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terça-feira, 14 de setembro de 2021

Educação como prática do Diálogo

 


Marcelo Barros

 

Neste próximo domingo, celebraremos a data em que o grande Paulo Freire completaria 100 anos. A ONU instituiu o 08 de setembro como dia internacional da alfabetização. Por isso, nestes dias, no mundo inteiro, a sociedade civil internacional se viu envolvida pelos novos desafios de uma educação para todas as pessoas e a busca de novos meios para erradicar o analfabetismo.

Conforme cálculos da ONU, em todo o mundo, o analfabetismo absoluto diminuiu, mas ainda há grande proporção de analfabetos/as funcionais. Na cidade de São Paulo, 17% dos/das jovens entre 15 e 24 anos não conseguem ler placas e avisos de uma estação rodoviária ou de Metrô. Não sabem preencher dados para uma ficha de emprego.

 Com o seu método revolucionário de alfabetização de adultos/as, Paulo Freire nos ensinou que a educação é o processo que nos torna mais humanos. Alfabetizar não é apenas ensinar a ler, mas possibilitar a todas as pessoas a participação cidadã e crítica na sociedade.

É verdade que nascemos autocentrados/as. Crescemos sob a influência de tendências nocivas que tendem a nos imobilizar quando se trata de correr riscos e abrir mão de prestígio, poder e dinheiro. Daí a necessidade de uma educação profunda da consciência e da sensibilidade das pessoas e das coletividades. As práticas educativas devem infundir valores altruístas, gestos solidários e ideais sociais. Só assim, a vida ganha sentido e as relações humanas se tornam verdadeira comunicação.

Conforme Paulo Freire, a educação só cumpre sua função quando forma seres humanos mais felizes, dotados de consciência crítica e capazes de aprimorar sistemas sociais e políticos no sentido do amor solidário, da igualdade social e da justiça.

Caminhar nesse sentido implica vencer alguns desafios da atual conjuntura. O primeiro deles é superar o avassalador processo neoliberal de desistorização da história. Sem perspectiva histórica não há consciência nem projetos políticos. O filósofo alemão Theodor Adorno afirmava que o desafio mais urgente da educação é desbarbarizar a sociedade. Ele compreendia por barbárie uma sociedade que, de um lado, se encontra em alto grau de desenvolvimento tecnológico e, do outro, mantém as pessoas privadas de viver e expressar a sua dignidade humana.

Paulo Freire afirmava que somente a educação não pode mudar a sociedade, mas, ao mesmo tempo, nenhuma sociedade mudará sem que a educação desempenhe um papel fundamental. E nessa educação humanitária e libertadora, o diálogo é o elemento fundamental.

Diálogo não é qualquer tipo de comunicação. Não é apenas troca de opiniões ou debate. É relação entre pessoas que se colocam em atitude de escuta mútua para buscar juntas a verdade. Inclui a dimensão interior do diálogo consigo mesmo. Realiza-se mais profundamente no encontro amoroso com as outras pessoas e na comunhão com a natureza.

Para quem tem fé, tudo isso compõe o diálogo com o mistério que as religiões chamam de Deus. O grande educador Ruben Alves afirmava: “Educar é mais difícil do que ensinar. Para ensinar, basta saber. Para educar, precisa ser”.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

 

segunda-feira, 12 de abril de 2021

HANS KÜNG: TEOLOGIA E ABERTURA AO DIÁLOGO

 

                     Maria Clara Bingemer


 

            Neste momento de luto, dores e perdas, o mundo acordou com mais uma notícia triste: a do falecimento do grande teólogo suíço Hans Küng.  Ele faleceu em sua Suíça natal, após ter vivido e ensinado durante muitas décadas na Alemanha. 

            Um dos teólogos mais notáveis do século XX, Küng deixou uma obra vasta e notável, traduzida em vários idiomas.  No Brasil, foi muito estudado e conhecido nos programas de pós-graduação em teologia, tendo vindo ao país em 2013. Seus livros “Ser cristão”, escrito pensando em destinatários não católicos ou mesmo não cristãos, ou que duvidavam de questões de sua fé, apresentou em linguagem agradável de ler e compreensível a identidade do cristianismo, fé que Küng nunca abandonou até sua morte. 

           Suas obras sobre as grandes religiões mundiais que convidavam ao diálogo conheceram grande repercussão. Apresentam a atraente e mesmo apaixonante convocatória para que as religiões se unissem em torno de uma ética universal, trabalhando juntas pelos grandes problemas do mundo e da humanidade. 

            Por outro lado, foi um teólogo polêmico.  Alguns de seus livros criticaram abertamente normas disciplinares da Igreja Católica, tais como a infalibilidade papal e o celibato obrigatório para o sacerdócio católico. Por esses e também outros escritos nos quais foram encontrados problemas doutrinais em relação à fé católica, Küng foi impedido de ensinar como teólogo católico, embora tenha permanecido professor emérito na mesma universidade de Tübingen, onde exercia sua docência. 

Entretanto, hoje, que celebramos a páscoa desse grande intelectual, pensador e homem de fé,  é importante relembrar que quando seu colega Joseph Ratzinger foi eleito Papa com o nome de Bento XVI Küng pediu-lhe um encontro para dialogar. Apesar da relação difícil com o Papa anterior, João Paulo II, agora renovava suas esperanças de escuta e compreensão com o grande teólogo Ratzinger. 

            O encontro se deu em 2005, portanto logo após a eleição de Bento XVI. E, segundo as notícias da imprensa do Vaticano, desenrolou-se em um clima cordial e amistoso.  As questões estritamente doutrinais foram evitadas, já que ambos estavam de acordo que não havia sentido entrar em tal disputa naquele contexto. 

      Ao contrário, a conversa centrou-se em temas de interesse direto para o trabalho teológico do teólogo suíço: o projeto de uma Ética mundial suportado pelo diálogo e colaboração entre as diferentes religiões e o diálogo entre as ciências naturais e a teologia cristã. Küng teve, então,  oportunidade de explicar ao Papa que seu projeto de uma Ética Mundial não constituía, em absoluto, mera construção intelectual abstrata, mas um esforço para pôr em destaque os valores éticos e morais que convergem e suportam as grandes religiões do mundo, apesar de todas as suas diferenças. Esclareceu ainda que tais valores podem ser percebidos como critérios válidos, já que possuem consistente e convincente razoabilidade pela razão secular e laica. 

      De sua parte, Bento XVI declarou haver apreciado muito o esforço feito por Küng para contribuir a uma tentativa de síntese dos valores morais essenciais da humanidade através do diálogo com as religiões e a razão secular.  E afirmou ser este igualmente um objetivo importante de seu Pontificado.

Quanto ao diálogo da fé com as ciências naturais, o Papa sublinhou que o trabalho do teólogo suíço ressalta o valor da necessidade de aprofundar a questão sobre Deus com relação ao pensamento científico.  Após a reunião, Küng declarou seu apreço pelos esforços do Papa em favor do diálogo inter-religioso e da proximidade dos diferentes grupos sociais do mundo moderno. 

            Após a eleição de Francisco, Küng lhe enviou um apelo cheio de esperança para que examinasse seriamente a questão da infalibilidade papal, um dos pontos que mais defendeu em sua polêmica com a Igreja.  Reconhecia, no entanto, não se tratar de uma questão que se pudesse analisar de forma superficial ou rapidamente. E terminava, reafirmando sua fé, salientando que escrevia não no sentido de destruir, mas de edificar a Igreja. 

            Hoje, católicos e não católicos, crentes e não crentes, se despedem desse grande pensador rebelde, profundamente convicto de sua pertença eclesial.  Hans Küng escreveu para os que creem, mas se sentem inseguros, ou que creem, mas não estão satisfeitos com sua descrença, ou que estão fora da Igreja e procuram fundamentos mais sólidos para suas convicções.  

            Sua dura luta contra a doença finalmente chegou ao fim.  Seu legado permanece, relembrando aos cristãos que a fé pode e deve conviver com a razão.  E as convicções religiosas e espirituais não podem nem devem temer expor-se aos questionamentos da realidade e da secularidade.  O Espírito é livre e sopra onde e como quer.  Porém, tende para o corpo e a espessura do real.  A vida de Hans Küng dá testemunho disso e por isso é inspiradora para o ser humano do século XXI, que se debate entre a descrença e a pluralidade do horizonte religioso que diante dele se descortina, quando procura, “com doçura e respeito” dar, razão de sua esperança. 

  Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros

 

 

 

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
mhgpal@gmail.com

 

sábado, 20 de março de 2021

“FRATERNIDADE E DIÁLOGO: COMPROMISSO DE AMOR” – POR UMA MÍSTICA DAS INSIGNIFICÂNCIAS [1]

 

Kinno Cerqueira [2]


 

 

Introdução

O tema da Campanha da Fraternidade Ecumênica (CFE) 2021 faz jus às intuições mais profundas do Evangelho de Jesus de Nazaré. Durante nossa conversa, eu gostaria de abordá-lo sob a perspectiva de “uma mística das insignificâncias”. Para fazê-lo, preciso, porém, efetuar um recuo ou abrir um parêntese que nos permita refletir sobre algumas questões que subjazem sutilmente à CFE e seu tema.

 

Por um diálogo a partir das dessemelhanças

As teologias católicas e protestantes conservam semelhanças e dessemelhanças entre si. No transcurso de uma Campanha da Fraternidade Ecumênica, como esta que ora vivemos, testemunhamos um grande esforço para firmar um diálogo fraterno entre as tradições católica e protestante por meio da evidenciação e da valorização dos aspectos teológicos comuns a estas duas tradições, sendo as diferenças teológicas postas em segundo plano ou anexadas à lista de assuntos proibidos. Nesta perspectiva, as semelhanças são concebidas como condição fundamental para a realização do diálogo fraterno, enquanto as dessemelhanças lhe são uma ameaça a ser evitada.

Evidenciar e valorizar as semelhanças entre as tradições católica e protestante constitui um esforço necessário e louvável. Todavia, pergunto-me se a fuga das dessemelhanças não superficializa ou, pior ainda, falsifica o diálogo. Notadamente, o ecumenismo que conhecemos está mais voltado para a construção de uma narrativa midiática – que se adeque ao politicamente correto – do que para a instauração de um genuíno diálogo entre corações. Por conta disto, as CFEs, não obstante seu inestimável valor, revelam-se profundamente ambíguas: por um lado, evidenciam as semelhanças entre as tradições católicas e protestante e promovem um suposto diálogo; por outro, mascaram as dessemelhanças existentes entre essas tradições e, consequentemente, superficializam o diálogo, impedindo-nos de fazer uma experiência de alteridade que resulte em fecundas sínteses.

A minha intuição caminha num sentido um pouco distinto do que costuma impulsionar o diálogo entre as tradições católica e protestante: desejo que dialoguemos a partir das dessemelhanças entre essas tradições, precisamente sobre uma dessemelhança teológica que julgo ser de fundamental importância para o aprofundamento da fé – entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.

 

Um ponto de dessemelhança: as dimensões da fé

“A teologia não é Deus”: eis uma proposição ao mesmo tempo sabida e desconsiderada. Todas as teologias, inclusive aquelas que produziram nossos credos, catecismos e concílios, são compreensões e discursos humanos sobre (as revelações de) Deus. Visto que o ser humano sempre sente, compreende e discursa a partir de sua condição subjetiva e histórica, as teologias refletem, em grande medida, o espírito do tempo em que foram formuladas [3].

As teologias católica e protestante apresentam-se, cada uma por sua vez, como um conjunto de tendências que se encontram e se desencontram, de tal modo que, ao invés de falarmos em teologia católica e teologia protestante, seria mais honesto pluralizarmos estas palavras, dizendo assim: teologias católicas e teologias protestantes. Porém, a despeito da reconhecida pluralidade teológica das tradições católica e protestante, arrisco dizer-lhes que, em alguns aspectos, é perfeitamente possível distinguir as teologias católicas das teologias protestantes, e vice-versa. E tais aspectos diferenciadores tem que ver com as condições subjetivas e históricas em que tais teologias formularam suas linhas mestras.

Uma análise comparada das teologias católicas com as teologias protestantes deixa ver várias dessemelhanças entre estas duas grandes tradições cristãs. Dentre essas dessemelhanças, destaco uma: a compreensão sobre as dimensões da fé – e insisto:  entenda-se fé como nossa resposta concreta ao evangelho de Jesus de Nazaré.

As teologias católicas carregam em si a inapagável experiência política da igreja mater et magistra (mãe e mestra), enquanto as teologias protestantes nascem num contexto de transição da Idade Média para a Modernidade, um tempo marcado pela realocação da religião no âmbito privado e pela ênfase na consciência individual. Disso resulta que, por um lado, as teologias católicas acentuam a dimensão comunitário-política da fé, ao passo que as teologias protestantes, por outro lado, enfatizam a dimensão “pessoal” da fé [4]. Noutras palavras: se o horizonte da tradição católica é a igreja universal e o mundo como um todo, os olhos protestantes estão voltados para a pessoa isoladamente ou, quando muito, para a igreja local.

Agora que tomamos conhecimento dessa dessemelhança entre a tradição católica e a tradição protestante, perguntamo-nos: o que isso nos revela? Em primeiro lugar, que estamos diante de um dado de realidade que nos convida a assumir nossas diferenças. Em segundo, que esta diferença em particular nos convida a revisitar a vida de Jesus, conforme narrada nos evangelhos, a fim de revisarmos nossa compreensão sobre as dimensões da fé.

 

A fé de Jesus

Quando caminhamos pelas páginas dos quatro evangelhos canônicos, vemos Jesus igualmente entregue a experiências triviais e a feitos grandiosos. Jesus conversa com uma mulher samaritana à beira de um poço (Jo 4,1-42), anda de mãos dadas com um cego (Mc 8,22-26), abraça uma criança (Mc 9,33-37), contempla os lírios do campo e os passarinhos dos céus (Mt 6,25-34), caminha com dois peregrinos assustados (Lc 24,13-35), assa pão e peixe à beira-mar (Jo 21,1-9) e entrega como herança o convite ao amor profundo (Jo 13,34-35). Com igual vivacidade, Jesus denuncia a corrupção do templo (Jo 2,13-22), chama o rei Herodes de raposa (Lc 13,31-35), desmascara as práticas homicidas dos religiosos (Lc 11,45-52) e ensaia uma revolução social a partir dos empobrecidos (Lc 6,20-26; Mt 25,31-46).

Notadamente, Jesus assume cada instante como experiência de Deus, seja o passarinho que voa e a criança que corre, seja a denúncia da injustiça e a tomada de opção pelos empobrecidos. A fé de Jesus, isto é, seu compromisso com Deus, tem, pois, dimensão pessoal e comunitário-política. Para Jesus, extasiar-se ante uma meiga flor que dança ao vento é uma experiência de fé tão profunda quanto assumir o cruento caminho da cruz.

 

Por uma mística das insignificâncias

A vida de Jesus inspira-nos a viver uma mística das insignificâncias. Mística é experiência profunda de Deus. Martinho Lutero dizia que Deus é tão pequenino a ponto de habitar um grão de areia e tão grandioso a ponto de carregar o mundo na ponta dos dedos. A vida mística é um aperceber-se da presença de Deus nas acontecências mais profanas e corriqueiras e nas experiências mais complexamente articuladas. 

A ênfase exclusiva na dimensão pessoal da fé resulta num individualismo egóico que nos aprisiona em nós mesmos, de modo a não nos sentirmos responsáveis pela transformação do mundo. A acentuação da dimensão comunitário-política da fé, por sua vez, faz-nos esquecer das pequenas coisas, inclusive da necessidade de transformar nosso mundo interior. A mística das insignificâncias nos convida a abrir o coração para implicarmo-nos em tudo. A plenitude da força da fé depende da sensibilização de nosso olhar e da totalidade de nossa entrega.

A CFE 2021, para ser vivida em profundidade, precisa ser dinamizada por uma mística das insignificâncias. Como escreveu o poeta mato-grossense Manoel de Barros:

Poderoso pra mim não é aquele que descobre o ouro.

Pra mim poderoso é aquele que descobre

as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado e chorei.

 

Neste caminho místico, haveremos de perceber que as insignificâncias são, a bem da verdade, apenas aparentes insignificâncias: se é preciso salvar o planeta para preservar os jardins, é igualmente verdade que uma pétala pode salvar o mundo.

 

 

Notas:

[1] Texto apresentado numa roda de conversa da Escola Vivencial de Fé do Movimento de Cursilho da Cristandade, em 16 de março de 2021 (https://www.youtube.com/watch?v=PqJwyYbLjEQ).

[2] Kinno Cerqueira é pastor batista, biblista e assessor do CEBI (Centro de Estudos Bíblicos) na área de estudos bíblicos.

[3] As teologias podem conter em si uma mescla de oposição e negação em relação ao tempo em que foram gestadas e formuladas. O que não há, porém, é neutralidade. Afinal de contas, quem pensa e discursa sempre o faz em reação a outrem, ainda que inconscientemente.  

[4] O aspecto comunitário-político da fé pode ser visto, no âmbito comunitário, na importância conferida à igreja, aos sacramentos, às mediações da graça etc. e, no âmbito político, na existência da DSI (Doutrina Social da Igreja), de consideráveis encíclicas, de pastorais, de grupos de fé e política etc. Por outro lado, a ênfase das teologias protestantes na dimensão pessoal da fé revela-se, por exemplo, na maneira com a qual os protestantes se agarram com a ideia de salvação como resultado da adesão à “verdade” da fé doutrinal, o que se daria, inclusive, sem necessidade de obras de amor.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

DIÁLOGO, COMPROMISSO DE AMOR E AMIZADE SOCIAL

 


Marcelo Barros

 

Pela primeira vez na história, neste 2021 ainda tão excepcional, vivemos esta quarta-feira de cinzas sem ter tido Carnaval. Ainda há católicos que pensam: a quarta-feira de cinzas e a Quaresma existem para se pedir perdão pelos pecados cometidos no Carnaval. Seria como as  cinzas da quarta-feira fossem as fantasias queimadas do Carnaval apenas concluído.

É verdade que, em tempos medievais, os dias de folia surgiram como a última liberdade antes da Quaresma. No entanto, no plano mais profundo, a Quaresma nada tem a ver com a negação das alegrias da vida. Já na Idade Média, Santa Mectildes, monja beneditina, afirmava que Deus é como uma criança que gosta de brincar e nos quer como companheiros/as para criar alegria. Antes dela, no século IV, João Crisóstomo, bispo e pai da Igreja, ensinava: “Mesmo em meio aos sofrimentos do dia a dia, o Cristo ressuscitado vem fazer da nossa vida, uma festa contínua”.

Assim, na antiguidade, a Quaresma surgiu, não para organizar a rotina de quem já peca pensando em depois pedir perdão e sim como tempo no qual se curte a alegria de preparar a celebração anual da Páscoa, sacramento da nossa libertação. Nesta preparação da festa pascal, é fundamental responder ao chamado de Jesus à conversão (metanoia). Ela significa mudança dos critérios e padrões que regem nosso estilo de vida. Isso nada tem a ver com a figura de um Deus mesquinho, recalcado sexualmente, como se fosse um Coronavirus divino, que exige isolamento social e não permite abraços, beijos e contatos corporais.

A conversão proposta por Jesus pede  transformação na nossa forma de olhar o outro. Ensina a nos relacionar com as pessoas e comunidades, de qualquer raça, cultura e religião. Faz-nos assumir o cuidado com todos os seres vivos e com o universo, sacramento da presença divina.   

Neste ano, no Brasil, temos a possibilidade de responder juntos a este apelo pascal do Espírito, através da 5a Campanha da Fraternidade Ecumênica, como sempre, proposta e coordenada pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). Ela tem como lema: Fraternidade e Diálogo: Compromisso de Amor. O tema “Cristo é nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2, 14).

Se as Igrejas cristãs obedecessem à palavra da carta do apóstolo aos efésios e compreendessem a missão de Jesus de forma universal, em relação ao mundo e não apenas à religião, nem precisariam dessa Campanha da Fraternidade. Elas mesmas seriam permanentemente e de modo profundo isso que essa campanha nos traz como tema e como lema. No entanto, alguns grupos eclesiais continuam se comportando como seitas. O primeiro sinal disso é chamar de seitas a outras Igrejas. Por isso, a CFE 2021 se faz necessária e mesmo urgente. Ela faz com que esta celebração da Páscoa nos confirme que a atual separação das Igrejas cristãs chega a ser uma dor muito grande para o Cristo ressuscitado. A divisão entre Igrejas parece tornar inútil tudo o que Jesus, viveu e realizou, já que “ele morreu para reunir na unidade os filhos e filhas de Deus dispersos pelo mundo” (Jo 11, 52).  

Em seu tema, a CFE 2021 repete: “Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2. 14). Poderia ter continuado: “Como as Igrejas parecem ter desfeito o que Jesus fez e terem reconstruído o muro de divisão que o próprio Cristo tinha derrubado (Ef 2, 13), esta Páscoa é ocasião para recompor esta diversidade reconciliada que o Cristo tanto deseja.

Concretamente, toda Campanha da Fraternidade propõe ações de solidariedade que expressem e concretizem o apelo à conversão que acolhemos. Sem dúvida, todos nós somos chamados, em nome da fé e como caminho pascal, a apoiar e fortalecer os grupos, entidades e organismos que buscam politicamente uma frente ampla pela democracia e em defesa dos direitos dos pobres. Precisamos nos posicionar mais efetivamente do lado de profetas como Júlio Lancelotti e tantos outros/as, na defesa das pessoas em situação de rua. Precisamos acolher e valorizar a profecia da solidariedade manifestada pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), durante este longo tempo de pandemia, ao partilhar toneladas de alimento com famílias em situação de insegurança alimentar. Assim, poderíamos elencar dezenas de outras ações, nas quais as Igrejas cristãs devem se mostrar verdadeiramente o que o papa Francisco chama “Igreja em saída”. 

No entanto, no mais cotidiano da vida, o primeiro compromisso ao qual esta Campanha da Fraternidade Ecumênica nos chama é passar da incomunicabilidade e da indiferença social à espiritualidade do diálogo como mística pascal. No tempo dos evangelhos, a incomunicabilidade era considerada sinal de que a pessoa era dominada por uma energia negativa. O surdo-mudo era tido como endemoniado. E Jesus expulsava esse espírito impuro, mesmo de alguém que se manifestasse com esta energia, mesmo no lugar mais sagrado, como era a sinagoga. Hoje, infelizmente, não são apenas pessoas. São grupos eclesiásticos e mesmo alguns ligados ao clero.

Essa CFE 2021 pode ser excelente ritual de exorcismo laical e traduzido na cultura contemporânea. Em seu idioma, Jesus dizia: Effata, que quer dizer: Abre-te. E os ouvidos dos surdos se abriam à escuta e a língua dos mudos se soltava. Hoje, há irmãos e irmãs na fé que nos olham como traidores, porque nos posicionamos contra a discriminação social, a marginalização da mulher, a homofobia e outras expressões de uma sociedade injusta. A eles e elas, podemos dizer também em nome de Jesus: Effata! Abre-te ao diálogo e testemunha que Deus é Amor Incondicional.

Quanto a nós que cremos no Amor, como propunha Gandhi, comecemos por nós mesmos isso que propomos ao mundo.

 

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O DIÁLOGO DE PAULO FREIRE E DOM HELDER CAMARA EM TORNO DA EDUCAÇÃO LIBERTADORA


Prof. Dr. Martinho Condini

 

[Este artigo é uma adaptação do texto que foi publicado no livro A Escola dos Meus Sonhos [livro eletrônico]/Paulo Roberto Padilha...[Et Al] organizadores, São Paulo: Instituto Paulo Freire.2019. p.255 a p.260]

 

Neste artigo apresentarei a educação libertadora de dom Helder à luz da pedagogia de Paulo Freire, isto significa que a prática de dom Helder está diretamente relacionada com a pedagogia de Paulo Freire e que este artigo é uma leitura da pedagogia de Helder à luz de Freire. Isto não significa afirmar que a educação libertadora de dom Helder tenha surgido a partir da pedagogia freireana, mas apenas sustentar que há uma relação direta entre o pensamento e as ações de dom Helder e Paulo Freire. Pretendo mostrar essa relação, pois, para ambos, pobres ou pequeninos, como dizia dom Helder, ou os oprimidos, termo utilizado por Paulo Freire, foram os elementos geradores da construção dos seus pensamentos e práticas.

As semelhanças históricas entre dom Helder e Paulo Freire colaboraram para que tivéssemos uma convergência de ideias em relação ao que ambos pensaram, realizaram e produziram ao longo de suas vidas1.

Ambos nordestinos, um cearense e um pernambucano, oriundos de famílias humildes, tiveram de enfrentar problemas típicos das famílias nordestinas que viviam nas áreas urbanas2: o esforço para o sustento da família, a criação dos filhos e as dificuldades em propiciar a eles uma formação escolar digna e de qualidade.

Após a infância e a adolescência, ambos tiveram rumos profissionais diferentes: dom Helder se tornou um religioso e Paulo Freire, após a formação em Direito, enveredou para a área educacional como professor de língua portuguesa e, posteriormente, tornou-se também um educador. Apesar de dom Helder ser doze anos mais velho que Paulo Freire, eles foram contemporâneos no século XX.

Suas histórias de vida seguiram diferentes caminhos, mas tiveram durante suas carreiras uma preocupação comum: a questão com os excluídos e oprimidos. Atuaram na sociedade com o intuito de possibilitar aos menos favorecidos condições para que os mesmos pudessem se tornar pessoas livres, isto é, em condições de entender a sua realidade e, a partir dela, transformá-la; cada um deles com a sua prática, mas se utilizando de recursos semelhantes.

As circunstâncias históricas fizeram com que ambos, no início do Governo Militar (1964-1985), estivessem vivendo na cidade de Recife. Dom Helder, recém chegado, transferido da cidade do Rio de Janeiro e Paulo Freire, vivendo em sua cidade natal. Nesse período do Governo Militar, Dom Helder e Paulo Freire foram perseguidos pelo regime de exceção.

Paulo Freire, ainda no ano de 1964, foi preso e exilado do país, retornando apenas em 1980. Durante o período no exílio, Paulo Freire produziu todo o arcabouço daquilo que mais tarde veio a ser chamado de pensamento freireano. Paulo Freire teve na experiência do trabalho de alfabetização de adultos no nordeste brasileiro a inspiração para escrever a obra que foi a espinha dorsal do seu trabalho como educador, a Pedagogia do Oprimido, escrita no exílio, no Chile em 1968.

Dom Helder, pela sua condição de arcebispo de Olinda e Recife, pela notoriedade que obteve em função do seu trabalho no Rio de Janeiro e pela liderança que representava dentro da Igreja, permaneceu no Brasil, mas sofreu intensa perseguição do governo, juntamente com seus auxiliares da Arquidiocese de Olinda e Recife, por fazerem oposição ao governo militar.

É inegável que no período ditatorial, mas não só nele, dom Helder e Paulo Freire tiveram intensa influência na formação do pensamento educacional e social brasileiro. Ambos realizaram trabalhos que contribuíram no meio intelectual, como também nas camadas populares da sociedade.

Isso pode ser constatado por meio dos acontecimentos históricos daquele período: Paulo Freire foi perseguido, preso e exilado; dom Helder foi impedido por quatro vezes de receber o prêmio Nobel da Paz e censurado por quase uma década dentro do seu país. Essas perseguições sofridas por ambos fez com que suas vozes e ideias ecoassem fora do Brasil, em oposição à ditadura militar, e a determinação de suas posturas fez com que defendessem suas ideias mesmo com dificuldades e até ameaças pessoais.

Apesar da aproximação histórica de dom Helder e Paulo Freire, de sua contemporaneidade, de morarem na mesma cidade3, ambos nunca realizaram ou produziram algum estudo ou trabalhos juntos. O que podemos constatar é que ambos, em alguns momentos, referiram-se um ao outro de maneira respeitosa, mencionando o trabalho realizado.

Quando Paulo Freire foi libertado da prisão e dom Helder pensou em convidá-lo a auxiliar no trabalho da pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom Helder, na época, fez a seguinte menção ao método de alfabetização de adultos de Paulo Freire: “[...] o método está longe de ser apenas mera alfabetização [...]” (apud PILETTI; PRAXEDES, 2008, p. 257).

O arcebispo de Olinda e Recife foi um importante interlocutor    de Paulo Freire na Igreja, principalmente como elo para a reflexão e entrada do pensamento pedagógico libertador no meio eclesiástico. Após a leitura do livro Pedagogia do Oprimido, em 1971, dom Helder considerou-o “[...] de alcance decisivo para se obter a medida adequada de conscientização, evitando que o oprimido de hoje se transforme no opressor de amanhã” (apud PILETTI; PRAXEDES, 2008, p. 340).

 

Em função do exílio de Paulo Freire, dom Helder o via “[...] como embaixador especial de nosso gênio e de nossa cultura [...]” (Ibidem, p. 341), como escreveu em carta à revista Visão, em setembro de 1971, indicando o educador para o título de Homem de Visão daquele ano. A essa atitude de dom Helder, Paulo Freire, que mantinha pelo arcebispo a mesma admiração, escreveu-lhe agradecendo a indicação.

Em entrevista ao professor Celso de Rui Beisiegel, em 1980, Paulo Freire relatou que “os dois haviam se tornado amigos nos anos 60, quando se aproximaram por intermédio da professora Anita Paes Barreto, e das assistentes sociais Lourdes de Moraes, Dolores Coelho e Hebe Gonçalves, amigas de ambos e colaboradoras das obras sociais de dom Helder em Recife” (Ibidem, p. 341).

Os diálogos entre Paulo Freire com os mais diferentes grupos sociais em torno do assistencialismo teceram a maneira ideológica dele elaborar e atuar em prol dos menos favorecidos. A questão assistencialista o incomodava e, também, os que praticavam o assistencialismo. Em relação a dom Helder, Paulo Freire o colocava fora de uma postura meramente assistencialista, opinião com a qual também concordo.

Esses dois pensadores brasileiros do século XX tinham várias coisas em comum, mas quero destacar, a defesa de uma educação libertadora, pois ambos acreditavam que excluídos e oprimidos da nossa sociedade só sairiam dessa condição por intermédio de uma formação onde os mesmos conquistassem a sua liberdade, ou seja, tivessem um entendimento do mundo a partir da sua realidade para assim, poder transformá-la.

Para Freire, a luta em busca da liberdade se dá simultaneamente em duas esferas: no campo da interioridade humana (consciência) e no campo sociopolítico. A prática da busca pela liberdade está na constante luta pela superação das relações opressoras na sociedade. A liberdade será alcançada quando os homens lutarem pela libertação de todos.

Paulo Freire elaborou exaustivamente o que chamou de libertação:

[...] em sua obra de 1985, intitulada A Política da educação: cultura, poder e libertação. No livro Freire associa a libertação com os oprimidos, os revolucionários, a educação e a Igreja. Freire acreditava que o futuro dos oprimidos é a ‘realização de sua libertação – sem a qual eles não podem ser”. (STRECK, REDIN e ZITKOSKI, 2008, p. 247)

Paulo Freire construiu uma pedagogia libertadora que permeou todo o seu trabalho educacional. A liberdade, a libertação, como a conscientização e a humanização, foram elementos importantes para a construção da pedagogia freireana. Para ele, as pessoas que acreditam na educação libertadora estão comprometidas com uma “[...] práxis social [...], ajudando a libertar os seres humanos da opressão que os sufoca em sua realidade objetiva [...]”. Ele acreditava que “a educação verdadeiramente libertadora só pode ser posta em prática fora do sistema comum, e mesmo assim com grande cautela, por aqueles que superam sua ingenuidade e se comprometem com a libertação autêntica”. (Ibidem, p. 248)

Paulo Freire entendia as relações humanas dentro de um processo libertador por meio do diálogo, em que as pessoas juntas vão tomando consciência de maneira crítica da realidade e a partir daí procuram tomar atitudes que possibilitem fazer mudanças, transformar as suas realidades. Para que homens e mulheres atingissem sua libertação seria necessário se fazer outra leitura do mundo e agir sobre ele.

Para dom Helder, a educação é um dos meios de possibilitar a criação de outra sociedade, de um mundo mais justo e humano. Ele se referia ao processo de uma educação libertadora: “[...] a educação parece, em grande parte, fora da realidade, da verdade, pois não está libertando. E precisamos vitalmente, urgentemente, da coragem de nos unirmos para a educação libertadora. Eis a missão máxima do homem de nossos dias [...]” (CAMARA, 1976, p. 57). O seu questionamento aos setores educacionais era: “[...] a educação que gerou o nosso mundo, liberta ou escraviza?” (Ibidem, p. 55). Tais questionamentos demonstravam que, para dom Helder, as instituições educacionais necessitavam de profundas transformações.

Ele acreditava que era necessário a sociedade se unir para realizar uma educação libertadora, pois, por meio dela, o homem se tornaria não só o principal responsável pelo destino da humanidade como também o construtor de sua história.

A educação libertadora deveria ensinar a importância da humanização, o respeito aos direitos humanos, a justiça, a conscientização política e a igualdade social. Essas propostas apontam para a possibilidade de se construir uma sociedade onde as pessoas se tornem agentes da própria história, condutoras do próprio destino, precursoras do desenvolvimento.

Helder e Freire sempre tiveram coragem de enfrentar desafios e propor mudanças para a melhoria das condições de vida da população e reconheceram na educação libertadora um dos principais elementos para as pessoas realizarem as tão sonhadas transformações sociais.

Apesar da distância física de ambos, Helder e Freire sempre estiveram juntos na esperança de que era possível construir um mundo mais justo, digno e fraterno para todos.

Concluindo, quando penso na “Escola dos Meus Sonhos”, inevitavelmente me vem à lembrança Helder e Freire, pois estou convencido que o trabalho de ambos foi e ainda o é importantíssimo para a construção da “Escola dos Nossos Sonhos”. A “Escola dos Meus Sonhos”, é aquela escola onde a educação seja libertadora, onde as pessoas pensam e se expressam a partir do seu lugar de fala e olhar de mundo, para que possam sair da sua condição de oprimido e adquirirem sua autonomia.

 

Notas de rodapé

2 Dom Helder, na cidade de Fortaleza, e Paulo Freire, na cidade de Recife.

 

3 Dom Helder chegou a Recife em abril de 1964 e Paulo Freire vai para o exílio, na Bolívia, em outubro desse mesmo ano.

 

Referências Bibliográficas

 

CAMARA, Helder P. O deserto é fértil. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976.

 

CONDINI, Martinho. Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire. São Paulo: Paulus Editora. 2014.

 

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara: o profeta da paz. 2ª Ed. São Paulo Contexto, 2008.

 

STRECK, Danilo R, ; REDIN, Euclides; ZITKOSKY, Jaime J. (Orgs.) Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte, MG; Autêntica, 2008.


O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O NECESSÁRIO DIÁLOGO ENTRE A FÉ E A CIÊNCIA


 

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 

O caos que se apossou do Brasil com a chegada do coronavírus apresenta várias dimensões: sanitária, política, ideológica, econômica.  No entanto, há igualmente uma outra dimensão, que eu chamaria aqui de caos do discurso pseudocientífico – em boa parte artificialmente produzido.

 Enquanto os cientistas – médicos, pesquisadores, sanitaristas, técnicos em saúde – explicam à população como se porta a doença, quais as medidas necessárias para combatê-la, outras vozes parecem interferir no processo dessa comunicação adotando uma linguagem que instaura a confusão.   

A ciência é um dos motores do desenvolvimento da humanidade e da vida. Seu progresso tem sido responsável por grandes melhorias na vida humana, sobretudo no decurso do último século, ainda que os frutos desse progresso não tenham sido repartidos equitativamente pelo mundo.  Por outro lado, o mau uso que muitas vezes é feito dos conhecimentos científicos foi, no mesmo século passado, causa das piores provações pelas quais a humanidade teve que passar. Por isso, ainda que o progresso da ciência que a racionalidade moderna possibilitou seja altamente positivo; ainda que se considere correta a afirmação de que a ciência é o motor do desenvolvimento em todas as frentes; os esforços feitos por muitos países e regiões do globo no domínio científico ainda permanecem muito aquém de um mínimo julgado desejável. E boa parte das razões para tal é a manipulação que interesses econômicos, políticos e ideológicos fazem contra a objetividade e a excelência que deve caracterizar toda ciência.  

No momento em que explodiu a pandemia viral, a ciência – a medicina, a biologia, a infectologia e todas as áreas científicas que tratam da vida – ocuparam a linha de frente das atenções.  Buscaram-se orientações, explicações, argumentos lógicos que ajudassem a administrar a tragédia que vivíamos. 

Por outro lado, competições ideológicas e embates políticos, muitas vezes se atravessaram no caminho do trabalho científico.  E isso aconteceu por diversas formas: seja a do obscurantismo, que ataca retoricamente a liberdade de pesquisa científica, seja com políticas públicas retrógradas que cortam verbas e esvaziam institutos e laboratórios de pesquisa.  Em um momento em que a crise ecológica atinge proporções nunca antes vistas, os impactos climáticos são minimizados, e os alertas emitidos pela comunidade científica desprezados como se não fossem evidências objetivas e sim opiniões casuais e não fundamentadas. 

Com o Covid-19 a ciência voltou a ocupar seu papel de baluarte da verdade objetiva e verificável. Tornou-se um refúgio firme para uma sociedade assustada e vulnerabilizada pelo avanço descontrolado da doença e a subida dos números de vítimas fatais. A ciência é, hoje, a linha de frente no combate à pandemia. Fornece à população números, informações, percentagens que permitem ter um quadro do que se passa.  E podem ser vistos ao mesmo tempo inúmeros laboratórios empenhados em encontrar remédios que tratem a doença causada pelo vírus, sequenciando o genoma do vírus em tempo recorde, buscando pelos caminhos da pesquisa apaixonada e responsável uma vacina. 

Há, no entanto, tentativas de travar esse trabalho, muitas delas invocando o nome de Deus.  Contestam-se os dados fornecidos pela ciência, contradizem-se informações precisas e objetivas e se dão orientações conflitantes à população. Afirma-se que Deus salvará a todos do vírus, que o que os cientistas dizem é um exagero, e que o que há que fazer é orar porque Deus nos salvará do vírus.

Desde sempre, em todas as religiões, mas muito concretamente nas religiões monoteístas e mais especificamente no judeu-cristianismo, Deus não se imiscui nos negócios humanos para interferir na ação da própria humanidade na resolução de seus problemas.  O Espírito de Deus inspira, anima, orienta, consola, mas não toma as ferramentas das mãos da humanidade para resolver, em um passe de mágica, as dores e os problemas que essa própria humanidade está passando. 

Toda tentativa ao longo da história de converter Deus em árbitro da ciência, impedindo-a de avançar, já foi suficientemente desmascarada e situada em seu devido lugar: é falsidade e embuste. Assim, governantes despóticos e irresponsáveis que buscam desautorizar os cientistas que dizem a verdade em meio a um momento grave como o que estamos vivendo terão que responder diante do tribunal da história.  E também diante do tribunal divino, que fará cair os véus, desvelando suas tentativas de vendar os olhos do povo com ilusões e falácias, na sua mais atualizada forma: as fake news. 

Em meio à pandemia, a comunidade científica tem construído uma rede sólida de informações, colocando a ciência na vanguarda das políticas de combate à pandemia. Assim, se pode combater o obscurantismo institucionalmente, usando de transparência e honestidade, atualizando constantemente as medidas adotadas e procurando adequar as condições da saúde às reais necessidades decorrentes da própria pandemia.  E a fé não pode estar ausente dessa rede e desse diálogo. 

Falar de Deus em tempos de coronavírus implica  dialogar com a ciência e deixar-lhe plena autonomia no campo e competência que lhe é própria. Não misturar epistemologias ou querer tratar o que releva do campo do biológico com instrumentos falsamente espirituais que matam em vez de curar e alimentam políticas genocidas, empurrando as pessoas para o contágio e muito provavelmente para a morte. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros

 

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