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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

NATAL: E O VERBO SE FEZ CARNE...

 


  Maria Clara Lucchetti Bingemer


            Estamos em plena celebração do mistério do Natal, uma das festas máximas do Cristianismo e por que não dizer do Ocidente? Por toda parte e em todas as cidades do lado de cá do mundo há ruas enfeitadas, ornamentos festivos, músicas apropriadas tocando.  Por isso mesmo o agravamento da pandemia do novo coronavírus traz uma dor a mais: impedir ou restringir as alegres celebrações familiares com muitas pessoas.

As famílias numerosas terão que subdividir suas festas.  As menos numerosas se reunirão cheias de cuidados.  Crianças não poderão beijar, abraçar ou subir no colo dos avós. As manifestações de carinho serão coibidas em prol da saúde. Há que cuidar de toques, superfícies, gestos e, sobretudo, da proximidade.  Tudo para que não se espalhe ainda mais a Covid que já vem causando tantos estragos e ceifando um número considerável de vidas humanas. 

Talvez essas restrições nos ajudem a voltarmos os olhos para o centro do mistério que celebramos: a encarnação do Verbo de Deus.  Natal é a festa de Deus,  que não se aferrou a suas prerrogativas e se fez carne. Carne humana como a nossa, capaz de viver, suspirar, amar, sofrer, morrer.  Portanto, trata-se da festa da humanidade, do gênero humano, da espécie humana.  Embora Criador de tudo que existe, foi em um ser humano que o Verbo, o Filho de Deus tomou carne e habitou entre nós. 

O Natal nos convida a celebrar e alegrarmo-nos com nossa dignidade, que é grande, pois somos a única espécie criada capaz de conter o Salvador, de recebê-lo e com ele nos identificarmos. Foi com corporeidade semelhante à nossa que Jesus de Nazaré, o filho de Maria, conhecido como o filho do carpinteiro, andou pelo mundo e foi reconhecido por seus contemporâneos como alguém que estava em meio a eles, a quem viram crescer e aprender as coisas que os meninos aprendem: falar, andar, correr.  

Por isso, tantos se admiraram de que esse que viram pequeno e depois jovem, se haja manifestado a Israel anunciando a boa nova da chegada do Reino de Deus na sua pessoa.  Muitos creram nele e depois de sua morte o experimentaram vivo e ressuscitado, proclamando-o Senhor e Filho de Deus. 

Há mais de dois mil anos celebramos essa divina e humana festa.  Muitas vezes obscurecendo seu brilho com presentes excessivos e jantares suntuosos.  Este ano, as restrições nos dão uma oportunidade de contemplar mais de perto a inefável simplicidade que faz a grandiosidade infinita deste mistério: Deus se fez carne, assumiu a carne humana.  E fez do seu Natal a festa da humanidade. 

O Natal, embora seja evento divino, acontece na cotidianidade mais real e por isso mais terna: uma mulher grávida, uma família pobre tendo que se deslocar por força da lei de um tirano, um parto a termo, mas sem lugar apropriado para acontecer, o nascimento de uma criança que envolve dor, choro e maravilhamento.  Nasceu o menino de Maria, a quem ela pôs o nome de Jesus, no estábulo onde se aqueciam os animais porque não havia lugar em nenhuma das hospedarias da cidade.  Mas o menino nasceu e seu choro rompeu o silêncio da noite.  O milagre da vida aconteceu no estábulo de Belém, como acontece todos os dias nos caminhos, nas ruas, nos ônibus, nos trens, nas casas...e também nos hospitais desinfetados e limpos. Não deixa de ser milagre pelas circunstâncias em que acontece.  O milagre é a própria vida, tão frágil, mas ao mesmo tempo tão forte, capaz de vencer, acontecer e mudar a face da terra. 

E como esse nascimento muda a face da terra? A criança sendo limpa e acalentada por sua mãe ajudada pelo marido; o bebê sentindo fome e sendo levado ao seio túrgido de leite da mãe; a mulher dormindo exausta, mas feliz porque o que nascera de seu ventre era bendito, apesar da dor, da dificuldade e da pobreza.  Este é o mistério que se dá na história humana e a faz girar sobre seus gonzos. Esta é a luz invicta que brilhou para todo homem e mulher que já nasceu e nascerá sobre esta pobre e combalida terra. 

Diante dessa criança, dessa mulher, dessa família, a Igreja convida: “Vinde adoremos!” Não há nada de excessos nem de pompas.  Apenas um menino envolto em faixas deitado numa manjedoura.  Apenas a bela e comum experiência desta humanidade tão amada por Deus, que é criada à sua imagem e semelhança. Apenas a encarnação de Deus no ventre de uma jovem mulher. Apenas uma vida humana mostrando o caminho da salvação: ser humano, sempre mais, profundamente, alegremente.  Feliz Natal!

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros.

 

Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

CARTA DA NEOCRISTÃ QUE FEZ ABORTO



Frei Betto

 

       Estimado frade,

 

       Tenho 21 anos. Em 2009, com 9 anos de idade, fui submetida a um aborto. Eu tinha 1,35 e menos de 35 quilos. Segundo os médicos, caso a gravidez prosseguisse morreriam eu e o bebê. Agora soube que caso semelhante ocorreu no Espírito Santo. A menina tem 10 anos. 

       Nossas histórias têm muitas semelhanças. Tanto ela quanto eu fomos estupradas desde os 6 anos de idade. Ela pelo tio; eu, pelo padrasto. E nós duas tivemos uma infância amargada também pela pobreza. Eu não tinha pai, ela não tem mãe. E o pai dela se encontra na prisão. 

       Indefesas, fomos obrigadas a nos submeter por medo, muito medo. Isso destroçou nossas infâncias. Eu sentia ódio daquele homem que me violentava com frequência. E ele prometia castigar-me severamente caso eu revelasse o que fazia comigo. O medo paralisa, congela, entope a garganta. 

       Um dia, comecei a passar mal. Nem minha cabeça nem minha mente estava preparada para a maternidade. Fui levada ao hospital, onde o médico fez o aborto.

       A Igreja cristã excomungou toda a equipe médica e os nossos familiares, tanto no meu caso quanto no da menina capixaba. Em um país de tradição cristã como o Brasil, isso significa colocar sobre nossas costas mais uma cruz, a de uma mancha indelével. Por isso, cresci com raiva da Igreja: ela me abortou. 

       Bispos, padres e pastores nos condenaram sem condenarem a situação que nos levaram a tanto descalabro. Por que não condenam as causas da miséria? Nossos estupradores não teriam sido diferentes se tivessem tido escola e emprego? Nossas famílias não teriam cuidado melhor de nós, e nos oferecido uma infância sadia, se não tivessem sido injustamente empurradas para a miséria? Por que nos condenam e não a quem lamenta a ditadura não ter matado 30 mil? Nem a indiferença de quem poderia ter evitado a morte de mais de 100 mil pela Covid-19? Por que não condenam quem defende o linchamento de bandidos ou adota políticas econômicas que aprofundam a desigualdade social e alastram a miséria que sacrificam a infância de tantas crianças?

       É covardia condenar pessoas e fechar os olhos às circunstâncias. Alguém pode chegar ao cúmulo do cinismo de achar que, ao longo daqueles anos, sentimos prazer em ser estupradas sob surras e ameaças? 

       Deus, porém, é imprevisível. Há meses Ele entrou na minha vida. Sinto-me muito amada por Ele. Fui buscar na Bíblia como Jesus teria agido diante de nossos casos. Teria também nos apartado da comunhão com seus discípulos? 

       Agora leio os Evangelhos com frequência. Entre o que dizem a Igreja e alguns cristãos, e o proceder de Jesus, vejo que não há convergência. Por isso gostaria de ouvir a sua opinião. Não tenho conhecimentos de teologia, mas o amplo apoio que recebi após aquele sofrimento atroz me permitiu sair da miséria, estudar e desfrutar de uma vida digna.

       Narra o capítulo 4 do Evangelho de João que, um dia, Jesus encontrou uma mulher samaritana à beira do poço de Jacó. Ela teve cinco maridos e, agora, vivia com um sexto homem com quem não era casada. Se Jesus pensasse como esses bispos, padres e pastores que nos achincalharam ele teria evitado o contato com uma mulher tão promíscua. Teria feito um sermão moralista abominando tamanha rotatividade conjugal. Teria condenado a samaritana ao quinto dos infernos.

       Essa gente jamais teria percebido, como Jesus, que ela trazia no coração um buraco tão profundo que só mesmo Deus seria capaz de caber ali dentro. Foi o que ele fez: não a recriminou e ainda a elogiou por falar a verdade! E foi ela a primeira pessoa a quem ele se revelou como Messias. E ao retornar à cidade para anunciar que o havia encontrado, ela se tornou de fato a primeira apóstola.

       Jesus também não condenou a mulher adúltera. Ao contrário, fez os seus acusadores, de pedras nas mãos, admitirem que os pecados deles eram maiores que os dela. Jesus não condenou Madalena, que portava “sete espíritos maus”. Acolheu-a, fez dela discípula e a ela concedeu o mérito de ter sido a primeira testemunha da ressurreição. 

       Não sei se estou certa em meu modo de pensar. Por isso, escrevo ao senhor. Ainda preciso de misericórdia, no sentido etimológico do termo – de gente capaz de postar seu coração junto à miséria alheia.

       Deus o abençoe! 

       X.

  

 

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sexta-feira, 1 de março de 2019

NO CÉU JESUS SE FEZ MENINO DE 7 ANOS PARA BRINCAR COM O ARTHUR DE 7 ANOS





Por Leonardo Boff e Márcia Miranda

Querido amigo-irmão Lula
Queremos chorar junto com você pelo seu neto Arthur que Deus o quis junto de si.

Há mistérios que não podemos entender o que aumenta ainda mais o sofrimento.

Mas colocamos tudo nas mãos dAquele que tudo conhece e para o qual os nossos mistérios serão um dia uma surpreendente Revelação.
Lula, seu netinho Arthur, como todos nós, não vivemos para morrer.
Ele e todos nós, morremos para ressuscitar.
Para viver mais e melhor.
Seu neto Arthur está vivo brincando com o Deus que um dia em Jesus também foi criança de sete anos e que com o Arthur lá no céu volta a ser criança de novo para brincar com ele, rir junto, correr um atrás do outro, até se abraçarem como amiguinhos. Deus que é Mãe de ilimitada ternura e Pai de infinito carinho  o encherá de alegria como tinha com o pai Sandro e seu mãe Marlene e também com você, seu avô querido. E essa alegria será por toda a eternidade.
Embora longe, Márcia e eu estamos perto de você, também consternados, não contendo as lágrimas pela sua perda que não é definitiva porque o pequeno Arthur, inocente e puro, caiu nos braços do Deus-Mãe-e-Pai que agora o estão abraçando e beijando como você fazia com ele.
Receba nossas preces para que tenha força para passar por mais essa provação.
Com nosso carinho e forte abraço
Leonardo Boff e Márcia Miranda.
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PS. Enviei esta carta à juíza Carolina Lebbos:
Estimada Celine,
Peço que encaminhe para à juíza Carolina Lebbos esta minha petição
Cordialmente
Leonardo Boff
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À Meritíssima Juiza Dra. Carolina Lebbos
12a. Vara da Justiça Federal de Curitiba PR
Meritíssima Dra. Carolina Lebbos,
Há momentos na vida em que a tristeza se abate de forma terrível: quando um familiar, no caso, o neto do ex-Presidente Lula, Arthur, de apenas sete anos, foi ceifado pela meningite, como uma florzinha que mal estava se abrindo para o mundo. Sabemos do amor que o ex-Presidente Lula devotava aos netos e ao Arthur.
Peço-lhe, até em nome do Deus-misericórdia e do sentimento humanitário que sempre existe em cada um de nós, como presença indelével do Sagrado, que permita ao ex-Presidente Lula poder estar, a tempo, no velório de seu neto, Arthur, e poder chorar todas as lágrimas pela perda do menino tão querido.
Mais que as leis que nos regem socialmente, vale o que há de mais profundo em nós, sem o qual, a própria humanidade afundaria, no dizer do filósofo Hegel: a com-paixão e a solidariedade de uns para com os outros.  Bem sei que a Senhora, como mãe, entenderá, a partir do coração, este apelo e solicitação.
Agradeço-lhe de antemão por sua compreensão e senso humanitário.
Que nunca lhe falte o Espírito que tudo conduz e que dirige os passos de cada um de nós.
Cordialmente
Leonardo Boff


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

PEÇAMOS A DEUS QUE O PAPA FRANCISCO E SEUS SUCESSORES CONSERTEM A IGREJA, COMO SÃO FRANCISCO FEZ NA PORCIÚNCULA


  por Juracy Andrade


Como o direito canônico obriga os bispos a se aposentarem aos 75 anos, o papa Francisco, nestes últimos quatro anos, teve oportunidade de fazer uma grande quantidade de novas nomeações episcopais. Como ele evidentemente escolhe candidatos que compartilhem sua visão da Igreja, tipo Dom Helder, Dom José Maria Pires, Dom Paulo Evaristo e alguns outros, não estejam contaminados pelos descaminhos adotados por tantos papas-imperadores, pode-se esperar que a Igreja Romana vá retomando os caminhos dos apóstolos, descritos por exemplo no livro dos Atos dos Apóstolos. Mesmo porque ele também tem nomeado cardeais mais cristãos que os de antigamente. E são ainda os cardeais, e não representantes do episcopado mundial e do povo de Deus, que fazem a eleição de um novo papa.

Acredito que ele ou algum sucessor seu tomará a providência de acabar com essa excrescência imperial que é o Colégio Cardinalício, inventado por papas-imperadores para garantir a constante eleição, não de bispos de Roma, mas de senhores imperiais. Com o tempo, teremos uma Igreja renovada e retemperada no Evangelho de Jesus Cristo, o que tornará mais fácil, ou menos difícil, retomar o desejo de Cristo de que “todos sejam um” (oração antes da paixão). Grandes passos já foram dados em relação aos luteranos. Francisco ,inclusive, participou de comemoração do quinto centenário da Reforma. E aos anglicanos. O papa também se encontrou com um dos patriarcas da Igreja Ortodoxa, que há cerca de mil anos separou-se da Romana.

Sem dúvida muitos passos terão que ser dados por todas as igrejas que ainda se conservam cristãs. E a Igreja Romana já não proclama que são as outras confissões que têm de ceder às exigências de Roma. Progressivamente, acredito, dogmas como o da infalibilidade papal terão de ser revistos. Lembramos que foi um concílio de alguns bispos europeus (poucos), o Vaticano I, reunido às pressas em meio a convulsões bélicas e estreitamente pressionado pelo papa da época, que proclamou esse duvidoso dogma, logo contestado por inúmeras igrejas e inclusive por católicos.

Evidentemente, Francisco não poderá consertar sozinho e rapidamente tudo o que se fez de errado na Igreja de Cristo desde que o papa e os bispos resolveram, com raras exceções, se tornarem nobres de um Império Romano repaginado pelo imperador Constantino, que fez do cristianismo uma religião oficial. Todos, papa, bispos, imperador, ignorando solenemente palavras de Cristo como “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” ou “O meu reino não é deste mundo”.

Como em muitos outros casos, a Igreja passou a adotar costumes pagãos, além desse de religião oficial. Por exemplo: construção de templos, o que era ignorado pelos cristãos primitivos; um clero absolutamente segregado dos leigos; perseguição e morte aos que o establishment eclesiástico considerava hereges; a incrível instituição de uma Inquisição para condenar e queimar na fogueira do auto-de-fé hereges e cismáticos. Vamos orar e torcer para que Francisco ainda consiga avançar muito na retomada e renovação cristã. E que tenha sucessores que prossigam com o trabalho dele, certamente inspirado por Deus.



Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia