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sábado, 25 de dezembro de 2021

Presente à nação brasileira



Prof. Martinho Condini

Está semana enviei um uatezap para o “Papai Noel” (para mim um capetalista inescrupuloso)  que o melhor presente que nós vamos ganhar será em outubro de 2022, quando ocorrerão as eleições gerais em nosso país. 

Então, nós brasileiros e brasileiras teremos a oportunidade de nos presentear com o fim do governo das milícias, dos horrores, das atrocidades, do genocídio, da ignorância de um grupo e seus seguidores que infestaram o Brasil com sua burrice crônica, da qual eles se orgulham. Esta praga será combatida e exterminada nas urnas eletrônicas e não nas cédulas de papel como queria ou ainda quer o capetão cloroquina.

Não será fácil, eu sei, todos nós sabemos como é difícil exterminar as pragas, mas não é impossível. Principalmente se todas as brasileiras e brasileiros sensíveis e responsáveis se empenharem e começarem agora, a conversar com os seus parentes, amigos e amigas sobre a mudança que será necessária para o Brasil retomar o rumo da dignidade, desenvolvimento e justiça social. Não é nada razoável e coerente continuarmos com esse desgoverno que está acabando com o nosso país, e terá mais um ano para fazer muito estrago.

Nós iniciamos o século XXI, de uma maneira extraordinária, nos tornamos a sexta economia do mundo, jovens ingressaram nas universidades públicas e privadas por meio do  PROUNI, o nosso desenvolvimento agroindustrial possibilitou a geração de milhões de empregos, como também  milhões de pessoas saíram da condição de miseráveis. Políticas públicas foram implementadas em vários setores: educação, saúde, assistência social e outros. A fome foi extinta no Brasil (e agora está de volta de maneira avassaladora, infelizmente, não é por causa da pandemia, mas do desgoverno do pandemônio). Isso tudo só foi possível por um simples motivo, vontade política de um grupo político progressista e preocupado com as camadas populares do nosso país, que ao longo da história sempre estiveram à margem das prioridades das elites governistas.

Nada acontece se não houver vontade política por parte daqueles que estão no poder. E quando digo, dos que estão no poder, me refiro aos membros do legislativo e executivo, sendo que num sistema presidencialista são os legisladores que determinam como a banda irá tocar. E hoje em nosso congresso quem está com a batuta na mão são os parlamentares da bancada do BBB (Bíblia, Bala e Boi). São estes que dão sustentação ao capetão cloroquina.  

Desde o golpe de 2016, esse país entrou em um processo de esfacelamento, todas as conquistas que a sociedade obteve até então estão sendo destruídas.

Para recuperarmos a credibilidade do nosso Brasil no exterior, o crescimento econômico e as condições dignas de vida do povo brasileiro, precisaremos impedir que esse “Estupidossauro Bolsonarus” e o seu gado acéfalo sejam extirpados do governo.

O presente a nação brasileira virá daqui a dez meses, após todos nós, durante este período, conversarmos e dialogarmos nas fábricas, escolas, escritórios, na feira, super mercado, consultórios médicos ou dentários, festas de aniversário, restaurantes, bares, quiosques de praia, na roça, nas redes sociais ou qualquer outro espaço, sobre o que está ocorrendo em nosso país. Isso fará toda a diferença.

      E tenho certeza que essa nossa atitude possibilitará sermos felizes de novo.

O Prof. Martinho Condini é historiador, mestre em Ciências da Religião e doutor em Educação. Pesquisador da vida e obra de Dom Helder Camara e Paulo Freire. Publicou pela Paulus Editora os livros 'Dom Helder Camara um modelo de esperança', 'Helder Camara, um nordestino cidadão do mundo', 'Fundamentos para uma Educação Libertadora: Dom Helder Camara e Paulo Freire' e o DVD ' Educar como Prática da Liberdade: Dom Helder Camara e Paulo Freire. Pela Pablo Editorial publicou o livro 'Monsenhor Helder Camara um ejemplo de esperanza'. Contato profcondini@gmail.com

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

QUANDO A IGREJA BRASILEIRA REDESCOBRE IBIAPINA




Por Eduardo Hoornaert

Dois sacerdotes que atuam na Paraíba, Ernando Teixeira e José Floren, lançaram recentemente um livro, intitulado ‘Padre Ibiapina por nossos bispos, Textos episcopais’ (Ideia Editora, João Pessoa, 2019, ISBN 978 85 463 0418 9). Um livro que, em sua modéstia, é marca de uma passagem histórica. Quatorze bispos, na maioria nordestinos, redescobrem Ibiapina e, com ele, as fundas raízes da tradição católica neste país. O que hoje é um vislumbre, pode ser amanhã alavanca de grandes transformações.

A importância da redescoberta de Ibiapina e, portanto, dos quatorze testemunhos episcopais reunidos nesse livro, se realça melhor quando situamos essa figura diante de um amplo painel histórico.

Duas forças históricas modelam as religiões, desde tempos imemoráveis: a devoção (a fé) e a instituição. A primeira na origem, a segunda como sustentáculo indispensável. A instituição, bem compreendida, é um serviço prestado à devoção. Devoção e instituição se apresentam como forças vinculadas, interdependentes, sendo que uma religião funciona a contento quando ambas as forças constituem uma só engrenagem.

Acontece que a história das religiões está repleta de casos em que a instituição desvia a força criativa da devoção para fins interesseiros, seja para fortalecer o poder do imperador do momento, seja para beneficiar classes privilegiadas, seja ainda para arregimentar o povo em guerras santas.

A história da religião cristã não escapa a esse processo de apropriação da devoção pelas forças da instituição. Um caso flagrante acontece no século IV, na chamada ‘reviravolta constantiniana’. Na época, muitos líderes de comunidades cristãs se deixam seduzir pelos modos em que a religião se organiza no Império Romano. A religião oficial romana consiste na drenagem do dinamismo espiritual dos povos subjugados para fins políticos, ao apresentar o Imperador como uma figura divina a merecer a devoção dos povos. Um péssimo exemplo. Infelizmente, é exatamente a imagem do Imperador romano que impacta os bispos reunidos na Capital do Império em torno de Constantino, a celebrar o Concílio de Niceia em 325. Os bispos cometem o equívoco de apresentar o modelo romano em termos de organização religiosa como exemplo a ser seguido nas comunidades cristãs. Imitando o modelo corporativo sacerdotal do Império, montam um sistema eclesiástico de tipo corporativo, a administrar e controlar o universo devocional cristão. Doravante, a ‘igreja devota’ se vê na contingência de se acomodar a essa instituição hegemônica, sob pena de sofrer a pecha de heresia.

As consequências dessa guinada história se fazem sentir até hoje. O sacerdote se apropria do universo devoto, marginaliza o antigo articulador das comunidades, reserva para si a administração do sagrado. Os sacramentos, sinais do amor de Deus, se transformam em ritos obrigatórios. O batismo, a missa dominical, a confissão anual, o matrimônio, tudo se torna obrigatório. O clero alcança o topo do poder e o devoto se torna seu subalterno. Um ‘devoto do santo’ que se recusa a ser um ‘fiel do padre’, é expulso e perseguido como herege. A paróquia pratica concretamente essa conversão de devoto em fiel. O povo torna-se ‘objeto’ da ‘pastoral’ eclesiástica. Os que não são batizados, não vão à missa nos domingos, não são casados na igreja, são discriminados e, com o tempo, expulsos da comunidade. Forma-se um universo católico, que na Europa Ocidental, ou seja, no centro do sistema eclesiástico, funciona a contento durante longos séculos.

Nas periferias do sistema, contudo, as coisas são diferentes. A partir do século XVI, a igreja católica se expande pelo mundo ao acompanhar e sustentar a colonização europeia na África e na América, assim como em grandes partes da Ásia. Criam-se periferias em que o programa paroquial não consegue funcionar como planejado. Nelas, de modo natural, sem planejamento, a igreja devota emerge como força de aglutinação de populações. Pois, como escrevi acima, a devoção constitui a base da religião. Ao integrar energias espirituais provenientes da Europa a energias provenientes de povos originários e de escravos africanos, a devoção se torna a grande força civilizadora e humanizadora das periferias colonizadas. Funciona uma igreja de

muito santo, pouco padre,
muita promessa, pouca missa,

conforme a feliz caracterização do sociólogo Pedro Ribeiro de Oliveira. Funciona uma igreja devota, longe de padre, de bispo, de papa. Ao longo de pelo menos três séculos, nenhum papa se intromete em assuntos de igreja na América. Nenhum documento papal menciona o continente entre 1537 (Bula ‘Sublimis Deus’ do Papa Paulo III) e 1839 (Carta Apostólica ‘In Supremo Apostolatus’ do Papa Gregório XVI). A organização da igreja católica na América fica nas mãos de monarcas ibéricos, que praticamente se limitam a nomear os bispos (o Padroado) e não interferem em assuntos pastorais. Desse modo, devoções portuguesas e espanholas, fertilizadas por

espiritualidades da terra e dos imigrantes africanos, configuram um cristianismo específico, longe das análises e dos planos pastorais. Comete uma temeridade quem considera essas devoções desprovidas de valores cristãos. Se vivenciam modos de vida que cultivam – por vezes de modo surpreendente – valores evangélicos, como fraternidade, fidelidade, respeito, tolerância, preservação da natureza, senso de beleza, atitude saudável diante do sexo, além de extraordinária capacidade de comunicação.

É diante de painel histórico dessa amplitude que a figura do Padre Ibiapina ganha sua verdadeira dimensão. Ele é expoente da igreja devota numa periferia do sistema católico, os sertões nordestinos do Brasil. Não pratica uma pastoral sacramentalista e/ou penitencial. Isso se percebe quando comparamos Padre Ibiapina com outro missionário, que exerce forte impacto nos povos católicos do Nordeste numa época mais recente: o capuchinho italiano Frei Damião de Bozzano (1898-1997). As missões populares do Frei desembocam invariavelmente em confissões, comunhões e procissões penitenciais. Frei Damião é ‘tridentino’, ou seja, segue basicamente as orientações sacramentalistas e penitenciais do Concílio de Trento, celebrado no século XVI. Os Frades capuchinhos italianos percorrem incansavelmente os sertões e têm na figura de Frei Apolônio da Toddi um de seus mais marcantes expoentes. Enquanto se referem a planos pastorais concebidos no século XVI, o Padre Ibiapina segue uma tradição que remonta à origens do movimento de Jesus. Ele trabalha com temas originais: criação divina, graça operante, devoção ativa, luta pela realização do reino de Deus na terra. Enquanto Frei Damião trabalha com o tema do ‘pecado original’, o Padre Ibiapina segue o tema da ‘graça original’. Enquanto as missões de Frei Damião desembocam no sacramento, as do Padre Ibiapina desembocam no mutirão, ou seja, na colaboração de toda a comunidade.

Com o Padre Ibiapina, o dinamismo da igreja devota resulta em engajamentos no plano social, em projetos que visam melhorar a vida de populações dos sertões nordestinos. Animado por uma espiritualidade que se materializa em construção de igrejas e cemitérios, açudes e canais de adução de água, em fundações de ‘Casas de Caridade’, Ibiapina continua nos desafiando.

Ao andar pelos sertões, inicialmente para um serviço de ‘primeiros socorros’ (ele inicia suas incursões nos sertões com um trabalho no sentido de combater um surto de cólera no interior de Pernambuco) Ibiapina descobre o dinamismo da devoção, um tesouro escondido. Ele passa a enxergar o que muitos não conseguem ver, pois anda além das fronteiras da europeização da cultura brasileira, que atinge em primeiro lugar as cidades, fora da ‘romanização’ da igreja católica, igualmente ativada nas cidades. É andando pelos sertões que Ibiapina percebe que o Brasil está num processo acelerado de perda de memória. Isso é trágico. A escritora francesa Simone Weil escreve: ‘o enraizamento talvez seja a necessidade mais importante e mais negligenciada da alma humana’. Podemos acrescentar: ‘e de um povo’. Um povo que perde suas raízes se torna facilmente vítima daqueles que cobiçam as riquezas do país. Por onde penetra, o dinheiro destrói raízes, desativa estímulos. O Moloch do dinheiro engole a memória do povo.

É diante desse quadro que se compreende a importância desse livro, a recolher testemunhos de quatorze bispos. Ao descobrir o Padre Ibiapina, eles descobrem o Brasil. Superam o silenciamento, o esquecimento, o desenraizamento, que atualmente afetam o país. Ultrapassam a romanização e europeização da Igreja Católica no Brasil e reatam laços com o Brasil profundo, o Brasil dos devotos, das devotas. Prestam atenção ao que é realmente importante. Ao descobrir Ibiapina, os bispos descobrem um povo que peregrina a Santa Fé em Arara, que faz promessas com o Padre Ibiapina e venera em casa sua imagem.

Eles sabem, contudo, que o trabalho de ressurgimento está apenas começando, sabem que as novas gerações podem aprender muito em termos de sensibilidade social e disponibilidade, no sentido de colaborar com a libertação do povo nordestino das amarras da escravidão e do abandono. Nesse sentido, Ibiapina é capaz de despertar energias onde menos se espera. Quem não se admira pelo fato que, em tempos de Ibiapina, esposas de proprietários, de fazendeiros, habituadas a contemplar passivamente a miséria do povo em seu redor, se sensibilizam pelo apelo daquele padre que percorre as estradas e se prontificam a ajudá-lo a montar suas ‘Casas de Caridade’ e mesmo - em determinados casos - colaboram na administração e mesmo na direção dessas instituições, que não só pretendem ser de amparo aos pobres, mas positivamente de educação e treinamento de moças para a vida matrimonial? Pois, nas Casas de Caridade não só se acolhem crianças ‘enjeitadas’ (rejeitadas, órfãs, ‘oferecidas’), mas igualmente moças desejosas de conseguir um bom casamento, numa sociedade em que a educação feminina é muito deficiente. As ‘pensionistas’ aprendem a ler, escrever, contar, cozinhar, fiar, tecer algodão, costurar, bordar, fazer sapatos, plantar sementes em tempo certo, fazer chapéu de palha, tecer rede. Conhecimentos e habilidades que as condicionam a serem ‘prendadas’, ‘dotadas’, preparadas para um bom casamento e para a formação de uma boa família, onde se preza o trabalho e a honestidade. Se essas moças trabalham bem, elas até recebem, por parte da instituição, um ‘dote’ na hora do casamento. Só não aprendem a datilografar, a fazer escrituração mercantil, a falar inglês, pois o Padre é terminantemente contra a mercantilização da vida. Nem aprendem a enfeitar bolos açucarados, como se faz nas Casas Grandes.

O tempo dirá se as sementes, aqui espalhadas pelos bispos, vão germinar, crescer e evoluir. Uma coisa me parece certo: trata-se de um processo que pede tempo. Isso eu pude verificar pessoalmente. Nos idos de 1960, quando ensinava História da Igreja no Seminário de João Pessoa, constatei que meus alunos não conheciam nem os nomes de figuras como Antônio Conselheiro ou Ibiapina. De Padre Cícero, eles tinham uma ideia vaga e fundamentalmente negativa. Lembro-me que, certa vez, lhes dei uma tarefa de férias: ‘procurem informações acerca do Padre Cícero’. Eles voltaram me dizendo que falaram com seus vigários e sempre receberam a mesma resposta: ‘O Padre Cícero é persona non grata’. Como, ao mesmo tempo, eu era vigário de um bairro periférico de João Pessoa, estranhei o fato que o povo – esse sim – guardava a memória de Padre Cícero com carinho. Encontrava, colado na parte interior das portas (de duas bandas), um santinho com os dizeres ‘Padre Cícero, abençoe esta casa’. Finalmente, em 1964, resolvi viajar a Juazeiro do Norte e foi ali que recebi, das mãos da Professora Amália Xavier, um manuscrito intitulado ‘Crônica das Casas de Caridade do Padre Ibiapina’. Assim me encontrei, pela primeira vez, com o Padre Ibiapina. Tentei, durante vinte anos, encontrar uma editora que se dispusesse a publicar o manuscrito, até que a Editora Loyola dos jesuítas, de São Paulo, aceitasse publicar a ‘Crônica das Casas de Caridade’, em 1981. Houve uma segunda edição pelo Museu do Ceará (Fortaleza), em 2006. Felizmente, dois anos depois o Padre Ernando Teixeira nos brindou com uma edição que se pode considerar definitiva, com notas e comentários, sob o título ‘A missão ibiapina’ (Gráfica Editora Berthier, Passo Fundo, 2008).

Um tema importante, relacionado com a atuação de Ibiapina, diz respeito a sua relação com o sistema escravocrata, então em vigor. Gilberto Freyre, o famoso autor de ‘Casa Grande e Senzala’, compara, num artigo publicado em 1942, o modo de se viver nas Casas de Caridade e nas Casas Grandes do tempo (veja pp. 116-117 do livro que estou aqui comentando). Ele constata: as Casas de Caridade não funcionam por meio de trabalho escravo.

Efetivamente, se é verdade que uma Casa de Caridade lembra, em termos de construção, a Casa Grande da época e, além disso, é frequentemente administrada por mulheres da artistocracia, provenientes da Casa Grande, nela não circulam escravos e escravas.

É verdade que as pensionistas são secundadas por auxiliares de serviços gerais (mulheres do trabalho). Mas estas, nas horas vagas, recebem aulas de doutrina e leitura. Após uma permanência de cinco anos nas Casas de Caridade, elas podem optar entre a vida religiosa (irmãs de caridade) e o casamento, recebendo aí o mesmo tratamento atribuído às órfãs, incluindo o dote. É verdade que, na Casa de Caridade vigora a disciplina, mas ela não é em nada comparável ao que sofrem as escravas da época. Os castigos são iguais para todas, pensionistas e auxiliares, circunscritos a penitências (jejum e silêncio), restrições de recreio, eventual retirada de distintivos nos trajes, como escreve Celso Mariz, o mais antigo biógrafo de Ibiapina (‘Padre Ibiapina, um Apóstolo do Nordeste’, Ed. A União, João Pessoa, 1942, p. 253).

Há também as ‘beatas’, que são mulheres livres. Elas constituem um capítulo à parte, que não comento aqui. Se você estiver interessado, veja, de Ernando Teixeira, o artigo ‘Ibiapina e seus beatos’, na Revista Eclesiástica Brasileira (REB) de maio 2009. Veja também, de Hugo Fragoso, o artigo ‘As beatas do Padre Ibiapina, uma forma de vida religiosa para os sertões no Nordeste’, em: Desrochers, G. & Hoornaert, E., Ibiapina e a Igreja dos Pobres (São Paulo, Paulinas, 1984).

O ensino, numa Casa de Caridade, visa facilitar o casamento, na época a chave do problema das mulheres, visa a profissionalização e preparação a trabalhos remunerados. Como já escrevi acima, as meninas aprendem os afazeres de qualificadas ‘donas de casa’. Pois o Padre é intransigente no seguinte ponto: na Casa de Caridade reina a lei do trabalho, não do lucro nem da comodidade de se apoiar em trabalho alheio. Ele não quer saber em comprar terrenos ou casas, só trabalha em cima de donativos, de doações. Existe um texto em que ele deixa claro que entende perfeitamente que a compra leva irremediavelmente ao predomínio de dinheiro sobre o princípio do compartilhamento. Pois não podemos esquecer que, na sociedade brasileira do século XIX, como escreve um autor, se a relação entre o senhor e escravo se baseia na violência, a relação entre senhor e homens livres é mediatizada pelo favor. O favor é o grande instrumento da hierarquização da sociedade brasileira no século XIX. Ibiapina intui esse dado com rara lucidez: favor leva a subserviência, à manutenção de relações sociais injustas. Ou se age por amor, ou não se faz nada. Ou se organiza por meio de donativos, ou não se organiza. Reina a gratuidade. É nesse sentido que se entende que o Padre Ibiapina manda o Beato Inácio ao Rio de Janeiro para colher esmolas, um dado que é realçado no primeiro capítulo do livro aqui em apreço (pp. 19-23), que traz um texto muito interessante do então bispo do Rio de Janeiro, Dom Pedro Maria de Lacerda (1830-1890). Essas esmolas, com insiste Mariz, não são ‘favores’, são expressões de caridade cristã: a instituição não recebia de presente, não comprava e não possuía escravos (Mariz, 1942, p.257). O Padre Ibiapina, no dizer do mesmo autor organiza uma obra de assistência e educação, a fim de socorrer os trabalhadores e preparar para fins domésticos a mulher pobre dos sertões (ibidem, p. 4). Isso sem qualquer ajuda por parte do poder público, voltado para os interesses das capitais e dos centros urbanos e desinteressado em oferecer ensino público dirigido ao sexo feminino. O Padre conta com as energias da população camponesa e, com o tempo, suas obras se revelam superiores às do governo. Ele conta com o mutirão, a livre e espontânea colaboração das pessoas, algo que o governo não consegue. Além disso, usa materiais locais, não gasta inutilmente, tira proveito do que a realidade local lhe oferece.

Termino trazendo mais uma recordação pessoal. Anos atrás, vivendo em Fortaleza, surpreendi o Cardeal Aloísio Lorscheider, em sua casa, lendo a ‘Crônica das Casas de Caridade’. Ele me disse: Aqui está a realidade do Nordeste. Uma realidade que continua, mais que nunca, nos desafiando.

Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

ENTRE A PERVERSA CORDIALIDADE BRASILEIRA E O CAOS DESTRUTIVO: UM BALANÇO DE 2018



Por Leonardo Boff

Dizem notáveis cosmólogos que tudo começou com um imenso caos, o big bang. Matéria e antimatéria se chocaram. Sobrou ínfima porção de matéria que deu origem ao atual universo. O caos foi generativo. Este ano conhecemos também grande caos em todas as instâncias. Irrompeu o lado perverso da cordialidade brasileira. Segundo Sergio Buarque de Holanda (Raizes do Brasil, 5.capitulo) “a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).

Nas eleições de 2018, o lado perverso da cordialidade ocupou a cena: muito ódio, difamações, milhões de fake news, até a facada no candidato Bolsonaro que acabou se elegendo presidente do país. Esse caos foi só destrutivo não mostrou ainda ser generativo. E deve ser para não entrarmos num beco sem saída.

Nunca em nossa histórica republicana tivemos um presidente de extrema-direita, homofóbico, misógeno, inimigo declarado de homoafetivos, quilombolas, ameaçador das reservas indígenas, promotor da venda generalizada de armas, tendo como símbolo de campanha os dedos em forma de arma.

Descendente de italianos Sem Terra, chegados ao Brasil no final do século XIX, pretende criminalizar o Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto como terroristas. Os temas sensíveis da corrupção, do anti-PT, do resgate dos valores tradicionais da família (mas Bolsonaro mesmo está já no terceiro casamento) e da luta contra o aborto, foram temas que turbinaram sua campanha. Algumas igrejas neo-pentecostais foram aliados fundamentais, máquinas de falsas notícias.

O eleito mostra-se ignorante dos principais problemas nacionais e mundiais. Tem uma leitura de caserna, fixada ainda nos tempos da ditadura militar a ponto de declarar herói um famoso torturador Brilhante Ustra. Escolheu ministros na contra-mão da história, negacionistas do aquecimento global, com ideias bizarras como são os das Relações Exteriores , o da Educação e o do Meio Ambiente. Alinhou-se subalternamente à política do presidente Trump, conflitando com aliados históricos.

Diz introduzir uma nova política que de novo não possui nada. Como diz um jovem filosofo que bem articula filosofia com política, Raphael Alvarenga: ”A novidade consiste na combinação monstruosa de necropolítica, lawfare, fundamentalismo religioso e ultraliberalismo econômico”.

O neoliberalismo econômico geral no mundo, ganhou aqui uma forma ainda mais radical, pondo nossos “commons” à venda no mercado internacional como o petróleo e a privatização de outros bens públicos.

O pacto social criado pela Constituição de 1988 foi rompido, primeiro, com o discutível impeachment da presidenta Dilma Rousseff e depois com a mudança das leis trabalhistas, com a negação da universal presunção de inocência, com as arbitrariedades da PF, do MPF e não em ultimo lugar, com o comportamento confuso e pouco digno do STF, ora muito leniente, ora excessivamente severo, ora submetido ao controle militar pela presença de um general, assessor do Presidente da Casa.

Vivemos de fato num Estado de exceção, pós democrático e sem lei, como o denunciou em dois livros, com esse título, o juiz de direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Rubens R.R. Casara. Boaventura de Souza Santos, conhecido sociólogo português, afirma mais peremptoriamente: ”O sistema jurídico e judicial criado para garantir a ordem jurisdicional é, nesse momento, um fator jurídico de desordem; é uma perversão perigosa….O STF é uma guerra social e institucional”.

O propósito dos que chegaram ao poder com seus aliados é destruir o PT e seu líder Lula, preso político e refém, borrar da memória popular as políticas sociais que beneficiaram milhões de pobres e permitiram a milhares de destituídos, o acesso à universidade.

Corrupção houve no PT bem como em quase todos os partidos. Um juíz de primeira instância, Sérgio Moro, perseguidor, foi treinado nos USA para aplicar a lawfare (distorcer a lei para condenar o acusado). Foi de uma parcialidade palmar, denunciada pelos juristas nacionais e internacionais mais sérios.

Mas não sejamos ingênuos: a sonegação fiscal anual de mais de 500 bilhões de reais, sete vezes maior que a corrupção política, revela o Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional. Só com sua cobrança dispensar-se-ia a Reforma da Previdência. Mas a oligarquia brasileira, atrasada e anti-povo esconde o fato e a imprensa, cúmplice se cala.

Que podemos esperar? É uma incógnita. Por amor ao país e aos condenados da Terra, as grandes maiorias enganadas e iludidas, desejamos que o atual caos seja generativo e a cordialidade signifique benquerença para que a sociedade já muito injusta não seja tão malvada.

Leonardo Boff é filosofo e teólogo e escreveu Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.


sexta-feira, 9 de novembro de 2018

A DIMENSÃO PERVERSA DA “CORDIALIDADE” BRASILEIRA




por leonardo boff

Em 31/10/2014 publiquei no JB on line um artigo sobre o que significa o brasileiro como “homem cordial”. Republico-o, modificado, por sua alta atualidade. Nos últimos dois anos temos conhecido uma onda de ódio e discriminação sem precedentes em nossa história. Particularmente durante a campanha eleitoral para presidente. Houve injúrias, calúnias, milhões de fake news e todo tipo de palavrões. Ai se mostrou o lado perverso do assim chamado povo brasileiro como “cordial”.
Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro: “Raízes do Brasil” de 1936 que lhe dedica o inteiro capítulo Vº. Mas esclarece, contrariando Cassiano Ricardo que entendia a “cordialidade” como bondade e a polidez. Mas “nossa forma ordinária de convívio social é no fundo, justamente o contrário da polidez”(da 21ª edição de 1989 p. 107).
Sergio Buarque assume a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de coração. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio. Bem diz o autor: ”a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107). Eu diria que ele é um sentimental mais que cordial, o que me parece mais adequado.
Escrevo tudo isso para tentar entender os sentimentos “cordiais” que irromperam na campanha presidencial de 2018. Houve por uma parte declarações de entusiasmo até ao fanatismo e por outra, de fascismo e de ódios profundos e expressões chula. Verificou-se o que Buarque de Holanda escreveu: a falta de polidez no nosso convívio social.
Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos programas partidários na TV.
Para entender melhor esta nossa “cordialidade” cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão, tendo que assumir as formas políticas, a língua, a religião e os hábitos do colonizador português. Em consequência criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem o mostrou Gilberto Freyre não se trata de instituições sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado o senhor que tudo possui e manda e do outro o servo ou o servidor que pouco tem e se submete. Gerou-se também a hierarquização social que se revela pela divisão entre ricos e pobres. Essa estrutura subsiste na cabeça de importantes oligarcas e se tornou um código de interpretação da realidade e aparece claramente nas formas como as pessoas se tratam nas redes sociais.
Outra tradição muito perversa foi a escravidão tão bem descrita por Jessé Souza em seu livro: ”A elite do atraso: da escravidão à Lava-Jato”(2018). Cabe recordar que houve uma época, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje cerca de 60% possui algo em seu sangue de escravos afrodescendentes. São discriminados e postos nas periferias, humilhados a ponto de perderam a própria autoestima.
A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro que devia sempre servir, porque antes fazia tudo de graça e, imagina-se que deve continuar assim. Pois desta forma se tratam, em muitos casos, os empregados e empregadas domésticas ou os peões de fazendas. Uma madame da alta classe disse certa vez: ”os pobres já recebem a bolsa-família e além disso creem que têm direitos”. Eis a mentalidade da Casa Grande.
As consequências destas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos, não tanto de conflito de classe (que também existe) mas antes de conflitos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo de nossas cidades históricas. O nordestino é ignorante, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do nordeste nos vêm grandes escritores, poetas, atores e atrizes. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.
Todas essas contradições de nossa “cordialidade” apareceram nos twitters, facebooks e outras redes sociais. Somos seres demasiadamente contraditórios.
Acrescento ainda um argumento de ordem antropológico-filosófica para compreender a irrupção dos amores e ódios nesta campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade fontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de sim-bólica (que une) e de dia-bólica (que divide). Os modernos falam que somos simultaneamente dementes e sapientes (Morin), quer dizer, pessoas de racionalidade e bondade e ao mesmo tempo de irracionalidade e maldade.
Esta situação não é um defeito da criação, mas uma característica da condition humaine. Cada um tem que saber equilibrar estas duas forças e dar primazia às dimensões de luz sobre as de sombras e de sapiente sobre as de demente.
Não devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender como dizia Spinoza. Mas não é suficiente entender. Urge praticar formas civilizadas da “cordialidade” na qual predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeitem as minorias e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos, num projeto por todos assumido. Só assim se gesta o que se chamou o Brasil como a “Terra da boa Esperança” (Ignacy Sachs).
Não será o presidente eleito a pessoa da reconciliação nacional, pois ele, por seu estilo, é fator de divisão e criador de uma atmosfera social de violência e discriminação.
Leonardo Boff escreveu “O despertar da águia: o dia-bólico e o sim-bólico na construção da realidade”, Vozes, Petrópolis 1998.


sexta-feira, 8 de junho de 2018

A CRISE BRASILEIRA PARTE DA CRISE GLOBAL


por Leonardo Boff

Não se pode analisar o Brasil só a partir do Brasil. Nenhum país está fora das conexões internacionais, nem a fechada Coréia Norte, que a planetização inevitavelmente criou. Ademais nosso país é a sexta economia do mundo, coisa que desperta a cobiça das grande corporações que querem vir para cá, não para ajudar no nosso desenvolvimento com inclusão, mas para poder acumular mais e mais, dada a extensão de nosso mercado interno e da superabundância de commodities e de bens e serviços naturais, cada vez mais necessários para sustentar o consumismo dos países opulentos.

Três nomes devem ser lembrados, pois configuraram o quadro atual da economia e da política mundial. O primeiro é sem dúvida Karl Polaniy que já em 1944 notou “A grande Transformação” que ocorria no mundo. De uma economia de mercado estávamos passando para uma sociedade de mercado. Vale dizer, tudo é comercializável, até as coisas mais sagradas. Com tudo podemos lucrar, coisa que Marx em sua Miséria da Filosofia chamou de a grande corrupção e de a venalidade geral. Até órgãos humanos, a verdade, a consciência, o saber se transformaram em meios de ganho. Tudo é feito na lógica do capital que é a concorrência e não a solidariedade, o que faz as socedades se esgarçarem em lutas ferrenhas entre as empresas.

Outros dois nomes cabem ser citados: Margareth Tachter e Ronald Reagan. Como consequência da erosão do socialismo real, entrou, vitorioso, o capitalismo agora sem peias, impostas antes pela contenção feita pelo modo de produção socialista. Agora o capitalismo pôde viver tranquilo sua lógica individualista, acumuladora e consumista. Tatscher era consequente ao afirmar que a sociedade não existe. Existem indivíduos que lutam por si contra todos. Reagan sustentou a total liberdade do mercado, a diminuição do Estado e o processo de privatização dos bens nacionais. Era o triunfo do neoliberalismo. Antes com o liberalismo, para usar uma metáfora, a mesa estava posta. Os endinheirados ocupavam os primeiros lugares e se serviam à tripa forra. Os demais encontravam seu lugar em alguma canto da mesa. Mas estavam à mesa. Com o neoliberalismo a mesa está posta. Mas somente podem participar quem tem condições de pagar. Os demais disputam os lugares ao pé da mesa com os cães, comendo restos.

Esta política neoliberal implantada no mundo inteiro, deu livre curso às grandes corporações de poderem acumular o mais que podem. O lema de Wall Street era e continua sendo:greed is good (a ganância é boa). Tal vontade de acumulação fez com que um pequeno número de pessoas controlassem grande parte da riqueza mundial, gestando um mar de pobres, miseráveis e famelicos. Como a cultura do capital não conhece a compaixão nem a solidariedade e somente a competição e a supremacia do mais forte, criou-se um mundo com um nível de barbárie raramente alcançado na história.

Do meu ponto de vista, o capitalismo como modo de produção e sua ideologia política o neoliberalismo atingiram o seu fim, num duplo sentido. Lograram seu fim, vale dizer, alcançaram o seu fim-objetivo: a suprema acumulação. E o seu fim como término e desaparecimento. Não porque o queiramos, mas porque a Terra limitada em bens e serviços, grande parte não renováveis, não aguenta um projeto ilimitado rumo ao infinito do futuro. A Terra mesma tornará esse projeto impossível. Ou ele muda de modo de produção e de consumo ou será condenado a desaparecer. Como não possui um sentido de pertença e trata a natureza como mera coisa a ser explorada incontrolavelmente, seguirá um caminho sem retorno, pondo em risco o sistema-vida e a própria Casa Comum que poderá se tornar inabitável.

Ora, no transfundo teórico de nossos neoliberais brasileiros, os que deram o golpe e elaboraram “A Ponte para o Futuro” (para o fracasso) vem imbuídos, sem o mínimo de consciência e de crítica, desse sonho mau neoliberal. Querem um Brasil só para eles, ou uma provincia secundária, agregada e dependente do grande Império do Capital. Eis a nossa ruína e a nossa desgraça. Eles prolongam a dependência e a logica colonial.

Um país que mal e mal estava dando os primeiros passoa rumo a sua refundação, sobre outras bases, valores e princípios, com os olhos abertos e as mãos operosas em políticas de desenvolvimento humano com inclusão social foi desvergonhadamente abortado. Aqui reside a nossa verdadeira crise que perpassa todas as instâncias.

Mas o que deve ser tem força. Ainda assim cremos e esperamos que superaremos essa travessia dolorossísima para as grandes maiorias, em fim, para todos. Iremos ainda brilhar. Cantou o poeta em tempos sombrios como o nosso: “faz escuro mas eu canto”. Eu imitando-o digo:”em meio às incertezas, ainda sonhamos e esse sonho é bom e antecipa uma realidade benfazeja”.

Leonardo Boff é filósofo e teologo e escreveu:Brasi: concluir a refundação ou prolongar a dependência, Vozes 2018.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

A CRISE BRASILEIRA E A DIMENSÃO DE SOMBRA




por leonardo boff

A crise brasileira generalizada, afetando todos os setores, pode ser interpretada por diferentes chaves de leitura. Até agora prevaleceram as interpretações sociológicas, políticas e históricas. Pretendo apresentar uma derivada das categorias de C.G.Jung com sua psicologia analítica pois é esclarecedora.
Avanço já a hipótese de que o atual cenário não representa uma tragédia, por mais perversas que continuam sendo as consequências para as maiorias pobres e para o futuro do país com o estabelecimento do teto de gastos (PEC 55). É mais que o congelamento de gastos, significa a impossibilidade de se criar um Estado Social e com isso jogar no lixo o bem comum que inclui a todos.
A tragédia, como mostram as as tragédias gregas, terminam sempre mal. Creio que não é o caso do Brasil. Estimo que estamos no centro de uma incomensurável crise dos fundamentos de nossa sociedade. A crise acrisola, purifica e permite um salto de qualidade rumo a um patamar mais alto de nosso devir histórico. Sairemos da crise melhores e com nossa identidade mais integrada.
Cada pessoa e também os povos revelam em sua história, entre outras, duas dimensões: a de sombra e a de luz. Outros falam de demens (demente) e sapiens (sapiente) ou da força do positivo e a força do negativo, da ordem do dia e da ordem da noite ou do thanatos (morte) e de eros (vida) ou do reprimido e do conscientizado. Todas estas dimensões sempre vêm juntas e coexistem em cada um.
A atual crise fez aparecer as sombras e o reprimido por séculos em nossa sociedade. Como observava Jung o “reconhecimento da sombra é indispensável para qualquer tipo de autorealização e, por isso, em geral, se confronta com considerável resistência”(Aion &14). A sombra é um arquétipo coletivo (imagem orientadora do insconsciente coletivo) de nossas nódoas e chagas e fatos repugnantes que procuramos ocultar porque nos causam vergonha e até despertam culpa. É o lado “sombrio da força vital”que atinge pessoas e inteiras nações, observa o psicólogo de Zurique.(&19).
Assim existem nódoas e chagas que constituem o nosso recalcado e a nossa sombra como o genocídio indígena em todo tempo de nossa história até hoje; a colonização que fez o Brasil não uma nação mas uma grande empresa internacionalizada de exportação e que, na verdade, continua até os dias atuais. Nunca pudemos criar um projeto próprio e autônomo porque sempre aceitamos ser dependentes ou fomos refreados. Quando começou a se formar, como nos últimos governos progressitas, logo foi atacado, caluniado e barrado por mais um golpe das classes endinheiradas, descendentes da Casa Grande, golpe sempre ocultado e reprimido como o de 1964 e a de 2016.
A escravidão é a nossa maior sombra pois durante séculos tratamos milhões de humanos trazidos à força de Àfrica como “peças”, compradas e vendidas. Uma vez libertos, nunca receberam qualquer compensção, nem terra, nem instrumentos de trabalho,nem casa; eles estão nas favelas das nossas cidades. Negros e mestiços constituem a maioria do povo. Como mostrou bem Jessé Souza, o desprezo e ódio jogado contra o escravo foi transferido aos seus descententes de hoje.
O povo em geral segundo Darcy Ribeiro e José Honório Rodrigo, são os que nos deram o melhor de nossa cultura, a língua e as artes mas, como Capistrano de Abreu bem sublinhava foi “capado e recapado, sangrado e ressangrado”, considerado um jeca-tatu, um ignorante e por isso colocado à margem de onde nunca deveria sair.
Paulo Prado em seu Retrato do Brasil :ensaio sobre a tristeza brasileira,1928) de forma exagerada mas, em parte, verdadeira, anota esta situação obscura de nossa história e conclui:”Vivemos tristes numa terra radiosa”(em Intérpretes do Brasil,vol.2 p.85). Isso me faz lembrar a frase de Celso Furtado que levou ao túmulo sem resposta: “Porque há tantos pobres num país tão rico?” Hoje sabemos: o porquê: fomos sempre dominados por elites que jamais tiveram um projeto Brasil para todos apenas para si e sua riqueza. Como é possível que 6 milhardários tenham mais riqueza que 100 milhões de brasileiros?
A atual crise fez irromper a nossa sombra. Descobrimos que somos racistas, preconceituosos, de uma injustiça social de clamar aos céus e que ainda não nos foi possível refundar um outro Brasil sobre outras bases, princípios e valores. Daí a difusão da raiva e da violência. Ela não vem das maiorias pobres. Vêm difundidas pelas elites dominantes, apoiadas por meios de comunicação que conformam o imaginário dos brasileiros com suas novelas e a desinformação. Para Jung “a totalidade que queremos não é uma perfeição, mas sim um ser completo”(Ab-reação,análise dos sonhos e transferência & 452) que integra e não recalca, a sombra numa dimensão maior de luz. É o que desejamos como saída da atual crise: não reprimir a sombra mas incluí-la, conscientizada, no nosso devir superando os antagonismos e as exclusões, para vivemos juntos no mesmo Brasil que Darcy Ribeiro costumava dizer ser:”a mais bela e ridente provincia da Terra”.
Leonardo Boff é filósofo,eco-teólogo e escreveu Brasil: Concluir a refundação ou prolongar a dependência (Vozes 2018


sexta-feira, 28 de julho de 2017

A DEMOCRACIA BRASILEIRA SOB ATAQUE


 por leonardo boff


O pressuposto básico de toda democracia é: o que interessa a todos, deve poder ser decidido por todos, seja direta, seja indiretamente por representantes. Como se depreende, democracia não convive com a exclusão e a desigualdade que é profunda no Brasil.
Verdadeiro é o juízo de Pedro Demo, brilhante sociólogo da Universidade de Brasília em sua Introdução à sociologia: ”Nossa democracia é encenação nacional de hipocrisia refinada, repleta de leis “bonitas”, mas feitas sempre, em última instância, pela elite dominante para que a ela sirva do começo até o fim. Político é gente que se caracteriza por ganhar bem, trabalhar pouco, fazer negociatas, empregar parentes e apaniquados, enriquecer-se às custas dos cofres públicos e entrar no mercado por cima…Se ligássemos democracia com justiça social, nossa democracia seria sua própria negação”(p.330.333).
Não obstante, não desistimos de querer gestar uma democracia enriquecida, especialmente a partir dos movimentos sociais de base, proclamando o ideal de uma sociedade na qual todos possam caber, a natureza incluída. Será uma democracia sem fim (Boaventura de Souza Santos), cotidiana, vivida em todos os relacionamentos: na família, na escola, na comunidade, nos movimentos sociais, nos sindicatos, nos partidos e, evidentemente, na organização do Estado democrático de direito, se costuma dizer. Portanto, pretende-se uma democracia mais que delegatícia que não começa e termina no voto, mas uma democracia como modo de relação social inclusiva, como valor universal (N.Bobbio) e que incorpora os direitos da natureza e da Mãe Terra, daí um democracia ecológico-social.
Esse último aspecto, o ecológico-social, nos obriga superar um limite interno ao discurso corrente da democracia: o fato de ser ainda antropocêntrica e sociocêntrica, vale dizer, centrada apenas nos seres humanos e na sociedade. O antropocentrismo e sociocentrismo representam um reducionismo. Pois o ser humano não é um centro exclusivo, nem mesmo a sociedade, como se todos os demais seres não entrassem na nossa existência, não tivessem valor em si mesmo e somente ganhassem sentido e valor enquanto ordenados ao ser humano e à sociedade.
Ser humano e sociedade constituem um elo, entre outros, da corrente da vida. Sem as relações com a biosfera, com o meio-ambiente e com as precondições físico-químicas não existem nem subsistem. Elementos tão importantes, devem ser incluídos em nossa compreensão de democracia contemporânea na era da nascente geosociedade e da conscientização ecológica e planetária segundo a qual natureza, ser humano e sociedade estão indissoluvelmente relacionados: possuem um mesmo destino comum como bem se diz na encíclica ecológica do Papa Francisco “cuidando da Casa Comum” e na Carta da Terra.
A perspectiva ecológico-social tem, ademais, o condão de inserir a democracia na lógica geral das coisas. Sabemos hoje pelas ciências da Terra e da vida, que a lei básica que subjaz à cosmogênse e a todos os ecossistemas é a cooperação de todos com todos, a sinergia, a simbiose e a inter-relação entre todos, não é a vitória do mais forte.
Ora, a democracia é o valor e o regime de convivência que melhor se adequa à natureza humana cooperativa e societária. Aquilo que vem inscrito em sua natureza é transformado em projeto político-social consciente. Funda o fundamento da democracia: a cooperação, o respeito aos direitos e a solidariedade sem restrições. Realizar a democracia significa avançar mais e mais no reino do especificamente humano. Significa re-ligar-se também mais profundamente com a Terra e com o Todo.
Isso é o ideal buscado. No entanto, o que estamos assistindo nos dias atuais é o contrário: um ataque à democracia a nível mundial e nacional. O avanço do neoliberalismo ultrarradical que mais e mais concentra poder em pouquíssimos grupos, radicaliza o consumismo individualista e visa a alinhar os demais países à lógica do Império norte-americano, solapa as bases da democracia. O golpe parlamentar dado no Brasil se inscreve dentro desse ideário. Já não conta a Constituição e os direitos, mas se instaura um regime de exceção onde os juízes determinam a esfera da política. Bem disse o cientista político da UFMG Juarez Guimarães: ”Acho errado chamar Moro de juiz parcial. Na verdade, é um juiz corrompido politicamente. Ele está exercendo o seu mandato de juiz de forma partidária, contra a Constituição e contra o povo brasileiro”
Os golpistas abandonaram a democracia e a soberania popular em favor do domínio puro e simples do mercado, dos rentistas e da diminuição do Estado. Isso foi denunciado recentemente pelo nosso melhor estudioso da democracia Wanderley Guilherme dos Santos em seu livro, silenciado pela mídia empresarial, ”Democracia impedida” e pelo citado cientista político Juarez Guimarães numa entrevista publicada, recentemente, no Sul21.
Ninguém pode prever o que virá nos próximos tempos. Se os golpistas levarem até o fim seu projeto de privatizações radicais a ponto de desgraçarem a vida de boa parte da população, poderemos conhecer revoltas sociais. Num sentido melhor, fazem sentido as palavras do editor da Carta Capital Mino Carta: ”o golpe de uma quadrilha a serviço da Casa Grande teve o condão de despertar a consciência nacional”. Cuidado: uma vez despertada, esta consciência pode alijar seus opressores e buscar um outro caminho.

Leonardo Boff é articulista do JB on line e escritor.


sexta-feira, 21 de julho de 2017

A CRISE BRASILEIRA NO CONTEXTO DA NOVA GUERRA FRIA


Por Leonardo Boff


  
O problema fundamental da crise brasileira não está na corrupção que é endêmica e tolerada pelas instâncias oficiais, porque dela se beneficiam. Se fossem resgatados os milhões e milhões de reais que anualmente os grandes bancos e as empresas deixam de recolher ao INSS, tornaria supérflua uma reforma da Previdência.

O problema não é apenas Lula ou Dilma e muito menos Temer.  O centro da questão é a disputa no quadro da nova guerra-fria entre USA e China: quem vai controlar a sétima economia mundial e como alinhá-la à lógica do Império norte-americano, impedindo a penetração da China nos nossos países, especialmente no Brasil pois ela precisa manter seu crescimento com recursos que nós possuímos.

Esta estratégia começou a ser implementada com a Lava-Jato e seu juiz Sérgio Moro e a entourage de promotores, vários preparados nos USA. Prosseguiu com o impeachment da presidenta Dilma via parlamento, incorporou, setores do ministério público, da polícia federal, parte do STF e dos partidos conservadores, claramente neoliberais e ligados ao mercado.

Todas estas instâncias servem de forças auxiliares ao projeto maior do Império. Com uma vantagem: essa submissão vem ao encontro dos propósitos dos herdeiros da Casa Grande que jamais toleraram que alguém da senzala ou filho da pobreza, chegasse à Presidência e inaugurasse políticas sociais de inclusão das classes subalternas, capazes de pôr em xeque seus privilégios. Preferem estar seguros ao lado dos USA, como sócios menores, do que aceitar transformações no status quo favorável a eles.

Para os USA, o Brasil é um espaço no Atlântico Sul, a descoberto. Não pode continuar, pois consoante uma das ideias-força do Pentágono: o “full spectrum dominance”(a dominação de todo espectro territorial), o Brasil deve estar sob  controle. Daí a presença da quarta frota próxima a nossas águas territoriais e ao pré-sal. A visão imperial e belicista se expressa pelas 800 bases militares pelo mundo afora também várias na América Latina.

A China, em contrapartida, segue outra estratégia. Escolheu o caminho econômico e não o belicista. Por aí pensa ter chances de triunfar. O grande projeto da Eurásia, “O caminho da Seda” que envolve 56 países com um orçamento de ajuda ao desenvolvimento de 26 trilhões de dólares, faz com que marque sua presença também no Brasil e na América Latina.

Nesse jogo de titãs, a estratégia norte-americana conta no Brasil com fortes aliados: os que perpetraram o golpe parlamentar, jurídico e mediático contra Dilma. Estão impondo um neoliberalismo mais radical que nos países centrais. Ele implica liquidar politicamente com a liderança popular de Lula através dos vários processos movidos contra ele pelo juiz justiceiro Sergio Moro da Lava-Jato. Eles todos seguem o figurino imperial imposto. Por isso, Moro se viu obrigado a condenar Lula, mesmo sem base jurídica suficiente, como o tem revelado eminentes juristas, do quilate de Dalmo Dalari e de Fábio Konder Comparato e por outra via, o grande analista político Moniz Bandeira.

Em termos gerais, para os USA trata-se de impedir que governos progressistas cheguem ao poder com um projeto de soberania e que reforcem um novo sujeito político, vindo debaixo, das periferias, com políticas anti-sistêmicas mas que implicam a inclusão de milhões na sociedade, antes comandada por elites retrógradas, excludentes e inimigas de qualquer avanço que venha a ameaçar seus privilégios. Precisamos ter clareza: partidos com projetos claramente neoliberais, que colocam todo valor no mercado e todos os vícios no Estado que deve ser diminuído, como tem mostrado com vigor Jessé Souza e que freiam até com violência a ascensão das classes subalternas, são representantes subalternos desta estratégia imperial norte-americana e contra a China, envolvendo o Brasil nesta trama, que para nós, no fundo, é anti-povo e anti-nacional.

Às nossas oligarquias não interessa um projeto de nação soberana com um governo que com políticas sociais diminua a nefasta desigualdade social (injustiça social) e que aproveite nossas virtualidades seja da riqueza ecológica, da criatividade do povo e da posição estratégica geopoliticamente. Basta-lhes ser aliados agregados do Império norte-americano com o suporte europeu, pois assim veem garantidos seus privilégios e salvaguardada a natureza de sua acumulação absurdamente concentradora e anti-social. Daí que reeleger Lula seria a maior desgraça para o projeto imperial e aos oligopólios nacionais internacionalizados.

Essa é a real luta que se trava por debaixo das lutas político-partidárias, do combate à corrupção e à punição de corruptos e corruptores. Esta é importante, mas não acaba em si mesma. Não podemos ser ingênuos. Importa ter claro que ela se ordena ao alinhamento ao Império norte-americano de costas ao povo, negando-lhe o direito de construir o seu próprio caminho e de, com outros, dar uma feição menos malvada à planetização, impondo limites ao Grande Capital em escala mundial.


Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu”Paixão de Cristo, paixão do mundo”, Vozes 2001.