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segunda-feira, 10 de abril de 2023

Dez anos de Francisco: Feliz Aniversário

 

    Maria Clara Bingemer


 

Há dez anos o  Cardeal Jorge Mario  Bergoglio foi eleito Papa e escolheu para si o nome de Francisco.  Desde então, tem mostrado ao mundo, entre muitas coisas, a importância primordial do encontro com o outro.   Diz e repete que encontramos pessoas "não apenas vendo, mas olhando, não apenas ouvindo, não apenas cruzando caminhos com as pessoas, mas ficando com elas, não apenas dizendo "Que pena! Pobres pessoas", mas deixando-nos comover pela compaixão.  E isso implica aproximar-se, tocar e dizer  "não chores, e dar pelo menos uma gota de vida".  Este é, segundo Francisco, o caminho para criar uma “cultura do encontro”. 

A intenção básica da proposta desta cultura é combater a indiferença que prevalece em nossa sociedade de descarte, de velocidade, de superficialidade para chegar a um encontro verdadeiro e profundo com os outros. Mas para consegui-lo, devem ser estabelecidas certas condições. E é o próprio Papa quem as aponta: "Temos que ser pacientes se quisermos compreender aqueles que são diferentes de nós: as pessoas não se expressam plenamente quando são simplesmente toleradas, mas quando percebem que são verdadeiramente bem-vindas. Se tivermos um desejo genuíno de ouvir os outros, aprenderemos a olhar para o mundo com olhos diferentes e a apreciar a experiência humana tal como ela se manifesta em diferentes culturas e tradições”

As ruas do mundo são o lugar desta cultura de encontro, o "locus" onde as pessoas vivem, onde elas são efetiva e afetivamente acessíveis. O testemunho cristão, portanto, não é oferecido através de um  bombardeio de pessoas com mensagens religiosas, mas por uma vontade de se entregar aos outros através de um desejo de responder paciente e respeitosamente às suas perguntas e dúvidas sobre o caminho da busca da verdade e do significado da existência humana.

De Bergoglio a Francisco encontramos o ponto central de uma mudança no próprio estilo de ser Papa. O mesmo Bergoglio que no documento de Aparecida influiu para que se valorizasse o encontro interpessoal com Deus e com o outro, revela-se na pessoa e na linguagem de Francisco como uma proposta audaciosa e avançada de criar uma "cultura do encontro". O Papa sabe que não basta converter alguns indivíduos isolados para que haja uma real transformação na sociedade e na Igreja.  Importa, sim, criar uma cultura, que significa tocar e converter atitudes, valores, costumes, tradições.

No balcão em frente às multidões à espera do anúncio do novo Papa, em 13 de Março de 2013, o Papa Francisco mostrou a sua disponibilidade para viver esse encontro,  com palavras e gestos. Apresentou-se a si próprio como bispo de Roma, enraizado no fim do mundo, onde repousam suas origens.  Pediu também a bênção do povo  antes de abençoá-lo, invertendo a ordem do costume e da tradição. 

Desde então, os dez anos do seu pontificado têm sido cheios de surpresas e novidades.  Trata-se de algo que tem agradado a muitos e desagradado talvez a muitos mais.  Francisco é, sem dúvida, um Papa diferente.  E o seu estilo de ser, comover-se, falar e agir surge certamente como uma surpresa para muitos. Mas encanta e conquista a outros. E isso talvez o faça mais amado fora da Igreja do que dentro dela. 

A mim – católica e teóloga – é como uma lufada de ar fresco numa Igreja que parecia deixar para trás a primavera do Concílio.  De repente, nas palavras do Papa, encontrei novamente a linguagem conciliar, ancorada na antropologia e na história.  A linguagem de uma Igreja que queria ser perita em humanidade, como diz a Constituição Pastoral  Gaudium et Spes. 

Ao longo desses 10 anos pude também redescobrir nos discursos pontifícios muito do que a Igreja latino-americana havia tentado construir no período pós-conciliar e que parecia haver estado tristemente sob suspeita em determinado momento: a prioridade dos pobres; a atenção à cultura popular e a valorização das suas festas, histórias e criações; a crítica não só aos indivíduos mas também aos sistemas que são injustos e oprimem pessoas e comunidades inteiras. 

A encíclica Laudato Si, de 2015, inaugura um novo capítulo na história da doutrina social da Igreja.  A transparência do texto, o discurso que tão harmoniosamente combina teologia com ciência e com poesia e mística, capta a preocupação do momento presente e das novas gerações por um planeta sob constante ameaça e sob ataque diário. Igualmente ensina que somos seres criados em meio a uma comunidade de outros seres vivos, não apenas humanos.  Toda vida merece respeito, reverência e cuidado.  O Papa Francisco, em nível pastoral, convocou a uma mudança de paradigma em toda a Igreja e a sociedade, onde o cuidado deve ser o centro e o norte da vida.  Os seres humanos são chamados a abandonar sua postura arrogante e predatória e a integrar-se na comunidade de todos os seres vivos, a fim de a protegerem, uma vez que as primeiras vítimas da desordem ambiental em que vivemos são os pobres.  A ecologia e a justiça andam, portanto, juntas. 

Em 2020 veio à luz outra encíclica, sintonizada com a Laudato Si. O título fala por si só:  Fratelli Tutti. Reflete sobre a amizade social, refletindo em torno da parábola do Bom Samaritano, situada no capítulo 10 do Evangelho de Lucas. O texto pontifício mostra que se a humanidade progrediu na construção da liberdade e da igualdade, o mesmo não aconteceu em relação à fraternidade.  Passar da lógica do sócio para a do irmão/irmã é o convite que ressoa neste documento, que reflete muito da experiência e do trabalho deste argentino, acostumado à companhia dos mais pobres e entusiasta dos movimentos populares. 

Finalmente, como teóloga, acredito que o Papa abriu novos e esperançosos caminhos para aqueles de nós que trabalham com a inteligência da fé. E por isso sinto-me muito em sintonia com a concepção de teologia que ele mostra ser a sua própria.  Em carta ao cardeal Poli, arcebispo de Buenos Aires, por ocasião da celebração do bicentenário da faculdade de teologia da Universidad Católica Argentina (UCA), escreve  com clareza que "o teólogo deve ser uma pessoa capaz de construir a humanidade à sua volta, transmitir a verdade cristã divina numa dimensão verdadeiramente humana, e não um intelectual sem talento, um moralista sem bondade ou um burocrata do sagrado". 

Mais recentemente, em  sua mensagem à Pontifícia Comissão Teológica Internacional, além de destacar os dois pilares da teologia - vida espiritual e eclesialidade - afirma que "o teólogo deve ir à frente, deve estudar o que vai além; deve também confrontar coisas que não são claras e assumir riscos na discussão". Acrescenta ainda que não se deve trazer questões controversas para o povo, mas sim uma doutrina sólida. O papel do catequista, portanto, não seria o mesmo do teólogo. Francisco entende a vocação da teologia  ancorada na fé, tendo uma identidade intelectual, sem medo de fronteiras e da pesquisa sobre os desafios do mundo e da sociedade. 

Ao comemorar esses 10 anos, olho com gratidão para o pontificado de Francisco.  Ao longo do mesmo, pode-se sentir o esforço incessante de promover este encontro entre as pessoas, que não deve ser algo episódico, mas uma verdadeira cultura.  Ele vê e comunica esta proposta com uma base firme em uma antropologia que concebe o ser humano feito para a alteridade e a diferença, e capaz de construir a comunhão. O encontro só pode ter lugar, como ele próprio sublinha, de baixo para cima, para que ninguém fique de fora desta comunhão difícil de construir, mas tão bela em termos de ideal e de objetivo.

Feliz aniversário, Santidade! Que venham  outros aniversários e celebrações!

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas), entre outras obras. 

 

Copyright 2023 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

segunda-feira, 18 de abril de 2022

FRANCISCO: ESTRATÉGIA DA IGREJA E DO REINO DE DEUS

                                                           Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

            O Papa Francisco tem demonstrado muitas qualidades e virtudes ao longo de seus nove anos de pontificado. Diferentes pessoas e instâncias têm apreciado e elogiado publicamente sua sensibilidade humana e pastoral, sua inteligência que responde prontamente às perguntas difíceis ou mesmo insidiosas de jornalistas e curiosos, sua capacidade de pensar de forma ampla e grande os problemas do mundo e as crises pelas quais passa a humanidade neste século XXI. 

            Sob sua liderança, a Igreja Católica – que ele sempre desejou “em saída” – ultrapassou realmente o nível eclesiástico como único fórum de diálogo e ganhou as praças, as ruas, os espaços acadêmicos, as instituições seculares.  Enfim, por todo o planeta, entre católicos e não católicos, crentes e não crentes, a figura de Francisco é respeitada e ouvida como única liderança positiva existente na atualidade. 

            Por outro lado, não são poucos igualmente os inimigos do Papa que, aberta ou em segredo, militam incansavelmente contra suas iniciativas.  Minam Francisco como pessoa, suas propostas, fazem movimentos que são obstáculos aos movimentos por ele iniciados, acusam-no infundadamente. E, sobretudo, adotam uma atitude de silêncio mal-intencionado, interpretado como macabra aposta que o Papa, agora com 84 anos, envelhece e seu pontificado não deve durar muito.  Nos bastidores correm nomes sobre seu possível sucessor. 

            No entanto, os detratores de Francisco fazem mal em não levar em conta uma das virtudes mais importantes do Papa: seu gênio estratégico.  Bergoglio é alguém que pensa e vê longe.  E age em consequência. Por isso, vem realizando desde o início de seu tempo à frente da igreja de Roma e como chefe da Igreja Católica uma reforma já iniciada com decisões pontuais e significativas. 

            É assim que a nomeação dos bispos com “cheiro de ovelha”, de perfil mais pastoral e mais próximos ao povo começa a ser visível e apresentar volume e espessura nas fileiras episcopais. Do mesmo modo, as nomeações de cargos importantes de coordenação e decisão dentro da cúria romana: de mulheres, leigos e outros segmentos representativos do povo de Deus, que até então permaneciam fora deste corpo que faz funcionar o cotidiano da Igreja Católica. 

            Criou também novos dicastérios, extinguindo outros ou reagrupando-os por afinidade.  Assim, foi promovendo um certo “enxugamento” de uma cúria que se encontrava pesada devido à existência de uma multiplicidade de organismos e setores para além de suas necessidades reais e, sobretudo, pastorais. Por trás da estratégia do pontífice pode-se vislumbrar o desejo de que uma cúria mais ágil e enxuta sirva melhor ao único propósito da existência da Igreja, qual seja, o de anunciar o Evangelho. 

            Como confirmação do que se diz acima, no último dia 19 de março, festa de São José, foi anunciada uma nova Constituição Apostólica sobre a Cúria Romana e seu serviço à Igreja e ao mundo. A nova Constituição entrará em vigor a partir do domingo, 5 de junho, festa de Pentecostes. Seu título diz muito sobre o conteúdo e principalmente a respeito da intenção e objetivo com os quais é promulgada:  Praedicate evangelium.  

            O Papa não reforma a cúria apenas pelo desejo de reformá-la ou mesmo para afastá-la do que fizeram seus predecessores.  Reforma-a para que  possa realizar melhor seu serviço por excelência, que é a pregação do Evangelho, o anúncio da Boa Notícia de Jesus Cristo ao mundo de hoje. E a festa de Pentecostes é escolhida propositalmente para a entrada em vigor dessa reforma tão esperada e por fim realizada: é a festa da liberdade e da abertura universal.  A festa na qual o Espírito, como artífice da linguagem total, quebra as barreiras linguísticas e semânticas, rompe as barreiras das diferenças e abre ouvidos e línguas ao diálogo e ao entendimento.

            Uma cúria pesada e carregada de excessivas estruturas não ajuda a esse diálogo que Francisco vem tentando incansavelmente realizar.  Uma cúria reformada, mais enxuta e mais leve, seguramente será um instrumento poderoso para abrir caminhos e corações na direção de mais vida para todos, construindo uma fraternidade universal onde todos os seres vivos possam chegar à vida em plenitude.

            É hora de aplaudir e louvar o pontífice por sua estratégia que não recua diante de nada que possa ajudar a Igreja a realizar o sonho de Jesus: o Reino de paz, justiça e amor. 

Somos agradecidíssimos, Santo Padre.  Siga em frente e conte com nossa oração e nossa colaboração.  Amém. 

 

Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de Santidade: chamado à humanidade (Paulinas Editora), entre outras obras.



 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Pau que bate em Chico, nem sempre bate em Francisco

 


Prof. Martinho Condini


 

A visita de Bolsonaro há Putin pelo jeito não adiantou nada. Putin não ouviu os seus conselhos e a Rússia invadiu a Ucrânia na última quinta-feira. A credibilidade de Bolsonaro na Rússia não é das melhores.

Essa invasão deixou o mundo estarrecido. Depois de tanto sofrimento nos últimos dois anos diante da pandemia, os homens foram capazes de iniciar uma guerra, injustificável para muitos. Para quem ainda não conhecia muito bem, isto é o ser humano, ele se movimenta segundo os seus desejos e interesses.

A Rússia de Putin invade a Ucrânia de Zelenski, só porque estes querem pertencer a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), criado pelos países ocidentais e liderados Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.

Para a Rússia a entrada da Ucrânia na OTAN, significa a possibilidade de a Ucrânia ter tropas do exército americano na Ucrânia, ou seja, muito próximo de Moscou. O que é algo inaceitável para a Rússia de Putin. E se levarmos em conta a sigla OTAN, a Ucrânia não tem nada a ver com o Atlântico Norte e com os países ocidentais europeus, mas isso não vem ao caso neste momento. 

Pensando pelo lado da questão humanitária e em defesa da soberania nacional, nenhum país tem o direito de invadir outro porque o país invasor se sinta ameaçado por algo que não ocorreu, neste caso a entrada da Ucrânia na OTAN.

É claro que os motivos dessa invasão são muito mais complexos. O motivo da minha indignação sobre esse acontecimento é outro. Até porque não nutro nenhuma simpatia e admiração por  Putin e Zelenski e muito menos pelos seus governos.

O que me chamou atenção nesses últimos dois dias, foi a maneira como a imprensa em geral tratou esse assunto. Não que eu esteja dando razão para a atitude de Putin, muito pelo contrário, mas a forma da narrativa que o ocidente de um modo geral está tratando o assunto, como se essa invasão fosse uma catástrofe de proporções gigantescas e que algo parecido nunca tenha ocorrido na história da humanidade.

E aí eu pergunto, e as centenas de vezes que Israel bombardeou a faixa de Gaza contra os palestinos ou o Líbano preventinamente, nos últimos setenta anos?

Quantos países os Estados Unidos invadiram alegando autodefesa ou defesa de outros países desde o início da Guerra Fria e pós-Guerra Fria?

Apenas para refrescar a nossa memória, o que Putin fez na Ucrânia, Bush pai, Bush filho, Obama, Nixon, Carter e outros invadiram o Vietnã, Iraque, Líbia, Síria, Afeganistão, Ruanda, Palestina e outros países que não me lembro no momento.

Eu não me recordo da midia brasileira (há exceções) se indignarem tão veementemente com esses acontecimentos, como ocorre no caso Rússia/Ucrânia, onde chegaram a dizer que é o pior conflito depois da Segunda Guerra Mundial, talvez seja mesmo, mas para os brancos.

Essa atitude me faz levantar a hipótese que boa parte da midia brasileira, agem de maneira diferente dependendo do país imperialista que comete a invasão, alguns são vistos como super-homens defensores da paz e da justiça mundial e outros são vistos como inconsequentes, irresponsáveis, causadores de uma invasão brutal e precursores do estopim de uma possível terceira guerra mundial.

Enfim, no mundo ocidental capitalista, neoliberal e judaico-cristão, ao qual está incluída a mídia brasileira, pau que bate em Chico, nem sempre bate em Francisco.

*O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros ‘Dom Helder Camara um modelo de esperança’, ‘Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo’, ‘Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire’ e o DVD ‘ Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro ‘Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza’. Contato profcondini@g

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

O ADVENTO DA ECONOMIA DE FRANCISCO E CLARA


 


Marcelo Barros

 

Neste domingo, as Igrejas antigas iniciaram um novo ano litúrgico com o tempo do Advento. Tradicionalmente, o objetivo destas quatro semanas que nos preparam à festa de Natal é fortalecer a esperança na realização do projeto divino e celebrar o Natal de cada ano como sinal de renovação em nossas vidas e na forma de organizar o mundo.

Há uma semana, aconteceu em Assis, na Itália, o encontro do papa Francisco com mais de 2000 jovens economistas do mundo inteiro. O objetivo era pensar juntos novo modelo econômico que una sustentabilidade ecoplanetária, justiça social e viabilidade para as ciências e novas técnicas que se abrem para o futuro. O papa propôs uma economia que parta das necessidades dos empobrecidos do mundo e garanta a todos e todas as necessidades básicas como terra, trabalho e teto.

A primeira vitória deste encontro foi ter provado a falsidade do dogma neoliberal. Sempre se repetia que não há alternativas e o mundo tem de ser assim mesmo. O encontro da juventude em Assis sobre economia mostrou o contrário: há diversas alternativas. Outra grande vitória é que provavelmente é a primeira vez no mundo em que um encontro internacional deste porte não se concentra em ouvir os cientistas mais renomados. Os protagonistas do encontro foram rapazes e moças com menos de 35 anos de idade. O encontro foi exemplo de diálogo intergeracional.

No Brasil, por mais de um ano, este encontro da juventude com o papa sobre Economia foi preparado e discutido. Concretamente, deste processo de preparação, surgiram algumas propostas. Eis algumas:

1) retomar o esforço de um grande mutirão de educação popular, baseado na participação de todos, no diálogo e na consciência dos desafios a serem enfrentados por toda a sociedade.

2) compreender que a economia de tal forma é essencial a todos os seres humanos que não pode ser deixada apenas à responsabilidade dos técnicos e especialistas.

3) desenvolver e aprofundar os projetos de economia solidária.

4) assegurar uma renda básica universal,  como direito de todos os cidadãos e cidadãs de cada país.

5) ajudar todas as pessoas a perceberem que esta nova forma de organizar a economia é expressão de uma espiritualidade  ecumênica e humana. Isso vai além das religiões e possibilita a integração maior do ser humano com todos os seres vivos do planeta.

Para compreendermos melhor: A renda básica é totalmente viável desde que se crie um fundo específico que pode ser alimentado com recursos oriundos de impostos progressivos e da taxação de grandes lucros e fortunas.

Não se trata de uma solução mágica e total, mas pode eliminar a pobreza extrema. Liberta as pessoas de trabalhos aviltantes e ajuda a que os salários não sejam sempre puxados para baixo.

Sobre a economia solidária: Trata-se  de um conjunto de iniciativas que abrange cooperativas, empresas recuperadas,  ou em reabilitação de processos falimentares. Nela cabem pequenos empreendimentos associativos, bancos comunitários e associações locais de troca de mercadorias e serviços. Muitas destas iniciativas desenvolvem moeda própria. Este tipo de economia, baseada na autogestão, é fundamental no processo de verdadeira democratização da sociedade.

 O orçamento participativo foi experiência nas primeiras gestões do PT no Brasil. Reúne as populações de bairro em plenárias para discutir e deliberar sobre a destinação de recursos orçamentários. Trata-se de um exercício de democracia participativa. Exige vontade política dos gestores e certa organização popular para se exercer o diálogo social e político.

Considerar a economia como dimensão importante da espiritualidade é levar em conta que não se pode dividir a vida em departamentos separados. A economia não se restringe aos bens duráveis e de consumo, além de serviços. Há fatores espirituais, próprios da condição humana que devem ser levados em conta e aprofundados. A economia deve ajudar as pessoas a serem solidárias e a construir um mundo baseado no cuidado mútuo e na comunhão com a natureza.

Assim, a economia de Francisco e Clara se torna elemento fundamental de uma abertura da sociedade internacional e de cada povo à realização mesmo sempre em processo e parcial de um programa que as diversas tradições espirituais creem ser divino: possibilitar o natal de uma humanidade nova.

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

quinta-feira, 10 de maio de 2018

FRANCISCO E OS FARISEUS




por Frei Betto

       Durante séculos a humanidade viveu convencida de que o céu era um espaço geográfico acima da Terra. Quando Galileu sugeriu que a Terra não é o centro do Universo, e o sol não passa de simples estrela no conjunto infinito de astros, a Igreja foi a primeira a se sentir abalada. Os teólogos da época preferiram não acreditar na ciência de Galileu. Diante de fatos e dados que ameacem a sua estabilidade, o poder opta por ignorá-los ou negá-los por meio de subterfúgio de falsas interpretações.

       Do ponto de vista religioso, o protótipo do poder conservador, apegado às tradições do passado e incapaz de se atualizar, é o fariseu. Pela crítica que Jesus fez a ele, descrita no capítulo 23 do Evangelho de Mateus, sabemos que se apega à letra da lei que, com o seu peso, esmaga o espírito humano.

       O fariseu é o burocrata da religião. Nas palavras de Jesus, “amarra pesados fardos e coloca nas costas dos homens”, mas ele próprio “não os quer mover nem com o dedo.” Gosta de ser visto e admirado pelos outros e prega o que não é capaz de praticar. Insiste em viver com impecável rigor, embora transgredindo os pontos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. “Coa um mosquito e engole um camelo.” Por fora tem boa aparência, mas “por dentro está cheio de podridão, como sepulcro caiado.” É capaz de saber se vai haver chuva ou sol, mas “incapaz de ler os sinais dos tempos (Lucas 12, 56).”

       O fariseu não aceita se converter. Apega-se às tradições como se fossem verdades e costumes perenes. Qualquer boa nova soa aos seus ouvidos como suspeita e perigosa. Prefere se fechar em seu casulo que se abrir ao voo livre da história. Encerra-se no apertado cômodo do passado, temeroso de enfrentar as largas avenidas do futuro.

       Ora, só é capaz de se atualizar quem cultiva a esperança. Aquele que espera é aberto aos sinais de futuro. Não aceita sedimentar-se no presente e evita se fixar no passado para que não caia sobre ele o castigo da mulher de Ló, transformada em pedra ao olhar para trás.

       O fariseu, entretanto, se deixa petrificar no passado. Incapaz de autocrítica e surdo às críticas, se julga dono da verdade. Vestido de prepotências, cavalga em arrogâncias.

       É essa resistência conservadora e farisaica que suscita tanta oposição ao papa Francisco, dentro e fora da Igreja Católica. Seus detratores fingem estar convencidos de que Jesus excluiu as mulheres do sacerdócio, instituiu a missa em latim, condenou ao inferno os homossexuais e recomendou aos pobres viver resignados com a sua carência de bens e conformados diante da opulência dos ricos.

       De fato, muitos que se opõem ao papa Francisco sabem que a terra lhes treme aos pés. Já não há lugar para uma Igreja triunfalista, apegada ao poder, homofóbica e indiferente aos temas socioambientais e à causa de justiça dos pobres. O deus dos fariseus em nada se assemelha ao Deus de Jesus.


Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros.

Copyright 2018 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 


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sexta-feira, 23 de março de 2018

COMO O PAPA FRANCISCO TERMINA A IGREJA SÅO OCIDENTAL E COMEÇA A IGREJA UNIVERSAL




por Leonardo Boff

Passaram-se já cinco anos do papado de Francisco, bispo de Roma e Papa da Igreja universal. Muitos fizeram balanços minuciosos e brilhantes sobre essa nova primavera que irrompeu na Igreja. De minha parte enfatizo apenas alguns pontos que interessam à nossa realidade.

O primeiro deles é a revolução feita na figura do papado, vivida em pessoa por ele mesmo. Não é mais o Papa imperial com todos os símbolos, herdados dos imperadores romanos. Ele se apresenta como simples pessoa como quem vem do povo. Sua primeira palavra de saudação foi dizer aos fiéis”buona sera”: boa noite. Em seguida, anunciou-se como bispo de Roma, chamado a dirigir no amor a Igreja que está no mundo inteiro . Antes de ele mesmo dar a benção oficial, pediu que o povo o abençoasse. E foi morar não num palácio – o que teria feito chorar Francisco de Assis – mas numa casa de hóspedes. E come junto com eles.

O segundo ponto importante é anunciar o evangelho como alegria, como superabundância de sentido de viver e menos como doutrinas dos catecismos. Não se trata de levar Cristo ao mundo secularizado. Mas descobrir sua presença nele pela sede de espiritualidade que se nota em todas as partes.

O terceiro ponto é colocar no centro de sua atividade três pólos: o encontro com o Cristo vivo, o amor apaixonado pelos pobres e o cuidado da Mãe Terra. O centro é Cristo e não o Papa. O encontro vivo com Cristo tem o primado sobre a doutrina.

Em vez da lei anuncia incansavelmente a misericórdia e a revolução da ternura, como o disse, falando aos bispos brasileiros em sua viagem ao nosso país.

O amor aos pobres foi expresso na sua primeria intervenção oficial:”como gostaria que a Igreja fosse a Igreja dos pobres”. Foi ao encontro do refugiados que chegavam à ilha de Lampeduza no sul da Itália. Ai disse palavras duras contra certo tipo de civilização moderna que perdeu o sentido da solidariedade e não sabe mais chorar sobre o sofrimento de seus semelhantes.

Suscitou o alarme ecológico com sua encíclica Laudato Si:sobre o cuidado da Casa Comum (2015), dirigida a toda a humanidade. Mostra clara consciência dos riscos que o sistema-vida e o sistema-Terra correm. Por isso expande o discurso ecológico para além do ambientalismo. Diz enfaticamente que devemos fazer uma revolução ecológica global(n.5). A ecologia é integral e não apenas verde, pois involucra a sociedade, a política, a cultura, a educação, a vida cotidiana e a espiritualidade. Une o grito dos pobres com o grito da Terra(n. 49). Convida-nos a sentir como nossa a dor da natureza, pois todos somos interligados e envolvidos numa teia de relações. Convoca-nos a “alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo….uma mística que nos anima, nos impele, motiva e encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”(n. 216).

O quarto ponto significativo foi apresentar a Igreja não um castelo fechado e cercado de inimigos, mas um hospital de campanha que a todos acolhe sem reparar sua extração de classe, de cor ou de religião. É uma Igreja em permanente saida para os outros especialmente para as periferias existenciais que grassam no mundo inteiro. Ela deve servir de alento, infundir esperança e mostrar um Cristo que veio para nos ensinar a viver como irmãos e irmãs, no amor, na igualdade, na justiça, abertos ao Pai que tem características de Mãe de misericórdia e de bondade.

Por fim, mostra clara consciência de que o evangelho se opõe às potências desse mundo que acumulam absurdamente, deixando na miséria grande parte da humanidade. Vivemos sob um sistema que coloca o dinheiro no centro e que é assassino dos pobres e um depredador dos bens e serviço da natureza. Contra esses tem as mais duras palavras.

Dialoga com todas as tradições religiosas e espirituais. No lava-pés da Quinta-Feira Santa estava uma menina muçulmana. Quer as Igrejas, co m suas diferenças, unidas no serviço ao mundo especialmente aos mais desamparados. É o verdadeiro ecumenismo de missão.

Com esse Papa que “vem do fim do mundo” se encerra uma Igreja só ocidental e começa uma Igreja universal, adequada à fase planetária da humanidade, chamada a encarnar-se nas várias culturas e construir ai um novo rosto a partir da riqueza inesgotável do evangelho.

Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escreveu Francisco de Assis-Francisco de Roma, a irrupção da primavera, Mar de Ideias, Rio 2013.

segunda-feira, 19 de março de 2018

CINCO ANOS DE FRANCISCO

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Já lá se vão cinco anos que a fumaça branca subiu nos céus de Roma e anunciou a eleição de um novo papa. Pouco depois foi anunciado seu nome à multidão que ali esperava: Jorge Mario Bergoglio, cardeal de Buenos Aires, que escolheria para seu pontificado o nome de Francisco. 

            Ao dirigir-se aos fiéis que o saudavam efusivamente, chamava a atenção a simplicidade de suas vestes brancas, apenas com um crucifixo de metal ao peito.  Nada de casulas bordadas ou ornamentos luxuosos.  Apenas a simpatia de um “boa noite” e o pedido enternecedor de que o povo o abençoasse.

            Ao longo desses cinco anos, o Papa que veio “do fim do mundo” não fez mais que confirmar esta primeira impressão que deixou para uma Praça de São Pedro lotada e emocionada. A simplicidade tem sido sua marca, a comunicação franca, direta e alegre seu modo habitual de proceder. Nada de solenidades excessivas e distanciamentos hierárquicos.  Mas uma maneira autêntica e simpática de estar perto das pessoas. 

            Para muitos católicos, a impressão foi, desde o início, que o Concílio Vaticano II estava de volta: presente nas palavras, nos gestos e nas atitudes do novo pontífice.  Respirava-se novamente os ares de diálogo e abertura que caracterizaram a revolução iniciada pelo bom e santo João XXIII. Os pobres e a justiça brilharam outra vez como prioridades da Igreja.  A esses pobres de muitos rostos – sem teto, refugiados, deficientes, abandonados – o Papa tem voltado de modo privilegiado sua atenção e cuidado pastoral. 

            Para os não católicos, os de outras religiões ou não crentes, o papado atual tem trazido positivas novidades.  Certamente jamais haviam visto um papa tão próximo, tão familiar. E seguramente não esperavam ver um chefe de estado com tamanha habilidade diplomática e tanta liderança.  Para muitos que se encontram fora da Igreja, Francisco é, sem dúvida, um líder.  Para estes e para todos, trata-se  da única liderança mundial positiva no atual momento da história. 

            Entre as vítimas da injustiça no mundo atual há uma que se destaca no pontificado de Francisco: os migrantes.  Diante da massa de homens e mulheres que atravessam continentes em busca de uma vida melhor para si e suas famílias e que terminam muitas vezes mortos afogados no Mar Mediterrâneo, há todo um serviço organizado de acolhida e atendimento, que ocupa a linha de frente da ação do Vaticano regido por Francisco. 

            Sendo chefe de uma Igreja que muitas vezes dá a impressão de estar fechada e distante dos problemas profundos e íntimos da humanidade, o Papa tem traçado uma linha mestra composta de uma só palavra: misericórdia.  Assim o documento Amoris Laetitia, que trata da família e do amor é perpassado do começo ao fim por esse olhar que não é de juízo e punição, mas de acolhida, compreensão, escuta e compaixão. 

            Para os que acompanham seu itinerário cotidiano, feito de surpresas e novidades contínuas que enlouquecem a assessoria de imprensa, Francisco tem mudado radicalmente a imagem do papado como instituição.  E os jornalistas e fotógrafos correm sem cessar atrás desse Papa que sai do Vaticano e anda pelas ruas, que senta para comer um sanduíche ao lado do guarda suíço, que instala duchas e máquinas de lavar roupa para os mendigos de Roma.  E que além disso carrega a própria maleta, vai a uma ótica para trocar os óculos e usa banheiros públicos quando deles sente necessidade. 

            Para os pequenos e desvalidos de toda sorte, Francisco, o Papa das surpresas é todo ternura e carinho.  Beija as crianças, desce do papamóvel para segurar a mão e abençoar uma guarda que levou um tombo do cavalo, acaricia os doentes.  E diz às jovens mães com bebês de peito que choram durante a missa que amamentem seus filhos, pois se choram é porque têm fome. 

            Após cinco anos desse pontificado surpresa, evidentemente Francisco é amado e admirado por muitos, mas também não tão benquisto e combatido por alguns.  Há quem se sinta incomodado por sua maneira de ser e de pensar.  Sua ousadia semeia o temor entre aqueles que temem perder a segurança da vida que levam e não desejam sair da zona de conforto.  

            Ele, no entanto, avança firme, sem voltar atrás nas decisões tomadas que lhe parecem corretas.  Segue adiante com seu sorriso e olhar radiante.  Sendo um chefe religioso, o Papa tem se mostrado como alguém profundamente humano. 

           Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.
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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Francisco quer a Igreja fora das igrejas


 Por Frei Betto

      Semana passada, em Nova Iguaçu (RJ), agentes pastorais, membros de Comunidades Eclesiais de Base, adeptos da Teologia da Libertação, do Movimento Fé e Política e de movimentos sociais se reuniram para aprofundar a proposta do papa Francisco de “uma Igreja em saída”.

      Diminui o número de católicos no Brasil. A pesquisa Datafolha, de dezembro de 2016, comprovou redução de 9 milhões de fiéis em dois anos. Naquela data, apenas 50% dos entrevistados se autodeclararam católicos.

      O papa Francisco está ciente da crise do catolicismo. Por isso, propõe uma “Igreja em saída”. Isso significa romper os muros clericalistas que amarram a Igreja aos templos; flexibilizar as leis canônicas (como admitir o recasamento de divorciados); e modificar os parâmetros ideológicos (que consideram o catolicismo conatural ao capitalismo).

      Esse projeto de Francisco se choca com a “restauração identitária” ou, nas palavras do teólogo e meu primo João Batista Libanio, “volta à grande disciplina”, defendida por João Paulo II e Bento XVI. Propunham a leitura dos documentos do Concílio Vaticano II à luz do Vaticano I: predominância do Direito Canônico; Catecismo da Igreja Católica; desestímulo às Comunidades Eclesiais de Base; aceitação da liturgia tridentina; valorização dos movimentos papistas; e desconfiança diante da sociedade (tida como relativista e niilista).

      Para o projeto de “restauração identitária”, o papel da Igreja é salvar almas. Para o de “Igreja em saída”, é libertar a humanidade da injustiça e da desigualdade. As pessoas se salvam salvando a humanidade de tudo que a impede de ser a grande família dos filhos e filhas de Deus. Daí a proposta de Francisco ao incentivar os movimentos sociais a lutar por três T: terra, teto e trabalho.

      O primeiro projeto quer uma Igreja centrada na liturgia e nos sacramentos, na noção de pecado, na submissão dos leigos ao clero. Guarda nostalgia dos tempos em que a Igreja Católica ditava a moral social; merecia a reverência do Estado, que a cobria de privilégios; e, hoje, seus adeptos se sentem incomodados frente à secularização da sociedade e aos avanços da ciência e da tecnologia. 

      Ora, quantos jovens batizados na Igreja Católica estão hoje preocupados com a noção de pecado? Quantos temem ir para o inferno ao morrer? Quantos se preservam virgens até o casamento?

      O projeto de Francisco é de uma Igreja descentrada de si e centrada nos graves desafios do mundo atual: preservação da natureza; combate à idolatria do capital; diálogo entre as nações; acolhimento dos refugiados; misericórdia às pessoas; protagonismo dos movimentos populares; centralidade evangélica nos direitos dos pobres e excluídos.

      Bento XVI renunciou por reconhecer o fracasso do projeto de “restauração identitária”, ainda apoiado por expressivo número de bispos, padres e religiosas, incomodados com as orientações do papa Francisco, a quem alguns criticam abertamente.

      O novo jeito de ser católico, proposto por Francisco, corresponde ao que dizia são Domingos, fundador da Ordem religiosa a que pertenço: “O trigo amontoado apodrece; espalhado, frutifica”. Sair da sacristia para a sociedade; encarar o mundo como dádiva de Deus; descobrir a presença de valores evangélicos em pessoas e situações desprovidas de fé ou religiosidade; buscar o diálogo ecumênico e inter-religioso; estar menos na Igreja para se fazer mais presente no Reino de Deus – categoria que, na boca de Jesus, se contrapunha ao reino de César, e significa o mundo no qual a paz seja fruto da justiça, e não do equilíbrio de armas.

      A meta é o Reino de Deus, no qual “Deus será tudo em todos”, como prenunciou o apóstolo Paulo (I Coríntios 15, 28). O caminho para atingi-lo inclui os movimentos sociais, as instituições da sociedade, as ferramentas políticas. E a Igreja funciona como “posto de gasolina” para abastecer-nos na fé e na espiritualidade capaz de nos estimular como militantes da grande utopia - o mundo que Deus quer para seus filhos e filhas viverem com dignidade, liberdade, justiça e paz.

Frei Betto é escritor, autor de “Parábolas de Jesus – ética e valores universais” (Vozes), entre outros livros.
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quinta-feira, 18 de maio de 2017

FRANCISCO E O VALOR HUMANO

por Frei Betto



       Notícias que nos dão a impressão de retrocessos dos valores conquistados pela modernidade: Trump cassa o direito dos pobres à saúde; Marine Le Pen falsifica documento para acusar o adversário Emmanuel Macron de manter contas em paraíso fiscal; terroristas islâmicos atacam acampamento de refugiados; deputado do PSDB assina projeto de lei em prol da neoescravatura do trabalhador rural; a corrupção no Brasil parece não ter fim; bispos denunciam reformas trabalhista e previdenciária como violação de direitos dos trabalhadores etc.

       Talvez a contradição seja inerente à nossa condição humana, o que a Bíblia chama de pecado original. Sempre houve malfeitos. Não havia, porém, meios de comunicação que dessem notícias da aldeia vizinha. Como ainda hoje pouco se divulga o lado positivo da vida.

       Na Igreja primitiva também havia fiéis que prestavam culto a Deus embora se mantivessem insensíveis aos direitos dos excluídos: “Queres honrar o corpo de Cristo? Então não deixes que ele seja alvo de desprezo nos seus membros, ou seja, nos pobres, que não têm roupa para se vestir. Não o honres aqui na igreja com retalhos de seda, enquanto lá fora o deixas padecer de frio e nudez.” (Homilia de São João Crisóstomo [344-407], patriarca de Constantinopla).

       Não é fácil criar uma cultura que induza todo ser humano a encarar o outro como digno de supremo respeito. Na linguagem evangélica, como “morada de Deus” (Carta a Timóteo 3, 15). Não haveria massacres de sem-terras no Mato Grosso, ataque a índios no Maranhão ou a refugiados em São Paulo, fuzilaria nos morros do Rio.

       Onde a causa dessa incivilidade? Na cultura neoliberal que respiramos, na qual os bens valem mais que as pessoas. Merecem valor apenas as pessoas portadoras de bens materiais ou simbólicos (fama, poder, riqueza).

       A essa óptica equivocada reagiu o papa Francisco: “Gostaria de vos contar uma história que aparece no midrash bíblico de um rabino do século XII. Relata a construção da Torre de Babel. Para construir a torre era preciso fazer tijolos: amassar a lama, formatar na palha, pôr as peças no forno. Quando o tijolo estivesse pronto, tinha de ser levado para cima. Um tijolo era um tesouro, tendo em vista todo o trabalho necessário para fabricá-lo. Cada vez que caía um, era uma tragédia, e se punia o operário culpado. Um tijolo era muito precioso. Mas se caísse um operário, era diferente, não acontecia nada.

       É o que acontece hoje: se os investimentos nos bancos diminuem minimamente, eis uma tragédia! Mas se as pessoas morrem de fome, não têm o que comer, não gozam de boa saúde, não faz mal! Eis a nossa crise de hoje! E o testemunho de uma Igreja pobre para os pobres vai contra essa mentalidade.” (Galleazzi, Giacomo; Tornielli, Andrea. Papa Francisco, esta economia mata. Lisboa, Bertrand Editora, 2016, pp. 24-25).

       Ao receber embaixadores junto à Santa Sé, em 16 de maio de 2013, Francisco sublinhou: “Criamos novos ídolos. A adoração do antigo bezerro de ouro encontrou uma imagem nova e desapiedada no fetichismo do dinheiro e na ditadura da economia sem rosto nem objetivo realmente humano. A crise mundial que atinge as finanças e a economia parece evidenciar as deformidades e, sobretudo, a grave falta de perspectiva antropológica, que reduz o homem a apenas uma das suas exigências: o consumo. E, pior ainda: hoje o próprio ser humano é considerado um bem de consumo descartável.

       Inauguramos esta cultura do desperdício. Nesse contexto, a solidariedade, o tesouro dos pobres, é muitas vezes julgada contraproducente, contrária à racionalidade financeira e econômica. Enquanto os rendimentos de uma minoria crescem de maneira exponencial, os da maioria diminuem. Este desequilíbrio deriva de ideologias que promovem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira, negando assim o direito de controle aos Estados, aos quais caberia a responsabilidade de zelar pelo bem comum.”

       A voz do papa clama no deserto? Há que atacar as causas desses efeitos que tanto nos horrorizam.

Frei Betto é escritor, autor de “Um Deus muito humano” (Fontanar), entre outros livros.
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