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quinta-feira, 28 de setembro de 2023

RELIGIÃO LIBERTADORA

 


Frei Betto


 

       Se a religião, como assinalou Karl Marx, é “o coração de um mundo sem coração” e “o suspiro da criatura oprimida”, é, portanto, uma forma de protesto diante do mundo real. É, para a pessoa religiosa, sua teoria geral do mundo, seu compêndio enciclopédico, sua lógica dentro da cultura popular.

Pergunte a qualquer trabalhador sem escolaridade – cozinheira, camponês, faxineiro -, o que pensa do mundo, da vida e da morte. Com certeza lhe dará uma resposta tecida em categorias religiosas. Afirmação semelhante seria feita anos depois por Nietzsche, para quem o Cristianismo é um platonismo para o povo.

        Fidel me afirmou na entrevista que relato  no livro Fidel e a religião: “Se você me diz que nas atuais condições da América Latina é um erro acentuar as diferenças filosóficas com os cristãos que, como parte majoritária do povo, são as vítimas massivas do sistema, então eu diria que você tem razão. Embora o prioritário fosse, a meu ver, concentrar o esforço em conscientizar para unir em uma mesma luta todos os que carregam uma mesma aspiração de justiça.’   

E muito mais lhe dou razão quando se observa a tomada de consciência dos cristãos ou de importante parcela deles na América Latina. Se partimos desse fato e das condições concretas, é absolutamente correto e justo exigir que o movimento revolucionário tenha um enfoque adequado da questão e evite, a todo custo, uma retórica doutrinal que entre em choque com os sentimentos religiosos da população, inclusive de trabalhadores, de camponeses e de setores médios, o que só serviria para ajudar o próprio sistema de exploração.’

 “Eu diria que, frente a uma nova realidade, deveria haver uma mudança no tratamento da questão e nos enfoques da esquerda. Nisso concordo inteiramente com você. Para mim, é inquestionável. Mas durante um longo período histórico, no qual a fé foi utilizada como instrumento de dominação e de opressão, há lógica no fato de os homens que desejaram mudar esse sistema injusto terem entrado em choque com as crenças religiosas, com aqueles instrumentos e com aquela fé.”

“Creio que a grande importância histórica do que você denomina Teologia da Libertação, ou Igreja da libertação – como preferir -, é precisamente sua profunda repercussão nas concepções políticas dos cristãos. E eu diria algo mais: significa o reencontro dos cristãos de hoje com os cristãos de ontem, dos primeiros séculos, quando surgiu o cristianismo depois de Cristo.”

        Com o objetivo de resgatar o Cristianismo primitivo, valorizado por Engels e Fidel, publiquei, em agosto de 2022, o livro Jesus militante – o Evangelho e o projeto político do Reino de Deus, no qual defendo, baseado em análise detalhada do Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, que Jesus não veio fundar uma religião, o Cristianismo, ou uma Igreja, a cristã. Veio nos propor um novo projeto civilizatório, político, fundado em dois pilares: nas relações pessoais, o amor; nas relações sociais, a partilha dos bens da natureza e daqueles produzidos pelo trabalho humano. A esse projeto, ele denominava Reino de Deus em oposição ao reino de César, sob o qual vivia. Por isso, acusado de sedição, sofreu prisão política e foi condenado à pena de morte na cruz. 

        A experiência socialista comprovou, entretanto, que mesmo combatendo a “miséria real” a religião não desaparece. Como não desaparecem outros fatores que transcendem a razão humana: a arte e o amor. Até porque tanto o marxismo quanto as religiões são sistemas de sentido. Pretendem explicar a vida e a história humanas, assim como o capitalismo. A diferença é que as religiões são sistemas de sentido mais abrangentes, vão além do que pode ser esclarecido pela ciência e pelos paradigmas da estética; explicam desde a importância do perdão na reconciliação de duas pessoas que se desentenderam até a origem do Universo e da vida e o que se passa após a morte. 

       Fidel declarou na entrevista: “Quando Marx criou a Internacional dos trabalhadores, havia entre eles muitos cristãos. Também na Comuna de Paris havia muitos cristãos entre os que lutaram e morreram. Não há uma só frase de Marx excluindo aqueles cristãos, dentro da linha ou da missão histórica de levar adiante a revolução social. Se vamos mais além e recordamos todas as discussões em torno do programa do Partido Bolchevista, fundado por Lênin, você não encontra uma só palavra que exclua os cristãos do Partido. A principal exigência é a aceitação do programa do Partido como condição para ser militante. De modo que aquela frase tem valor histórico e é absolutamente justa em determinado momento.’

“Neste momento, podem existir circunstâncias em que ela ainda seja expressão de uma realidade. Em qualquer país no qual a hierarquia católica ou a de outra Igreja esteja estreitamente associada ao imperialismo, ao neocolonialismo, à exploração dos povos e dos homens e à repressão, não devemos nos surpreender que alguém repita que “a religião é o ópio do povo”.

       Ao contrário de todas as previsões iluministas, o fenômeno religioso não apenas impregna a cultura de povos do mundo inteiro, como se mostra em ascensão. E as forças de direita se apegam resolutamente a ele por reconhecerem seu alcance popular, o que facilita a manipulação das consciências rumo à naturalização das desigualdades sociais, à exaltação da meritocracia individual e à abnegação em situação de opressão. 

       Neste sentido, a religião disseminada pela direita é, sim, um ópio que tem por objetivo desmobilizar as forças populares potencialmente revolucionárias, de modo a postergarem para a eternidade o direito a uma vida digna e feliz.

       Na América Latina, o fenômeno se apresenta sobretudo pelo fundamentalismo cristão de Igrejas evangélicas e setores do catolicismo. Os dados mostram que nosso Continente, tradicionalmente católico, tende a ser, agora, predominantemente evangélico de perfil protestante neopentecostal. Portanto, devidamente legitimador do sistema capitalista.

       O progressismo das Comunidades Eclesiais de Base e de seu fruto mais expressivo, a Teologia da Libertação, tão vigentes entre as décadas de 1970-1990, refluiu sob os 34 anos de pontificados conservadores de João Paulo II e Bento XVI. O papa Francisco se empenha em recuperar o terreno perdido, embora saiba que, hoje, ele é a cabeça progressista de um corpo estruturalmente conservador.

       Por sua vez, a esquerda mundial se viu abalada sob os escombros do Muro de Berlim. Na Europa, ela se esfacelou e amplos segmentos foram absorvidos pelo neoliberalismo. Na América Latina, ela abandonou os propósitos revolucionários para se adaptar a programas políticos sociais-democratas assumidos por partidos e governos progressistas. O pensamento marxista ficou recolhido às bibliotecas e o socialismo, à exceção de Cuba, deixou de ser um objetivo histórico.

       A questão que me parece mais importante, na atual conjuntura, é a politização, organização e mobilização dos amplos setores populares, quase sempre impregnados de forte religiosidade cristã. Numa palavra: retornar ao trabalho de base, tão intenso na América Latina nas décadas de 1960 a 1990. Retirar Paulo Freire das prateleiras de livros. Desafio nada fácil considerando que, hoje, esses setores em muitos países estão sob o comando de pastores e padres fundamentalistas, braços do narcotráfico, milícias ou grupos paramilitares. 

       Se em nosso povo a porta da razão é o coração e a chave do coração a religião, a esquerda terá que necessariamente abraçar a pedagogia do trabalho popular que leva em conta o fator religioso. O discurso político nem sempre encontra eco nas camadas populares, muitas delas decepcionadas com partidos e governos. A hermenêutica religiosa terá que entrar na pauta da militância de esquerda. Não para manipular consciências, como faz a direita, e sim para reaprender a valorizar a fé das pessoas mais simples e ajudá-las a fazer uma leitura libertadora da Bíblia, considerada por elas Palavra de Deus.

       Se em países como Brasil e México a esquerda, para ter êxito, deverá sempre contar como aliadas a Virgem de Aparecida e a Virgem de Guadalupe, em toda a América Latina não há como avançar para superar o capitalismo e implantar uma sociedade socialista sem ter como aliado o companheiro Jesus de Nazaré. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Paraíso perdido – viagens pelo mundo socialista”, entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Sinodalidade e Caminhada Libertadora

 Marcelo Barros


 

Daqui a um mês, o papa Francisco completará dez anos como bispo de Roma e papa, ou seja, patriarca-primaz das Igrejas da comunhão católico-romana em todo o mundo. O que marca este aniversário é o seu convite para que toda a Igreja Católica se organize a partir da Sinodalidade.

De fato, a Sinodalidade foi a forma da Igreja se organizar durante os primeiros séculos. Ao convocar o Sínodo, o papa citou João Crisóstomo, que, no século IV afirmava: “Sinodalidade é o jeito normal de ser Igreja”.  

Etimologicamente, Sinodalidade significa “caminhar juntos”. No Brasil, desde 1970, estimuladas pela 2ª Conferência dos Bispos Latino-americanos,  várias Igrejas locais se abriram às comunidades eclesiais de base. Essas dioceses mais abertas sempre foram pluralistas. Contavam com grupos de tendências diversas, mas, as Cebs  influíram muito no seu modo de viver a missão. Essas Igrejas locais se tornaram conhecidas como “Igrejas da Caminhada”. Apesar de não se definirem como sinodais, viviam a Sinodalidade como “caminhada” de inserção no mundo social e político, a partir da Espiritualidade Ecumênica Libertadora.

O principal inimigo desta Sinodalidade a partir de baixo foi o próprio Vaticano, que, até que Francisco se tornasse bispo de Roma, não apoiou a Caminhada das Cebs e das dioceses que se organizaram a partir delas.  Até então, as Igrejas locais que se inseriram profeticamente na caminhada dos pobres sofreram perseguições e foram marginalizadas.

Atualmente, muitas dioceses e paróquias privilegiam como modo de viver a fé um devocionalismo barroco sentimental e pouco profundo. Em visita recente ao sul da Itália, o papa Francisco se referiu a esse gosto de muitos clérigos jovens como nostalgia do tempo de suas avós.

De fato, o projeto pastoral de muitas dioceses e paróquias é o retorno à Cristandade, ou seja, a uma Igreja centralizada, com hierarquia poderosa e influente. É um modelo de Igreja, claramente anti-sinodal, baseado na divisão entre sagrado e profano e centrado na exterioridade do culto e na rigidez de regras morais, imposta ao menos aos de fora.

Nesta, a maioria dos religiosos/as, padres e bispos acolhe a proposta da Sinodalidade, porque o papa mandou e nos ambientes eclesiásticos, é o assunto da moda. No entanto, não se deixam penetrar pelo espírito da Sinodalidade. Não querem viver uma Igreja sinodal.

A eclesiologia da Igreja local, proposta pelo Concílio Vaticano II, ao afirmar que cada Igreja particular é plenamente Igreja e não apenas filial de Roma ainda é pouco compreendida e aceita. Mesmo alguns setores abertos e ligados à caminhada dos pobres critica o clericalismo e o autoritarismo de Roma, mas o aceita, se este puder lhe ser favorável.

 A sinodalidade pede de nós superarmos o Direito Canônico e os argumentos de cúria.  Pretender Sinodalidade em Igreja clerical e baseada no poder hierárquico é querer tornar possível a quadratura do círculo.

A base do sistema de Cristandade é a fé em um Deus como Senhor todo-poderoso que legitima as estruturas injustas do mundo. Divide as pessoas em crentes e descrentes, santos e pecadores. É um deus narcisista que precisa ser agradado para salvar as almas. Conforme os evangelhos, Jesus combateu e denunciou este tipo de religião. Por isso, os sacerdotes do templo pediram ao governador romano para condená-lo à morte. 

Já no final do Concílio Vaticano II, ao assinarem o Pacto das Catacumbas, um grupo de bispos se comprometeu a romper com o modelo autoritário do poder e se tornarem pobres junto com os pobres, em uma Igreja servidora da humanidade. Há anos, o saudoso profeta Pedro Casaldáliga afirmava que a Igreja de Jesus Cristo não é democrática, porque tem de ir além da Democracia e ser Comunhão. A Sinodalidade não põe em questão a diversidade de ministérios. Reconhece e valoriza os carismas de coordenação eclesial, mas pede que se renuncie ao estilo de poder hierárquico que nada tem a ver com Jesus e o seu evangelho.

Esta proposta da Sinodalidade não diz respeito só internamente à Igreja. Caminhar juntos e suscitar estruturas participativas é desafio espiritual, mas também social e político para toda a sociedade. Mais do que em outras épocas, em vários países, a Democracia é posta à prova por grupos de elite e governantes que admiram o autoritarismo e elogiam ditaduras militares. Torna-se assim, ainda mais urgente o apelo do papa Francisco em sua carta-encíclica  Fratelli Tutti: o desafio de construir uma fraternidade universal que assegure Paz e Justiça eco-social para todos e todas, tendo a Vida em primeiro lugar.  Sob outros nomes e com outras designações, o projeto de Sinodalidade para as Igrejas pode e deve valer para toda a sociedade como caminho para um novo mundo possível.

terça-feira, 14 de junho de 2022

A mística libertadora da Mãe-Terra


Marcelo Barros


 

Nestes dias, o sul do Brasil vive fortes ondas de frio. No Nordeste, o volume das chuvas foi excepcional. Nesta sociedade, marcada pelo descuido com os mais empobrecidos, provocou muitas mortes, inúmeras pessoas desabrigadas e grandes sofrimentos. Notícias internacionais revelam: “A revista Planet Lancet Planetary, publicação científica, revela o resultado da pesquisa de 30 pesquisadores internacionais: Em todo o mundo, a cada ano, a poluição mata nove milhões de pessoas. De 2021 para o final de março de 2022, em cada seis mortes, uma foi provocada pela destruição da natureza e pela contaminação do ar, da água ou do solo. Morrem três vezes mais pessoas, vítimas da poluição, do que de todas as outras doenças que afetam a humanidade. Em todos os continentes, esses fatores têm sido provocados pela industrialização forçada, pela explosão demográfica e urbanização descontrolada” (Le Monde, 5ª feira, 19/ 05/ 2022 p. 9).

É nesta realidade que, neste domingo, 05 de junho, a ONU celebra o Dia mundial do ambiente e cuidado com a Mãe Terra. Há 50 anos, nesta mesma data, em 1972, se inaugurava em Estocolmo, na Suécia, a 1ª Conferência Global sobre o Clima e Mudanças Climáticas.  Agora, 50 anos depois, novamente cientistas e ativistas da Ecologia se reunirão para tentar deter a marcha da destruição da vida. Os dados apontam que esta forma de organizar a sociedade e a economia já provocou a extinção de mais de 90% das espécies vivas no planeta Terra e ainda há algumas ameaçadas de extinção.  

É compreensível que muitas pessoas se perguntem o que podemos nós, cidadãos e cidadãs comuns fazer por esta causa. Antes de mais nada tomar consciência de que as mudanças climáticas e fenômenos como secas, inundações, terremotos e ondas de extremo calor ou de frio intenso têm sido provocados pela ação da sociedade. As centenas de pessoas que, na semana passada, morreram nas inundações da Zona da Mata de Pernambuco e Alagoas não foram em si vítimas da chuva e sim da sociedade que relega os pobres às áreas de risco, constrói bairros inteiros sem se preocupar com a rede de escoamento de água e dejetos líquidos e visando apenas o lucro da elite que, em geral, não se expõe nestas horas. Em anos de eleições, as pessoas comuns podem sim votarem em candidatos/as que se comprometam com uma agenda ecológica séria. No Brasil, todas as pessoas que votaram no atual governo e nos atuais congressistas são corresponsáveis da destruição da Amazônia, do Pantanal e de todos os biomas do nosso país.

Neste ano, coincidentemente, neste domingo 05 de junho, Dia Mundial do Meio Ambiente,  as comunidades cristãs de Igrejas históricas celebram a festa de Pentecostes que recorda que o Espírito Santo, ventania do amor divino, se espalha sobre todo o universo. O livro dos Atos dos Apóstolos conta que, no primeiro Pentecostes cristão, pessoas das mais diferentes nações  puderam escutar o que os apóstolos diziam, cada um em sua língua e cultura própria (Atos 2). Isso significa que o Espírito Divino se manifesta nas mais diversas formas, conforme as espiritualidades próprias de cada grupo e cada cultura. Pode ser descoberto no culto dos Encantados indígenas, dos Orixás afro-brasileiros e em todo cuidado com a Ecologia Integral. Onde há cuidado com a Vida e responsabilidade uns com os outros e com a natureza, aí se manifesta o sopro divino do Amor.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O DIÁLOGO DE PAULO FREIRE E DOM HELDER CAMARA EM TORNO DA EDUCAÇÃO LIBERTADORA


Prof. Dr. Martinho Condini

 

[Este artigo é uma adaptação do texto que foi publicado no livro A Escola dos Meus Sonhos [livro eletrônico]/Paulo Roberto Padilha...[Et Al] organizadores, São Paulo: Instituto Paulo Freire.2019. p.255 a p.260]

 

Neste artigo apresentarei a educação libertadora de dom Helder à luz da pedagogia de Paulo Freire, isto significa que a prática de dom Helder está diretamente relacionada com a pedagogia de Paulo Freire e que este artigo é uma leitura da pedagogia de Helder à luz de Freire. Isto não significa afirmar que a educação libertadora de dom Helder tenha surgido a partir da pedagogia freireana, mas apenas sustentar que há uma relação direta entre o pensamento e as ações de dom Helder e Paulo Freire. Pretendo mostrar essa relação, pois, para ambos, pobres ou pequeninos, como dizia dom Helder, ou os oprimidos, termo utilizado por Paulo Freire, foram os elementos geradores da construção dos seus pensamentos e práticas.

As semelhanças históricas entre dom Helder e Paulo Freire colaboraram para que tivéssemos uma convergência de ideias em relação ao que ambos pensaram, realizaram e produziram ao longo de suas vidas1.

Ambos nordestinos, um cearense e um pernambucano, oriundos de famílias humildes, tiveram de enfrentar problemas típicos das famílias nordestinas que viviam nas áreas urbanas2: o esforço para o sustento da família, a criação dos filhos e as dificuldades em propiciar a eles uma formação escolar digna e de qualidade.

Após a infância e a adolescência, ambos tiveram rumos profissionais diferentes: dom Helder se tornou um religioso e Paulo Freire, após a formação em Direito, enveredou para a área educacional como professor de língua portuguesa e, posteriormente, tornou-se também um educador. Apesar de dom Helder ser doze anos mais velho que Paulo Freire, eles foram contemporâneos no século XX.

Suas histórias de vida seguiram diferentes caminhos, mas tiveram durante suas carreiras uma preocupação comum: a questão com os excluídos e oprimidos. Atuaram na sociedade com o intuito de possibilitar aos menos favorecidos condições para que os mesmos pudessem se tornar pessoas livres, isto é, em condições de entender a sua realidade e, a partir dela, transformá-la; cada um deles com a sua prática, mas se utilizando de recursos semelhantes.

As circunstâncias históricas fizeram com que ambos, no início do Governo Militar (1964-1985), estivessem vivendo na cidade de Recife. Dom Helder, recém chegado, transferido da cidade do Rio de Janeiro e Paulo Freire, vivendo em sua cidade natal. Nesse período do Governo Militar, Dom Helder e Paulo Freire foram perseguidos pelo regime de exceção.

Paulo Freire, ainda no ano de 1964, foi preso e exilado do país, retornando apenas em 1980. Durante o período no exílio, Paulo Freire produziu todo o arcabouço daquilo que mais tarde veio a ser chamado de pensamento freireano. Paulo Freire teve na experiência do trabalho de alfabetização de adultos no nordeste brasileiro a inspiração para escrever a obra que foi a espinha dorsal do seu trabalho como educador, a Pedagogia do Oprimido, escrita no exílio, no Chile em 1968.

Dom Helder, pela sua condição de arcebispo de Olinda e Recife, pela notoriedade que obteve em função do seu trabalho no Rio de Janeiro e pela liderança que representava dentro da Igreja, permaneceu no Brasil, mas sofreu intensa perseguição do governo, juntamente com seus auxiliares da Arquidiocese de Olinda e Recife, por fazerem oposição ao governo militar.

É inegável que no período ditatorial, mas não só nele, dom Helder e Paulo Freire tiveram intensa influência na formação do pensamento educacional e social brasileiro. Ambos realizaram trabalhos que contribuíram no meio intelectual, como também nas camadas populares da sociedade.

Isso pode ser constatado por meio dos acontecimentos históricos daquele período: Paulo Freire foi perseguido, preso e exilado; dom Helder foi impedido por quatro vezes de receber o prêmio Nobel da Paz e censurado por quase uma década dentro do seu país. Essas perseguições sofridas por ambos fez com que suas vozes e ideias ecoassem fora do Brasil, em oposição à ditadura militar, e a determinação de suas posturas fez com que defendessem suas ideias mesmo com dificuldades e até ameaças pessoais.

Apesar da aproximação histórica de dom Helder e Paulo Freire, de sua contemporaneidade, de morarem na mesma cidade3, ambos nunca realizaram ou produziram algum estudo ou trabalhos juntos. O que podemos constatar é que ambos, em alguns momentos, referiram-se um ao outro de maneira respeitosa, mencionando o trabalho realizado.

Quando Paulo Freire foi libertado da prisão e dom Helder pensou em convidá-lo a auxiliar no trabalho da pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom Helder, na época, fez a seguinte menção ao método de alfabetização de adultos de Paulo Freire: “[...] o método está longe de ser apenas mera alfabetização [...]” (apud PILETTI; PRAXEDES, 2008, p. 257).

O arcebispo de Olinda e Recife foi um importante interlocutor    de Paulo Freire na Igreja, principalmente como elo para a reflexão e entrada do pensamento pedagógico libertador no meio eclesiástico. Após a leitura do livro Pedagogia do Oprimido, em 1971, dom Helder considerou-o “[...] de alcance decisivo para se obter a medida adequada de conscientização, evitando que o oprimido de hoje se transforme no opressor de amanhã” (apud PILETTI; PRAXEDES, 2008, p. 340).

 

Em função do exílio de Paulo Freire, dom Helder o via “[...] como embaixador especial de nosso gênio e de nossa cultura [...]” (Ibidem, p. 341), como escreveu em carta à revista Visão, em setembro de 1971, indicando o educador para o título de Homem de Visão daquele ano. A essa atitude de dom Helder, Paulo Freire, que mantinha pelo arcebispo a mesma admiração, escreveu-lhe agradecendo a indicação.

Em entrevista ao professor Celso de Rui Beisiegel, em 1980, Paulo Freire relatou que “os dois haviam se tornado amigos nos anos 60, quando se aproximaram por intermédio da professora Anita Paes Barreto, e das assistentes sociais Lourdes de Moraes, Dolores Coelho e Hebe Gonçalves, amigas de ambos e colaboradoras das obras sociais de dom Helder em Recife” (Ibidem, p. 341).

Os diálogos entre Paulo Freire com os mais diferentes grupos sociais em torno do assistencialismo teceram a maneira ideológica dele elaborar e atuar em prol dos menos favorecidos. A questão assistencialista o incomodava e, também, os que praticavam o assistencialismo. Em relação a dom Helder, Paulo Freire o colocava fora de uma postura meramente assistencialista, opinião com a qual também concordo.

Esses dois pensadores brasileiros do século XX tinham várias coisas em comum, mas quero destacar, a defesa de uma educação libertadora, pois ambos acreditavam que excluídos e oprimidos da nossa sociedade só sairiam dessa condição por intermédio de uma formação onde os mesmos conquistassem a sua liberdade, ou seja, tivessem um entendimento do mundo a partir da sua realidade para assim, poder transformá-la.

Para Freire, a luta em busca da liberdade se dá simultaneamente em duas esferas: no campo da interioridade humana (consciência) e no campo sociopolítico. A prática da busca pela liberdade está na constante luta pela superação das relações opressoras na sociedade. A liberdade será alcançada quando os homens lutarem pela libertação de todos.

Paulo Freire elaborou exaustivamente o que chamou de libertação:

[...] em sua obra de 1985, intitulada A Política da educação: cultura, poder e libertação. No livro Freire associa a libertação com os oprimidos, os revolucionários, a educação e a Igreja. Freire acreditava que o futuro dos oprimidos é a ‘realização de sua libertação – sem a qual eles não podem ser”. (STRECK, REDIN e ZITKOSKI, 2008, p. 247)

Paulo Freire construiu uma pedagogia libertadora que permeou todo o seu trabalho educacional. A liberdade, a libertação, como a conscientização e a humanização, foram elementos importantes para a construção da pedagogia freireana. Para ele, as pessoas que acreditam na educação libertadora estão comprometidas com uma “[...] práxis social [...], ajudando a libertar os seres humanos da opressão que os sufoca em sua realidade objetiva [...]”. Ele acreditava que “a educação verdadeiramente libertadora só pode ser posta em prática fora do sistema comum, e mesmo assim com grande cautela, por aqueles que superam sua ingenuidade e se comprometem com a libertação autêntica”. (Ibidem, p. 248)

Paulo Freire entendia as relações humanas dentro de um processo libertador por meio do diálogo, em que as pessoas juntas vão tomando consciência de maneira crítica da realidade e a partir daí procuram tomar atitudes que possibilitem fazer mudanças, transformar as suas realidades. Para que homens e mulheres atingissem sua libertação seria necessário se fazer outra leitura do mundo e agir sobre ele.

Para dom Helder, a educação é um dos meios de possibilitar a criação de outra sociedade, de um mundo mais justo e humano. Ele se referia ao processo de uma educação libertadora: “[...] a educação parece, em grande parte, fora da realidade, da verdade, pois não está libertando. E precisamos vitalmente, urgentemente, da coragem de nos unirmos para a educação libertadora. Eis a missão máxima do homem de nossos dias [...]” (CAMARA, 1976, p. 57). O seu questionamento aos setores educacionais era: “[...] a educação que gerou o nosso mundo, liberta ou escraviza?” (Ibidem, p. 55). Tais questionamentos demonstravam que, para dom Helder, as instituições educacionais necessitavam de profundas transformações.

Ele acreditava que era necessário a sociedade se unir para realizar uma educação libertadora, pois, por meio dela, o homem se tornaria não só o principal responsável pelo destino da humanidade como também o construtor de sua história.

A educação libertadora deveria ensinar a importância da humanização, o respeito aos direitos humanos, a justiça, a conscientização política e a igualdade social. Essas propostas apontam para a possibilidade de se construir uma sociedade onde as pessoas se tornem agentes da própria história, condutoras do próprio destino, precursoras do desenvolvimento.

Helder e Freire sempre tiveram coragem de enfrentar desafios e propor mudanças para a melhoria das condições de vida da população e reconheceram na educação libertadora um dos principais elementos para as pessoas realizarem as tão sonhadas transformações sociais.

Apesar da distância física de ambos, Helder e Freire sempre estiveram juntos na esperança de que era possível construir um mundo mais justo, digno e fraterno para todos.

Concluindo, quando penso na “Escola dos Meus Sonhos”, inevitavelmente me vem à lembrança Helder e Freire, pois estou convencido que o trabalho de ambos foi e ainda o é importantíssimo para a construção da “Escola dos Nossos Sonhos”. A “Escola dos Meus Sonhos”, é aquela escola onde a educação seja libertadora, onde as pessoas pensam e se expressam a partir do seu lugar de fala e olhar de mundo, para que possam sair da sua condição de oprimido e adquirirem sua autonomia.

 

Notas de rodapé

2 Dom Helder, na cidade de Fortaleza, e Paulo Freire, na cidade de Recife.

 

3 Dom Helder chegou a Recife em abril de 1964 e Paulo Freire vai para o exílio, na Bolívia, em outubro desse mesmo ano.

 

Referências Bibliográficas

 

CAMARA, Helder P. O deserto é fértil. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976.

 

CONDINI, Martinho. Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire. São Paulo: Paulus Editora. 2014.

 

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara: o profeta da paz. 2ª Ed. São Paulo Contexto, 2008.

 

STRECK, Danilo R, ; REDIN, Euclides; ZITKOSKY, Jaime J. (Orgs.) Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte, MG; Autêntica, 2008.


O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

quinta-feira, 2 de abril de 2015

PARA QUE SERVE A EDUCAÇÃO?

por Frei Betto

                                                        

      Uma educação crítica e cooperativa é capaz de reproduzir as bases materiais e espirituais de uma sociedade baseada na solidariedade.

      A educação detém o poder de destronar uma racionalidade dominante para introduzir outra, desde que não seja meramente teórica e se vincule a processos efetivos de produção material da existência.

      Não diferimos dos animais por nossa capacidade de pensar, e sim de reproduzir nossos meios de sobrevivência.

      Uma educação libertadora é a que almeja conquistar hegemonia por consenso, por práticas efetivas, e não por coerção ideológica. Deve abranger todas as disciplinas escolares, das ciências exatas à educação física, superando relações fundadas na economia de trocas para a economia solidária, baseada na cooperação.

      As relações mercantilistas influem nas concepções daqueles que as adotam ou se deixam reger por elas, pois  acentuam o individualismo e induzem os educandos a acreditar que o mercado obedece a uma “lei natural”, e que fora dele não há alternativa... É isso que nos leva a, literalmente, torturar a natureza para que ela nos forneça seus frutos o quanto antes.

      Há que perguntar: para que serve a educação? Para adaptar os educandos ao status quo? Para transmitir o patrimônio cultural da humanidade como se ele resultasse da ação destemida de heróis e gênios? Para formar mão de obra qualificada ao mercado de trabalho? Para adestrar indivíduos competitivos?

      Um educação crítica e solidária engloba todos os atores da instituição escolar: alunos, professores, funcionários e suas respectivas famílias. E ultrapassa os muros da escola para se vincular participativamente ao bairro, à cidade, ao país e ao mundo.

      As portas da escola permanecem abertas a movimentos sociais, atores políticos, artistas, trabalhadores. E a ótica de seu processo pedagógico enfatiza esta verdade que a lógica mercantilista tenta encobrir: tanto a evolução da natureza quanto a história da humanidade têm seus fundamentos muito mais centrados na cooperação, na solidariedade, que na seleção natural, na competitividade e na exclusão.

      O valor da escola se avalia por sua capacidade de inserir educandos e educadores em práticas sociais cooperativas e libertadoras. Por isso é indispensável que a escola tenha clareza de seu projeto político pedagógico, em torno do qual deve prevalecer o consenso de seus educadores. Sem essa perspectiva, a escola corre o risco de ficar refém da camisa de força de sua grade curricular, como mero aparelho burocrático de reprodução bancária do saber.

      Reinventar o futuro é começar por revolucionar a escola, transformando-a em um espaço cooperativo no qual se intercalem a formação intelectual (consciência crítica), científica e artística de protagonistas sociais comprometidos eticamente com os desafios de construir outros mundos possíveis, fundados na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.


Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Mário Sérgio Cortella, de “Sobre a esperança” (Papirus), entre outros livros. 


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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
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