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sexta-feira, 25 de março de 2022

Ataques impiedosos ao Papa Francisco,”um justo entre as nações”

                                              Leonardo Boff 


Desde o início de se pontificado há nove anos,o Papa Francisco está sob furiosos ataques de cristãos tradicionalistas e supremacistas brancos quase todos do Norte do mundo, dos Estados Unidos e da Europa.Fizeram até um complô, envolvendo milhões de dólares, para depô-lo como se a Igreja fosse uma empresa e o Papa  seu CEO.Tudo em vão. Ele segue seu caminho no espírito das bem-aventuranças evangélicas dos perseguidos.

Várias são as razões desta perseguição:razões geopolíticas,disputa de poder,outra visão de Igreja e o cuidado da Casa Comum.

Ergo minha voz em defesa do Papa Francisco a partir da periferia do mundo, do Grande Sul. Comparemos os números: na Europa vivem apenas 21,5% dos católicos, 82% vivem fora dela, sendo que 48% na América. Somos,portanto, vasta maioria. Até meados do  século passado a Igreja Católica era do primeiro mundo. Agora é uma Igreja do terceiro e quarto mundo, que, um dia, teve origem no primeiro mundo. Aqui surge uma questão geopolítica. Os conservadores europeus,com exceção de notáveis organizações católicas de cooperação solidária,nutrem um soberano desdém pelo Sul,notadamente pela América Latina.

 A Igreja-grande-instituição foi aliada da colonização, cúmplice do genocídio indígena e participante do escravagismo. Aqui foi implantada uma Igreja colonial,espelho da Igreja europeia.Ocorre que ao longo de mais de 500 anos, não obstante a persistência da Igreja espelho, ocorreu uma eclesiogênese,a gênese de um outro modo de ser igreja,uma igreja, não mais espelho mas fonte:incarnou-se na cultura local indígena-negra-mestiça e de imigrantes de povos vindos de 60 países diferentes. Desta amálgama,gestou seu estilo de adorar a Deus e de celebrar, de organizar sua pastoral social do lado dos oprimidos que lutam por sua libertação. Projetou sua teologia adequada à sua prática libertadora e popular. Tem seus profetas, confessores, teólogos e teólogas, santos e santas e muitos mártires,entre os quais o arcebispo de San Salvador Arnulfo Oscar Romero. Esse tipo de Igreja é fundamentalmente,composta por  comunidades eclesiais de base,onde se vive a dimensão de comunhão de iguais, todos irmãos e irmãs, com seus coordenadores leigos, homens e mulheres, com sacerdotes inseridos no meio do povo e bispos,nunca de costas para o povo como autoridades eclesiásticas, mas como pastores junto deles, com “cheiro de ovelhas  com a missão de serem os “deffensores et advovati pauperum”como se dizia na Igreja dos primórdios. Papas e autoridades doutrinárias do Vaticano tentaram cercear e até condenar tal modo de ser-Igreja, não raro, com o argumento de que não são Igreja pelo fato de não se ver nelas o caráter hierárquico e o estilo romano.Essa ameaça perdurou por muitos anos até que, em fim, irrompeu a figura do Papa Francisco. Ele veio do caldo desta nova cultura eclesial bem expressa pela opção preferencial,não excludente, pelos pobres e pelas várias vertentes da teologia da libertação que a acompanha. Ele conferiu legitimidade a este modo de viver a fé cristã,especialmente em situações de grande opressão.

Mas o que mais está escandalizando cristãos tradicionalistas foi seu estilo de exercer o ministério de unidade da Igreja. Não comparecia  mais como  o pontífice clássico, vestido com os símbolos pagãos, assumidos dos imperadores romanos,especialmente a famosa “mozzeta”aquela capazinha branca cheia de símbolos do poder absoluto do imperador e do papa. Francisco logo se livrou dela e vestiu uma “mozzeta” branca, despojada,como aquela do grande profeta do Brasil, dom Helder Câmara e com sua cruz de ferro sem qualquer joia.Negou-se a morar num palácio pontifício, o que faria São Francisco sair do túmulo e conduzi-lo para onde ele escolheu viver: numa simples casa de hóspedes, Santa Marta. Aí entra na fila para servir-se e come junto com todos. Com humor podemos dizer: assim é mais difícil de envenená-lo. Não calça Prada mas seus velhos e gastos sapatões. No anuário pontifício no qual se usa uma página inteira com os títulos honoríficos dos Papa, ele simplesmente renunciou a todos e apenas escreveu Franciscus,pontifex. Disse claramente num de seus primeiros pronunciamentos que não vai presidir a Igreja com o direito canônico  mas com o amor e a ternura. Um sem número de vezes repetiu que queria uma Igreja pobre e de pobres.

Todo o grande problema da Igreja-grande-instituição reside, desde dos imperadores Constantino e Teodósio, na assunção do poder político,   transformado no poder sagrado (sacra potestas).Esse processo chegou à sua culminância com o Papa Gregório VII (1075) com  sua bula Dictatus Papae que bem traduzida é a “Ditadura do Papa”. Como diz o grande eclesiólogo Jean-Yves Congar, com este Papa se consoIidou a mais decisiva virada da Igreja que tantos problemas criou e da qual nunca mais se libertou: o exercício centralizado, autoritário e até despótico do poder. Nas 27 proposições da bula, o Papa é considerado o senhor absoluto da Igreja, o senhor único e supremo do mundo, tornando-se a autoridade suprema na campo espiritual e temporal. Isso nunca foi desdito.

Basta ler o Canon 331 no qual se diz que “o Pastor da Igreja universal tem o poder ordinário, supremo, pleno,imediato e universal”.Coisa inaudita: se riscarmos o termo Pastor da Igreja universal e colocarmos Deus funciona perfeitamente. Quem dos humanos, senão Deus, pode atribuir-se tal concentração de poder? Não é sem significado que na história dos Papas houve um cresccendo no faraoismo do poder: de sucessor de Pedro,os Papas se entenderam representantes de Cristo.E com se não bastasse, representantes de Deus e até sendo chamados de deus minor in terra. Aqui se realiza a hybris grega e aquilo que Thomas Hobbes constata em seu Leviatã: “Assinalo, como tendência geral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder. A razão disso reside no fato de que não se pode garantir o poder senão buscando ainda mais poder”. Pois esta foi a trágica trajetória da Igreja Católica às voltas com o poder que persiste até os dias de hoje, fonte de polêmicas com as demais Igrejas cristãs e de extrema dificuldade de assumir os valores humanísticos da modernidade.Ela dista anos luz da visão de Jesus que queria um poder-serviço (hierodulia) e não um poder-hierárquico (hierarquia).

Disso tudo se afasta o Papa Francisco, o que causa indignação aos conservadores e até reacionários bem expresso no livro de  45 autores de outubro de 2021:”Da paz de Bento à guerra de Francisco”(From Benedict’s Peace to Francis’s War) organizado por Peter A. Kwasniesvski. Nós faríamoss a retórquio assim: “Da paz dos pedófilos de Bento (encobertos por ele) à guerra aos pedófilos de Francisco (condenados por ele).É sabido que o Papa retirado Bento XVI foi indiciado culposamente por um tribunal de Munique devido à sua leniência com padres pedófilos.

Há um problema de geopolítica eclesiástica:os tradicionalistas rejeitam um Papa que vem “do fim do mundo” que traz para o centro do poder do Vaticano um outro estilo mais próximo à gruta de Belém do que dos palácios dos imperadores. Se Jesus aparecesse ao Papa em  seu passeio pelos jardins do Vaticano,seguramente, diria: “Pedro, sobre estas pedras palacianas jamais construiria a minha Igreja”. Essa contradição é vivida pelo Papa Francisco pois renunciou ao estilo palaciano e imperial. 

Trava-se,com efeito, um embate de geopolítica religiosa, entre o Centro que perdeu a hegemonia em número e em irradiação mas que conserva  os hábitos de exercício autoritário do poder e a Periferia, numericamente majoritária de católicos, com igrejas novas, com novos estilos de vivência da fé e em permanente diálogo com o mundo especialmente com os condenados da Terra, tendo sempre uma palavra a dizer sobre as chagas que sangram no corpo do Crucificado,presente nos empobrecidos e oprimidos.

Talvez o que mais incomoda os cristãos engessados no passado é a visão de Igreja vivida pelo Papa. Não uma Igreja-castelo,fechada em si mesma, em seus valores e doutrinas, mas uma Igreja “hospital de campanha” sempre “em saída rumo às periferias existenciais”.Ela acolhe a todos sem perguntar por seu credo ou sua situação moral. Basta que sejam seres humanos em busca de sentido de vida e sofredores pelas adversidades deste mundo globalizado, injusto, cruel e sem piedade. Condena de forma direta o sistema que dá centralidade ao dinheiro à custa de vidas humanas e da natureza. Realizou vários encontros mundiais com movimentos populares. No último, o quarto, disse explicitamente:”Este sistema (capitalista),com sua lógica implacável, escapa ao domínio humano; é preciso trabalhar por mais justiça e cancelar este sistema de morte”. Na Fratelli tutti o condena de forma contundente.

Orienta-se por aquilo que é um das grandes contribuições da teologia latino-americana: a centralidade do Jesus histórico, pobre, cheio de ternura para com os sofredores, sempre do lados dos pobres e marginalizados. O Papa respeita os dogmas e as doutrinas, mas não é por elas que chega ao coração das pessoas.Para ele, Jesus veio  nos ensinar a viver: a confiança total ao Deus-Abbá, viver o amor incondicional, a solidariedade, a compaixão para com os caídos nas estradas, o cuidado para com o Criado,bens que constituem o conteúdo da mensagem central de Jesus: o Reino de Deus. Prega incansavelmente a misericórdia ilimitada pela qual Deus salva seus filhos e filhas, pois Ele não pode perder nenhum deles,frutos de seu  amor, “pois é o apaixonado amante da vida”(Sab 11,24). Por isso afirma que “por mais que alguém esteja ferido pelo mal, jamais está condenado sobre esta terra a ficar para sempre separado de Deus”. Em outras palavras: a condenação é só para esse tempo.

Convoca os pastores todos a exercerem a pastoral da ternura e do amor incondicional, resumidamente formulada por um líder popular de uma comunidade de base:”a alma não tem fronteira, nenhuma vida é estrangeira”. Como poucos no mundo, se empenhou pelos imigrantes vindos de África e do Oriente Médio e agora da Ucrânia. Lamenta o fato de os modernos terem perdido a capacidade de chorar, de sentir a dor do outro e, como bom samaritano,socorrê-lo em seu abandono. 

Sua mais importante obra foi a preocupação pelo futuro da vida da Mãe Terra. A Laudato Sì expressa seu verdadeiro sentido no sub-título: “sobre o cuidado da Casa Comum”.Elabora não uma ecologia verde, mas uma ecologia integral que abarca o ambiente, a sociedade, a política, a cultura, o cotidiano e o mundo do espírito. Assume as contribuições mais seguras das ciências da Terra e da vida,especialmente, da física quântica e da nova cosmologia o fato de que “tudo está relacionado com tudo e que nos une com afeição ao irmão Sol, à irmã Lua, ao irmão rio e à Mãe Terra”como diz poeticamente na Laudato Sì. A categoria cuidado e corresponsabilidade coletiva ganham tanta centralidade a ponto de na Fratelli tutti dizer que “estamos no mesmo barco: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. 

Nós latino-americanos somos-lhe profundamente gratos por haver convocado um Sínodo Querida Amazônia, para defender esse imenso bioma de interesse para toda a Terra e como a Igreja se incarna naquela vasta região que cobre nove países.

Grandes nomes da ecologia mundial testemunharam: com esta sua contribuição, o Papa Francisco se coloca na ponta da discussão ecológica contemporânea. 

Quase desesperado mas mesmo assim cheio de esperança, propõe um caminho de salvação: uma fraternidade universal e um amor social como os eixos estruturadores de uma biosociedade em função da qual estão a política, a economia e todos os esforços humanos. Não temos muito tempo nem sabedoria suficientemente  acumulada, mas este é o sonho, e a alternativa real para evitar um caminho sem retorno.

O Papa caminhando sozinho na praça de São Pedro sob um chuva fina, em tempos da pandemia, ficará como uma imagem imorredoura e um símbolo de sua missão de Pastor que se preocupa e reza pelo destino da humanidade.

Talvez uma das frases finais da Laudato Sì revela todo seu otimismo e a esperança contra toda esperança: “Caminhemos cantando que as nossas lutas e a nossa preocupação por este planeta não nos tirem a alegria da esperança”.

Precisam ser inimigos de sua própria humanidade, aqueles que condenam impiedosamente as atitudes tão humanitárias do Papa Francisco, em nome de um cristianismo estéril, feito um fóssil do passado e um recipiente de águas mortas. Os ataques ferozes que fazem a ele, podem ser tudo, menos cristãos e evangélicos. Os cardeais, bispos e outros que escreveram o citado livro são cismáticos e segundo o sentido antigo do termo, são hereges, porque dilaceram a unidade corpo eclesial.

O Papa Francisco a tudo suporta imbuído da humildade de São Francisco de Assis e dos valores do Jesus histórico. Por isso ele bem merece o título de “um justo entre as nações”.

Leonardo Boff é um teólogo brasileiro e escreveu Francisco de Assis e Francisco de Roma, Rio de Janeiro 2015.

 

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

“CRIADA”: ENTRE FAXINAS E ESCRITAS

                               Maria Clara Bingemer


 

Séries da Netflix são às vezes ambíguas.  Sobretudo quando filmadas nos Estados Unidos. É quase inevitável o happy end e outras constantes.  No entanto, boas surpresas acontecem.  Resolvi assisti-la por ter lido a sinopse e porque sou mulher, tenho duas filhas e três netas. 

A história de Alex vai além do conto de fadas pós-moderno. Seu personagem central é uma jovem mulher que vivencia uma situação eventualmente camuflada: a pobreza nas sociedades de abundância, que pode ser mais cruel que nos países menos desenvolvidos. Não por acaso a autora do livro que deu origem à série, Stephane Land, pesquisa e escreve sobre a pobreza nos Estados Unidos. 

Alex é uma mulher que tenta sobreviver a uma mãe louca, uma realidade financeira mais do que precária e um companheiro alcóolatra e abusivo.  Sua motivação máxima é a filhinha Maddy, de três anos. Por ela, Alex sai de casa no meio da madrugada sem saber aonde ir. Acaba em um abrigo para mulheres que sofrem violência de gênero. O sistema do país mais rico do mundo lhe oferece entraves que bloqueiam possibilidades.  Seus inumeráveis intentos de conseguir levantar a cabeça vão sendo desmontados um a um por um esquema social feito para ricos.

Para viver é indispensável carro, dinheiro para pagar a creche da filha a fim de poder trabalhar, um lugar quente e seco para morar. É preciso evitar que a criança sofra de bronquite e acabe com pneumonia. Mas acidentes acontecem. A mãe de Alex trafega incessantemente por namorados vários e, assim, não pode cuidar da neta para ajudá-la. O que a jovem ganha não  lhe permite morar em um lugar onde o mofo não seja um companheiro inseparável. Os elementos do conjunto falham e toda a engrenagem vem abaixo. A vida de Alex balança por um fio, novamente vulnerável às investidas do namorado bêbado e violento. 

No meio dessa dura realidade, a protagonista, enquanto limpa banheiros, cozinhas e salas em casas abastadas, escreve.  Em cadernos e a lápis, vai descrevendo e narrando suas experiências.  A fantasia imaginativa a faz sobreviver e manter-se  na superfície do permanente maremoto que ameaça submergi-la na depressão, na miséria e no medo. Entre faxinas e escritas, e agarrada na mão da pequena Maddy que a vai salvando mais da vida do que da morte, vemos Alex manter-se viva e encontrar companheiras do mesmo infortúnio: a violência de gênero. 

Nesse movimento, a jovem mãe aprende que violência não é só física, nem apenas a que deixa equimoses pelo corpo, olhos roxos e marcas de estrangulamento no pescoço.  É também psicológica, feita de gritos, ameaças, cerceamento de liberdade, exigência de sexo não consentido, quebradeiras, copos de bebida jogados na parede, espelhos partidos e móveis quebrados. 

Com essa violência colaboram outros atores: a mãe que a repreende por querer separar-se do companheiro agressor; o pai que em sua infância abusou da mãe e em quem não pode confiar; a sociedade machista e patriarcal que a supõe feita para aguentar humilhações e desditas pelo simples fato de ser mulher. 

Pouco a pouco, emerge do fundo da saga dessa mãe solo – solteira e solitária – a descoberta de uma nova solidariedade, cujas parceiras são outras mulheres: amigas, companheiras de abuso, clientes ricas e infelizes, meninas pequenas como sua filha, que merecem uma vida melhor. A sororidade é a oportunidade de redenção da faxineira e escritora Alex. 

      Em meio a todas as suas fragilidades, essa mulher tem duas forças a seu favor: a maternidade e o talento literário.  Ambos lhe darão forças para continuar acreditando na vida e sobreviver a cada tombo. A filha, que não abortou como era o desejo do namorado, lhe devolve em afeto e amor o dom da vida que nasceu da decisão de deixá-la nascer.  As letras que traça no papel lhe abrirão o caminho para os estudos que a transformarão

naquilo que sempre sonhou: ser escritora, narradora, contadora de histórias que povoam mentes e encantam corações. 

A série “Criada” fala de todas essas mulheres sobreviventes de um sistema que faz tudo para esmagá-las. Descreve a vida heroica dessas que são imbatíveis em resiliência, criatividade e engenho.  Atesta a força hercúlea do chamado ridiculamente sexo frágil.  E revela que a mais bela criação de Deus é Eva, a vivente e mãe dos viventes, que a cada dia assegura à humanidade sua existência e permanência. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e testemunho em Koinonia – a inspiração que vem do martírio de duas comunidade do século XX” (Paulus Editora), entre outras obras.

  

Copyright 2021 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2020

ENTRE O JESUS HISTÓRICO E O TEOLÓGICO


                                                        Frei Betto

 

      Jesus teria herdado dos essênios o celibato "por amor ao Reino" (Mateus 19, 10-12. Criticava, porém, suas purificações formalistas que os impedia de amar o próximo e reconhecer que no coração de uma prostituta pode haver mais pureza do que em todas as abluções rituais. 


      Em seu clássico Jesus, publicado no início do século XX, Rudolf Bultmann  admitiu que "agora já não podemos conhecer qualquer coisa sobre a vida e a personalidade de Jesus, uma vez que as primitivas fontes cristãs não demonstram interesse por qualquer das duas coisas, sendo, além disso, fragmentárias e, muitas vezes, lendárias; e não existem outras fontes sobre Jesus".


      A autoridade intelectual de Bultmann pôs uma pedra sobre esse veio de pesquisa. Interessar-se pelo Jesus histórico era perda de tempo. Porém, em 1953, Ernst Käsemann quebrou o tabu na trilha do método de estudo bíblico de Orígenes que, no século III, considerava-se um caçador que andava silenciosamente pela floresta até pressentir alguma coisa se movendo. Então, partia em sua perseguição.


      A vantagem de Käsemann e de todos que se debruçaram sobre o Jesus histórico na segunda metade do século XX, é que, agora, muitas coisas se moviam e traziam luz onde antes havia trevas. Em 1947, três beduínos pastoreavam seus rebanhos a oeste do Mar Morto. Um deles viu dois buracos na encosta de um penhasco e atirou uma pedra no menor. Escutaram um som, como se a pedra tivesse batido em jarras de barro. Dias depois, o mais jovem escalou sozinho o penhasco e enfiou-se pela caverna. Nas jarras não havia nenhum tesouro. Mas uma delas continha dois embrulhos de pano e um rolo de couro. Os beduínos guardaram o achado em um saco e o amarraram, por várias semanas, no pau de uma tenda próxima a Belém. Depois, passaram os embrulhos a um receptador de Belém, o sapateiro Kando que, sem saber o valor do que tinha em mãos, mostrou-os a pessoas que se interessavam por antiguidades. Os dois embrulhos de pano e o rolo de couro eram os primeiros Manuscritos do Mar Morto a serem descobertos. Logo, outros documentos foram encontrados em diversas cavernas.


      James H. Charlesworth rejeita o método da dissimilaridade ou princípio de descontinuidade, que procura destacar Jesus como figura singular, como um peixe fora das águas judaicas de seu tempo. Para o autor, "Jesus de Nazaré, como homem histórico, tem que ser visto dentro do judaísmo" (p. 10, grifo do A.). Embora se interessasse, como cristão, pelas questões teológicas referentes a Jesus, ele se detém, naquela obra, nos limites da historiografia. Os documentos que analisa permitem conhecer melhor o contexto em que Jesus viveu e, portanto, o significado de algumas de suas palavras e ações.


      Jesus era muito mais judeu do que supomos - é o que o livro, baseado em farta e erudita documentação, demonstra em linguagem acessível aos leitores em geral.  Não se trata de enfocar Jesus e o judaísmo, mas Jesus no judaísmo.


      O autor argumenta que já dispomos de recursos científicos suficientes para ter alguma ideia da compreensão que Jesus tinha de si mesmo. Comprova, por exemplo, que o título "Filho do Homem", frequente na boca de Jesus, não é uma criação cristã, já que é encontrado em documentos judaicos anteriores à destruição de Jerusalém pelos romanos, entre os anos 66 e 70. Todos os evangelhos são posteriores àquela data. Numa exegese detalhada da intrigante Parábola dos Vinhateiros Homicidas (Marcos 12, 1-12), não reluta em defender que Jesus se sentia adotado como filho por Deus.


      Charlesworth não pesquisa Jesus para mostrá-lo "como um herói do passado a ser admirado" (p. 31), mas para destacar a veracidade de certos fatos da vida dele, como a escolha dos discípulos em um contexto em que o habitual era os alunos escolherem o mestre. Enquanto seus contemporâneos cultuavam um Deus distante, Jesus tratava Deus como um Pai muito íntimo, repleto de compaixão e amor, especialmente para com os pobres e pecadores. Isso destoava dos judeus da época, que clamavam por vingança divina e exigiam a punição dos maus.


      Tendo convivido com grupos essênios - pois 4 mil deles espalhavam-se pela Palestina -, deles Jesus teria herdado o celibato "por amor ao Reino" (Mateus 19, 10-12). Criticava, porém, suas purificações formalistas que os impedia de amar o próximo e reconhecer que no coração de uma prostituta pode haver mais pureza do que em todas as abluções rituais. E com eles tinha em comum, além do tempo e do lugar (Palestina), as mesmas antigas tradições hebraicas, como a leitura de Isaías e a reza dos Salmos.


      A conclusão do autor aplaca o receio dos que temem a verdade histórica: "O fato de se examinarem documentos contemporâneos de Jesus e de se estudar arqueologia, no entanto, nunca deve ser encarado como uma tentativa de provar ou dar suporte a qualquer fé ou teologia. Uma fé autêntica não precisa disso. Filólogos, historiadores e arqueólogos não podem dar aos cristãos um Senhor ressuscitado, mas podem ajudar a compreender melhor a vida, o pensamento e a morte de Jesus" (p. 142).


      O curioso é que, dos documentos analisados no livro, os três mais importantes - Pseudo-epígrafos, Manuscritos e Nag Hammadi  - não foram descobertos por arqueólogos ou pesquisadores, mas por gente simples do povo. Hoje, nas Comunidades Eclesiais de Base da América Latina, é essa mesma gente simples que relê a Bíblia e, graças à assessoria científica de exegetas como Carlos Mesters, descobre que o Jesus da fé, o Cristo, se faz de novo presente na história através dos que oram "Pai Nosso" porque, juntos, buscam o "pão nosso".

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.

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segunda-feira, 25 de maio de 2020

O NECESSÁRIO DIÁLOGO ENTRE A FÉ E A CIÊNCIA


 

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer 

O caos que se apossou do Brasil com a chegada do coronavírus apresenta várias dimensões: sanitária, política, ideológica, econômica.  No entanto, há igualmente uma outra dimensão, que eu chamaria aqui de caos do discurso pseudocientífico – em boa parte artificialmente produzido.

 Enquanto os cientistas – médicos, pesquisadores, sanitaristas, técnicos em saúde – explicam à população como se porta a doença, quais as medidas necessárias para combatê-la, outras vozes parecem interferir no processo dessa comunicação adotando uma linguagem que instaura a confusão.   

A ciência é um dos motores do desenvolvimento da humanidade e da vida. Seu progresso tem sido responsável por grandes melhorias na vida humana, sobretudo no decurso do último século, ainda que os frutos desse progresso não tenham sido repartidos equitativamente pelo mundo.  Por outro lado, o mau uso que muitas vezes é feito dos conhecimentos científicos foi, no mesmo século passado, causa das piores provações pelas quais a humanidade teve que passar. Por isso, ainda que o progresso da ciência que a racionalidade moderna possibilitou seja altamente positivo; ainda que se considere correta a afirmação de que a ciência é o motor do desenvolvimento em todas as frentes; os esforços feitos por muitos países e regiões do globo no domínio científico ainda permanecem muito aquém de um mínimo julgado desejável. E boa parte das razões para tal é a manipulação que interesses econômicos, políticos e ideológicos fazem contra a objetividade e a excelência que deve caracterizar toda ciência.  

No momento em que explodiu a pandemia viral, a ciência – a medicina, a biologia, a infectologia e todas as áreas científicas que tratam da vida – ocuparam a linha de frente das atenções.  Buscaram-se orientações, explicações, argumentos lógicos que ajudassem a administrar a tragédia que vivíamos. 

Por outro lado, competições ideológicas e embates políticos, muitas vezes se atravessaram no caminho do trabalho científico.  E isso aconteceu por diversas formas: seja a do obscurantismo, que ataca retoricamente a liberdade de pesquisa científica, seja com políticas públicas retrógradas que cortam verbas e esvaziam institutos e laboratórios de pesquisa.  Em um momento em que a crise ecológica atinge proporções nunca antes vistas, os impactos climáticos são minimizados, e os alertas emitidos pela comunidade científica desprezados como se não fossem evidências objetivas e sim opiniões casuais e não fundamentadas. 

Com o Covid-19 a ciência voltou a ocupar seu papel de baluarte da verdade objetiva e verificável. Tornou-se um refúgio firme para uma sociedade assustada e vulnerabilizada pelo avanço descontrolado da doença e a subida dos números de vítimas fatais. A ciência é, hoje, a linha de frente no combate à pandemia. Fornece à população números, informações, percentagens que permitem ter um quadro do que se passa.  E podem ser vistos ao mesmo tempo inúmeros laboratórios empenhados em encontrar remédios que tratem a doença causada pelo vírus, sequenciando o genoma do vírus em tempo recorde, buscando pelos caminhos da pesquisa apaixonada e responsável uma vacina. 

Há, no entanto, tentativas de travar esse trabalho, muitas delas invocando o nome de Deus.  Contestam-se os dados fornecidos pela ciência, contradizem-se informações precisas e objetivas e se dão orientações conflitantes à população. Afirma-se que Deus salvará a todos do vírus, que o que os cientistas dizem é um exagero, e que o que há que fazer é orar porque Deus nos salvará do vírus.

Desde sempre, em todas as religiões, mas muito concretamente nas religiões monoteístas e mais especificamente no judeu-cristianismo, Deus não se imiscui nos negócios humanos para interferir na ação da própria humanidade na resolução de seus problemas.  O Espírito de Deus inspira, anima, orienta, consola, mas não toma as ferramentas das mãos da humanidade para resolver, em um passe de mágica, as dores e os problemas que essa própria humanidade está passando. 

Toda tentativa ao longo da história de converter Deus em árbitro da ciência, impedindo-a de avançar, já foi suficientemente desmascarada e situada em seu devido lugar: é falsidade e embuste. Assim, governantes despóticos e irresponsáveis que buscam desautorizar os cientistas que dizem a verdade em meio a um momento grave como o que estamos vivendo terão que responder diante do tribunal da história.  E também diante do tribunal divino, que fará cair os véus, desvelando suas tentativas de vendar os olhos do povo com ilusões e falácias, na sua mais atualizada forma: as fake news. 

Em meio à pandemia, a comunidade científica tem construído uma rede sólida de informações, colocando a ciência na vanguarda das políticas de combate à pandemia. Assim, se pode combater o obscurantismo institucionalmente, usando de transparência e honestidade, atualizando constantemente as medidas adotadas e procurando adequar as condições da saúde às reais necessidades decorrentes da própria pandemia.  E a fé não pode estar ausente dessa rede e desse diálogo. 

Falar de Deus em tempos de coronavírus implica  dialogar com a ciência e deixar-lhe plena autonomia no campo e competência que lhe é própria. Não misturar epistemologias ou querer tratar o que releva do campo do biológico com instrumentos falsamente espirituais que matam em vez de curar e alimentam políticas genocidas, empurrando as pessoas para o contágio e muito provavelmente para a morte. 

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros

 

Copyright 2020 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>

 


quinta-feira, 4 de abril de 2019

HARMONIA ENTRE CIÊNCIA E FÉ





Por Frei Betto

         O físico brasileiro Marcelo Gleiser, professor da Universidade de Dartmouth (EUA), arrebatou o Prêmio Templeton 2019, considerado o “Nobel” da espiritualidade. As fundação premiadora ressaltou ter ele dado “uma contribuição excepcional para afirmar a dimensão espiritual da vida”.

         Em julho de 2010, Gleiser e eu nos trancamos quatro dias no Hotel Santa Teresa, no Rio, para dialogar sobre fé e ciência, mediados por Waldemar Falcão. Do encontro resultou o livro “Conversa sobre a fé a ciência” (Agir/Nova Fronteira), hoje fora de catálogo.

         De formação judaica e órfão de mãe ainda criança, Gleiser teve a morte como primeiro desafio para encarar o além. Ainda jovem se interessou pelo taoísmo e o hinduismo, praticou ioga e, graças à leitura de Einstein, para quem nada era mais importante do que “experimentar o mistério”, descobriu que temas outrora reservados às religiões, como origens do Universo e da vida, agora eram abordados pela ciência. Recebeu ainda influência do físico e comunista brasileiro Mario Schenberg, que se declarava “materialista místico”.

         Antes de nosso encontro, lemos os livros um do outro. Verificamos haver entre nós mais convergências que divergências. Admirei-me com sua abertura ao transcendente, em especial nas obras “A harmonia do mundo” e “Criação imperfeita”, em um período em que físicos como Stephen Hawking e Richard Dawkins professavam o ateísmo militante.

         Gleiser admitiu ter se surpreendido com os  conhecimentos de astrofísica e física quântica de um frade após ler meus livros “A obra do artista – uma visão holística do Universo” (José Olympio) e “Sinfonia Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes).

         Entender o mundo é desvendar a mente de Deus. À minha afirmação de que a ciência é o reino da dúvida, Gleiser completou que “ela se alimenta da dúvida para buscar a verdade. Não existem verdades acabadas. O processo da busca é o processo da transcendência.”

         A ciência trata do “como” e a teologia do “porquê”.  “Não existe incompatibilidade entre espiritualidade e  ciência”, disse Gleiser. “Muito pelo contrário, o cientista dedica a vida ao estudo da natureza porque é apaixonado por ela. Essa relação é espiritual.”

         Admitiu ver “a busca pelo conhecimento científico como uma grande busca espiritual, que responde a anseios que estão conosco desde tempos ancestrais. Nossa visão do mundo caminha de mãos dadas com os avanços da ciência. Nossa espiritualidade também.”

         Agnóstico, o físico teórico concorda que a ideia de Deus não pode ser objeto da ciência, pois, como o amor, não é verificável. Pertence à esfera do mistério, que supera a nossa racionalidade. Talvez, opinou, a ciência jamais venha a obter a Teoria Unificada, capaz de articular todas as forças da natureza, como aspirava Hawking. E Gleiser duvida que, um dia, se possa explicar cientificamente as origens do Big Bang e da vida, e o funcionamento da mente, ainda que o cérebro esteja quase todo mapeado, bem como o mecanismo de suas ondas elétricas.

         Gleiser e eu entendemos que não se deve confundir religião e espiritualidade. A primeira é uma instituição, a segunda, uma experiência, assim como na distinção entre família e amor. E ambos consideramos que o esteio da espiritualidade é a meditação. Em um lago próximo à sua casa, em Hanover, praticava o fly fishing, pesca com isca artificial, em que os peixes são devolvidos vivos à água; o objetivo é esvaziar a mente do pescador. “A meta final de qualquer prática de 
meditação é você se desidentificar de sua mente”, ressaltou.
         Premiar Marcelo Gleiser representa significativo libelo contra a intolerância religiosa e a obsessão de pretender divinizar a ciência e desprestigiar a fé. 

Frei Betto é escritor, autor de “Por uma educação crítica e participativa” (Rocco), entre outros livros.
         
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

ENTRE A PERVERSA CORDIALIDADE BRASILEIRA E O CAOS DESTRUTIVO: UM BALANÇO DE 2018



Por Leonardo Boff

Dizem notáveis cosmólogos que tudo começou com um imenso caos, o big bang. Matéria e antimatéria se chocaram. Sobrou ínfima porção de matéria que deu origem ao atual universo. O caos foi generativo. Este ano conhecemos também grande caos em todas as instâncias. Irrompeu o lado perverso da cordialidade brasileira. Segundo Sergio Buarque de Holanda (Raizes do Brasil, 5.capitulo) “a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).

Nas eleições de 2018, o lado perverso da cordialidade ocupou a cena: muito ódio, difamações, milhões de fake news, até a facada no candidato Bolsonaro que acabou se elegendo presidente do país. Esse caos foi só destrutivo não mostrou ainda ser generativo. E deve ser para não entrarmos num beco sem saída.

Nunca em nossa histórica republicana tivemos um presidente de extrema-direita, homofóbico, misógeno, inimigo declarado de homoafetivos, quilombolas, ameaçador das reservas indígenas, promotor da venda generalizada de armas, tendo como símbolo de campanha os dedos em forma de arma.

Descendente de italianos Sem Terra, chegados ao Brasil no final do século XIX, pretende criminalizar o Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto como terroristas. Os temas sensíveis da corrupção, do anti-PT, do resgate dos valores tradicionais da família (mas Bolsonaro mesmo está já no terceiro casamento) e da luta contra o aborto, foram temas que turbinaram sua campanha. Algumas igrejas neo-pentecostais foram aliados fundamentais, máquinas de falsas notícias.

O eleito mostra-se ignorante dos principais problemas nacionais e mundiais. Tem uma leitura de caserna, fixada ainda nos tempos da ditadura militar a ponto de declarar herói um famoso torturador Brilhante Ustra. Escolheu ministros na contra-mão da história, negacionistas do aquecimento global, com ideias bizarras como são os das Relações Exteriores , o da Educação e o do Meio Ambiente. Alinhou-se subalternamente à política do presidente Trump, conflitando com aliados históricos.

Diz introduzir uma nova política que de novo não possui nada. Como diz um jovem filosofo que bem articula filosofia com política, Raphael Alvarenga: ”A novidade consiste na combinação monstruosa de necropolítica, lawfare, fundamentalismo religioso e ultraliberalismo econômico”.

O neoliberalismo econômico geral no mundo, ganhou aqui uma forma ainda mais radical, pondo nossos “commons” à venda no mercado internacional como o petróleo e a privatização de outros bens públicos.

O pacto social criado pela Constituição de 1988 foi rompido, primeiro, com o discutível impeachment da presidenta Dilma Rousseff e depois com a mudança das leis trabalhistas, com a negação da universal presunção de inocência, com as arbitrariedades da PF, do MPF e não em ultimo lugar, com o comportamento confuso e pouco digno do STF, ora muito leniente, ora excessivamente severo, ora submetido ao controle militar pela presença de um general, assessor do Presidente da Casa.

Vivemos de fato num Estado de exceção, pós democrático e sem lei, como o denunciou em dois livros, com esse título, o juiz de direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Rubens R.R. Casara. Boaventura de Souza Santos, conhecido sociólogo português, afirma mais peremptoriamente: ”O sistema jurídico e judicial criado para garantir a ordem jurisdicional é, nesse momento, um fator jurídico de desordem; é uma perversão perigosa….O STF é uma guerra social e institucional”.

O propósito dos que chegaram ao poder com seus aliados é destruir o PT e seu líder Lula, preso político e refém, borrar da memória popular as políticas sociais que beneficiaram milhões de pobres e permitiram a milhares de destituídos, o acesso à universidade.

Corrupção houve no PT bem como em quase todos os partidos. Um juíz de primeira instância, Sérgio Moro, perseguidor, foi treinado nos USA para aplicar a lawfare (distorcer a lei para condenar o acusado). Foi de uma parcialidade palmar, denunciada pelos juristas nacionais e internacionais mais sérios.

Mas não sejamos ingênuos: a sonegação fiscal anual de mais de 500 bilhões de reais, sete vezes maior que a corrupção política, revela o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional. Só com sua cobrança dispensar-se-ia a Reforma da Previdência. Mas a oligarquia brasileira, atrasada e anti-povo esconde o fato e a imprensa, cúmplice se cala.

Que podemos esperar? É uma incógnita. Por amor ao país e aos condenados da Terra, as grandes maiorias enganadas e iludidas, desejamos que o atual caos seja generativo e a cordialidade signifique benquerença para que a sociedade já muito injusta não seja tão malvada.

Leonardo Boff é filosofo e teólogo e escreveu Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

ALFIE EVANS E O BEBÊ REAL: ENTRE A MORAL E A RAZÃO



por  Maria Clara Bingemer                                               

O mundo inteiro distraiu-se um pouco de suas mazelas nos últimos dias para voltar os olhos para Londres.  Ali, na porta do hospital st. Mary, apareceram o príncipe William da Inglaterra, acompanhado de sua esposa Kate, duquesa de Cambridge, para apresentar ao povo inglês o novo bebê real. Com eles, os outros dois filhos, George, de 5 anos, Charlotte, de 2.  O caçula é um menino e ainda não teve seu nome divulgado. Bela família, feliz, saudável e aplaudida.

Enquanto isso, no hospital Alder Grey, em Liverpool, outra família sofre e clamava pelo direito de tentar mais um recurso para salvar a vida do filho.  Alfie Evans era um bebê de 23 meses acometido de uma doença degenerativa rara, que o fez ter um retardo em seu desenvolvimento.  O médico procurado à época disse que ele era preguiçoso, gostava de dormir e custaria mais do que os bebês normais a se desenvolver.  No entanto, uma severa infecção levou à primeira internação do menino. Depois mais outra e mais outra.  Finalmente, Alfie acabou permanecendo internado, pois dependia de aparelhos para ajudá-lo a respirar e se alimentar. 

Os pais de Alfie, Tom e Kate, afirmavam que o filho estava lutando com todas as forças que armazenava em seu pequeno corpo combalido pela doença.   E não queriam de forma alguma que os aparelhos fossem desligados.  Pela internet circulavam vídeos e fotos do pequeno piscando e fazendo gestos, mostrando que estava vivo.  O hospital e sua equipe de médicos mantiveram-se inamovíveis na convicção de que o pequeno Alfie devia ser desconectado dos aparelhos que lhe davam suporte e passar a receber apenas cuidados paliativos.  O caso foi à justiça. 

Tom e Kate não aceitavam esta decisão e já que não eram ouvidos nos tribunais de seu país, apelaram para o mundo.  Nas redes sociais, criaram-se sites e grupos em favor do direito de Alfie de continuar vivendo. Finalmente, a Itália se dispôs a receber a família Evans.  O menino viajaria em um avião equipado com todos os recursos e seria levado a um hospital para ali receber outros cuidados e tentar avançar em sua luta pela vida.  

Nos últimos dias, após o último recurso jurídico perdido por Tom e Kate Evans, Alfie foi desconectado dos aparelhos.  Porém, continuava respirando sozinho.  Segundo os pais, não foi a única vez em que isso aconteceu.  Em outros momentos em que quiseram desconectá-lo dos aparelhos que lhe dariam suporte para respirar e alimentar-se, Alfie também conseguiu respirar sozinho e o hospital foi obrigado a reconectá-lo. Mas nestas ocasiões ainda não havia a decisão jurídica final.  Uma vez que esta chegou, Alfie foi desligado da vida. 

A situação era dramática.  Por um lado, Alfie continuava vivo sem o suporte de nenhum aparelho.  Havia um avião pronto para decolar da Itália para ir buscá-lo e à sua família em Liverpool. Até a cidadania italiana lhe foi dada para reforçar mais a disposição do país em recebê-lo e contornar possíveis dificuldades migratórias.  Ali usariam procedimentos até então não utilizados como traqueostomia, a fim de tentar chegar a um diagnóstico mais preciso sobre sua saúde e traçar um novo plano de tratamento. 

A justiça inglesa não permite que isso seja feito e o hospital recusava-se a dar oxigênio para que o menino respirasse e soro para alimentá-lo. Após o desligamento dos aparelhos de suporte, se eventualmente o paciente continuasse com os sinais vitais, seria obrigatório fazê-lo.  Mas o hospital argumentou que o caso de Alfie não tinha esperança.  Havia que oferecer-lhe apenas cuidados paliativos, para que não sofresse. 

  Os pais não desistiam e faziam nele  respiração boca a boca para ajudá-lo a respirar e viver.  E continuavam lutando na justiça, acreditando que seu bebê merecia todas as chances para continuar vivo.  Mostravam ao mundo os relatórios hospitalares de Alfie, onde era comprovado que não estava sentindo dor nem sofrendo.  Reivindicavam seu direito de tomar a decisão que envolve a vida de um filho.  Argumentavam que havia outros países que queriam recebê-lo e tentar tratá-lo. 

No conflito entre o hospital e a família, apareceu claramente o polaridade entre moral e razão.  A posição dos médicos e da justiça britânica era, sem sombra de dúvida, racional. A razão dizia que aquele menino não tinha futuro.  Suas chances de sobrevida eram mínimas e não se devia prolongar inutilmente seu sofrimento e o de seus pais.  Esta é a decisão racional a ser tomada.

Os pais de Alfie, porém, viam nele uma vida que não se apagara.  Embora combalida, ali estava, latente, como “a mecha que ainda fumega” de que falava o profeta Isaías.  Por que não lhe dar mais uma chance?  Por que, se havia equipes médicas dispostas a atendêlo e tratá-lo?

    A mesma nação que se enternece e aclama o recém-nascido príncipe tem um sistema jurídico que condenava Alfie e o impedia de receber mais um recurso de acesso à vida.  Por quê? Em que a vida de Alfie importava menos que a do bebê de William e Kate? O que aconteceria se fosse este último que estivesse doente? A razão e a ciência existem no Reino Unido e na Itália.  Se há divergências na medicina de um e outro país, por que não dar a Alfie o benefício dos que viam positivamente seu caso e se dispunham a tratá -lo? 

Em todo caso, Tom e Kate Evans geraram aquela vida. Não pela razão, mas pelo amor.  Que a decisão que diz respeito à vida do filho fosse deixada a eles.  Torci para que pudesse  voar no avião italiano no encalço da esperança que os animava. 

Alfie morreu na madrugada deste sábado no Hospital Alder Hey. Seus pais divulgaram nota em que afirmavam: "Nosso bebê cresceu asas às 2h30m da madrugada. Nós estamos com o coração partido. Obrigado a todos pelo apoio."



Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão" (Edusc), entre outros livros