O Jornal On Line O PORTA-VOZ surgiu para ser o espaço onde qualquer pessoa possa publicar seu texto, independentemente de ser escritor, jornalista ou poeta profissional. É o espaço dos famosos e dos anônimos. É o espaço de quem tem alguma coisa a dizer.
Mostrando postagens com marcador Juracy Andrade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Juracy Andrade. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de dezembro de 2017

O SILÊNCIO DO NEGO VEIO



Por Rejane Menezes 

Essa sexta-feira, 15 de dezembro, foi um dia muito triste para o jornalismo em Pernambuco. E, de maneira especial, para o nosso blog O PORTA VOZ.  A partir de hoje as primeiras quartas-feiras do mês nunca mais serão as mesmas.

Desde os tempos em que nem existiam os blogs e o Porta Voz era inserido no site da Edite.Com, que o mês ia terminando e o artigo dele chegando. As únicas poucas vezes que isso não aconteceu foi por motivo de doença, dele ou na família.

Há tantos anos que a primeira quarta-feira tinha um colaborador cativo, que não consigo imaginar como, a partir de hoje, iniciarei o mês sem ter o seu artigo já programado para entrar no blog. Ele era tão pontual que em novembro, quando seu artigo não chegou, eu sabia que alguma coisa estava errada. Foi um dos primeiros e grandes incentivadores do Porta Voz.

Quando enviei um e-mail perguntando o que houve e a resposta não veio, meio coração se apertou. Havia algo de muito errado, que foi confirmado por sua esposa, quando respondeu, dias depois, falando sobre sua cirurgia.

A partir de então ela me dava notícias sobre ele e de sua luta pela vida. Mas a melhora nunca vinha.

Irreverente, polêmico, desafiador, foi uma das poucas vozes denunciava os desmandos de dom José Cardoso, substituto de Dom Helder Camara na Arquidiocese de Olinda e Recife e os equívocos da Igreja Católica. Nos na década de 1990, ao trilharmos esse mesmo caminho de resistência ao desmonte da Arquidiocese.

Nascido em 28 de julho de 1932 em Vitória de Santo Antão, foi seminarista no Seminário Menor de Olinda e Mossoró, estudou filosofia no Seminário Central de São Leopoldo – RS e  teologia em Roma e Lyon, na França.

Trabalhou na UFPE na equipe de Paulo Freire sendo demitido em 1964 e também foi preso.

AO sair da prisão começou  a trabalhar em jornalismo, EM Recife, São Paulo e no Rio. Em Brasília trabalhou a editora UnB. Com a Lei de Anistia foi reintegrado à UFPE, onde trabalhou até a aposentadoria.
E participou do que ele chamava de ressurreição do Jornal de Commercio a partir dos anos 1980, de onde foi colaborador por muitos anos.
Atualmente escrevia para o seu blog – O blog do Nego Veio (http://blogdenegoveio.blogspot.com.br/) e  para o Porta Voz, onde escrevia sobre temas religiosos (http://jornaloporta-voz.blogspot.com.br/.

Em 2006 lançou o livro Padres Comunistas, integrante da coleção Repórter Especial, das editoras Terceiro Nome e Mostarda. No livro uma discussão muito delicada: se o comunismo é ateu fazia sentido ainda existirem padres comunistas? Por que para esses padres o próprio Evangelho é um texto de esquerda?

Nos solidarizamos com a sua esposa e com a sua família nesse momento de dor e saudade.


Vai em paz meu amigo Juracy Andrade. O Porta Voz se sente honrado por você ter sido nosso colaborador por tantos anos, por divulgar o nosso blog e valorizar o nosso trabalho. As primeiras quartas-feiras do mês, com toda certeza, nunca mais serão as mesmas.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO ENFIM LIBERTADA NA ONDA DO PAPA FRANCISCO DE RETORNO AO EVANGELHO


Por Juracy Andrade

Não poderia ser diferente quando agora temos um papa cristão e indulgente, não mais um avatar do imperador romano. O jornal do Vaticano L’Osservatore Romano passou a dar grande espaço ao padre dominicano Gustavo Gutiérrez, considerado o fundador da Teologia da Libertação, uma corrente teológica já antiga e que atende aos anseios e necessidades do cristianismo na América Latina.

Trata-se de uma corrente marginalizada ou até repudiada muito tempo pelos “sábios” da Cúria Romana, inclusive o papa polonês João Paulo 2º e o alemão Bento 16. Argumentavam esses “sábios” donos da verdade que essa corrente utiliza-se de conceitos marxistas. Esquecem eles que o marxismo está enraizado naquela filosofia adotada pela Igreja que vem de Aristóteles e foi “sacramentada” por São Tomás de Aquino em sua vasta Summa Theologica.

O jornal do Vaticano decidiu abrir espaço para a Teologia da Libertação, publicando excertos do livro de Gutiérrez Dalla parte dei poveri. Teologia della Liberazione, teologia della Chiesa, publicado pela Editrice Missionaria Italiana, que fala dos pobres como preferidos de Deus e condena o liberalismo econômico e a desumanização da economia.

O próprio prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, uma espécie de ministério da Cúria, o cardeal alemão Gerhard Ludwig Mueller, é um admirador do teólogo peruano e afirma: “A contribuição de Gustavo Gutiérrez tornou evidente uma coisa para nós aqui na Europa, a saber, a injustiça no mundo é um fator que permanece e que somente pode ser superado com a disponibilidade de todos os homens de voltar a olhar para Cristo”.

Vendo o cardeal falar da injustiça no mundo, lembro o que costumo observar. A Europa, que se apresenta como cristã, é responsável pelas Cruzadas, pela colonização de meio mundo e consequentes iniquidades cometidas em nome de Cristo e da religião. Hoje vítima de um terrorismo alucinado, paga caro as barbaridades que cometeu contra povos da Terra Santa, povos pré-colombianos das Américas, civilizações africanas e asiáticas.

A Teologia da Libertação tem tudo a ver no posicionamento contra tantas opressões, visando libertar o cristão e não oprimi-lo com direito canônico e infalibilidades. Também remete à Pedagogia do oprimido do grande educador Paulo Freire.



O autor é jornalista com formação e filosofia e teologia

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

EVANGELHO E DIREITO CANÔNICO NÃO COMBINAM MESMO



por Juracy Andrade

Veio ao nosso país para lançar um livro o cardeal Raymond Burke. Esse purpurado é um dos principais críticos do papa Francisco. Sente saudade de uma Igreja imperial, monárquica. “Um barco sem timoneiro” é como ele descreve a Igreja Romana no atual papado. Quer que a liturgia da missa volte a ser em língua latina e reprova o acolhimento de divorciados recasados e de gays. Enfim, um cardeal rebelde e disposto a enfrentar as mudanças que o papa vem fazendo.

É estadunidense e patrono da Ordem Soberana e Militar de Malta, um resquício das Cruzadas, e formada hoje por leigos de famílias nobres dedicados a trabalhos humanitários. O grão-mestre da ordem era Matthew Festing, que se envolveu em divergências com Francisco, o qual lhe impôs a renúncia. O papa nomeou para a ordem um delegado seu, o que poda os poderes do grão-mestre e do grão-chanceler da ordem e os do seu patrono, que é o cardeal descontente Burke.

Há alguns dias, os muros de alguns bairros próximos ao Vaticano amanheceram cobertos com cartazes de críticas a Francisco e a seu desejo de renovação e volta da Igreja a práticas evangélicas. “A missão dos cristãos na sociedade é dar sabor à vida com a fé e o amor que Cristo nos deu e, ao mesmo tempo, afastar os germes que contaminam de egoísmo, inveja e difamação” é uma frase do papa em mensagem dominical aos fieis na Praça de São Pedro.

Burke foi avisado pelo papa que será afastado do Tribunal da Assinatura Apostólica do Vaticano, onde está desde 2008. Trata-se de um dos membros mais conservadores do clero americano, que interpreta rigidamente a doutrina católica. No Sínodo Extraordinário dos Bispos sobre a Família, o cardeal exerceu, com outros, um bloqueio das minorias contra aberturas em relação a homossexuais e divorciados.

Burke estudou teologia na Universidade Gregoriana de Roma, onde chegou ao doutorado em direito canônico. É importante assinalar essa sua dedicação ao direito canônico. Os juristas canônicos têm geralmente uma tendência de dar mais valor ao direito que ao Evangelho. Tivemos, aqui na Arquidiocese de Olinda e Recife, o arcebispo dom José Cardoso, que, antes de vir para cá substituir dom Helder, dava aulas de direito canônico em Roma. A administração dele foi catastrófica do ponto de vista evangélico. Desmontou todos aos avanços introduzidos após o Concílio e chegou a excomungar uma garotinha estuprada pelo padrasto que fez aborto.

Evangelho e direito canônico não combinam mesmo.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A GRAÇA DA CASTIDADE E A IMPOSIÇÃO DO CELIBATO PELO DIREITO CANÔNICO

Por Juracy Andrade



Nos primeiros dez séculos da Igreja, os padres e bispos não eram obrigados a se abster do casamento. Lembro isso ao eclodir mais um escândalo de pedofilia, de que é acusado o cardeal australiano George Pell, atualmente tesoureiro do Vaticano. Ele nega veementemente a acusação e vai comparecer à polícia em sua terra. Disse que o papa Francisco lhe concedeu licença para defender-se. A obrigação jurídica do celibato sem a graça, o carisma, da castidade é uma aberração.

O horror ao sexo que tomou conta do cristianismo, fazendo com que Tomás de Aquino, mesmo antes de se tornar monge, pegasse um tição a saísse correndo atrás de uma mocinha que se ofereceu a ele, tomou desvios estranhos.

 Aparentemente, boa parte do clero diocesano e religiosos concluiu que o sexo só seria pecado entre homem e mulher, o que abre caminho a uma ampla prática da pedofilia. Tal prática acentuou-se aqui no nosso país desde que o Concílio de Trento (Contrarreforma) implantou-se por estas bandas. Antes, padres e frades eram verdadeiros patriarcas, com suas amásias que chamavam de comadres para evitar falatório. Com o tempo, liberaram geral e conventos foram se despovoando, o que levou a uma restauração sobretudo das ordens beneditina e franciscana, através de monges mais disciplinados importados da Alemanha. Essa história de São Tomás lembra O nome da rosa, de Umberto Eco, com aquela passagem da pobre camponesa em busca de comida e aproveitando para traçar um noviço (com os monges mais velhos a comilança era generalizada).

Ainda hoje, sabemos, o celibato não é exigido em muitas igrejas orientais. Em algumas, o padre tem de casar antes da ordenação e não pode chegar a bispo. 

Houve tentativas de exigir o celibato em concílios como os de Elvira e Niceia (século 4º). Mas a exigência só foi oficializada, pelo papa Gregório 7º, em 1073. Ele foi longe, considerando herético o matrimônio de sacerdotes porque isso os distrairia do serviço de Deus e contrariava o exemplo de Jesus Cristo. Mas há outra interpretação para essa proibição, segundo vários historiadores: era um meio de evitar que as heranças de sacerdotes e bispos fossem para as mãos de seus filhos e viúvas, em vez de ir para a posse da Igreja. Anos mais tarde, o 1º Concílio de Latrão decretou a invalidade do casamento de clérigos, que foi reforçada pelo 2º Concílio de Latrão.

Deseja uma grande quantidade de cristãos católicos que o papa Francisco, com sua nova visão dos problemas que afetam a Igreja, encaminhe providências para uma revisão, talvez lenta devido aos conservadores, da legislação canônica sobre o celibato clerical. As crianças abusadas sexualmente agradecem. E o carisma da castidade será preservado, sem direito canônico.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 7 de junho de 2017

VERSÍCULOS COM INTERPRETAÇÕES SATÂNICAS, ABERRAÇÕES DO ESTADO ISLÂMICO E DIÁLOGO ENTRE MUÇULMANOS E CRISTÃOS


Por Juracy Andrade



Há poucos dias cristãos coptas, que formam 10% da população egípcia, foram massacrados, tendo o assim dito Estado Islâmico assumido a autoria do crime. Não devemos esquecer que Jesus Cristo e os primeiros cristãos eram judeus e pregaram o Evangelho em Jerusalém, Cesareia, Damasco, enfim no Oriente. São Paulo, um cidadão romano e um fariseu convertido ao cristianismo, é que levou a pregação evangélica ao Ocidente e praticamente se apoderou da condução da Igreja, deixando Pedro e demais velhos apóstolos mais ou menos marginalizados. Até discutiu com Pedro e levou a melhor, pois este achava que os cristãos deveriam ser circuncidados, conforme o rito judaico. Paulo não.

Tradicionalmente, os cristãos conviviam bem com os israelitas, a não ser depois que a Igreja romanizada por Paulo passou a considerar os judeus, como um todo, assassinos de Jesus Cristo. No Oriente, o bom convívio prosseguiu, longe de Roma. Após a criação do Estado de Israel e, sobretudo, depois que este adotou uma política antipalestina, e atiárabe em geral, judeus e cristãos há séculos vivendo em países muçulmanos, como o Iraque, Síria e outros, passaram a ser malvistos e até atacados.

Há por ali uma grande quantidade de igrejas cristãs que, mesmo ligadas a Roma, têm seus rituais e liturgias próprios. São mais de 20, todas integradas no “unam, sanctam, catholicam et apostolicam Ecclesiam” do símbolo de Niceia e à prece de Cristo, às vésperas de morrer, para que “todos sejam um só”. Cito algumas: copta, melquita, greco-católica ucraniana, etíope, eritreia, católica bizantina grega, católica armênia, católica siríaca, católica caldeia.

O Estado Islâmico, criado por fanáticos empedernidos, sai na frente de todo tipo de aberração e barbaridade, como tortura e assassinato de divergentes, destruição de monumentos históricos que consideram antiislamitas. É gente que não conhece o Corão, ou o lê por linhas tortas, inventando “versículos satânicos” (como os do romance de Salman Rushdie).

Mas felizmente, ainda são poucos, existem grupos de muçulmanos que buscam diálogo e entendimento com os cristãos, e vice-versa. O mesmo ocorre entre cristãos e judeus e islamitas e judeus. São pessoas para quem a religião não é motivo de briga, fanatismo, desunião e, sim, um cruzamento na busca e adoração de Deus.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 3 de maio de 2017

NO BRASIL, MASSACRES DE LATIFUNDIÁRIOS CONTRA POSSEIROS. PELO MUNDO, VIOLÊNCIA EM NOME DE DEUS


 por Juracy Andrade



“Nenhum camponês sem terra, nenhuma família sem casa, nenhum trabalhador sem direitos” disse o papa Francisco em sua visita à Bolívia, terra de vários povos indígenas que somente agora estão sendo resgatados de plurissecular omissão e exploração dos que se consideram brancos e cristãos. Do lado de cá da fronteira, o governo golpista de Michel Miguel prepara o bote final nos povos indígenas, desmontando a Funai e seu privilégio constitucional de demarcar e homologar terras indígenas. E os grileiros avançam nas terras indígenas e assentamentos de homens do campo.

Recentemente, nove trabalhadores rurais foram mutilados e assassinados, a mando de fazendeiros, no norte do Mato Grosso. Já são cerca de 60 mil mortes violentas por ano. Um dos assassinados em Taquaruçu do Norte (MT) ainda estava com um machado cravado nas costas quando jornalistas conseguiram chegar à remota localidade. É uma luta longa e violenta que, sob o atual desgoverno, tende a se intensificar, sem nenhum respeito a direitos adquiridos, como no caso dos trabalhadores em geral, que estão perdendo até o direito à aposentadoria. Um escândalo que não repercute muito pelo mundo, pois o que os países ricos querem é um Brasil submisso, como nos tempos de Fernando 2º (FHC) e companhia. E não é que o sociólogo sem alunos saiu do armário golpista?

O tema praticamente desapareceu da imprensa. E o desgoverno pouco está ligando para os desmandos do agronegócio, que incluem roubo de terras, assassinatos, desmatamento ilegal, destruição ambiental. A Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica, contabiliza os desmandos e atrocidades. Que prosseguirão inevitáveis. Em 2004, 185 famílias que cultivavam terras naquela área foram expulsas e a pressão continua sobre quem ficou, centenas de pessoas. A impunidade faz com que os latifundiários e grileiros continuem sem temor. A polícia não age.

Voltando a Francisco, um papa realmente cristão, mais uma vez condenou, em recente visita ao Egito, a violência cometida “em nome de Deus”. Referia-se a atentados contra a minoria cristã daquele país, que conviveu em paz com os muçulmanos por séculos. O ideal do papa e de muitos muçulmanos pacifistas é que as religiões convivam numa boa, sem atritos, ofensas e principalmente sem a violência que explode ultimamente no terrorismo. Terrorismo, aliás, que começou com os ataques dos Cruzados aos islamitas na Terra Santa, prosseguiu com a colonização e, hoje, com os interesses petrolíferos.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 5 de abril de 2017

PAPA FRANCISCO VÊ RISCO DE MORTE PARA A EUROPA SE NÃO REENCONTRAR SEUS IDEAIS


Por Juracy Andrade


Há 60 anos, no dia 25 de março de 1957, era assinado o Tratado de Roma que criou a Comunidade Econômica Europeia (CEE), uma evolução do Mercado Comum Europeu (MCE). Este abrangia França, Alemanha, Itália, Bélgica, Holanda e Luxemburgo, a chamada Europa dos Seis. Criados pouco tempo após a 2ª Guerra Mundial, obedeciam àquele estado de espírito pós-guerra que pretendia unir o mundo e acabar com as conflagrações. . Amarga ilusão, pois somente cinco anos depois da rendição da Alemanha e do grande terrorismo praticado pelos EUA em Hiroshima e Nagasaki, Washington, embalado pela Guerra Fria, iniciou na Coreia a 3ª Guerra Mundial, que dura até hoje. Os fabricantes de armas, coitadinhos, estavam no prejuízo. A própria Europa voltou a conhecer guerras fratricidas nos Bálcãs, após a dissolução da Iugoslávia pós-Tito.

Foi também assinado então o tratado anexo da Comunidade Europeia de Energia Atômica.(Euratom). Por ocasião das celebrações do marco positivo que foi a constituição da CEE, o papa Francisco (que Deus o proteja dos trogloditas da Cúria Romana) falou aos 27 líderes da União Europeia (UE, último estágio da CEE), no Vaticano, que a Europa corre o risco de morrer se não reencontrar seus ideais fundadores. Entre os líderes presentes, Angela Merkel e François Hollande, governantes da Alemanha e da França que, no passado, se engalfinharam em tantas guerras mortíferas (apesar de tão “cristãos”).

Lembramos que o papa argentino recebeu, em 2016, o Prêmio Carlos Magno por seu compromisso pela unificação europeia e também que ele se manifesta frequentemente no sentido de que a Europa seja uma terra de acolhida, sem a xenofobia que a ataca atualmente. Um de seus temas prioritários é que os imigrantes e refugiados sejam vistos como novos europeus. O papa chegou a visitar a ilha italiana de Lampedusa, um ponto de desembarque dos refugiados africanos e orientais que conseguem atingir o continente europeu.

Repetindo o que disse no Parlamento Europeu, na cidade francesa de Strassbourg, há três anos, Francisco pediu que a Europa encontre novos caminhos, aposte no futuro, apure um novo humanismo. Lembrou que, o velho patrimônio europeu é o melhor antídoto contra a falta de valores do nosso tempo, terreno fértil para todos os extremismos.

Em Maastricht, na Holanda, 35 anos mais tarde, foi assinado o tratado que, afinal, constituiu o coroamento de uma longa trajetória de unificação que começou com a Europa dos Seis, o Benelux (seu antecessor, que juntava só Bélgica, Holanda e Luxemburgo) e a CEE. Era criada a União Europeia (UE). Ao tratado está ligada a criação da moeda única em vigor na Zona do Euro ou Eurozona.

Todo esse edifício, construído com generosidade durante muitos anos, ameaça ruir com crises sem fim, sobretudo com a saída do Reino Unido, votada em plebiscito. Daí os apelos de Francisco, que, mesmo não sendo europeu, é de um continente herdeiro da cultura e do humanismo da velha Europa. Esta, cedo acolheu a pregação do cristianismo, pelas mãos do apóstolo Paulo.

O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia


quarta-feira, 8 de março de 2017

IGREJAS CATÓLICA ROMANA E ANGLICANA ESTÃO MAIS PRÓXIMAS

Por Juracy Andrade



No domingo 26 de fevereiro, quando o Brasil começava a mergulhar no Carnaval, o papa Francisco visitou uma igreja de confissão anglicana de Roma, a All Saints. Pela primeira vez desde o século 16, quando a Igreja da Inglaterra, uma das mais antigas da história cristã, foi desligada de Roma pelo rei Henrique 8º. Desculpem mas, já que falei em Carnaval, peço licença para acrescentar uma observação sobre o Galo da Madrugada, aquele do gostoso “Ei pessoal, ei moçada” (acréscimo ao que postei no meu blogdenegoveio blogspot.com.br). Outra coisa que prejudica o Galo e lhe fomenta o complexo de grandeza é o abraço que o globalizou. Do jeito que globalizou o Drama da Paixão de Fazenda Nova, a Rede Globo anexou o Galo.

Geralmente bem próxima da Igreja Católica Romana, na liturgia e na teologia, a Igreja Anglicana, também conhecida como Episcopal fora da Inglaterra, tem sua máxima figura religiosa no arcebispo de Cantuária (Canterbury) e também uma chefia cerimonial do soberano inglês, além de Sínodos que zelam por suas convicções teológicas.

Houve no século 19, um religioso anglicano que, após muito estudo e oração, aderiu à Igreja Romana. Foi John Henry Newman, mais tarde nomeado cardeal pelo papa Leão 13. Foi discutido, na época, se ele deveria receber uma nova ordenação, pois alguns teólogos acreditavam que teria havido uma ruptura nas ordenações e consagrações da Igreja Anglicana, que teria quebrado os laços com a tradição apostólica que vem desde os apóstolos de Jesus Cristo. No entanto, essa questão foi resolvida com o reconhecimento dos laços anglicanos com a tradição apostólica.

A ida de Francisco à igreja anglicana de All Saints, em Roma, é mais um sinal de que as duas confissões cristãs estão interessadas naquela unidade que Jesus Cristo tanto desejou e pela qual orou fervorosamente no Jardim das Oliveiras, nos momentos que precederam sua paixão e morte. Francisco pretende visitar o conflituoso Sudão do Sul em companhia de bispos anglicanos, mais um passo de ambas as confissões na direção do “que todos sejam um só” desejado por Cristo.

A chegada da Igreja Anglicana ao Brasil ocorreu com a aproximação entre as cortes de Portugal e Inglaterra e o incremento dos negócios ingleses em nosso país, após a assim dita “abertura dos portos”. O primeiro templo anglicano construído em nosso país (e na América do Sul) foi no Rio de Janeiro. Depois foram implantadas capelas em São Paulo, Santos, Belém e Recife. Aqui no Recife, o anglicanismo se desenvolveu muito pela presença de súditos britânicos em empresas como a Great Western, a Pernambuco Tramways e outras. Na 2ª Guerra Mundial, muitos filhos de ingleses aqui residentes foram lutar contra os nazistas. Os nomes daqueles que morreram na luta estão gravados na igreja anglicana do Espinheiro. E tem também, na Boa Vista, uma Rua do Padre Inglês.

Que sejamos um só, como queria e quer Cristo.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

PEÇAMOS A DEUS QUE O PAPA FRANCISCO E SEUS SUCESSORES CONSERTEM A IGREJA, COMO SÃO FRANCISCO FEZ NA PORCIÚNCULA


  por Juracy Andrade


Como o direito canônico obriga os bispos a se aposentarem aos 75 anos, o papa Francisco, nestes últimos quatro anos, teve oportunidade de fazer uma grande quantidade de novas nomeações episcopais. Como ele evidentemente escolhe candidatos que compartilhem sua visão da Igreja, tipo Dom Helder, Dom José Maria Pires, Dom Paulo Evaristo e alguns outros, não estejam contaminados pelos descaminhos adotados por tantos papas-imperadores, pode-se esperar que a Igreja Romana vá retomando os caminhos dos apóstolos, descritos por exemplo no livro dos Atos dos Apóstolos. Mesmo porque ele também tem nomeado cardeais mais cristãos que os de antigamente. E são ainda os cardeais, e não representantes do episcopado mundial e do povo de Deus, que fazem a eleição de um novo papa.

Acredito que ele ou algum sucessor seu tomará a providência de acabar com essa excrescência imperial que é o Colégio Cardinalício, inventado por papas-imperadores para garantir a constante eleição, não de bispos de Roma, mas de senhores imperiais. Com o tempo, teremos uma Igreja renovada e retemperada no Evangelho de Jesus Cristo, o que tornará mais fácil, ou menos difícil, retomar o desejo de Cristo de que “todos sejam um” (oração antes da paixão). Grandes passos já foram dados em relação aos luteranos. Francisco ,inclusive, participou de comemoração do quinto centenário da Reforma. E aos anglicanos. O papa também se encontrou com um dos patriarcas da Igreja Ortodoxa, que há cerca de mil anos separou-se da Romana.

Sem dúvida muitos passos terão que ser dados por todas as igrejas que ainda se conservam cristãs. E a Igreja Romana já não proclama que são as outras confissões que têm de ceder às exigências de Roma. Progressivamente, acredito, dogmas como o da infalibilidade papal terão de ser revistos. Lembramos que foi um concílio de alguns bispos europeus (poucos), o Vaticano I, reunido às pressas em meio a convulsões bélicas e estreitamente pressionado pelo papa da época, que proclamou esse duvidoso dogma, logo contestado por inúmeras igrejas e inclusive por católicos.

Evidentemente, Francisco não poderá consertar sozinho e rapidamente tudo o que se fez de errado na Igreja de Cristo desde que o papa e os bispos resolveram, com raras exceções, se tornarem nobres de um Império Romano repaginado pelo imperador Constantino, que fez do cristianismo uma religião oficial. Todos, papa, bispos, imperador, ignorando solenemente palavras de Cristo como “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” ou “O meu reino não é deste mundo”.

Como em muitos outros casos, a Igreja passou a adotar costumes pagãos, além desse de religião oficial. Por exemplo: construção de templos, o que era ignorado pelos cristãos primitivos; um clero absolutamente segregado dos leigos; perseguição e morte aos que o establishment eclesiástico considerava hereges; a incrível instituição de uma Inquisição para condenar e queimar na fogueira do auto-de-fé hereges e cismáticos. Vamos orar e torcer para que Francisco ainda consiga avançar muito na retomada e renovação cristã. E que tenha sucessores que prossigam com o trabalho dele, certamente inspirado por Deus.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

IGREJA NOVA: BONS PRESENTES, MUITOS, PARA O POVO DE DEUS


 Por Juracy Andrade


Taí um jubileu que não deve passar em branco, o do Grupo Igreja Nova e de seu jornal Igreja Nova. Há 25 anos, com a saída compulsória de Dom Helder do pastoreio desta arquidiocese de Olinda e Recife, chegava por aqui Dom José Cardoso, como quem não queria nada, mas determinado e comissionado para o desmonte de tudo quanto aqui havia sido montado para implementar os caminhos abertos pelo Concílio dos anos 1960. O que inclui as pastorais, o movimento Justiça e Paz, a vinda para cá de padres atraídos pelo carisma e o ecumenismo do nosso inesquecível pastor, enfim a opção preferencial pelos pobres no amplo e generoso contexto da Teologia da Libertação. O então cardeal-arcebispo do Rio, Dom Eugênio Sales, que se dizia xerox do papa e vivia numa Igreja medieval, trouxera de Roma (ele mandava no Vaticano) aquele professor de direito canônico (será que Dom Dedé, como era conhecido em Caruaru, sabia oura coisa?) e aconselhara o papa João Paulo 2º a colocá-lo numa obscura diocese daquele Grande Sertão de Guimarães Rosa, enquanto aguardavam a saída de Dom Helder.

Na época eu trabalhava no Jornal do Commercio e logo aproveitei o espaço que me era concedido nas páginas de opinião (até hoje escrevo, mas agora só uma vez por mês) para iniciar uma série de artigos tratando do tema geral “Desmonte eclesiástico”. Durante algumas semanas, pude fazê-lo, mas logo o intolerante arcebispo procurou enquadrar-me pedindo ao sr. João Carlos Paes Mendonça a minha demissão. Padre Edvaldo, pároco de Casa Forte, que conhecia o presidente do jornal, trabalhou para contornar a situação. Lembro a vocês que Padre Edvaldo ganhou há pouco uma biografia, escrita a quatro mãos por ele e minha amiga a jornalista Vera Ferraz.

Aquela série de artigos me aproximou daqueles cristãos e grupos organizados que não aceitavam o direito canônico como substituto do Evangelho. Foi quando conheci o Igreja Nova, os Trapeiros de Emaús, padre Edvaldo, que, como pároco (popularmente vigário colado, que só pode ser descolado com processo canônico), podia se contrapor a alguns desmandos de Dom José Cardoso sem ser imediatamente enxotado da arquidiocese, como tantos foram. Mais tarde, o jurista (e cadê o Evangelho?) tentou atingi-lo por ter concelebrado missa com um bispo da Igreja Episcopal, que é a Igreja da Inglaterra, quase tão antiga quanto a Romana.

Dom Helder, que não tinha nada de ingênuo, já havia previsto que “Quem deseja viver o Concílio prepare-se para enfrentar desertos”. E bote deserto nisso. O paladino de dom Eugênio, sempre se escondendo por trás do Vaticano, é responsável pelo fechamento do Instituto de Teologia do Recife (Iter), do Seminário Regional do Nordeste, instituições engajadas com o Concílio e que procuravam formar padres muito além dos moldes tridentinos, aqueles fixados pelo Concílio de Trento no longínquo século 16. O Iter também aceitava como alunos freiras e leigos/as.

Acusei-o, em artigo na revista Algomais, de praticar uma “pastoral imobiliária”: torrar bens da arquidiocese e apossar-se de bens de paróquias. Ninguém sabe pra onde foi o dinheiro. Sua “tesoureira” era uma irmã dele que, ao que consta, teria sido expulsa de um convento. “E não me perguntes mais”, como naquele bolero que fala também da “ponta de um torturante band-aid no calcanhar” Seu sucessor, dom Fernando Saburido, um homem de Deus, cala a respeito por imposição do direito canônico. Sempre o direito. Cadê o Evangelho? O arcebispo me processou pela Lei de Imprensa, mas não deu em nada.

Destaco o trabalho do Grupo Igreja Nova e do seu jornal nos caminhos do Concílio, como a fraternidade e reuniões de seus membros, as 13 Jornadas Teológicas de 1998 a 2010, entre tantas outras realizações. Muitos amigos e pessoas ligadas ao grupo se manifestaram com júbilo na passagem deste jubileu (jubileu rima com júbilo). Destaco padre João Pubben, missionário por longos anos no Brasil, inclusive entre os pobres de Dois Unidos, e que, infelizmente, teve de voltar à sua Holanda natal por motivo de saúde. Eis o que ele disse: “Apresenta-se, após 25 anos, a pergunta ‘O que o Igreja Nova significou em sua caminhada?’ Considero  ponto alto das sementes jogadas ao chão a concretização das 13 Jornadas Teológicas Dom Helder Câmara [...]. Foram ocasiões privilegiadas e valiosas em que palestrantes especiais orientaram, guiaram, enriqueceram e animaram um número bastante grande de pessoas de boa vontade para viver mais e melhor a Boa Nova na realidade nua e crua de cada dia. Penso que esta oferta do Igreja Nova foi seu melhor presente ao povo de Deus”.

PS – Dia 11 deste mês às 10h, no Espaço Dom Lamartine da Igreja das Fronteiras, será lançada a 13ª edição do Calendário do IDHeC, com fotos e frases de Dom Helder.



O autor é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

ENCONTRO ECUMÊNICO DE FRANCISCO COM LUTERANOS É UMA REFORMA E TANTO


Por Juracy Andrade



Não podia faltar esta. Dia 31 passado, o papa Francisco dirigiu-se à Suécia, a convite da Federação Luterana Mundial, para o início das comemorações dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero. Atitudes ecumênicas dos dois lados. Apesar de luteranos e católicos romanos dialogarem há algum tempo sobre o que os une e o que os separa, nenhum outro bispo de Roma se aproximara pessoalmente de um diálogo. Mas, na manhã do dia 31 de outubro, Francisco partiu do aeroporto romano de Fiumicino para uma comemoração ecumênica luterano-católica em Lund, na Suécia. A celebração central da Reforma será nos dias 10 a 16 de maio de 2017 na capital da Namíbia, Windhoek.

Se não fosse a intransigência do papado, a desunião não teria ocorrido e sim a reforma da Igreja Romana, envolvida em escândalos de venda de indulgências e afastamento dos ensinos do Evangelho. Já escrevi neste O Porta-Voz sobre isso, baseando-me na excelente obra Martinho Lutero – Obras selecionadas vol 2, editada pela Comissão Interluterana de Literatura de São Leopoldo (RS).

A propósito dos 500 anos da Reforma de Martinho Lutero, faço aqui um breve resumo dos acontecimentos daquele início do século 16. Em um momento em que muitas mudanças políticas, econômicas e sociais aconteciam na velha Europa, o poder e influência da Igreja começavam a ser contestados. Enquanto o Renascimento avançava e o pensamento se difundia mais rapidamente com a invenção da imprensa, o papado se apegava cada vez mais a velhos e inconcebíveis privilégios. Era o tempo das grandes navegações e o que se convencionou chamar eurocentricamente de “descobrimentos”.

Como vimos, Lutero não tinha nenhuma intenção de refundar a Igreja, simplesmente de reformá-la. Implicitamente o próprio papado reconheceu essa necessidade de reforma ao convocar o Concílio de Trento. O reformador condenava a prática de venda de indulgências: você pingava dinheiro nos cofres papais e com isso garantia o Reino dos Céus. Daí se vê como muitas das vertentes atuais que se autointitulam evangélicas e são apenas caça-níqueis se afastaram do espírito da Reforma. Em vez de amor e fraternidade, um dos exemplares desses “evangélicos”, Marcelo Crivella (recém-eleito prefeito do Rio), que se autointitula bispo, atribui à Igreja Romana ações demoníacas.

Lutero condenava também a supercentralização de poderes nas mãos dos papas. O ano de 1517 é um marco decisivo, quando ele pregou, no dia 31 de outubro, à porta da igreja do Castelo de Wittenberg, suas famosas 95 teses questionando poderes papais e práticas religiosas. Como as comunicações eram lentas na época, o prepotente papa Leão 10º levou três anos para exigir uma retratação do reformador. Ele não o fez e ainda queimou o documento papal na praça. Como Leão não era nenhum Francisco, excomungou-o e o declarou herege. Uma de suas primeiras preocupações foi iniciar a tradução da Bíblia para a língua alemã tornando-a acessível ao povão.

Podemos resumir a doutrina luterana em alguns pontos, como salvação pela fé e não por obras (ponto em que luteranos e católicos romanos já começam a se entender); verdade somente na Bíblia; batismo e eucaristia são os únicos sacramentos; proibição do uso de imagens nas igrejas; uso do alemão nos cultos religiosos; fim do celibato dos padres; livre interpretação da Bíblia; extinção das ordens religiosas, entre outros. O reformador pretendia livrar a Igreja da política, mas terminou se aliando a príncipes alemães, o que desembocou nas guerras motivadas por religião em grande parte da Europa. A livre interpretação da Bíblia por cada fiel também desembocou em algo esdrúxulo como certas igrejas que se dizem “evangélicas” e têm pastores e até “bispos” que se agarram a alguns trechos avulsos das Sagradas Escrituras para justificar suas atitudes com uma livre interpretação.


Concluo dizendo que ver um papa comemorar a Reforma junto com luteranos é realmente uma reforma e tanto.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

GUSTAVO GUTIÉRREZ, TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO E COMUNIDADES


 por Juracy Andrade



Recordo hoje uma já um pouco velha entrevista do teólogo peruano Gustavo Gutiérrez, considerado, por seu pioneirismo, o pai da Teologia da Libertação (TL). Ela se centra em uma resposta: “A Teologia da Libertação morreu? Não me convidaram para o funeral”. De fato, papas como o polonês Wojtyla (João Paulo 2º) e o alemão Ratzinger (Bento 16), mais imperadores de Roma que pastores, não gostavam do que não entendiam, e não apreciavam que um pensamento nascido e elaborado fora de certo cristianismo eurocêntrico empolgasse boa parte do clero e leigos da América Latina. De tudo fizeram para que fosse esquecida e até vista como heresia. Felizmente, não dispunham mais da Inquisição e dos autos-de-fé.

Gutiérrez tinha sido convidado para a apresentação do livro Pobre e para os pobres, assinado pelo atual prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé Gerhard Ludwig Müller e que inclui textos do peruano. Já estávamos no pastorado do papa Francisco, que escreveu o prólogo da obra. No tempo de Wojtyla, quem dirigia essa congregação, herdeira da Inquisição e do Santo Ofício, era Ratzinger, guardião do que os conservadores chamam de ortodoxia. Quem o entrevistou foi Andrés Beltramo Álvarez para o site Vatican Insider.

Perguntado sobre como “se chegou a essa reconciliação”, Gutiérrez respondeu que essa palavra é um pouco forte para o que de fato aconteceu. Não houve uma clara determinação contrária, uma proibição. Os grandes problemas da TL foram com políticos e militares. Basta lembrar que militares do Canadá à Argentina e Chile se reuniram em Buenos Aires para tratar do perigo que representava essa teologia. Durante as ditaduras, centenas de pessoas foram assassinadas. Digo eu que, na verdade, a TL e seus formuladores chegaram a ser condenados pela Congregação para a Doutrina da Fé nos anos 1980. No Brasil, os principais expoentes da TL são (alguns já morreram) José Comblin, com seu livro Teologia da Revolução (1970), Leonardo Boff, com seu Jesus Cristo Libertador (1972), Rubem Alves (exilado nos EUA durante a ditadura); e fora do Brasil, Jon Sobrino, Leonidas Proaña e Juan Luis Segundo, entre outros. A TL tem forte apoio e aplicação nas comunidades eclesiais de base.

A outra pergunta, o teólogo peruano respondeu que atualmente há um clima de compreensão, o que desarma os que, sem nenhum fundamento cristão, desconfiam da TL ou a combatem. Houve uma conscientização de que se metem com toda a Igreja quando tratam da TL. Ele lembrou o caráter político da oposição à mesma ao afirmar que, em 1980, na campanha presidencial de Ronald Reagan nos EUA, muitas pessoas mais tarde designadas como embaixadores na América Latina emitiram um documento advertindo (como os militares acima referidos) que a TL consistia um grande perigo para a política exterior dos EUA.

A outra pergunta sobre a instrumentalização da TL, lembrou que tudo pode ser instrumentalizado, como aconteceu com a instrumentalização do cristianismo no apartheid da África do Sul. E recordou o martírio de cristãos ou não nas mais recentes ditaduras de nuestra Latinoamérica. Para ele, a mudança no leme do Vaticano é importante para o seu trabalho e a TL. Mas, sobretudo, é bom para os pobres da América Latina. O papa Francisco é decisivo, quando diz, por exemplo, que “dinheiro corrompido eu não quero. É dinheiro sujo”.

A TL é uma corrente teológica cristã nascida na América Latina depois do Concílio Vaticano 2º e da Conferência do Conselho Episcopal Latino-Americano ocorrida em Medellín (Colômbia), um e a outra nos anos 1960. Ela parte da premissa de que o Evangelho exige uma opção preferencial pelos pobres e, para se tornar concreta, deve se utilizar das ciências humanas e sociais.


PS – Rejane Menezes (IDHeC) nos lembra o evento Uma Nova Primavera na Igreja, que terá lugar nos auditórios da Unicap com entrada franca, dias 13 e 14 de outubro, sempre às 19h. A promoção é dos grupos Encontro da Partilha e Fé e Política Dom Helder Camara, com apoio do Instituto Humanitas da Unicap. Terá a participação de Leonardo Boff, Marcelo Barros e Vara Baroni. Quem puder, leve leite em pó, massa para mingau e roupinhas para crianças de 1 a 4 anos da comunidade de Dois Unidos. Mais informações: encontrodapartilha@gmail.com e grupofeepolitica@gmail.com

Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

VIVENDO COM O INIMIGO. VOLTAMOS AO PAPADO-IMPÉRIO?

por Juracy Andrade



O papa alemão Ratzinger, aquele que foi eleito tão rápido pelo conclave cardinalício que “não deu tempo nem de o Espírito Santo chegar” (como dizem algumas línguas ferinas), mantém um secretário que o acompanha desde que imperava no Vaticano, o bispo alemão Georg Gänswein. Tudo bem, eles se entendem e nem precisam se comunicar em italiano. A questão que se põe, sobretudo após o bispo abrir a boca para criticar Francisco, em entrevista a um jornal de sua terra, é que ele acumula as funções de prefeito da Casa Pontifícia, aquele que organiza a agenda papal, no pastorado do papa Bergoglio. Acredito que Francisco tentou manter uma ponte com o outrora grande inquisidor Bento 16.

O bispo Gänswein é modernoso, joga tênis, pratica esqui e é comparado, pelas socialites romanas, ao bonitão George Clooney de Hollywood. Subitamente, ele resolve criticar Francisco, junto ao qual exerce um cargo de confiança. Referindo-se à exortação apostólica de Francisco que tem o título de Amoris laetitia, muito criticada por católicos conservadores, ele afirma: “Quando um papa quer mudar alguma coisa na doutrina, então deve dizê-lo claramente, para que seja vinculativa”. Tece ainda considerações sobre a personalidade de Bergoglio ao dizer que aquilo em que o papa acredita leva até o fim, “sem escrúpulos”, e que ele é um pouco desrespeitoso em relação a seus antecessores.

Antes da entrevista ao jornal alemão (Schwäbische Zeitung), Gänswein já tentara emplacar um “ministério expandido” do papa emérito e do papa de fato. Ao que Francisco, até agora calado sobre a entrevista bombástica, respondeu reafirmando a clara distinção entre o demissionário e o efetivo. As atitudes contundentes de Gänswein talvez se liguem a alianças até agora obscuras. O fato é que muitos fiéis desabituados a pensar com autonomia, que Claudio Bernabucci descreve, em Carta Capital, como “órfãos de certezas dogmáticas e assustados com a imprevisibilidade deste papa”, se sentem representados pelo monsignore alemão. Na verdade, Francisco está diminuindo o “atraso de dois séculos” da Igreja, como falava o falecido cardeal Martini.

Como escreve o teólogo jesuíta Victor Codina, no site Religión Digital (26.05.16), “Francisco inaugurou um novo estilo de exercer o primado romano. Ele não é teólogo profissional e não impõe sua própria teologia, mas é sobretudo pastor, abriu as portas da Igreja para que saia às ruas e cheire a ovelha, que não exclua mas que acolha e seja sacramento de misericórdia [...]”.

PS – No último domingo (28), na igrejinha das Fronteiras, houve celebração eucarística em lembrança dos 17 anos do falecimento de Dom Helder. Estiveram presentes os peregrinos cearenses (ele era cearense) que vêm anualmente celebrar essa data.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

RENÚNCIA FORÇADA DO ARCEBISPO DA PARAÍBA, QUE ACOBERTAVA PEDÓFILOS, É UM ALÍVIO PARA A IGREJA DE CRISTO QUE SE RENOVA

 por Juracy Andrade


Finalmente, o extravagante arcebispo da Paraíba, dom Aldo di Cillo Pagotto, foi convencido pelo Vaticano a renunciar ao cargo que exercia, tolerado por papas que acreditavam proteger a Igreja ao acobertar clérigos que abusavam de menores. Na verdade, expunham a Igreja ao descrédito, escandalizavam os fiéis e escarneciam de crianças inocentes e adolescentes que não resistiam ao assédio de adultos doentes. Dom Aldo, desde a sua passagem pelo Ceará como bispo, era acusado de ao menos induzir menores a atenuar queixas contra seus algozes.

Além disso, fazia abertamente política partidária no púlpito, pregando contra as oposições ao governo provisório golpista. Vaidoso, se enfeitava todo para, acolitado por seus sequazes e todo embandeirado, participar das manifestações e marchas contra Dilma e a favor do golpista TEMERário.

Durante a ditadura de 1964 a 1985, padres e religiosos foram presos, torturados, mortos. Uns por militarem politicamente na luta armada. Mas havia a explicação de que o golpe fora dado pelas forças armadas, açuladas pela casa-grande, e foram elas que deram o primeiro passo para o que chamavam de terrorismo e subversão. É bom lembrar que teólogos da Idade Média defenderam a luta armada contra um tirano.

Outros daqueles religiosos vítimas da ditadura simplesmente pregavam e viviam o Evangelho, que não se coaduna com um golpe dado, sob a inspiração e com a ajuda dos EUA, para impedir uma maior conscientização e participação dos cidadãos na construção de uma sociedade justa, democrática, mais igualitária (era só isso que Jango queria e o pessoal mais à esquerda).

Nada parecido com as ações de dom Aldo Pagotto. Além do que já foi aqui lembrado, ele dificultava ao máximo o trabalho de padres que não se enquadravam em sua visão jurídica da Igreja, semelhante àquela visão que havia assolado a Igreja de Olinda e Recife nos tristes tempos de dom José Cardoso (oremos por este, que está aí vegetando sem saber o que faz). Padres que recebiam aluda financeira de países ricos tinham de entregar o dinheiro para dom Aldo fazer ninguém sabe o que. Talvez repassar a seus sequazes para comprarem bandeiras e enfeites para os atos anti-Dilma.

Felizmente o tempo foi passando e, por um descuido dos cardeais, elegeu-se um papa cristão como Francisco. Se não o tirarem do caminho, como fizeram com o brevíssimo papa João Paulo 1º, ele, como o Francisco de Assis, conseguirá fazer com a Igreja de Cristo como um todo o que o Poverello de Assis fez ao reconstruir a igrejinha da Porciuncula, que estava em ruínas na cidade dele. Amém! Aleluia! Além do mais, Francisco não acoberta pedófilos. Ao contrário, manda punir.

**************************************************************

Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia