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sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

Merecemos ainda continuar sobre a Terra?

 Leonardo Boff


 

Reparando a situação da humanidade, da Terra viva, de seus ecossitemas, das relações entre as nações se guerreando militar ou economicamente, na África tribos se matando,cortando braços ou pernas, uma superpotência como a Rússia massacrando todo um povo parente, florestas sendo devastadas como na Amazônia e no Congo… Quando acompanho os relatórios científicos de climatólogos dizendo que já passamos o ponto crítico do aquecimento e que não haverá mais retorno e que nem a ciência a tecnologia não nos poderão mais salvar, apenas nos prevenir e finalmente dizem radicalizamos o anntropoceno (o ser humano é a grande ameaça à vida, estamos na sexta extinção de vidas), passamos pelo necroceno (morte em massa de organismos vivos) e chegamos agora ao piroceno (a era do fogo na Terra), talvez a fase mais perigosa para a nossa sobrevivência. Os solos perderam sua umidade, as pedras se superaqueceram e folhas secas e gravetos começam a deslanchar incêndios pavorosos como ocorreu em 2022 em toda a Europa, até na úmida Sibéria, na Austrália, na Califórnia e especialmente na Amazônia. E mais ainda, quando vejo que os chefes de estado e os dirigentes das grandes empresas (CEOs) ocultam tais dados ou não lhes dão importância para não prejudicar os negócios, estão cavando a sua própria sepultura. Pior ainda quando a OXFAM e outros organismos nos mostram que apenas 1% da população mundial controla praticamente todo o fluxo das finanças e que possuem mais riqueza que mais da metade da população mundial (4,7 bilhões) e que no Brasil, segundo a FORBES, 318 bilionários possuem grande parte da riqueza em fábricas, terras,investimentos, em holdings,em bancos etc num país no qual 33 milhões passam fome e 110 milhõe se encontram em insuficiência alimentar(comem hoje e não sabem o que comerão amanha ou depois) e milhões de desempregados ou na pura informalidade, nos vem logo a irrefreável interrogação: nós humanos, somos ainda humanos, ou vivemos na pré-história de nós mesmos, sem termos nos descoberto como co-iguais, habitantes na mesma Casa Comum.

Com todas estas desgraças das quais ele, em grande parte, se fez responsável, merece ainda viver sobre este planeta? Ou a Terra mesma, possui sua estratégia  interna, como o coronavírus revelou: quando uma espécie ameaça demasiadamente todas as outras, ela dá um jeito de diminuir o seu furor ou mesmo eliminá-la para que as outras possam continuar a se desenvolver sobre so solo terrestre.

É nesse contexto que lembro a frase de um dos maiores brasileiros de nossa história, o Betinho que muitas vezes em conferências dizia: o problema maior não é econômico, não é político, não é ideológicos, não é religioso. O problema maior é a falta de sensibilidade do ser humano com para com seu semelhante que está a seu lado. Perdemos a capacidade de termos com-paixão para com quem sofre, de estender a mão a quem pede um pedaço de pão ou um lugar para dormir em época de chuva torrencial.

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A cultura do capital nos fez  individualistas, consumidores e nunca próximos e cidadãos com direitos,muito menos nos concede sentir que somos irmãos e irmãs de fato por termos os mesmos componentes físico-químicos iguais em todos os seres vivos, também nos humanos.

Houve alguém que há mais de dois mil anos passou entre nós nos ensinando a viver o amor, a solidariedade, a compaixão, o respeito e a reverência face à Suprema Realidade, feita de misericórdia e perdão, e, por causa destas verdades radicalmente humanas foi considerado um inimigo das tradições religiosas, um subversivo da ordem ética do tempo e acabou assassinado e levantado no alto da cruz, fora da cidade que era símbolo de maldição e do abandono de Deus. Ele sofreu tudo isso em solidariedade com seus irmãos e irmãs.

Até hoje sua mensagem permanece. Em grande parte foi traída ou espiritualizada para desvitalizar  seu caráter transformador e  mantivesse o mundo assim como está com seus poderes e infernais desigualdades. Mas outros, poucos, seguiram e seguem seus exemplos, sua prática e seu amor incondicional. Muitos desses  por causa disso conhecem o mesmo destino dele: a calúnia, o desprezo e a eliminação física. Mas é por causa desses poucos, creio eu, que Deus ainda se segura e não nos faz desaparecer.

Mesmo com essa crença, diante deste quadro sombrio me vem à mente as palavras do livro do Gênesis:”O Senhor viu o quanto havia crescido a maldade dos seres humanos na terra e como todos os projetos de seus corações tendiam unicamente para o mal. Então o Senhor se arrependeu de ter criado os seres humanos na  terra e ficou com o coração magoado. Então o Senhor disse: vou exterminar da face da terra o ser humano que criei e com ele os animais, os répteis e até as aves do céu, pois estou arrependido de tê-los feito”(Gn 6,5-7).

Estas palavras escritas há mais de 3-4 mil anos atrás parecem descrever a nossa realidade. Colocados no jardim do Éden (a Terra viva) para guardá-lo e cuidá-lo, o ser humano se fez sua maior ameaça. Não bastava ser homicida como Caim, nem etnocida com a exterminação de povos inteiros nas Américas e na África. Fez-se ecocida, devastando e desertificando inteiros ecossistemas. E agora irrompe como biocida, pondo em risco a vida da biosfera e da própria vida humana.

Aqui cabe citar os relatórios cietíficos de uma grande jornalista norte-americana Elzabeth Kolbert. Após escrever o premiado livro “A Sexta Extinção em Massa:um história não natural”, acaba de publicar “O Céu branco:a a natureza do futuro”(ambos pela Intrínseca). Aqui descreve as tentativas desesperadas dos cientistas para evitar o desastre total como efeito do aquecimento global, pois cresce dia a dia; só em 2021 foram lançadas na atmosfera 40 bilhões de toneladas de CO2. Estes cientistas propõe com a geoengenharia bloquear em grande parte o sol para que deixe de aquescer o planeta. O céu ficará branco. Quais seriam tais consequências, especialmente para a biosfera, para a fotosíntese e de tudo o que depende do sol? Por isso essa tecnologia é questionada. Criaria amais problemas do que aquele que quer solucionar.

Termino com a observação de um dos maiores naturalistas Théodore Jacob que escreveu um livro inteiro  exatamente com esse título: “E se a aventura humana vier a falhar”(2000). A base de sua suposição é a terrificante capacidade destrutiva dos seres humanos, pois “eles são capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da raça humana”(edição francesa, p.246).

Sou um pessimista esperançado. Pessimista face à realidade perversa sob a qual vivemos e sofremos. Esperançado porque creio que o ser humano pode mudar a partir de uma nova consciência e no Criador que desta crise e eventualmente de uma ruína pode construir ou tipo de seres  humanos, mais fraternos entre si e respeitosos da Casa Comum.

Leonardo Boff eco-teólogo escreveu Habitar a Terra, Vozes 2022 e com Jürgen Moltmann, Há esperança para a Terra ameaçada? Vozes 2014.

 

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

“AINDA QUE DEVESSE PASSAR PELO VALE DA SOMBRA DE MORTE”

 


Leonardo Boff


Nestes tempos sombrios sob a ação perigosa do Covid-19 um manto de temor e de angústia se estende sobre nossas vidas. Vivemos cansados existencialmente, pelas pessoas queridas que perdemos,  pelas ameaças de sermos contaminados e ainda mais por não entrevermos quando tudo isso vai acabar. O que virá depois?

taUm israelita piedoso passou pela mesa angústia e nos deixou retrada a sua situação no famoso salmo 23:”O Senhor é meu pastor e nada me falta”. Nele há um verso que vem a calhar exatamente para a nossa  situação:”Ainda que devesse passar pelo vale da morte, nada temerei porque tu vais comigo”.

Morte biblicamente, deve ser entendida não apenas como o fim da vida, mas existencialmente como a experiência de crises profundas como grave risco de vida, perseguição feroz de inimigos, humilhação, exclusão e  solidão devastadora. Fala-se então, de descer aos infernos da condição humana.

Quando se reza no credo cristão que Jesus desceu aos infernos se quer expressar que ele conheceu a solidão extrema e o absoluto abandono, até por parte de seu Pai (cf. Mc 15,34). Ele passou, efetivamente, pelo vale da sombra de morte, pelo inferno da condição humana. É consolador, então, ouvir a palavra do Bom Pastor:”não temas eu estou contigo”.

Nosso grande romancista João Guimarães Rosa em Grande Sertão:Veredas bem observou: “viver é perigoso”. Sentimo-nos expulsos do jardim do Eden. Estamos sempre buscando construir um paraíso possível. Vivemos fazendo travessias arriscadas. Ameaças nos espreitam por todos os lados. E nesse momento com o vírus, como nunca antes.

Por mais que nos esforcemos e as sociedades para isso se organizem, nunca podemos controlar todos os fatores de risco. O Covid-19 nos mostrou a imprevisibilidade e a nossa vulnerabilidade Por isso, é dramática e, por vezes trágica, a travessia humana. No termo, quando se trata de assegurar nossa vida, somos forçados a  nos confiar, além da medicina e da técnica, a um Maior que pode levar-nos”a pastagens verdejantes e à fontes tranqulas”, ao Deus-Bom-Pastor. Essa entrega  supera a desesperança.

Alarguemos um pouco o horiconte: grande dramaticidade pesa sobre o futuro da vida e da biosfera. Milhares de espécies estão desparecendo por causa da  cobiça e da incúria humana. O aquecimento crescente do Planeta unido à escassez de água potável pode nos confrontar com uma crise dramática de alimentação. Milhões poderão  se deslocar em busca da sobrevivência ameaçando o já frágil equilíbrio político e social das nações.

Aqui cabe invocar de novo o Pastor do universo, Aquele que tem poder sobre o curso dos tempos e dos climas para que crie situações oportunas e suscite o sentido da solidariedade e da responsabilidade nos povos e nos chefes de Estado.

Hoje o que destrói nossa alegria de viver é o medo.  É consequência de um tipo de sociedade que se construiu nos últimos séculos assentada sobre a competição e não sobre a cooperação,  sobre a vontade acumulação de bens materiais, o consumismo e sobre o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e  sociais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros, especialmente agora, para não sermos contaminado pelo viírus nem contaminar  os outros. O cuidado é fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. Cuidar de alguém é mais que administrar seus interesses, é envolver-se afetivamente com ele, importar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável pelo seu destino. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

O cuidado é  também o antecipador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.  

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os ecosistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada um dos seres humanos, cuidado com água doce, o bem mais ecasso da natureza, cuidado com a saúde das pessoas, especialmente das mais desprovidas, cuidado, com  relações sociais mais participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura para que todos possam viver com sentido, vivenciar e acolher, sem maiores dramas, as limitações, o envelhecimento e a travessia da morte, essa sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

É confortador, no meio de nossas tribulações atuais, ameaçados pelo Covid-19, ouvir Aquele que nos sussurra:”Não temas,  eu estou contigo”(Salmo 23) e através de Isaías nos assegura:”não olhes apreensivo, pois eu sou teu Deus, eu te fortaleço sim, eu te ajudo, sim, eu te sustento na palma de minha mão”(Is 41,10).

Desta forma, nossa vida pessoal ganha certa leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade ao sentirmos que jamais estamos sós. Deus caminha em nosso próprio caminhar como o  Bom Pastor que cuida para que “nada nos falte”.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu: O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

 

sexta-feira, 30 de julho de 2021

O PIOR ESTÁ AINDA POR CHEGAR

Leonardo Boff


As grandes enchentes ocorridas na Alemanha e na Bélgica em julho. mês do verão europeu, causando centenas de vítimas, associadas a um aquecimento abrupto que chegou em alguns lugares a mais de 50 graus, nos obriga a pensar e a tomar decisões em vista do equilíbrio da Terra. Alguns analistas chegaram a dizer: a Terra não se aqueceu; ela se tornou, em alguns lugares, uma fornalha.

Isso significa que dezenas de organismos vivos não conseguem se adaptar e acabam morrendo. Atualmente com o atual aquecimento que no último século cresceu em mais de um grau Celsius, e se chegar, como previsto, a dois graus cerca de um milhão de espécies vivas estarão à borda de seu desaparecimento depois de milhões de anos vivendo neste planeta.

Entendemos a resignação e o ceticismo de muitos meteórologos e cosmólogos que afirmam termos chegado tarde demais no combate ao aquecimento global. Não estamos indo ao encontro dele. Estamos gravemente dentro dele. Argumentam, desolados, temos pouco que fazer, pois o dióxido de carbono já está excessivamente acumulado, pois, permanece na atmosfera entre 100 a 120 anos, agravado pelo metano,20 vezes mais tóxico, embora fique por pouco tempo no ar. Por surpresa geral, ele irrompeu, devido  ao degelo das calotas polares e do parmafrost que vai do Canadá e atravessa toda a Sibéria.E fez crescer o aquecimento global.

A intrusão do Covid-19, por ser planetário. nos obriga a pensar e a agir de modo diferente. É notório que a pandemia é consequência do antropoceno, quer dizer, do excessivo avanço agressivo do sistema imperante, baseado no lucro ilimitado. Ele ultrapassou os limites suportáveis pela Terra. Pelo desmatamento à la Ricardo Salles/Bolsonaro, pelo cultivo de monoculturas e pela  geral poluição do meio ambiente, chegou-se a destruir o habitat dos vírus. Sem saber para onde ir, saltaram para outros animais, imunes dos vírus e deles passaram a nós que não possuímos esta imunidade.

Vale pensar o que significa o fato de que o inteiro planeta foi afetado, por um lado igualando a todos, e por outro aumentando as desigualdades porque a grande maioria não consegue viver o isolamento social, evitar as conglomerações, especialmente, no transporte coletivo e nas lojas. Não afetou os demais seres vivos, nossos animais domésticos.

Devemos reconhecer: os visados fomos nós humanos. A Mãe Terra,desde os anos 70 do século passado,. reconhecida como um organismo vivo, Gaia, e pela ONU (no dia 22 de abril de 2009) aprovada verdadeiramente como Mãe-Terra, nos enviou um sinal e uma advertência: “parem de agredir todos os ecossistemas que me compõem; já não me concedem o tempo suficiente para repor o que me tiram durante um ano e de me regenerar”.

Como o paradigma vigente considera a Terra ainda como um mero meio de produção, num sentido utilitarista, não estão prestando atenção a suas advertências. Ela, como super-orgnismo vivo, nos dá sinais inequívocos, como agora,, com as grandes enchentes na Europa, o excessivo frio no hemisfério sul e a gama de vírus já enviados (zica, ebola, chikungunya e outros).

Como somos cabeças duras e vige uma clamorosa ausência de consciência ecológica, podemos ir ao encontro de um caminho sem retorno.

Curiosamente, como já foi comentado por outros, “os profetas do neoliberalismo estão se transformando em promotores da economia social  porque concebem, diante da catástrofe atual, que já não será possível fazer o mesmo que antes e que será necessário voltar aos imperativos sociais”. O pior que nos poderia acontecer é voltar ao antes, cheio de contradições perversas, inimigo da vida da natureza e indiferente ao destino das grandes maioria pobres e se armando até os dentes com armas de destruição em massa, absolutamente inúteis face aos vírus.

Temos que forçosamente mudar, superar os velhos soberanismos que tornava os outros países  até hostis ou submetidos à feroz competição. O vírus mostrou que não contam para nada os limites das nações. O que, realmente, conta é a solidariedade entre todos e o cuidado de uns com os outros e para com a natureza, para que, preservada, não nos envie vírus ainda piores. Agora é da nova era da Casa Comum dentro da qual estão as nações.

David Quamen, o grande especialista em vírus, deixou esta advertência: ou mudamos nossa relação para com a natureza sendo respeitosos, sinergéticos e cuidadosos, caso contrário ela nos enviará outros vírus, quem sabe um tão letal que nossas vacinas não poderão ataca-los e levarão grande parte da humanidade.

Ao não determos o aquecimento global e ao não mudarmos de paradigma para com a natureza, conheceremos dias piores. Se não podemos mais deter o aumento do aquecimento global, com a ciência e a técnica que possuímos, podemos pelo menos mitigar seus efeitos deletérios e salvar o máximo da imensa biodiversidade do planeta.

Como nunca antes na história, o destino comum está em nossas mãos: devemos escolher entre seguir a mesma rota que nos leva a um abismo ou mudar forçosamente e garantir um futuro para todos, mais frugal, mais solidário e mais cuidadoso para com a natureza e a Casa Comum.

Já há 30 anos repito esta lição e sinto-me um profeta no deserto. Mas cumpro o meu dever que é de todos os que despertaram um dia.Devemos  falar e agora já gritar.

Leonardo Boff ecofilósofo e escreveu Habitar a Terra: a via para a fraternidade universal a sair pela Vozes dentro de pouco; Covid-19, a Mãe Terra contra-ataque a Humanidade, Vozes 2020.

 

terça-feira, 16 de março de 2021

AS AMEAÇAS DO VÍRUS E AINDA DE MAIS UMA USINA NUCLEAR

 



Marcelo Barros

 

Neste momento de repique ou de novo pico da pandemia em todo o país, governos estaduais decretam lockdwons; comerciantes se preocupam em não lucrar tanto. E, aliado implacável do governo federal, o vírus continua matando. O papa Francisco tem repetido que “não podemos sair desta pandemia como entramos”.

Por trás dessa afirmação está o fato de que, em quase todo o mundo, a sociedade não estava preparada para enfrentar uma pandemia. Sistemas de saúde desarticulados. A própria vacina que deveria ser considerada bem comum de toda a humanidade se tornou motivo de concorrência entre empresas e mesmo entre países.

Apesar de que a maioria dos estudos liga a difusão do vírus à destruição do ambiente natural do planeta e à crise ecológica, o governo parece irredutível no seu propósito de construir novas usinas nucleares e desta vez na pequena cidade de Itacuruba, às margens do rio São Francisco, no sertão de Pernambuco, às margens do rio São Francisco.

Se essa tragédia humana e ecológica se consumar será a segunda grande agressão aos pobres habitantes daquela região. Na segunda metade da década de 1980, os habitantes da cidade de Itacuruba ficaram sabendo que iriam ser deslocados pela Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF) para a instalação da Usina Hidrelétrica de Itaparica. A velha cidade ficou debaixo d’água e seus moradores foram reassentados em uma “nova” cidade. A população viu comprovado o descumprimento das promessas, os insucessos das medidas mitigadoras e as diversificadas formas de fazer as pessoas de bobas. O slogan da campanha da CHESF tinha sido “Mudar para melhor”.  Para saber os efeitos reais daquele êxodo forçado, basta saber que, ainda em 2006, portanto 30 anos depois do deslocamento, o Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (CREMEPE), apontava que, em todo o Brasil, Itacuruba era a cidade com o maior índice percentual de suicídios e detinha 63% de sua população com algum problema de sofrimento mental.

É nessa cidade e com esse quadro histórico que o Ministério de Minas e Energia (MME) decidiu construir a Central Nuclear do Nordeste, com seis reatores nucleares e capacidade total de 6.600 megawatts elétricos. Para isso conta com um investimento de R$ 64,404 bilhões. Quanto ao que isso significará para a população do entorno e para a toda a região e o ecossistema, o Ministério fala muito pouco.

Além do debate ambiental do que significam usinas nucleares, a estocagem de lixo radioativo e a real possibilidade de acidente às margens do São Francisco, todos os poderes envolvidos sabem que a legislação de Pernambuco proíbe a construção de usinas nucleares “enquanto não se esgotar toda a capacidade de produzir energia hidrelétrica e energia oriunda de outras fontes”. Ora, durante anos, Pernambuco tem sido o sexto maior produtor de energia eólica do país. Conforme dados da Abeeólica,  tem o terceiro maior fator de capacidade de geração de energia. Além disso, uma possível justificativa seria o esgotamento da produção de eletricidade. Todos sabem que isso está longe de ocorrer. Portanto, não há nenhuma razão que justifique usina nuclear no Nordeste, menos ainda nas margens do rio São Francisco que não merece tal castigo.

Remanescentes de Quilombos que vivem no município de  Itacuruba, como os grupos Negros de Gilu, Ingazeira e Poço dos Cavalos e  os Pankará no Serrote dos Campos, Tuxá Campos e Tuxá Pajeú, os três povos indígenas que, desde tempos imemoriais, convivem com aquela terra, se unem aos movimentos e diversas organizações sociais e políticas que protestam contra essa política, na qual os poderosos continuam impondo seus interesses sem levar em conta o povo da região e a natureza.

Em profunda solidariedade ao povo de Itacuruba e aos grupos ameaçados, Dom Gabriele Marchesi, bispo de Floresta, a diocese a qual pertence a paróquia de Itacuruba e toda a Igreja Católica, representada pela CNBB Nordeste II, formada por 21 arquidioceses de quatro estados, se juntou à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e se manifestam contrários à instalação do empreendimento e a escolha do sertão nordestino como destino da nova usina.

Uma usina é nuclear quando para gerar eletricidade utiliza o calor proveniente da fissão dos átomos do urânio. O urânio é um recurso mineral não renovável encontrado na natureza, que pode se usado para produzir eletricidade e pode também ser usado na produção de armamentos, como a bomba atômica. O maior problema das usinas nucleares é que os riscos da utilização da energia nuclear são imensos. E além do risco de acidentes nucleares, há o grande problema do descarte do lixo nuclear (resíduos compostos de elementos radioativos, gerados nos processos de produção de energia). Além disso, a contaminação do ambiente provoca danos irreversíveis à saúde, como câncer, leucemia, deformidades genéticas, etc.

Em 2016, a Conferência Episcopal do Japão (CBCJ) fez um apelo ao mundo para o fim da produção de energia nuclear. Em 2020, foi publicado em inglês o livro: “Abolição da energia nuclear: um apelo da Igreja Católica no Japão” e o livro foi lançado na presença do papa Francisco no Vaticano em julho de 2020.

O Japão é um país que sofre até hoje consequências das duas bombas atômicas jogadas pelos norte-americanos em Hiroshima e Nagazaki em 1945 e há poucos anos sofreu o vazamento de uma usina nuclear. Precisamos, nós, aqui no Brasil, evitar esse caminho. Temos de concretizar assim a nossa defesa da vida e o cuidado com a Mãe Terra e com o nosso povo.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 12 de maio de 2020

AINDA TEMOS DE ABOLIR AS ESCRAVIDÕES


 

Por Marcelo Barros

 

No mundo atual, milhões de pessoas vivem em situação semelhante à escravidão. No passado, Igrejas e religiões conviveram com isso e até legitimaram essa estrutura em nome de Deus. Hoje, é preciso considerar a luta contra qualquer tipo de escravidão como ato espiritual.

 

Atualmente, no Brasil, poucas pessoas recordam o 13 de maio como data a ser celebrada. De fato, a lei áurea que, em 1888, decretou a abolição da escravatura deixou a população escrava sem qualquer amparo. Assim, serviu para propiciar novas formas de escravidão até mais econômicas e mais seguras para os senhores. Atualmente, o próprio governo federal esvazia órgãos de proteção ao trabalhador, sanciona leis que favorecem o trabalho precário, incentiva invasão de terras indígenas e criminaliza movimentos sociais. Apesar disso, nos últimos 20 anos, pela força de organismos da sociedade civil e de Igrejas, quase 50 mil pessoas foram libertadas de fazendas, nas quais trabalhavam acorrentadas, ou sob mira de armas ou apenas para ganhar comida e leito para dormir. Apesar disso, em todo o país, ainda existem empresas rurais, carvoarias e fábricas de fundo de quintal que empregam pessoas em condições semelhantes à escravidão. Conforme pesquisas atuais, no Brasil, 50% da escravidão atual acontece no setor pecuário.

De acordo com Jessé de Souza, em seu livro “A classe média no espelho”, a sociedade brasileira ainda é profundamente escravagista. Em um país de 210 milhões de habitantes, apenas 800 pessoas determinam tudo o que acontece no país. Há mais de cem anos, a maioria da classe média se junta sempre com a elite, para explorar os milhões de pessoas mais pobres. A elite controla todos os grandes meios de comunicação e garante que sua ideologia continue defendida por intelectuais poderosos e algumas universidades importantes. Se, por acaso, ocorrer que um presidente ou governante quiser mexer na exclusão das massas, basta acenar com a palavra mágica “corrupção”. Afinal, sempre foi esta a arma para derrubar presidentes. Em 1954, forçaram Getúlio Vargas a suicidar-se. Em 1964, com este mesmo pretexto, derrubaram o presidente João Goulart e instalaram a ditadura militar. Em 2016, inventaram o impedimento da presidente eleita, assim como em 2018, condenaram sem provas o ex-presidente Lula.  Nestes dias, em plena pandemia, empresários e representantes do Capital fizeram manifestações em São Paulo. Devidamente fechados em seus carros de luxo, os carros de som gritavam: O Brasil não pode parar. Assim, diziam: vocês, trabalhadores pobres têm de voltar para produzir riqueza para nós. Se a abertura de fábricas e do comércio contagiar mais gente e produzir mais mortes, não tem importância porque será entre vocês pobres. Nós, ricos, estaremos protegidos em nossos castelos, ou apartamentos de luxo. 

Infelizmente, o retrato do resto do mundo não é diferente. De acordo com Walk Free Foundation’ [Fundação Caminhar em Liberdade], ONG que compila anualmente um Índice Global da Escravidão, calcula-se que, atualmente, mais de 60 milhões de pessoas vivam como escravos/as. A pesquisa aponta que a escravidão existe em 167 países, mesmo na Europa e na América do Norte. As formas atuais da escravidão podem ser trabalhos precários e desumanos, o tráfico de escravas e escravos sexuais, trabalho infantil não remunerado e assim por diante. Na Inglaterra, Kevin Bales, professor de sociologia da Universidade de Surrey, declarou que, já no começo do século XXI, no Reino Unido, 27 milhões de pessoas viviam na escravidão. Como será atualmente?

A Oxfam- Solidarity afirma que antigamente um escravo era um investimento pesado. No século XIX, comprar um escravo era como, atualmente, adquirir um trator. Atualmente, no mundo escravos são baratos e numerosos. Na Europa, um migrante clandestino pode ser adqurido como escravo por módicos 125 euros. No Fórum Econômico Mundial que aconteceu em janeiro de 2020 em Davos, Suiça, a Oxfam mostrou que esta realidade vem do fato de que, no mundo inteiro, “2.153 bilionários têm mais riqueza do que os 4,6 bilhões de pessoas, que constituem 60% da população mundial.”  Movimentos sociais protestaram que a desigualdade ainda é muito maior do que esta aí revelada.

Para quem tem fé, o pior é saber: os países que sustentam esta estrutura são aqueles que têm o nome de Deus na sua Constituição e se dizem cristãos. Os que têm menor desigualdade social são os que se dizem não religiosos. Na Idade Média, escrevia um místico cristão: Que Deus nos livre de Deus! (isso é desta imagem de Deus que aparece na célula do dólar e na parede dos palácios dos que zombam do nome divino). Para salvar o nome de Deus que anda tao mal falado, temos mesmo de lutar contra todo tipo de escravidão. 

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

 

 


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

AINDA A ARTE DA TOLERÂNCIA



Frei Betto

       Enquanto os povos viviam distantes um do outro, cada um com as suas crenças e costumes, a intolerância não se evidenciava. Isso teve início com a ruptura provocada na Igreja pelo surgimento do protestantismo. Então, pessoas de um mesmo vilarejo, bairro ou família se dividiam entre católicos e protestantes. O conflito se desencadeou e, inclusive, fez correr sangue.

       A reforma luterana rompeu a unidade religiosa do Sacro Império Germânico e, por consequência, a unidade de toda a Europa Ocidental.

       Foi preciso encontrar novos critérios para a paz. Não através da submissão forçada de uns por outros. E sim pela via do entendimento e do bom senso.

       Em 1686, Pierre Bayle escreveu ser um absurdo querer forçar alguém a pensar de uma determinada maneira. No máximo se pode obrigá-lo a fingir. Como já havia assinalado santo Tomás de Aquino no século XIII, a consciência de cada pessoa é irredutivelmente livre. A ponto de poder inclusive recusar a ideia de Deus.

       A obra de Bayle preparou o terreno para a liberdade de consciência. Três anos depois, em 1689, John Locke, filósofo inglês, publicou sua “Carta sobre a tolerância”, na qual defende que o Estado não deve interferir nas convicções religiosas, e sim assegurar a liberdade de crenças. Deu-se o início da laicização do Estado e da sociedade.

       Entre os séculos XVII e o início do XVIII, muitas vozes se ergueram contra a intolerância, como Baruch Spinoza, Jonathan Swift, John Toland, John Locke e Shaftesbury. A eles se somaram Montesquieu, Voltaire, Diderot, Rousseau, D’Holbach, entre outros.

      Em 1763, Voltaire lançou o “Tratado sobre a tolerância por ocasião da morte de Jean Calas”. Este comerciante de Toulouse era protestante. Seu filho, Marc-Antoine, de 20 anos, apareceu enforcado no sótão da casa. Como manifestara a vontade de aderir ao catolicismo, o pai foi acusado de matá-lo, condenado à morte e executado.

       Voltaire ergueu a sua voz contra o fanatismo. Exigiu revisão do caso. Apurou-se que o rapaz sofria de depressão. O pai, declarado inocente, foi reabilitado quando já se estava morto.

       Voltaire salientou que existe uma fraternal solidariedade entre os seres humanos. Todos se mobilizam quando há uma catástrofe – incêndio, alagamento, terremoto, furacão etc. Aliás, como há dias se comprovou após o terremoto no México e o massacre em Las Vegas, quando multidões se dispuseram a doar sangue e socorrer as vítimas. Por que a intolerância quando se trata de pensar ou crer de modo diferente?

       A intolerância só é aplicável às ciências exatas. Inútil querer que a água ferva antes de atingir os 100 graus centígrados. Ou insistir que 2 + 2 são 5...

       No campo científico, a tolerância só é aceitável em se tratando de hipóteses. Antes de se chegar ao dado científico há várias hipóteses até a comprovação empírica de que a molécula de água resulta da junção de dois átomos de hidrogênio com um de oxigênio.

       Isso é impossível em se tratando de crenças religiosas. Jamais as diferentes religiões ou tendências confessionais chegarão a um acordo quanto às suas convicções de fé. Restam, portanto, duas alternativas: a guerra ou a tolerância. E o passado demonstra que a guerra é inútil, apenas deixa lastro de ódio e sangue.

       Fora do âmbito das ciências, a tolerância é desejável. Se alguém acredita que todos procedemos, não da evolução dos símios, mas da união de Adão e Eva, isso é tolerável porque não faz mal a ninguém. Embora os criacionistas não logrem explicar como estamos aqui, neste planeta superpovoado, se Adão e Eva tiveram dois filhos homens, Caim e Abel. A menos que admitam o incesto com a mãe...

       Nem sempre é fácil demarcar a fronteira entre o tolerável e o intolerável. Depende de cada cultura. Para muitos é inconcebível que, em pleno século XXI, uma sociedade exija por lei que a mulher seja submissa ao homem, como ocorre na Arábia Saudita. Ainda que um estrangeiro que mora naquele país seja tolerante frente a esse absurdo, não significa que esteja de acordo com tal violação dos direitos humanos.

       Diante de opiniões e atitudes diferentes, como em recentes exposições artísticas no Brasil, o tolerante se alegra e celebra a diversidade; o intolerante se enche de ódio e apela à violência.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Hotel Brasil – o mistério das cabeças degoladas” (Rocco), entre outros livros.
      
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sexta-feira, 28 de abril de 2017

EXISTEM AINDA AQUELES QUE ESPERAM GODOT


por Leonardo boff



Conheci um homem que fez de tudo na vida. Dizem que foi ateu e marxista e que chegou a ser mercenário da Legião Estrangeira francesa e que atirou contra muita gente.
De repente se converteu. Fez-se monge sem sair do mundo. Foi trabalhar como estivador. Mas todo o tempo livre dedicava-o à oração e à meditação. Durante o dia recitava mantras: “Jesus, valei-me”. “Jesus, perdoai meus pecados”. “Jesus santificai-me”. “Jesus, fazei-me amigo dos pobres”. “Jesus, fazei-me pobre com os pobres”.
Estranhamente, tinha um jeito próprio de rezar. Pensava: se Deus se fez gente em Jesus, então foi como nós: fez chichi, choramingava pedindo o peito, fazia biquinho com as coisas que o incomodavam como a fralda molhada.
No começo Jesus teria gostado mais de Maria, depois mais de José, coisas que os psicólogos explicam. E foi crescendo como nossas crianças, brincando com formigas, correndo atrás dos cachorrinhos, atirando pedras em burros e, maroto, levantando os vestidinhos das meninas para vê-las furiosas como imaginou irreverentemente Fernando Pessoa.
E então rezava à Maria, a mãe do Menino, imaginando como ela ninava Jesus, como lavava no tanque as fraldinhas e como cozinhava o mingau para o Menino as comidas fortes para o esposo, o bom José. E se alegrava interiormente com tais matutações porque as sentia e vivia na forma de comoção do coração. E chorava com frequência de alegria espiritual.
Ao fazer-se monge, decidiu por aqueles que fazem do mundo a sua cela e que vivem radicalmente a pobreza junto com os pobres: os Irmãozinhos de Foucauld. Criou uma pequena comunidade na pior favela da cidade. Tinha poucos discípulos. A vida era muito dura: trabalhar com os pobres e meditar. Eram apenas três que acabaram indo todos embora. Essa vida, assim exigente, não era para eles.
Viveu em vários países, mas foi sempre ameaçado de morte pelos regimes militares e tinha que se esconder e fugir para outro país. Aí, tempos depois, lhe ocorria a mesma sorte. Mas ele se sentia na palma da mão de Deus. Por isso vivia despreocupado.
Indispunha-se também com a Igreja institucional, essa do cristianismo apenas devocional e sem compromisso com a justiça dos pobres. Mas, finalmente, conseguiu agregar-se a uma paróquia que fazia trabalho popular. Trabalhava com os sem-terra, com os sem-teto e com um grupo de mulheres. Acolhia prostitutas que vinham chorar suas mágoas com ele. E saiam consoladas.
Corajoso, organizava manifestações públicas em frente à prefeitura e puxava ocupações de terrenos baldios. E quando os sem-terra e sem-teto conseguiam se estabelecer, fazia belas celebrações ecumênicas com muitos símbolos, as chamadas “místicas”.
Mas todos os dias, depois da missa da noite, ficava enfurnado, por longo tempo, na igreja escura. Apenas a lamparina lançava lampejos titubeantes de luz, transformando as estátuas mortas em fantasmas vivos e as colunas eretas, em estranhas bruxas. E lá se quedava, Impassível, olhos fixos no tabernáculo, até que viesse o sacristão para fechar a igreja.
Um dia fui procurá-lo na igreja. Perguntei-lhe de chofre: “meu irmãozinho, (não vou revelar seu nome porque o entristeceria), você sente Deus, quando depois dos trabalhos, se mete a meditar aqui na igreja? Ele lhe diz alguma coisa”?
Com toda a tranquilidade, como quem acorda de um sono profundo, olhou-me meio de lado e apenas disse:
“Eu não sinto nada. Há muito tempo que não escuto a voz do Amigo (assim chamava Deus). Já senti um dia. Era fascinante. Enchia meus dias de música. Hoje não escuto mais nada. Talvez o Amigo não me falará nunca mais”.
Retruquei eu, “por que continua, todas as noites, aí na escuridão sagrada da igreja”?
“Eu continuo”, respondeu, “porque quero estar disponível; se o Amigo quiser chegar, sair de seu silêncio e falar, eu estou aqui para escutar. Imagine, se Ele quiser falar e eu não estiver aqui? Pois ele, cada vez, vem apenas uma única vez. Que seria de mim, infiel amigo do Amigo”? Sim, ele continua sempre “esperando Godot. E não se move” como termina  a peça de Samuel Beckett.
Deixei-o em sua plena disponibilidade. Sai maravilhado e meditativo. É por causa desses que o mundo é poupado e Deus continua a manter sua misericórdia sobre aqueles que o esquecem ou o consideram morto, segundo disse um filósofo que ficou louco. Mas há os que vigiam e esperam, contra toda a esperança esperam Godot. Esta espera fará que,cada dia, tudo seja novo e cheio de jovialidade.
Um dia o sacristão o encontrou inclinado sobre o banco da Igreja. Pensou que dormia. Percebeu que o corpo estava frio e enrijecido.
Como o Amigo não veio, ele foi ao encontro dele. Agora não precisa mais esperar Godot e o seu advento. Estará com o Amigo, celebrando uma amizade, no maior entretenimento, pelos tempos sem fim.
Leonardo Boff é filósofo, teólogo e colunista do JB on line.


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

NATAL: SEMPRE QUE NASCE UMA CRIANÇA É SINAL DE QUE DEUS AINDA ACREDITA NO SER HUMANO

por Leonardo Boff


Estamos na época de Natal mas a aura não é natalina, é antes de sexta-feira santa. Tantas são as crises, os atentados terroristas, as guerras que, juntas, as potências belicistas e militaristas (USA, França, Inglaterra, Russa e Alemanha) conduzem contra o Estado Islâmico, destruindo praticamente a Síria com uma espantosa mortandade de civis e de crianças como a própria imprensa tem mostrado, a atmosfera contaminada por rancores e espírito de vindita na política brasileira, sem falar dos níveis astronômicos de corrupção: tudo isso apaga as luzes natalinas e amortecem os pinheirinhos que deveriam criar uma atmosfera de alegria e de inocência infantil que ainda persiste em cada pessoa humana.

Quem pôde assistir o filme Crianças Invisíveis, em sete cenas diferentes, dirigido por diretores renomados como Spike Lee, Katia Lund, John Woo entre outros, pode se dar conta da vida destruída de crianças, de várias partes do mundo, condenadas a viver do lixo e no lixo; e ainda assim há cenas comovedoras de camaradagem, de pequenas alegrias nos olhos tristes e de solidariedade entre elas.

E pensar que são milhões hoje no mundo e que o próprio menino Jesus, segundo os textos bíblicos, nasceu fora de casa, numa mangedoura de animais porque não havia lugar para Maria, em serviço de parto, em nenhuma estalagem de Belém. Ele se misturou com o destino de todas estas crianças maltratadas pela nossa insensibilidade.

Mais tarde, esse mesmo Jesus, já adulto dirá:”quem receber esses meus irmãos e irmãs menores é a mim que recebe”. O Natal se realiza quando ocorre esse acolhimento como aquele que o Padre Lancelotti organiza em São Paulo para centenas de crianças de rua sob um viaduto e que contou, por anos, com a presença do Presidente Lula.
No meio desta desgraceira toda, no mundo e no Brasil, me vem à mente o pedaço de madeira com uma inscrição em pirografia que um internado num hospital psiquiátrico em Minas Gerais me entregou por ocasião de uma visita que fiz por lá para animar os atendentes. Lá estava escrito: ”Sempre que nasce uma criança é sinal de que Deus ainda acredita no ser humano”.

Poderá haver ato de fé e de esperança maior que este? Em algumas culturas de África se diz que Deus está de uma forma toda especial presente nos assim chamados por nós de “loucos”. Por isso eles são adotados por todos e todos cuidam deles como se fossem um irmão ou uma irmã. Por isso são integrados e vivem pacificamente. Nossa cultura os isola e não se reconhece neles.

O Natal deste ano nos remete à essa humanidade ofendida e a todas as crianças invisíveis cujos padecimentos são como os do menino Jesus que, certamente, no severo inverno dos campos de Belém, tiritava na mangedoura. Segundo lenda antiga, foi aquecido pelo bafo de dois velhos cavalos que como prêmio ganharam, depois, plena vitalidade.
Vale lembrar o significado religioso do Natal: Deus não é um velho barbudo, de olhos penetrantes e juiz implacável de todos os nossos atos. É uma criança. E como criança não julga ninguém. Quer apenas conviver e ser acarinhado. Da mengedoura nos vem esta voz: ”Oh, criatura humana, não tenhas medo de Deus. Não vês que sua mãe enfaixou seu bracinhos? Ele não ameaça ninguém. Mais que ajudar, ele precisa ser ajudado e carregado no colo”.

Ninguém melhor que Fernando Pessoa entendeu o significado humano e verdadeiro do menino Jesus:

”Ele é a Eterna Criança, o Deus que faltava. Ele é humano que é natural. Ele é o divino que sorri e que brinca. E por isso é que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro. É a criança tão humana que é divina. Damo-nos tão bem um com o outro, na companhia de tudo, que nunca pensamos um no outro…Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno. Pega-me tu ao colo e leva-me para dentro de tua casa. Despe o meu ser cansado e humano. E deita-me na cama. E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer. E dá-me sonhos teus para eu brincar até que nasça qualquer dia que tu sabes qual é”.

Dá para conter a emoção diante de tanta beleza? Por causa disso, vale ainda, apesar dos pesares, celebrar discretamente o Natal.

Por fim tem alto significado esta última mensagem singela  e encantadora: “Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser “deus”. Só Deus quis ser menino”.

Abracemo-nos mutuamente, como quem abraça a Criança divina (o puer aeternus) que se esconde em nós e que nunca nos abandonou.

E que o Natal seja ainda uma festa discretamente feliz.

Leonardo Boff escreveu O Natal, a bondade e a jovialidade de nosso Deus,Vozes,Petrópolis 2003.