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terça-feira, 8 de novembro de 2022

A tarefa da Reforma a ser sempre retomada


Marcelo Barros


 

As recentes eleições no Brasil chamaram atenção do mundo inteiro para a importância do fator religioso na campanha de candidatos que se apresentaram como candidatos de Deus e de Igrejas, nas quais era mal visto quem não votasse de acordo com o indicado pelo padre ou pastor.

Nestas eleições que se concluíram neste domingo, enquanto mais da metade da população brasileira votava no presidente Lula por ver na proposta de sua candidatura a retomada da Democracia e maior cuidado com as categorias mais empobrecidas do povo, católicos e evangélicos tradicionalistas pediam a Deus ou a Nossa Senhora para libertar o Brasil da esquerda e do que chamam fantasmagoricamente de Comunismo. Deus deve ter se sentido como quando, na copa de futebol,  jogadores de dois times rivais fazem promessa para Deus dar a vitória ao seu time e Deus tem de escolher de qual time será torcedor.   

Na sociedade brasileira, a ingerência de Igrejas em eleições e na Política não é algo novo. Desta vez, a novidade foi o uso e abuso das redes sociais, assim como o fato de alguns pastores e padres se servirem de fake-news e mentiras deslavadas, sem nenhum escrúpulo ético ou religioso.

A aliança de grande parte de ministros e grupos eclesiásticos com a direita violenta revela atração de caráter quase erótico das  hierarquias pelo autoritarismo político e pelo sonho de retomar o poder sobre a sociedade.  

               A Igreja Católica chegou ao Brasil de braço dado com os colonizadores, em cujas fazendas mantinham capelães que legitimavam religiosamente a escravidão de negros e índios. Com pouquíssimas exceções, bispos e padres sempre apoiaram reis e senhores. Nas primeiras décadas do século XIX, quando quase todos os países do continente já eram independentes, o papa ainda publicava bulas que obrigavam os católicos latino-americanos a se submeterem aos reis de Espanha e Portugal.

              Na segunda metade do século XIX, vieram Igrejas evangélicas. Traziam na bagagem uma cultura típica do sul dos Estados Unidos: racista, escravocrata e favorável à supremacia branca de perfil protestante. 

              Até meados do século XX, no Brasil, era normal os bispos católicos  indicarem candidatos para o povo votar e a Liga Eleitoral Católica (LEC) dizia em quem os católicos não podiam votar.

Na década de 1960, vários países do continente viveram sob ditaduras. Com algumas exceções, as autoridades eclesiásticas apoiaram os militares contra o fantasma do Comunismo, com os mesmos argumentos que, ainda hoje, muitos padres e pastores usam para apoiar a extrema direita. Nada de novo debaixo do sol. A única novidade é a acirrada competição entre grupos católicos tradicionalistas e comunidades pentecostais e evangélicas de tendência fundamentalista para ver quem consegue reimplantar no Brasil um regime de Cristandade.

Em 2019, a parábola do filme “Divino Amor” do cineasta Gabriel Mascaro previa para 2027 um Brasil evangélico, dominado pela Igreja do Divino Amor. A festa do Carnaval tinha sido abolida e a única religião permitida era a seita do Divino Amor, que reduzia Deus às conveniências sociais, econômicas e também sexuais dos ministros eclesiásticos.

Do mesmo modo, vários grupos católicos lutam com unhas e dentes para serem eles a impor o Brasil católico do jeito deles e em nome de Jesus. Como canta sarcasticamente o grupo teatral “Companhia do Tijolo”: Jesus manda dizer que não gosta de marcha para Jesus. Prefere os atabaques e o ritmo dos terreiros. Não rejeita uma cervejinha com amigos no bar da esquina, como fazia no tempo em que convivia com as pessoas que os religiosos do templo julgavam como infiéis e de vida errada.

Agora, precisamos de profetas e profetizas que recordem aos interessados: Deus não assinou contrato de exclusividade com ninguém. A este novo tipo de doutores da lei e sacerdotes dos novos templos de Salomão ou de Malafaias, sejam pentecostais, sejam católicos, Jesus repete o que disse aos antigos fariseus: “Em verdade, vos digo: os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes de vós no reino de Deus” (Mt 21, 31).

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b

 

sábado, 6 de agosto de 2022

A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir

 


Prof. Martinho Condini

Caras amigas e amigos!

 

Quando achamos que todo o Brasil está contaminado pela herança maldita dessa carniça de presidência e seu repugnante governo, somos surpreendidos positivamente com trabalhos realizados por esse Brasilzão. Isso nos dá alento para lutar por um país melhor. E também perceber que somos constituídos em sua maioria por um povo que tem muita vontade em colaborar na construção de uma sociedade plena e digna. E um dos caminhos para essa construção é a educação, mas não qualquer educação, mas uma educação libertadora.

 

Estou dizendo isso porque tive a oportunidade de presenciar dias atrás, uma das experiências mais significativas e incríveis em minha vida como educador, e olha que são mais de trinta anos trabalhando com educação.

Essa grata surpresa quem me proporcionou foi a acolhedora cidade de Palmas de Monte Alto, no sudoeste da Bahia, por meio de dois projetos: “Escola em Tempo Integral” e “Profeintegral”, que estão sendo implantados pela prefeitura e a secretaria da educação do município, que possui uma equipe incrível de trabalho, muito competentes e comprometidos, secretária da educação, toda a equipe da secretaria,  gestoras, gestores, coordenadoras, coordenadores, educadoras e educadores, esses para mim, os mais importantes desse processo. Este audacioso projeto tem os educandos e educadores como os principais sujeitos a serem beneficiados, ambos em suas formações de maneira integral, por meio de ações pontuais, coletivas e dialogadas. Aos educadores a capacitação e para os estudantes a formação. 

Parafraseando o grande educador, escritor e poeta Rubem Alves, eu digo que ao chegar em Palmas de Monte Alto, eu vi a “A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir”, digo isso, porque é um projeto em andamento, sendo construído por toda a comunidade escolar.

No meu ponto de vista, para os padrões econômicos e financeiros de Palmas de Monte Alto, desenvolver um projeto como esse, é algo surpreendente, encantador, é de encher os nossos olhos d’água e o coração de esperançar e acreditar, sim, que a “utopia possível” é algo atingível quando se pensa de maneira homogênea e com o intuito de alcançar um ideal coletivo.

É claro que no processo há dificuldades e desafios, mas esses serão superados na luta diária e com muita coragem, e isso não falta para as educadoras e educadores de Palmas de Monte Alto.

O que vi lá, foram escolas muito bem cuidadas com toda a infraestrutura que as crianças precisam desde a creche até o ensino médio. Nesta Escola em Tempo integral os estudantes fazem três refeições ao dia, há o acompanhamento de nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos. Há escolas que possuem hortas. Desenvolve-se projetos de formação musical e esportes.

No período da manhã os estudantes têm as disciplinas do núcleo comum e a tarde estão sendo instituídos e aprimorados o desenvolvimento de projetos, escolhidos por eles, que terão a autonomia para desenvolve-los, com a orientação de um educador ou educadora das áreas afins ao projeto escolhido. Isso significa para o estudante pertencimento e autonomia no processo de ensino aprendizagem. Está escola está proporcionando a esses estudantes construir o seu conhecimento libertador e não “bancário”, relembrando o mestre Paulo Freire.  

A maneira que Palmas de Monte Alto encontrou para dar melhor qualidade de vida aos seus filhos foi investindo num projeto arrojado em Educação em Tempo Integral que possibilitará a cristalização cidadã de suas crianças, jovens e adultos e uma formação humana e intelectual para a vida e vida em abundância.

 Estou plenamente convencido que este grande projeto está sendo e será ainda mais um divisor de águas para todas e todos os habitantes de Palmas de Monte Alto, porque o investimento na educação traz benefícios para toda a coletividade.

Boa sorte e ninguém solta a mão de ninguém.      

 

 

 

  

 

 

 

sábado, 9 de julho de 2022

A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir

 



Prof. Martinho Condini

Caras amigas e amigos!

 

Quando achamos que todo o Brasil está contaminado pela herança maldita dessa carniça de presidência e seu repugnante governo, somos surpreendidos positivamente com trabalhos realizados por esse Brasilzão. Isso nos dá alento para lutar por um país melhor. E também perceber que somos constituídos em sua maioria por um povo que tem muita vontade em colaborar na construção de uma sociedade plena e digna. E um dos caminhos para essa construção é a educação, mas não qualquer educação, mas uma educação libertadora.

 

Estou dizendo isso porque tive a oportunidade de presenciar dias atrás, uma das experiências mais significativas e incríveis em minha vida como educador, e olha que são mais de trinta anos trabalhando com educação.

Essa grata surpresa quem me proporcionou foi a acolhedora cidade de Palmas de Monte Alto, no sudoeste da Bahia, por meio de dois projetos: “Escola em Tempo Integral” e “Profeintegral”, que estão sendo implantados pela prefeitura e a secretaria da educação do município, que possui uma equipe incrível de trabalho, muito competentes e comprometidos, secretária da educação, toda a equipe da secretaria,  gestoras, gestores, coordenadoras, coordenadores, educadoras e educadores, esses para mim, os mais importantes desse processo. Este audacioso projeto tem os educandos e educadores como os principais sujeitos a serem beneficiados, ambos em suas formações de maneira integral, por meio de ações pontuais, coletivas e dialogadas. Aos educadores a capacitação e para os estudantes a formação. 

Parafraseando o grande educador, escritor e poeta Rubem Alves, eu digo que ao chegar em Palmas de Monte Alto, eu vi a “A escola que sempre sonhei e que estou vendo surgir”, digo isso, porque é um projeto em andamento, sendo construído por toda a comunidade escolar.

No meu ponto de vista, para os padrões econômicos e financeiros de Palmas de Monte Alto, desenvolver um projeto como esse, é algo surpreendente, encantador, é de encher os nossos olhos d’água e o coração de esperançar e acreditar, sim, que a “utopia possível” é algo atingível quando se pensa de maneira homogênea e com o intuito de alcançar um ideal coletivo.

É claro que no processo há dificuldades e desafios, mas esses serão superados na luta diária e com muita coragem, e isso não falta para as educadoras e educadores de Palmas de Monte Alto.

O que vi lá, foram escolas muito bem cuidadas com toda a infraestrutura que as crianças precisam desde a creche até o ensino médio. Nesta Escola em Tempo integral os estudantes fazem três refeições ao dia, há o acompanhamento de nutricionistas, psicólogos e fonoaudiólogos. Há escolas que possuem hortas. Desenvolve-se projetos de formação musical e esportes.

No período da manhã os estudantes têm as disciplinas do núcleo comum e a tarde estão sendo instituídos e aprimorados o desenvolvimento de projetos, escolhidos por eles, que terão a autonomia para desenvolve-los, com a orientação de um educador ou educadora das áreas afins ao projeto escolhido. Isso significa para o estudante pertencimento e autonomia no processo de ensino aprendizagem. Está escola está proporcionando a esses estudantes construir o seu conhecimento libertador e não “bancário”, relembrando o mestre Paulo Freire.  

A maneira que Palmas de Monte Alto encontrou para dar melhor qualidade de vida aos seus filhos foi investindo num projeto arrojado em Educação em Tempo Integral que possibilitará a cristalização cidadã de suas crianças, jovens e adultos e uma formação humana e intelectual para a vida e vida em abundância.

 Estou plenamente convencido que este grande projeto está sendo e será ainda mais um divisor de águas para todas e todos os habitantes de Palmas de Monte Alto, porque o investimento na educação traz benefícios para toda a coletividade.

Boa sorte e ninguém solta a mão de ninguém.      

 

 

 

   

 

 

 

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A MATERNIDADE HOJE E SEMPRE

Maria Clara Bingemer


            Celebrou-se uma vez mais o Dia das Mães, esperado ansiosamente pelo comércio como a data mais lucrativa depois do Natal.  Significa para alguns uma festa em família, alegre e regada a boa comida, e muita alegria. Para outros traz com crueza o vazio da ausência impossível de ser preenchida daquela que já se foi. Filhos e netos riem com a matriarca ainda presente, outros choram com saudades e recordando os dias de convivência que vivem na memória para sempre. 

            Lembrei-me, durante o alegre encontro familiar e também depois dele, de minha netinha mais nova que um dia me perguntou: “Vovó e a sua mãe?  Onde ela está? “Respondi: “Morreu há tempos querida.” Ela então ficou pensativa e disse: “Ah é?  Eu não sabia que mãe morria”. Senti que ali a inocência de sua infância havia recebido um golpe duro.  Ela acabava de descobrir que tudo e todos que vivem, mesmo aquela que é a fonte da vida e cuida da vida incessantemente, morrem. 

            À semelhança de Maria Victoria, minha querida neta, está intrigado com a morte das mães o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, que escreveu: “Por que Deus permite/ Que as mães vão-se embora?” E explica nos versos seguintes a razão de sua pergunta: “Mãe não tem limite/É tempo sem hora/Luz que não apaga/Quando sopra o vento//E chuva desaba”

            Quando falham todos os apoios e as seguranças, quando as ameaças parecem ganhar terreno, mãe é um porto seguro que fala de amor para sempre, de vida gestada, nutrida, abrigada, protegida.  Colo de mãe é o antídoto para perigos e medos.  A aliança da mãe é com a vida.  E quantas já não houve e há que deixam de lado todos os afazeres para estabelecer-se à cabeceira do filho doente? Ou que se dedicam quando todas as esperanças já foram perdidas, a fim de arrancar um minuto a mais, um suspiro além de vida de onde já todo movimento parece haver desertado? Ou ainda aquelas que procuram incessantemente e com o melhor das forças que lhes restam os filhos desaparecidos por alguma cruel ditadura ou pela violência urbana? 

            Mãe não tem limite, como diz Drummond, nem de tempo, nem de espaço, nem de racionalidade nem de previsibilidade.  Amor de mãe faz explodir todas as expectativas e as fronteiras dos ritmos humanos e segue iluminando e aquecendo mesmo quando sopram ventos e chuvas desabam, arrastando destroços e anunciando catástrofes. 

            Não à toa a Bíblia Hebraica nos diz que o amor de Deus se compara com o de uma mãe. É o profeta Isaías quem fala: “Haverá mãe que possa esquecer seu bebê que ainda mama e não ter compaixão do filho que gerou? Contudo, ainda que ela se esquecesse, Eu jamais me esquecerei de ti!” 

            A relação com a mãe é o primeiro canal para a transcendência que o ser humano experimenta.  Já desde a vida aquática e uterina, nadando nessas águas que o protegem e ao mesmo tempo o alimentam e o mantêm vivo.  Uma vez saída do ventre materno, a criança experimenta sua identidade de ser relacional através da mãe, que a pega ao colo, a amamenta, a lava e cuida, e lhe devolve o olhar com o qual começa a vislumbrar a existência. 

            Há, portanto, na maternidade algo de sagrado, se o sagrado é precisamente esse ponto de encontro e conexão entre o biológico e a emergência da representação e da autotranscedência.  São as mães aquelas que primeiro dão à criança a possibilidade de participar da riqueza destas duas dimensões: o biológico e o simbólico; o físico e o espiritual; a unidade e a pluralidade que gera a relacionalidade. É a mãe que começa a ensinar a cada um e cada uma que gestou em seu ventre e pariu para o mundo a bela aventura de viver no cruzamento entre duas exigências: uma fisiológica, corporal, sexual; outra da ordem da representação, dos ideais e dos projetos. 

            Assim também é a mãe que abre ao filho a possibilidade de realizar sua vocação, que é tornar-se um ser de palavra.  A língua mãe será por ela pronunciada e ensinada – ao ouvido, no acalanto, nas canções – e se tornará língua falada, palavra pronunciada nos lábios do bebê que ouve e posteriormente chegará ao milagre da linguagem. 

            Por isso, ela aproxima o filho e através dele, os outros, da eternidade e do divino.  Voltemos sobre isso ao poema de Drummond: “Mãe, na sua graça/É eternidade/Por que Deus se lembra/Mistério profundo/De tirá-la um dia?” Como aquela que tem tão inquebrantável aliança com a vida se vai deixando uma saudade e um vazio que nada preenche?

            Não a resposta, mas um começo dela, está no próprio verso do poeta: Mistério Profundo. O mistério da fé é que Deus jamais abandona aquilo que criou.  As mães são suas parceiras nessa obra eterna de tecer e voltar a tecer a vida, fazendo-a sempre mais complexa e mais bela.  Deus é Espírito, que sopra onde quer e não se sabe de onde vem nem para onde vai.  Assim é com as mães que um dia partem.  Mas partindo permanecem: nos ensinamentos, na memória, nos traços que ficam nos rostos e nos corpos dos filhos, nos rastros de amor que possibilitaram tantas coisas que talvez sem esse excesso de dedicação e ternura não aconteceriam.  

O poeta Drummond, depois de dizer, aborrecido que fosse ele rei do mundo baixaria uma lei de que mãe não morre nunca, chega depois à misteriosa resposta que consola os corações de todas as orfandades: “Mãe ficará sempre/ Junto de seu filho/ E ele, velho embora/ Será pequenino/ Feito grão de milho”.  O desejo expresso pelo poeta, embora não seja decreto do Senhor, de certa forma se realiza. 

Talvez esta seja a melhor resposta para a inocência ferida de minha netinha querida. As mães se vão, mas depois da primeira dor da irreparável perda, os filhos vão perceber que elas, de fato, não os deixaram. Estão com eles de modo mais profundo e forte do que antes.  E os fazem eternamente sentir-se filhos, crianças, oferecendo seu colo uma e outra vez para abrigar todo sentimento e consolar toda dor. 

O Dia das Mães é comemorado por todas nós que tivemos e temos a graça de viver a maternidade. E também aquelas e aqueles que não a viveram, mas experimentam a cada dia a beleza de poder realizar o gesto redentor do cuidado que protege a vida de todas as ameaças:  restaurando forças, tratando feridas e reafirmando que o amor é mais forte que a morte. 

 Maria Clara Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de Crônicas de cá e de lá, entre outros livros.

 Copyright 2022 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Pau que bate em Chico, nem sempre bate em Francisco

 


Prof. Martinho Condini


 

A visita de Bolsonaro há Putin pelo jeito não adiantou nada. Putin não ouviu os seus conselhos e a Rússia invadiu a Ucrânia na última quinta-feira. A credibilidade de Bolsonaro na Rússia não é das melhores.

Essa invasão deixou o mundo estarrecido. Depois de tanto sofrimento nos últimos dois anos diante da pandemia, os homens foram capazes de iniciar uma guerra, injustificável para muitos. Para quem ainda não conhecia muito bem, isto é o ser humano, ele se movimenta segundo os seus desejos e interesses.

A Rússia de Putin invade a Ucrânia de Zelenski, só porque estes querem pertencer a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), criado pelos países ocidentais e liderados Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial.

Para a Rússia a entrada da Ucrânia na OTAN, significa a possibilidade de a Ucrânia ter tropas do exército americano na Ucrânia, ou seja, muito próximo de Moscou. O que é algo inaceitável para a Rússia de Putin. E se levarmos em conta a sigla OTAN, a Ucrânia não tem nada a ver com o Atlântico Norte e com os países ocidentais europeus, mas isso não vem ao caso neste momento. 

Pensando pelo lado da questão humanitária e em defesa da soberania nacional, nenhum país tem o direito de invadir outro porque o país invasor se sinta ameaçado por algo que não ocorreu, neste caso a entrada da Ucrânia na OTAN.

É claro que os motivos dessa invasão são muito mais complexos. O motivo da minha indignação sobre esse acontecimento é outro. Até porque não nutro nenhuma simpatia e admiração por  Putin e Zelenski e muito menos pelos seus governos.

O que me chamou atenção nesses últimos dois dias, foi a maneira como a imprensa em geral tratou esse assunto. Não que eu esteja dando razão para a atitude de Putin, muito pelo contrário, mas a forma da narrativa que o ocidente de um modo geral está tratando o assunto, como se essa invasão fosse uma catástrofe de proporções gigantescas e que algo parecido nunca tenha ocorrido na história da humanidade.

E aí eu pergunto, e as centenas de vezes que Israel bombardeou a faixa de Gaza contra os palestinos ou o Líbano preventinamente, nos últimos setenta anos?

Quantos países os Estados Unidos invadiram alegando autodefesa ou defesa de outros países desde o início da Guerra Fria e pós-Guerra Fria?

Apenas para refrescar a nossa memória, o que Putin fez na Ucrânia, Bush pai, Bush filho, Obama, Nixon, Carter e outros invadiram o Vietnã, Iraque, Líbia, Síria, Afeganistão, Ruanda, Palestina e outros países que não me lembro no momento.

Eu não me recordo da midia brasileira (há exceções) se indignarem tão veementemente com esses acontecimentos, como ocorre no caso Rússia/Ucrânia, onde chegaram a dizer que é o pior conflito depois da Segunda Guerra Mundial, talvez seja mesmo, mas para os brancos.

Essa atitude me faz levantar a hipótese que boa parte da midia brasileira, agem de maneira diferente dependendo do país imperialista que comete a invasão, alguns são vistos como super-homens defensores da paz e da justiça mundial e outros são vistos como inconsequentes, irresponsáveis, causadores de uma invasão brutal e precursores do estopim de uma possível terceira guerra mundial.

Enfim, no mundo ocidental capitalista, neoliberal e judaico-cristão, ao qual está incluída a mídia brasileira, pau que bate em Chico, nem sempre bate em Francisco.

*O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros ‘Dom Helder Camara um modelo de esperança’, ‘Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo’, ‘Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire’ e o DVD ‘ Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro ‘Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza’. Contato profcondini@g

segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

QUEM ESPERA SEMPRE ALCANÇA

 

                                                                       Maria Clara Bingemer


 

            Assim diz a belíssima canção de Gilberto Gil: Louvação.  Ali o compositor e recente imortal da Academia Brasileira de Letras, depois de louvar várias situações vitais, louva “a esperança da gente na vida pra ser melhor”. E segue: “Quem espera sempre alcança/ Três vezes salve a esperança”. 

            Louvemos, pois, a esperança neste início do tempo propício quando o ventre grávido da moça de Nazaré, após o anúncio do Anjo, lateja e pulsa da vida verdadeira feita carne.  Louvemos a esperança na vida para ser melhor. Tem que ser melhor por causa da criança que habita o seio da Virgem.  Tem que ser melhor por causa do sofrimento do povo, que anseia e clama por dias melhores. Tem que ser melhor por causa da terra, que geme e sofre como em dores de parto vendo seu ventre profanado pelo garimpo e as motosserras.  

            Começamos o tempo do Advento. Esperamos o que advém, o que se anuncia, o que chega. Depois de todo um ano driblando a doença e a morte, agora esperamos a vida que se faz esperar na alegria, na vigilância e na purificação.  Mais do que nunca é preciso esperar. Esperar com paz e com desejo.  Esperar com abertura e solicitude.  Esperar crendo que, apesar de todas as aparências em contrário, vai acontecer a chegada. 

            Quem espera vislumbra uma chegada, um acontecimento. Sente o desejo de algo novo que se pressente e que é gestado na falta e na ausência dos mais legítimos direitos e das mais caras expectativas que a imaginação humana acarinha e cultiva.  Assim era no tempo em que Maria ficou grávida e acreditou no anúncio do Anjo.  O Messias, tão esperado pelo povo, crescia e pulsava em seu jovem ventre. 

            O povo de Israel esperava o Messias como aquele que inauguraria um novo tempo, onde reinariam a justiça e o direito.  Era a espera de um futuro radicalmente distinto do passado. E a negação de uma história cíclica condenada a um eterno retorno, à repetição infindável de suas grandezas e misérias.   

           Nunca mais o mundo foi o mesmo depois que surgiu a fé no Messias no seio do Israel fiel. A vida passou a ser uma existência atravessada permanentemente pela espera daquele que vai chegar e que a tudo renovará.  Como dizia um sábio judeu: “Cada segundo é uma porta estreita por onde o Messias pode entrar”. Desta maneira, a esperança adquire o seu mais vigoroso fundamento. 

           E quem dessa esperança vive, quem com essa esperança espera, sempre alcança.  Porque o bem, o belo e o verdadeiro habitam desde sempre as entranhas humanas mais profundas.  Porque o que o ser humano deseja movido pela inspiração do Deus da vida só pode resultar em mais vida, vida em abundância, vida para todos.  

           Estamos sedentos de um acontecimento que nos confirme nessa espera, nessa esperança.  Mas antes de ver a expectativa respondida e culminada, é preciso esperar.  Gratuitamente.  Humildemente.  Pobremente.  Crer no mistério e esperar que desvende seu lado oculto. Tocar a revelação e não ousar levantar o véu, que será oportunamente afastado mostrando o rosto que se deseja, “os olhos desejados que tenho em minhas entranhas desenhados”, como dizia o místico carmelita e poeta João da Cruz. 

           Nada melhor do que olhar para a mulher e seu corpo grávido.  Ela espera.  Assim como todas as suas irmãs pelos tempos afora.  Esperam que venha a termo o que carregam em seu ventre.  Esperam numa presença que se faz sentir mais e mais à medida que os meses avançam.  Esperam ainda na ausência que crê às vezes mais do que vê, desejando ardentemente a presença que inundará de alegria sua vida e a de todo um povo. 

           Esperar é preciso.  Quem espera sempre alcança.  A semente dará seu fruto.  Enquanto isso, espera-se o futuro que vive no ventre da mulher.  Espera-se um futuro novo, diferente do passado.  Ele está chegando e a qualquer momento pode entrar por qualquer fresta de qualquer porta.  Três vezes salve a esperança, pois quem espera sempre alcança. 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Teologia Latino-Americana: raízes e ramos” (Vozes), entre outros livros

 

 

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

AMOR DESDE SEMPRE, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(04/09/2021)

 

     Parece ser uma tarefa difícil tomar a defesa do amor contra as ameaças dos preconceitos e discriminações. Afinal de contas, se dois parceiros decidem amar-se, nada poderá impedi-los, enquanto perdurar sua convergência de desejos e sentimentos. Isso seria uma verdade irrefutável, caso eles pudessem confinar seu amor no mundo dos sentimentos e das palavras. Porém o amor é sobretudo uma construção de vidas em parceria. Vidas humanas não se constroem à margem dos acontecimentos em sua volta. Amor algum é uma ilha.

     Ao contrário, somos enriquecidos pela experiência dos que, antes de nós, caminharam pelas suas trilhas. E no amor encontraram o valor único, em função do qual se nasce, se vive, se morre.

     Da antiga civilização grega herdamos a figura de EROS, símbolo do amor romântico, associado ao prazer, ao desejo, à paixão. Quem foi Eros? Segundo a narrativa de Platão, os deuses banqueteavam-se, celebrando o aniversário da deusa  AFRODITE. Então PORO, a abundância, embebedou-se de nectar e adormeceu no jardim. Foi aí que PÊNIA,  a penúria, aproveitando-se da situação, manteve com ele uma relação carnal. Desta união da abundância com a penúria nasceu EROS, esta figura de garoto travesso, ambivalente, sedutor e matreiro, atraente e ilusório, às vezes de venda nos olhos, armado de arco e flecha  pronto a "ferir" quem se oferece ao seu alvo. No entanto, AFRODITE desgostava-se do filho porque ele permanecia criança, não crescia. Consultou TEMIS, a prudência, e esta lhe fez ver o motivo: EROS vivia muito solitário, precisava de companhia, precisava de um irmão. AFRODITE deu à luz outro filho, ANTEROS, e, daí em diante, o pequeno deus passou a crescer e tornou-se o mais belo deus do Olimpo.

      A sabedoria dos gregos nos legou também a ciência dos quatro elementos planetários, terra, água, fogo, ar. Alguns de seus pensadores julgaram necessário acrescentar mais dois: o amor e o ódio; o primeiro como força de atração e o segundo como força de repulsão. Daí firmou-se a crença no amor cósmico, a saber, nada que tem vida sobrevive sem o impulso de uma energia amorosa. As plantas amariam a terra através das leis da vegetação. Os animais se amariam através dos instintos naturais. Até os corpos químicos participariam desta lei universal pela afinidade de uns com os outros.

     O Cristianismo abandonou esta concepção do amor cósmico. O amor é distintivo exclusivo do ser humano, único feito à imagem e semelhança do Criador. Nem por isso devemos descartar o legado luminoso da mitologia grega. O amor exige parceria e relação pessoal. Onde isso não se dá, a pessoa não está habilitada a crescer e aperfeiçoar-se. Na solidão ela perde suas energias vitais, apenas subsiste, apenas circula em volta de si, (como diz Raul Seixas), "esperando a morte chegar".

     A pandemia do coronavirus remontou-nos àquela visão bipolar do amor cósmico. Quem olhou  atento às reações emocionais de algumas pessoas logo após a vacinação, decerto vislumbrou algo de sobrenatural, uma espécie de êxtase, o ápice de um ato de amor gerado de muitos fatores: o trabalho silencioso e oculto dos cientistas, o serviço dos profissionais de saúde ali presentes e também o movimento da matéria química penetrando no corpo agraciado.

    Simultaneamente eclode a força oposta do caos. Ele acomete nas atitudes do mandatário da nação e seus asseclas, pregando a intolerância ideológica, o preconceito patológico, a xenofobia, acionando a energia repulsiva do ódio .

     É hora de acionar Princípio Unificador, pelo poder da Fé.  O Deus que esteve em quaisquer manifestações de amor, desde o princípio do mundo, que esteve em Eros, estará, infinitamente, em nós. E, neste momento, nos convoca para a ação.

-Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

sábado, 28 de agosto de 2021

PROTAGONISTA JAMAIS...ALIADO SEMPRE

 


Prof. Martinho Condini

        Algumas pessoas defendem a ideia que não se deva misturar esporte com protestos sociais ou políticos, partindo do princípio que o esporte é algo para as pessoas se divertirem.

         Porém, o esporte é algo que não esta separado da vida real a qual todos nós estamos envolvidos. Viver é uma ação política. Acredito que o esporte em vários momentos foi utilizado como instrumento ideológico, principalmente em regimes autoritários.

         Mas também é verdadeiro que atletas que ao longo da história se engajaram em movimentos de protestos por causas nobres, como por exemplo a luta contra o racismo, o preconceito e a violência contra negros e negras. Esse ativismo desses atletas ficaram marcados na marcados na história das suas modalidades, agremiações e do seu país.  A atitudes desses atletas prova que o esporte não só entretenimento, mas atitude diante das injustiças.

         Os jogos olímpicos em Berlim em 1936 serviram para o regime nazista de Adolf Hitler tentar provar ao mundo a superioridade da raça ariana em relação às demais – crença sustentada pela ideologia nazista.

         Mas o norte americano negro Jesse Owens, atleta dos 100 e 200 metros rasos, salto em distância e revezamento 4×100 metros, garantiu quatro medalhas de  outro para os americanos. Owens derrotou o atleta alemão Luz Long, grande esperança no salto em distância. Apesar de não se tratar de nenhuma manifestação política específica, a gloriosa vitória de Owens acabou por frustrar as intenções dos nazistas de tornar os Jogos em um grande símbolo de seu regime.

         Em 1968, nos jogos olímpicos da cidade do México os atletas negros norte-americanos Tommie Smith e John Carlos protagonizaram uma das cenas mais emblemáticas da história dos jogos olímpicos. Ao subirem ao pódio e receberem as medalhas de ouro e bronze na prova dos 200 metros rasos, ao tocar o hino do seu país baixaram a cabeça e ergueram o punho usando luvas pretas, saudação dos Panteras Negras (organização política socialista e revolucionária estadunidense). Um gesto de protesto contra o racismo, o preconceito e a violência contra os negros nos Estados Unidos.Lembrando que na década em que ocorreram os jogos olímpicos no México os líderes negros Malcom X e o pastor protestante Martin Luther King foram assassinados.

         Nesta mesma década, o pugilista negro Cassius Clay (que posteriormente mudou o seu nome para Mohammed Ali) campeão olímpico e mundial de boxe perdeu seu cinturão por se negar a ir lutar na Guerra do Vietnã (1955-1975). Mohammed Ali sempre foi uma voz importante na luta contra a violência a comunidade negra norte-americana.

         Em 2016 Colin Kaepernick, jogador de futebol americano, iniciou um grande protesto nos Estados Unidos ao ajoelhar-se no momento do hino americano, para mostrar o seu descontentamento em relação ao assassinato de cidadãos negros. Sua atitude inspirou outros jogadores, que passaram a ter o mesmo gesto. Até de outras ligas, como os astros da NBA Stephen Curry e Carmelo Anthony. Na época o então presidente Barack Obama, endossou a atitude. Naquela época, já havia a campanha "Black Lives Matter" (Vidas Negras Importam), que hoje espalhou-se pelo mundo.

         Em 2020 os jogadores de basquete negros e brancos do Milwakee Bucks boicotaram as partidas dos playoffs da NBA, em protesto pelo assassinato de um cidadão negro, George Floyd, por um policial branco. 

         Um dos astros do basquete norte americano, o negro Lebron James do Los Angeles Lakers frequentemente utilizou as quadras como espaço do movimento ativista afro americano Black Lives Mater.

         E nos últimos jogos olímpicos na cidade de Tóquio, a atleta americana, a negra  Raveb Saunders medalhista de prata no arremesso, após receber a medalha levantou os braços e cruzou os punhos sobre a cabeça como um gesto de apoio e solidariedade em favor dos oprimidos espalhados pelo mundo.

         Enfim, diante dessas atitudes tão significativas só me resta reverenciá-los e dizer que jamais serei um protagonista nessa luta...aliado sempre!


 O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com         

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

MARIA, A SEMPRE AMADA

 Maria Clara Lucchetti Bingemer


 

      Maio é conhecido na Igreja Católica como o mês de Maria.  Nele se cultua especialmente a mãe de Jesus, reconhecida pela fé católica como mãe de Deus.  Durante  maio, portanto, uma reflexão sobre o mistério de Maria tem seu lugar e pertinência.

      A devoção a Maria é algo muito característico do catolicismo. Na Igreja Católica Romana, a Virgem Maria é reconhecida pelo título de bem-aventurada. Reconhece-se nela um estatuto especial em meio a todos os santos e santas de Deus, inclusive a capacidade de interceder em favor daqueles que a seu favor recorrem por meio de orações e práticas devocionais. A teologia e o magistério católicos, no entanto, deixam claro que Maria não é considerada divina e as orações a ela dirigidas não são respondidas por ela, mas por Deus.

Porém, é fato que Maria ocupa um lugar destacado entre os católicos, os quais, além de a ela reservar diversos títulos honoríficos, cantam hinos em seu louvor, dirigem-lhe uma variedade de orações e peregrinam a diversos santuários marianos para honrá-la e louvá-la. 

Catecismo da Igreja Católica diz que "A devoção da Igreja à Santíssima Virgem é intrínseca ao culto cristão". O culto a ela é chamado hiperdulia, enquanto o culto a Deus é a latria e o culto aos santos, dulia. Com isso a Igreja Católica demonstra que distingue a mãe de Jesus dos outros santos.

A figura de Maria tem interessado  pensadores e pesquisadores, dentro e fora da Igreja Católica.  Além de obras literárias, Maria tem chamado a atenção de pensadores agnósticos e ateus, como a psicanalista búlgaro-francesa Julia Kristeva e a pesquisadora espanhola Marina Warner, entre outras. A figura da mãe de Jesus inquieta incessantemente a mente atenta e, sem dúvida, brilhante da psicanalista e pensadora. Trata-se de um dos aspectos de seu pensamento que mais intriga os leitores cristãos, católicos e teólogos, devido a suas teorias fortemente contestatórias.

       Kristeva questiona o estereótipo que a Mariologia tradicional impõe sobre as mulheres, mas ao mesmo tempo questiona o feminismo que “enquanto reivindica uma nova representação da feminilidade...dele parece que exclui ou minimiza a maternidade.”

        A enorme importância que para Kristeva parece ter o mistério de Maria no imaginário religioso cristão é o fato de a relação dela com seu Filho Jesus – gerando quem a gerou, sendo anterior a ele em sua humanidade, mas posterior por sua divindade,  virgem e mãe simultaneamente - se tornar matriz para uma rede de outras relações muito complexas: a de Deus com a humanidade, a do homem com a mulher, a do filho com a mãe etc.

       O passado ortodoxo da psicanalista Kristeva, que através de seu pai que era devoto fiel dessa Igreja, desempenha papel importante neste interesse por Maria. Ela diz estar convencida de que o catolicismo teve em suas mãos o mais poderoso discurso de todo o Ocidente sobre a maternidade  Agora, com a secularização, ela teme que esse discurso se perca, o que deixaria a cultura ocidental amputada de um de seus mais fortes e fecundos componentes.

       Creio que os temores de Kristeva não têm muita razão de assustar-nos, já que a devoção a Maria continua muito presente no Catolicismo e os santuários e festas marianos. Aparecida e a festa do Círio de Nazaré ainda são os lugares mais procurados pelos fiéis católicos que ali explicitam sem temor ou pudor de nenhuma espécie o amor pela mãe de Jesus, que sentem como sua mãe também. A importância da mãe no Catolicismo ainda continua muito forte, apesar de todo o avanço da secularização.

        Maria é, portanto, além de todos os títulos que tem, a sempre amada. Mãe muito querida, a quem os fiéis se dirigem com confiança filial em todas as encruzilhadas de suas vidas, encontrando nela conforto e carinho.  Nesses tempos de pandemia, Maria tem sido certamente muito invocada.  Portanto, neste mês de maio acorramos a ela mais uma vez.

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de   “Santidade:chamado à humanidade” (Editora Paulinas), entre outros livros.

 

 

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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com