Kinno Cerqueira [2]
Introdução
O
tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021 faz jus às intuições mais
profundas do Evangelho de Jesus de Nazaré. Durante nossa conversa, eu gostaria
de abordá-lo sob a perspectiva de “uma mística das insignificâncias”. Para
fazê-lo, preciso, porém, efetuar um recuo ou abrir um parêntese que nos permita
refletir sobre algumas questões que subjazem sutilmente à CFE e seu tema.
Por um diálogo a partir
das dessemelhanças
As
teologias católicas e protestantes conservam semelhanças e dessemelhanças entre
si. No transcurso de uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, como esta que ora
vivemos, testemunhamos um grande esforço para firmar um diálogo fraterno entre
as tradições católica e protestante por meio da evidenciação e da valorização
dos aspectos teológicos comuns a estas duas tradições, sendo as diferenças
teológicas postas em segundo plano ou anexadas à lista de assuntos proibidos.
Nesta perspectiva, as semelhanças são concebidas como condição fundamental para
a realização do diálogo fraterno, enquanto as dessemelhanças lhe são uma ameaça
a ser evitada.
Evidenciar
e valorizar as semelhanças entre as tradições católica e protestante constitui
um esforço necessário e louvável. Todavia, pergunto-me se a fuga das
dessemelhanças não superficializa ou, pior ainda, falsifica o diálogo.
Notadamente, o ecumenismo que conhecemos está mais voltado para a construção de
uma narrativa midiática – que se adeque ao politicamente correto – do que para
a instauração de um genuíno diálogo entre corações. Por conta disto, as CFEs,
não obstante seu inestimável valor, revelam-se profundamente ambíguas: por um
lado, evidenciam as semelhanças entre as tradições católicas e protestante e
promovem um suposto diálogo; por outro, mascaram as dessemelhanças existentes
entre essas tradições e, consequentemente, superficializam o diálogo,
impedindo-nos de fazer uma experiência de alteridade que resulte em fecundas
sínteses.
A
minha intuição caminha num sentido um pouco distinto do que costuma impulsionar
o diálogo entre as tradições católica e protestante: desejo que dialoguemos a
partir das dessemelhanças entre essas tradições, precisamente sobre uma
dessemelhança teológica que julgo ser de fundamental importância para o
aprofundamento da fé – entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho
de Jesus de Nazaré.
Um ponto de dessemelhança:
as dimensões da fé
“A
teologia não é Deus”: eis uma proposição ao mesmo tempo sabida e
desconsiderada. Todas as teologias, inclusive aquelas que produziram nossos
credos, catecismos e concílios, são compreensões e discursos humanos sobre (as
revelações de) Deus. Visto que o ser humano sempre sente, compreende e discursa
a partir de sua condição subjetiva e histórica, as teologias refletem,
em grande medida, o espírito do tempo em que foram formuladas [3].
As
teologias católica e protestante apresentam-se, cada uma por sua vez, como um
conjunto de tendências que se encontram e se desencontram, de tal modo que, ao
invés de falarmos em teologia católica e teologia protestante, seria mais
honesto pluralizarmos estas palavras, dizendo assim: teologias católicas e
teologias protestantes. Porém, a despeito da reconhecida pluralidade teológica
das tradições católica e protestante, arrisco dizer-lhes que, em alguns
aspectos, é perfeitamente possível distinguir as teologias católicas das
teologias protestantes, e vice-versa. E tais aspectos diferenciadores tem que
ver com as condições subjetivas e históricas em que tais teologias formularam
suas linhas mestras.
Uma
análise comparada das teologias católicas com as teologias protestantes deixa
ver várias dessemelhanças entre estas duas grandes tradições cristãs. Dentre
essas dessemelhanças, destaco uma: a compreensão sobre as dimensões da fé – e
insisto: entenda-se fé como nossa
resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.
As
teologias católicas carregam em si a inapagável experiência política da igreja mater et magistra (mãe
e mestra), enquanto as teologias protestantes nascem num contexto de transição
da Idade Média para a Modernidade, um tempo marcado pela realocação da religião
no âmbito privado e pela ênfase na consciência individual. Disso resulta que,
por um lado, as teologias católicas acentuam a dimensão comunitário-política da
fé, ao passo que as teologias protestantes, por outro lado, enfatizam a
dimensão “pessoal” da fé [4]. Noutras palavras: se o horizonte da tradição
católica é a igreja universal e o mundo como um todo, os olhos protestantes
estão voltados para a pessoa isoladamente ou, quando muito, para a igreja
local.
Agora
que tomamos conhecimento dessa dessemelhança entre a tradição católica e a
tradição protestante, perguntamo-nos: o que isso nos revela? Em primeiro lugar,
que estamos diante de um dado de realidade que nos convida a assumir nossas
diferenças. Em segundo, que esta diferença em particular nos convida a
revisitar a vida de Jesus, conforme narrada nos evangelhos, a fim de revisarmos
nossa compreensão sobre as dimensões da fé.
A fé de Jesus
Quando
caminhamos pelas páginas dos quatro evangelhos canônicos, vemos Jesus igualmente
entregue a experiências triviais e a feitos grandiosos. Jesus conversa com uma
mulher samaritana à beira de um poço (Jo 4,1-42), anda de mãos dadas com um
cego (Mc 8,22-26), abraça uma criança (Mc 9,33-37), contempla os lírios do
campo e os passarinhos dos céus (Mt 6,25-34), caminha com dois peregrinos
assustados (Lc 24,13-35), assa pão e peixe à beira-mar (Jo 21,1-9) e entrega
como herança o convite ao amor profundo (Jo 13,34-35). Com igual vivacidade,
Jesus denuncia a corrupção do templo (Jo 2,13-22), chama o rei Herodes de
raposa (Lc 13,31-35), desmascara as práticas homicidas dos religiosos (Lc
11,45-52) e ensaia uma revolução social a partir dos empobrecidos (Lc 6,20-26;
Mt 25,31-46).
Notadamente,
Jesus assume cada instante como experiência de Deus, seja o passarinho que voa
e a criança que corre, seja a denúncia da injustiça e a tomada de opção pelos
empobrecidos. A fé de Jesus, isto é, seu compromisso com Deus, tem, pois,
dimensão pessoal e comunitário-política. Para Jesus, extasiar-se ante uma meiga
flor que dança ao vento é uma experiência de fé tão profunda quanto assumir o
cruento caminho da cruz.
Por uma mística das
insignificâncias
A
vida de Jesus inspira-nos a viver uma mística das insignificâncias. Mística é
experiência profunda de Deus. Martinho Lutero dizia que Deus é tão pequenino a
ponto de habitar um grão de areia e tão grandioso a ponto de carregar o mundo
na ponta dos dedos. A vida mística é um aperceber-se da presença de Deus nas
acontecências mais profanas e corriqueiras e nas experiências mais
complexamente articuladas.
A
ênfase exclusiva na dimensão pessoal da fé resulta num individualismo egóico
que nos aprisiona em nós mesmos, de modo a não nos sentirmos responsáveis pela
transformação do mundo. A acentuação da dimensão comunitário-política da fé,
por sua vez, faz-nos esquecer das pequenas coisas, inclusive da necessidade de
transformar nosso mundo interior. A mística das insignificâncias nos convida a
abrir o coração para implicarmo-nos em tudo. A plenitude da força da fé depende
da sensibilização de nosso olhar e da totalidade de nossa entrega.
A
CFE 2021, para ser vivida em profundidade, precisa ser dinamizada por uma
mística das insignificâncias. Como escreveu o poeta mato-grossense Manoel de
Barros:
Poderoso
pra mim não é aquele que descobre o ouro.
Pra
mim poderoso é aquele que descobre
as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por
essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei
emocionado e chorei.
Neste
caminho místico, haveremos de perceber que as insignificâncias são, a bem da
verdade, apenas aparentes insignificâncias: se é preciso salvar o planeta para
preservar os jardins, é igualmente verdade que uma pétala pode salvar o mundo.
Notas:
[1] Texto apresentado
numa roda de conversa da Escola Vivencial de Fé do Movimento de Cursilho da
Cristandade, em 16 de março de 2021 (https://www.youtube.com/watch?v=PqJwyYbLjEQ).
[2] Kinno Cerqueira é
pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na
área de estudos bíblicos.
[3] As teologias podem
conter em si uma mescla de oposição e negação em relação ao tempo em que foram
gestadas e formuladas. O que não há, porém, é neutralidade. Afinal de contas,
quem pensa e discursa sempre o faz em reação a outrem, ainda que
inconscientemente.
[4] O aspecto
comunitário-político da fé pode ser visto, no âmbito comunitário, na
importância conferida à igreja, aos sacramentos, às mediações da graça etc. e,
no âmbito político, na existência da DSI (Doutrina Social da Igreja), de
consideráveis encíclicas, de pastorais, de grupos de fé e política etc. Por
outro lado, a ênfase das teologias protestantes na dimensão pessoal da fé
revela-se, por exemplo, na maneira com a qual os protestantes se agarram com a
ideia de salvação como resultado da adesão à “verdade” da fé doutrinal, o que
se daria, inclusive, sem necessidade de obras de amor.
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