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terça-feira, 2 de maio de 2023

PALAVRAS DE PEDRO: Carta de Dom Pedro Casaldáliga

 



 

Camaradas do MST

Unimo-nos a todos os presentes para comemorar o trigésimo aniversário do MST e do décimo aniversário da Escola Nacional Florestan Fernandes.

Você faz uma lembrança, que é um gesto essencial para trilhar o caminho da história, assumiu de forma responsável e auto-crítica. Nós nos reunimos estes 30 anos de desafios do MST, vitórias, fracassos, testemunhas de tantos irmãos e irmãs que têm dado, com a experiência da vida cotidiana e com um gesto de "amor maior", um passo decisivo para a sociedade alternativa da qual nós sonhar.

É hora de pegar a bandeira de um MST apaixonado e na companhia de forças políticas, sociais e culturais que absorvem o conselho do sertão

Você sabe que o "essencial é a travessia."

Com uma esperança inabalável sabemos que são superados por uma causa invencível.

Eu peço para você, para todos os que estão no caminho, a bênção do Deus de Deus da Terra, de Vida e do Amor.

 

Pedro Casaldáliga, São Félix do Araguaia, 20 de janeiro de 2015

#Casaldàliga!

#PedroCasaldáligaPresente!

#PereCasaldàliga

#NãoQueremosGuerraQueremosPaz!

#euapoiooMST

#ReformaAgráriaJá

#VivaOMST

#TôComMST

quinta-feira, 3 de março de 2022

CARTA DE QUARESMA 2022



 

Queridos amigos e amigas,

 

Este ano a campanha de Quaresma será dedicada aos povos originários que habitam a Terra Indígena Yanomami (TIY), com cujos líderes mantenho contato. Em maio deste ano, completará 30 anos da sua homologação. Localizada entre Roraima e Amazonas, a TIY é a maior área destinada a povos indígenas no Brasil, com 9,6 milhões de hectares de floresta. 

 

Nela vivem 700 pessoas da etnia Ye'kwana e, aproximadamente, 26 mil indígenas da etnia Yanomami, distribuídos em 321 aldeias.

 

Os Yanomami são um dos maiores povos indígenas do planeta que ainda mantêm seu modo de vida tradicional. Constituem um conjunto cultural e linguístico composto por seis idiomas diferentes: Yanomam, Yanomami, Sanöma, Ninam, Yaroamë e Yanoma.

 

Este grupo de caçadores-agricultores é considerado povo de contato recente. O contato com a sociedade não indígena passou a ocorrer na segunda metade do século XX. E logo foram marcados por epidemias que dizimaram muitas comunidades. Entre 1974 e 1976, a abertura da Perimetral Norte impactou severamente os grupos que habitavam as margens dos rios Ajarani e Lobo D´Almada. Na década de 1980, o território Yanomami foi invadido por 40 mil garimpeiros, o que causou a morte de um grande número de indígenas e fortes impactos ambientais. 

 

Após a homologação da TIY, em 1992, e implementação de atendimento de saúde, houve crescimento populacional. Contudo, nos últimos anos há, novamente, invasão da TIY.

 

O Sistema de Monitoramento do Garimpo Ilegal na Terra Indígena Yanomami indica que, em 2020, o garimpo avançou 30% daquela área. Foi o ano em que se expandiu com maior intensidade. Entre janeiro e agosto de 2021, o crescimento das cicatrizes de garimpo na TIY foi de 694,61 ha, totalizando 2.933,95 ha destruídos. O acréscimo corresponde ao aumento de 31% em relação a dezembro de 2020, e supera o total observado durante todo o ano de 2020, que foi de aproximadamente 500 ha.

 

As lideranças indígenas relatam a degradação do meio ambiente, a poluição dos rios, a carência de alimentação, especialmente caça e peixes; o aumento do consumo de álcool e de drogas nas comunidades onde o garimpo é mais intenso; o aliciamento de lideranças; o crescimento de conflitos armados com os garimpeiros; o estupro e a prostituição de mulheres indígenas.

 

Estima-se que hajam mais de 20 mil garimpeiros atuando ilegalmente no TIY. Os Yanomami e Ye’kwana percebem mudanças entre os garimpeiros, que passaram a utilizar mais armamentos.

 

Em junho de 2020, dois Yanomami da comunidade Xaruna, região do Parima, foram assassinados por um grupo de garimpeiros armados.

 

Em fevereiro de 2021, um conflito na comunidade Helepe, no rio Uraricoera, resultou na morte de um garimpeiro a flechadas e ferimentos em um Yanomami.

 

Em maio de 2021, a comunidade Yakepraopë, região Palimiu, também situada no rio Uraricoera, foi atacada a tiros por garimpeiros fortemente armados, motivando a saída dos agentes de saúde. Um Yanomami foi ferido de raspão, e duas crianças morreram afogadas enquanto fugiam. Os ataques perduraram por mais de um mês, sem proteção do Estado.

Tais episódios trágicos evidenciam a fragilidade das comunidades em lidar com as frequentes invasões de garimpeiros. Soma-se a isso o total abandono da assistência a saúde dos povos indígenas. Em razão da presença de garimpeiros, em 2020 aumentou o número de casos de Covid-19 na TIY, apesar da Portaria nº 419, de 17 de março de 2020, da Funai, que estabelece medidas de prevenção à doença, e restringe a entrada no território apenas a atividades essenciais.

 

Em 2021, as infecções avançaram 250% entre os indígenas. Além disso, a malária explodiu em todo o território, ressurgiu inclusive em locais onde já tinha desaparecido, e foi a principal comorbidade associada aos óbitos por Covid-19.

As lideranças apontam e denunciam diversos casos de crianças desnutridas, especialmente em locais que sofrem com a exploração dos garimpos.

 

A Hutukara, fundada em 2004, é a associação da Terra Indígena Yanomami com maior reconhecimento, nacional e internacional, por sua atuação, principalmente devido à atuação de seu presidente, Davi Kopenawa Yanomami, na luta pela defesa dos direitos indígenas. Com os recursos desta Campanha de Quaresma, a associação apoiará as comunidades, e criará um fundo para enfrentar casos emergenciais, como os narrados acima.

 

Sua doação, ainda que de R$ 1, poderá favorecer a aquisição de cestas básicas, com alimentação adequada aos costumes alimentares dos povos que habitam a TIY; o envio de kits com ferramentas, materiais de pesca e outros utensílios industrializados, atualmente necessários para os Yanomami; além de apoiar ações de saúde, como o envio de testes rápidos para Covid e/ou malária, e atendimento a pacientes internados nos postos de saúde na TIY e/ou na Casa de Saúde do Índio, localizada em Boa Vista.

 

Os recursos eventualmente poderão ser aplicados também em viagens de lideranças tradicionais e/ou representantes das associações para denunciar casos de violência e desrespeito aos direitos humanos.

 

Conta bancária:

Hutukara Associação Yanomami 

Banco do Brasil

Agência: 2617-4

Conta corrente: 58.918-7

CNPJ: 07.615.695/0001-65

Chave aleatória PIX: 8b323044-0123-49e5-8938-03bdc8491277

EMAIL (caso queira recibo ou algum esclarecimento): hutukaraassociacaoyanomami@gmail.com


       Por favor, divulgue esta campanha nas redes sociais e entre seus familiares e amigos.

       Agradeço a sua solidariedade. Deus lhe pague.

       Meu abraço com amizade e paz

       Frei Betto

       (Livraria virtual: freibetto.org

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Carta ao querido Dom Helder Camara

 Prof. Martinho Condini

Caro Dom,


As pessoas dizem que não é bom dar parabéns antes da data do aniversário, acho isso uma  bobagem, por isso, começo essa carta te parabenizando por mais um aniversário na próxima segunda feira, dia 7 de fevereiro.

Dom, o senhor não imagina quanta falta o senhor está fazendo por aqui. O nosso Brasil de 2015 para cá entrou num processo de degradação, ignorância, reacionarismo, negacionismo e corrupção. Tudo começou com o golpe de 2016 e a instauração do governo golpista.  Mas as coisas pioraram ainda mais a partir de 2019 com a posse do Capetão Cloroquina Bolsonarento para presidente da república. É! Aquele mesmo que o senhor com todo o seu otimismo e esperançar me dizia que não venceria as eleições em 2018. Pois é, venceu e deu no que deu. O Brasil está derretendo e à beira do caos político, econômico e social.

Dom, tudo que o senhor possa imaginar de ruim o desgoverno do  Bolsonarento está fazendo em  prejuízo dos brasileiros e da nação brasileira.

Dom, na economia a inflação no Brasil já chegou a mais de 10%, muita gente passando fome, depois do Brasil ter saído do mapa da fome nos governos petistas de Lula e Dilma.

Dom, a importância da questão ambiental que o senhor já mencionava em suas conferências internacionais nos anos 60 e 70, aqui no Brasil degringolou de vez. Esse desgoverno liberou a exploração de minérios em terras indígenas e queimadas na Amazônia para favorecer o agronegócio inescrupuloso.

Dom, o desemprego está assustador, somado a precarização do trabalho após a reforma trabalhista aprovada pelo congresso golpista.

Dom, neste desgoverno não há investimento em educação e tecnologia, muito pelo contrário, a cortes brutais nos investimentos desses setores e todos os outros que estão ligados a políticas públicas que possam ser benéficos as camadas populares.

Dom, o senhor não vai acreditar, no programa desse desgoverno para educação, eles falam em “expurgar Paulo Freire da educação brasileira”. Daí dá para perceber o alto nível de estupidez e burrice desse desgoverno e daqueles que estão no comando do ministério da educação, começando pelo ministro.

Dom, na área da saúde quem se salva são o SUS, ANVISA, Instituto Butantã e Osvaldo Cruz e todas e todos os trabalhadores dessa área. Se dependesse do ministério da saúde para combater a pandemia estaríamos perdidos, como estivemos durante um bom período.  O ministério da saúde levou quase um ano para comprar vacina, resultado, mais de seiscentos mil mortos pela pandemia. E apesar desse número de mortos o desgoverno bolsonarento e o seu gado continuam negando a eficácia das vacinas.

Dom, todo início de ano a ONU faz um relatório muito detalhado de previsão de crescimento econômico com 180 países. Para este ano de 2022, o Brasil tem a segunda pior previsão de crescimento, ficando à frente apenas da Guiné Equatorial. O senhor percebe o quanto é grave a nossa situação. Com todo respeito à sua fé e religiosidade, nem rezando isso tem jeito, estando nas mãos dessa cambada de incompetentes, não tem reza, oração, despachos que tire o nosso país dessa condição tão desfavorável e desesperadora.   

Dom, a última estupidez cometida (virão muitas outras até o final desse desgoverno) pelo Bolsonarento foi a revogação de aproximadamente vinte e cinco decretos de luto oficial editados por ex-presidentes, dentre eles estavam o senhor e Miguel Arraes.  Mas em menos de 48 horas o decreto foi revogado devido aos protestos contrários a essa medida.

Dom, essas são algumas aberrações desse desgoverno irresponsável apoiado pela elite conservadora canalha, pela classe média ignorante e sem vergonha, pelos eternos vagabundos profissionais das forças armadas, pela elite branca judaico-cristã capitalista e pelos coitados dos pobres de direita.  

Dom, o senhor que sempre dialogou com todas as religiões, não vai acreditar, um dos grupos que dão sustentação a esse desgoverno Bolsonarento, é a ala extremista do movimento evangélico que se denominam Terrivelmente Evangélicos. São a favor da liberação de armas de fogo para população, são negacionistas, homofóbicos, e o pior, constituem uma bancada no congresso nacional para apoiar as propostas reacionárias advindas do executivo desatinado de Brasília.

Dom, mas diante de tantas notícias ruins e estupidas desse desgoverno, temos um alento.

Este ano vamos ter eleições para a presidência da república, e o seu conterrâneo nordestino, o Lula, lidera as pesquisas eleitorais, inclusive apontam que ele possa vencer no primeiro turno e se tornar presidente pela terceira vez. O senhor lembra muito bem como foi o governo Lula, principalmente para os pequeninos, como o senhor costumava chamar os mais vulneráveis em nossa sociedade. Eu me lembro de uma fala sua no período na ditadura, onde o senhor dizia “as coisas estão ruins, mas vai melhorar”. Hoje também as coisas estão muito ruins por aqui, mas há possibilidade de sem medo de ser feliz, sermos feliz de novo.

Sabe Dom, eu fico imaginando se o senhor estivesse aqui para fazer suas análises de conjuntura sempre tão precisas e propositivas, na condição de principal liderança da igreja católica progressista. Hoje faltam lideranças progressistas na igreja do quilate do senhor. 

Dom, vou falar uma coisa que o senhor não irá concordar devido a sua humildade, mas é a pura verdade, o Papa Francisco, é o Dom Helder argentino, que atualmente abrilhanta as relações humanas com sua sabedoria e lucidez, como o senhor fazia quando andarilhava mundo a fora, claro que ele não tem o seu carisma, coragem e nordestinidade tão peculiar.

Dom, o senhor e Francisco caminham pela mesma estrada, da justiça, dos direitos humanos e da busca permanente pela dignidade de todos os seres humanos do planeta.

Dom, vou me despedindo, porque o senhor está ocupado preparando a sua festa de aniversário. Eu sei que o senhor gosta muito de festa de aniversário, principalmente quando o seu aniversário cai no carnaval (que não é o caso deste ano), para que ela seja regada pelo gostoso, alegre e belo frevo da sua querida Recife.

Tenho certeza que será uma festa maravilhosa, com a presença de amigas e amigos muito queridos, como Padre Henrique, Da. Zezita, Ir. Vania, José Comblin, José De Broucker, Dom Lamartine, Dom José Maria Pires, Dom Paulo Evaristo Arns, Frei Carlos Josaph, Dom Pedro Casaldáliga, Miguel Arraes, Paulo Freire e outros grandes companheiros e companheiras de luta e resistência.   

Caro Dom, sua presença entre nós será eterna. Felicidades. Abraço fraterno.

 

*O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros ‘Dom Helder Camara um modelo de esperança’, ‘Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo’, ‘Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire’ e o DVD ‘ Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro ‘Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza’. Contato profcondini@g

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

CARTA COMPROMISSO DE LULA

 Frei Betto


 

       Candidato a presidente da República, Lula alerta que “chegou a hora de rompermos com a tradição de poder das elites brasileiras”. “Proponho-me a fazer do poder político um instrumento capaz de promover as profundas reformas exigidas pela nossa sociedade”. 

       Lula assume publicamente os compromissos de “fazer, da geração de empregos, a prioridade número um do meu governo; de livrar o Brasil da vergonha histórica de ser uma Nação ainda com legiões de famintos e flagelados, doentes e analfabetos, desempregados e humilhados, sobreviventes da dor; de acabar com a vergonha de termos uma infância abandonada e garantir a todas as crianças do Brasil um lugar assegurado em uma escola com qualidade; e fazer da saúde um dever do poder público.”

       Lula assume também “o compromisso de fazer uma verdadeira reforma agrária, desapropriando terras ociosas como determina a nossa Constituição e assentando as famílias sem terra”. Compromete-se ainda a tornar o Brasil “uma economia industrial forte, preservando as grandes empresas nacionais capazes de competir nos mercados globalizados e estimulando a micro, a pequena e a média empresas, que são as maiores geradoras de empregos”.

       O candidato petista garante que haverá de “implantar gradativamente um programa de renda mínima para que todos neste país tenham o direito de sobreviver com dignidade e partilhar da riqueza desta Nação”. E também assume o compromisso de “empenhar todos os meus esforços para acabar com a corrupção e a sonegação de impostos e, assim, transformar cada real arrecadado em benefícios sociais e investimentos de interesse público”. E assegura: “No meu governo, a luta contra a corrupção será um imperativo ético irrenunciável. A corrupção mina a democracia e degrada a política. Não permitirei a prática do `toma-lá-dá-cá´”. Garante ainda:  “combateremos a corrupção com todo vigor para acabar com a triste imagem do país da impunidade”.

       Lula promete que, se eleito, “as relações com o Congresso Nacional e os partidos políticos serão feitas à luz do dia, com respeito e sem fisiologismos”. E admite que “já passou da hora de resgatarmos o idealismo da nossa juventude, livrá-la do consumismo desenfreado e das drogas, da apatia e do desinteresse, despertando o melhor de suas energias culturais e espirituais”.

       Quanto à mulher, ele se compromete a “jogar todo o peso da lei na garantia dos direitos iguais para homens e mulheres”, como também declara que haverá de “defender o meio ambiente, preservar os recursos naturais da Amazônia, combater a poluição nas cidades, nos campos, nos rios, nos lagos e no mar”. Promete que, uma vez eleito, “vamos impedir a destruição de nossas florestas e defender os direitos dos povos indígenas, que são também filhos desta terra e aqui nos antecederam”.

       Lula quer “arrancar o Brasil da humilhante posição de campeão mundial de desigualdades sociais”. E assegura: “No meu governo, vou garantir a estabilidade monetária, mas também a estabilidade econômica e social. Serei o fiador de um novo contrato social com este país, que se fundamentará numa nova hegemonia democrática, capaz de efetivamente construir a Nação brasileira para todos os brasileiros. Uma Nação sem medo de ser feliz e com coragem para assumir o seu destino”. 

       Esta a síntese dos compromissos assumidos por Lula na campanha eleitoral para presidente da República, em 1998, tendo como vice Leonel Brizola. Fernando Henrique Cardoso foi reeleito presidente com 53,06% dos votos; Lula mereceu 31,71%; e Ciro Gomes, 10,97%.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

 

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sábado, 15 de janeiro de 2022

Carta ao Mestre Paulo Freire


 


Prof. Martinho Condini

Caro mestre Paulo Freire,

É com muita alegria que escrevo está carta para você, num ano tão importante da história brasileira.

Sabe Paulo, desde de 1997 até os nossos dias, aconteceram tantas coisas nesse Brasil. Eu quero te contar algumas que eu tenho certeza que você irá gostar de saber. E também para você entender porque  começo está carta falando  “num momento tão importante da história brasileira”.

Quero começar te contando que o Lula foi eleito presidente da república, o primeiro operário na história do Brasil a chegar ao poder. Você não acredita que bela cena, Lula subindo a rampa com a faixa presidencial e Brasília tomada pelo povo nas ruas. Foi emocionante. Você precisava estar aqui para ver. Isso ocorreu por duas vezes, em 2003 e 2007.

Paulo nesses oito anos do governo Lula, a qualidade de vida das pessoas mais necessitadas melhorou muito. O Brasil ficou com outra cara. Para você ter uma ideia, mais de trinta e seis milhões de brasileiros saíram da condição de miseráveis, a fome foi erradicada em nosso território e foram gerados mais de vinte milhões de empregos. O Brasil se tornou a sexta economia do mundo. E nos tornamos protagonistas em se tratando de política internacional. Um país soberano.

No âmbito da educação Paulo, foram construídas centenas de Institutos Federais e dezenas de Universidades Federais, como também criação de políticas públicas de incentivo ao ingresso de jovens as universidades. Nunca tivemos tantos jovens ingressando no ensino superior e tantos investimentos em educação, ciência e tecnologia. A economia nacional esteve muito bem neste período.

Nesta época Paulo, eu lecionava em cursos de licenciatura em instituições do ensino superior privado na cidade de São Paulo. Eu cansei de ouvir de alunas e alunos, que eles eram os primeiros da família a ingressarem na faculdade. Isso me enchia de orgulho, saber que eu estava contribuindo para esse estudante realizar o seu sonho e talvez o da sua família também.

E você sabe melhor do que eu que isso só é possível quando há vontade política, como você dizia “fora da práxis política, não há caminho”.

Paulo, o governo Lula foi satisfatório a todos os setores da sociedade. Tanto é que o seu governo colaborou para a eleição da primeira mulher eleita presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

Em seu primeiro mandato Paulo, as coisas andaram muito bem no governo Dilma. Mas no segundo, Dilma enfrentou algumas crises e uma intensa oposição do congresso nacional. Isso culminou num golpe que a retirou do poder em 2016.    

Bem Paulo, do golpe em diante as coisas no Brasil começaram a ir de mal a pior, os neoliberais e conservadores assumem o comando do país e as reformas como a trabalhista e previdenciária são aprovadas no congresso, e as camadas populares e trabalhadora foram as grandes prejudicadas, como sempre.

Paulo, sabe a Operação Lava-Jato que tinha como objetivo desvendar casos de corrupção? Então, tornou-se um aparelho de governo em perseguição ao ex-presidente Lula e ao Partido dos Trabalhadores.

Paulo, entre os anos de 2015 a 2018, uma forte oposição aos progressistas de esquerda e ao presidente Lula se intensificaram, com várias denúncias de corrupção, para que ele fosse impedido de concorrer à presidência em 2018. O que acabou ocorrendo.  O Lula na época liderava as pesquisas de intenção de voto. Posteriormente, Lula foi preso, ficou 580 dias na cadeia. Hoje ele está solto, foi inocentado das acusações pelo STF e lidera novamente as eleições desse ano para presidente. 

 Para você entender o contexto Paulo, desde de 2019, temos o pior  governo da nossa história.

 Por isso Paulo, esta será a mais importante eleição da história da nossa república, pelo simples fato de termos o pior presidente da história republicana, o seu nome é Jair Messias Bolsonaro, capitã da reserva do exército que eu costumo chamar de capetão.

Uma hora, com mais tempo, vou te escrever e contar todas as barbaridades que ele fez até hoje desde que assumiu o governo, é inacreditável. Mas quero te relatar nesta carta, pelo menos o que está escrito em seu plano de governo no que tange a educação. Lá eles dizem que farão uma revolução na educação começando por “expurgar Paulo Freire da educação brasileira”. Não fique aborrecido com isso, não, porque os que escreveram esse plano, nunca leram um livro seu, e se leram nada entenderam.  

Agora Paulo, em relação a você, quero te contar a boniteza que foram as comemorações do seu centenário. Elas começaram oficialmente em setembro de 2020 e terminaram em setembro de 2021, oficialmente. Neste um ano aconteceram muitas lives em sua homenagem, no Brasil e em vários outros países. Uma coisa eu posso lhe garantir, as lives eram ótimas e jamais faltou dialogicidade, amorosidade, criticidade e esperançar.  Paulo, o interessante é que através dessas lives descobrimos quantas pessoas estão reinventando Paulo Freire, isso mesmo, do jeito que você dizia “não quero que me copiem, mas que me reinventem”.   

Paulo no meio disso tudo aconteceu uma coisa muito legal, ligado ao seu nome e a sua pessoa, foi a criação da rede Café com Paulo Freire, idealizado por duas professoras gaúchas de Porto Alegre, Liana Borges e Ana Elisa Siqueira. O intuito era reunir pessoas para refletir sobre a práxis freirena e resgatar o seu legado, que vinha sendo solapado desde 2015.

Sabe Paulo, o resultado disso é que hoje a rede Café com Paulo Freire tem mais de trinta cafés no Brasil e três no exterior e a tendência é o surgimento de mais cafés. Quero dizer para você que tenho muito orgulho em ser curador do Café com Paulo Freire São Paulo junto com a professora Lilian Contreira. 

Paulo, antes de encerrar está carta, quero te dizer que sou professor a trinta e três anos, e sem sombra de dúvida você foi uma das mais importantes pessoas na minha formação como homem e educador. Se hoje sou o professor que sou, devo muito a você e ao seu legado. E todas as vezes que estou diante de meus alunos e alunas procuro atuar freireanamente e espero estar  conseguido cumprir essa tarefa até hoje.

Por isso Paulo, tenho muita gratidão pelos seus ensinamentos.

E que sigamos num esperançar transformador sem medo de ser feliz de novo.

Abraço fraterno, caro mestre Paulo Freire.   

 

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

 

 

sábado, 17 de abril de 2021

CARTA ABERTA À COMUNIDADE

 

Gente querida, diante da identidade e missão firmada, sempre chega também a 'bem-aventurada perseguição', portanto, os Programas da Comunidade Bremen (no canal Paz e Bem e no canal de Marcelo Barros) vem recebendo observações de que somos comunistas, e infiéis ao Evangelho.

Poderíamos não dar importância, mas sabemos também que há grupos organizados para esses ataques que, mesmo nos chegando como 'bem-aventurança da perseguição', nos convida à prudência e coragem diante da missão e vocação que nos conduz.

Sendo assim, consideramos um posicionamento público, declarando quem somos, a que viemos, ou seja, nossa identidade e missão. Não temos a intenção de acusar, citar ataques, mas de nos posicionarmos como Comunidade e nos responsabilizamos por nosso caminho de discipulado comum.

Segue, portanto a Carta Aberta à Comunidade, já aprovada na Comunidade Bremen - Comunidade Ecumênica de Espiritualidade Libertadora e que gostaríamos que fosse tornada pública. 

Caso apoie essa nossa iniciativa, ajuda-nos a divulgar essa comunicação?

 

CARTA ABERTA À COMUNIDADE

Recife, Páscoa de 2021



Cristo ressuscitou!


Volta para nós o seu olhar e faz que sejamos renovados pelo sentido de ressurreição e alcancemos graça, paz, saúde e felicidade na comunhão em Ti e na solidariedade ao nosso povo.

Desejamos com essa Carta confirmar nosso caminhar como Comunidade de irmãs e irmãos que sonham juntos com o Amor entre nós, nos guiando no agir, no falar, no viver cada dia, com cada situação presente e histórica.

Ao longo do ano de 2020 e início de 2021, a Comunidade Bremen, COMUNIDADE ECUMÊNICA DE ESPIRITUALIDADE LIBERTADORA, se sentiu convocada a viver uma profunda comunhão de vida e de missão. Esse chamado nos chegou de muitos cantos e recantos de nosso chão comum: veio do chão do Cristianismo, do chão dos povos originários, das comunidades quilombolas; das agriculturas familiares; das periferias dos grandes centros urbanos; veio dos empobrecidos sem teto, sem alimento, sem educação, sem saúde pública, sem condições mínimas de vida digna; veio dos saberes artesanais, técnicos, sociais e espirituais de comunidades não reconhecidas ou invisibilizadas que vivem a comunhão em todas as circunstâncias; veio da espiritualidade libertadora presente em muitas expressões religiosas e não religiosas.



Como Comunidade respondemos: Sim, aqui estamos! E a cada dia, nos colocamos nessa disposição, como caminhantes que aprendem juntos, como discípulas e discípulos que seguem o Mestre que veio fazer morada e viver conosco, assumindo com sua própria vida, a vida de cada pessoa – sem distinção de gênero, etnia, religião -, e a vida da Mãe Terra e todas as criaturas.

Neste longo período de pandemia, que poderíamos chamar de grande quaresma da humanidade, nosso discernimento cotidiano nos convoca a gestos concretos de solidariedade, a reflexões a partir da fé cristã em diálogo com a espiritualidade macro ecumênica libertadora e com as grandes questões éticas que atingem pequenas e grandes comunidades em nosso país.

Esse é o chamado que ouvimos, o clamor que vem do povo. Esse é o chamado que ouvimos de nossa Mãe Terra, clamando por vida em plenitude. É vocação pessoal e comunitária na direção do Reino que já se faz presente aqui através dos gestos concretos de solidariedade, justiça, profecia, compromisso político, paz e saúde. É vocação pessoal e comunitária que se faz presença nas lutas sociais cotidianas, especialmente do povo trabalhador e também que sofre por um não-lugar no campo do trabalho digno.

Como é próprio de cada tempo – e mesmo Jesus não foi compreendido em seu contexto social, histórico e religioso -, temos nos deparado com críticas ao nosso jeito de responder aos muitos chamados por vida digna para todos os seres humanos e toda a natureza. Compreendemos que há muitas visões de mundo, pois estamos diante da pluralidade em todas as suas formas, de pensar, agir e viver a fé. Respeitamos as diferenças e nos colocamos à disposição para diálogos com base na fraternidade e na compreensão mútua. Contudo, muitas vezes, as críticas não vêm acompanhadas dessa atitude de escuta e diálogo mútuos.

Afirmamos nosso compromisso com o diálogo como postura fundamental, que supõe abertura e confiança entre identidades e pertenças diferenciadas.

Afirmamos nosso compromisso ético com a vida digna para todas e todos, pelo respeito à diversidade de crenças, gêneros e etnias.

Afirmamos que somos comunidade a caminho, como aprendizes, guiados pelo Amor e pelo sopro divino.

Afirmamos nosso compromisso com o mestre Jesus, com o conteúdo histórico político de sua Boa Nova, com a libertação de tudo que compromete a dignidade do ser humano e da mãe Terra, como a semeadura diária que cria condições para que a ressurreição seja plena.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

CARTA DA NEOCRISTÃ QUE FEZ ABORTO



Frei Betto

 

       Estimado frade,

 

       Tenho 21 anos. Em 2009, com 9 anos de idade, fui submetida a um aborto. Eu tinha 1,35 e menos de 35 quilos. Segundo os médicos, caso a gravidez prosseguisse morreriam eu e o bebê. Agora soube que caso semelhante ocorreu no Espírito Santo. A menina tem 10 anos. 

       Nossas histórias têm muitas semelhanças. Tanto ela quanto eu fomos estupradas desde os 6 anos de idade. Ela pelo tio; eu, pelo padrasto. E nós duas tivemos uma infância amargada também pela pobreza. Eu não tinha pai, ela não tem mãe. E o pai dela se encontra na prisão. 

       Indefesas, fomos obrigadas a nos submeter por medo, muito medo. Isso destroçou nossas infâncias. Eu sentia ódio daquele homem que me violentava com frequência. E ele prometia castigar-me severamente caso eu revelasse o que fazia comigo. O medo paralisa, congela, entope a garganta. 

       Um dia, comecei a passar mal. Nem minha cabeça nem minha mente estava preparada para a maternidade. Fui levada ao hospital, onde o médico fez o aborto.

       A Igreja cristã excomungou toda a equipe médica e os nossos familiares, tanto no meu caso quanto no da menina capixaba. Em um país de tradição cristã como o Brasil, isso significa colocar sobre nossas costas mais uma cruz, a de uma mancha indelével. Por isso, cresci com raiva da Igreja: ela me abortou. 

       Bispos, padres e pastores nos condenaram sem condenarem a situação que nos levaram a tanto descalabro. Por que não condenam as causas da miséria? Nossos estupradores não teriam sido diferentes se tivessem tido escola e emprego? Nossas famílias não teriam cuidado melhor de nós, e nos oferecido uma infância sadia, se não tivessem sido injustamente empurradas para a miséria? Por que nos condenam e não a quem lamenta a ditadura não ter matado 30 mil? Nem a indiferença de quem poderia ter evitado a morte de mais de 100 mil pela Covid-19? Por que não condenam quem defende o linchamento de bandidos ou adota políticas econômicas que aprofundam a desigualdade social e alastram a miséria que sacrificam a infância de tantas crianças?

       É covardia condenar pessoas e fechar os olhos às circunstâncias. Alguém pode chegar ao cúmulo do cinismo de achar que, ao longo daqueles anos, sentimos prazer em ser estupradas sob surras e ameaças? 

       Deus, porém, é imprevisível. Há meses Ele entrou na minha vida. Sinto-me muito amada por Ele. Fui buscar na Bíblia como Jesus teria agido diante de nossos casos. Teria também nos apartado da comunhão com seus discípulos? 

       Agora leio os Evangelhos com frequência. Entre o que dizem a Igreja e alguns cristãos, e o proceder de Jesus, vejo que não há convergência. Por isso gostaria de ouvir a sua opinião. Não tenho conhecimentos de teologia, mas o amplo apoio que recebi após aquele sofrimento atroz me permitiu sair da miséria, estudar e desfrutar de uma vida digna.

       Narra o capítulo 4 do Evangelho de João que, um dia, Jesus encontrou uma mulher samaritana à beira do poço de Jacó. Ela teve cinco maridos e, agora, vivia com um sexto homem com quem não era casada. Se Jesus pensasse como esses bispos, padres e pastores que nos achincalharam ele teria evitado o contato com uma mulher tão promíscua. Teria feito um sermão moralista abominando tamanha rotatividade conjugal. Teria condenado a samaritana ao quinto dos infernos.

       Essa gente jamais teria percebido, como Jesus, que ela trazia no coração um buraco tão profundo que só mesmo Deus seria capaz de caber ali dentro. Foi o que ele fez: não a recriminou e ainda a elogiou por falar a verdade! E foi ela a primeira pessoa a quem ele se revelou como Messias. E ao retornar à cidade para anunciar que o havia encontrado, ela se tornou de fato a primeira apóstola.

       Jesus também não condenou a mulher adúltera. Ao contrário, fez os seus acusadores, de pedras nas mãos, admitirem que os pecados deles eram maiores que os dela. Jesus não condenou Madalena, que portava “sete espíritos maus”. Acolheu-a, fez dela discípula e a ela concedeu o mérito de ter sido a primeira testemunha da ressurreição. 

       Não sei se estou certa em meu modo de pensar. Por isso, escrevo ao senhor. Ainda preciso de misericórdia, no sentido etimológico do termo – de gente capaz de postar seu coração junto à miséria alheia.

       Deus o abençoe! 

       X.

  

 

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quarta-feira, 6 de março de 2019

CARTA ABERTA A EDUARDO BOLSONARO




Caro Eduardo,

Se aqui o trato desta maneira direta, é que sou bem mais velho que você. Tenho 88 anos e você apenas 35. Para mim, você é um jovem e suponho que isso me dê o direito de falar com simplicidade, mas sempre com respeito.

Digo de início que não gosto dos insultos que lhe são dirigidos, embora compreenda que são reações diante do modo ofensivo com que você se referiu, por exemplo, ao Ex-Presidente Lula, por ocasião do falecimento de seu pequeno neto Arthur.

Em segundo lugar não ignoro que você, aos 35 anos, alcançou importantes conquistas em sua vida. Foi reeleito Deputado Federal com exatos 1.843.735 votos, conforme vejo na Google. Um número impressionante, o maior já alcançado por um candidato a Deputado Federal na história do Brasil. Consulto seu currículo e descubro outros episódios que o honram: formado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em 2008, membro da Ordem dos Advogados, escrivão da Polícia Federal no Rio por meio de Concurso Público. Em 14/02/2016 você apoiou o Projeto Anticorrupção, que na época alcançara mais de dois milhões de adesões e no Governo Temer se declarou a favor do PEC do teto dos gastos públicos.

Ao lago desses merecidos pontos de seu currículo aparecem dados mais questionáveis: em 24/5/2016, você apoiou uma lei que criminaliza o comunismo ao equipará-lo ao nazismo. Como comento adiante, penso que você avança aqui em terreno movediço, o que merece um questionamento por parte de alguém formado em Direito e que, por conseguinte, deve ter também conhecimentos na área da filosofia.

Sim, queria falar com você acerca de filosofia. Posso? O que me inquieta em suas falas públicas, Eduardo Bolsonaro, é a facilidade com que você enuncia afirmações sem justificá-las. Aqui estamos diante de uma questão filosófica da maior importância. Você pode me acompanhar por alguns minutos para dizer algumas palavras sobre esse ponto?

Uma questão primária da filosofia diz respeito ao conhecimento humano. De que modo nós humanos chegamos a conhecer algo? A resposta secular, dada pela filosofia, é a seguinte: conhecemos por meio da informação, seja direta, por meio dos cinco sentidos, seja indireta, por falas, escritos ou imagens. As informações diretas, físicas, geram diretamente a evidência. Ou seja, o melhor meio de adquirir conhecimento consiste na observação atenta das coisas, por meio de nossos cinco sentidos.

As informações indiretas, ou seja, aquelas que nos vêm por meio de falas, escritos ou imagens, são mais problemáticas. Aqui estamos diante de uma questão em cima da qual os filósofos se debruçam desde séculos. O que eles dizem pode ser resumido nas seguintes palavras: o perigo das informações indiretas consiste no fato que nelas costumam penetrar imperativos não éticos, embora comumente revestidos de moralidade, ou seja, de normas vigentes. Nas informações indiretas costumam penetrar interesses pessoais, vantagens financeiras, lutas pelo poder, exercício do poder, obediência a ordens dadas, compromissos de vida já assumidos, opções por modelos autoritários, ou simplesmente acomodação com situações injustas existentes. Na maioria dos casos, esses discursos só aparentemente são enunciativos. Na realidade são camuflagens. Escondem a real intencionalidade de sua enunciação. Discursos aparentemente designativos podem ocultar o que se pretende efetivamente ao enunciá-los: emitir uma ordem, expressar um desejo, uma exortação, um projeto, um cálculo, etc. São discursos que contêm intencionalidades não confessas. Intentam exercer domínio sobre as mentes humanas, com a finalidade de fazer passar determinados posicionamentos, formar consensos, enfim, enganar as pessoas.

Você, que entrou em arena política, deve saber, meu caro, que a maioria dos discursos enunciativos, hoje emitidos por poderes políticos e econômicos, serve para justificar imperativos nem sempre éticos. Cria-se uma situação dramática, que podemos observar a cada dia. As pessoas, teleguiadas pelos grandes meios de comunicação (TV, internet em geral, twitter em particular) acabam se metendo num labirinto de palavras tão intricado e aparentemente desconexo, que elas não encontram mais a saída, de tão confusas e desorientadas que ficam, tão desacostumadas a refletir. Acostumadas a entregar sua inteligência a noticiários da TV, manchetes de revistas e jornais, mensagens no twitter, não conseguem escapar ao bombardeio diário de Fake News. Correm para lá e para cá que nem baratas tontas.

É verdade: podemos verificar que, aos poucos, embora de modo pouco visível, a humanidade está criando anticorpos contra discursos mentirosos, assim como ela, ao longo dos milênios, criou anticorpos contra outras ameaças à sua vida neste planeta. Hoje, uma frase como ‘Fulano é comunista’ não soa mais como cinquenta anos atrás. As pessoas se tornam menos ingênuas. Mesmo assim o processo é lento e merece especial atenção por parte de políticos. Pois os perigos que a população corre por causa de uma cognição pervertida não podem ser negligenciados. Quem contempla o atual cenário político, verifica com espanto quão facilmente, malgrado certo progresso na cultura da dúvida, as pessoas ainda se deixam prender nas redes de discursos enganosos. As palavras de Maquiavelli, do século XVII, não são de todo superadas. As pessoas, em geral, ainda costumam ficar passivas e até indefesas (Machiavelli fala mesmo em ‘disponíveis’) diante de enunciados emanados de fontes que lhes parecem confiáveis. Voltaire ainda acrescentou: ‘mintam, mintam sempre: algo há de ficar’. E Goebbels, ministro da informação do governo de Hitler, completou: ‘uma mentira repetida mil vezes se torna verdade’.

É nesse sentido que um dos analistas políticos mais argutos de nossos dias, o americano Noam Chomsky, nos propõe um exercício contínuo e até automático de ‘dúvida’ e de limpeza da mente. Pois os perigos de estrago irremediável na mente humana são grandes. Hoje, só quem não se conhece a si mesmo é capaz de se declarar imune à influência deletéria do atual sistema mundial de comunicação. Enfim, nossa única defesa reside em exercer nosso cérebro na arte da dúvida, se possível for de modo automático. Isso também se aprende. No momento em que assisto ao noticiário da TV, mantenho meu sistema de defesa ativado. Duvido de tudo que se diz no tubo, até ter elementos para julgar que a informação procede e merece confiança. Fico alguns momentos em silêncio para verificar o eventual valor de uma mensagem recebida. Exercício nada fácil, pois a proliferação de ‘Fake News’ veio para ficar e se desenvolver sempre mais, já que repousa sobre uma tecnologia em pleno desenvolvimento, que ainda não revelou todas as suas potencialidades. Vivemos em sociedades cada vez mais ‘informáticas’, onde não só enormes conglomerados informativos derramam sobre nós diariamente um fluxo ininterrupto de informações e afirmações duvidosas, mas onde já é possível que cada um(a) de nós emita, por sua vez, informações e afirmações, a seu bel prazer.

Permita-me escrever algo mais, Eduardo. Você é jovem, mas mesmo assim já deve ter experimentado que o corpo recomenda insistentemente a humildade. As lições do corpo podem passar despercebidas por quem é jovem. Você sabe que o poder costuma inflar o Ego, e que um Ego inflado costuma negligenciar as lições do corpo. Por isso, a sabedoria recomenda ouvir os sinais do corpo. Aparece uma doença, uma fragilidade, um acidente, um imprevisto, uma contestação. Sempre acontece algo. Nessas horas, a humildade é preciosa. Ela nada mais é que a simples verdade do corpo. O corpo nos torna humildes. A humildade das coisas inacabadas, inconclusas, imperfeitas, interrompidas, por vezes inadequadas e inconvenientes, que compõem a condição humana. A humildade, só ela, nos faz conhecer a nós mesmos e fugir das ilusões de grandeza e prepotência. O aspecto mais emocionante de determinadas personalidades com as quais me foi concedido conviver, é a humildade. Quando pessoas dotadas de talentos excepcionais no plano da organização, articulação política, oratória, literatura, poesia ou comunicação, das quais se poderia esperar uma forte carga de auto-afirmação, um Ego bem inflado, se demonstram humildes, aí elas emocionam e convencem. Só os humildes fazem história. Os demais só fazem barulho.

Se você me acompanha até aqui, eu acrescentaria que sua ‘redenção’ pode vir de uma mulher que o ame, de um colega que o apoie, de um mestre que lhe mostre o caminho, enfim, de alguém que lhe convença que não adianta ser tão ansioso, tão auto-destrutivo. Alguém que se apresente bondoso, gentil, amoroso. Uma personalidade conciliadora, que cultive um verdadeiro amor pela humanidade, pratique o perdão universal e cujas dúvidas, insuperáveis e inevitáveis, se encontrem resolvidas pelo compromisso em fazer o bem.

Na vã perspectiva de que você venha a ler o que escrevo aqui, termino com um conselho final. Leia com atenção, meu caro, o texto-roteiro que a vitoriosa Escola de Samba do Salgueiro divulgou antes de se apresentar no Sambódromo do Sapucaí, no passado dia 4 de março: Ao dizer que o Brasil foi descoberto e não dominado e saqueado; ao dar contorno heroico aos feitos que, na realidade, roubaram o protagonismo do povo brasileiro; ao selecionar heróis 'dignos' de serem eternizados em forma de estátuas; ao propagar o mito do povo pacífico, ensinando que as conquistas são fruto da concessão de uma 'princesa' e não do resultado de muitas lutas, conta-se uma história na qual as páginas escolhidas o ninam na infância para que, quando gente grande, você continue em sono profundo.

Aí tudo vai dito.

Salvador, 07/03/2019,

Eduardo Hoornaert.