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sábado, 15 de janeiro de 2022

Carta ao Mestre Paulo Freire


 


Prof. Martinho Condini

Caro mestre Paulo Freire,

É com muita alegria que escrevo está carta para você, num ano tão importante da história brasileira.

Sabe Paulo, desde de 1997 até os nossos dias, aconteceram tantas coisas nesse Brasil. Eu quero te contar algumas que eu tenho certeza que você irá gostar de saber. E também para você entender porque  começo está carta falando  “num momento tão importante da história brasileira”.

Quero começar te contando que o Lula foi eleito presidente da república, o primeiro operário na história do Brasil a chegar ao poder. Você não acredita que bela cena, Lula subindo a rampa com a faixa presidencial e Brasília tomada pelo povo nas ruas. Foi emocionante. Você precisava estar aqui para ver. Isso ocorreu por duas vezes, em 2003 e 2007.

Paulo nesses oito anos do governo Lula, a qualidade de vida das pessoas mais necessitadas melhorou muito. O Brasil ficou com outra cara. Para você ter uma ideia, mais de trinta e seis milhões de brasileiros saíram da condição de miseráveis, a fome foi erradicada em nosso território e foram gerados mais de vinte milhões de empregos. O Brasil se tornou a sexta economia do mundo. E nos tornamos protagonistas em se tratando de política internacional. Um país soberano.

No âmbito da educação Paulo, foram construídas centenas de Institutos Federais e dezenas de Universidades Federais, como também criação de políticas públicas de incentivo ao ingresso de jovens as universidades. Nunca tivemos tantos jovens ingressando no ensino superior e tantos investimentos em educação, ciência e tecnologia. A economia nacional esteve muito bem neste período.

Nesta época Paulo, eu lecionava em cursos de licenciatura em instituições do ensino superior privado na cidade de São Paulo. Eu cansei de ouvir de alunas e alunos, que eles eram os primeiros da família a ingressarem na faculdade. Isso me enchia de orgulho, saber que eu estava contribuindo para esse estudante realizar o seu sonho e talvez o da sua família também.

E você sabe melhor do que eu que isso só é possível quando há vontade política, como você dizia “fora da práxis política, não há caminho”.

Paulo, o governo Lula foi satisfatório a todos os setores da sociedade. Tanto é que o seu governo colaborou para a eleição da primeira mulher eleita presidente do Brasil, Dilma Rousseff.

Em seu primeiro mandato Paulo, as coisas andaram muito bem no governo Dilma. Mas no segundo, Dilma enfrentou algumas crises e uma intensa oposição do congresso nacional. Isso culminou num golpe que a retirou do poder em 2016.    

Bem Paulo, do golpe em diante as coisas no Brasil começaram a ir de mal a pior, os neoliberais e conservadores assumem o comando do país e as reformas como a trabalhista e previdenciária são aprovadas no congresso, e as camadas populares e trabalhadora foram as grandes prejudicadas, como sempre.

Paulo, sabe a Operação Lava-Jato que tinha como objetivo desvendar casos de corrupção? Então, tornou-se um aparelho de governo em perseguição ao ex-presidente Lula e ao Partido dos Trabalhadores.

Paulo, entre os anos de 2015 a 2018, uma forte oposição aos progressistas de esquerda e ao presidente Lula se intensificaram, com várias denúncias de corrupção, para que ele fosse impedido de concorrer à presidência em 2018. O que acabou ocorrendo.  O Lula na época liderava as pesquisas de intenção de voto. Posteriormente, Lula foi preso, ficou 580 dias na cadeia. Hoje ele está solto, foi inocentado das acusações pelo STF e lidera novamente as eleições desse ano para presidente. 

 Para você entender o contexto Paulo, desde de 2019, temos o pior  governo da nossa história.

 Por isso Paulo, esta será a mais importante eleição da história da nossa república, pelo simples fato de termos o pior presidente da história republicana, o seu nome é Jair Messias Bolsonaro, capitã da reserva do exército que eu costumo chamar de capetão.

Uma hora, com mais tempo, vou te escrever e contar todas as barbaridades que ele fez até hoje desde que assumiu o governo, é inacreditável. Mas quero te relatar nesta carta, pelo menos o que está escrito em seu plano de governo no que tange a educação. Lá eles dizem que farão uma revolução na educação começando por “expurgar Paulo Freire da educação brasileira”. Não fique aborrecido com isso, não, porque os que escreveram esse plano, nunca leram um livro seu, e se leram nada entenderam.  

Agora Paulo, em relação a você, quero te contar a boniteza que foram as comemorações do seu centenário. Elas começaram oficialmente em setembro de 2020 e terminaram em setembro de 2021, oficialmente. Neste um ano aconteceram muitas lives em sua homenagem, no Brasil e em vários outros países. Uma coisa eu posso lhe garantir, as lives eram ótimas e jamais faltou dialogicidade, amorosidade, criticidade e esperançar.  Paulo, o interessante é que através dessas lives descobrimos quantas pessoas estão reinventando Paulo Freire, isso mesmo, do jeito que você dizia “não quero que me copiem, mas que me reinventem”.   

Paulo no meio disso tudo aconteceu uma coisa muito legal, ligado ao seu nome e a sua pessoa, foi a criação da rede Café com Paulo Freire, idealizado por duas professoras gaúchas de Porto Alegre, Liana Borges e Ana Elisa Siqueira. O intuito era reunir pessoas para refletir sobre a práxis freirena e resgatar o seu legado, que vinha sendo solapado desde 2015.

Sabe Paulo, o resultado disso é que hoje a rede Café com Paulo Freire tem mais de trinta cafés no Brasil e três no exterior e a tendência é o surgimento de mais cafés. Quero dizer para você que tenho muito orgulho em ser curador do Café com Paulo Freire São Paulo junto com a professora Lilian Contreira. 

Paulo, antes de encerrar está carta, quero te dizer que sou professor a trinta e três anos, e sem sombra de dúvida você foi uma das mais importantes pessoas na minha formação como homem e educador. Se hoje sou o professor que sou, devo muito a você e ao seu legado. E todas as vezes que estou diante de meus alunos e alunas procuro atuar freireanamente e espero estar  conseguido cumprir essa tarefa até hoje.

Por isso Paulo, tenho muita gratidão pelos seus ensinamentos.

E que sigamos num esperançar transformador sem medo de ser feliz de novo.

Abraço fraterno, caro mestre Paulo Freire.   

 

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

 

 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

O DIA DO MESTRE E A MATANÇA DOS INOCENTES


Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            O estado da educação brasileira é tão lamentável que nem dá ânimo de comemorar o Dia do Mestre, em 15 de outubro.  Este profissional, que deveria ser o mais valorizado entre todos por ser quem forma as novas gerações e com isso poder fazer de um país uma nação e um povo com projeto de futuro, encontra-se hoje em estado de absoluta frustração. 
            Vemos universidades fechando, docentes sem receber salários há quase um ano, reitores cometendo suicídio por culpa de uma Justiça abusiva e inconsciente. Sem falar no ensino fundamental.  Escolas sem professor, professores que devem ter cinco a seis matrículas para poder viver de seu trabalho.  Estudantes desanimam e desistem de seus projetos e seus sonhos por acreditarem que, na verdade, o que importa é correr atrás do dinheiro em profissões talvez não tão nobres, porém mais lucrativas do que o ensino. Ou então preferem embarcar em outras viagens mais imediatas e perigosas (mas excitantes) do que a grande aventura do conhecimento. 
            De repente - e surpreendentemente -  uma tragédia sem parâmetro, absurda em sua infinita crueldade, rasga o horizonte e nos diz que nem tudo está perdido.  Janaúba, pequena cidade de Minas Gerais, e a creche municipal Gente Inocente foram o cenário dessa tragédia e também dessa esperança.  Ali o vigia noturno Damião Soares Santos, um homem solitário de 50 anos, que durante o dia fabricava e vendia picolés para completar a renda, derramou um dos galões de álcool que usava para acelerar o congelamento dos sorvetes sobre as crianças, queimando-as vivas.  
            Foi no pátio da creche, onde várias crianças se encontravam, que Damião deu início a seu macabro ritual. A “gente inocente” que ali brincava e se educava, acompanhada por professoras e pedagogas, foi transformada em labaredas vivas. Mas no meio do caminho havia uma professora: Helley de Abreu Silva Batista.  Jovem mulher, mãe de três filhos sendo o menor de um ano. Ao ver o que acontecia, entrou em luta corporal com o assassino para impedir que levasse avante seu gesto tresloucado e fatal. 
            Lutou em desigualdade de condições e forças, mas fortalecida por sua determinação de fazer tudo para salvar aqueles pequenos a ela confiados. Damião acabou ateando fogo a seu próprio corpo e morreu junto com suas vítimas.  Helley não conseguiu salvar todos, mas vários não morreram devido à sua intervenção.  Ela passou um a um pela janela de volta à vida. Porém, a ela mesma não pôde salvar-se.  Sua entrada corajosa no meio das chamas para dali retirar as crianças a fez sofrer queimaduras em 90% do corpo.  Levada para o hospital, não resistiu e morreu. 
            Todos os testemunhos sobre sua pessoa são unânimes em afirmar que era apaixonada pelo que fazia. Sempre preocupada em promover novas formas de ensino, para que os alunos tivessem melhor desempenho no aprendizado.  Uma de suas principais preocupações era a inclusão de alunos com algum tipo de deficiência, área em que se especializou. 
            Ao ver a tragédia acontecendo e o perigo letal que ameaçava as crianças esqueceu-se de si própria e pensou apenas neles. Lutou até o fim, mesmo quando as labaredas já a atingiam e ameaçavam sua vida.  A heroína de Janaúba é a figura que hoje me parece dever ser homenageada quando se aproxima o Dia do Mestre. 
Seu gesto mostra que ser professor não é apenas despejar conteúdos sobre os alunos que muitas vezes, com as mentes distantes, apegadas a outros estímulos, ou malnutridos, ou deprimidos pelas condições familiares em que vivem, não os assimilam.  Trata-se de uma profissão que é indissociável da vida e, ousaria dizer, da entrega da vida. 
            Helley se preocupava com os que tinham alguma deficiência, era sensível aos que apresentavam algum problema.  Não se tratava de uma docente que corria atrás de sucesso e estatísticas de desempenho premiadas em rankings e jornais.  Amava o que fazia e por isso amava seus alunos, as crianças que a ela ficavam entregues por boa parte de seu dia. 
            Demonstrou esse amor quando o ser professora não significou escrever no quadro negro, ou mostrar mapas.  O momento de sua intervenção, que foi também o de sua morte, mostra alguém comprometido e responsável até as últimas consequências com aqueles que estão entregues a sua docência.  Ela lhes deu a melhor lição, a melhor aula: a entrega da vida para salvar suas vidas.
            Janaúba segue de luto e o país segue perplexo.  Helley começa a receber muitas homenagens, mais do que merecidas.  Sua família sofre muitíssimo.  Nada substituírá sua presença maternal ao lado dos filhos, sobretudo do pequenino de um ano.  Nada pode igualmente consolar as famílias das crianças que morreram vitimadas pelo fogo. 
            Mas em meio a toda essa tragédia e esse horror, a figura de Helley brilha como luz, assim como o livro da Sabedoria diz que brilham os justos, como fagulhas, como estrelas.  E sua atitude diz que não há pecado maior que a graça, não há desgraça maior que o amor, não há morte que vença a vida quando esta está ancorada no bem e no serviço aos outros.  
            A matança dos inocentes em Janaúba permanece sombria tragédia.  Mas tem a iluminá-la a professora Helley, heroína que não se preocupou com a própria vida, mas com a das crianças que lhe eram confiadas.  Enquanto existirem professores como ela, podemos dizer: nem tudo está perdido.  É possível reencontrar o verdadeiro caminho da educação.  Tem que ser possível.  Do contrário, veremos nosso país afundado na lama da corrupção e da libertinagem política, sem esperança de dias melhores.
 Helley, a heroína de Janaúba, - que deve ter outras irmãs em coragem e capacidade de amar esparsas pelo país – nos diz que há que lutar sem perder a esperança.  E por isso podemos dizer: Feliz Dia do Mestre aos que são docentes e aos discentes que com eles aprendem e aprenderam.  Ou aprenderão.  Feliz Dia da Educação.  Educando e educador são chamados a renovar seu compromisso de interação e diálogo constante e profundo no desejo de descobrir o mundo e construir o futuro em comunhão de destino.  

   Professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, a teóloga é autora de “Teologia latino-americana – Raízes e ramos” (Editoras Vozes e PUC-Rio), livro que acaba de ser lançado.

Copyright 2017 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>