em Roma.

Os fiéis de Roma se assustam, Não encontrando argumentos a contradizer o imigrante do Ponto. Então, para manter a paz entre seus fiéis, os presbíteros resolvem, em 144 dC, devolver a Marcião o dinheiro que ele doou ao se apresentar e pedir que ele se retire de Roma. Decepcionado, o ‘mestre’ vencido regressa para o Ponto onde, longe dos grandes centros, organiza uma igreja, a igreja marcionita, que subsiste até o século VI. Depois desaparece nas brumas da história.

Essa história deixa um gosto amargo na boca. Os cristãos de Roma não conseguem enxergar a ação do Espírito Santo nas palavras e atitudes do imigrante Marcião. A mensagem de Jesus será tão difícil de ser compreendida?

Há de se considerar aqui que, no decorrer do século II, as comunidades cristãs - na medida em que se tornam mais numerosas, com maior número de participantes e maior visibilidade – acolhem pessoas que já não gostam de ver um Jesus tão radicalmente comprometido com os condenados da terra. A tendência é de se alinhar à política do poder do estado, como se pode verificar nos escritos de Justino (100-160 dC), por exemplo. Aparecem diversas tendências. Alguns dizem que o ensino desses mestres prejudica ‘as pessoas simples’ e semeia divisão. Marcião não é o único a ser afastado nesses anos decisivos, a mesma sorte sendo reservada a mestres como Valentino, Taciano e Montano (cuja história conto em seguida). Aparece o termo ‘herege’, que serve para discriminar os que não seguem a linha predominante. Aparecem pastoralistas que, querendo apagar o fogo, aconselham moderação, lutam pela unificação, mas, mesmo assim, concordam em traçar uma linha divisória entre ‘ortodoxos’ e ‘hereges’. Mestres que são exigentes em termos de pobreza e despojamento perdem audiência. O tema Espírito Santo é controverso. Estamos diante de um momento decisivo na história do cristianismo.

A palavra do Espírito Santo: Montano.

Apenas 14 anos após o afastamento de Marcião, em 158 dC, eclode mais um movimento a agitar as mentes dos líderes cristãos durante décadas.

O palco, agora, é a Frígia (centro-oeste da atual Turquia). Um certo Montano, um sacerdote de Cibele convertido ao cristianismo, cria, em Pepusa, uma localidade rural perto de Filadélfia, na Frígia, um movimento de escravos, libertos e trabalhadores rurais da região. Ela vai acompanhado de duas mulheres profetisas, Priscila e Maximila, que – no linguajar da época – falam em línguas, se extasiam e gritam: aparece o Defensor(Paráclito), que se manifesta com gemidos inefáveis (Rm 8, 26) e grita: Abba, Pai (Gl 4, 6). Cita-se o Dito 44 do Evangelho de Tomé: Quem quer que blasfeme contra o Espírito Santo não será perdoado, seja na terra, seja no céu, um Dito que aparece nos evangelhos sinóticos e em textos como o Diatesseron de Taciano, uma frase frequentemente repetida nos primeiros tempos do movimento de Jesus (Harnack, I, 427). Blasfemar contra o Espírito Santo é se desviar do caminho de Jesus. Se o Defensor se revela agora na Frígia, uma região tão desprezada e discriminada quanto a Galileia de Jesus, é prova que ali se pratica a legítima tradição de Jesus.

Antes de continuar, repito aqui o que escrevi acerca da tradição em torno de Marcião: as fontes literárias disponíveis sobre o montanismo estão igualmente recheadas de preconceitos, exageram nos aspectos negativos, tratam o montanismo como se fosse uma heresia.

Pesquisas sérias apuraram que se trata aqui de um movimento de gente pobre, escrava, liberta, gente do campo, iletrada, que retoma textos do Evangelho de João como os que citei acima (Jo 14, 16; 14, 26; 15, 26; 16, 7) e os aplica a Montano, Priscila, Maximila. O Espírito Santo lhes dita o que têm a dizer. Palavras que alimentem a esperança dos pobres, ditas de modo livre imaginoso. Assim, a profetisa Priscila, com ingênua ousadia, se diz Cristo aparecido em forma de mulher (Harnack, I, 429). Um mundo de cristofanias e teofanias, com um entusiasmo ainda não abafado, bem ao gosto do povo. O nascimento de Jesus num presépio, os anjos e os pastores, a fuga ao Egito, Jesus entre os doutores em Jerusalém. O menino Jesus brinca com São João Batista, ajuda seu pai São José na carpintaria. Histórias que o povo guarda com carinho e transmite de geração em geração. Os profetas passam pelas comunidades, ensinam as coisas de Jesus de um modo que as pessoas entendem facilmente, são bem acolhidos pela população. Os documentos aludem a uma ‘explosão de profetismo’ no final do século II, que vai muito além da Frígia e atinge largos espaços das partes orientais do Império Romano.

Os intelectuais cristãos, os chamados ‘Padres da Igreja’, não reagem todos do mesmo modo diante do montanismo. Se, de um lado, percebem que o caráter convulsivo das manifestações pró e contra Montano demonstra que algo está errado com o sistema que se pretende implantar no movimento cristão, de outro lado ficam intimidados com a força de uma reação por parte dos bispos. Como acontece frequentemente na história da humanidade, os mais organizados vencem a parada. No caso do montanismo, os bispos são a parte mais organizada. Sua vitória impõe conformidade e silêncio. Muitos intelectuais hesitam e, com o tempo, acabam se conformando. Enquanto Ireneu ainda demonstra simpatia pelo montanismo, Tertuliano é bem mais reticente. Em princípio, ele simpatiza com os montanistas e, com sua pena afiada, escreve a frase lapidar que talvez melhor descreve o valor perene de movimentos como o montanismo e o profetismo em geral: ‘Ubi tres, ibi ecclesia, licet laici: onde se reúnem três, há igreja, mesmo se são leigos’ (Exortação à Castidade). Mas, paradoxalmente, Tertuliano aceita determinados princípios diametralmente opostos à ideia leiga. Ele aceita a ‘regra apostólica’, a ‘sucessão apostólica’, a ‘reserva exclusiva’, além de concordar com a ideia que o tempo da revelação do Espirito Santo teria expirado com a morte do último apóstolo. Efim, ele acaba pendendo do lado do ‘apostólico’. Segundo von Harnack, essa contradição em Tertuliano se deve ‘a uma convicção não cristã, mas romana, segundo a qual toda religião postula leis firmes e ordenações estáveis’ (Harnack I, 434).

Por volta de 177, o montanismo alcança Roma, onde suscita controvérsias. Ali aparece um certo Praxeas, ‘confessor’ proveniente da Frígia, que vem predispor o bispo local (ainda não se fala em papa) contra o ‘Paráclito’. A repressão é rápida. Quatro bispos romanos sucessivos se pronunciam contra o ‘Paráclito’ (Harnack I, 742) e são logo acompanhados por bispos da Ásia, que cerram fileiras contra Montano. Por volta do ano 200 dC se percebe um recuo dos profetas e um avanço dos bispos. Os primeiros Sínodos episcopais da história do cristianismo são dirigidos contra o montanismo. O tom dos textos conservados é ríspido e severo, tende a desmoralizar os profetas, que só estariam dizendo bobagem, coisas sem sentido, confundindo os fiéis, espalhando ideias contraditórias, agitando as comunidades, desorientando e fanatizando. Significativa a omissão do termo ‘profeta’ e a insistência no termo ‘apóstolo’. Apóstolos contra profetas, eis a questão. Apóstolos apresentados como herdeiros de uma missão recebida de Jesus, que atravessa a história por meio da ‘sucessão apostólica’, de uma dinastia de bispos. O bispo é a atualidade, o profeta é o passado. Os profetas antigos, como Isaías, Jeremias e outros, terminam sua missão com a morte do último apóstolo. Não há mais profetas. Os apóstolos herdam a missão profética.

Em tudo isso, não se pode esquecer que os textos desses primeiros Sínodos são redigidos ‘no calor da hora’, ou seja, marcados pelas emoções do momento. Emoções claramente anti-montanistas, anti-Paráclito. O historiador não atribui a esse tipo de textos um valor além do que ressalta de uma análise contextualizada. Quando os Sínodos afirmam que só os apóstolos são mediadores da revelação, eles estão em guerra contra um movimento que pretende o contrário. Em outras palavras, o confronto com o montanismo postula uma interpretação a ser realizada dentro do princípio do contexto (Harnack, II, 387). Seja como for, a restrita atribuição da revelação ao universo ‘apostólico’ e a retirada de credenciais ao ‘profético’ acabam convencendo muita gente. A ‘auctoritas scripta’ (predominância da tradição escrita sobre a tradição oral) vence as falas de gente iletrada, as falas de Montano, Priscila, Maximila. Por trás, se desvaloriza a ação do Espírito Santo na história, e isso é muito sério.

Nesse sentido se pode dizer que o Credo de Niceia (do ano 325) segue uma conduta já traçada pelos Sínodos do início do século III. Nele, toda a atenção se concentra na figura de Jesus, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, ‘Theon ek Theou’ (Deus de Deus). Só no final parece, como se fosse um apêndice, a frase ‘kai eis to Agion Pneuma’ (e também no Espírito Santo). E ponto final (o Credo de Calcedônia, no final do século IV, acrescenta: ‘que falou pelos profetas’). Medo de uma igreja por demais profética? De uma igreja liderada por ‘mestres’ livres, diretamente inspirados pelo Espírito Santo? Da influência do ‘mestre’ Ario de Alexandria, contra quem se dirigem todas as baterias em Niceia? Os bispos vêm acompanhados por sacerdotes intérpretes de textos bíblicos. Não há registro da presença de ‘mestres’ (profetas) no Concílio de Niceia, que consagra a vitória dos sacerdotes ‘apostólicos’ sobre os mestres ‘espirituais’.

A Palavra do Espírito Santo: o Papa Francisco.

Eis o que vale rememorar hoje, no embate entre o papa e alguns cardeais. Vale rememorar que o movimento montanista provoca uma divisão de águas no organograma da igreja cristã. Há um antes e um depois da intervenção episcopal daqueles tempos remotos. Muda a política global da instituição cristã. Como escreve Adolfo von Harnack em sua ‘História dos Dogmas’, o que acontece no final do século II determina o curso ulterior do cristianismo. E, de modo ainda mais pungente: a primeira ortodoxia vira heresia. O corpo episcopal toma oficialmente conta dos destinos da tradição cristã, e os resultados dessa decisão perduram até nossos dias. Bispos contra profetas, palavras de ordem contra o Espírito Santo.

À primeira vista, a história do Papa Francisco tem nada a ver com histórias tão antigas como a de Marcião e Montano. Além disso, o atual Papa não costuma evocar o tema do Espírito Santo. Mas não se pode deixar de observar o seguinte: o atual papa não se projeta propriamente como líder de uma religião peculiar, mas como interlocutor em questões que atingem a sociedade humana em geral. Isso é muito importante. É um sinal do Espírito Santo que sopra onde quer.

Num texto que publiquei em meu blog dois meses atrás sob o mesmo título ‘O Papa Francisco e a Luta pela Palavra’, chamei a atenção ao fato que Francisco fala em ‘não julgar’, ‘dar preferência a processos’, ‘ser igreja em saída’, ‘não insistir sempre nas mesmas questões’, etc.  Embora essas expressões esporádicas não explicitem uma tese, penso que não se pode ignorar que Francisco não sai em defesa de ‘princípios católicos’, como fizeram seus antecessores desde o surgimento da Idade Moderna, não aborda temas como ‘tradição apostólica’, ‘sucessão apostólica’ (bispos sucessores dos apóstolos), ‘reserva apostólica’ (a revelação divina reservada aos apóstolos e seus sucessores), os temas de um embate entre bispos e montanistas no início do século III, largamente integrados na tradição da oficialidade cristã. Ele se move num outro patamar.

Se é para evocar aqui essa antiga contenda entre o ‘profético’ e o ‘apostólico’, como faço nestas páginas, há de se dizer que Francisco está do lado do ‘profético’, do ‘Paráclito’, do Espírito Santo. Suas palavras abandonam lugares comuns, desde muito integrados no discurso da oficialidade cristã e isso causa estranheza em muita gente, enquanto cria distância diante do que dizem cardeais como Müller, Brandmüller e Burke, que dizem as coisas de sempre, fáceis de serem entendidas pela maioria dos católicos. Pois a história ensina que, quando uma mesma narrativa se repete ao longo de séculos por meio dos mesmos gestos, das mesmas palavras, das mesmas imagens e dos mesmos ritos, a mente humana passa a considerá-la normal e até normativa. Assimila essa narrativa e dela se apropria. Estamos tão habituados a ver mitras e estolas, capas e casulas, báculos episcopais e invocações solenes, preces codificadas sempre repetidas, estamos tão acostumados a ver o papa falar do evangelho num dos mais suntuosos cenários da Europa Ocidental, que achamos isso normal. A luta pela palavra evangélica é ingrata e dura. Palavras ‘fáceis’, sempre repetidas, garantem sucesso político. Isso em contraste com o Papa Francisco, que opta por palavras ‘difíceis’. Como as do Espírito Santo.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

NA LUTA PELA SAÚDE O DIA DOS/DAS ENFERMOS/AS




Por Marcelo Barros

Embora a, cada ano, a ONU consagre o 07 de abril, como “dia mundial da saúde”, já desde os anos 90, é no 11 de fevereiro, festa da Virgem de Lourdes, que a Igreja Católica comemora o “Dia mundial do enfermo”. Não é ruim que haja duas datas anuais em que possamos recordar que saúde não é luxo nem artigo de comércio. É direito humano universal e necessidade de primeira categoria. Em um mundo no qual mais de um bilhão de pessoas sofre de extrema pobreza, agravada desde o início deste século XXI, a fome se torna epidemia e a saúde se transforma em algo quase inalcançável.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a saúde como “o estado de completo bem-estar físico, psíquico, mental e social”. De acordo com essa compreensão, a saúde consiste não apenas em não estar doente, mas em alcançar um equilíbrio de vida sadia. As religiões antigas chamavam isso de salvação, no sentido de plenitude da vida e da graça divina em nossas vidas. A diferença entre uma pessoa santa e uma pessoa sana (sadia) é apenas um t. Isso não liga doença e pecado, culpa ou erro pessoal. Recorda que saúde plena é a realização total da vida. A tradição afro-brasileira denomina esta energia de Axé.

Se se aplicar rigidamente a definição da OMS,  ninguém pode-se considerar com plena saúde. Todos estamos continuamente na luta para vencer alguma fragilidade do corpo e do espírito que atenta contra o que seria a saúde profunda. Somos todos/as mais ou menos doentes. A saúde é um ideal a ser buscado cada dia.

No mundo moderno, os Estados assumiram que a saúde e sua proteção é direito humano. A sociedade tem obrigação de zelar pelo bem estar físico e psíquico de seus membros. Infelizmente, os governos de ideologia neoliberal decidiram diminuir ao máximo os encargos do Estado. O Banco Mundial defende que os investimentos na saúde têm dois tipos de serviço: os competitivos, passiveis de financiamento (por exemplo, campanhas de vacinação) e os discricionários, oferecidos à sociedade, de acordo com a capacidade de aquisição das pessoas. Isso significa que o cuidado com saúde tem de ser comprado. De fato, na maior parte dos países, como no Brasil atual, se multiplicam os planos privados. Vende-se saúde, como se fosse Coca-Cola.

A Constituição Brasileira estabelece que “saúde é direito de todos e dever do Estado”. Depois de uma longa luta dos movimentos populares, a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), no início da década de 90, foi uma grande conquista da sociedade brasileira. Poucos anos depois, o governo de Fernando Henrique Cardoso aprovou um plano de terceirização da saúde que só não destruiu totalmente o SUS, porque os movimentos sociais e comunidades lutaram muito para denunciá-lo e para garantir as conquistas da Constituição. A partir daí, em muitos Estados, os governos entregam a administração de hospitais públicos e até do Sistema de Saúde a organizações privadas, denominadas de organizações sociais. Estas recebem hospitais e equipamentos públicos. O Estado investe e gasta, mas é o setor privado que administra e lucra. Mesmo neste sistema iníquo, veem-se sinais e testemunhos de generosidade humana, amor gratuito e doação por parte de médicos/as, enfermeiros/as e agentes de saúde. Entretanto, é claro que o sistema privado só cuida da saúde se tem lucros e benefícios, pois essa é a sua natureza.  Por isso, é importante que organizações da sociedade civil e de Igrejas se esforcem para chamar a atenção de todos para o cuidado com as pessoas doentes.

Neste 11 de fevereiro de 2019, a Igreja Católica celebra o XXVII Dia mundial do Doente que será celebrado de modo especial em Calcutá na Índia. Para essa celebração, por conhecer essa realidade de um mundo que tende a transformar tudo, até a saúde, em mercadoria  o papa Francisco propôs o tema evangélico “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8).

Na carta publicada pelo papa para esse dia, o papa insiste em denunciar “a cultura do descarte e da indiferença”. Para contrabalançar essa realidade, pede que se coloque “a generosidade gratuita como paradigma capaz de desafiar o individualismo e a fragmentação social dos nossos dias e para promover novos vínculos e formas de cooperação humana”. Escreve ainda: “O cuidado dos doentes precisa de profissionalismo e ternura, assim como de gestos gratuitos, imediatos e simples, como uma carícia, pelos quais fazemos sentir ao outro que nos é «querido».

No Brasil, atualmente, parece que muita gente prefere escolher o ódio e a violência como caminhos sociais e políticos. Certamente, isso adoece. O papa tem razão ao lembrar: Só o amor cura e dá saúde.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE À GREVE DE FOME PELA LIBERDADE DE LULA



Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
pois serão saciados” (Mateus 5,6)

O Fórum Articulação de Leigas e Leigos solidariza-se com todas e todos que, diante de da realidade de devastação que passa o País, com os efeitos do Golpe Jurídico Parlamentar, fazem greve de fome voluntária e involuntariamente e, em especial, com os companheiros que desde de o dia 31 de Julho de 2018 estão fazendo em protesto por Justiça e Democracia: Vilmar Pacífico,  Zonália Santos (MST), Frei Sérgio Gröjen, Rafaela Alves, Jaime Amorim (Movimento de Pequenos Agricultores -MPA) e Luiz Gonzaga Silva ( Gegê, da Central de Movimentos Populares)

Entendemos que estes corajosos e bravos companheiros estão tomando uma posição radical de privação do alimento do corpo em nome de todos que sentem diversas formas de fome. A fome do alimento de um Brasil que retornou ao Mapa da Fome da ONU. Fome de saúde por todos que estão vendo os programas de saúde terem seus recursos retirados para pagar as dívidas do País aos rentistas nacionais e internacionais do deus mercado. A fome de educação de todos que vêm a possibilidade do fechamento de escolas, universidades e centros de pesquisa públicas estatais. Fome de justiça por todos os perseguidos, porque são de uma classe historicamente explorada e excluída. Fome de Democracia e de respeito à vontade do povo.

Por fim clamamos a estes companheiros que cessem esta violência ao próprio corpo, embora entendamos que a verdadeira violência vem dos traidores do povo, que perseguem diuturnamente os excluídos e massacram o trabalhador.

Com seus sacrifícios já demonstraram sua honra e seu valor bem como a bravura e fibra do povo brasileiro que, ao contrário do que dizem os dominadores, sempre lutou e deu sua vida por um País mais justo e fraterno. Irmãos, vocês já entraram para o rol dos heróis do povo - Zumbi, Dandara, Margarida, Ir. Dorothy, Dom Helder, Chico Mendes e tantos outros que a lista seria interminável.

Qualquer que seja a decisão que tomem estaremos solidários e seguiremos em orações para que sejam guiados pela força do Divino Espírito Santo e cuidados pela mãe Nossa Sra. Aparecida e a “armadura de Deus, para que possam resistir no dia mau e permanecer inabaláveis, depois de terem feito tudo” (Efésios 6:13)

Assinam pelo Fórum de Articulação de Leigas e Leigos de Olinda e Recife os grupos e Movimento Sociais listados a baixo

CEB´s
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
Centro Educacional Profissionalizante do Flau - Turma do Flau
Comissão de Justiça e Paz
Omissão Pastoral da Terra
Grito dos Excluídos
Grupo de Leigos Católicos Igreja Nova
Grupo Encontro da Partilha
Grupo Fé e Política Dom Helder Câmara
Grupo Mulher Maravilha
IDheC – Instituto Dom Helder Camara
Instituto Humanitas
Mística e Revolução - MIRE
Movimento de Cursilhos de Cristandade da Arquidiocese de Olinda e Recife
Movimento de Mulheres Contra o Desemprego
MPC – Movimento de Profissionais Cristãos
MTC/NE II - Movimento de Trabalhadores Cristãos
Pastoral das pessoas em situação de rua
RCB – Renovação Cristã do Brasil
Tenda da Fé
Trapeiros de Emaús

quinta-feira, 26 de julho de 2018

USO DO ESTADO PELA IGREJA



por Frei Betto

      O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, promoveu reunião secreta com mais de 200 pastores evangélicos, a 4 de julho, para instruí-los sobre o uso da máquina estatal, a fim de obterem vantagens a templos e fiéis, como isenção de impostos e prioridade em exames de saúde. O abuso resultou-lhe em pedido de impeachment por parte do legislativo carioca.
      A relação Igreja e Estado foi sempre conturbada. O Cristianismo nasceu da ruptura de Jesus com dois estados: o Sinédrio judaico, pelo qual foi condenado, e o poder romano, pelo qual foi executado na cruz.
      Durante três séculos os cristãos, perseguidos pelo Império Romano, foram obrigados a manifestar sua fé nas catacumbas. Em 313, o imperador Constantino deu um golpe de mestre: devido à popularidade dos cristãos, aliou-se a eles. 
      A meu ver, a Igreja não converteu Constantino à fé cristã. Foi o imperador romano que converteu a Igreja às mordomias imperiais. É o que retratam as cartas de São Jerônimo. Os bispos passaram a merecer a honra de príncipes, e o papa se tornou monarca absoluto, a ponto de, em 800, o papa Leão III coroar o imperador Carlos Magno, fundador do Sacro Império Romano-Germânico, que dominou a Europa pelos sete séculos posteriores.
      Ao longo da história, Estado e Igreja sempre tentaram cooptar um ao outro, como o comprova o período colonial brasileiro até 1872, quando o imperador tinha a prerrogativa de nomear bispos.
      Na União Soviética, após tentativa fracassada de erradicar a religião, Stálin se empenhou em cooptar a Igreja Ortodoxa Russa, sem sucesso.
      Nos países capitalistas, fez-se um acordo de cavalheiros. O Estado concede privilégios à Igreja, como isenção de impostos e direito de manter escolas e universidades que mercantilizam a educação. A Igreja, por sua vez, adota obsequioso silêncio diante das mazelas e dos abusos do Estado.
      Atuei dez anos na retomada do diálogo entre governo e Igreja Católica em Cuba. Frente ao distanciamento crítico dos bispos em relação ao socialismo, certa vez um deles indagou se meu propósito era ver a Igreja apoiar a Revolução.
      Respondi que o papel da Igreja, segundo o Evangelho, não é dar apoio ou se opor ao Estado. É servir ao povo, sobretudo os mais pobres e excluídos, como fez e propôs Jesus. Caso o Estado oprima o povo, haverá inevitável conflito com a Igreja, como ocorreu no Brasil após a ditadura militar promulgar o AI-5. Caso o Estado sirva e promova o povo, haverá harmonia entre as duas instituições.
      O direito do pobre é o critério evangélico de avaliação do Estado. Nessa sociedade secularizada e plural, a Igreja não tem o direito de pretender impor seus preceitos por via da lei civil, nem querer reduzir os espaços de outras denominações religiosas.
      Uma Igreja que coloca seus interesses corporativos e patrimoniais acima das necessidades e dos direitos do conjunto da população não entendeu a proposta do Evangelho. Jesus foi enfático: “Vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (João 10, 10). Leia-se: alimentação, saúde, educação etc. para todos. Ele não disse: “Vim para privilegiar vida a meus discípulos, e os demais que se virem.”
      O aparelhamento do Estado por religiões é um retrocesso histórico que reacende fogueiras inquisitoriais.

Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.
 Copyright 2018 FREI BETTO Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-losem qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

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sábado, 23 de setembro de 2017

PELA DEMOCRACIA NO BRASIL – IV TRIBUNAL TIRADENTES


Dia 25 de setembro de 2017, às 19 horas, no teatro TUCARENA da  PUC
Julgamento das práticas nocivas e danosas do Congresso brasileiro

O Tribunal Tiradentes é um tribunal especial. É simbólico, é como se fosse um teatro. Mas como todo tribunal de justiça ele terá um juiz, um acusador, um defensor, testemunhas e jurados.
Qualquer semelhança com o Tribunal Russell, constituído em 1966 para condenar simbolicamente os crimes de guerra cometidos no Vietnã, não é mera coincidência,cf. explicado acima.

O que o Tribunal Tiradentes vai Julgar
O Tribunal Tiradentes vai julgar as práticas do Congresso brasileiro, onde a maioria dos deputados e senadores não estão cumprindo sua tarefa que é fazer as leis e fiscalizar o presidente  com o fim de promover uma vida digna para todo o povo brasileiro.
Em vez disso o Congresso está aprovando leis que só interessam a uma mínima parte da população. Os deputados e senadores que assim votam estão atendendo a seus próprios interesses e aos interesses dos que os financiam para serem eleitos. Eles não estão fiscalizando o presidente e ainda por cima muitos estão envolvidos na corrupção. É por isso que só ouvimos falar que político não presta.
No Tribunal Tiradentes também se vai defender o Congresso como ele deve ser numa democracia.
E para que vai servir o Tribunal Tiradentes, se é só um teatro?
- Vai servir para que nós todos, cidadãs e  cidadãos, tomemos consciência da importância que tem o Congresso. Numa democracia de verdade o poder pertence ao povo e o Congresso representa o povo.
- Vai servir para que nos esforcemos sempre para conversar (em casa, com os vizinhos, com os amigos, na rua, no bairro, no café, no ônibus, no metrô, nas filas que temos que enfrentar todo dia) sobre o Congresso que queremos.
- Vai servir para que, como simples cidadãs e cidadãos, cumpramos um papel de informação equilibrada que infelizmente as TVs e os jornais não estão cumprindo.
- Vai servir para nos prepararmos para quando tiver eleições. Nesse momento teremos que lembrar que os deputados e senadores (isto é o Congresso) é que tem o poder para definir os rumos do país.
Venha e ajude a divulgar!
Tribunal Tiradentes no teatro TUCARENA da  PUC, na esquina da rua Bartira com rua Monte Alegre n.1024, 2a feira 25 de setembro, 19 horas. Veja na Internet:www.tribunaltiradentes.org 
                         

Contato:ttiradentes@uol.com.br
Contatos de imprensa: Cecilia Bacha (11) 9 8548 7374 


quarta-feira, 26 de julho de 2017

NOTA DE APOIO AOS EDUCADORES DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DO RECIFE E REPÚDIO AO TRATAMENTO DISPENSADO PELA PREFEITURA.




Recife: 26 de Julho de 2017


“Política, queridas irmãs e queridos irmãos, não é só política partidária. Política é, antes de tudo, preocupação com os grandes problemas humanos e com os direitos fundamentais do homem. Cristo veio trazer paz ao mundo. Pode haver paz se as injustiças só fazem crescer? Não vão na onda de quem diz que primeiro é preciso fazer o bolo crescer, para dividi-lo. O bolo já está sendo preparado e está sendo comido”.  Dom Helder Camara - Circular, 2 de dezembro de 1980

O Fórum Articulação de Leigos Cristãos, inspirado no chamado do Papa Francisco  que nos chama a ser Igreja de saída, Igreja de rua, Igreja do povo de Deus e em comunhão com a nossa Arquidiocese, vem a público externar sua preocupação e repúdio ao lamentável tratamento que o Prefeito da Cidade do Recife, Exmo. Sr. Geraldo Júlio dispensou aos professores e professoras da rede municipal de ensino do Recife.
O lastimável impedimento do acesso de paramédicos para atendimento a pessoas em situação de risco de saúde viola completamente a moral cristã e os Direitos Humanos.
Vale salientar que a ocupação do gabinete do prefeito foi um ato desesperado da classe dos servidores da educação municipal que viu seus esforços em abrir canal de diálogo totalmente frustrados pelo administrador público. Os professores lutam há meses pela dignidade salarial e por melhores condições de trabalho.
Os diversos relatos sobre a forma como foram tratados os professores denota táticas de tortura psicológica e isso é inadmissível por todos os motivos, sobretudo em se tratando de funcionários públicos, dentro do prédio onde funciona a administração da cidade. Quem trata o professor como lixo não tem capacidade para administrar nada, muito menos uma cidade.
Queremos que o Prefeito, que se diz cristão, reflita sobre seus atos à luz do Evangelho e reveja sua determinação em não dialogar com os professores. Nosso desejo é que prevaleçam os valores humanos, que devem ser prioridade em qualquer situação.
Conclamamos os alunos e alunas, funcionários e funcionárias do setor de educação, bem como os pais dos alunos da rede municipal de ensino, a apoiarem nosso protesto contra a violência sofrida pelos professores, não apenas por solidariedade, mas pela consciência de que a luta deles é justa e visa um futuro melhor para todos.
Na esperança do cumprimento da justiça e da preservação dos valores morais, humanos e cristãos, desejamos a todos paz e bem

Fórum Articulação de Leigos Cristãos  na Arquidiocese de Olinda e Recife

CEBs – Comunidades Eclesiais de Base
CEBI - Centro de Estudos Bíblicos
Centro Educacional Profissionalizante do Flau (Turma do Flau)
Fé e Política Dom Helder Câmara
Grupo de Leigos Católicos Igreja Nova
Grupo de Partilha Amigos para Sempre na Fé e na Vida
Encontro da Partilha
Tenda da Fé
IDHeC - Instituto Dom Helder Câmara
Mística e Revolução - MIRE
Movimento de Cursilhos de Cristandade da Arquidiocese de Olinda e Recife
Movimento de Mulheres Contra o Desemprego
Movimentos de Trabalhadores Cristãos – MTC/NE II
Pastoral Carcerária
PJMP – Pastoral da Juventude do Meio Popular