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terça-feira, 18 de outubro de 2022

Momento de promessas, tempo de compromisso

 






Marcelo Barros

 

Daqui a poucos dias, o Brasil vai viver o segundo turno das eleições presidenciais e de vários governantes estaduais.  Principalmente, na opção por Lula ou pelo atual presidente, o que está em jogo são duas propostas ou projetos de país. Enquanto a extrema-direita ainda assusta as pessoas com o fantasma do Comunismo e provoca o medo de crentes com boatos de que, se eleito, Lula fecharia Igrejas, o projeto do seu candidato está ligado aos interesses de empresas mineradoras, de madeireiras, do latifúndio e do capital internacional. Retomam acusações sobre a corrupção do PT, mesmo se a corrupção na Petrobrás explodiu com os chamados “anões do orçamento”,  em 1993,  dez anos antes de Lula assumir o governo. Sabe que, nos governos do PT, a polícia federal teve como nunca liberdade para agir e os processos de corrupção, antes engavetados, vieram à tona. 

Atualmente, comparado com o que foi o chamado mensalão ou outros esquemas de corrupção ocorrido durante governos do PT, o “orçamento secreto” do atual presidente rouba do país uma soma equivalente a muitos mensalões. É claro que nenhum erro justifica outro. No entanto, na história do Brasil, quase sempre, acusações de corrupção servem de pretexto para que a direita desacredite a democracia e cometa crimes ainda piores.

A coligação de partidos que propõe Lula como presidente tem como base retomar um projeto de país para todos os brasileiros e brasileiras. A prioridade é garantir o direito universal à alimentação, à moradia e a condições de vida digna para mais de 33 milhões de brasileiros/as, nestes anos recentes, reduzidos à fome e à extrema pobreza. É urgente salvar o que ainda é possível da Amazônia e da sustentabilidade dos biomas brasileiros.

Trata-se de eleger alguém que, ao contrário do atual presidente, seja capaz de dialogar positivamente e de forma inteligente com o poder legislativo e com o judiciário, assim como com todos os segmentos da sociedade para construirmos novamente um país inclusivo para todos/as. Lula já demonstrou ser a pessoa mais competente para fazer isso.

É preciso ter clareza: quando o Evangelho diz que o Verbo, a Palavra de Deus, se fez carne, afirma que o amor divino assume a realidade do mundo como ela é. Encarna-se, isso é, se insere na caminhada da humanidade, sem transformá-la em Cristandade, evangélica ou católica. O projeto de país deve ser laico e pluralista, aberto a todos os cidadãos e cidadãs, a serviço da Paz, Justiça e Cuidado com a Terra e a natureza.

Quem é discípulo ou discípula de Jesus deve dar testemunho de que é capaz de conviver como irmão/ã com toda e qualquer pessoa humana, seja de que religião for, ou sem nenhuma tradição específica. Jesus não veio ao mundo para organizar religião. Afirmou: “Eu vim para que todos/as tenham vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

Na sexta-feira, 7 de outubro, líderes religiosos/as de diversas tradições publicaram uma “Carta aberta às mulheres e homens de fé do Brasil”. Nesta carta, afirmam: “Nós, líderes religiosos e de diferentes credos e tradições, direcionamos nossa voz ao povo brasileiro. Nesse momento político conturbado, violento e disputado pelas redes sociais, convidamos todas as pessoas a assumirem sua cidadania, escolhendo cuidadosamente seu candidato e verificando seu alinhamento com os valores comuns às mais diversas tradições de fé que permeiam o coração do nosso povo...” (...).                   No final, concluem: “Não silenciemos! Escolhamos o Presidente do Brasil impulsionados pela FÉ e pelo compromisso com uma vida digna e justa para todas e todos. Nesse sentido, declaramos nosso voto e apoio ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, por entendermos que é nossa única opção para reconstruir o Brasil comprometida com a DEMOCRACIA, PLURALIDADE e JUSTIÇA SOCIAL”. Na íntegra, a carta pode ser lida no site do MST:

https://mst.org.br/2022/10/08/carta-aberta-as-mulheres-e-homens-de-fe-do-brasil/

Que a palavra profética destes irmãos e irmãs possa ressoar para todas as pessoas e comunidades de fé.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

CARTA COMPROMISSO DE LULA

 Frei Betto


 

       Candidato a presidente da República, Lula alerta que “chegou a hora de rompermos com a tradição de poder das elites brasileiras”. “Proponho-me a fazer do poder político um instrumento capaz de promover as profundas reformas exigidas pela nossa sociedade”. 

       Lula assume publicamente os compromissos de “fazer, da geração de empregos, a prioridade número um do meu governo; de livrar o Brasil da vergonha histórica de ser uma Nação ainda com legiões de famintos e flagelados, doentes e analfabetos, desempregados e humilhados, sobreviventes da dor; de acabar com a vergonha de termos uma infância abandonada e garantir a todas as crianças do Brasil um lugar assegurado em uma escola com qualidade; e fazer da saúde um dever do poder público.”

       Lula assume também “o compromisso de fazer uma verdadeira reforma agrária, desapropriando terras ociosas como determina a nossa Constituição e assentando as famílias sem terra”. Compromete-se ainda a tornar o Brasil “uma economia industrial forte, preservando as grandes empresas nacionais capazes de competir nos mercados globalizados e estimulando a micro, a pequena e a média empresas, que são as maiores geradoras de empregos”.

       O candidato petista garante que haverá de “implantar gradativamente um programa de renda mínima para que todos neste país tenham o direito de sobreviver com dignidade e partilhar da riqueza desta Nação”. E também assume o compromisso de “empenhar todos os meus esforços para acabar com a corrupção e a sonegação de impostos e, assim, transformar cada real arrecadado em benefícios sociais e investimentos de interesse público”. E assegura: “No meu governo, a luta contra a corrupção será um imperativo ético irrenunciável. A corrupção mina a democracia e degrada a política. Não permitirei a prática do `toma-lá-dá-cá´”. Garante ainda:  “combateremos a corrupção com todo vigor para acabar com a triste imagem do país da impunidade”.

       Lula promete que, se eleito, “as relações com o Congresso Nacional e os partidos políticos serão feitas à luz do dia, com respeito e sem fisiologismos”. E admite que “já passou da hora de resgatarmos o idealismo da nossa juventude, livrá-la do consumismo desenfreado e das drogas, da apatia e do desinteresse, despertando o melhor de suas energias culturais e espirituais”.

       Quanto à mulher, ele se compromete a “jogar todo o peso da lei na garantia dos direitos iguais para homens e mulheres”, como também declara que haverá de “defender o meio ambiente, preservar os recursos naturais da Amazônia, combater a poluição nas cidades, nos campos, nos rios, nos lagos e no mar”. Promete que, uma vez eleito, “vamos impedir a destruição de nossas florestas e defender os direitos dos povos indígenas, que são também filhos desta terra e aqui nos antecederam”.

       Lula quer “arrancar o Brasil da humilhante posição de campeão mundial de desigualdades sociais”. E assegura: “No meu governo, vou garantir a estabilidade monetária, mas também a estabilidade econômica e social. Serei o fiador de um novo contrato social com este país, que se fundamentará numa nova hegemonia democrática, capaz de efetivamente construir a Nação brasileira para todos os brasileiros. Uma Nação sem medo de ser feliz e com coragem para assumir o seu destino”. 

       Esta a síntese dos compromissos assumidos por Lula na campanha eleitoral para presidente da República, em 1998, tendo como vice Leonel Brizola. Fernando Henrique Cardoso foi reeleito presidente com 53,06% dos votos; Lula mereceu 31,71%; e Ciro Gomes, 10,97%.

 

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

 

®Copyright 2022 – FREI BETTO – AOS NÃO ASSINANTES DOS ARTIGOS DO ESCRITOR - Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

 

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sábado, 20 de março de 2021

“FRATERNIDADE E DIÁLOGO: COMPROMISSO DE AMOR” – POR UMA MÍSTICA DAS INSIGNIFICÂNCIAS [1]

 

Kinno Cerqueira [2]


 

 

Introdução

O tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021 faz jus às intuições mais profundas do Evangelho de Jesus de Nazaré. Durante nossa conversa, eu gostaria de abordá-lo sob a perspectiva de “uma mística das insignificâncias”. Para fazê-lo, preciso, porém, efetuar um recuo ou abrir um parêntese que nos permita refletir sobre algumas questões que subjazem sutilmente à CFE e seu tema.

 

Por um diálogo a partir das dessemelhanças

As teologias católicas e protestantes conservam semelhanças e dessemelhanças entre si. No transcurso de uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, como esta que ora vivemos, testemunhamos um grande esforço para firmar um diálogo fraterno entre as tradições católica e protestante por meio da evidenciação e da valorização dos aspectos teológicos comuns a estas duas tradições, sendo as diferenças teológicas postas em segundo plano ou anexadas à lista de assuntos proibidos. Nesta perspectiva, as semelhanças são concebidas como condição fundamental para a realização do diálogo fraterno, enquanto as dessemelhanças lhe são uma ameaça a ser evitada.

Evidenciar e valorizar as semelhanças entre as tradições católica e protestante constitui um esforço necessário e louvável. Todavia, pergunto-me se a fuga das dessemelhanças não superficializa ou, pior ainda, falsifica o diálogo. Notadamente, o ecumenismo que conhecemos está mais voltado para a construção de uma narrativa midiática – que se adeque ao politicamente correto – do que para a instauração de um genuíno diálogo entre corações. Por conta disto, as CFEs, não obstante seu inestimável valor, revelam-se profundamente ambíguas: por um lado, evidenciam as semelhanças entre as tradições católicas e protestante e promovem um suposto diálogo; por outro, mascaram as dessemelhanças existentes entre essas tradições e, consequentemente, superficializam o diálogo, impedindo-nos de fazer uma experiência de alteridade que resulte em fecundas sínteses.

A minha intuição caminha num sentido um pouco distinto do que costuma impulsionar o diálogo entre as tradições católica e protestante: desejo que dialoguemos a partir das dessemelhanças entre essas tradições, precisamente sobre uma dessemelhança teológica que julgo ser de fundamental importância para o aprofundamento da fé – entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.

 

Um ponto de dessemelhança: as dimensões da fé

“A teologia não é Deus”: eis uma proposição ao mesmo tempo sabida e desconsiderada. Todas as teologias, inclusive aquelas que produziram nossos credos, catecismos e concílios, são compreensões e discursos humanos sobre (as revelações de) Deus. Visto que o ser humano sempre sente, compreende e discursa a partir de sua condição subjetiva e histórica, as teologias refletem, em grande medida, o espírito do tempo em que foram formuladas [3].

As teologias católica e protestante apresentam-se, cada uma por sua vez, como um conjunto de tendências que se encontram e se desencontram, de tal modo que, ao invés de falarmos em teologia católica e teologia protestante, seria mais honesto pluralizarmos estas palavras, dizendo assim: teologias católicas e teologias protestantes. Porém, a despeito da reconhecida pluralidade teológica das tradições católica e protestante, arrisco dizer-lhes que, em alguns aspectos, é perfeitamente possível distinguir as teologias católicas das teologias protestantes, e vice-versa. E tais aspectos diferenciadores tem que ver com as condições subjetivas e históricas em que tais teologias formularam suas linhas mestras.

Uma análise comparada das teologias católicas com as teologias protestantes deixa ver várias dessemelhanças entre estas duas grandes tradições cristãs. Dentre essas dessemelhanças, destaco uma: a compreensão sobre as dimensões da fé – e insisto:  entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.

As teologias católicas carregam em si a inapagável experiência política da igreja mater et magistra (mãe e mestra), enquanto as teologias protestantes nascem num contexto de transição da Idade Média para a Modernidade, um tempo marcado pela realocação da religião no âmbito privado e pela ênfase na consciência individual. Disso resulta que, por um lado, as teologias católicas acentuam a dimensão comunitário-política da fé, ao passo que as teologias protestantes, por outro lado, enfatizam a dimensão “pessoal” da fé [4]. Noutras palavras: se o horizonte da tradição católica é a igreja universal e o mundo como um todo, os olhos protestantes estão voltados para a pessoa isoladamente ou, quando muito, para a igreja local.

Agora que tomamos conhecimento dessa dessemelhança entre a tradição católica e a tradição protestante, perguntamo-nos: o que isso nos revela? Em primeiro lugar, que estamos diante de um dado de realidade que nos convida a assumir nossas diferenças. Em segundo, que esta diferença em particular nos convida a revisitar a vida de Jesus, conforme narrada nos evangelhos, a fim de revisarmos nossa compreensão sobre as dimensões da fé.

 

A fé de Jesus

Quando caminhamos pelas páginas dos quatro evangelhos canônicos, vemos Jesus igualmente entregue a experiências triviais e a feitos grandiosos. Jesus conversa com uma mulher samaritana à beira de um poço (Jo 4,1-42), anda de mãos dadas com um cego (Mc 8,22-26), abraça uma criança (Mc 9,33-37), contempla os lírios do campo e os passarinhos dos céus (Mt 6,25-34), caminha com dois peregrinos assustados (Lc 24,13-35), assa pão e peixe à beira-mar (Jo 21,1-9) e entrega como herança o convite ao amor profundo (Jo 13,34-35). Com igual vivacidade, Jesus denuncia a corrupção do templo (Jo 2,13-22), chama o rei Herodes de raposa (Lc 13,31-35), desmascara as práticas homicidas dos religiosos (Lc 11,45-52) e ensaia uma revolução social a partir dos empobrecidos (Lc 6,20-26; Mt 25,31-46).

Notadamente, Jesus assume cada instante como experiência de Deus, seja o passarinho que voa e a criança que corre, seja a denúncia da injustiça e a tomada de opção pelos empobrecidos. A fé de Jesus, isto é, seu compromisso com Deus, tem, pois, dimensão pessoal e comunitário-política. Para Jesus, extasiar-se ante uma meiga flor que dança ao vento é uma experiência de fé tão profunda quanto assumir o cruento caminho da cruz.

 

Por uma mística das insignificâncias

A vida de Jesus inspira-nos a viver uma mística das insignificâncias. Mística é experiência profunda de Deus. Martinho Lutero dizia que Deus é tão pequenino a ponto de habitar um grão de areia e tão grandioso a ponto de carregar o mundo na ponta dos dedos. A vida mística é um aperceber-se da presença de Deus nas acontecências mais profanas e corriqueiras e nas experiências mais complexamente articuladas. 

A ênfase exclusiva na dimensão pessoal da fé resulta num individualismo egóico que nos aprisiona em nós mesmos, de modo a não nos sentirmos responsáveis pela transformação do mundo. A acentuação da dimensão comunitário-política da fé, por sua vez, faz-nos esquecer das pequenas coisas, inclusive da necessidade de transformar nosso mundo interior. A mística das insignificâncias nos convida a abrir o coração para implicarmo-nos em tudo. A plenitude da força da fé depende da sensibilização de nosso olhar e da totalidade de nossa entrega.

A CFE 2021, para ser vivida em profundidade, precisa ser dinamizada por uma mística das insignificâncias. Como escreveu o poeta mato-grossense Manoel de Barros:

Poderoso pra mim não é aquele que descobre o ouro.

Pra mim poderoso é aquele que descobre

as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado e chorei.

 

Neste caminho místico, haveremos de perceber que as insignificâncias são, a bem da verdade, apenas aparentes insignificâncias: se é preciso salvar o planeta para preservar os jardins, é igualmente verdade que uma pétala pode salvar o mundo.

 

 

Notas:

[1] Texto apresentado numa roda de conversa da Escola Vivencial de Fé do Movimento de Cursilho da Cristandade, em 16 de março de 2021 (https://www.youtube.com/watch?v=PqJwyYbLjEQ).

[2] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

[3] As teologias podem conter em si uma mescla de oposição e negação em relação ao tempo em que foram gestadas e formuladas. O que não há, porém, é neutralidade. Afinal de contas, quem pensa e discursa sempre o faz em reação a outrem, ainda que inconscientemente.  

[4] O aspecto comunitário-político da fé pode ser visto, no âmbito comunitário, na importância conferida à igreja, aos sacramentos, às mediações da graça etc. e, no âmbito político, na existência da DSI (Doutrina Social da Igreja), de consideráveis encíclicas, de pastorais, de grupos de fé e política etc. Por outro lado, a ênfase das teologias protestantes na dimensão pessoal da fé revela-se, por exemplo, na maneira com a qual os protestantes se agarram com a ideia de salvação como resultado da adesão à “verdade” da fé doutrinal, o que se daria, inclusive, sem necessidade de obras de amor.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

DIÁLOGO, COMPROMISSO DE AMOR E AMIZADE SOCIAL

 


Marcelo Barros

 

Pela primeira vez na história, neste 2021 ainda tão excepcional, vivemos esta quarta-feira de cinzas sem ter tido Carnaval. Ainda há católicos que pensam: a quarta-feira de cinzas e a Quaresma existem para se pedir perdão pelos pecados cometidos no Carnaval. Seria como as  cinzas da quarta-feira fossem as fantasias queimadas do Carnaval apenas concluído.

É verdade que, em tempos medievais, os dias de folia surgiram como a última liberdade antes da Quaresma. No entanto, no plano mais profundo, a Quaresma nada tem a ver com a negação das alegrias da vida. Já na Idade Média, Santa Mectildes, monja beneditina, afirmava que Deus é como uma criança que gosta de brincar e nos quer como companheiros/as para criar alegria. Antes dela, no século IV, João Crisóstomo, bispo e pai da Igreja, ensinava: “Mesmo em meio aos sofrimentos do dia a dia, o Cristo ressuscitado vem fazer da nossa vida, uma festa contínua”.

Assim, na antiguidade, a Quaresma surgiu, não para organizar a rotina de quem já peca pensando em depois pedir perdão e sim como tempo no qual se curte a alegria de preparar a celebração anual da Páscoa, sacramento da nossa libertação. Nesta preparação da festa pascal, é fundamental responder ao chamado de Jesus à conversão (metanoia). Ela significa mudança dos critérios e padrões que regem nosso estilo de vida. Isso nada tem a ver com a figura de um Deus mesquinho, recalcado sexualmente, como se fosse um Coronavirus divino, que exige isolamento social e não permite abraços, beijos e contatos corporais.

A conversão proposta por Jesus pede  transformação na nossa forma de olhar o outro. Ensina a nos relacionar com as pessoas e comunidades, de qualquer raça, cultura e religião. Faz-nos assumir o cuidado com todos os seres vivos e com o universo, sacramento da presença divina.   

Neste ano, no Brasil, temos a possibilidade de responder juntos a este apelo pascal do Espírito, através da 5a Campanha da Fraternidade Ecumênica, como sempre, proposta e coordenada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). Ela tem como lema: Fraternidade e Diálogo: Compromisso de Amor. O tema “Cristo é nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2, 14).

Se as Igrejas cristãs obedecessem à palavra da carta do apóstolo aos efésios e compreendessem a missão de Jesus de forma universal, em relação ao mundo e não apenas à religião, nem precisariam dessa Campanha da Fraternidade. Elas mesmas seriam permanentemente e de modo profundo isso que essa campanha nos traz como tema e como lema. No entanto, alguns grupos eclesiais continuam se comportando como seitas. O primeiro sinal disso é chamar de seitas a outras Igrejas. Por isso, a CFE 2021 se faz necessária e mesmo urgente. Ela faz com que esta celebração da Páscoa nos confirme que a atual separação das Igrejas cristãs chega a ser uma dor muito grande para o Cristo ressuscitado. A divisão entre Igrejas parece tornar inútil tudo o que Jesus, viveu e realizou, já que “ele morreu para reunir na unidade os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo” (Jo 11, 52).  

Em seu tema, a CFE 2021 repete: “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2. 14). Poderia ter continuado: “Como as Igrejas parecem ter desfeito o que Jesus fez e terem reconstruído o muro de divisão que o próprio Cristo tinha derrubado (Ef 2, 13), esta Páscoa é ocasião para recompor esta diversidade reconciliada que o Cristo tanto deseja.

Concretamente, toda Campanha da Fraternidade propõe ações de solidariedade que expressem e concretizem o apelo à conversão que acolhemos. Sem dúvida, todos nós somos chamados, em nome da fé e como caminho pascal, a apoiar e fortalecer os grupos, entidades e organismos que buscam politicamente uma frente ampla pela democracia e em defesa dos direitos dos pobres. Precisamos nos posicionar mais efetivamente do lado de profetas como Júlio Lancelotti e tantos outros/as, na defesa das pessoas em situação de rua. Precisamos acolher e valorizar a profecia da solidariedade manifestada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), durante este longo tempo de pandemia, ao partilhar toneladas de alimento com famílias em situação de insegurança alimentar. Assim, poderíamos elencar dezenas de outras ações, nas quais as Igrejas cristãs devem se mostrar verdadeiramente o que o papa Francisco chama “Igreja em saída”. 

No entanto, no mais cotidiano da vida, o primeiro compromisso ao qual esta Campanha da Fraternidade Ecumênica nos chama é passar da incomunicabilidade e da indiferença social à espiritualidade do diálogo como mística pascal. No tempo dos evangelhos, a incomunicabilidade era considerada sinal de que a pessoa era dominada por uma energia negativa. O surdo-mudo era tido como endemoniado. E Jesus expulsava esse espírito impuro, mesmo de alguém que se manifestasse com esta energia, mesmo no lugar mais sagrado, como era a sinagoga. Hoje, infelizmente, não são apenas pessoas. São grupos eclesiásticos e mesmo alguns ligados ao clero.

Essa CFE 2021 pode ser excelente ritual de exorcismo laical e traduzido na cultura contemporânea. Em seu idioma, Jesus dizia: Effata, que quer dizer: Abre-te. E os ouvidos dos surdos se abriam à escuta e a língua dos mudos se soltava. Hoje, há irmãos e irmãs na fé que nos olham como traidores, porque nos posicionamos contra a discriminação social, a marginalização da mulher, a homofobia e outras expressões de uma sociedade injusta. A eles e elas, podemos dizer também em nome de Jesus: Effata! Abre-te ao diálogo e testemunha que Deus é Amor Incondicional.

Quanto a nós que cremos no Amor, como propunha Gandhi, comecemos por nós mesmos isso que propomos ao mundo.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

O COMPROMISSO DE PENSAR

por Marcelo Barros


Dizem que, no Brasil, as atividades do ano só começam mesmo depois do Carnaval. Só a partir dessa semana, Escolas, universidades e empresas retomam seu ritmo normal. Os meios de comunicação nos bombardeiam com notícias de crise e corrupção. Algumas são verdadeiras, mas se misturam com boatos e delações que condenam as pessoas antes mesmo de serem julgadas. Em tudo isso, o que parece mais em crise é a capacidade das pessoas pensarem. Será que as nossas escolas e universidades incentivarão seus alunos a pensar? Teremos algum dia  meios de comunicação social que divirtam as multidões sem reduzi-las ao pão e circo concedido pelos senhores do mundo? 

Como saber que cada um/uma de nós mesmos assumimos nossa missão humana de pensar e não aceitamos ser simplesmente repetidores de fórmulas feitas e macaquinhos de gestos ensaiados? É claro que, de alguma maneira, todo ser humano pensa. Processa o que acontece em redor de si e o compreende, mas isso pode ser feito de modo superficial e até irresponsável. Todos nós vivemos sob a cultura da notícia imediatizada e produzida em pílulas. Os instrumentos da internet e recursos virtuais de comunicação são valiosos e úteis, mas algumas vezes, criam uma onda de sensações que substituem o verdadeiro pensar crítico e autônomo. Sem dúvida, não é fácil nem cômodo o compromisso de pensar quando se trata de procurar compreender profundamente o que acontece e tomar uma posição verdadeiramente crítica e responsável. Na história da Filosofia, alguns reduziram o pensar a uma operação racional que ocupa apenas  parte do intelecto humano. Para alguns filósofos modernos, como Heidegger, pensar é caminhar. Só pode dizer que realmente pensa quem aceita percorrer uma estrada pessoal de busca e com o espírito aberto. E não é fácil rever nossas certezas adquiridas e colocar em questão nossos dogmas culturais, religiosos ou políticos.  

Sobre a tragédia do não pensar, Hannah Arendt escreveu o seu livro mais importante: “A banalidade do mal”. Para a filósofa judia, a verdadeira tragédia é que o mal se origina no não pensar. O carrasco nazista Adolf Eichmann exterminou multidões nos campos de concentração não porque fosse um monstro sádico. Era um homem normal e bom pai de família. Mas, tinha renunciado a pensar e apenas cumpria ordens dos superiores. Do mesmo modo, até hoje, a publicidade enganosa, o doutrinamento ideológico e o impacto sensacionalista nascem quando a pessoa renuncia a pensar criticamente e simplesmente se deixa levar por uma onda que acaba conduzindo a alguma forma de totalitarismo.

Às vezes, para instituições como o Exército, a Escola e mesmo a Igreja, é mais fácil ter pessoas que seguem normas e obedecem mecanicamente do que aceitar pessoas que pensam. O militar que, para cumprir o seu dever, usa violência ou agride pessoas, o funcionário que não é capaz de ir além de sua estrita obrigação e o religioso que repete fórmulas de crenças acabam colaborando para a cultura da indiferença geral que domina a sociedade.  O papa Francisco tem denunciado que essa indiferença está na base do sofrimento de tantas pessoas.

A revista Le Monde des Religions, em seu número atual (janeiro-fevereiro 2016) tem uma página com um mapa de todas as guerras e conflitos provocados pela religião. Pude contar 17 regiões do mundo nas quais cristãos extremistas combatem outras religiões, hindus lutam contra muçulmanos, judeus perseguem muçulmanos e assim por diante. No Brasil, que não consta desse mapa de guerras declaradas, a cada dia acontecem ataques e atos de discriminação contra cultos de matriz afrodescendente. Um amigo italiano repete um filósofo ao dizer: “A diferença não é entre quem é religioso e quem não é. A diferença está entre quem pensa e quem não pensa”.

No caminho das religiões, todas contaram com figuras proféticas que procuraram ser fieis à sua tradição, mas ao mesmo tempo apontaram para a responsabilidade do pensar de forma pessoal e amoroso. Nos evangelhos, Jesus diz: “Eu não vim destruir a lei ou os profetas. Ao contrário, vim para levá-los à sua plenitude. Nem um j desaparecerá da lei até que tudo seja realizado” (Mt 5, 17- 18). No entanto, afirmou também: “A lei e o sábado foram feitos para o ser humano e não o ser humano para a lei e o sábado” (Mc 2, 27).  


 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países. 



terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

COMPROMISSO POLÍTICO DA FÉ

Por Marcelo Barros

                                                    

Em momentos nos quais o exercício da cidadania parece pouco visível e a alienação social e política toma formas que chegam até a justificar golpe de Estado, é importante refletir sobre como restituir à Política a sua nobreza e dignidade. Alguns meios de comunicação  que se alimentam cotidianamente de assassinatos e assaltos, exacerbam o mesmo sensacionalismo, ao escolher como tema recorrente e quase único a corrupção aparentemente generalizada que assola as instituições públicas. Isso pode deixar em muitos a impressão de que todo político é corrupto e a própria Política é sempre ruim. De fato, existe uma atividade que é mais politicagem do que Política. No entanto, em todas as instituições, há pessoas profundamente éticas e corretas. Essas são a maioria das pessoas. A minoria é corrupta e venal. Acontece que uma vida consagrada aos outros e pautada na ética não é notícia. A corrupção, sim, mesmo se ainda não for comprovada e,  principalmente, se a sua divulgação favorece a interesses partidários e de classe.

No atual sistema político brasileiro, infelizmente, pessoas se aproveitam de cargos e benefícios públicos para fins privados. Esse mal se implantou em nossas instituições desde a época da colônia. Tomou formas mais sofisticadas a partir dos anos 90. A maioria dos brasileiros esperava um rigor maior e uma postura diferente de um governo prometia uma nova ética e se apresentava como de esquerda ou mais popular. Todos queremos governantes que não se omitam e não compactuem com a desonestidade. No entanto, não podemos nos deixar levar por uma carga emocional que condena antes do julgamento e quer punir, sem que haja provas concretas da ilegalidade.

Sem dúvida, toda corrupção deve ser condenada, mas a mais grave não é essa que vestais da moral bradam diariamente e sem cessar nos meios de comunicação. No plano político, a corrupção mais profunda ocorre quando um partido que se apresentava como iniciativa dos trabalhadores e tinha como programa a transformação do Brasil, se acomoda ao poder e troca o projeto de um país justo e igualitário pela mera ambição de ganhar eleições e deter o poder. Para isso, metas fundamentais como a reforma agrária, reforma política e outras reformas de base são deixadas de lado. Ao fazer todo tipo de conchavo para garantir a tal “governabilidade” pelos caminhos de sempre, o governo coordenado pelo PT se comporta como a gralha da antiga parábola de Esopo. 

Uma gralha ouviu falar que, em um pombal vizinho, as pombas se alimentavam bem. Então, se pintou de branco, fingiu-se de pomba e foi para o pombal. Deu certo até que, sem querer, ela piou. Ao ouvir o seu granido, as pombas viram que era uma gralha  e a expulsaram. Sem alternativas, ela voltou ao meio das outras gralhas que, quando a viram pintada de branco, também não a receberam. E ela ficou sozinha, nem pomba, nem gralha. No Brasil atual, banqueiros ganham 400% de lucro ao ano. O agronegócio tem até ministério no governo. Grandes empresas de comunicação ganham milhões do próprio governo para desinformar a população e destruir o pouco que foi construído. 

Mesmo assim, essa elite que representa menos de 10% da população não se conforma e não acredita na gralha vestida de pomba. E ao invés de se achar contemplada por um governo que, depois de eleito, abandonou sua base social, o destrata do mesmo modo. Ignora todas as conquistas sociais já conquistadas e tenta divulgar que o país nunca esteve tão mal como agora. E fomenta as bases para um possível golpe de Estado para libertar o país do “terrível e perigosíssimo” bolivarianismo venezuelano ou simplesmente do comunismo cubano para o qual estaríamos caminhando.  

Na Campanha da Fraternidade de 2015, a CNBB propõe o aprofundamento da missão das Igrejas cristãs em sua inserção social e política na sociedade. O papa Paulo VI ensinava que a ação política é a forma mais nobre de se viver a caridade cristã na sociedade. O objetivo da ação social e política das pessoas que têm fé é testemunhar que o projeto divino de um mundo justo e de paz é possível. É assunto não só dos políticos, mas de todos os cidadãos e, portanto de todos/as que, em meio às lutas do mundo, querem viver em Deus. O Evangelho de Jesus nos chama para irmos sempre às raízes das questões e trabalharmos por uma transformação radical de todas as estruturas da sociedade. O programa do Conselho Mundial de Igrejas que reúne 349 Igrejas cristãs resume isso no programa: Paz, Justiça e Cuidado com a Criação.       


  Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países