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quinta-feira, 12 de maio de 2022

LULA, CANDIDATO A PRESIDENTE


Frei Betto

 

      Uma boa notícia neste mês de maio é a oficialização da candidatura de Lula à presidência da República. Diante do descalabro promovido pelo (des)governo Bolsonaro, o candidato do PT desponta como a alternativa preferencial dos eleitores nas eleições do próximo mês de outubro.

      Ainda é cedo para cantar vitória. Não se pode ignorar que, da parte do candidato à reeleição, todas as tramoias são possíveis. E a Justiça Eleitoral se encontra debilitada, acuada diante das frequentes ameaças que o Executivo e as Forças Armadas fazem a todo o sistema judiciário, a começar pelo STF, desmoralizado pelo indulto concedido por Bolsonaro a um deputado federal comprovadamente criminoso. 

      Um processo eleitoral não deveria estar focado na figura do candidato. A centralidade seria o programa de governo, os objetivos que persegue e os princípios que o norteiam. Mas isso é um luxo na atual conjuntura brasileira. Há tempos os partidos se transformaram em meros trampolins eleitorais. Não há seleção ideológica de novos militantes, formação de quadros ou impedimento de filiação daqueles cujas vidas pregressas não se coadunam aos princípios estatutários do partido. São todos caldeirões que contêm os mais variados, estranhos e antagônicos ingredientes. E como na história de José Leon Machado – “A bruxa e o caldeirão”- todos os caldeirões têm seus furos.

      As prioridades dos candidatos que polarizam a eleição estão definidas. Para Bolsonaro, trata-se de reeleger-se e prosseguir o desmonte Brasil e minar as instituições democráticas até que ele possa governar como senhor absoluto da nação. Para Lula, enfrentar as graves questões que afetam o país: desigualdade social, desemprego, inflação, sucateamento da saúde e da educação e retomada dos investimentos. 

      Aqueles que rejeitam as duas candidaturas preferenciais não encontraram, até agora, uma alternativa viável. Prevejo um volume expressivo, nas eleições de 2022, de abstenção e votos nulos e brancos. 

      O que mais me preocupa é o marasmo no qual se encontra a nação. Vide as pífias manifestações no 1º de Maio em pleno ano eleitoral! Nada de protestos de rua, como se a oposição estivesse desarticulada e desprovida de bases populares organizadas. Nada do entusiasmo que se viu em campanhas eleitorais precedentes. Será que os setores progressistas estão intimidados?

Acredito, porém, que o problema maior se resume a dois pontos: os partidos progressistas não têm clareza do Brasil que querem, das reformas estruturais urgentes, da relação orgânica com os marginalizados e excluídos. Há que valorizar a agricultura familiar e acabar com as isenções tributárias para o agronegócio? Há que continuar a manter a economia dependente das exportações de produtos primários (elegantemente chamados “commodities”) ou investir mais em inovações científicas e tecnológicas? 

      O segundo ponto é a falta de trabalho de formação política de militantes e fortalecimento dos movimentos sociais. O poder de mobilização popular dos partidos é mínimo. Paulo Freire permanece na estante. 

Não há tempo para reequacionar todos esses fatores. Resta a todos nós, convencidos de que é preciso tirar Bolsonaro do Planalto definitivamente, abraçar com disposição e ânimo a candidatura Lula. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

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sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Chega de desgraça: o ex-juiz Moro candidato

 Leonardo boff


 

         Como se não bastasse o horror da pandemia do Covid-19 que vitimou mais de 600 mil pessoas e a crise generalizada em todos os níveis de nosso país, temos que assistir agora ao lançamento da candidatura à presidência nada menos do que do ex-juiz Sérgio Moro, declarado parcial pelo STF.

        Ele representa a estirpe direitista do Capitão que trouxe a maior desgraça e vergonha ao nosso país, por sua criminosa incompetência no trato da pandemia, por lhe faltar qualquer indício de um projeto nacional, por estabelecer a mentira como política de Estado, por absoluta incapacidade de governar e por claros sinais de desvio comportamental . Ele mente tão perfeitamente que parece verdade, a mentira da qual é ciente.

        A vitória do Capitão é fruto de uma imensa e bem tramada fraude, suscitando o antipetismo, colocando a corrupção  endêmica no país, como se fosse coisa exclusiva do PT, quando sabemos ser  a do mercado (sonegação fiscal das empresas), dezenas de vezes maior que a política, defendendo alguns valores de nossa cultura tradicionalista, ligada a um tipo de família moralista  e de uma compreensão distorcida da questão de gênero, alimentando preconceitos contra os indígenas, os afrodescendentes, os quilombolas, os pobres, os homoafetivos, os LGBTI e divulgando  milhões de fake news, caluniando com perversa difamação o candidato Fernando Haddad. Informações seguras constataram que cerca de 80% das pessoas que receberam tais falsas notícias acreditaram nelas.

Por trás do triunfo desta extrema-direita, atuaram forças do Império, particularmente, da CIA e da Secretaria de Estado dos USA como o revelaram vários analistas da área internacional. Ai atuaram também as classes dos endinheirados, notórios corruptos por sonegar anualmente bilhões em impostos, parte do Ministério Público, as operações da Lava-Jato, eivadas de intenção política, ao arrepio do direito e da necessária isenção, parte do STF e com expressiva força o oligopólio midiático e a imprensa empresarial  conservadora que sempre apoiou os golpes e se sente mal com a democracia.

         A consequência é o atual o descalabro sanitário, político, jurídico e institucional. É falacioso dizer que as instituições funcionam. Funcionam seletivamente para alguns. A maioria delas foi e está contaminada por motivações políticas conservadoras e pela vontade de afastar Lula e o PT da cena política por representarem os reclamos das grandes maiorias exploradas e empobrecidas, historicamente sempre postas à margem.

A justiça foi vergonhosamente parcial especialmente o foi pelo justiceiro ex-juiz federal de primeira instância, agora candidato, que tudo fez para pôr Lula na prisão,mesmo sem materialidade criminosa para tanto. Ele sempre  se moveu, não pelo senso do direito, mas pelo law fare (distorção do direito para condenar o acusado), pelo impulso de rancor e por convicção subjetiva. Diz-se que estudou em Harvard. Fez apenas quatro semanas lá, no fundo para encobrir o treinamento recebido  nos órgãos de segurança dos USA no uso da law fare.

Conseguiu impedir que Lula fosse candidato à presidência já que contava com a maioria das intenções de voto e até lhe sequestraram o direito de votar. Agora Moro se apresenta como candidato à presidência,  arrebatando do Capitão a bandeira do combate à corrupção quando ele primou por atos corruptos e por conchavos com as grandes empreiteiras para fazerem delações forçadas que incriminassem a Lula e a membros do PT.

 A vitória fraudulenta do Capitão (principalmente por causa dos milhões de fake news) legitimou uma cultura da violência. Ela já existia no país em níveis insuportáveis (os mais de 30 a 40 mil assassinatos anuais). Mas agora ela se sente legitimada pelo discurso de ódio que o candidato e agora presidente continua a  alimentar. Tal realidade sinistra, trouxe como consequência,  um forte desamparo e um sofrido vazio de esperança.

Este cenário adverso ao direito e  a tudo o que é justo e reto, afetou nossas mentes e corações de forma profunda. Vivemos num regime militarizado e de exceção, num tempo de pós-democracia (R.R. Casara).  Agora importa resgatar o caráter político-transformador da esperança e da resiliência, as únicas que nos poderão sustentar no quadro de uma crise sem precedentes em nossa história.

Temos que dar a volta por cima, não considerar a atual situação como uma tragédia sem remédio, mas como uma crise fundamental que nos obriga a resistir, a aprender desta escabrosa situação e a sair mais maduros, experimentados e seguros, também da pandemia, para definir um novo caminho mais justo, democrático e popular.

Urge ativar o princípio esperança que é aquele impulso interior que nos leva a  nos mover sempre e a projetar sonhos e  projetos viáveis.São eles que nos permitem tirar sábias lições das dificuldades e dos eventuais fracassos e nos tornar mais fortes na resistência e na luta. Lembremos do conselho de Dom Quixote:”não devemos aceitar a derrota sem antes de dar todas as batalhas”. Daremos e venceremos.  

 

Importa evitar, dentro da democracia, a continuidade do atual e do pior projeto para o país, urdido de ódio, perseguição, negacionismo da ciência e da gravidade letal do Covid-19. É operado atualmente pelo Capitão e seus apaniguados e, supomos, prolongado pelo ex-juiz, candidato à presidência, cujas características, parece, se confundir  com aquelas do Inominável. Desta vez não nos é permitido errar.

Leonardo Boff escreveu: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

 

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

E SE O CANDIDATO QUE VOCÊ DETESTA GANHAR A ELEIÇÃO?




Por Frei Betto

      Praticar a democracia não é nada fácil. Uma roda de amigos conversava sobre preferências eleitorais. Fiz a pergunta: E se Bolsonaro for eleito presidente? Houve repúdio geral: “Saio do país”, disse um; “Ditadura de novo, nem pensar!”, reagiu outro. Um terceiro surpreendeu a todos ao declarar que talvez vote nele.
      E se Lula for candidato e ganhar? Novas reações de apoio e rejeição. “Nenhum governo fez tanto para o povo brasileiro como o PT”; “Seria legitimar a corrupção”, falou outro.
      O fato é que lidamos mal com a democracia. Exceto quando seus ventos sopram a favor de nossos interesses. Se o candidato que odeio for eleito cubro a democracia de maldições. Malditos eleitores que não sabem votar! Com certeza as urnas foram manipuladas! Ah, quem dera um novo golpe derrube o eleito!
      Porém, se o candidato de minha preferência for eleito presidente da República, viva o povo brasileiro! Afinal, predominou o bom senso! Os oportunistas foram derrotados!
      “Tudo em um Estado democrático deve ser um meio para atingir a democracia, mas a única coisa que não pode, nunca, tornar-se um meio é a própria democracia. Uma concepção meramente instrumental da democracia é a negação, cedo ou tarde, de uma sociedade democrática. Quem se vale da democracia para alcançar os próprios objetivos políticos acabará, em um momento ou outro, sufocando-a”, escreveu Norberto Bobbio (Entre duas Repúblicas - as origens da democracia italiana, Brasília/São Paulo, editora UnB/Imprensa Oficial de São Paulo, 2001).
      É equivocado, nas eleições deste ano, centrar o foco apenas em candidatos a presidente. Qualquer um que for eleito terá que se submeter às decisões do Congresso Nacional. Por isso é de suma importância votar bem para eleger deputados federais e senadores. Renovar o parlamento. Evitar que sejam eleitos ou reeleitos candidatos lobistas, interessados apenas em defender interesses corporativos, em geral por meios escusos.
      Na roda de amigos todos concordamos que é preciso pôr fim à carreira política daqueles que sempre defenderam os privilégios da minoria contra os direitos da maioria.
      Pelo nosso voto podemos fechar as portas do Congresso Nacional aos corruptos, oportunistas e nepotistas. O Brasil merece sair do atraso, ampliar suas políticas de proteção social, aumentar os recursos na saúde e na educação, reduzir drasticamente a desigualdade social, fonte da violência que assola o país. 
      Menos cadeias e mais escolas. Menos agrotóxicos e mais agricultura orgânica. Menos veículos particulares e mais transportes coletivos. Menos especulação financeira e mais produtividade. Menos criminalização dos movimentos sociais e mais respeito à diversidade. Menos maracutaias e mais transparência. Menos autocracia e mais democracia.
      Vote no projeto Brasil. E eleja quem é capaz de aglutinar forças sociais capaz de torná-lo realidade.

Frei Betto é escritor autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.

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