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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Vida em primeiro lugar! Você tem fome e sede de que?

 


Pe. Francisco Aquino Júnior


 

No dia 07 de setembro, dia da pátria, celebramos o Grito dos Excluídos/as. Igrejas, organizações populares e setores diversos da sociedade saem às ruas em todo o país, não para marchar como “soldado cabeça de papel”, mas para gritar como cidadãos e como pessoas de fé: Vida em primeiro lugar. É tanto um grito de protesto contra as várias formas de negação de direitos a amplos setores da sociedade, quanto um grito de afirmação e resistência populares nas lutas por direitos no campo e na cidade, quanto ainda um grito de alegria e celebração das conquistas populares. 

É muito significativo que essa manifestação aconteça no dia 07 de setembro. Uma forma de dizer – no protesto, na resistência e na festa – que o verdadeiro patriotismo e a verdadeira unidade nacional se dão na luta e afirmação da dignidade de todas as pessoas, mediante conquista e garantia de direitos. O Grito é ocasião privilegiada de expressão e animação das lutas e organizações sociais: celebração das lutas e conquistas; animação e fortalecimento das resistências e lutas populares. Como bem recorda Frei Carlos Mesters: “Luta sem festa, derrota na certa. Festa sem luta, vitória falsa”.

O Grito dos Excluídos/as acontece desde 1995. Nasce como fruto da 2º Semana Social Brasileira – “Brasil: Alternativas e Protagonistas”, em sintonia com a Campanha da Fraternidade daquele ano que tinha como tema “Fraternidade e Excluídos” e como lema “Eras Tu, Senhor?”. Em 1996, a Assembleia Geral da CNBB insere essa atividade no Projeto de Evangelização da Igreja no Brasil: “O Grito dos Excluídos será celebrado anualmente, em nível nacional, no dia 07 de setembro, retomando preferentemente o tema da Campanha da Fraternidade” (Documentos da CNBB 56, n. 129). Desde o início, o Grito foi uma atividade promovida com movimentos e organizações populares. Em alguns lugares, articulado pelas pastorais sociais. Em outros lugares, por movimentos e organizações populares. Mas sempre como atividade conjunta.

O tema do primeiro Grito foi “Vida em primeiro lugar”. Nos anos seguintes, isso se tornou o tema permanente do Grito, colocando sempre o desafio e a possibilidade de reconstrução do país: “Reconstrução que vai além de atender as demandas tão urgentes com políticas públicas, seja de combate à fome, à violência contra o povo preto e pobre nas periferias, contra os povos indígenas, à violência contra as mulheres e à população LGBTQIA+. Mas que passa também pelo respeito aos territórios indígenas e quilombolas e pela garantia dos direitos à moradia digna, reforma agrária e urbana, ao trabalho, à educação, saúde, cultura e lazer. Reconstrução que, sobretudo, promova o fortalecimento da democracia e da soberania e aponte para a construção de um projeto de sociedade onde a economia esteja a serviço da vida” (CNBB – Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora. Carta de apoio ao Grito dos Excluídos 2023).

O lema desse ano é: “Você tem fome e sede de que?”. Uma pergunta que faz ecoar os muitos gritos que vêm do campo e dos becos e periferias das cidades, ao mesmo tempo que exige de todos nós, como cidadãos e pessoas de fé, respostas concretas que atendam às necessidades e direitos de nosso povo. É claro que isso não dá a toque de mágica nem cai do céu. Exige muita luta e organização. Direitos se conquistam na luta. Não podemos cair na ilusão de que determinados governos vão garantir os direitos da população. Todos sabemos que os governos, por melhores que sejam ou pareçam, estão muito mais alinhados e amarrados aos grandes grupos econômicos do que parece…

Importa manter viva a esperança ativa do nosso povo: “esperança do verbo esperançar” que compromete e mobiliza; esperança fundada e dinamizada pelo Espírito de Deus que, a partir de baixo, consola, anima, desperta e mobiliza o povo na luta cotidiana pela sobrevivência e na organização e mobilização populares por direitos.

Que Deus abençoe os movimentos e organizações populares no campo e na cidade. E que o Gritos dos Excluídos e Excluídas anime nossas comunidades, pastorais e organizações populares na luta e conquista de direitos – sinal e instrumento do reinado de Deus nesse mundo que é um reinado de fraternidade, justiça e paz.

 

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Para que este ano novo se torne de fato Novo

 Marcelo Barros


Nestes dias, por todo o mundo, as pessoas dizem umas às outras os votos de feliz ano novo. Há quem acredite que, pelo fato de se falar, o desejo se torna realidade, quase de modo automático. Outros pensam que o próprio desenrolar do tempo faz as coisas ficarem melhores.

Alguns povos tradicionais ainda guardam costumes como, na noite do ano novo, queimar toda a roupa usada e iniciar esse tempo com vestimentas brancas ou novas, símbolo de renovação da vida. Na madrugada do primeiro dia do ano, fieis dos cultos afrodescendentes vão às praias e rios com flores e oferendas aos espíritos do céu e da terra. Em nome de todos os seres humanos, cantam sua disposição de amor e comunhão universal.

As perspectivas de 2023 para o mundo não parecem otimistas. A ambição das grandes potências, o interesse das industrias armamentistas e os projetos imperialistas dos Estados Unidos e da Rússia mantêm a guerra na Ucrânia e garantem outras guerras pelo mundo. A ONU ainda tenta salvar a ecologia a partir de projetos capitalistas como entregar a defesa da natureza a grandes empresas. A água continua sendo tratada como mercadoria a ser privatizada. Mesmo sabendo que as pandemias ameaçam toda a humanidade e ninguém se salva sozinho, a Organização Mundial da Saúde ainda se omite em relação à campanha mundial para que todas as vacinas contra vírus sejam gratuitas e para todos e todas.

Na América Latina, o sonho de uma pátria grande solidária exige mais esforços. A guerra dos meios de comunicação contra qualquer transformação do mundo a favor dos empobrecidos continua implacável.

No Brasil, o ano novo foi marcado pela imagem da posse de um novo governo. Na cerimônia, ficou marcada para a história a imagem de um velho índio, a criança negra, a catadora de material reciclável e mais outras pessoas, representativas da população mais empobrecida ao subir a rampa do palácio do Planalto com o presidente Lula. Tomara que este gesto tão forte de simbolismo não se dilua na cultura vigente que ainda mantém uma separação gritante entre governo e sociedade civil. No dia da posse, o ritual prevê o encontro do Presidente eleito com o Congresso e os poderes constituídos, mas o povo é mantido do lado de lá da cerca armada depois do lençol de água que separa o palácio da população. Parece que ao povo compete apenas acenar e aplaudir.

Para que, no Brasil e no mundo, este ano novo se torne realmente um tempo novo, será necessário firmar as bases de uma sociedade civil organizada a partir da inclusão social e de uma educação para a Paz, a não-violência e o diálogo. Sem dúvida, as religiões que, durante séculos, conviveram com as desigualdades e as injustiças sociais e muitas vezes as legitimaram, têm agora a função de desenvolver uma espiritualidade libertadora que testemunhe Deus como Amor e não como poder opressor.

No Fórum Social, ocorrido em Túnis, na África, em 2015, havia um grande folder no qual estava escrito: "A humanidade precisa de uma verdadeira revolução. Só a nossa ousadia pode torná-la possível". Essa ousadia comunitária parte da convicção de que o amanhã pode ser diferente. Para os cristãos, nos alegra mais ainda a fé de que, nesse caminho, estamos sempre acompanhado por Jesus ressuscitado que disse a seus discípulos/as: "Eu estarei com vocês todos os dias, até que esse tempo se complete" (Mt 28, 20).

 

 

 

 

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Uma democracia que forçosamente está por vir

 Leonardo Boff


 

Estamos todos empenhados em salvaguardar uma democracia mínima diante de um presidente desvairado que continuamente a ameaça. Como vivemos uma crise geral, paradigmática e irremissível, convém já agora sonhar com outro tipo de democracia.

Parto de um pressuposto,segundo dados de cientistas sérios,de que enfrentaremos dentro de poucos anos, devido ao acelerado e irrefreável aquecimento climático, grave risco de sobrevivência da espécie humana. A Terra será outra. Se quisermos continuar sobre este planeta temos que, por primeiro, minorar os efeitos danosos, com ciência e técnica e por fim, elaborarmos um outro paradigma civilzatório, amigável à vida e sentidono-nos irmãos e irmãs de  todos os demais seres vivos. Pois possuimos com eles o mesmo código  genético de base. Dizem-me:”você é pessimista”! Respondo com Saramago:”não sou pessimista; a realidade é que é pésssima” Já em 1962 a bióloga estadunidense Rachel Carson em seu famoso “A primavera silenciosa“(Silent Spring) advertia sobre a crise ecológica e concluía:”A questão consiste em saber se alguma civilização pode levar adiante uma guerra sem tréguas contra a vida sem destruir a si mesma e em perder o direito de ser chamada de civilização“. Por isso a urgência de mudarmos de paradigma e de modelo de democracia.

Dentro deste contexto realista proponho a urgência  de um outro tipo de democracia: a sócio-ecológica. Ela representaria a culminância do ideal democrático.

Subjacente a ela vigora também ideia originária de toda a  democracia:tudo o que interessa a todos e a todas deve ser pensado e decidido por todos e por todas.

Há uma democracia direta em pequenas comunidades. Quando são maiores, projetou-se a democracia representativa. Como, geralmente, os poderosos a controlam, propôs-se uma democracia participativa e popular  na qual os do andar de baixo podem participar na formulação e acompanhamento das políticas sociais. Avançou-se mais e descobrimos a democracia comunitária, vivida pelos povos andinos, na qual todos participam de tudo dentro de uma grande harmonia ser humano-natureza. Viu-se que a democracia é um valor universal (N.Bobbio) a ser vivida cotidianamente, uma democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos). Face ao risco da eclipse da espécie humana, todos para se salvar se  uniriam ao redor da superdemocracia planetária (J.Attali).

Mais ou menos nesta linha, penso numa democracia sócio-ecolôgica.Os sobreviventes das mutações da Terra, estabilizando seu clima médio por volta de 40 ou mais graus Celsius, como forma de sobrevivência, forçosamente, terão que  a se relacionar em harmonia com a natureza e com a Mãe Terra. Dai se propõem a constuir uma democracia sócio-ecológica. È social por envolver a toda a sociedade. É ecológica porque o ecológico será o eixo estruturador de tudo.Não como uma técnica para garantir a sustentabilidade do modo de vida humana e natural mas como uma arte, um novo modo de convivência terna e fraterna com a natureza. Não obrigarão mais a natureza a adaptar-se aos propósitos humanos. Estes se adequarão aos ritmos da natureza, cuidando dela, dando-lhe repouso para se regenerar. Sentir-se-ão não apenas parte da natureza mas a própria natureza, de sorte que cuidando dela, estão cuidando de si mesmos, coisa que os indígenas já sabiam.

Esse tipo de democracia sócio-ecológica possui um base cosmológica. Sabemos pela nova cosmogênese, pelas ciências do universo,da Terra e da vida que todos os seres são interdependentes. Tudo no universo é relação e nada existe fora da relação A constante básica que sustenta e mantém o universo ainda em expansão  é constituída pela sinergia,pela simbiose e pela inter-retro-relacionalidade de todos com todos. Mesmo a compreensão de Darwin da sobrevivência dos mais adaptado se inscreve dentro desta constante universal. Por isso cada ser possui o seu lugar dentro do Todo. Até o mais débil pelo jogo das interrelações tem sua chance de sobreviver.

A singularidade do ser humano e isso foi comprovado pelos neurólogos, geneticistas, bioantropólogos e cosmólogos, é comparecer como um ser-nó-de-relações, de amorosidade, de cooperação, de solidariedade e de compaixão.Tal singularidade aparece melhor quando a comparamos com os símios superiores dos quais nos diferenciamos em apenas com 1,6% de carga genética. Eles possuem também uma vida societária. Mas se orientam pela lógica da dominação e hierarquização. Mas nós nos diferenciamos deles pelo surgimento da cooperação. Concretamente, quando nossos ancestrais humanóides saiam para buscar seus alimentos, não os comiam individualmennte. Traziam-nos para o grupo e viviam a comensalidade solidária. Esta os fez humanos, seres de amor de cuidadeo e cooperação.

A ONU admitiu que tanto a natureza quanto a Terra são sujeitos de direitos.São os novos cidadãos com quais devemos conviver amigavelmente. A Terra é uma entidade biogeofísica, Gaia, que articula todos os elementos para continuar viva e produzir todo tipo de vida. Num momento avançado de sua evolução e complexidade, ela começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Surgiu,então, o ser humano, homem e mulher que são a Terra pensante e amante.

Ela se organizou em sociedades, também democráticas, das mais diferentes formas.Mas hoje porque soou o alarme ecológico planetário devemos, com sabedoria,  forjar uma democracia diferente, a  sócio-ecológica.

Se quiermos sobreviver juntos, esta democracia se caracterizará por ser uma biocracia, uma geocracia, uma sociocracia, uma cosmocracia, em fim, uma democracia  ecológico-social ou sócio-ecoógica. O tempo urge. Devemos gerar uma nova consciência e nos preparamos para as mudanças e adaptação que não tardarão em chegar.

Leonardo Boff escreveu com Jürgen Moltmann “Há esperança para a criação ameaçada? Vozes 2014.

 

sábado, 6 de agosto de 2022

A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir

 


Prof. Martinho Condini

Caras amigas e amigos!

 

Quando achamos que todo o Brasil está contaminado pela herança maldita dessa carniça de presidência e seu repugnante governo, somos surpreendidos positivamente com trabalhos realizados por esse Brasilzão. Isso nos dá alento para lutar por um país melhor. E também perceber que somos constituídos em sua maioria por um povo que tem muita vontade em colaborar na construção de uma sociedade plena e digna. E um dos caminhos para essa construção é a educação, mas não qualquer educação, mas uma educação libertadora.

 

Estou dizendo isso porque tive a oportunidade de presenciar dias atrás, uma das experiências mais significativas e incríveis em minha vida como educador, e olha que são mais de trinta anos trabalhando com educação.

Essa grata surpresa quem me proporcionou foi a acolhedora cidade de Palmas de Monte Alto, no sudoeste da Bahia, por meio de dois projetos: “Escola em Tempo Integral” e “Profeintegral”, que estão sendo implantados pela prefeitura e a secretaria da educação do município, que possui uma equipe incrível de trabalho, muito competentes e comprometidos, secretária da educação, toda a equipe da secretaria,  gestoras, gestores, coordenadoras, coordenadores, educadoras e educadores, esses para mim, os mais importantes desse processo. Este audacioso projeto tem os educandos e educadores como os principais sujeitos a serem beneficiados, ambos em suas formações de maneira integral, por meio de ações pontuais, coletivas e dialogadas. Aos educadores a capacitação e para os estudantes a formação. 

Parafraseando o grande educador, escritor e poeta Rubem Alves, eu digo que ao chegar em Palmas de Monte Alto, eu vi a “A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir”, digo isso, porque é um projeto em andamento, sendo construído por toda a comunidade escolar.

No meu ponto de vista, para os padrões econômicos e financeiros de Palmas de Monte Alto, desenvolver um projeto como esse, é algo surpreendente, encantador, é de encher os nossos olhos d’água e o coração de esperançar e acreditar, sim, que a “utopia possível” é algo atingível quando se pensa de maneira homogênea e com o intuito de alcançar um ideal coletivo.

É claro que no processo há dificuldades e desafios, mas esses serão superados na luta diária e com muita coragem, e isso não falta para as educadoras e educadores de Palmas de Monte Alto.

O que vi lá, foram escolas muito bem cuidadas com toda a infraestrutura que as crianças precisam desde a creche até o ensino médio. Nesta Escola em Tempo integral os estudantes fazem três refeições ao dia, há o acompanhamento de nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos. Há escolas que possuem hortas. Desenvolve-se projetos de formação musical e esportes.

No período da manhã os estudantes têm as disciplinas do núcleo comum e a tarde estão sendo instituídos e aprimorados o desenvolvimento de projetos, escolhidos por eles, que terão a autonomia para desenvolve-los, com a orientação de um educador ou educadora das áreas afins ao projeto escolhido. Isso significa para o estudante pertencimento e autonomia no processo de ensino aprendizagem. Está escola está proporcionando a esses estudantes construir o seu conhecimento libertador e não “bancário”, relembrando o mestre Paulo Freire.  

A maneira que Palmas de Monte Alto encontrou para dar melhor qualidade de vida aos seus filhos foi investindo num projeto arrojado em Educação em Tempo Integral que possibilitará a cristalização cidadã de suas crianças, jovens e adultos e uma formação humana e intelectual para a vida e vida em abundância.

 Estou plenamente convencido que este grande projeto está sendo e será ainda mais um divisor de águas para todas e todos os habitantes de Palmas de Monte Alto, porque o investimento na educação traz benefícios para toda a coletividade.

Boa sorte e ninguém solta a mão de ninguém.      

 

 

 

  

 

 

 

sábado, 9 de julho de 2022

A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir

 



Prof. Martinho Condini

Caras amigas e amigos!

 

Quando achamos que todo o Brasil está contaminado pela herança maldita dessa carniça de presidência e seu repugnante governo, somos surpreendidos positivamente com trabalhos realizados por esse Brasilzão. Isso nos dá alento para lutar por um país melhor. E também perceber que somos constituídos em sua maioria por um povo que tem muita vontade em colaborar na construção de uma sociedade plena e digna. E um dos caminhos para essa construção é a educação, mas não qualquer educação, mas uma educação libertadora.

 

Estou dizendo isso porque tive a oportunidade de presenciar dias atrás, uma das experiências mais significativas e incríveis em minha vida como educador, e olha que são mais de trinta anos trabalhando com educação.

Essa grata surpresa quem me proporcionou foi a acolhedora cidade de Palmas de Monte Alto, no sudoeste da Bahia, por meio de dois projetos: “Escola em Tempo Integral” e “Profeintegral”, que estão sendo implantados pela prefeitura e a secretaria da educação do município, que possui uma equipe incrível de trabalho, muito competentes e comprometidos, secretária da educação, toda a equipe da secretaria,  gestoras, gestores, coordenadoras, coordenadores, educadoras e educadores, esses para mim, os mais importantes desse processo. Este audacioso projeto tem os educandos e educadores como os principais sujeitos a serem beneficiados, ambos em suas formações de maneira integral, por meio de ações pontuais, coletivas e dialogadas. Aos educadores a capacitação e para os estudantes a formação. 

Parafraseando o grande educador, escritor e poeta Rubem Alves, eu digo que ao chegar em Palmas de Monte Alto, eu vi a “A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir”, digo isso, porque é um projeto em andamento, sendo construído por toda a comunidade escolar.

No meu ponto de vista, para os padrões econômicos e financeiros de Palmas de Monte Alto, desenvolver um projeto como esse, é algo surpreendente, encantador, é de encher os nossos olhos d’água e o coração de esperançar e acreditar, sim, que a “utopia possível” é algo atingível quando se pensa de maneira homogênea e com o intuito de alcançar um ideal coletivo.

É claro que no processo há dificuldades e desafios, mas esses serão superados na luta diária e com muita coragem, e isso não falta para as educadoras e educadores de Palmas de Monte Alto.

O que vi lá, foram escolas muito bem cuidadas com toda a infraestrutura que as crianças precisam desde a creche até o ensino médio. Nesta Escola em Tempo integral os estudantes fazem três refeições ao dia, há o acompanhamento de nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos. Há escolas que possuem hortas. Desenvolve-se projetos de formação musical e esportes.

No período da manhã os estudantes têm as disciplinas do núcleo comum e a tarde estão sendo instituídos e aprimorados o desenvolvimento de projetos, escolhidos por eles, que terão a autonomia para desenvolve-los, com a orientação de um educador ou educadora das áreas afins ao projeto escolhido. Isso significa para o estudante pertencimento e autonomia no processo de ensino aprendizagem. Está escola está proporcionando a esses estudantes construir o seu conhecimento libertador e não “bancário”, relembrando o mestre Paulo Freire.  

A maneira que Palmas de Monte Alto encontrou para dar melhor qualidade de vida aos seus filhos foi investindo num projeto arrojado em Educação em Tempo Integral que possibilitará a cristalização cidadã de suas crianças, jovens e adultos e uma formação humana e intelectual para a vida e vida em abundância.

 Estou plenamente convencido que este grande projeto está sendo e será ainda mais um divisor de águas para todas e todos os habitantes de Palmas de Monte Alto, porque o investimento na educação traz benefícios para toda a coletividade.

Boa sorte e ninguém solta a mão de ninguém.      

 

 

 

   

 

 

 

domingo, 12 de junho de 2022

A DOR QUE MINA

 

Marcelo Mário de Melo



Águas de desigualdade 

dó 

     minam

                 dor

nas barreiras 

que soterram corpos 

nos invernos da periferia

$ob o olhar 

do $enhor $apien$.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Pau que bate em Chico, nem sempre bate em Francisco

 


Prof. Martinho Condini


 

A visita de Bolsonaro há Putin pelo jeito não adiantou nada. Putin não ouviu os seus conselhos e a Rússia invadiu a Ucrânia na última quinta-feira. A credibilidade de Bolsonaro na Rússia não é das melhores.

Essa invasão deixou o mundo estarrecido. Depois de tanto sofrimento nos últimos dois anos diante da pandemia, os homens foram capazes de iniciar uma guerra, injustificável para muitos. Para quem ainda não conhecia muito bem, isto é o ser humano, ele se movimenta segundo os seus desejos e interesses.

A Rússia de Putin invade a Ucrânia de Zelenski, só porque estes querem pertencer a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), criado pelos países ocidentais e liderados Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.

Para a Rússia a entrada da Ucrânia na OTAN, significa a possibilidade de a Ucrânia ter tropas do exército americano na Ucrânia, ou seja, muito próximo de Moscou. O que é algo inaceitável para a Rússia de Putin. E se levarmos em conta a sigla OTAN, a Ucrânia não tem nada a ver com o Atlântico Norte e com os países ocidentais europeus, mas isso não vem ao caso neste momento. 

Pensando pelo lado da questão humanitária e em defesa da soberania nacional, nenhum país tem o direito de invadir outro porque o país invasor se sinta ameaçado por algo que não ocorreu, neste caso a entrada da Ucrânia na OTAN.

É claro que os motivos dessa invasão são muito mais complexos. O motivo da minha indignação sobre esse acontecimento é outro. Até porque não nutro nenhuma simpatia e admiração por  Putin e Zelenski e muito menos pelos seus governos.

O que me chamou atenção nesses últimos dois dias, foi a maneira como a imprensa em geral tratou esse assunto. Não que eu esteja dando razão para a atitude de Putin, muito pelo contrário, mas a forma da narrativa que o ocidente de um modo geral está tratando o assunto, como se essa invasão fosse uma catástrofe de proporções gigantescas e que algo parecido nunca tenha ocorrido na história da humanidade.

E aí eu pergunto, e as centenas de vezes que Israel bombardeou a faixa de Gaza contra os palestinos ou o Líbano preventinamente, nos últimos setenta anos?

Quantos países os Estados Unidos invadiram alegando autodefesa ou defesa de outros países desde o início da Guerra Fria e pós-Guerra Fria?

Apenas para refrescar a nossa memória, o que Putin fez na Ucrânia, Bush pai, Bush filho, Obama, Nixon, Carter e outros invadiram o Vietnã, Iraque, Líbia, Síria, Afeganistão, Ruanda, Palestina e outros países que não me lembro no momento.

Eu não me recordo da midia brasileira (há exceções) se indignarem tão veementemente com esses acontecimentos, como ocorre no caso Rússia/Ucrânia, onde chegaram a dizer que é o pior conflito depois da Segunda Guerra Mundial, talvez seja mesmo, mas para os brancos.

Essa atitude me faz levantar a hipótese que boa parte da midia brasileira, agem de maneira diferente dependendo do país imperialista que comete a invasão, alguns são vistos como super-homens defensores da paz e da justiça mundial e outros são vistos como inconsequentes, irresponsáveis, causadores de uma invasão brutal e precursores do estopim de uma possível terceira guerra mundial.

Enfim, no mundo ocidental capitalista, neoliberal e judaico-cristão, ao qual está incluída a mídia brasileira, pau que bate em Chico, nem sempre bate em Francisco.

*O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros ‘Dom Helder Camara um modelo de esperança’, ‘Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo’, ‘Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire’ e o DVD ‘ Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro ‘Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza’. Contato profcondini@g

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Que porra é essa!

 


Prof. Martinho Condini

Há três anos estamos vivendo sobre as rédeas (itens de aderência para ser utilizadas em cavalos, burros ou mulas) do pior governo da história brasileira, sem contar é claro, com os séculos da escravização dos negros africanos (a maior vergonha da nossa história) e a excrescência da Ditadura Militar, admirada por tantos brasileiros e brasileiras, para minha surpresa, muitos deles cristãos.     

Há mais de trinta anos como professor de história e de formação de professores, confesso nunca ter ouvido e lido tanta asneira, principalmente nas redes sociais, uma terra de ninguém. Coincidência ou não, essas falas e escritas se acentuaram a partir do momento em que os simpatizantes da direita e das práticas e ideias bolsonarentas, ou seja, os anti vacinas, negacionistas, terraplanistas, armamentistas, sexistas e homofóbicos resolveram compartilhar suas reflexões e opiniões, muitas delas embasadas no pensamento do guru bolsonarento, o picareta, desqualificado e falecido Olavo de Carvalho.  

 Soma-se a esse espetáculo dos horrores às atitudes que esse desgoverno bolsonarento vem fazendo desde sua posse e irá fazer até o final desse ano. E chegamos à conclusão de que nada mais pode ser tão ruim.  Aí está o grande engano, se as coisas estão ruins podem ficar ainda pior.  Colaboradores para isso não faltam nesse Brasil desatinado e tão maltratado nesses últimos anos.

A afirmação acima se justifica a partir da leitura que fiz ao abrir um jornal de circulação nacional dias atrás, quando me deparei com um artigo sobre o Racismo Negro.

 Que porra é essa?

Onde esses supremacistas brancos querem chegar? Será que todo esse histórico de domínio da elite branca colonial judaico-cristã capitalista em nossa sociedade não foi o suficiente para deixar as maculas da pouca vergonha por eles realizadas. Será que o vergonhoso processo de embraquecimento da nossa sociedade a partir da imigração europeia no último quarto do  século XIX,  e a criação e consolidação desse racismo estrutural que nos atormenta diuturnamente com as atrocidades que são feitas com afro descentes de norte a sul desse Brasil desde sempre não foram suficientes?     

Não é possível que num país que tem uma história de quase quatrocentos anos de escravidão, onde os afros descentes até hoje não são tratados de maneira digna pelo Estado, temos que aceitar que um desinfeliz venha ter espaço para escrever um texto supremacista, reacionário, imoral, antiético e estapafúrdio no atual momento da nossa história? Um artigo que serve apenas para acalentar a classe média burra e a elite branca reacionária.

Estamos desde o golpe da presidenta Dilma Rousseff lutando contra essa corja de fascistas, homofóbicos, sexistas, que respaldados por esse governo inescrupuloso ganhem cada vez mais adeptos nas redes sociais. Hoje no Brasil, temos mais de 500 grupos neonazistas. E aí vem esse desinfeliz escrever esse artigo fasistóide e nojento a troco de quê?

O mais incrível é que alguns colunistas desse mesmo jornal em que o artigo foi publicado, disseram que não viram nada demais alguém escrever um artigo com essa temática. Isso é inacreditável.

Como mencionou um colunista desse mesmo jornal, contrário ao artigo, “Em 2015, Dylann Roof, aos 21 anos, entrou numa histórica igreja negra em Charleston, na Carolina do Sul (EUA), e matou a tiros nove pessoas. Roof afirmou: "Alguém tinha que fazê-lo porque, sabe, os negros estão matando os brancos toda hora na rua". Em manifesto, relata ter buscado na internet por "crime de negros contra brancos" (black-on-white crime) e, a partir daí, nunca seria o mesmo”.

Se já não bastasse a discriminação, a perseguição e os assassinatos contra os negros no Brasil, a longa data, agora os supremacistas passam a ter também espaço nos jornais, ou seja, começam a sair das suas asquerosas bolhas para serem influenciadores nas mídias escritas.

Os antirracistas devem ficar atentos a esse tipo de publicação, enquanto eles estão falando dentro de suas bolhas para os seus pares de fasistóides é uma coisa. Mas no momento em que essas falas ganham espaço público e chegam ao gado bolsonarento, isso pode engrossar ainda mais o coro dos abestalhados da república dos canalhas.

E para esse desinfeliz que escreveu o artigo do Racismo Negro, é bom que ele saiba que entre os três últimos finais de semana de janeiro/2022, foram registrados doze linchamentos nas praias e bairros da zona sul da cidade do Rio de Janeiro.

O homem negro que morreu espancado num supermercado sabe lá porquê, em Porto Alegre, em 20 de novembro de 2020 (Dia da Consciência Negra), o congolês que foi covardemente executado no quiosque porque foi cobrar o pagamento dos dias trabalhados e o trabalhador negro que foi brutalmente assassinado pelo seu vizinho sargento da marinha (um vagabundo profissional), ambos na cidade do Rio de Janeiro dias atrás e esses outros linchamentos que mencionei ocorreram por causa do Racismo Negro?

Os supremacistas brancos não tem vergonha em suas caras, e estou convencido que um dia  essa história irá mudar, porque a história é movimento e não determinismo.

Infelizmente o DNA do Brasil é de um país radicalmente racista, preconceituoso e violento, e para mudar isso acredito que demorará o dobro do período de escravização dos negros africanos em nosso país. Essa realidade é lamentável e vergonhosa para todos nós brasileiros e brasileiras que defendemos e acreditamos na igualdade e dignidade para todos os seres humanos.

 

*O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros ‘Dom Helder Camara um modelo de esperança’, ‘Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo’, ‘Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire’ e o DVD ‘ Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro ‘Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza’. Contato profcondini@g

domingo, 5 de setembro de 2021

BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM FOME E SEDE DE JUSTIÇA - PARA UM 7 DE SETEMBRO


Pe. Fabio Potiguar dos Santos


Num dia bem cedo, naquele momento onde não se é mais noite nem tão pouco ainda é dia, no tempo do antigo testamento, um grupo de jovens semitas subiram o monte para salmodiar. Um levava a harpa, outro a cítara, um ainda carregava a flauta e mais um, o pandeiro.  Eles cantavam o Salmo 85,10: “ A verdade e o amor se encontram; a justiça e a paz se beijam e abraçam”.

Centenas de anos depois um jovem, Deus jovem, Aquele que nos amou antes que amássemos a Ele (1 Jo 4,19), Aquele que tendo nos amado nos amou até o fim (Jo 13,1), falava “para multidão que ficava admirada com as palavras cheia de graça e de encanto que saiam de sua boca” (Lc 4,22) e sua “boca falava do que estava cheio o coração” (Cf Lc 6,45, por isso, “experimentaram a beleza da palavra de Deus” (Hb 6,5)  e Ele mesmo era a “Palavra que se fez carne e habitou entre nós”(Jo 1,14)e então disse no  Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados” (Mt 5, 6).

Aqui está, para mim, a fundamentação mística, ética, estética, teológica e pastoral do engajamento apaixonado dos cristãos com a promoção da dignidade humana, da justiça social, da democracia,  dos Direitos Humanos civis e políticos, assim como dos Direitos Humanos econômicos, sociais, culturais e ambientais  e do cuidado com a Casa Comum ( que é sujeita de direitos!)

Nós temos fome e sede de justiça porque comemos do Pão da Vida (Jo 6,51) e bebemos da Água da Vida que Ele nos dar (Jo 4, 14). Nós temos fome e sede de justiça porque comemos a verdadeira comida e bebemos a verdadeira bebida, sua carne, Ele feito carne, e bebemos o seu sangue (Jo 6,55).Nós temos fome e sede de justiça porque comendo da sua carne e bebendo do seu sangue, Ele permanece em nós e nós nele (Jo 6,56).

Nós temos fome e sede de justiça porque Ele nos disse tomando o pão, tomai e comei, isto é meu corpo. Tomai e bebei isto é o meu sangue (Mc 14,22-25). É porque tomamos e comemos desse pão, é porque tomamos e bebemos desse cálice que, ao tomarmos, ao mesmo tempo que somos saciados, ficamos, por causa dessa comida e bebida, famintos e sedentos dessa bem-aventurança. Quem luta pela justiça, é solidário, generoso e promove a partilha que Jesus nos ensinou na Multiplicação dos Pães, onde os gestos são o da Última Ceia: “ Jesus tomou os pães e, deu graças, partiu-os e deu aos seus discípulos...”(Jo 6,11).

Nós temos fome e sede de justiça porque em Mateus, capítulo cinco, versículo seis, ele nos chama de Bem-aventurados e, no capítulo vinte cinco, versículos trinta e quatro e trinta e cinco, Ele nos chama de Benditos. Foi por causa dessa sede e dessa fome que pudemos dar de comer a quem tinha fome e de beber a quem tinha sede tanto na dimensão mais emergencial e urgente, bem como, e principalmente na dimensão de mudanças estruturais.

A fundamentação da opção preferencial pelos pobres é cristológica. Para Eucaristia Jesus diz, “Isto é o meu corpo e sangue”. Para o pobre ele diz “ tive fome... foi a mim que o fizestes” (Mt 25,35.40). Aliás, o que é profecia no Antigo Testamento se torna cumprimento e realização no Novo. “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne? “(Is 58,6-7)

O Catecismo da Igreja Católica (1397) nos recorda muito bem:  A Eucaristia compromete-nos com os pobres: Para receber, na verdade, o corpo e o sangue de Cristo entregue por nós, temos de reconhecer Cristo nos mais pobres, seus irmãos (Mt 25,40) Pode resultar, que mesmo tendo celebrado muitas Missas, que corramos o risco de ouvir lá no final: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo preparado o diabo e para os seus anjos. Pois tive fome e não me deste de comer, tive sede e não me deste de beber” (Mt 25, 41-42).

O que dirão, meu Deus, os que substituíram  a paz e o amor do seu Anúncio pelas agressões e o ódio, que trocaram a justiça pela exploração dos pobres e a devastação da natureza? Seria deus e não Deus? Seria jesus e não Jesus? Que deixam o Estado Democrático de Direito, burguês., por propostas totalitárias e ditatoriais? Aonde se fundamentam na Doutrina da Igreja? São meu irmãos e irmãos, e amo-os com a ternura de Cristo Jesus (Fl 1,8) .

Imagina Deus dizer para os que vão as missas : “Desprezo as vossas festas, e os incensos de vossas assembleias solenes não me exalam bom cheiro. E ainda que me ofereçais holocaustos, ofertas de alimentos, não me agradarei delas; nem atentarei para as ofertas de vossos animais gordos. Afasta de mim o barulho dos vossos cânticos; porque não ouvirei as melodias de vossas liras. Eu quero, isto sim, é ver brotar o direito como água e a justiça como torrente que não seca. (Am 5,21-24)

Tomemos os nossos instrumentos sonoros, aqueles que temos nas mãos ou no coração. Salmodiemos este encontro da verdade e do amor, que é o Cristo.

Vamos juntos com Dom Helder Camara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom Paulo Evaristo, Dom José Maria Pires, Dom Fragoso, Padre Antônio Henrique,Irmã  Dorothy Stang, Padre Josimo, Margarida Maria Alves, Santo Dias, Dermi Azevedo e inumerável multidão de mulheres e de homens.

Vamos, “a marcha final vai ser linda de viver...”  como ouvimos emocionados e todo arrepiados  na voz poética e profética do Dom em Invocação à Mariama e, Milton Nascimento, ao fundo, numa canção negra antiga e inefável.

 Vamos!Vamos em frente motivados pela palavra de um bispo de Roma latino americano de Buenos Aires, Argentina, quando da sua Mensagem de Natal de 2020 a Cúria se referindo a Dom Helder,  “aquele santo bispo brasileiro”, disse: “Lembremo-nos que só conhece verdadeiramente a Deus quem acolhe o pobre que vem de baixo com a sua miséria e que, precisamente nestas vestes, é enviado do Alto; não podemos ver o rosto de Deus, mas podemos experimentá-lo ao olhar para nós quando honramos o rosto do próximo, do outro que nos ocupa com as suas necessidades. O rosto dos pobres. Os pobres são o centro do Evangelho. E recordo o que dizia aquele santo bispo brasileiro: «Quando me ocupo dos pobres, dizem de mim que sou um santo; mas, quando me pergunto e lhes pergunto: “Porquê tanta pobreza?”, chamam-me “comunista”».

Vamos! A opção pelos pobres e sua libertação é ordem de Deus.  No final da história aqueles que têm fome e sede de justiça ouvirão:

“Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e me destes de comer...: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?... E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.” (Mt 25,34-40).

Vamos. Cantemos e dancemos esse abraço da justiça e da paz, música e dança envolvente desses bem-aventurados, melhor, esse beijo, como no original hebraico, a língua daqueles rapazes que foram acordar a aurora.  

 Padre Fabio Potiguar Santos Capelão das Fronteiras, membro da Comissão de Justiça e Paz e coordenador da Comissão para o Ecumenismo e o Diálogo Inter- religioso da Arquidiocese de Olinda e Recife

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

“AINDA QUE DEVESSE PASSAR PELO VALE DA SOMBRA DE MORTE”

 


Leonardo Boff


Nestes tempos sombrios sob a ação perigosa do Covid-19 um manto de temor e de angústia se estende sobre nossas vidas. Vivemos cansados existencialmente, pelas pessoas queridas que perdemos,  pelas ameaças de sermos contaminados e ainda mais por não entrevermos quando tudo isso vai acabar. O que virá depois?

taUm israelita piedoso passou pela mesa angústia e nos deixou retrada a sua situação no famoso salmo 23:”O Senhor é meu pastor e nada me falta”. Nele há um verso que vem a calhar exatamente para a nossa  situação:”Ainda que devesse passar pelo vale da morte, nada temerei porque tu vais comigo”.

Morte biblicamente, deve ser entendida não apenas como o fim da vida, mas existencialmente como a experiência de crises profundas como grave risco de vida, perseguição feroz de inimigos, humilhação, exclusão e  solidão devastadora. Fala-se então, de descer aos infernos da condição humana.

Quando se reza no credo cristão que Jesus desceu aos infernos se quer expressar que ele conheceu a solidão extrema e o absoluto abandono, até por parte de seu Pai (cf. Mc 15,34). Ele passou, efetivamente, pelo vale da sombra de morte, pelo inferno da condição humana. É consolador, então, ouvir a palavra do Bom Pastor:”não temas eu estou contigo”.

Nosso grande romancista João Guimarães Rosa em Grande Sertão:Veredas bem observou: “viver é perigoso”. Sentimo-nos expulsos do jardim do Eden. Estamos sempre buscando construir um paraíso possível. Vivemos fazendo travessias arriscadas. Ameaças nos espreitam por todos os lados. E nesse momento com o vírus, como nunca antes.

Por mais que nos esforcemos e as sociedades para isso se organizem, nunca podemos controlar todos os fatores de risco. O Covid-19 nos mostrou a imprevisibilidade e a nossa vulnerabilidade Por isso, é dramática e, por vezes trágica, a travessia humana. No termo, quando se trata de assegurar nossa vida, somos forçados a  nos confiar, além da medicina e da técnica, a um Maior que pode levar-nos”a pastagens verdejantes e à fontes tranqulas”, ao Deus-Bom-Pastor. Essa entrega  supera a desesperança.

Alarguemos um pouco o horiconte: grande dramaticidade pesa sobre o futuro da vida e da biosfera. Milhares de espécies estão desparecendo por causa da  cobiça e da incúria humana. O aquecimento crescente do Planeta unido à escassez de água potável pode nos confrontar com uma crise dramática de alimentação. Milhões poderão  se deslocar em busca da sobrevivência ameaçando o já frágil equilíbrio político e social das nações.

Aqui cabe invocar de novo o Pastor do universo, Aquele que tem poder sobre o curso dos tempos e dos climas para que crie situações oportunas e suscite o sentido da solidariedade e da responsabilidade nos povos e nos chefes de Estado.

Hoje o que destrói nossa alegria de viver é o medo.  É consequência de um tipo de sociedade que se construiu nos últimos séculos assentada sobre a competição e não sobre a cooperação,  sobre a vontade acumulação de bens materiais, o consumismo e sobre o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e  sociais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros, especialmente agora, para não sermos contaminado pelo viírus nem contaminar  os outros. O cuidado é fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. Cuidar de alguém é mais que administrar seus interesses, é envolver-se afetivamente com ele, importar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável pelo seu destino. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

O cuidado é  também o antecipador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.  

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os ecosistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada um dos seres humanos, cuidado com água doce, o bem mais ecasso da natureza, cuidado com a saúde das pessoas, especialmente das mais desprovidas, cuidado, com  relações sociais mais participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura para que todos possam viver com sentido, vivenciar e acolher, sem maiores dramas, as limitações, o envelhecimento e a travessia da morte, essa sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

É confortador, no meio de nossas tribulações atuais, ameaçados pelo Covid-19, ouvir Aquele que nos sussurra:”Não temas,  eu estou contigo”(Salmo 23) e através de Isaías nos assegura:”não olhes apreensivo, pois eu sou teu Deus, eu te fortaleço sim, eu te ajudo, sim, eu te sustento na palma de minha mão”(Is 41,10).

Desta forma, nossa vida pessoal ganha certa leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade ao sentirmos que jamais estamos sós. Deus caminha em nosso próprio caminhar como o  Bom Pastor que cuida para que “nada nos falte”.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu: O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

ESSE ÓDIO QUE ASSOLA O PAÍS

 Frei Betto


 Todos nós, humanos, somos tributários das espécies que nos precederam na escala evolutiva, como os répteis egocentrados. Há, contudo, o esforço civilizado de nos descentrarmos e enxergar o próximo. Sem buscar nele a nossa imagem e semelhança, como se fosse espelho de nosso olhar narcísico. A boa democracia, tão apregoada e pouco praticada, exige que não se converta a diferença em divergência.

 

       É notório que há no Brasil um clima de ódio e discórdia, agudizado pela atual disputa eleitoral. Não participo dele.  Situações de vida me ensinaram a não ter ódio de ninguém nem somatizar conjunturas políticas. Meditação e oração são meus antídotos.

       É óbvio, há pessoas das quais prefiro não ser amigo. Não por querer mal a elas, e sim por discordar radicalmente de suas ideias, que contrariam os princípios que norteiam a minha vida. Isso torna o diálogo quase impossível. E não sou de bater boca. Só lamento o sofrimento que causam quando as teses que defendem são levadas à prática. Como é o caso do racismo, da homofobia, do machismo, da arrogância e da opressão. 

       Evito também quem naturaliza a desigualdade social e defende estruturas sociais e leis que aprofundam o aviltante abismo entre os pouco ricos e os muito pobres.

       Repito, não trago em mim sentimento de raiva ou ódio por qualquer pessoa. Nem a quem repudio, como os torturadores e assassinos dos anos em que padeci no cárcere sob a ditadura militar. 

       Isso não me faz melhor do que ninguém. A vida me ensinou que ódio é um veneno que se toma esperando que o outro morra. Portanto, não abro mão deste bem que me é tão precioso e constitui a razão de minha felicidade: a paz de espírito.

       Demônios não trafegam em meu mundo interior. Mantenho relações de amizade com amplo espectro de pessoas de diferentes ideologias, religiões e condições sociais. Todos sabem exatamente o que penso, quem sou, o que faço. Pela simples razão de ter atividades pastorais e sociais notórias, e expor o que penso em 69 livros, além dos inúmeros artigos que produzo.

       Para manter contato com pessoas tão díspares há que reconhecer a importância da virtude da tolerância. Nunca fecho as portas à possibilidade de uma boa amizade. Aliás, condição primeira para ser feliz, frisou o velho Aristóteles há 24 séculos. Como optei por não constituir família, não tenho saudades dos filhos que não tive, sustento-me nas relações de amizade. Quase todas, aliás, parceiras. Porque além da amizade que nos aproxima, com a maioria compartilho projetos e ideais comuns, sejam militantes que lutam por terra e teto, seja gente muito rica. 

       Portanto, não incorporo a crise brasileira. Conheço suas causas, e não é o acúmulo de emoções que apontará soluções. Considero perda de tempo as discussões virtuais. Uso moderadamente as redes digitais e jamais polemizo com quem me acessa. Não tenho  Facebook nem Instagram por receio de que me levem a naufragar (e não navegar) e roubem momentos de ler bons livros e me dedicar a outras atividades mais proveitosas. Uso parcimoniosamente o Twitter e o WhatSapp. E não gosto de falar ao telefone. Nele sou telegráfico. Jamais o ocupo por mais de dois minutos. 

       Esta a minha postura nesse conflituoso mapa da diminuta parcela da sociedade brasileira mergulhada nas turbulências desse tempo de intrigas. Diminuta porque há milhões de pessoas que não estão nem aí, não acessam redes digitais, e se encontram muito ocupadas em lutar pela sobrevivência, cuidar dos filhos, de suas lavouras e de seus negócios, levantar cedo para enfrentar dura jornada de trabalho. Não figuram entre os que formam (ou deformam) isso que se denomina “opinião pública”. 

       Em resumo, a vida é mesmo conturbada. Todos nós, humanos, somos tributários das espécies que nos precederam na escala evolutiva, como os répteis egocentrados. Há, contudo, o esforço civilizado de nos descentrarmos e enxergar o próximo. Sem buscar nele a nossa imagem e semelhança, como se fosse espelho de nosso olhar narcísico. A boa democracia, tão apregoada e pouco praticada, exige que não se converta a diferença em divergência.

       O que temos em  comum é o que todos almejamos amar e ser amados. A essa experiência denomino Deus. Quase todos concordam comigo, exceto em um detalhe: Deus quer ser amado naqueles que Ele criou à sua imagem e semelhança, incluídos indígenas, negros, gays e empobrecidos. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Anfiteatro/Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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