O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador reforma. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reforma. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 8 de novembro de 2022

A tarefa da Reforma a ser sempre retomada


Marcelo Barros


 

As recentes eleições no Brasil chamaram atenção do mundo inteiro para a importância do fator religioso na campanha de candidatos que se apresentaram como candidatos de Deus e de Igrejas, nas quais era mal visto quem não votasse de acordo com o indicado pelo padre ou pastor.

Nestas eleições que se concluíram neste domingo, enquanto mais da metade da população brasileira votava no presidente Lula por ver na proposta de sua candidatura a retomada da Democracia e maior cuidado com as categorias mais empobrecidas do povo, católicos e evangélicos tradicionalistas pediam a Deus ou a Nossa Senhora para libertar o Brasil da esquerda e do que chamam fantasmagoricamente de Comunismo. Deus deve ter se sentido como quando, na copa de futebol,  jogadores de dois times rivais fazem promessa para Deus dar a vitória ao seu time e Deus tem de escolher de qual time será torcedor.   

Na sociedade brasileira, a ingerência de Igrejas em eleições e na Política não é algo novo. Desta vez, a novidade foi o uso e abuso das redes sociais, assim como o fato de alguns pastores e padres se servirem de fake-news e mentiras deslavadas, sem nenhum escrúpulo ético ou religioso.

A aliança de grande parte de ministros e grupos eclesiásticos com a direita violenta revela atração de caráter quase erótico das  hierarquias pelo autoritarismo político e pelo sonho de retomar o poder sobre a sociedade.  

               A Igreja Católica chegou ao Brasil de braço dado com os colonizadores, em cujas fazendas mantinham capelães que legitimavam religiosamente a escravidão de negros e índios. Com pouquíssimas exceções, bispos e padres sempre apoiaram reis e senhores. Nas primeiras décadas do século XIX, quando quase todos os países do continente já eram independentes, o papa ainda publicava bulas que obrigavam os católicos latino-americanos a se submeterem aos reis de Espanha e Portugal.

              Na segunda metade do século XIX, vieram Igrejas evangélicas. Traziam na bagagem uma cultura típica do sul dos Estados Unidos: racista, escravocrata e favorável à supremacia branca de perfil protestante. 

              Até meados do século XX, no Brasil, era normal os bispos católicos  indicarem candidatos para o povo votar e a Liga Eleitoral Católica (LEC) dizia em quem os católicos não podiam votar.

Na década de 1960, vários países do continente viveram sob ditaduras. Com algumas exceções, as autoridades eclesiásticas apoiaram os militares contra o fantasma do Comunismo, com os mesmos argumentos que, ainda hoje, muitos padres e pastores usam para apoiar a extrema direita. Nada de novo debaixo do sol. A única novidade é a acirrada competição entre grupos católicos tradicionalistas e comunidades pentecostais e evangélicas de tendência fundamentalista para ver quem consegue reimplantar no Brasil um regime de Cristandade.

Em 2019, a parábola do filme “Divino Amor” do cineasta Gabriel Mascaro previa para 2027 um Brasil evangélico, dominado pela Igreja do Divino Amor. A festa do Carnaval tinha sido abolida e a única religião permitida era a seita do Divino Amor, que reduzia Deus às conveniências sociais, econômicas e também sexuais dos ministros eclesiásticos.

Do mesmo modo, vários grupos católicos lutam com unhas e dentes para serem eles a impor o Brasil católico do jeito deles e em nome de Jesus. Como canta sarcasticamente o grupo teatral “Companhia do Tijolo”: Jesus manda dizer que não gosta de marcha para Jesus. Prefere os atabaques e o ritmo dos terreiros. Não rejeita uma cervejinha com amigos no bar da esquina, como fazia no tempo em que convivia com as pessoas que os religiosos do templo julgavam como infiéis e de vida errada.

Agora, precisamos de profetas e profetizas que recordem aos interessados: Deus não assinou contrato de exclusividade com ninguém. A este novo tipo de doutores da lei e sacerdotes dos novos templos de Salomão ou de Malafaias, sejam pentecostais, sejam católicos, Jesus repete o que disse aos antigos fariseus: “Em verdade, vos digo: os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes de vós no reino de Deus” (Mt 21, 31).

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.b

 

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

POR JUSTA REFORMA TRIBUTÁRIA

 

Frei Betto


        Se a sociedade não se mobilizar, a reforma tributária proposta por Bolsonaro-Guedes promete tirar, a cada ano, R$ 32 bilhões dos trabalhadores com carteira assinada ao diminuir, de 8% para 6%, a contribuição patronal para o FGTS. (…)   É hora de o Brasil reagir. Deixar a banda ou a boiada passar é enfiar o pescoço (e o bolso) na guilhotina.

 

       A pandemia não apenas provocou crise sanitária no Brasil, mas aprofundou também a social. A pobreza aumenta. Dados divulgados pelo IBGE em 12/11 revelam que, em 2019, 51,7 milhões de brasileiros viviam na pobreza. Na extrema pobreza se encontravam 13,6 milhões de pessoas, com renda per capita inferior a R$ 151 mensais. Somos o nono país mais desigual do mundo.

       O governo não tem política econômica, a inflação está de volta, a precarização do trabalho e a perda de empregos causam redução de renda e ampliam a miséria. Nem são precisos dados do IBGE. Basta circular pelas cidades e se deparar com o crescente número de pessoas desamparadas.

       Hoje, em nosso país, 45,3 milhões de pessoas vivem em domicílios sem banheiro; 11 milhões dormem  com mais de três pessoas no mesmo quarto; 53 milhões não dispõem de saneamento básico; e 76 milhões ganham, no máximo, R$ 534 por mês. Dados dos indicadores sociais do IBGE/2019. 

       Honra e mérito a Eduardo Suplicy em sua luta incansável, há décadas, em prol da renda básica da cidadania, viável até mesmo como medida global. Se dividirmos o PIB Mundial (calculado em cerca de US$ 84 trilhões) pelos 7,2 bilhões de habitantes do planeta, chegaremos ao valor per capita de US$ 11.667,00. 

       É possível assegurar a cada brasileiro uma renda básica mensal? Sim, solução existe; não há é vontade política de implementá-la: tributar grandes fortunas, altos rendimentos, e grandes propriedades urbanas e rurais.

       Segundo Maria Regina Paiva Duarte, diretora do Instituto Justiça Fiscal, uma reforma tributária solidária, que taxe grandes fortunas e acabe com a desoneração a megaempresas, geraria justiça fiscal e receita anual de R$ 270 bilhões ao país, quantia que poderia ser revertida para a renda básica.

       De acordo com a revista Forbes, em 2012 o Brasil tinha 74 bilionários com patrimônio declarado de R$ 346 bilhões; em 2019, eram 206 com mais de R$ 1,2 trilhão. Os 10% mais ricos da população concentram em mãos 43% da riqueza nacional, enquanto os 10% mais pobres apenas 1%. Se esses bilionários forem tributados conforme sua capacidade de contribuir, esses recursos poderiam ser deslocados para políticas públicas de redução de desigualdade.

       Dados publicados pela Receita Federal, referentes às declarações do Imposto de Renda das Pessoas Físicas de 2018, mostram que somente 0,2% dos contribuintes (60 mil pessoas) declarou bens acima de R$ 10 milhões. Estimativa conservadora indica que, aplicado o imposto apenas sobre a riqueza que ultrapassar esse limite, seria possível arrecadar aproximadamente R$ 40 bilhões ao ano.

       Outra medida que pode gerar recursos e contribuir para reduzir a injustiça tributária é modificar as faixas de alíquotas da tabela do Imposto de Renda das Pessoas Físicas, introduzindo alíquotas de 35%, 40% e 45% para rendas superiores a 40, 80 e 100 salários mínimos mensais, e aumentar o limite inferior de isenção de 2 para 3 salários mínimos mensais, desonerando mais de 10 milhões de contribuintes.

       A injustiça tributária no Brasil precisa ser corrigida, o que poderia ser feito com a isenção de impostos sobre lucros e dividendos distribuídos pelas empresas a seus sócios, que vigora desde 1995. Para se ter uma ideia do que esta prática resulta, quem ganha mais de R$ 300 mil por mês tem 70% de sua renda livre de impostos. E a maior parte das rendas muito altas decorre de lucros e dividendos distribuídos. É preciso acabar com essa desoneração, que só existe no Brasil e na Estônia. Esses rendimentos precisam ser submetidos à tabela do imposto de renda de pessoas físicas por isonomia de tratamento com rendimentos assalariados. É uma óbvia questão de justiça.

       Duas outras medidas seriam a criação de uma contribuição social sobre rendas altas, de 10%, com incidência imediata sobre os rendimentos das pessoas físicas que ultrapassarem R$ 600 mil mensais, e o aumento da alíquota máxima do imposto sobre heranças e doações para 30%.

       Os valores estimados de arrecadação com a adoção de todas essas medidas somariam R$ 270 bilhões. Uma tributação progressiva e, portanto, mais justa. Focar a diminuição da desigualdade apenas nos gastos com os mais pobres, como o Bolsa Família e o auxílio emergencial, revelou-se insuficiente nos últimos anos, além de não enfrentar a escandalosa concentração de renda e riqueza em nosso país.

       Se a sociedade não se mobilizar, a reforma tributária proposta por Bolsonaro-Guedes promete tirar, a cada ano, R$ 32 bilhões dos trabalhadores com carteira assinada ao diminuir, de 8% para 6%, a contribuição patronal para o FGTS. 

       Propõe ainda acabar com as deduções no imposto de renda com despesas médicas e de educação, para o governo abocanhar, por ano, mais R$ 20 bilhões. 

       O governo pretende também substituir o PIS/Cofins pelo CBS (Contribuições sobre Operações com Bens e Serviços), o que aumentará a carga tributária da classe média, pois irá onerar sobretudo quem paga escolas e cursos, e profissionais liberais em geral, como terapeutas, advogados, arquitetos, e os que trabalham na área da saúde. 

       E uma nova CPMF haverá de reduzir o poder de compra do brasileiro e o rendimento das aplicações financeiras. Em 2019, a Receita Federal estimou que os 12,9 milhões de declarantes do imposto de renda deixaram de pagar R$ 4,6 bilhões devido à dedução com instrução, e outros R$ 15,5 bilhões com a dedução de despesas de saúde. 

       É hora de o Brasil reagir. Deixar a banda ou a boiada passar é enfiar o pescoço (e o bolso) na guilhotina.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de quarentena” (Rocco), entre outros livros.

 Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 ®Copyright 2020 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

  http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

Você acaba de ler este artigo de Frei Betto e poderá receber todos os textos escritos por ele - em português e espanhol - mediante assinatura anual via mhgpal@gmail.com

 

terça-feira, 30 de outubro de 2018

PARA UMA NOVA REFORMA DA IGREJA




Por Marcelo Barros

A cada 31 de outubro, as Igrejas evangélicas celebram o “Dia da Reforma” e a própria Igreja Católica recorda o princípio medieval invocado por Lutero em 1517: A Igreja deve sempre se renovar.

Atualmente, tanto na Igreja Católica, como em várias Igrejas evangélicas, muita gente sente a necessidade de uma renovação profunda na forma de compreender a fé cristã e também sobre a missão e o modo de organizar a própria Igreja. Em todas as Igrejas, se debatem questões de gêneros e o desafio do diálogo da Igreja com o mundo. Tanto na Igreja Católica, como mesmo nas Igrejas evangélicas que nasceram da Reforma do século XVI, muitos fieis e ministros estão convencidos de que toda a Igreja precisa de uma nova reforma.

Não sabemos qual a proporção de católicos e evangélicos favoráveis ao processo de renovação e quantos se posicionam contra quaisquer propostas de mudança. As Igrejas estão divididas e a divisão não é mais entre instituições. Ela acontece entre pastores e fieis dentro da mesma Igreja. Diz respeito à compreensão da fé, a missão e a postura diante do mundo e da Política.  No Brasil, nessas eleições  presidenciais, em todas as Igrejas e dentro de cada uma delas, fieis e ministros se colocaram em posições opostas  e antagônicas. 

Apesar de não ter se posicionado para o primeiro turno, ao menos para o segundo, a presidência da CNBB se pronunciou claramente pela Democracia e contra candidaturas que defendem violência e discriminações sociais. Já antes do primeiro turno, a presidência da CRB (Conferência dos Religiosos/as do Brasil) emitiu um pronunciamento claro na mesma direção.

Na Igreja Católica, a norma tradicional de que a Igreja não assume postura partidária foi totalmente desrespeitada. Apesar disso, alguns bispos, muitos padres e vários movimentos leigos desrespeitaram claramente a norma e fizeram campanha pelo candidato das elites empresariais, do mercado e da indústria de armas. Desses, muitos revelaram claramente o ódio à esquerda. Por que fizeram essa escolha, deve ser tema de um estudo mais profundo de como as Igrejas cristãs puderam chegar a esse ponto.

É triste que, no Brasil, a Igreja Católica que, em outros tempos tinha líderes como Dom Helder Camara, Dom Luciano Mendes de Almeida, Dom Tomás Balduíno e tantos outros profetas, dê agora ao mundo o testemunho de que diversos bispos e muitos padres até um cardeal tomaram posição contrária aos direitos humanos e à Democracia.

Certamente alguns apoiaram o candidato da extrema direita porque não ligam fé e compromisso social e político. Ao mesmo tempo que se proclamam muito religiosos, essa espiritualidade parece não ter nada a ver com a postura social e política que tomam. No caso de bispos e pastores pentecostais, muitos fazem isso por interesses comerciais e institucionais a preservar. Nenhuma preocupação com o bem do povo. A questão única é qual candidato favorecerá mais a sua Igreja e aos interesses comerciais do próprio bispo. No entanto, será que um cardeal e vários bispos católicos também agem assim? Conforme a imprensa, ao menos alguns deles declararam que votam em qualquer candidato por pior que seja para o povo, desde que assuma o compromisso de não mudar as leis contra aborto e união gay. O candidato pode fazer guerra e praticar todo tipo de violência, mas é chamado de “defensor da vida”.

Até hoje, mais de 70 anos depois, os católicos da Alemanha sabem que, no tempo do Nazismo, muitos padres e bispos apoiaram Hitler e, ao menos no início, fizeram acordos com ele. Na França, a maioria do episcopado católico colaborou com as forças alemãs que ocuparam o país e o governo fantoche que presidiu a França naquele tempo. Na Alemanha, a Igreja que se colocou como “confessante” e na resistência era uma minoria.

O mais triste é que essa realidade da Igreja Católica no Brasil acontece em um momento no qual, no mundo todo, essa Igreja se debate com uma das maiores crises de sua história. Os escândalos morais chegaram até as cúpulas e exigem mudanças radicais. Bispos e até cardeais são destituídos dos seus cargos. Por outro lado, o próprio papa enfrenta uma oposição cerrada, como nenhum outro papa dos tempos contemporâneos sofreu. Repetidas vezes, Francisco tem afirmado que por trás dos abusos e do sistema que os favoreceu, está o Clericalismo, doença grave da fé.  

Provavelmente, é essa mesma doença que faz alguns bispos e muitos padres tomarem posição contra o próprio evangelho de Jesus. Eles não têm escrúpulos em ajudar o povo desinformado a votar contra si mesmo, escolhendo alguém que, de todas as formas, vai oprimi-lo. É o mesmo grupo eclesiástico que se coloca contra o papa Francisco e quer impedir qualquer reforma que ameace o poder sagrado que ostentam. Diante disso, o evangelho chama as pessoas mais conscientes à lucidez da profecia e da resistência.   

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

REFORMA: 500 ANOS DE RUPTURA E COMUNHÃO


  Por Maria Clara Lucchetti Bingemer



             Em 31 de outubro comemoraram-se os 500 anos de um fato que marcou e redirecionou a história do Cristianismo.  Martinho Lutero, monge agostiniano alemão, tornou públicas as 95 teses através das quais protestava contra vários procedimentos da Igreja Católica, sobretudo a venda de indulgências.  Começava aí o movimento protestante.

            Outra versão dos fatos diz que Lutero afixou suas teses à porta da Igreja do Castelo de Wittberg, na Alemanha. Mas segundo indicam pesquisas mais recentes, ele simplesmente as enviou a seus superiores.  Elas então começaram a circular e a movimentar os ânimos dentro da Igreja.  E a ganhar adeptos.  Tanto que se tornaram outra Igreja, diferente da católica, e deram lugar ao movimento chamado Reforma. 

            O protestantismo é caracterizado por algumas afirmações que diferem da proposta católica.  Entre estas se destacam o que se chama comumente em Teologia as três “solas”: Sola fides, sola gratia, sola Scriptura.  Ou seja, só a fé, só a graça, só a Escritura. 

            Sola fide, ou só a fé significa que a justificação, realizada somente por Deus, é recebida apenas e unicamente pela fé, sem qualquer interferência ou necessidade de atos e iniciativas humanas, mesmo boas.  No entanto, na teologia protestante clássica, a fé que salva é sempre evidenciada pelas boas obras, que são seu fruto.  

Afirmando a primazia da fé, o protestantismo se contrapõe ao princípio católico baseado sobretudo na Epístola de Tiago de que “a fé sem obras é morta”.  Entende-se aí que o que salva são as boas obras e não a fé sem as obras.  

            Ao defender a primazia absoluta da fé que só pode crer e jamais produzir a salvação, Lutero se coloca frontalmente contra o poder das indulgências e orações que nada acrescentariam à obra que só Deus pode realizar no ser humano ao mesmo tempo justo e pecador, que seria a sua justificação. 

            Sola gratia ou só a graça é o ensinamento de que a salvação vem por graça divina , sem nenhum mérito por parte do ser humano e não como algo que este, pecador, merece.  A salvação é um dom imerecido que Deus dá por causa de Jesus.  Esta doutrina é o oposto do que seria a doutrina católica das boas obras, pelas quais o fiel pecador se aperfeiçoaria e adquiriria méritos purificadores que o aproximaria de Deus.  Para o protestantismo da Reforma, Deus é o único que age na graça, e por isso a graça é sempre eficaz, pois vem d´Ele e não tem qualquer cooperação por parte do ser humano. 

            Novamente estão aqui a graça divina e as obras em contraposição, afirmando o protestantismo de Lutero que a única iniciativa da salvação provém de Deus por sua graça e que o ser humano não pode “trabalhar” por sua própria salvação, devendo apenas acolhê-la como dom imerecido. 

            Sola Scriptura ou só a Escritura é o ensinamento de que a Bíblia é a única palavra autorizada e inspirada por Deus, e constitui a única fonte para a doutrina cristã, sendo acessível a todos.  Lutero beneficiou-se da então recente descoberta de Gutenberg, a imprensa escrita, e multiplicou as cópias da Bíblia impressa em alemão, devolvendo-a às mãos dos fiéis.  O protestantismo afirma igualmente que a Bíblia não exige interpretação fora de si mesma, ao passo que o catolicismo ensina que a Bíblia só pode ser autenticamente interpretada pelo magistério da Igreja, composto pelo Papa e pelos bispos sucessores dos apóstolos.  

            Enquanto os protestantes nas Escolas Dominicais aprofundavam-se na leitura e conhecimento da Sagrada Escritura, os católicos deviam contentar-se com as histórias sagradas que forneciam algo, uma pequena parcela, do conteúdo bíblico, já que o texto literal não era posto em suas mãos. Isso era livre exame e, portanto, “coisa de protestante”. 

            O Concílio Vaticano II, ocorrido em meados do século XX, reviu a atitude e as posições do catolicismo, sobretudo em relação à Escritura e, seguindo o movimento bíblico que já acontecia em seu interior, recomendou o uso e o estudo da Escritura por parte dos fiéis católicos.  Assim, houve uma disseminação enorme dos círculos bíblicos, grupos de estudos bíblicos e a Escritura passou a fazer parte do cotidiano dos católicos. 

            O Concílio igualmente, em mais de um de seus documentos, reconhece a necessidade e mesmo a urgência do ecumenismo, que consiste na aproximação entre católicos e protestantes, chamados a buscar mais o que os une do que aquilo que os separa com vistas a construir maior comunhão que resulte na única Igreja de Cristo. 

            Hoje, 500 anos depois, aqui estamos nesta luta bonita de construir comunhão.  Gratos somos os católicos à Reforma de Lutero, que abriu as portas para  maior liberdade dentro da Igreja e tanto fez por maior aproximação nossa da Palavra de Deus.  Felizes são igualmente os protestantes, que em um diálogo sempre maior com a “Católica” e Universal Igreja de Cristo Senhor e Salvador, alargam seus horizontes e vivem uma salvação livre e discernida, mas igualmente feita sinal e sacramento para o mundo inteiro. 

            De minha parte, só tenho a agradecer à Reforma de Lutero, que formou na retidão da fé e da justiça o homem que é meu esposo há quarenta e oito anos.  E que igualmente me deu os magníficos alunos, mestrandos e doutorandos que tive a graça de conhecer nestes mais de 30 anos de magistério teológico.  Celebremos os 500 anos da Reforma.  Os motivos são muitos, sólidos e belos.  Soli Deo Gloria!
  
Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A   teóloga é autora de “O mistério e o mundo”  (Editora Rocco).
 Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


terça-feira, 31 de outubro de 2017

PARA UMA REFORMA PERMANENTE


Por Marcelo Barros

Nessa semana, o mundo inteiro e especialmente as Igrejas encerram as celebrações dos 500 anos da Reforma. Conforme a tradição, no dia 31 de outubro de 1517, o monge Martinho Lutero pregou nas portas da catedral de Wintemberg as suas 95 teses para reformar a Igreja e fazê-la voltar ao espírito do Evangelho. De fato, aquele momento foi o estopim que desencadeou o surgimento das igrejas luteranas e evangélicas. No entanto, o que se chamou de “reforma protestante” foi um movimento eclesial muito mais amplo e diversificado do que aquele, liderado por Lutero, Melanchton, Zwinglio, Catarina de Bora, Katherine Zell e outras mulheres que faziam parte do grupo dos reformadores. Atualmente, cristãos de várias Igrejas concordam que na história da Igreja do Ocidente, houve três grandes movimentos de reforma.

A primeira reforma ocorreu ainda nos inícios do segundo milênio. Nos séculos XII e XIII, esse movimento de reforma foi conduzido por pessoas como Francisco de Assis, Valdo de Lyon, Joaquim de Fiori, Catarina de Sena e o movimento das místicas (beguinas) que, no norte da Europa, se constituíam como comunidades livres e, em muitos casos, em tensão com a hierarquia católico-romana. De fato, quando Lutero, Calvino e os/as reformadores/as iniciaram o seu movimento, o combate ao mundanismo do clero, o apelo evangélico à simplicidade e a centralidade da Sagrada Escritura já estavam no coração de muitos cristãos. Tanto que o movimento da reforma coincidiu também na Igreja Católica com movimentos de espiritualidade como de Teresa de Ávila e João da Cruz e o Concílio de Trento não foi apenas convocado para combater os protestantes, mas para fazer uma reforma na estrutura e no caminho da Igreja Católica.

Não seria exagero afirmar que, atualmente, na maioria das Igrejas cristãs, vivemos um movimento espiritual que é como uma terceira reforma. Desde os seus inícios, o Ecumenismo sempre se afirmou como um movimento de renovação do Cristianismo. Só é possível pensar uma aproximação profunda das diversas confissões cristãs e um caminho de unidade entre elas, a partir de um esforço evangélico de renovação das mentalidades e das estruturas. E o que é novo, ao menos na América Latina é a convicção de que a renovação da Igreja só pode ter uma direção: tornar as nossas Igrejas mais aptas para cumprirem com fidelidade a sua missão no mundo. Tanto na Igreja Católica, na comunhão anglicana como nas Igrejas evangélicas e pentecostais, essa nova reforma tem um conteúdo social e político claro. Em um mundo cada vez mais excludente e desigual, não é possível para quem tem fé se conformar com as gritantes desigualdades sociais, com as injustiças sofridas pelas minorias raciais, étnicas e sexuais. Se existe Deus e se cremos que Jesus de Nazaré é seu enviado, só podemos testemunhar isso se, de todas as formas, trabalhamos para transformar esse mundo de acordo com o projeto divino da paz, justiça e defesa da criação.

Há 500 anos, Lutero atualizou um ditado medieval que afirmava: “A Igreja cristã tem por missão se renovar permanentemente”. As comunidades e fieis cristãos podem verificar como está o seu índice de fidelidade ao Evangelho e à proposta de Jesus por sua disponibilidade em se renovar tanto no âmbito interior de cada pessoa, como no plano da comunidade. O eixo fundamental dessa reforma permanente em nós e na Igreja é nossa abertura ao mundo e nossa sensibilidade para com os grandes problemas sociais do nosso país.

Há 50 anos, em Medellín, na Colômbia, a 2ª conferência geral dos bispos católico-romanos da América Latina lançaram um apelo que se dirige até hoje aos cristãos e cristãs de todas as Igrejas e retoma o grito da reforma de Lutero há 500 anos e o atualiza para nossa realidade: “Devemos dar às nossas Igrejas na América Latina o rosto de uma Igreja missionária e pascal (isso é, uma Igreja que sempre se renove e se abra ao futuro). Uma Igreja comprometida com a caminhada de libertação de toda a humanidade e a libertação de cada pessoa humana em todas as suas dimensões pessoais e suas potencialidades”.
                      (Documento 5 das Conclussões de Medellín, n. 15).

   





 Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo. Autor de mais de 50 livros, é assessor de comunidades eclesiais de base e movimentos sociais. Atualmente é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Email:contato@marcelobarros.com

segunda-feira, 24 de julho de 2017

TEOLOGIA: A REFORMA CONSTANTE E NECESSÁRIA

    Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer


 Para celebrar os 500 anos da Reforma,  um marco na história do Cristianismo, reuniu-se em Belo Horizonte a Sociedade Brasileira de Teologia e Ciências da Religião (Soter). O objetivo era discutir não apenas o evento que inaugurou o Protestantismo, como também a pluralidade religiosa que hoje é uma realidade sempre mais presente em todo e qualquer intento de pensar a fé com rigor e autenticidade.
      
   Há cinco séculos, Martinho Lutero, monge agostiniano, entendeu que a Igreja necessitava de uma reforma.  E, assim, iniciou um movimento cuja carta magna foram as 95 teses que pregou na porta da igreja   do Castelo de Wittenberg. Tratava-se de um protesto contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana. 
      
   O diálogo de Lutero com o Vaticano não evoluiu bem e houve realmente uma separação.  Lutero recebeu apoio dos príncipes alemães. Roma endureceu e preparou a Contrarreforma.  Nela tiveram destacado papel os jesuítas que no Concílio de Trento foram protagonistas na preparação do Catecismo Tridentino que especificava bem a identidade do Catolicismo Romano contra o Cristianismo Reformado. 

         Correu tempo, sangue, suor e lágrimas, enquanto os cristãos lutavam uns contra outros, cada lado clamando possuir a verdade e tratando de combater e/ou eliminar o erro e o engano do outro.  As acusações mútuas variavam da idolatria à heresia.  Todos perdiam e ninguém ganhava.

         O Concílio Vaticano II proclamou oficialmente a necessidade imperiosa do ecumenismo, ou seja, de que todas as confissões cristãs se conscientizassem do fato de habitar a mesma casa, crer no mesmo Deus e buscar Seu Reino proclamando o mesmo Evangelho.  Era preciso fazer passos efetivos em prol da unidade. 

         Hoje é possível e efetivo que católicos e protestantes de várias denominações se sentem juntos para dialogar em um congresso de três dias inteiros.  Mais:  não se defendem de acusações nem esgrimem diferenças.  Fazem autocrítica, pedem perdão, buscam pontos de convergência e não de dissensão. 

         Juntos, olham mais longe e percebem o quanto receberam um do outro.  Os católicos devem muito aos protestantes a devolução da Bíblia em suas mãos.  Os protestantes, por sua vez, aprendem de seus irmãos católicos, entre outras coisas, o amor pelo precioso dom da unidade, que é preciso proteger e estimular de todo coração.

         Olhando em volta, percebem quanto o movimento iniciado por Lutero deu frutos e gerou herdeiros.  As religiões que hoje, em imensa diversidade, se tornam interlocutoras próximas do Cristianismo histórico, enriquecem o pensar teológico ao mesmo tempo que o desafiam. 

         Foi bonito ver no Congresso um eminente teólogo luterano fazendo um resgate histórico do luteranismo sem deixar de apontar suas lacunas e falhas: intolerância com outras tradições religiosas, rigidez e não aceitação de diferenças de pensamento, fechamento ao diálogo.

         Ao mesmo tempo representantes de outras religiões sentiam-se à vontade para expor sua experiência de diálogo com o cristianismo católico ou reformado. Todos eram ouvidos com respeito e sentiam sua contribuição valorizada.

         Não poderia faltar a marca sempre positiva e bela da pessoa do Papa Francisco, que com seu pontificado enche a Igreja e o mundo de esperança de tempos de abertura e diálogo.  Sua presença em Lund, na Suécia, para uma oração ecumênica com pastores e autoridades do mundo protestante; suas atitudes ecumênicas e abertas ao longo de todo o seu pontificado permitem esperar avanços ainda maiores no caminho do ecumenismo. 

         A liberdade que o atual pontífice cultiva e exprime desde os tempos de Buenos Aires como arcebispo, reafirma-se e ganha força ainda maior como chefe da Igreja Católica.  É conhecida sua proximidade com o judaísmo e o Islã em sua Argentina Natal.  Em Roma tem dado prosseguimento a essa proximidade, estendendo-a igualmente a outras religiões não cristãs e não monoteístas. 

         Não é possível fazer teologia hoje sem um diálogo aberto, profundo e respeitoso com outras confissões cristãs e outras tradições religiosas.  Por isso, o congresso anual da Soter, que celebrava os 500 anos da Reforma, terminou com uma nota de esperança.  Indo além de todos os passos que já foram dados, por que não esperar, desejar e mesmo buscar gestos simbólicos que marquem com força a unidade que já não tem possibilidades de retrocesso?

         Entre essas possibilidades inspiradas pelo Espírito estaria talvez um pedido para que se levantasse a excomunhão de Lutero, datada de 500 anos.  E outros passos criativos e corajosos que se apresentem pelo caminho. Assim, a unidade será multicor e polivalente, mas será, sempre mais autêntica e verdadeiramente unidade.  E a Igreja que quer e deseja isto será, como é desejo do Papa Francisco, "ecclesia semper reformanda".  

Maria Clara Lucchetti Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “O  mistério e o mundo –  Paixão por  Deus em tempo de descrença”, Editora  Rocco. 


Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ENCONTRO ECUMÊNICO DE FRANCISCO COM LUTERANOS É UMA REFORMA E TANTO


Por Juracy Andrade



Não podia faltar esta. Dia 31 passado, o papa Francisco dirigiu-se à Suécia, a convite da Federação Luterana Mundial, para o início das comemorações dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero. Atitudes ecumênicas dos dois lados. Apesar de luteranos e católicos romanos dialogarem há algum tempo sobre o que os une e o que os separa, nenhum outro bispo de Roma se aproximara pessoalmente de um diálogo. Mas, na manhã do dia 31 de outubro, Francisco partiu do aeroporto romano de Fiumicino para uma comemoração ecumênica luterano-católica em Lund, na Suécia. A celebração central da Reforma será nos dias 10 a 16 de maio de 2017 na capital da Namíbia, Windhoek.

Se não fosse a intransigência do papado, a desunião não teria ocorrido e sim a reforma da Igreja Romana, envolvida em escândalos de venda de indulgências e afastamento dos ensinos do Evangelho. Já escrevi neste O Porta-Voz sobre isso, baseando-me na excelente obra Martinho Lutero – Obras selecionadas vol 2, editada pela Comissão Interluterana de Literatura de São Leopoldo (RS).

A propósito dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero, faço aqui um breve resumo dos acontecimentos daquele início do século 16. Em um momento em que muitas mudanças políticas, econômicas e sociais aconteciam na velha Europa, o poder e influência da Igreja começavam a ser contestados. Enquanto o Renascimento avançava e o pensamento se difundia mais rapidamente com a invenção da imprensa, o papado se apegava cada vez mais a velhos e inconcebíveis privilégios. Era o tempo das grandes navegações e o que se convencionou chamar eurocentricamente de “descobrimentos”.

Como vimos, Lutero não tinha nenhuma intenção de refundar a Igreja, simplesmente de reformá-la. Implicitamente o próprio papado reconheceu essa necessidade de reforma ao convocar o Concílio de Trento. O reformador condenava a prática de venda de indulgências: você pingava dinheiro nos cofres papais e com isso garantia o Reino dos Céus. Daí se vê como muitas das vertentes atuais que se autointitulam evangélicas e são apenas caça-níqueis se afastaram do espírito da Reforma. Em vez de amor e fraternidade, um dos exemplares desses “evangélicos”, Marcelo Crivella (recém-eleito prefeito do Rio), que se autointitula bispo, atribui à Igreja Romana ações demoníacas.

Lutero condenava também a supercentralização de poderes nas mãos dos papas. O ano de 1517 é um marco decisivo, quando ele pregou, no dia 31 de outubro, à porta da igreja do Castelo de Wittenberg, suas famosas 95 teses questionando poderes papais e práticas religiosas. Como as comunicações eram lentas na época, o prepotente papa Leão 10º levou três anos para exigir uma retratação do reformador. Ele não o fez e ainda queimou o documento papal na praça. Como Leão não era nenhum Francisco, excomungou-o e o declarou herege. Uma de suas primeiras preocupações foi iniciar a tradução da Bíblia para a língua alemã tornando-a acessível ao povão.

Podemos resumir a doutrina luterana em alguns pontos, como salvação pela fé e não por obras (ponto em que luteranos e católicos romanos já começam a se entender); verdade somente na Bíblia; batismo e eucaristia são os únicos sacramentos; proibição do uso de imagens nas igrejas; uso do alemão nos cultos religiosos; fim do celibato dos padres; livre interpretação da Bíblia; extinção das ordens religiosas, entre outros. O reformador pretendia livrar a Igreja da política, mas terminou se aliando a príncipes alemães, o que desembocou nas guerras motivadas por religião em grande parte da Europa. A livre interpretação da Bíblia por cada fiel também desembocou em algo esdrúxulo como certas igrejas que se dizem “evangélicas” e têm pastores e até “bispos” que se agarram a alguns trechos avulsos das Sagradas Escrituras para justificar suas atitudes com uma livre interpretação.


Concluo dizendo que ver um papa comemorar a Reforma junto com luteranos é realmente uma reforma e tanto.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia