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sábado, 23 de outubro de 2021

O Estado burguês e uma educação quase inútil

 Prof. Martinho Condini


 

Os clássicos do marxismo, em sua práxis política, trataram do Estado como uma realidade mais complexa do que a definição da teoria marxista do Estado.

No marxismo o aparelho repressivo de Estado compreende o governo, a administração, o exército, a polícia, os tribunais, as prisões, a educação, etc. Eles são repressivos porque através da violência (física ou não, como a violência administrativa), exercem o suposto papel de guardiãs da sociedade.

Para Gramsci o Estado não se resumia ao aparelho repressivo, mas que este é composto de aparelhos ideológicos representados por instituições inseridas na sociedade civil.

Quando falamos dos aparelhos ideológicos de Estado estamos nos referindo: a família, a escola, a religião, a justiça, ao sistema político, aos sindicatos, a cultura (letras, belas artes, esportes, cinema, teatro, etc.), a imprensa, o rádio, a televisão, as redes sociais e a relação capital-trabalho tão perverso no capitalismo selvagem e neoliberal que aflige as sociedades.

Apesar das diferenças existentes entre o aparelho repressivo do Estado e os aparelhos ideológicos do Estado, ambos caminham juntos em perfeita harmonia em prol dos interesses daqueles que estão no comando do Estado e a serviço dos grupos que eles representam, ou seja, a classe dominante.

Estes aparelhos ideológicos funcionam por meio da ideologia das classes dominantes que detêm o poder e o controle do Estado e, conseqüentemente, dispõe do aparelho repressivo de Estado a seu favor.

Mesmo diante desta hegemonia e controle das classes dominantes, os aparelhos ideológicos de Estado são também espaços e lugares de luta de classes, pois neles as classes exploradas podem resistir e encontrar formas de resistência, como por exemplo, a escola. Quero ressaltar o quanto é importante o papel da professora e do professor nesse engajamento e resistência. A escola é também um espaço de luta, não nos esqueçamos que educar para a liberdade é um ato político. E isso se dá através do diálogo e da conscientização, e não por meio do controle e da dogmatização realizada pelo aparelhamento do Estado.     

Muitas vezes a escola funciona como aparelho ideológico de Estado com muita eficiência, pois tem nele uma matéria prima de rica potencialidade a ser moldada. Às crianças e os jovens são inseridos os valores sociais, morais, filosóficos e éticos que interessa ao Estado burguês e não valores universais. E temos que considerar que a presença dessas crianças e jovens na escola é obrigatória por anos, o que facilita a sua doutrinação.

Por isso, é fundamental que professoras e professoras dentro do espaço escolar suspeitem do trabalho que o Estado os obriga a fazer. Por isso, não devem se deixar levar pelo tão natural e o raso discurso da importância da escola a qualquer preço. De qual escola? De qual Educação? Bancária ou Libertadora? Se for aquela escola quase inútil que tem como principal objetivo atingir os índices dos sistemas avaliativos governamentais para que o Estado receba verbas do Banco Mundial, essa? Interessa a quem?

Mas há uma parcela de professoras e professores se desinteressam em fazer esses questionamentos ao Estado que lhe paga o salário e lhe garante o sustento da família. Mas é importante não  esquecermos  que escola não é fábrica e crianças e jovens vão para a escola para aprender e ensinar, construir conhecimento com o outro e se espantar com as surpresas e os desafios. E que professoras e professores não são meros papagaios de pirata repetidores das ideias e práticas determinadas pelos lacaios que comandam o Estado burguês.

  Por outro lado, o alento é que há muitas professoras e professores engajados na resistência e na luta, que diuturnamente no chão da sala de aula, com muito trabalho enfrentam com garra e galhardia essa nobre tarefa da ensinagem e da aprendizagem que liberta.

E a qualquer vacilo do Estado em mostrar suas garras, lutam pela dignidade e liberdade de seus alunos e alunas. E cada uma dessas professoras e professores, como se fossem beija flores, fazem os seus trabalhos no chão da sala de aula, formando cidadãs e cidadãos conscientes de seu papel na sociedade e sabedores da sua condição de sujeitos da história, capazes de transformar a sua história e da sociedade que fazem parte. 


 O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com 

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Educação como prática do Diálogo

 


Marcelo Barros

 

Neste próximo domingo, celebraremos a data em que o grande Paulo Freire completaria 100 anos. A ONU instituiu o 08 de setembro como dia internacional da alfabetização. Por isso, nestes dias, no mundo inteiro, a sociedade civil internacional se viu envolvida pelos novos desafios de uma educação para todas as pessoas e a busca de novos meios para erradicar o analfabetismo.

Conforme cálculos da ONU, em todo o mundo, o analfabetismo absoluto diminuiu, mas ainda há grande proporção de analfabetos/as funcionais. Na cidade de São Paulo, 17% dos/das jovens entre 15 e 24 anos não conseguem ler placas e avisos de uma estação rodoviária ou de Metrô. Não sabem preencher dados para uma ficha de emprego.

 Com o seu método revolucionário de alfabetização de adultos/as, Paulo Freire nos ensinou que a educação é o processo que nos torna mais humanos. Alfabetizar não é apenas ensinar a ler, mas possibilitar a todas as pessoas a participação cidadã e crítica na sociedade.

É verdade que nascemos autocentrados/as. Crescemos sob a influência de tendências nocivas que tendem a nos imobilizar quando se trata de correr riscos e abrir mão de prestígio, poder e dinheiro. Daí a necessidade de uma educação profunda da consciência e da sensibilidade das pessoas e das coletividades. As práticas educativas devem infundir valores altruístas, gestos solidários e ideais sociais. Só assim, a vida ganha sentido e as relações humanas se tornam verdadeira comunicação.

Conforme Paulo Freire, a educação só cumpre sua função quando forma seres humanos mais felizes, dotados de consciência crítica e capazes de aprimorar sistemas sociais e políticos no sentido do amor solidário, da igualdade social e da justiça.

Caminhar nesse sentido implica vencer alguns desafios da atual conjuntura. O primeiro deles é superar o avassalador processo neoliberal de desistorização da história. Sem perspectiva histórica não há consciência nem projetos políticos. O filósofo alemão Theodor Adorno afirmava que o desafio mais urgente da educação é desbarbarizar a sociedade. Ele compreendia por barbárie uma sociedade que, de um lado, se encontra em alto grau de desenvolvimento tecnológico e, do outro, mantém as pessoas privadas de viver e expressar a sua dignidade humana.

Paulo Freire afirmava que somente a educação não pode mudar a sociedade, mas, ao mesmo tempo, nenhuma sociedade mudará sem que a educação desempenhe um papel fundamental. E nessa educação humanitária e libertadora, o diálogo é o elemento fundamental.

Diálogo não é qualquer tipo de comunicação. Não é apenas troca de opiniões ou debate. É relação entre pessoas que se colocam em atitude de escuta mútua para buscar juntas a verdade. Inclui a dimensão interior do diálogo consigo mesmo. Realiza-se mais profundamente no encontro amoroso com as outras pessoas e na comunhão com a natureza.

Para quem tem fé, tudo isso compõe o diálogo com o mistério que as religiões chamam de Deus. O grande educador Ruben Alves afirmava: “Educar é mais difícil do que ensinar. Para ensinar, basta saber. Para educar, precisa ser”.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

A EDUCAÇÃO PARA ALÉM DA PANDEMIA

 Marcelo Barros


 

No Brasil, ainda ameaçado por novas variantes da pandemia, neste início do mês de agosto, colégios e instituições de educação retomam as aulas presenciais (Cf. O Estado de São Paulo, 22/07/ 2021).

Durante mais de um ano, muitas escolas mantiveram os alunos ligados a encontros virtuais. Ocorre que, na maior parte do país, o acesso à internet e a seus recursos ainda não é totalmente democrático. Muitas crianças e adolescentes pobres são penalizadas. Além disso, a educação à distância e por meios virtuais pode cumprir função de suplência, mas jamais consegue substituir o acompanhamento educacional. A convivência e o diálogo são elementos indispensáveis.

Já desde alguns anos, o Brasil já se colocava entre os países do mundo com maior dívida no plano da educação básica dos seus cidadãos. Atualmente, sob o atual governo, já antes da pandemia, no ranking internacional da educação, o Brasil foi considerado um dos 20 piores países do mundo (Cf. Isto é, 2687/  2019).

Neste 2021, as pessoas que amam a educação lembram o centenário do nascimento de Paulo Freire, figura de educador venerada no mundo inteiro, menos pelo atual governo brasileiro.

Qualquer pessoa minimamente informada sabe que o atual governo brasileiro fez e faz tudo para inviabilizar a educação, em todos os seus níveis. Nesse projeto, conta com a pandemia como aliada, mas é capaz de uma perversidade que nenhum vírus alcança. No plano universitário, o presidente da República não cansa de intervir na maioria das universidades federais. Impõe administradores, nomeados com critérios políticos e ideológicos, sem o mínimo respeito ou diálogo com a comunidade dos professores e técnicos em educação. Além disso, como nunca antes, todas as unidades federais padecem a falta de verbas para o seu funcionamento básico.

Enquanto desde o século XVI, Colômbia, Peru e Bolívia têm boas universidades públicas, no Brasil, apenas no século XIX, tivemos o primeiro curso de direito em Olinda e São Paulo. O próprio Ministério da Educação só existe no país a partir de 1930” (revista Fórum, junho 2009).

Em um evento realizado por videoconferência, no dia 15 de outubro de 2020, o Papa Francisco lançou o Pacto Educativo Global, propondo ao mundo todo uma aliança em prol de uma educação de qualidade. O papa insiste na  importância da educação como ato de esperança, “.antídoto natural à cultura individualista…”.

Essa iniciativa do papa conta com o apoio da UNESCO e de diversas instituições acadêmicas. A proposta é que esse pacto se concretize através de sete compromissos ou propostas para a promoção do diálogo entre culturas, da paz e da ecologia integral:

1º - Colocar a pessoa no centro de cada processo educativo.

2º - Ouvir a voz das crianças, adolescentes e jovens a quem transmitimos valores e conhecimentos.

3º - Favorecer a plena participação das meninas e adolescentes na instrução.

 4º - Ver na família o primeiro e indispensável sujeito educador.

5º - Educar a nós mesmos e uns aos outros/as para o acolhimento, abrindo-nos aos mais vulneráveis e marginalizados.

6º - Encontrar outras formas de compreender a economia, a política, o crescimento e o progresso.

7º - Guardar e cultivar a nossa casa comum, protegendo-a da exploração dos seus recursos

No Brasil, diversas entidades da sociedade civil estão se unindo a educadores e educadoras para organizar atividades concretas neste caminho do Pacto Educativo Global. Para quem tem fé e busca viver uma espiritualidade ecumênica, a educação é a tarefa que mais nos aproxima dos grandes líderes espirituais da humanidade. Todos foram educadores e, de certo modo, optaram pelos últimos. Jesus Cristo, por exemplo, se revelou como Sabedoria Divina oferecida a toda pessoa que aceita acolhê-lo. E mostrou que neste processo de educação o importante é conhecer e praticar a verdade. Como ele afirmou: “A Verdade vos libertará” (Jo 8, 33).

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

 

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

E A EDUCAÇÃO, OH!

  



Prof. Martinho Condini

 

         Caras amigas e amigos, “Não há mais juventude que acredite em Deus, política, religião e família”, afirmou o ministro da Educação, Milton Ribeiro.

         Realmente seu ministro, num país como o Brasil fica muito difícil acreditar em política quando parte da sociedade elegeu um paraquedista (nos dois sentidos) cretino e boçal. Um vagabundo e desqualificado que está na política há 28 anos. E o que ele fez o que de bom para esse país como deputado e presidente?

         Lembrei, acabou com o horário de verão, mesmo assim, a controvérsias. 

         Dê longe, o mais desqualificado presidente que a nossa república já teve. Desde que tomou posse, além das pataquadas semanais, ainda não desceu do palanque, continua em campanha, agora para 2022.

         Mas se engana o ministro, há uma juventude periférica muito engajada politicamente no Brasil afora, sim, debatendo e discutindo questões pertinentes, como racismo, violência, descriminação, oportunidades de trabalho. Mas, em nosso país não se dá espaço para essa  juventude, a não ser quando é para informar sobre a violência que eles sofrem .

         Acreditar em religião com os atuais exemplos, fica muito difícil. Com tantos casos de corrupção de padre com suspeita de enriquecimento ilícito,  pastora com possibilidade de ser mandatária de  assassinato do marido e guia espiritual  maníacaco sexual.  Hoje, as verdadeiras lideranças religiosas de matriz cristã, africana, judaica, islã e outras,  não estão na mídia com seus “programas religiosos”  mostrando no vídeo os dados bancários da sua igreja, templo, seja lá o que for, para seus seguidores comprarem seu pedacinho no céu.  Estes estão fazendo trabalho sério e com certeza, com a participação de muitos jovens.  

         Em relação à família, o ministro deve estar pensando na configuração familiar tradicional.

         Hoje, nós temos várias possibilidades de constituição de família. Afirmar que o jovem não acredita mais na família, cabe a pergunta, qual família?.  O que nós temos que entender, é que hoje há liberdade para as pessoas constituírem a família que ela acredita ser a ideal para ela, seja hetero,homoafetiva e outras.   

         Quanto à juventude não acreditar mais em Deus, se essa afirmação estivesse correta qual seria o problema? Em pleno século XXI, a juventude tem a liberdade de acreditar em Deus da maneira que lhe convém ou não acreditar. Acho que mais uma vez o ministro esteja pensando em relação à juventude não estar acreditando em Deus da maneira que ele ou sua religião quisessem que eles acreditassem. Vamos combinar, vivemos numa sociedade plural culturalmente, onde as pessoas, jovens, adultos, idosos, homens ou mulheres têm a liberdade de crer ou não acreditar em algo do plano espiritual.

         Penso que o ministro da educação deveria estar mais preocupado em fazer com que esse desgoverno ao qual ele pertence tivesse uma política de Estado para a Educação em todos os níveis – do infantil ao superior – como também para a pesquisa científica e a vida funcional de professoras e professores. Chega de discursos e falas puritanas e moralistas apenas para encobrir a ineficiência desse desgoverno.   

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com          

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O DIÁLOGO DE PAULO FREIRE E DOM HELDER CAMARA EM TORNO DA EDUCAÇÃO LIBERTADORA


Prof. Dr. Martinho Condini

 

[Este artigo é uma adaptação do texto que foi publicado no livro A Escola dos Meus Sonhos [livro eletrônico]/Paulo Roberto Padilha...[Et Al] organizadores, São Paulo: Instituto Paulo Freire.2019. p.255 a p.260]

 

Neste artigo apresentarei a educação libertadora de dom Helder à luz da pedagogia de Paulo Freire, isto significa que a prática de dom Helder está diretamente relacionada com a pedagogia de Paulo Freire e que este artigo é uma leitura da pedagogia de Helder à luz de Freire. Isto não significa afirmar que a educação libertadora de dom Helder tenha surgido a partir da pedagogia freireana, mas apenas sustentar que há uma relação direta entre o pensamento e as ações de dom Helder e Paulo Freire. Pretendo mostrar essa relação, pois, para ambos, pobres ou pequeninos, como dizia dom Helder, ou os oprimidos, termo utilizado por Paulo Freire, foram os elementos geradores da construção dos seus pensamentos e práticas.

As semelhanças históricas entre dom Helder e Paulo Freire colaboraram para que tivéssemos uma convergência de ideias em relação ao que ambos pensaram, realizaram e produziram ao longo de suas vidas1.

Ambos nordestinos, um cearense e um pernambucano, oriundos de famílias humildes, tiveram de enfrentar problemas típicos das famílias nordestinas que viviam nas áreas urbanas2: o esforço para o sustento da família, a criação dos filhos e as dificuldades em propiciar a eles uma formação escolar digna e de qualidade.

Após a infância e a adolescência, ambos tiveram rumos profissionais diferentes: dom Helder se tornou um religioso e Paulo Freire, após a formação em Direito, enveredou para a área educacional como professor de língua portuguesa e, posteriormente, tornou-se também um educador. Apesar de dom Helder ser doze anos mais velho que Paulo Freire, eles foram contemporâneos no século XX.

Suas histórias de vida seguiram diferentes caminhos, mas tiveram durante suas carreiras uma preocupação comum: a questão com os excluídos e oprimidos. Atuaram na sociedade com o intuito de possibilitar aos menos favorecidos condições para que os mesmos pudessem se tornar pessoas livres, isto é, em condições de entender a sua realidade e, a partir dela, transformá-la; cada um deles com a sua prática, mas se utilizando de recursos semelhantes.

As circunstâncias históricas fizeram com que ambos, no início do Governo Militar (1964-1985), estivessem vivendo na cidade de Recife. Dom Helder, recém chegado, transferido da cidade do Rio de Janeiro e Paulo Freire, vivendo em sua cidade natal. Nesse período do Governo Militar, Dom Helder e Paulo Freire foram perseguidos pelo regime de exceção.

Paulo Freire, ainda no ano de 1964, foi preso e exilado do país, retornando apenas em 1980. Durante o período no exílio, Paulo Freire produziu todo o arcabouço daquilo que mais tarde veio a ser chamado de pensamento freireano. Paulo Freire teve na experiência do trabalho de alfabetização de adultos no nordeste brasileiro a inspiração para escrever a obra que foi a espinha dorsal do seu trabalho como educador, a Pedagogia do Oprimido, escrita no exílio, no Chile em 1968.

Dom Helder, pela sua condição de arcebispo de Olinda e Recife, pela notoriedade que obteve em função do seu trabalho no Rio de Janeiro e pela liderança que representava dentro da Igreja, permaneceu no Brasil, mas sofreu intensa perseguição do governo, juntamente com seus auxiliares da Arquidiocese de Olinda e Recife, por fazerem oposição ao governo militar.

É inegável que no período ditatorial, mas não só nele, dom Helder e Paulo Freire tiveram intensa influência na formação do pensamento educacional e social brasileiro. Ambos realizaram trabalhos que contribuíram no meio intelectual, como também nas camadas populares da sociedade.

Isso pode ser constatado por meio dos acontecimentos históricos daquele período: Paulo Freire foi perseguido, preso e exilado; dom Helder foi impedido por quatro vezes de receber o prêmio Nobel da Paz e censurado por quase uma década dentro do seu país. Essas perseguições sofridas por ambos fez com que suas vozes e ideias ecoassem fora do Brasil, em oposição à ditadura militar, e a determinação de suas posturas fez com que defendessem suas ideias mesmo com dificuldades e até ameaças pessoais.

Apesar da aproximação histórica de dom Helder e Paulo Freire, de sua contemporaneidade, de morarem na mesma cidade3, ambos nunca realizaram ou produziram algum estudo ou trabalhos juntos. O que podemos constatar é que ambos, em alguns momentos, referiram-se um ao outro de maneira respeitosa, mencionando o trabalho realizado.

Quando Paulo Freire foi libertado da prisão e dom Helder pensou em convidá-lo a auxiliar no trabalho da pastoral da Arquidiocese de Olinda e Recife, Dom Helder, na época, fez a seguinte menção ao método de alfabetização de adultos de Paulo Freire: “[...] o método está longe de ser apenas mera alfabetização [...]” (apud PILETTI; PRAXEDES, 2008, p. 257).

O arcebispo de Olinda e Recife foi um importante interlocutor    de Paulo Freire na Igreja, principalmente como elo para a reflexão e entrada do pensamento pedagógico libertador no meio eclesiástico. Após a leitura do livro Pedagogia do Oprimido, em 1971, dom Helder considerou-o “[...] de alcance decisivo para se obter a medida adequada de conscientização, evitando que o oprimido de hoje se transforme no opressor de amanhã” (apud PILETTI; PRAXEDES, 2008, p. 340).

 

Em função do exílio de Paulo Freire, dom Helder o via “[...] como embaixador especial de nosso gênio e de nossa cultura [...]” (Ibidem, p. 341), como escreveu em carta à revista Visão, em setembro de 1971, indicando o educador para o título de Homem de Visão daquele ano. A essa atitude de dom Helder, Paulo Freire, que mantinha pelo arcebispo a mesma admiração, escreveu-lhe agradecendo a indicação.

Em entrevista ao professor Celso de Rui Beisiegel, em 1980, Paulo Freire relatou que “os dois haviam se tornado amigos nos anos 60, quando se aproximaram por intermédio da professora Anita Paes Barreto, e das assistentes sociais Lourdes de Moraes, Dolores Coelho e Hebe Gonçalves, amigas de ambos e colaboradoras das obras sociais de dom Helder em Recife” (Ibidem, p. 341).

Os diálogos entre Paulo Freire com os mais diferentes grupos sociais em torno do assistencialismo teceram a maneira ideológica dele elaborar e atuar em prol dos menos favorecidos. A questão assistencialista o incomodava e, também, os que praticavam o assistencialismo. Em relação a dom Helder, Paulo Freire o colocava fora de uma postura meramente assistencialista, opinião com a qual também concordo.

Esses dois pensadores brasileiros do século XX tinham várias coisas em comum, mas quero destacar, a defesa de uma educação libertadora, pois ambos acreditavam que excluídos e oprimidos da nossa sociedade só sairiam dessa condição por intermédio de uma formação onde os mesmos conquistassem a sua liberdade, ou seja, tivessem um entendimento do mundo a partir da sua realidade para assim, poder transformá-la.

Para Freire, a luta em busca da liberdade se dá simultaneamente em duas esferas: no campo da interioridade humana (consciência) e no campo sociopolítico. A prática da busca pela liberdade está na constante luta pela superação das relações opressoras na sociedade. A liberdade será alcançada quando os homens lutarem pela libertação de todos.

Paulo Freire elaborou exaustivamente o que chamou de libertação:

[...] em sua obra de 1985, intitulada A Política da educação: cultura, poder e libertação. No livro Freire associa a libertação com os oprimidos, os revolucionários, a educação e a Igreja. Freire acreditava que o futuro dos oprimidos é a ‘realização de sua libertação – sem a qual eles não podem ser”. (STRECK, REDIN e ZITKOSKI, 2008, p. 247)

Paulo Freire construiu uma pedagogia libertadora que permeou todo o seu trabalho educacional. A liberdade, a libertação, como a conscientização e a humanização, foram elementos importantes para a construção da pedagogia freireana. Para ele, as pessoas que acreditam na educação libertadora estão comprometidas com uma “[...] práxis social [...], ajudando a libertar os seres humanos da opressão que os sufoca em sua realidade objetiva [...]”. Ele acreditava que “a educação verdadeiramente libertadora só pode ser posta em prática fora do sistema comum, e mesmo assim com grande cautela, por aqueles que superam sua ingenuidade e se comprometem com a libertação autêntica”. (Ibidem, p. 248)

Paulo Freire entendia as relações humanas dentro de um processo libertador por meio do diálogo, em que as pessoas juntas vão tomando consciência de maneira crítica da realidade e a partir daí procuram tomar atitudes que possibilitem fazer mudanças, transformar as suas realidades. Para que homens e mulheres atingissem sua libertação seria necessário se fazer outra leitura do mundo e agir sobre ele.

Para dom Helder, a educação é um dos meios de possibilitar a criação de outra sociedade, de um mundo mais justo e humano. Ele se referia ao processo de uma educação libertadora: “[...] a educação parece, em grande parte, fora da realidade, da verdade, pois não está libertando. E precisamos vitalmente, urgentemente, da coragem de nos unirmos para a educação libertadora. Eis a missão máxima do homem de nossos dias [...]” (CAMARA, 1976, p. 57). O seu questionamento aos setores educacionais era: “[...] a educação que gerou o nosso mundo, liberta ou escraviza?” (Ibidem, p. 55). Tais questionamentos demonstravam que, para dom Helder, as instituições educacionais necessitavam de profundas transformações.

Ele acreditava que era necessário a sociedade se unir para realizar uma educação libertadora, pois, por meio dela, o homem se tornaria não só o principal responsável pelo destino da humanidade como também o construtor de sua história.

A educação libertadora deveria ensinar a importância da humanização, o respeito aos direitos humanos, a justiça, a conscientização política e a igualdade social. Essas propostas apontam para a possibilidade de se construir uma sociedade onde as pessoas se tornem agentes da própria história, condutoras do próprio destino, precursoras do desenvolvimento.

Helder e Freire sempre tiveram coragem de enfrentar desafios e propor mudanças para a melhoria das condições de vida da população e reconheceram na educação libertadora um dos principais elementos para as pessoas realizarem as tão sonhadas transformações sociais.

Apesar da distância física de ambos, Helder e Freire sempre estiveram juntos na esperança de que era possível construir um mundo mais justo, digno e fraterno para todos.

Concluindo, quando penso na “Escola dos Meus Sonhos”, inevitavelmente me vem à lembrança Helder e Freire, pois estou convencido que o trabalho de ambos foi e ainda o é importantíssimo para a construção da “Escola dos Nossos Sonhos”. A “Escola dos Meus Sonhos”, é aquela escola onde a educação seja libertadora, onde as pessoas pensam e se expressam a partir do seu lugar de fala e olhar de mundo, para que possam sair da sua condição de oprimido e adquirirem sua autonomia.

 

Notas de rodapé

2 Dom Helder, na cidade de Fortaleza, e Paulo Freire, na cidade de Recife.

 

3 Dom Helder chegou a Recife em abril de 1964 e Paulo Freire vai para o exílio, na Bolívia, em outubro desse mesmo ano.

 

Referências Bibliográficas

 

CAMARA, Helder P. O deserto é fértil. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1976.

 

CONDINI, Martinho. Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire. São Paulo: Paulus Editora. 2014.

 

PILETTI, Nelson; PRAXEDES, Walter. Dom Helder Camara: o profeta da paz. 2ª Ed. São Paulo Contexto, 2008.

 

STRECK, Danilo R, ; REDIN, Euclides; ZITKOSKY, Jaime J. (Orgs.) Dicionário Paulo Freire. Belo Horizonte, MG; Autêntica, 2008.


O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

quinta-feira, 2 de março de 2017

EDUCAÇÃO DE BALCÃO



Frei Betto


       A aprovação da PEC 55 congelou por 20 anos os gastos públicos federais em educação. Eis a retirada progressiva do Estado como provedor educacional, cedendo espaço à iniciativa privada. Ensino dá lucro, sobretudo quando objetiva a massa de alunos que abre mão de seu protagonismo educativo e se torna mero recipiente para se injetar conteúdos padronizados.

       Acelera-se a privatização das instituições de ensino brasileiras em mãos de grupos estrangeiros. O fundo estadunidense Advent comprou, em março de 2016, o Centro Universitário da Serra Gaúcha, em Caxias do Sul (RS). No fim do ano passado, comprou também o Cesuca (Complexo de Ensino Superior de Cachoeirinha (RS). Reuniu os dois campi no grupo educacional FSG, com 13 mil alunos, cuja mensalidade mínima é no valor de R$ 1 mil.

       Já a fusão, em agosto de 2016, dos grupos Estácio de Sá e Kroton abrangeu 1,5 milhão de alunos. A Kroton, maior empresa educacional do Brasil, abarca 127 campi e 726 polos de ensino espalhados pelo país sob diferentes marcas: Pitágoras, Unic, Unopar, UNIME, Ceama, Unirondon, Fais, Fama e União.

       Associada à monopolização da educação em mãos de poucos grupos, soma-se a ofensiva para privatizar o ensino público e elitizar ainda mais o privado. Assim, multiplicam-se “consultorias” educacionais que se apresentam como ferramentas inovadoras e empunham, como estandarte, o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), que avalia 500 mil estudantes em 70 países vinculados à OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

       Quando se quer julgar a qualidade do ensino, apela-se aos dados do PISA. A ótica do PISA é meramente mercadológica, sem levar em conta as especificidades locais. O que importa é formar mão de obra qualificada para o mercado global. E ao enaltecer as novas tecnologias como redentoras da educação, busca estandartizá-la, esvaziando o ensino de conteúdos críticos e humanitários.

       O PISA valoriza políticas educacionais de caráter empresarial e apoia transferir a responsabilidade da educação do Estado para a iniciativa privada. Elimina a autonomia pedagógica dos professores e os transforma em meros agentes forjadores de alunos bem sucedidos em avaliações externas. Em suma, empenha-se em erradicar a educação como direito universal a ser obrigatoriamente assegurado a toda a população pelo Estado, para transformá-la em mercadoria ou artigo de luxo. Quem pode pagar, tem acesso ao estudo.

       Desde 1990 se expande no Brasil a educação a distância (EAD) nos cursos de licenciatura. Após o ano de 2005, esses cursos se ampliaram com a criação da Universidade Aberta do Brasil (UAB) e a maior atuação da Secretaria de Ensino à Distância (SEED) do MEC.

       O Banco Mundial investe na formação de professores em países em desenvolvimento desde que se adotem as estratégias do EAD, que não considera a educação uma prática social essencialmente política. O ensino, agora em escala industrial, deve evitar a reflexão crítica e ater-se exclusivamente à qualificação profissional. Essa profilaxia ideológica está na origem da Escola Sem Partido. Nada de professores e alunos se encontrando em salas de aula, cafés, corredores da escola, biblioteca. Cada um que se prenda unicamente ao monitor de seu computador.

       Hoje, 72% dos 8 milhões de alunos de ensino superior no Brasil estão matriculados em universidades particulares, muitos financiados pelo Fies, que investe quase 20 bilhões de reais de dinheiro do governo em bolsas, quando deveria aplicar na melhoria do ensino público. No estado de São Paulo, o índice de alunos de ensino superior na rede privada chega a 84% e, na capital, 91%.
      
 Enquanto isso, a base social brasileira se afunda no poço da ignorância: 2,5 milhões de crianças sem creches; 600 mil sem pré-escola; 460 mil fora do ensino fundamental; e 1,7 milhão de jovens, de 15 a 17 anos, fora do ensino médio.

       Eis o sucateamento de uma nação.

Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto - autobiografia escolar” (Atica), entre outros livros. 


Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

PARA QUE SERVE A EDUCAÇÃO?

por Frei Betto

                                                        

      Uma educação crítica e cooperativa é capaz de reproduzir as bases materiais e espirituais de uma sociedade baseada na solidariedade.

      A educação detém o poder de destronar uma racionalidade dominante para introduzir outra, desde que não seja meramente teórica e se vincule a processos efetivos de produção material da existência.

      Não diferimos dos animais por nossa capacidade de pensar, e sim de reproduzir nossos meios de sobrevivência.

      Uma educação libertadora é a que almeja conquistar hegemonia por consenso, por práticas efetivas, e não por coerção ideológica. Deve abranger todas as disciplinas escolares, das ciências exatas à educação física, superando relações fundadas na economia de trocas para a economia solidária, baseada na cooperação.

      As relações mercantilistas influem nas concepções daqueles que as adotam ou se deixam reger por elas, pois  acentuam o individualismo e induzem os educandos a acreditar que o mercado obedece a uma “lei natural”, e que fora dele não há alternativa... É isso que nos leva a, literalmente, torturar a natureza para que ela nos forneça seus frutos o quanto antes.

      Há que perguntar: para que serve a educação? Para adaptar os educandos ao status quo? Para transmitir o patrimônio cultural da humanidade como se ele resultasse da ação destemida de heróis e gênios? Para formar mão de obra qualificada ao mercado de trabalho? Para adestrar indivíduos competitivos?

      Um educação crítica e solidária engloba todos os atores da instituição escolar: alunos, professores, funcionários e suas respectivas famílias. E ultrapassa os muros da escola para se vincular participativamente ao bairro, à cidade, ao país e ao mundo.

      As portas da escola permanecem abertas a movimentos sociais, atores políticos, artistas, trabalhadores. E a ótica de seu processo pedagógico enfatiza esta verdade que a lógica mercantilista tenta encobrir: tanto a evolução da natureza quanto a história da humanidade têm seus fundamentos muito mais centrados na cooperação, na solidariedade, que na seleção natural, na competitividade e na exclusão.

      O valor da escola se avalia por sua capacidade de inserir educandos e educadores em práticas sociais cooperativas e libertadoras. Por isso é indispensável que a escola tenha clareza de seu projeto político pedagógico, em torno do qual deve prevalecer o consenso de seus educadores. Sem essa perspectiva, a escola corre o risco de ficar refém da camisa de força de sua grade curricular, como mero aparelho burocrático de reprodução bancária do saber.

      Reinventar o futuro é começar por revolucionar a escola, transformando-a em um espaço cooperativo no qual se intercalem a formação intelectual (consciência crítica), científica e artística de protagonistas sociais comprometidos eticamente com os desafios de construir outros mundos possíveis, fundados na partilha dos bens da Terra e dos frutos do trabalho humano.


Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Mário Sérgio Cortella, de “Sobre a esperança” (Papirus), entre outros livros. 


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Maria Helena Guimarães Pereira
MHP Agente Literária - Assessoria
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quinta-feira, 12 de março de 2015

POR UMA EDUCAÇÃO PROTAGONISTA

por Frei Betto


      A educação critica é o grande desafio nesse mundo hegemonizado pelo capitalismo neoliberal. Ela tem como princípio formar, não apenas profissionais qualificados, mas cidadãos protagonistas de transformações sociais.

      Ela extrapola os limites físicos da escola e vincula educadores e educandos a movimentos sociais, sindicatos, ONGs, partidos políticos; enfim, a todas as instituições que desempenham atividades de transformação social.

      A educação critica só se desenvolve em sintonia com os processos reais de emancipação em curso e as reflexões teóricas que fundamentam tais processos.

      Deve levar em conta três tempos que se intercalam: das estruturas (mais longo); o das conjunturas (mais imediato e mutável); e o do cotidiano (no qual vivenciamos o conflito permanente entre a satisfação de interesses pessoais e a consciência das demandas altruístas).

       O tempo das estruturas deve ser objeto da educação escolar. Ele nos remete à história da história, aos grandes processos sociais com seus avanços e recuos.

      Quanto mais educadores e educandos são conscientes do tempo estrutural, mais se contextualizam e se compreendem como herdeiros de uma história que, entre dificuldades, avança da opressão à libertação.

      Ter consciência do tempo das estruturas é ter consciência histórica e não se deixar afogar no mar de contradições dos tempos de conjunturas e do cotidiano. Cada um de nós é um pequeno elo na vasta corrente do processo social. Só tendo consciência da amplitude da corrente apreendemos a importância do elo que somos. Uma educação que não se abre para o tempo das estruturas corre o sério risco de ser cooptada pela estrutura mundialmente hegemônica.

      O tempo das conjunturas é o das mutações cíclicas que produzem inflexões nas estruturas sem, no entanto, alterá-las substancialmente. O acúmulo de conjunturas influi na mudança do tempo das estruturas. O grande desafio é como se comportar em determinada conjuntura de modo a aprimorar ou transformar a estrutura.

      O tempo do cotidiano é o do dia a dia, no qual trafegamos e tropeçamos, movidos por ideais altruístas, solidários e, ao mesmo tempo, atraídos pelas seduções do comodismo e do individualismo.

      É no tempo do cotidiano que a educação atua e permite uma compreensão crítica da conjuntura e desperta o imperativo de se comprometer com a transformação da estrutura.

      Nesse tempo cotidiano vivemos imersos, muitas vezes movidos por utopias libertárias e, ao mesmo tempo, desanimados ao reconhecer, a cada dia, que a matéria-prima do futuro é humana, sempre frágil, ambígua e contraditória.

      A formação da consciência crítica e do protagonismo social resulta de um processo pedagógico que intercala os três tempos, de modo a evitar a mesquinhez de um cotidiano que nem sempre reflete os valores em nome dos quais o assumimos e queremos educar.

Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.   
     
  
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