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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ENCONTRO ECUMÊNICO DE FRANCISCO COM LUTERANOS É UMA REFORMA E TANTO


Por Juracy Andrade



Não podia faltar esta. Dia 31 passado, o papa Francisco dirigiu-se à Suécia, a convite da Federação Luterana Mundial, para o início das comemorações dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero. Atitudes ecumênicas dos dois lados. Apesar de luteranos e católicos romanos dialogarem há algum tempo sobre o que os une e o que os separa, nenhum outro bispo de Roma se aproximara pessoalmente de um diálogo. Mas, na manhã do dia 31 de outubro, Francisco partiu do aeroporto romano de Fiumicino para uma comemoração ecumênica luterano-católica em Lund, na Suécia. A celebração central da Reforma será nos dias 10 a 16 de maio de 2017 na capital da Namíbia, Windhoek.

Se não fosse a intransigência do papado, a desunião não teria ocorrido e sim a reforma da Igreja Romana, envolvida em escândalos de venda de indulgências e afastamento dos ensinos do Evangelho. Já escrevi neste O Porta-Voz sobre isso, baseando-me na excelente obra Martinho Lutero – Obras selecionadas vol 2, editada pela Comissão Interluterana de Literatura de São Leopoldo (RS).

A propósito dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero, faço aqui um breve resumo dos acontecimentos daquele início do século 16. Em um momento em que muitas mudanças políticas, econômicas e sociais aconteciam na velha Europa, o poder e influência da Igreja começavam a ser contestados. Enquanto o Renascimento avançava e o pensamento se difundia mais rapidamente com a invenção da imprensa, o papado se apegava cada vez mais a velhos e inconcebíveis privilégios. Era o tempo das grandes navegações e o que se convencionou chamar eurocentricamente de “descobrimentos”.

Como vimos, Lutero não tinha nenhuma intenção de refundar a Igreja, simplesmente de reformá-la. Implicitamente o próprio papado reconheceu essa necessidade de reforma ao convocar o Concílio de Trento. O reformador condenava a prática de venda de indulgências: você pingava dinheiro nos cofres papais e com isso garantia o Reino dos Céus. Daí se vê como muitas das vertentes atuais que se autointitulam evangélicas e são apenas caça-níqueis se afastaram do espírito da Reforma. Em vez de amor e fraternidade, um dos exemplares desses “evangélicos”, Marcelo Crivella (recém-eleito prefeito do Rio), que se autointitula bispo, atribui à Igreja Romana ações demoníacas.

Lutero condenava também a supercentralização de poderes nas mãos dos papas. O ano de 1517 é um marco decisivo, quando ele pregou, no dia 31 de outubro, à porta da igreja do Castelo de Wittenberg, suas famosas 95 teses questionando poderes papais e práticas religiosas. Como as comunicações eram lentas na época, o prepotente papa Leão 10º levou três anos para exigir uma retratação do reformador. Ele não o fez e ainda queimou o documento papal na praça. Como Leão não era nenhum Francisco, excomungou-o e o declarou herege. Uma de suas primeiras preocupações foi iniciar a tradução da Bíblia para a língua alemã tornando-a acessível ao povão.

Podemos resumir a doutrina luterana em alguns pontos, como salvação pela fé e não por obras (ponto em que luteranos e católicos romanos já começam a se entender); verdade somente na Bíblia; batismo e eucaristia são os únicos sacramentos; proibição do uso de imagens nas igrejas; uso do alemão nos cultos religiosos; fim do celibato dos padres; livre interpretação da Bíblia; extinção das ordens religiosas, entre outros. O reformador pretendia livrar a Igreja da política, mas terminou se aliando a príncipes alemães, o que desembocou nas guerras motivadas por religião em grande parte da Europa. A livre interpretação da Bíblia por cada fiel também desembocou em algo esdrúxulo como certas igrejas que se dizem “evangélicas” e têm pastores e até “bispos” que se agarram a alguns trechos avulsos das Sagradas Escrituras para justificar suas atitudes com uma livre interpretação.


Concluo dizendo que ver um papa comemorar a Reforma junto com luteranos é realmente uma reforma e tanto.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

UM CONCÍLIO REALMENTE ECUMÊNICO TERIA GUARDADO LUTERO EM COMUNHÃO COM A IGREJA TRADICIONAL


Por Juracy Andrade


Continuo hoje com a carta do monge alemão Martinho Lutero ao papa Leão X, que se inicia reclamando um concílio para dirimir desavenças entre as proposições teológicas do agostiniano e a assim dita Santa Sé. Concílio que lhe fora negado pelos antecessores de Leão. Trata-se de algo plenamente dentro do espírito evangélico (concílio, sínodo, assembleia etc.) mas extremamente malvisto pelos bispos de Roma, que se julgam infalíveis pelo menos desde o primeiro concílio do Vaticano, que não teve quase nenhuma representatividade ecumênica e padeceu de pouquíssimo consenso. Começou uma guerra e o concílio terminou às pressas com o papa Pio 9º carregando esse troféu sem base evangélica.

Pra que fundamento evangélico para um herdeiro do Império Romano?

Prossegue Lutero: “[...] jamais alienei meu ânimo de Tua Beatitude ao ponto de não desejar, com todas as minhas forças, o melhor para ti e para tua Sé e de não rogar a Deus por isso [...]. No entanto, eu realmente repeli tua Sé, que se chama de Cúria Romana. Ora, nem tu nem qualquer outra pessoa pode negar que ela é mais corrupta do que qualquer Babilônia ou Sodoma. Tanto quanto compreendo, ela é uma impiedade inteiramente deplorável, sem esperanças e notória. [...] E assim resisti e resistirei enquanto o espírito da fé viver em mim. Não que eu pretenda o impossível e espere que, apenas graças a mim, alguma coisa seja promovida nessa confusíssima Babilônia, visto que me combatem tantos aduladores furiosos. Reconheço, porém, que estou em dívida com meus irmãos, a quem devo aconselhar para que um menor número deles seja arruinado pelas pestes romanas ou sejam arruinados de uma forma menos grave.

Neste meio tempo, tu, Leão, estás sentado como um cordeiro em meio aos lobos, como Daniel em meio aos leões, e moras, como Ezequiel, entre escorpiões. O que podes tu sozinho opor a esses monstros? Ainda que juntasses a ti três ou quatro cardeais eruditíssimos e ótimos, o que seriam eles entre tantos? Todos vós morreríeis envenenados antes que vos antecipásseis estatuindo para remediar a situação. A Cúria Romana está perdida. A ira de Deus a atingiu até o fim. Odeia os concílios, tem medo de ser reformada, não pode mitigar o furor de sua impiedade e cumpre o epitáfio de sua mãe, a respeito da qual é dito: ‘Curamos Babilônia e ela não sarou; abandonemo-la’ (Jeremias 51,9)”.

Lendo esta carta, que Lutero escreveu em Wittenberg no dia 6 de setembro de 1520 e foi recebida por Leão, não podemos deixar de pensar no momento vivido pelo atual papa Francisco. Este, como fez Francisco de Assis na igrejinha da Porciúncula, em sua cidade natal, tenta reerguer a Igreja de Cristo e reconduzi-la ao Evangelho, às práticas do livro dos Atos dos Apóstolos. As resistências, como pudemos ver no recente Sínodo, são muitas. E se o papa não conseguir reformar, enquanto vivo, ao menos o Colégio dos Cardeais, ao qual está confiado, não por Jesus Cristo certamente, a escolha de um novo bispo de Roma, a Igreja de Roma poderá cair de novo nas mãos de políticos como Wojtyla. O melhor mesmo seria acabar com essa excrescência de cardeais, que foram inventados pelos cortesãos do papado para usurpar ainda mais o papel dos bispos, sucessores dos apóstolos. Vamos aguardar e orar.

PS - No final de outubro, a Câmara de Vereadores do Recife prestou homenagem a Padre Henrique, mártir sacrificado pela ditadura militar por ser fiel à doutrina e prática ecumênicas e conciliares de Dom Helder. Dia 27 de outubro, ele faria 75 anos. A iniciativa da sessão solene da Câmara foi da vereadora Isabella de Roldão.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia