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quinta-feira, 8 de setembro de 2022

DEPENDÊNCIA E MORTE

 Frei Betto


 

      Com a exposição de um coração atribuído a D. Pedro I, importação cara e necrófila feita pelos atuais ocupantes do Planalto, o Brasil comemora 200 anos de independência de Portugal. Deixamos Portugal para cair nos braços da Inglaterra, da União Europeia e, sobretudo, dos EUA. 

      As narrativas sobre o episódio “às margens do Ipiranga” são quase todas elitistas. Afonso Taunay (1876-1958), ao encomendar pinturas para o Museu Paulista, fez questão de excluir as lutas populares pela Independência e favorecer uma versão oligárquica e pacifista.

      A participação dos indígenas em nossa Independência é ignorada ainda hoje. Na estátua de D. Pedro I na Praça Tiradentes, no Rio, o pedestal retrata indígenas e animais de nossas selvas. Ao ser  inaugurada, em 1862, o historiador Mello Morais chegou a indagar: “Que parte tiveram esses índios e aqueles jacarés na Independência do Brasil?” 

      Quase todas as narrativas sobre nossos povos originários anterior a 1980 soam como “crônicas de morte anunciada”, como se estivessem condenados ao extermínio ou a serem assimilados pela população em geral. Só em 1988 a Constituição assegurou a eles direito à terra e às suas tradições e culturas. Pela primeira vez, o Estado brasileiro se reconheceu multiétnico.

      Criou-se o mito de que a Independência assegurou a unidade territorial do Brasil. Ora, D. Pedro I se interessava apenas por Rio de Janeiro, São Paulo e Minas. Não dava ouvidos às outras províncias. Por isso, teve que enfrentar várias revoltas regionais contra o governo imperial, como Farroupilha (1835-1845), no Rio Grande do Sul; Cabanagem (1835-1840), no Pará; e a Sabinada (1837-1838), na Bahia. Maranhão e Pará eram províncias apartadas do Brasil até 1820. O Acre pertencia ao Peru e à Bolívia, e só foi anexado ao Brasil em 1903. 

      D. Pedro I chegou a contratar o lorde inglês Thomas Cochrane (1775-1860) para reprimir rebeliões populares. No Pará, o cônego Batista Campos (1782-1834), que se opunha ao trabalho escravo, sofreu tortura em praça pública, enquanto 256 aliados dele eram asfixiados no porão de um navio. É considerado o autor intelectual da Cabanagem, que teve importante participação indígena. Na versão da elite, “cabano” significa aquele que vivia em cabanas à beira dos rios. Na versão dos ribeirinhos, o termo é associado aos brancos repressores que se vangloriavam da sanha repressora: “Acabamos com tudo”. 

      Se D. Pedro I tinha pouco interesse pelo resto do Brasil, por que o nosso país, então integrado por 18 províncias, não se fragmentou, como ocorreu em tantas regiões da América Latina? Entre várias hipóteses fico com a mais vergonhosa: a unidade territorial se manteve por força do projeto escravagista voltado à exploração mineral. O regime escravocrata uniu as elites provincianas e alicerçou a formação do Estado brasileiro. 

      Outro fator que influiu em nossa coesão territorial foi a vinda da Corte portuguesa para o Brasil em 1808. A frase atribuída ao governador de Minas, Antônio Carlos de Andrada, em 1930 – “façamos a revolução antes que o povo a faça” -, poderia ter sido dita no período colonial. D. Pedro I, filho de D. João VI, proclamou a Independência antes que as rebeliões populares, como a Conjuração Mineira, lograssem devolver a Corte a Portugal. 

      Não eram só as revoltas populares, pipocando Brasil afora e agravadas pelos quilombos, habitados por escravos libertos, que tiravam o sono do imperador. Ele sabia que os nossos vizinhos na América do Sul se independentizavam da Coroa espanhola: Bolívar comandou as independências de Colômbia (1810); Venezuela (1811); Equador (maio de 1822); e, em 1825, Bolívia. San Martin liderou as da Argentina (1816) e Peru (1821), e deu apoio à libertação do Chile (1818).

      “Façamos a Independência antes que o povo a faça.” Aqui ela foi consumada “por cima”, a ponto de adotar uma bandeira que não traz o azul dos nossos céus, como aprendi na escola, e sim a cor símbolo da nobreza (“sangue azul”); o amarelo do ouro; e o verde que não retrata as nossas matas, e sim a cor da Casa Real de Bragança. Já a iconografia das bandeiras dos países hispânicos alude a movimentos de libertação e processos revolucionários.

      O senso de brasilidade é tardio. Até final do século 18 os habitantes daqui se consideravam “portugueses da América” e muitos reivindicavam igualdade de direitos com os portugueses de Portugal. Isso incomodava a elite de Lisboa, que se arvorava em centro do Império. D. Pedro então foi pressionado a estabelecer uma Assembleia Legislativa no Brasil que adotasse leis próprias. Só então se popularizou a ideia de ser brasileiro.

      Concordo com Caio Prado Junior e Florestan Fernandes: ao lograr a emancipação política do Brasil, a Independência criou um Estado capaz de preservar as estruturas econômicas e sociais do período colonial. 

      Ainda resta muito a conquistar. E as eleições estão à porta. Votemos pela independência do povo brasileiro!

 

Frei Betto é escritor, autor de “Tom vermelho do verde” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

  

Frei Betto é autor de 73 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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quinta-feira, 19 de maio de 2022

O PREÇO DA MORTE

 Frei Betto


 

       Na COP 26, em 2021, os países desenvolvidos se comprometeram a destinar 100 bilhões de dólares para o Fundo de Adaptação, de modo a ajudar os países em desenvolvimento a se adequarem às mudanças climáticas.

       No fim de abril deste ano, o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI) divulgou, em seu relatório anual, que os gastos militares mundiais ultrapassaram 2 trilhões de dólares em 2021 – cifra jamais alcançada anteriormente. Os cinco países que mais investem em armamentos são EUA, China, Índia, Reino Unido e Rússia. Arcam com 62% daquela cifra, dos quais os EUA, sozinho, é responsável por 40% do total de gastos com armas. Basta dizer que o sistema de armas Lockheed Martin F-35, projetado pelos EUA para fabricar aviões caça supersônicos multifunções, está orçado em quase 2 trilhões de dólares – é o mais caro da história da indústria bélica.

       O dado é óbvio: não faltam recursos para matar pessoas e desequilibrar ainda mais o meio ambiente com testes nucleares e exploração de minerais para a indústria bélica. E apenas míseros trocados são reservados para evitar o desequilíbrio ambiental. 

       Em abril, The Lancet Planetary Health assinalava, em artigo, que entre 1970 e 2017 (47 anos!) “as nações de renda alta são responsáveis por 74% do uso global de material excedente, impulsionado principalmente pelos EUA (27%) e os 28 países de renda alta da União Europeia (25%).” Já os países do sul do planeta são responsáveis por  apenas 8%.

       Material excedente é tudo aquilo que as empresas e o comércio consideram descartáveis, inaproveitáveis e, portanto, jogado fora, como as toneladas de plástico que contaminam oceanos e envenenam peixes. 

       Há muito material excedente nos países mais ricos devido ao uso frequente de recursos abióticos – tudo que impede a presença de vida vegetal ou animal. Os principais recursos abióticos são os combustíveis fósseis, metais e minerais não metálicos, utilizados em grande escala por aqueles países. O uso de menos material excedente nos países mais pobres se deve à maior utilização de recursos bióticos (biomassa), que são renováveis, ao contrário dos recursos abióticos.

       Isso comprova que os países ricos do Atlântico Norte são os culpados pela destruição do planeta. Os autores do artigo observam que “as nações de renda alta têm a esmagadora responsabilidade pelo colapso ecológico global e, portanto, contraem uma dívida ecológica com o resto do mundo”.

       Esses mesmos países são os que mais investem na fabricação e no comércio de armas. O Pentágono – as forças armadas dos EUA – “continua sendo o maior consumidor individual de petróleo”, diz um estudo da Brown Univesity. “E, como resultado, um dos maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo”. Para conseguir que os EUA e seus aliados assinassem o Protocolo de Kyoto, em 1997, os Estados membros da ONU tiveram que permitir que as emissões de gases de efeito estufa pelos militares fossem excluídas dos relatórios nacionais sobre emissões...

       Os descaso dos países ricos para com a preservação ambiental e o futuro de nosso planeta é comprovado por estes dados: em 2019, a ONU calculou que a lacuna anual de financiamento para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) era de 2,5 trilhões de dólares. Destinar aos ODS os 2 trilhões de dólares aplicados, anualmente, em gastos militares permitiria erradicar ou amenizar muito os principais fatores contrários à dignidade humana: fome, analfabetismo, falta de moradia, saneamento, assistência médica etc. 

       Em 2021, o mundo gastou mais de 2 trilhões de dólares em guerra, e investiu apenas 750 bilhões de dólares em energia limpa e eficiência energética. O investimento total em infraestrutura energética em 2021 foi de US$ 1,9 trilhão, mas a maior parte desse investimento foi para combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão). Assim, prosseguem os investimentos em combustíveis fósseis e aumentam os investimentos em armas, enquanto os investimentos destinados  à transição para novas formas de energia mais limpa permanecem insuficientes.

       Os dados demonstram como a luta pela preservação ambiental se vincula à conquista da paz e à redução, não apenas do arsenal bélico do mundo, mas também dos fatores que provocam mortes precoces em milhões de pessoas impedidas de desfrutar condições dignas de vida. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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sexta-feira, 27 de agosto de 2021

“AINDA QUE DEVESSE PASSAR PELO VALE DA SOMBRA DE MORTE”

 


Leonardo Boff


Nestes tempos sombrios sob a ação perigosa do Covid-19 um manto de temor e de angústia se estende sobre nossas vidas. Vivemos cansados existencialmente, pelas pessoas queridas que perdemos,  pelas ameaças de sermos contaminados e ainda mais por não entrevermos quando tudo isso vai acabar. O que virá depois?

taUm israelita piedoso passou pela mesa angústia e nos deixou retrada a sua situação no famoso salmo 23:”O Senhor é meu pastor e nada me falta”. Nele há um verso que vem a calhar exatamente para a nossa  situação:”Ainda que devesse passar pelo vale da morte, nada temerei porque tu vais comigo”.

Morte biblicamente, deve ser entendida não apenas como o fim da vida, mas existencialmente como a experiência de crises profundas como grave risco de vida, perseguição feroz de inimigos, humilhação, exclusão e  solidão devastadora. Fala-se então, de descer aos infernos da condição humana.

Quando se reza no credo cristão que Jesus desceu aos infernos se quer expressar que ele conheceu a solidão extrema e o absoluto abandono, até por parte de seu Pai (cf. Mc 15,34). Ele passou, efetivamente, pelo vale da sombra de morte, pelo inferno da condição humana. É consolador, então, ouvir a palavra do Bom Pastor:”não temas eu estou contigo”.

Nosso grande romancista João Guimarães Rosa em Grande Sertão:Veredas bem observou: “viver é perigoso”. Sentimo-nos expulsos do jardim do Eden. Estamos sempre buscando construir um paraíso possível. Vivemos fazendo travessias arriscadas. Ameaças nos espreitam por todos os lados. E nesse momento com o vírus, como nunca antes.

Por mais que nos esforcemos e as sociedades para isso se organizem, nunca podemos controlar todos os fatores de risco. O Covid-19 nos mostrou a imprevisibilidade e a nossa vulnerabilidade Por isso, é dramática e, por vezes trágica, a travessia humana. No termo, quando se trata de assegurar nossa vida, somos forçados a  nos confiar, além da medicina e da técnica, a um Maior que pode levar-nos”a pastagens verdejantes e à fontes tranqulas”, ao Deus-Bom-Pastor. Essa entrega  supera a desesperança.

Alarguemos um pouco o horiconte: grande dramaticidade pesa sobre o futuro da vida e da biosfera. Milhares de espécies estão desparecendo por causa da  cobiça e da incúria humana. O aquecimento crescente do Planeta unido à escassez de água potável pode nos confrontar com uma crise dramática de alimentação. Milhões poderão  se deslocar em busca da sobrevivência ameaçando o já frágil equilíbrio político e social das nações.

Aqui cabe invocar de novo o Pastor do universo, Aquele que tem poder sobre o curso dos tempos e dos climas para que crie situações oportunas e suscite o sentido da solidariedade e da responsabilidade nos povos e nos chefes de Estado.

Hoje o que destrói nossa alegria de viver é o medo.  É consequência de um tipo de sociedade que se construiu nos últimos séculos assentada sobre a competição e não sobre a cooperação,  sobre a vontade acumulação de bens materiais, o consumismo e sobre o uso da violência como forma de resolver os problemas pessoais e  sociais.

O que invalida o medo e suas sequelas é o cuidado de uns para com os outros, especialmente agora, para não sermos contaminado pelo viírus nem contaminar  os outros. O cuidado é fundamental para entendermos a vida e as relações entre todos os seres. Sem cuidado a vida não nasce nem se reproduz. Cuidar de alguém é mais que administrar seus interesses, é envolver-se afetivamente com ele, importar-se pelo seu bem-estar, é sentir-se corresponsável pelo seu destino. Por isso, tudo o que amamos também cuidamos e tudo o que cuidamos também amamos.

O cuidado é  também o antecipador prévio dos comportamentos para que seus efeitos sejam bons e fortaleçam a convivência.  

Uma sociedade que se rege pelo cuidado, pela Casa Comum, a Terra, cuidado com os ecosistemas que garantem as condições da biosfera e de nossa vida, cuidado com a segurança alimentar de cada um dos seres humanos, cuidado com água doce, o bem mais ecasso da natureza, cuidado com a saúde das pessoas, especialmente das mais desprovidas, cuidado, com  relações sociais mais participativas, equitativas, justas e pacíficas, cuidado com o ambiente espiritual da cultura para que todos possam viver com sentido, vivenciar e acolher, sem maiores dramas, as limitações, o envelhecimento e a travessia da morte, essa sociedade de cuidado gozará de paz e concórdia, necessárias para a convivialidade humana.

É confortador, no meio de nossas tribulações atuais, ameaçados pelo Covid-19, ouvir Aquele que nos sussurra:”Não temas,  eu estou contigo”(Salmo 23) e através de Isaías nos assegura:”não olhes apreensivo, pois eu sou teu Deus, eu te fortaleço sim, eu te ajudo, sim, eu te sustento na palma de minha mão”(Is 41,10).

Desta forma, nossa vida pessoal ganha certa leveza e conserva, mesmo no meio de riscos e ameaças, serena jovialidade ao sentirmos que jamais estamos sós. Deus caminha em nosso próprio caminhar como o  Bom Pastor que cuida para que “nada nos falte”.

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu: O Senhor é meu pastor: consolo divino para o desamparo humano, Vozes 2013.

 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

O ATUAL GOVERNO LEVOU MORTE AOS INDÍGENAS

 Leonardo Boff



É notório o desprezo que o atual presidente dedica aos indígenas. Considera-os sub-gente e claramente declarou no dia 1.de dezembro de 2018:”nosso projeto para o índio é fazê-lo igual a nós”. E avançou mais: ”não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou quilombola”.

O mais perverso foi não aprovar a PEC que devia lhes levar água potável, os insumos básicos contra a Covid-19. É um propósito de morte. Há dias, neste mês de junho, numa manifestação pacífica de várias etnias foram recebidos em Brasília com repressão, balas de borracha e gás lacrimogênio. Há um total abandono deles a ponto de que 163 povos de diferentes etnias foram contaminados, sendo que ocorreram 1.070 mortes.

Diz-nos um conhecedor da história da Amazônia Evaristo Miranda, cujo titulo é uma revelação “Quando o Amazonas corria para o Pacífico, (Vozes 2007):”uma coisa é certa: a mais antiga e permanente presença humana no Brasil, está na Amazônia. Há cerca de 400 gerações diversos grupos humanos ocuparam, disputaram, exploraram e transformaram os territórios amazônicos e seus recursos alimentares (op.cit.p.47). Desenvolveram um grande manejo da floresta respeitando sua singularidade, mas ao mesmo tempo modificando seu habitat para estimular aqueles vegetais úteis para o uso humano. O indígena e a floresta evoluíram juntos numa profunda reciprocidade.

Disse bem o antropólogo Viveiros de Castro: ”A Amazônia que vemos hoje é a que resultou de séculos de intervenção social, assim como as sociedades que ali vivem são resultado de séculos de convivência com a Amazônia”(em Tempo e Presença 1992,p.26).

Releva ainda notar que no interior da floresta com suas centenas de etnias formou-se a partir de 1.100 antes das chegadas dos invasores portugueses um espaço imenso (quase um império) da tribo tupi-guarani. Ela ocupou territórios que iam desde os contraforte andinos, formadores do rio Amazonas até as bacias do Paraguai e do Paraná e alguns chegando até os pampas gaúchos e ao nordeste brasileiro. “Desta forma ”afirma Miranda, ”praticamente todo o Brasil florestal, foi conquistada por povos tupi-guarani (op.cit.92-93).

No Brasil pré-cabralino  havia cerca de 1.400 tribos, 60% delas na parte amazônica. Falavam línguas de 40 troncos subdivididos em 94 famílias diferentes, o que levou a antropóloga Berta Ribeiro a afirmar ”que em nenhuma parte da Terra, encontrou-se uma variedade linguística semelhante observada à América da Sul tropical”(Amazônia urgente, 1990 p.75). Hoje, infelizmente, dada à dizimação dos indígenas perpetrada no decorrer de a história e recentemente pelos garimpeiros, mineradores, extrativistas (a maioria ilegais), restaram somente 274 línguas. Isto significa: perderam-se mais de mil línguas (85%) e com elas conhecimentos ancestrais, visões de mundo e  comunicações singulares. Foi um empobrecimento irreparável para o patrimônio cultural da humanidade.

Entre as muitas tragédias que levaram ao desaparecimento de etnias inteiras, cabe lembrar uma que poucos conhecem.  Dom João VI que alguns admiram, em carta régia de 13 de maio de 1808, mandou fazer uma guerra oficial aos índios Krenak do Vale do Rio Doce, em Minas e no Espírito Santo. Aos comandantes militares ordenou “uma guerra ofensiva que não terá fim senão quando tiverdes a felicidade de vos assenhorear de suas habitações e de fazê-los sentir a superioridade das minhas armas..até a total redução de uma semelhante e atroz raça antropófagas”(L.Boff,O casamento do céu com a terra,2014,p.140).

Por que lembramos isso tudo? É  para dar-nos conta destas ações exterminadoras que continuam ainda hoje, resistir, criticar e combater as criminosas políticas do atual governo genocida de indígenas e do próprio povo brasileiro, deixando morrer mais de 5008 mil pessoas.

Os principais responsáveis e seus cúmplices dificilmente escaparão de terem que enfrentar o Tribunal Internacional de Crimes contra a Humanidade em Haia. O clamor não é só brasileiro, mas internacional. Para tais crimes não há limite de tempo. De onde estiverem e em qualquer tempo não escaparão da severidade dos ju, zelosos, como já mostraram, da dignidade sagrada dos seres humanos.

Estes povos originários são nossos mestres e doutores no que se refere à relação com a natureza da qual se sentem parte e os grandes cuidadores. Agora que com a Covid-19 andamos perplexos e perdidos sem saber como seguir adiante, devemos consultá-los. Como diz uma liderança indígena, sobrevivente da guerra criminosa de Dom João VI, Ailton Krenak, eles nos ajudarão a afastar ou protelar o fim do mundo.

Se seguirmos a rota de destruição nosso habitat, a Casa Comum, explorando-a ilimitadamente e sem qualquer escrúpulo, esse destino poderá ser a tragédia da espécie humana. Mas temos esperança que fez os indígenas sobreviverem até os dias de hoje. Também nós esperamos sobreviver, transformados pelas lições que a Mãe Terra no vem dando.

Leonardo Boff escreveu “O casamento do céu com a terra: contos dos povos indígenas do Brasil, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014; O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social, Vozes 2020.

 

sexta-feira, 19 de março de 2021

SÃO JOSÉ, PADROEIRO DA BOA MORTE


 

Leonardo Boff


 

Um manto de tristeza e de desamparo se estende sobre o inteiro planeta, especialmente, sobre o nosso país. Somos vítimas de um governo cujo chefe de Estado é dominado por uma inequívoca pulsão de morte que o torna insensível aos trezentos mil vitimados pelo Covid-19 e incapaz de palavras de solidariedade aos familiares e até aos auxiliares próximos falecidos. Parece que sofreu uma lobotomia, tornando-se indiferente à dor e à tragédia humana.

Hoje, dia 19 de março, se celebra no mundo cristão a festa de São José. Demorou cerca de 15 séculos para a Grande Instituição-Igreja (Papa, bispos e padres) conceder-lhe algum valor e sentido. Ela não sabia o que fazer com São José, pois ela é uma Igreja da palavra e ele não proferiu nenhuma. Guardou sempre silêncio e só teve sonhos. Como nos ensinam os psicanalistas, o sonho também é uma forma de comunicação, das dimensões do  profundo humano, dos arquétipos mais ancestrais onde se aninham os “Grandes Sonhos”(C.G.Jung), os medos, as preocupações e esperanças da humana existência.Só em 1870 foi proclamado Patrono da Igreja Universal, não pelo Papa Pio IX mas pela Congregação dos Ritos.

Na verdade, ele é mais  o patrono da Igreja-povo-de-Deus, dos humildes, dos anônimos, da “gente boa” e trabalhadora do que da Igreja-Grande-Instituição. São eles  que vivem, sem muita reflexão, os ideais de seu filho Jesus, de boa vontade,  de amor, de solidariedade e de reverência face ao mistério da vida e da morte. Eles deram o nome de José a homens e à mulheres (com por exemplo, Maria José), à cidades, à ruas, à instituições públicas e à escolas.

O Papa Francisco convocou os fiéis para, durante um ano, refletirem sobre a relevância da figura de São José, especialmente como pai numa sociedade sem pai ou do pai ausente.  Publicou uma Carta Apostólica “Patris corde” (coração de pai ou pai de coração) na qual em sete pontos delineia suas principais características:“um pai amável, pai de ternura, pai de obediência, pai de acolhida, pai de coragem criativa, pai trabalhador e pai na sombra”.

No atual contexto, cabe recordar uma devoção muito popular, a de São José, padroeiro da boa morte, já que a morte se alastra no mundo e no Brasil faz as maiores vítimas junto com os EUA.

As informações sobre a morte de São José se encontram apenas num evangelho apócrifo (não canônico) “A história de José, o carpinteiro” escrito entre o século IV e V no Egito (edição da Vozes de 1990). Trata de uma longa narração na qual Jesus conta aos apóstolos como era seu pai José e como morreu.

O apócrifo contextualiza sua vida e sua morte, testemunhando que, ao voltar exílio forçado no Egito, foi viver em Nazaré, onde “meu pai José, o ancião bendito, continuou exercendo a profissão de carpinteiro e, assim com o trabalho de suas mãos, pudemos nos manter; jamais se poderá dizer que comeu seu pão sem trabalhar” (capítulo IX). Narra ainda que “eu chamava a Maria de minha mãe e a José de meu pai; obedecia-lhes em tudo o que me ordenavam, sem me permitir replicar-lhes uma palavra; ao contrário, dedicava-lhes sempre grande carinho”(c. XI).

Mas chegou um momento, já em avançada idade, que adoeceu:”perdeu a vontade de comer e de beber; e sentiu vacilar a  habilidade no desempenho de seu ofício”(c.XV). Narra com pormenores que, deitado na cama, “ficou extremamente agitado” e começou a se lamentar proferindo  muitos ais (c.  XV e XVI). Ao ouvir tais ais Jesus “penetrou no aposento em que se encontrava e saudou-o: salve, José, meu querido pai, ancião bondoso e bendito”. Ao que José  retrucou:”Salve, mil vezes, querido filho! Ao ouvir tua voz, minha alma cobrou a sua tranquilidade (c.XVII).

Não demorou muito e ocorreu o desenlace:”meu pai exalou sua  alma com um grande suspiro”(c.XXI). E conclui: “eu então, me atirei sobre o corpo de meu pai José; fechei seus olhos, cerrei sua boca e levantei-me para contemplá-lo”(c..XXIV). No momento em que é levado ao túmulo, comenta Jesus:”Veio-me à mente a recordação do dia em que me levou ao Egito e das grandes tribulações que suportou por mim. Não me contive e lancei-me sobre seu corpo e chorei longamente”(c.XXVII).

Por fim, Jesus terminando sua narrativa, faz um pedido aos apóstolos:”Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Sopro de meu Pai, isto é, do Espírito Paráclito e fordes enviados a pregar o evangelho, pregai também a respeito de meu querido pai José”(c.XXX).

Com esta pequena reflexão estamos cumprindo o mandato de Jesus. Oxalá São José acompanhe com sua força e carinho paterno os milhares que estão nas UTIs lutando por suas vidas, contra este terrível ataque que a Mãe Terra desferiu contra a humanidade, mandando-nos o Covid-19 como sinal:  não prolonguem o estilo de vida consumista e devastador dos bens e serviços limitados da natureza; assumam um novo modo sustentável de vida e estabeleçam um laço de amor e de respeito para com a natureza e para com todos os seus seres, nossos irmãos e irmãs, dentro da  Casa Comum, o planeta Terra, nossa grande e bondosa Mãe.

Leonardo Boff escreveu São José: o pai, o artesão e o educador, Vozes 2012.

 

sábado, 9 de maio de 2020

COVID - 19 - VIGÉSIMA SEXTA REFLEXÃO - A MORTE EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


 


por Frei Aloísio Fragoso

    A despeito do título acima, não é minha intenção falar sobre a morte e sim sobre alguns segredos que ela esconde, no seu duelo com a vida, e, eventualmente, revela. Nestes tempos de pandemia, as duas andam se encontrando com muita frequência e forçando-nos a proximidade com seus insondáveis mistérios.

     Esta semana ela me tomou um grande amigo e vizinho, na rua onde moro, na Comunidade do Coque. Ela agiu com muita surpresa e rapidez, não devia ter feito isso conosco. Não digo que levasse outro no lugar dele, mas que poupasse o Osvaldo, poupasse o irmão indispensável àquela Comunidade, tão carente de pessoas generosas, sonhadoras e combatentes. Pobre, ele tinha clara compreensão sobre as verdadeiras razões de haver tantos condenados à pobreza, e não recusava transformar em luta sua lucidez.

     Fiz a encomendação do seu corpo (na Fé católica, encomendar um corpo é depositá-lo nas mãos do Pai Celeste). Foi uma cerimônia de cenas inusitadas e comoventes, envolvendo quatro presenças: as duas filhas, o coveiro e o padre. E, naturalmente, a alma dele, não o corpo, pois somente a alma podia explicar a transfiguração daquele momento. Realizei o rito sagrado, pronunciei palavras de Fé e consolação, por meio de dois aparelhos celulares, um em minhas mãos, outra nas de Ceça e Karla, suas filhas, estando eu a uma distância de mais de mil metros. Foi impossível não misturar as preces com as lágrimas.

     Daí vieram as indagações: como chamar estas mortes numerosas, violentas, indiscriminadas causadas pelo coronavirus? Dar aos que se foram os rótulos tradicionais de defuntos, finados, mortos? Seria empobrecer sua memória com palavras inadequadas. Chamá-los simplesmente de "vítimas da pandemia? Não. Eles não são números a ser registrados em relatório funcional ou ata de ofício.

     É de estranhar que não se ouçam gritos de revolta pelas perdas irreparáveis. A revolta parece tranferir-se para outras áreas, como, por ex., a insensibilidade de um Presidente incapacitado e patético.

     Em meio a sensações de impotência, é preciso escutar algumas vozes proféticas, intuindo o futuro. Uma destas intuições vislumbra um mundo que "nunca mais será o mesmo", após a pandemia. Haverá mudanças revolucionárias nos hábitos, com o aprimoramento da qualidade de vida. Reaprenderemos o valor insubstituível das coisas simples, da convivência fraterna, da partilha solidária de sofrimentos e emoções. Teremos chances de construir uma Economia Solidária, do suficiente para todos, em lugar do esbanjamento das minorias.

    Se for esta a nossa convicção (ou nossa firme esperança), então não há mais dúvidas, temos já um nome para designar as vítimas fatais do COVID 19. São MÁRTIRES. No confronto com um Modelo de Desenvolvimento, do qual pode resultar um cataclismo universal, foram sacrificadas, deixando como legado, este grito de alerta: morremos em defesa da Vida, ameaçada por formas enganosas de vivê-la, em um mundo desumanizado. Talvez nossos netos contarão para seus filhos a história de um tempo em que seus avós deram a vida a fim de que eles desfrutassem de uma existência saudável e feliz.

     Neste caso, o clamor destes mártires se assemelha ao de Jesus, no Calvário: "Meu Deus, por que me abandonaste?" E logo a seguir: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". Este segundo grito de conformação carregava em si a semente da ressurreição. Poucos dias depois, seus discípulos saíram espalhando por toda parte a boa nova que chegou até nossos dias: "O SENHOR ESTÁ VIVO MO MEIO DE NÓS".

     Temos razões de sobra para repetir este mesmo anúncio, ao lembrar os entes queridos que partiram: "ELES ESTÃO VIVOS NO MEIO DE NÓS".    Amém. Frei Aloísio Fragoso.

 

   Segue um poema que este assunto, algum dia, me inspirou:

 

RENASCIMENTO 


As coisas pelas quais em vão cansei

E as outras que alcancei, porém passaram,

Eternas não seriam e floresceram

Pelo tempo em que me ensinaram

 

A ver a vida muito além da minha vida

E as doces ilusões que inda sobraram

Entregues para outras fantasias

Mais claras do que quando a mim chegaram.

 

Quando penso neste fim dos meus instantes,

Se rompem as barreiras do presente

E a morte me parece uma terra santa

 

De outras utopias delirantes,

Onde a seiva do passado ressurgente

Faz cada planta nascer de outra planta.

FREI ALOÍSIO FRAGOSO é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

 


segunda-feira, 24 de abril de 2017

A MORTE QUE VEM DO AR


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer


A Paixão de Cristo, contemplada nesta Semana Santa que há pouco vivemos, foi povoada com rostos de crianças inocentes, vítimas da violência. Sua inocência agredida povoou minha oração. É difícil não ficar comovido e perplexo quando os atingidos são pequenos que mal começam a vida e já dela são arrancados pelas armas brutais que hoje se empregam. E essas armas não são apenas de fogo, mas também químicas. 

Tocou-me de maneira especial a foto dos dois bebês gêmeos Ahmed e Ayad, de nove meses, mortos pelo gás sarin, substância tóxica e letal que atingiu a Síria no último dia 6 de abril.  O pai, Abdel, que segura os filhos já mortos com um carinho triste e ainda perplexo, perdeu além deles e a esposa, mais vinte membros de sua família. 

Como se deu essa chacina?  A morte veio do ar. O gás tóxico e letal foi jogado de um avião.  Abdel viu as aeronaves cruzando o céu quando saía, de manhã cedo, de casa com a mulher e os filhos.  Minutos depois começou a sentir um gosto terrível na boca e intuiu o que acontecia.  Entregou os filhos à mãe dizendo-lhe que partisse. Enquanto isso, foi procurar seus parentes para ajudá-los e salvá-los.  Não houve tempo. 

No caminho, ia contando os mortos de sua família, um a um, assassinados pela inspiração da morte gasificada que desceu no ar. Ele mesmo começou a passar mal e foi levado ao hospital.  Uma espuma saía da boca de todos e da sua própria. Depois de quatro horas foi ao encontro da mulher e dos filhos.  Já estavam mortos. Tomou os dois bebês no colo e assim, com o rosto devastado de tristeza, foi fotografado e sua imagem reproduzida pela imprensa mundial. 

Como é possível viver ali onde se decretou que a vida não pode mais florescer?  Primeiro, se atira nas pessoas, depois se invadem as casas.  Bombas são atiradas e devastam cidades e populações inteiras. Pessoas se explodem a si e ao que está ao redor, ceifando vidas, a sua e a de muitos.   As pessoas correm, se abrigam, procuram proteção debaixo da terra, em edifícios, etc.  Nem sempre o conseguem.

Mas o que fazer quando a morte vem do ar, do ar que se respira, do sopro da vida insuflado no princípio nas narinas de Adão, o feito do barro.  Quando Deus criou o céu e a terra, criou o ser humano para que em sua finitude feita de perecível barro, igualmente fosse cheio do Espírito divino. Como explicar que esse ar que encheu as narinas, o corpo e todo o ser de Adão, é meio e veículo para substâncias químicas que matam vidas em lugar de animá-las?

 O que fazer quando a morte se infiltra e se confunde com a Ruach que soprava desde o início sobre o caos primevo, tornado cosmo pelo pronunciar da Palavra criadora?  Espírito de vida e não de morte, a Ruach engendra o mundo do nada; o nefesh de Deus transforma a argila perecível da qual somos feitos em corpo animado e destinado à plenitude.

Aquilo a que assistimos e que contemplamos no rosto sofredor de Abdel parece ser um processo cruel de des-criação, de destruição irremissível.  Respirar tornou-se um ato perigoso? Não é mais encher os pulmões de vida?  O ar não é mais a fonte de toda inspiração, de todo sopro que configura, transfigura, deifica, diviniza? Inspirar não pode mais ser compreendido e experienciado como ser habitado pelo Espírito divino, que conduz a criação do artista, a mão do escritor e impulsiona ao seguimento de Jesus, o carpinteiro fazedor de milagres, vivo, morto e ressuscitado?

Diante da dor tamanha daquele pai carregando os corpos inertes dos filhos pequenos, mortos por haverem respirado, não cabem muitas palavras.  Apenas o silêncio da fé e o fio da esperança que nos diz que Deus, o Pai de infinita misericórdia e eterno amor, sofreu também a morte do Filho Unigênito e Bem-Amado.  Na Paixão de Jesus, o Filho sofre a tortura e a morte. Sofre o Pai, atingido mortalmente naquilo que é sua identidade mais profunda: sua paternidade.  O Espírito é amordaçado e emudecido.

Abdel é muçulmano fiel e crê que Allah fará justiça.  Desde o lado de cá da comum fé abraâmica, com o olhar do Cristianismo, sofro a tentação do desespero.  Mas penso e creio que Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas o entregou por todos, como não nos dará igualmente com Ele todas as coisas? 

Gostaria de encontrar Abdel e dizer-lhe respeitosamente que seus filhos vivem, pois o verdadeiro Espírito que Deus insuflou em suas narinas não foi conspurcado e envenenado pelo gás letal.  Não posso falar-lhe ao ouvido, por isso o acompanho na oração.  Penso que coisa parecida viveram os discípulos quando viram Crucificado seu Mestre, Amigo e Senhor. Mas Ele se manifestou vivo no terceiro dia e confirmou suas promessas.  

Neste tempo pascal, o desafio é crer que a morte que vem pelo ar não extinguirá o Espírito.  Ainda que a morte de crianças inocentes nos encha de perplexidade e indignação.  O vento santo que soprou no princípio e inaugurou o mundo continuará soprando em Pentecostes e encherá toda a face da terra. Aqueles que matam crianças e pessoas inocentes distribuindo a morte sob forma de gás não terão a última Palavra.  E Abdel poderá fazer a travessia de sua dor e reencontrar sua esposa e seus filhos na alegria que é dom que não termina. 
 
 Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de "Simone Weil - A força e a fraqueza do amor” (Ed. Rocco).    


Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quarta-feira, 5 de abril de 2017

PAPA FRANCISCO VÊ RISCO DE MORTE PARA A EUROPA SE NÃO REENCONTRAR SEUS IDEAIS


Por Juracy Andrade


Há 60 anos, no dia 25 de março de 1957, era assinado o Tratado de Roma que criou a Comunidade Econômica Europeia (CEE), uma evolução do Mercado Comum Europeu (MCE). Este abrangia França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, a chamada Europa dos Seis. Criados pouco tempo após a 2ª Guerra Mundial, obedeciam àquele estado de espírito pós-guerra que pretendia unir o mundo e acabar com as conflagrações. . Amarga ilusão, pois somente cinco anos depois da rendição da Alemanha e do grande terrorismo praticado pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki, Washington, embalado pela Guerra Fria, iniciou na Coreia a 3ª Guerra Mundial, que dura até hoje. Os fabricantes de armas, coitadinhos, estavam no prejuízo. A própria Europa voltou a conhecer guerras fratricidas nos Bálcãs, após a dissolução da Iugoslávia pós-Tito.

Foi também assinado então o tratado anexo da Comunidade Europeia de Energia Atômica.(Euratom). Por ocasião das celebrações do marco positivo que foi a constituição da CEE, o papa Francisco (que Deus o proteja dos trogloditas da Cúria Romana) falou aos 27 líderes da União Europeia (UE, último estágio da CEE), no Vaticano, que a Europa corre o risco de morrer se não reencontrar seus ideais fundadores. Entre os líderes presentes, Angela Merkel e François Hollande, governantes da Alemanha e da França que, no passado, se engalfinharam em tantas guerras mortíferas (apesar de tão “cristãos”).

Lembramos que o papa argentino recebeu, em 2016, o Prêmio Carlos Magno por seu compromisso pela unificação europeia e também que ele se manifesta frequentemente no sentido de que a Europa seja uma terra de acolhida, sem a xenofobia que a ataca atualmente. Um de seus temas prioritários é que os imigrantes e refugiados sejam vistos como novos europeus. O papa chegou a visitar a ilha italiana de Lampedusa, um ponto de desembarque dos refugiados africanos e orientais que conseguem atingir o continente europeu.

Repetindo o que disse no Parlamento Europeu, na cidade francesa de Strassbourg, há três anos, Francisco pediu que a Europa encontre novos caminhos, aposte no futuro, apure um novo humanismo. Lembrou que, o velho patrimônio europeu é o melhor antídoto contra a falta de valores do nosso tempo, terreno fértil para todos os extremismos.

Em Maastricht, na Holanda, 35 anos mais tarde, foi assinado o tratado que, afinal, constituiu o coroamento de uma longa trajetória de unificação que começou com a Europa dos Seis, o Benelux (seu antecessor, que juntava só Bélgica, Holanda e Luxemburgo) e a CEE. Era criada a União Europeia (UE). Ao tratado está ligada a criação da moeda única em vigor na Zona do Euro ou Eurozona.

Todo esse edifício, construído com generosidade durante muitos anos, ameaça ruir com crises sem fim, sobretudo com a saída do Reino Unido, votada em plebiscito. Daí os apelos de Francisco, que, mesmo não sendo europeu, é de um continente herdeiro da cultura e do humanismo da velha Europa. Esta, cedo acolheu a pregação do cristianismo, pelas mãos do apóstolo Paulo.

O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia