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segunda-feira, 4 de abril de 2022

A GUERRA JAMAIS JUSTA

 Maria Clara Bingemer


 

            No momento em que parecia que a humanidade iria emergir do pesadelo da Covid-19, o anúncio da guerra na Ucrânia caiu como uma bomba.  Não há outro assunto na mídia, levantando posições diversas sobre um e outro lado desta guerra.  E o que se apresenta aos olhos de todos nós é o saldo de sempre: sangue, destruição, sofrimento,  vítimas e mais vítimas, sobretudo crianças e pessoas vulneráveis das vulnerabilidades tantas que compõem o cenário da vida humana neste já avançado século XXI. 

            Discute-se se a guerra é justa ou não; quem tem razão e quem não tem; quais implicações tem esta ou aquela tomada de posição; que organismos internacionais devem ou não intervir.

É sempre bom ouvir o que dizem sábios e justos de outras épocas que viveram situações semelhantes.  Aqui trazemos a reflexão da filósofa Simone Weil, que viveu no século XX. Nascida em 1909, viveu a Primeira Guerra mundial, lutou na Guerra Civil Espanhola e morreu durante a Segunda Guerra mundial, em 1943, aos 34 anos. 

Para Simone Weil, na sociedade como no mundo a ordem resulta do jogo das forças e energias que se limitam e se equilibram.  Isso para ela é a imagem da pureza, o equilíbrio entre a força da gravidade e a energia da luz.  Não é possível, portanto, haver relações justas entre os seres humanos senão na medida em que uns e outros sabem limitar seus desejos e não desejam se apropriar dos objetos finitos.  Pois um desejo limitado pode compor com os outros desejos que a pessoa porventura tenha e com os desejos limitados das outras pessoas.

A violência surge precisamente quando o homem começa a desejar o ilimitado, ou seja, perde o freio de seus próprios desejos e/ou quando seu desejo se encontra contrariado pelos outros.  Enraíza-se, então, em um desejo ilimitado que esbarra no limite constituído pelo desejo de um outro. Para Simone Weil, a justiça e a paz só podem acontecer no momento em que os seres humanos renunciam a possuir o infinito, renunciam a desejar ilimitadamente.  Se não conseguem fazer isso, é preciso que a lei os constranja a isso.  A lei será o limite nas questões sociais e de luta pela justiça.

A injustiça resultaria do desequilíbrio das forças, sendo os mais fracos oprimidos pelos mais fortes.  Agir pela justiça é restabelecer o equilíbrio das forças.  Mas isso só é possível quando uma força impõe um limite à força que introduz o desequilíbrio.  

 A grande filósofa francesa está longe, portanto, de ser uma pacifista ingênua.  Pelo contrário, é a favor da ação, embora reconheça que a ação sempre traz em si o peso da força.  Mas não ousa estabelecer uma distinção clara entre a ação violenta e a ação não violenta, como se, para ela, o agir humano estivesse sempre “sombreado” de violência.

A violência não é somente instrumento de opressão social ou de agressão militar. É também um método de ação que parece às vezes necessário para defender a liberdade ameaçada ou para conquistá-la.  Ela pode, com efeito, ser empregada a serviço de causas justas.  Mas isso não a torna justa.  Se  parece necessária para combater a injustiça, a violência não permanece menos uma violência que machuca e fere a humanidade, tanto daquele que a sofre como daquele que a exerce.

Simone Weil lutou contra a violência enquanto pôde ao longo de toda a sua vida.  Lutou com a inteligência luminosa e o extraordinário talento que possuía para pensar e escrever.  Uniu-se a grupos políticos e somou-se a eles em suas lutas libertárias contra poderes opressores.  E soube afastar-se deles, igualmente, quando estes a decepcionaram e não lhe pareceram fiéis e transparentes ao ideal que haviam abraçado. Escreveu muito para defender aquilo em que acreditava.  Encheu folhas e folhas de papel nas situações mais incômodas e pouco propicias à escrita: no exílio, no campo de refugiados, no barco que a levava em plena guerra juntamente com seus pais para os Estados Unidos etc. E se preocupou de, antes de partir para o exílio, entregar seus escritos a pessoas em quem confiava, a fim de que fossem  divulgados e pudessem ajudar outras pessoas.

A vida e o pensamento desta pensadora nos interpelam hoje, quando presenciamos nações se enfrentando e medindo forças.  Na verdade, a força é, segundo ela, o que determina as relações entre os homens.  E não é possível amar e ser justo senão conhecendo o império da força e sabendo não respeitá-lo. Que o mundo consiga aprender essa difícil atitude, é o que resta desejar diante da guerra que se trava neste momento, mobilizando o mundo. 

 

Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de "Simone Weil: a força e a fraqueza do amor” (Editora Rocco), entre outros livros

 

terça-feira, 27 de julho de 2021

CUBA SOB ATAQUE DA GUERRA HÍBRIDA

Marcelo Barros


 

A primeira coisa de Cuba que qualquer visitante que chega ao país pelo aeroporto José Martí de Havana pode ver é um imenso cartaz, no qual está escrito: “Benvindos a Cuba, primeiro território livre das Américas”.

De fato, antes da pandemia, milhões de visitantes e turistas passavam por Cuba para aproveitar a beleza da natureza, o calor das águas do Caribe e, principalmente, o encanto de um povo que, para nós, lembra em muitos aspectos a simpatia do povo baiano.

Quem visita o país se delicia com o jeito de ser cubano. Percebe o o nível de vida extremamente sóbrio e até pobre das pessoas. No entanto, ninguém encontra uma só criança de rua. Verifica a eficiência do atendimento de saúde gratuito e de alta qualidade, assim como o acesso à educação gratuita em todos os níveis; o que faz dos cubanos um dos povos mais cultos do mundo.

Isso não significa que o país seja um paraíso e não tenha problemas ou que o governo não tenha deficiências. São frequentes críticas à burocracia das instituições. Escritores e artistas sempre exigem maior liberdade de criação. Em tempos mais recentes, ao menos em parte, essas questões parecem mais superadas. Quem lê os romances do brilhante escritor Leonardo Padura e segue as aventuras do detetive Mario Conde, vê uma descrição ácida e crítica do funcionamento das instituições no país. E Padura não parece ter nenhum contratempo por criticar as estruturas do seu país.

A liberdade coletiva e a qualidade de vida dos cubanos têm preço pesado: o mais poderoso império do mundo não se conforma em, durante mais de sessenta anos, ser vencido pelo heroísmo de um povo pequeno e pobre.

Desde 1960, sucessivos governos dos Estados Unidos fizeram tudo para impedir o povo cubano manter o governo que melhor lhe convém. No início dos anos 1960, a invasão militar fracassou. O bloqueio econômico assassino, imposto por Washington e diversas vezes condenado pela ONU, dura mais de 60 anos. No entanto, não fez o povo se render. Desde o começo da pandemia, o bloqueio não permite que remédios básicos para a população desembarquem em Cuba e na Venezuela. Apesar disso, Cuba desenvolveu vacinas e não só tem cuidado do seu povo, como faz missões de solidariedade por todo o mundo.

Nesse momento, a chamada Guerra Híbrida torna tudo mais fácil para os inimigos da humanidade. Pagam-se mercenários cubanos para provocar agitações e se garante a imprensa para noticiar o levante popular.

No domingo, 11 de julho, houve um primeiro ensaio. E propagou-se saldo de pessoas mortas, feridas e, quem sabe, desaparecidas. As manifestações foram todas combinadas para explodirem na mesma hora em diversas cidades. Não conseguiram nenhuma fotografia de pessoas sendo espancadas por soldados. Ninguém apareceu com rosto sangrando. O presidente da República se locomoveu pelo país em diálogos diretos com os grupos manifestantes. Reconheceu a precariedade dos serviços elétricos que penaliza a todos. Falou das dificuldades econômicas pelas quais passa o país, sem o turismo que tinha antes da pandemia e sob o peso feroz do bloqueio internacional que tenta permanentemente estrangular a economia.

Como em todos os anos, neste 26 de julho, o povo cubano recorda o ataque do jovem Fidel Castro e seus companheiros ao quartel de Moncada, em 1953; fato que deu início à revolução libertadora.

Hoje, para toda a América Latina, a resistência de Cuba é mais heroica e cada dia mais importante. Atualmente o império é mais mortífero e bárbaro do que todos os quarteis de Moncada que a cada dia se recriam.

Para as pessoas que unem sua fé à vida e ao projeto de um mundo mais justo, a solidariedade ao povo cubano, ao povo venezuelano e a todos os povos do mundo sob ataque do império é questão de espiritualidade e caminho de fé.

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

  

terça-feira, 5 de maio de 2020

A COMUNICAÇÃO SOCIAL, ARMA DE GUERRA


 

Por Marcelo Barros

 

É importante aprofundar a função dos meios de comunicação social na construção de uma sociedade justa e mais igualitária.

 

Cada vez mais, a função dos meios de comunicação social tem sido assunto de discussões e debates. A ONU consagra o 03 de maio como “dia internacional da liberdade dos meios de comunicação”. No mundo atual, é difícil falar em liberdade se, no mundo inteiro, mais 80% dos meios de comunicação pertencem a pouquíssimas empresas, as mesmas que dominam o mercado de armas e de petróleo. No Ocidente, quase todas as agências internacionais de notícias tem sede nos Estados Unidos. Já há algumas décadas, o governo dos Estados Unidos descobriu que vencer um governo inimigo com a difusão permanente de notícias falsas (fakes news) é mais eficiente e muito mais barato do que as batalhas com armas contemporâneas. E para isso os soldados dessa guerra são os meios de comunicação, agências de notícias, a imprensa, canais de rádio e televisão. Quem quiser se informar mais como isso tem funcionado no mundo inteiro leia o livro editado no Brasil: Guerras Híbridas, das revoluções coloridas aos golpes, da autoria de Andrew Korybko, editado no Brasil pela Expressão Popular. Depois do livro publicado, aqui na América Latina, temos a experiência triste do que o império norte-americano tem feito na Venezuela. Paga à elite da sociedade venezuelana e assim os próprios venezuelanos se batem entre si para destruírem o seu governo. E o império cuida de ajudá-los a cada dia com a implantação na imprensa internacional de notícias falsas que destroem a credibilidade e semeiam a confusão no país a ser dominado. Além disso, garantem que o petróleo, principal fonte de reservas da Venezuela perca preço e assim o país é como terra sitiada. Ou se rende ou morre. É a teoria da guerra híbrida, já experimentada em vários países e neste momento em utilização total na Venezuela. 

No Brasil, o 5 de maio foi instituído como Dia Nacional das Comunicações. Poucas pessoas sabem que nesta data, em 1865, nascia em Mimoso, perto de Cuiabá (MT), uma grande figura das telecomunicações brasileiras: o Marechal Rondon. O nome deste grande brasileiro, descendente de índios Terena, Bororo e Guaná, é lembrado quando se trata de defesa dos povos indígenas e da integração do território nacional, mas poucas pessoas o ligam às telecomunicações. Em 1955, quando Cândido Mariano da Silva Rondon completava 90 anos, passou a ser homenageado como Patrono das Comunicações do Brasil. Talvez sua origem o impelisse a uma comunicação mais humana com os indígenas. "Morrer, se preciso for. Matar, nunca" - era o seu lema. Com ele, Rondon ganhou projeção e reconhecimento internacionais. Este princípio deveria servir para nortear a pauta dos meios de comunicação em uma sociedade que convive mais com a guerra do que com a paz e acha mais natural a competição do que a colaboração entre pessoas e povos. Nunca foi tão necessário lembrar a figura de Rondon e o seu lema do que agora quando, no Brasil, o constante massacre de líderes indígenas e invasão de suas terras deixam a impressão de que o governo brasileiro e empresários do agronegócio abriram a temporada de caça aos povos indígenas.

Em muitos noticiários de televisão e das principais agências de notícias, há um ataque permanente aos direitos dos mais pobres e a criminalização dos movimentos sociais. De fato, ficam ignorados e desconhecidos tantos exemplos de ética no trato da coisa pública e na vida pessoal, assim como muitas pessoas admiráveis na dedicação aos outros. As conquistas sociais e morais da sociedade civil são negadas.

No mundo religioso, as Igrejas e grupos espirituais independentes têm se servido dos meios de comunicação. Em meio a essa quarentena que impede reuniões coletivas, Igrejas realizam cultos e missas por internet. E grupos que na prática apoiam a violência e as discriminações sociais, usam a religião para difundir seus preconceitos e justificar a cultura do desamor.

Como evangelho é a boa noticia de que, apesar de tudo, o projeto divino de paz e justiça começam a se realizar neste mundo, muitas vezes, tem sido fora do universo religioso que jornalistas cumprem a função de verdadeiros evangelizadores e fazem com que os meios de comunicação cumpram sua função de fazer deste mundo espaço de comunhão para toda a humanidade e no cuidado com a Mãe Terra.

 

  MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com

 

 

 

 

 


sexta-feira, 21 de julho de 2017

A CRISE BRASILEIRA NO CONTEXTO DA NOVA GUERRA FRIA


Por Leonardo Boff


  
O problema fundamental da crise brasileira não está na corrupção que é endêmica e tolerada pelas instâncias oficiais, porque dela se beneficiam. Se fossem resgatados os milhões e milhões de reais que anualmente os grandes bancos e as empresas deixam de recolher ao INSS, tornaria supérflua uma reforma da Previdência.

O problema não é apenas Lula ou Dilma e muito menos Temer.  O centro da questão é a disputa no quadro da nova guerra-fria entre USA e China: quem vai controlar a sétima economia mundial e como alinhá-la à lógica do Império norte-americano, impedindo a penetração da China nos nossos países, especialmente no Brasil pois ela precisa manter seu crescimento com recursos que nós possuímos.

Esta estratégia começou a ser implementada com a Lava-Jato e seu juiz Sérgio Moro e a entourage de promotores, vários preparados nos USA. Prosseguiu com o impeachment da presidenta Dilma via parlamento, incorporou, setores do ministério público, da polícia federal, parte do STF e dos partidos conservadores, claramente neoliberais e ligados ao mercado.

Todas estas instâncias servem de forças auxiliares ao projeto maior do Império. Com uma vantagem: essa submissão vem ao encontro dos propósitos dos herdeiros da Casa Grande que jamais toleraram que alguém da senzala ou filho da pobreza, chegasse à Presidência e inaugurasse políticas sociais de inclusão das classes subalternas, capazes de pôr em xeque seus privilégios. Preferem estar seguros ao lado dos USA, como sócios menores, do que aceitar transformações no status quo favorável a eles.

Para os USA, o Brasil é um espaço no Atlântico Sul, a descoberto. Não pode continuar, pois consoante uma das ideias-força do Pentágono: o “full spectrum dominance”(a dominação de todo espectro territorial), o Brasil deve estar sob  controle. Daí a presença da quarta frota próxima a nossas águas territoriais e ao pré-sal. A visão imperial e belicista se expressa pelas 800 bases militares pelo mundo afora também várias na América Latina.

A China, em contrapartida, segue outra estratégia. Escolheu o caminho econômico e não o belicista. Por aí pensa ter chances de triunfar. O grande projeto da Eurásia, “O caminho da Seda” que envolve 56 países com um orçamento de ajuda ao desenvolvimento de 26 trilhões de dólares, faz com que marque sua presença também no Brasil e na América Latina.

Nesse jogo de titãs, a estratégia norte-americana conta no Brasil com fortes aliados: os que perpetraram o golpe parlamentar, jurídico e mediático contra Dilma. Estão impondo um neoliberalismo mais radical que nos países centrais. Ele implica liquidar politicamente com a liderança popular de Lula através dos vários processos movidos contra ele pelo juiz justiceiro Sergio Moro da Lava-Jato. Eles todos seguem o figurino imperial imposto. Por isso, Moro se viu obrigado a condenar Lula, mesmo sem base jurídica suficiente, como o tem revelado eminentes juristas, do quilate de Dalmo Dalari e de Fábio Konder Comparato e por outra via, o grande analista político Moniz Bandeira.

Em termos gerais, para os USA trata-se de impedir que governos progressistas cheguem ao poder com um projeto de soberania e que reforcem um novo sujeito político, vindo debaixo, das periferias, com políticas anti-sistêmicas mas que implicam a inclusão de milhões na sociedade, antes comandada por elites retrógradas, excludentes e inimigas de qualquer avanço que venha a ameaçar seus privilégios. Precisamos ter clareza: partidos com projetos claramente neoliberais, que colocam todo valor no mercado e todos os vícios no Estado que deve ser diminuído, como tem mostrado com vigor Jessé Souza e que freiam até com violência a ascensão das classes subalternas, são representantes subalternos desta estratégia imperial norte-americana e contra a China, envolvendo o Brasil nesta trama, que para nós, no fundo, é anti-povo e anti-nacional.

Às nossas oligarquias não interessa um projeto de nação soberana com um governo que com políticas sociais diminua a nefasta desigualdade social (injustiça social) e que aproveite nossas virtualidades seja da riqueza ecológica, da criatividade do povo e da posição estratégica geopoliticamente. Basta-lhes ser aliados agregados do Império norte-americano com o suporte europeu, pois assim veem garantidos seus privilégios e salvaguardada a natureza de sua acumulação absurdamente concentradora e anti-social. Daí que reeleger Lula seria a maior desgraça para o projeto imperial e aos oligopólios nacionais internacionalizados.

Essa é a real luta que se trava por debaixo das lutas político-partidárias, do combate à corrupção e à punição de corruptos e corruptores. Esta é importante, mas não acaba em si mesma. Não podemos ser ingênuos. Importa ter claro que ela se ordena ao alinhamento ao Império norte-americano de costas ao povo, negando-lhe o direito de construir o seu próprio caminho e de, com outros, dar uma feição menos malvada à planetização, impondo limites ao Grande Capital em escala mundial.


Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu”Paixão de Cristo, paixão do mundo”, Vozes 2001.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A GUERRA CONTRA O MOSQUITO


   por Maria Clara Bingemer 


            Temos medo de muitas coisas hoje em dia: da violência, do trânsito, da insegurança do amanhã, de quanto vai ser a conta da luz no fim do mês, de quantos mais impostos o governo vai inventar para assaltar nosso bolso etc.  Por trás de todos esses medos, existe algo maior, mais forte, mais poderoso que nós.  Por isso, nos parece um tanto estranho que nesses tempos mais recentes nosso maior receio seja de um pequeno mosquito.

Pois é verdade, sem tirar nem por: um mosquito. Pequeno, com asas e ferrão afiado.  Com essas pequenas armas ele está tirando o nosso sossego e nos fazendo enfrentar uma epidemia nos moldes daquelas que já acreditávamos desterradas pelos progressos da medicina e da imunização. Nosso inimigo tem um nome latino que soa sofisticado: Aedes Aegypti.  E com seu zumbido e suas mordidas está tirando o sono dos brasileiros.

O Brasil está enfrentando uma epidemia de zika, doença aparentada com a dengue, já nossa velha conhecida. Os sintomas são parecidos, porém mais brandos do que os da dengue: febre, dor de cabeça, dor no corpo e nas juntas, coceira e manchas avermelhadas espalhadas pelo corpo.

O mais assustador é o Ministério da Saúde ter confirmado que este vírus transmitido pelo mosquito está estreitamente relacionado com a microcefalia, uma doença que pode atingir o feto, fazendo com que a criança nasça com o perímetro cefálico menor que o convencional, que é de 33 centímetros. O bebê pode morrer ou apresentar diversas sequelas graves no seu desenvolvimento: dificuldade de visão, de audição e retardo mental.

A região do país mais afetada pelo surto de microcefalia é o Nordeste.  O alerta foi dado nos hospitais e maternidades de Pernambuco e do Ceará.  Desde então, o zika alastrou-se como um rastilho de pólvora que ateou fogo rapidamente por onde passava. Hoje, milhares de casos suspeitos da doença são investigados.

O pânico é maior entre as grávidas. As autoridades sanitárias não poupam conselhos, advertências, orientações às gestantes ou às mulheres que desejam ter filhos. Chegam a sugerir que elas adiem este projeto e esperem a epidemia ser controlada. E fazem recomendações óbvias, como a importância de se submeterem a todos os exames habituais, além do acompanhamento pré-natal.  Como se isso não fosse recomendável em qualquer gravidez, mesmo a mais saudável.

Como em toda crise – e essa indubitavelmente entra nessa categoria – os problemas éticos e morais começam a emergir.  Discute-se a pertinência ou não de interromper a gravidez quando acontece a doença; levanta-se a hipótese de que ser contra o aborto é punir os pobres por não terem recursos para  tal. 

O que me surpreende é que o foco das discussões e debates esteja tão distanciado daquilo que deveria ser o centro das preocupações de todos: o combate ao mosquito.

Com todas essas notícias apavorantes veiculadas exaustivamente pelos meios de comunicação, ainda se descuida da água parada, local ideal para a proliferação do mosquito, dos focos onde as larvas se reproduzem e se desenvolvem.

Por outro lado, constata-se o despreparo não apenas sanitário, mas também ético e moral para lidar com as situações que o mosquito provoca.  Instituições de saúde que dedicam atenção exclusiva a pessoas com lesão cerebral ou problemas dela oriundos estão preocupadas com a epidemia. A lesão cerebral pode acontecer associada à microcefalia. Portanto, o crescimento da epidemia representaria um aumento exponencial dos casos a serem atendidos.

      E além das dificuldades financeiras para  a manutenção, essas instituições enfrentam outros problemas, como o abandono do doente pela família.  Muitos pequenos pacientes com lesões cerebrais são abandonados após a internação.

O medo não é só do mosquito, mas das marcas que ele deixa sobre as pessoas.  E numa sociedade como a nossa, que só valoriza a eugenia e o sucesso, a presença no seio da família de uma criança com dificuldades sérias para mover-se, aprender a comunicar-se é um estorvo do qual desviamos os olhos.

Pensamos que estamos conquistando os últimos limites da ciência e, no entanto, sentimo-nos ameaçados por um simples mosquito.  Pisamos na lua e queremos ir a Marte, mas não sabemos entrar na terra sagrada da compaixão para acolher um ser vulnerável e desvalido em nosso próprio meio.   

      Combater o mosquito é necessário.  Mas talvez mais ainda seja combater nosso egoísmo e nossos demônios interiores.  Pois atrás do mosquito vem gente.  E gente não se fumiga, nem se afasta com repelente.  Gente se acolhe, se trata, se cuida.  Que o zika, que ameaça atrofiar cérebros e cujo combate já mostramos incompetência não atrofie nosso coração!

 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de Teologia e literatura - Afinidades e segredos compartilhados (Ed. Vozes)

    Copyright 2016 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

CONTRA O TERRORISMO E A GUERRA, A NECESSIDADE DE UMA CULTURA DA PAZ



Por Leonardo Boff


Os fatos recentes de terrorismo e a declaração de guerra dos países ocidentais ao Estado Islâmico suscita de forma tenebrosa o fantasma da guerra moderna com grande capacidade de destruição. Nestas guerras apenas 2% dos mortos são soldados. Os demais são civis, especialmente mulheres e crianças inocentes. o que mostra o nível de barbárie a que chegamos. Os aviões militares atuais parecem figuras apocalípticas, carregadas de bombas que matam pessoas, destroem construções e danificam a natureza.

Precisamos ter presente que a cultura dominante, hoje mundializada, se estrutura ao redor da vontade de poder que se traduz por vontade de dominação da natureza, do outro, dos povos e dos mercados. Essa é a lógica dos dinossauros que criou a cultura do terrorismo, da guerra, da insegurança e do medo. Por causa do terrorismo, atualmente, os EUA e a Europa são reféns do medo. A persistirem as atuais tensões, nunca mais terão paz. Todos necessitam sentar juntos, dialogar, chegar a convergências, por mínimas que sejam, convergências nas diferenças, caso quisermos desfazer os mecanismos que geram permanentemente espírito de vindita e de atos de terror ou de guerra.

Praticamente em todos os países as festas nacionais e seus heróis são ligados a feitos de guerra e de violência. Os meios de comunicação levam ao paroxismo a magnificação de todo tipo de violência, bem simbolizado nos filmes de Schwazenegger como o “Exterminador do Futuro”. Grande parte das películas atuais abordam temas de violência a mais absurda; até o contos infantis são contaminados pela ideia de destruição e de guerra.

Nessa cultura o militar, o banqueiro e o especulador valem mais do que o poeta, o filósofo e o santo. Nos processos de socialização formal e informal, ela não cria mediações para uma cultura da paz. E sempre de novo faz suscitar a pergunta que, de forma dramática, Einstein colocou a Freud nos idos de 1932: é possível superar ou controlar a violência? Freud, realisticamente, responde: “É impossível aos homens controlar totalmente o instinto de morte…Esfaimados pensamos no moinho que tão lentamente mói que poderíamos morrer de fome antes de receber a farinha”. Mas não se entregava à resignação. Afirmava que os processos civilizatórios, a educação, a democracia, o esporte, o respeito aos direitos humanos e o cultivo de valores éticos podem diminui-lhe a destrutividade.

 Sem detalhar a questão, tentemos aprofundar um pouco a questão da violência, um desafio para toda a inteligência. Diríamos que por detrás da violência funcionam poderosas estruturas. A primeira delas é o caos sempre presente no processo cosmogênico. Viemos de um caos originário, uma incomensurável explosão, o big bang. E a evolução é um processo que procura pôr ordem neste caos destrutivo e fazê-lo generativo na medida em que se dá o processo cosmogênico no decorrer de bilhões de anos. O próprio universo, por isso, comporta violência em todas as suas fases, embora sempre criando sistemas mais ordenados que permitem ascensões rumo a formas mais elevadas e harmônicas de organização.

São conhecidas cerca de 15 grandes dizimações em massa, ocorridas aa Terra, há milhões de anos atrás. Na última, há cerca de 65 milhões de anos, pereceram todos os dinossauros após reinarem, soberanos, 133 milhões de anos. A expansão do universo possui também o significado de originar ordens cada vez mais complexas e, por isso também menos violentas. Possivelmente a própria inteligência nos foi dada para pormos limites à violência e conferir-lhe um sentido construtivo.

Em segundo lugar, somos herdeiros da cultura patriarcal que instaurou a dominação do homem sobre a mulher e criou as instituições do patriarcado assentadas sobre mecanismos de violência como o Estado, as classes, o projeto da tecno-ciência, os processos de produção como objetivação da natureza e sua sistemática depredação.

Em terceiro lugar, essa cultura patriarcal gestou a guerra como forma de resolução dos conflitos. Sobre esta vasta base se formou a cultura do capital, hoje globalizada; sua lógica é a competição e não a cooperação, por isso, gera guerras econômicas e políticas e com isso desigualdades, injustiças e violências.   

Todas estas forças se articulam estruturalmente para consolidar a cultura da violência que nos desumaniza a todos.

A essa cultura da violência há que se opor a cultura da paz. Hoje ela é imperativa pois há cerca de 80 focos de guerra, de maior ou menor intensidade, no mundo, a ponto de o Papa Francisco ter se referido, por várias vezes, que estamos dentro de uma terceira guerra mundial que acontece parceladamente.

É imperativa, porque as forças de destruição estão ameaçando, por todas as partes, o pacto social mínimo sem o qual regredimos a níveis de barbárie. É imperativa porque o potencial destrutivo já montado pode ameaçar toda a biosfera e impossibilitar a continuidade do projeto humano. Ou limitamos a violência e fazemos prevalecer o projeto da paz ou conheceremos, no limite, o destino dos dinossauros.

Onde buscar as inspirações para cultura da paz? Mais que imperativos voluntarísticos, é o próprio processo antropogênico a nos fornecer indicações objetivas e seguras. A singularidade do 1% de carga genética que nos separa dos primatas superiores reside no fato de que nós, à distinção deles, somos seres sociais e cooperativos. Ao lado de estruturas de agressividade, comparecemos como seres de cuidado, principalmente da vida; temos capacidades de afetividade, com-paixão, solidariedade e amorização. Hoje é urgente que desentranhemos tais forças para conferir rumo mais benfazejo à história. Toda protelação é insensata.

O ser humano é o único ser que pode intervir nos processos da natureza e co-pilotar a marcha da evolução. Ele foi criado criador. Dispõe de recursos de re-engenharia da violência mediante processos civilizatórios de contenção e uso de racionalidade. A competitividade continua a valer mas no sentido do melhor e não de destruição do outro. Assim todos ganham e não apenas um.
 Há muito que filósofos da estatura de Martin Heidegger, resgatando uma antiga tradição que remonta aos tempos de César Augusto, veem no cuidado a essência do ser humano. Sem cuidado ele não vive nem sobrevive. Tudo precisa de cuidado para continuar a existir. Cuidado representa uma relação amorosa para com a realidade. Onde vige cuidado de uns para com os outros desaparece o medo, origem secreta de toda violência, como analisou Freud.

A cultura da paz começa quando se cultiva a memória e o exemplo de figuras que representam o cuidado e a vivência da dimensão de generosidade que nos habita, como Francisco de Assis, Gandhi, Dom Helder Câmara, Luther King Jr, o Papa Francisco e outros. Importa fazermos as revoluções moleculares (Gatarri), começando por nós mesmos. Cada um estabelece como projeto pessoal e coletivo a paz e os sentimentos de paz. Els resulta dos valores da cooperação, do cuidado, da com-paixão e da amorosidade, vividos cotidianamente.
Fonte riquíssima de paz é o cultivo da espiritualidade como vem expressa na belíssima oração pela paz de São Francisco de Assis. As religiões, não raro, produzem guerras. As espiritualidades, paz e convivência pacífica entre os povos. Elas trabalham mais experiências fundamentais interiores de encontro com a Divindade, com o Sagrado, ou pouco importam os nomes, com uma Realidade Suprema de sentido. As doutrinas e as instituições religiosas gozam de valor secundário, às vezes mais dificultam a experiência profunda do que a promovem.

A paz não é apenas uma meta a ser buscada mas também um caminho a ser seguido. Só um caminho de paz gera paz serena e permanente. Ao se “queres a paz prepara a guerra” devemos com determinação opor: “se queres a paz prepara a paz”.

 Leonardo Boff é teólogo, escritor e autor de A oração de S.Francisco, uma mensagem de paz para o mundo atual.



quarta-feira, 8 de abril de 2015

HÁ SAÍDA PARA A GUERRA ENTRE ISRAEL E PALESTINA?

Por Eduardo Hoornaert



O partido do primeiro ministro de Israel, Bejamin Netanyahu, acaba de ganhar as eleições domingo passado, 15 de março. Ao que tudo indica, a interminável guerra entre Israel e Palestina vai continuar. É de se desesperar. A humanidade parece não gostar de encontrar a solução para seus problemas. Como dizia Churchill, sempre escolhe o caminho errado. Será que é inócuo lembrar aqui um princípio básico do movimento de Jesus, formulado por Paulo de Tarso?
Nos anos 50, uns 20 anos depois da morte de Jesus, o apóstolo Paulo escreveu a seguinte frase: ‘Não há judeu nem grego, não há escravo nem homem livre, não há macho nem fêmea, pois vocês todos são um em Jesus Cristo’ (Gl 3, 28). Traduzido: ‘Não há israelense nem palestino’. Pode? Paulo, por favor, me explica: onde está minha identidade? Eu não sou brasileiro, belga, alemão, israelense, palestino? Não levo comigo uma carteira de identidade? Paulo responde: não, você não é antes de tudo brasileiro, etc. Você é gente.

Aqui o problema reside no fato que as pessoas costumam confundir identidade e nacionalidade e esquecem como isso é perigoso. Potencialmente, eu me torno conivente com crimes cometidos por minha nação se não tomar distância diante da ideia de nacionalidade confundida com identidade. Identidade nacional pode ser mortífera. É uma falta de clareza que nos pode atingir a cada momento. No momento em que um israelense se identifica como israelense e não toma distância diante do projeto colonizador de sua nação (colonizar o território de Gaza, construir casas no território da Palestina etc.), ele colabora implicitamente com a morte das vítimas desse projeto nacional. Infelizmente, o eleitor israelense de domingo 15 de março confirma a ideia que é preciso matar, oprimir, etc. para ser ‘israelense’. Assim a ideia nacional (nem falo aqui de ‘nacionalismo’) pode provocar as maiores desastres, como verificamos na última Guerra Mundial. Penso inclusive que um dos pontos mais fracos da atual Organização das Nações Unidas (ONU) consiste exatamente no fato de ser baseada na ideia de nação e não na ideia do universalismo humano, defendida por São Paulo na carta aos Gálatas, que estamos aqui comentando.
Verifico mais uma vez que o cristianismo tem algo a dizer sobre os problemas urgentes que a humanidade enfrenta. Infelizmente, os próprios cristãos nem sempre conhecem nem avaliam o peso atual da frase do apóstolo Paulo:

Não há judeu nem grego,

não há escravo nem homem livre,

não há macho nem fêmea,

vocês todos são um em Jesus Cristo (Gl 3, 28).



Não há israelense nem palestino, há gente.


 Eduardo Hoornaert foi professor catedrático de História da Igreja. É membro fundador da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina (CEHILA). Atualmente está estudando a formação do cristianismo nas suas origens, especificamente os dois primeiros séculos.

Fonte: http://www.eduardohoornaert.blogspot.com.br/

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

INDÚSTRIA BÉLICA NÃO LUCRA SE HOUVER PAZ. E HAJA GUERRA!



Juracy Andrade


Neste fim de ano, começo de outro, na nossa contagem do tempo, cabem algumas reflexões sobre o nosso tumultuado mundo e a nossa Igreja que se aproxima um pouco mais de Deus e de Jesus Cristo. Nosso tão pequeno mundo continua com suas guerras infindáveis, impulsionadas principalmente pela fome de lucro da indústria bélica. Sem guerra, não tem lucro. Daí que, a apenas cinco anos do fim da carnificina chamada de 2ª Guerra Mundial, o governo dos Estados Unidos houve por bem assumir a defesa do que considera “mundo livre” na Coreia. Nunca mais parou. Eles e seus aliados da Europa prepararam o cenário de dezenas de rebeliões e brigas na África, com o que chamaram de descolonização. Deram a vários países uma independência formal, entronizando por ali geralmente o que havia de pior em nativos que tinham aprendido toda a sacanagem do capitalismo imperialista.

Pior: marcaram os limites dos novos países juntando tribos tradicionalmente inimigas e separando, em países diferentes, povos tradicionalmente unidos e aliados. Deu no que não poderia deixar de dar: guerras cruéis e infindáveis em Uganda, na República Democrática do Congo (Congo-Kinshasa, ex-belga) e em outros lugares. Depois da Revolução dos Cravos em Portugal, prolongaram por vários anos a guerra colonial em Angola e Moçambique. E os abutres da indústria bélica morrendo de rir.

Enquanto isso, a grande “democracia” estadunidense decidia que democracia é coisa de branco e patrocinava golpes e ditaduras pelo mundo a fora. Da Indonésia à África. Da Guatemala à Argentina. Eram as “ditaduras amigas”, ou “do bem”, que tanto mal fizeram, tanta gente torturaram e mataram, tanto atrasaram nossos países. Enquanto isso, isolavam Cuba por meio século porque os líderes cubanos derrubaram um ditador amigo de Tio Sam e fizeram uma revolução de vera; com seus defeitos, sem dúvida, mas uma revolução e não uma quartelada. Que mundo livre é esse? Milhões de crianças mortas de fome e falta de assistência médica. Uma paz impossível porque quem manda, no regime capitalista, é a indústria da guerra, a da fome, a da ignorância.

A Igreja de Cristo e outras religiões deram passos para frente e para trás. O papa Francisco continua mostrando que também as cúpulas podem se converter, e líderes da Igreja Ortodoxa deram sinais de apreciar o caminho da união, que Jesus Cristo pediu com emoção na véspera de sua morte. No mundo islâmico, também há líderes dispostos à convivência com outros pensamentos, apesar de ser ali que surgem os mais cruéis fundamentalismos, tipo Califado e Boko Haram.

Enquanto a Cúria Romana e as máfias não conseguem liquidá-lo, o papa caminha com a rapidez possível no caminho da recristianização da Igreja. Mais esperto que o breve João Paulo 1º, Francisco não quis morar no assim dito Palácio Apostólico (já pensaram um apóstolo de Cristo morando num palácio?), cheio de corredores suspeitos e passagens secretas. Aboletou-se, junto com comuns mortais, na Casa Santa Marta, um hotel para religiosos, e dali comanda e inspira a atualização e volta às origens (parece contraditório, mas não é) daquilo que Cristo chamou de comunidade, assembleia (ekklesía em grego) e não pretendeu desgarrar da religião hebraica do Antigo Testamento. O antijudaísmo é um fenômeno greco-romano. Após Constantino, os papas nele embarcaram e, somente após o Concílio dos anos 1960, lentamente vêm desembarcando. E ainda dizem que são infalíveis. Pode?!

Um excelente 2015 para minhas leitoras e leitores. Que a estrela dos Reis Magos nos conduza a Belém, onde Jesus veio ao mundo através de Maria, Nossa Senhora, lugar infelizmente hoje sob o tacão de judeus sionistas, certamente desgarrados de seus profetas.


Juracy Andrade é jornalista com formação em filosofia e teologia