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quinta-feira, 13 de abril de 2023

GOVERNO LULA – 100 DIAS, PRIMEIROS PASSOS


 Frei Betto

 

 

Hoje completam-se 100 dias do novo governo. O Lula 3 difere do que se viu nos dois primeiros mandatos. Agora, é menos sensível às diatribes do Mercado e mais aos direitos dos excluídos. Mais preocupado com o chão da sobrevivência digna que o teto de gastos. Mais com políticas sociais que fiscais. O Bolsa família, além do pagamento mínimo de R$ 600 por família, incluiu o adicional de R$ 150 por criança até 6 anos.

Nesses 100 dias, Lula, com respaldo do STF, salvou a nossa frágil democracia ao intervir no governo do Distrito Federal, prender e indiciar a horda terrorista que invadiu a Praça dos Três Poderes a 8/1. E as Forças Armadas voltaram a ter ciência de que estão “sob a autoridade suprema do Presidente da República”, conforme reza a Constituição. Lula tirou a Abin do controle dos militares e entregou-a à Casa Civil; deu 9% de aumento ao funcionalismo federal e isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 2.640; e aumento real do salário mínimo que, em maio, será de R$1.320,00. Há 60,3 milhões de pessoas com rendimentos referenciados no salário mínimo.

Na política externa, reforça a integração latino-americana e caribenha ao valorizar a Celac, em Buenos Aires e, diante do reaquecimento da guerra fria e do conflito geopolítico entre EUA e China , do qual a guerra na Ucrânia é resultado, posiciona o Brasil como promotor da paz em sintonia com a mais expressiva liderança pacifista da atualidade, o papa Francisco. Recebido por Biden na Casa Branca e, em breve, por Xi Xinping em Pequim, recoloca o Brasil como protagonista no xadrez da globalização.

O governo promoveu a retirada de garimpeiros do território Yanomami, assumiu o cuidado da saúde dessa nação indígena, mas ainda precisa reduzir o desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Lula atuou com presteza no socorro às vítimas da catástrofe climática no litoral Norte paulista; quebrou o sigilo de 100 anos de documentos oficiais que visavam a ocultar desmandos do governo anterior; reabriu a Farmácia Popular; criou o Conselho de Participação Social e o Conselho Político de Coalizão, que reúne 14 siglas partidárias; recriou o Conama, o Consea e o Conselho LGBTQIA+; aprimorou o Minha Casa, Minha Vida com a Medida Provisória para financiamento de imóveis usados em áreas urbanas e rurais. Com a correção feita pelo governo, o orçamento para compra de merenda escolar passa de R$ 4 bilhões para R$ 5,5 bilhões.

Na economia, o governo age com transparência malgrado a “tornozeleira eletrônica” da Lei Complementar no. 179/2021, que garante autonomia do Banco Central e mantém seu atual presidente, bolsonarista assumido, até o fim de 2024. Este insiste em manter elevada a taxa básica de juros (Selic), apesar do recuo da inflação. Isso trava o crescimento econômico. Lula convocou o apoio da opinião pública ao denunciar a exorbitância da taxa de juros e considerar “uma bobagem” a autonomia do BC.

Segundo o DataFolha (3/4), 80% acham que Lula acerta ao forçar a queda da Selic, e apenas 16% discordam. Por enquanto, Lula tenta transformar água em vinho ao misturar, no arcabouço, ingredientes que devem resultar em austeridade fiscal com margem para investimentos em políticas sociais.

Agora é desbolsonarizar o governo; desmilitarizar a administração pública; rever a reforma trabalhista de Temer, fortalecendo a negociação coletiva e os sindicatos; exorcizar o Ministério da Educação da ameaça da gestão empresarial da educação pública e revogar o “novo” ensino médio. E descobrir e punir quem matou Marielle e Anderson. Apesar da coalizão partidária que mistura alhos com bugalhos, foi positiva a recriação de grupos de trabalho interministeriais com participação da sociedade civil organizada. Sem educação política do povo e mobilização popular Lula não vencerá os imensos desafios que o Brasil tem pela frente.

E viva a criação do Ministério dos Povos Indígenas!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. (Livraria virtual: freibetto.org)

 



 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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quinta-feira, 6 de abril de 2023

GOVERNO LULA: RESGATE DE UMA PRIORIDADE

 

Frei Betto


 

      Lula já declarou que 4 anos passam muito rápido e ele tem pressa. Sabe que seu desafio prioritário é administrar um conjunto de medidas socioambientais: reduzir a desigualdade social; erradicar a fome e diminuir a insegurança alimentar; fazer a inflação refluir; evitar o desmatamento de nossos biomas; proteger os povos indígenas; preservar a floresta amazônica; reindustrializar o país; aumentar investimentos em infraestrutura.

      São medidas semelhantes às de seus dois primeiros mandatos e que o fizeram deixar o governo com 87% de aprovação. Na época, seu polo opositor era o PSDB que, visto de hoje, pode ser comparado a uma elegante dama que, numa batalha de canhões, empunha luzidia esgrima.

      O golpe liderado por Temer em 2016, que resultou na derrubada da presidenta Dilma; a prisão ilegal de Lula pela dupla Dallagnol-Moro; e a eleição de Bolsonaro em 2018; comprovaram que um governo não se sustenta apenas com boas ações administrativas. Nem com maioria parlamentar. É imprescindível outro ingrediente capaz de respaldar as lideranças políticas ainda que elas se encontrem fora do governo: apoio popular. Maquiavel demonstrou que sem o apoio do povo o príncipe não reina, ainda que não perca a majestade. 

      Como se conquista apoio popular em uma conjuntura na qual a mais extremada direita se parece a um pitbull que ladra forte, enquanto a esquerda emite fracos miados? Eis um desafio que os governos do PT jamais priorizaram em suas pautas – a politização do povo brasileiro. Basta dizer que as prefeituras de Maricá (RJ) e Ipatinga (MG) foram administradas por quatro mandatos petistas e nas eleições de 2022 os dois municípios deram vitória a Bolsonaro no primeiro e no segundo turnos. 

      O leitor talvez se pergunte como Bolsonaro, um obscuro deputado federal, foi capaz de se eleger presidente, arrebatar tantos apoiadores e mobilizar a turba fanática que vandalizou a Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro e, ainda hoje, prossegue disseminando o terrorismo presencial e virtual. 

      Bolsonaro apenas serviu de estopim para um bomba que vinha sendo alimentada há décadas, desde que o Brasil cometeu o erro de não acertar contas com três vergonhosas manchas de seu passado: a escravidão (hoje os negros são duplamente discriminados: por serem negros e por serem pobres, pois foi negado aos libertos o acesso à terra); a ditadura de Vargas (derrubado em 1945, o ditador voltou à presidência da República, por voto popular, em 1950); e a ditadura militar (torturadores e assassinos foram inocentados por uma esdrúxula lei da anistia). 

      Além dessas graves omissões, vivemos em um sistema capitalista que favorece as forças de direita ao exaltar a acumulação privada da riqueza acima dos direitos humanos; o supremacismo branco; a lei do talião como medida de justiça; o belicismo como solução às contendas. Toda essa conjuntura foi anabolizada por dois fenômenos, um atual – as  redes digitais e, outro, velho como o cachimbo de Adão - o fundamentalismo religioso.

      As redes digitais, controladas por plataformas visceralmente ligadas ao capital, favorecem o individualismo e o narcisismo, e proporcionam um relativo distanciamento propício à manifestação de nossos impulsos atávicos mais agressivos. Para muitos de seus usuários, elas são convenientes porque cancelam o diálogo e impõem o monólogo (mesmo quando coletivo e fechado em uma bolha identitária); permitem a emoção se sobrepor à razão; promovem a mentira à condição de pós-verdade; encobrem a verdadeira identidade do emissor; e escapam da legislação vigente, o que as torna inimputáveis. 

      O fundamentalismo religioso internaliza nos fiéis a “servidão voluntária”, induzindo-os a identificar a palavra do padre ou pastor com a de Deus; abdicar da razão crítica; negar a laicidade do Estado e mirar a política pela ótica da confessionalização, exigindo leis que reflitam os preceitos religiosos de determinado segmento eclesial. 

      Diante desse quadro, só resta ao governo Lula abraçar, como prioridade número 2, a educação política de nossa população. Tarefa que ele delegou à Secretaria Geral da Presidência da República e requer urgência no seu desempenho, tanto na capilaridade alcançada nacionalmente pelo governo federal (como as 22 milhões de famílias do Bolsa Família), quanto da poderosa máquina de comunicação do governo, como a EBC, a Voz do Brasil e a transversalidade da ação interministerial. 

      Para assegurar sua governabilidade, um governo necessita duas pernas: maioria parlamentar e apoio popular. Sabemos todos que a primeira é falha na atual legislatura. Resta a Lula desencadear intenso trabalho político para reforçar a segunda. E, para isso, não bastam boas ações administrativas, como Minha Casa, Minha vida, aumento do salário mínimo ou do emprego. É preciso trabalhar o universo epistêmico das pessoas, mudar a ótica de visão da realidade, o que só se consegue com educação. 

      É hora de trocar, definitivamente, Paulo Guedes por Paulo Freire. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

LULA EVITOU A QUEDA DO CÉU

 Frei Betto 


 

 

       Calcula-se que haja mais de 20 mil garimpeiros em busca de ouro no território Yanomami. O Brasil, no período colonial, foi o maior produtor mundial deste metal. Chegou a produzir 16 toneladas anuais provenientes de Minas Gerais. Neste estado se instalou a primeira mina subterrânea do Brasil – Morro Velho – operada pela St. John D’El Rey Mining Co., cuja história narro em meu romance “Minas do ouro” (Rocco). Desde sua abertura, em 1834, até hoje já foram produzidas legalmente 470 toneladas de ouro - aproximadamente 25% da produção brasileira acumulada no mesmo período (Vieira e Oliveira, 1988, Lobato et al., 2001).

       Com a descoberta do garimpo de Serra Pelada, na década de 1980, a produção brasileira saltou de cerca de 20 toneladas para mais de 100 toneladas anuais. 

       Segundo o IBRAM, em 2020 a produção do metal no Brasil alcançou faturamento de R$ 23 bilhões e, em 2021, saltou para R$ 27 bilhões. Em relação à exportação, os números passaram de 5 bilhões de dólares em 2020 para 5,3 bilhões de dólares em 2021, aumento de 8%. Foram 98,9 toneladas em 2020 e 103,9 toneladas exportadas em 2021. Em média, a extração de ouro no país movimenta R$ 14,2 bilhões por ano.

       Os principais compradores de ouro do Brasil em 2021 foram: Canadá (31,4%); Suíça (24,5%); Reino Unido (14,5%); Índia (11,5%); Emirados Árabes Unidos (8,1%); Bélgica (4,5%); Itália (3,4%); e Alemanha (1,1%).

       Garimpeiros revelaram, em audiência pública na Câmara dos Deputados em setembro de 2019, que os garimpos na Amazônia lucram de R$ 3 bilhões a R$ 4 bilhões por ano. Portanto, não se trata mais de uma atividade de pequeno volume, como define o Estatuto do Garimpeiro e ocorria em Serra Pelada. Na audiência, políticos e garimpeiros defenderam transformar garimpos ilegais na região em empresas legalizadas.

       "Tudo indica que estão sendo financiados por organizações poderosas. Não é fácil garimpar nas regiões remotas da Amazônia. Precisa de toda uma logística para levar barco, combustível e alimento para dentro da floresta. Tem garimpos com internet, antena parabólica, rádio. O garimpo de agora não é mais de pá e enxada, é com retroescavadeiras, maquinário caríssimo", afirmou, na ocasião, Antonio Oviedo, cientista ambiental do ISA. 

        O governo Bolsonaro tentou liberar a extração mineral em terras indígenas. O presidente chegou a assinar o projeto de lei 191/2020, que facultava a mineração nesses territórios de vários recursos minerais, inclusive petróleo e gás natural. 

       O garimpo é proibido, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM), apenas em dois casos: terras indígenas e em áreas maiores que 50 hectares. No que diz respeito ao tamanho, há possibilidade de exceção caso a lavra garimpeira (permissão para existência de um garimpo) seja requerida por uma cooperativa de garimpeiros. 

       Outra grande brecha na lei é na fiscalização do ouro garimpado ilegalmente; uma vez que o garimpeiro pode autodeclarar seu local de extração. Ao vender o ouro extraído de forma ilegal para as Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, os garimpeiros autodeclaram que foi retirado de áreas regularizadas de um outro dono ou das cooperativas. 

       A fiscalização deveria ocorrer, principalmente, no local de extração. Além de frágil fiscalização, documentos apontam a relação do garimpo ilegal na Amazônia com organizações criminosas, sobretudo em territórios indígenas, além de relação corrupta com o próprio poder público local. 

       Aqueles que estão em busca de ouro carregam consigo boa quantidade de mercúrio, em geral importado da Espanha, já que ele provém de solos vulcânicos, escassos em nosso país.

       Por que se utiliza mercúrio? Para identificar a existência de ouro em uma rocha. Mercúrio e ouro são vizinhos na tabela periódica. A diferença entre os dois elementos é de apenas um elétron. Essa proximidade permite que a fusão entre ambos seja rápida.

       O garimpeiro carrega uma vasilha de ferro cheia de mercúrio que, em estado metálico, não causa dano à saúde humana. Em temperatura ambiente, tem cor prateada. Ao enchê-la de pedras, o mercúrio se torna fosco. Com um maçarico, esquenta-se o mercúrio e este, ao evaporar, denuncia a presença do ouro na rocha. Aqui mora o perigo. 

       As gotículas de mercúrio, espalhadas pela evaporação, ao caírem no rio e no solo contaminam a água e a vegetação. As plantas respingadas transformam o mercúrio em metilmercúrio, substância altamente tóxica.

       O metilmercúrio afeta a saúde de dois modos: para o garimpeiro, que aspira o vapor do mercúrio aquecido, há o risco de intoxicação aguda, com inflamação e inchaço dos pulmões e problemas no aparelho digestivo. Para quem, como os indígenas, consome alimentos contaminados – peixes, frutas, verduras – os efeitos são mais danosos. Através da corrente sanguínea, o mercúrio ataca os rins, que não conseguem filtrá-lo devido ao peso – o que provoca atrofia muscular e ataca o sistema nervoso. 

       Os sintomas iniciais são dor de cabeça e insônia, seguidos de perda de memória, irritabilidade, demência, ansiedade e depressão. Essa intoxicação é de difícil tratamento. Os casos mais graves são tratados com quelante, substância que retira o mercúrio do organismo através da urina. Ainda assim, pode deixar sequelas. O sistema biológico de uma área atingida por mercúrio leva de 20 a 30 anos para ser reequilibrado.

       Ao agir com rigor frente ao genocídio dos Yanomami, o governo Lula combate uma grave modalidade de crime, protege os povos originários e defende a preservação da Amazônia. O capital não pode continuar a falar mais alto que o valor de vidas humanas.

      Lula evitou “a queda do céu”, segunda a crença Yanomami, a aniquilação da vida humana. No território desses indígenas, a vida humana volta a estar garantida pela presença dos espíritos da floresta e a conexão destes com os xamãs que, agora, têm paz para cuidar da organização estrutural da selva e das potencialidades de vida entre humanos e dos humanos com a natureza.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), romance sobre massacre indígena na Amazônia, entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

LULA E BOLSONARO: ASCENSÃO E QUEDA

 Frei Betto


 

       As trajetórias de Lula e Bolsonaro já foram exaustivamente analisadas do ponto de vista político. Não conheço, porém, nenhuma análise do ponto de vista dos arquétipos literários. Suas biografias são pratos cheios para uma nação como o Brasil, onde a maioria do povo é pobre e confia na sorte (ou no milagre) para sair do buraco. 

       No estudo de obras literárias, há técnicas de garimpar textos e descobrir por que causam tanto impacto a leitores de sucessivas gerações. O professor Matthew Jockers, das universidades de Nebraska e Vermont, analisou inúmeros romances. Chegou a seis tipos de arquétipos que servem de base à elaboração de narrativas complexas: 1) Ascensão (da pobreza à riqueza ou de má a boa sorte); 2) Declínio (de bom a mau, tragédia); 3) Ícaro (ascensão e declínio); 4) Édipo (declínio, ascensão e declínio de novo); 5) Cinderela (ascensão, queda, ascensão); 6) Homem no buraco (queda e ascensão).

       A pesquisa se baseou na análise de sentimento, uma técnica estatística usada por marqueteiros para analisar postagens em mídias digitais. Cada palavra é associada a uma "pontuação de sentimento". Assim, uma palavra é qualificada como positiva (feliz) ou negativa (triste), ou associada a emoções mais sutis, como medo, alegria, surpresa e anseio. Por exemplo, a palavra "abolir" é negativa, associada a raiva. 

       Ao fazer a análise de sentimento das palavras de um romance, percebe-se as mudanças de humor ao longo do texto, revelando um tipo de narrativa emocional. 

       Bons exemplos são “A divina comédia”, de Dante Alighieri; “Madame Bovary”, de Flaubert; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen; “Frankenstein”, de Mary Shelley; e “O patinho feio”, de Hans Christian Andersen. 

       “A divina comédia” é um poema épico de ascensão. O autor inicia por descrever sua jornada no inferno, acompanhado pelo poeta Virgílio. Eis ali "um homem no buraco". Ao sobreviver milagrosamente ao inferno, a dupla escala a montanha do purgatório, na qual repousam as almas dos excomungados, preguiçosos e luxuriosos. Beatriz, paixão e musa de Dante, substitui Virgílio como companhia e a ascensão do casal ao paraíso é marcada por crescente alegria. A alma do poeta se torna plena "do amor que move o sol e outras estrelas". 

       Lula se encaixa melhor no poema de Dante que Bolsonaro. Saiu da miséria (o inferno), padeceu uma vida de trabalhador assalariado (o purgatório) e, enfim, chegou a presidente da República com 87% de aprovação (o paraíso). Bolsonaro saiu do purgatório (sua fracassada e breve carreira militar) e chegou ao paraíso (eleito presidente). Sabe-se, porém, que caso seja derrotado no próximo dia 30 será condenado ao inferno (o retorno a uma vida sem mandato e o risco de cair nas malhas da Justiça). 

       Lula condiz com o arquétipo Cinderela. Após a ascensão à presidência, conheceu a queda sob as garras injustas da Lava Jato e, agora, experimenta a preferência eleitoral e poderá ser o primeiro brasileiro eleito três vezes para chefiar a nação. Neste caso, em 1º de janeiro de 2023 a faixa presidencial o cobrirá como o sapatinho ofertado pelo príncipe se adequou ao pé de Cinderela. 

       Bolsonaro sabe que está mais para Madame Bovary, que se deslumbrou com amores fortuitos, e corre o risco de, após o imprevisível voo que o alçou ao Planalto, cair como Ícaro no mais profundo abismo. 

       Esses arquétipos estão enraizados em nosso inconsciente. São amplamente utilizados em todas as narrativas ficcionais, como novelas de TV.  Causam maior impacto quando são realidade, como é o caso da família real britânica. Ela dispensa novelas de TV na Inglaterra. Os dramas – o tio que abdicou da coroa para se casar com uma mulher desquitada; a rainha longeva; o filho que se separa da mulher bela para se juntar à mulher feia; o príncipe flagrado em orgia; e o príncipe de “sangue azul” que se casa com uma mulher de “sangue negro” etc... – tudo isso atrai olhares e provoca a imaginação. 

       No dia 30 nossos votos haverão de acrescentar mais um capítulo à tragédia brasileira. Há aqueles que votarão pela “pontuação de sentimento negativo” (Bolsonaro) e aqueles que darão o seu voto à “pontuação de sentimento positivo”. Espero em Deus que a maioria dos eleitores vote sem medo de ser feliz. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Jesus militante – o Evangelho e o projeto político do Reino de Deus” (Vozes), entre outros livros.

 

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quinta-feira, 12 de maio de 2022

LULA, CANDIDATO A PRESIDENTE


Frei Betto

 

      Uma boa notícia neste mês de maio é a oficialização da candidatura de Lula à presidência da República. Diante do descalabro promovido pelo (des)governo Bolsonaro, o candidato do PT desponta como a alternativa preferencial dos eleitores nas eleições do próximo mês de outubro.

      Ainda é cedo para cantar vitória. Não se pode ignorar que, da parte do candidato à reeleição, todas as tramoias são possíveis. E a Justiça Eleitoral se encontra debilitada, acuada diante das frequentes ameaças que o Executivo e as Forças Armadas fazem a todo o sistema judiciário, a começar pelo STF, desmoralizado pelo indulto concedido por Bolsonaro a um deputado federal comprovadamente criminoso. 

      Um processo eleitoral não deveria estar focado na figura do candidato. A centralidade seria o programa de governo, os objetivos que persegue e os princípios que o norteiam. Mas isso é um luxo na atual conjuntura brasileira. Há tempos os partidos se transformaram em meros trampolins eleitorais. Não há seleção ideológica de novos militantes, formação de quadros ou impedimento de filiação daqueles cujas vidas pregressas não se coadunam aos princípios estatutários do partido. São todos caldeirões que contêm os mais variados, estranhos e antagônicos ingredientes. E como na história de José Leon Machado – “A bruxa e o caldeirão”- todos os caldeirões têm seus furos.

      As prioridades dos candidatos que polarizam a eleição estão definidas. Para Bolsonaro, trata-se de reeleger-se e prosseguir o desmonte Brasil e minar as instituições democráticas até que ele possa governar como senhor absoluto da nação. Para Lula, enfrentar as graves questões que afetam o país: desigualdade social, desemprego, inflação, sucateamento da saúde e da educação e retomada dos investimentos. 

      Aqueles que rejeitam as duas candidaturas preferenciais não encontraram, até agora, uma alternativa viável. Prevejo um volume expressivo, nas eleições de 2022, de abstenção e votos nulos e brancos. 

      O que mais me preocupa é o marasmo no qual se encontra a nação. Vide as pífias manifestações no 1º de Maio em pleno ano eleitoral! Nada de protestos de rua, como se a oposição estivesse desarticulada e desprovida de bases populares organizadas. Nada do entusiasmo que se viu em campanhas eleitorais precedentes. Será que os setores progressistas estão intimidados?

Acredito, porém, que o problema maior se resume a dois pontos: os partidos progressistas não têm clareza do Brasil que querem, das reformas estruturais urgentes, da relação orgânica com os marginalizados e excluídos. Há que valorizar a agricultura familiar e acabar com as isenções tributárias para o agronegócio? Há que continuar a manter a economia dependente das exportações de produtos primários (elegantemente chamados “commodities”) ou investir mais em inovações científicas e tecnológicas? 

      O segundo ponto é a falta de trabalho de formação política de militantes e fortalecimento dos movimentos sociais. O poder de mobilização popular dos partidos é mínimo. Paulo Freire permanece na estante. 

Não há tempo para reequacionar todos esses fatores. Resta a todos nós, convencidos de que é preciso tirar Bolsonaro do Planalto definitivamente, abraçar com disposição e ânimo a candidatura Lula. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

 

 

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sábado, 26 de março de 2022

O ex-presidente Lula é culpado

 


Prof. Martinho Condini


O ex-presidente Lula é culpado:

1. Por ter nascido no agreste pernambucano na década de 1940 e diferentemente da maioria das crianças que morriam de fome e desnutrição, ele resistiu e se manteve vivo;

2. Por ter chegado a São Paulo, apesar de todas as dificuldades enfrentadas para sobreviver e começar a trabalhar desde de criança, ele se manteve firme, e foi em busca de melhores condições de vida. Se se formou torneiro mecânico e novas perspectivas de vida foram surgindo; 

3. Por ingressar no movimento sindical nos anos de 1970, na diretoria do Sindicato dos  Metalúrgicos de São Bernardo do Campo;

4. Por se tornar no final da década de 1970,  presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. Ele liderou as principais greves de metalúrgicos em plena ditadura militar. A sua atuação junto com a sua diretoria e com o apoio dos trabalhadores, fez com que o movimento sindical no Brasil mudasse de patamar. A partir dos anos de 1980 o movimento sindical passa a ter muita força, também em outras categorias, e Lula se torna a principal liderança do movimento sindical do Brasil;

5. Por ter uma liderança e projeção nacional e internacional, que o levou com o apoio de trabalhadores, estudantes e intelectuais, fundar um partido político que representasse os interesses da classe trabalhadora. Foi fundado o Partido dos Trabalhadores, o PT, em 1980. Lula torna-se a principal liderança política do país, dos últimos 40 anos, e o PT o maior partido progressista de esquerda do mundo nos dias atuais;

6. Por ter sido eleito em 2002 presidente da república, e pela primeira vez o Brasil elegeu um brasileiro vindo das camadas mais pobres do Brasil,  em 2006 Lula é reeleito;

7. Durante os seus dois mandatos, Lula  tirou mais de 30 milhões de pessoas da condição de miseráveis, gerou mais de 15 milhões de empregos, deixou ao final do seu governo 378 bilhões de dólares em caixa, pagou a dívida externa, emprestou dinheiro para países pobres, fez a transposição do Rio São Francisco, criou um milhão de cisternas, fez mais de quatrocentas UPAS;

8. Na educação criou 382 Escolas Técnicas Federais, 18 Universidades Federais, aumentou em mais de 400% o número de estudantes pobres, negros e mestiços matriculados nas universidades deste país, criou o PROUNI, PRONATEC, FIES, PROJOVEM, Menor Aprendiz e o Brasil sem fronteira;

9. Aposentou todas e todos trabalhadores com mais 65 anos, criou o Bolsa Família, Farmácia Popular, Luz para todos, construiu mais de um milhão de casas no programa Minha casa, minha vida, no esporte criou Bolsa atleta, Bolsa pódio, Estatuto do torcedor, Lei de Incentivo ao esporte;

10. Lula reduziu a pobreza e a desigualdade social e levou o Brasil a 6ª potência econômica do mundo e sempre respeitou e respeita a ciência, a pesquisa e seus pesquisadores, os nativos e o meio ambiente;

11. Em 2018 Lula foi impedido de concorrer à presidência da república pela 3ª vez, foi condenado a prisão, e lá ficou por 580 dias, e dizia que sairia de lá e provaria que era inocente, e que a Lava Jato estava mentindo;

12. Hoje Lula é o principal candidato à presidência da república, lidera todas as pesquisas e foi absolvido pelo STF em todos os processos em que foi acusado e condenado pela Lava Jato;

13.  Lula ao se tonar presidente da república pela terceira vez este ano, não só se tornará o único a realizar esse feito, mas se consolidará como o maior presidente da história da nossa república, ninguém mais do que ele e seu governo trabalhou tanto para que a população trabalhadora desse país alcançasse uma condição digna como ser humano.

Enfim, Lula é o “culpado” por nos resgatar o esperançar e o acreditar, que é possível a classe trabalhadora desse país ser feliz de novo. 


*O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros ‘Dom Helder Camara um modelo de esperança’, ‘Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo’, ‘Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire’ e o DVD ‘ Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro ‘Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza’. Contato profcondini@g