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terça-feira, 18 de janeiro de 2022

Vacina contra a intolerância religiosa

 Marcelo Barro


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Em meio ao terrível sofrimento provocado por nova explosão de contaminações pela Covid e a epidemia de influenza (gripe), ao menos contamos com vacinas que, de fato, se revelam eficazes. Lutamos para que a ONU proclame as vacinas contra vírus como bens comuns da humanidade. É preciso denunciar como iniquidade o fato de indústrias da saúde triplicarem os seus lucros a partir da dor e das doenças da imensa maioria da humanidade. Parece que, para não mudar essa realidade cruel e desumana, a elite que multiplica sua riqueza a partir da desgraça da multidão usa como arma eficiente os vírus da intolerância. No mundo inteiro, há um surto de intolerância e discriminação contra grupos culturais e religiosos diferentes da cultura dominante.

No Brasil, a cada dia e por horas e horas, os canais de rádio e televisão transmitem cultos e pregações do Cristianismo ritual, alienado e alienante, seja católico, seja evangélico, ou pentecostal. É claro que há um público de pessoas idosas que tem o direito de terem em casa suas missas tradicionais, ou cultos de suas Igrejas. No entanto, ao mesmo tempo que os canais se abrem para esse tipo de expressões cultuais  não permitem nem aceitam comunicar nada que, mesmo no âmbito de celebrações católicas ou evangélicas,  sejam de conteúdo mais profético e crítico. E mantêm um muro de censura e silêncio cúmplice sobre a violência cotidiana que sofrem grupos religiosos minoritários, principalmente, comunidades das religiões afro-brasileiras, a cada dia, vítimas de ataques e perseguições. Apesar da Constituição Brasileira defender a liberdade de culto para todas as religiões, ainda existem programas de rádio e televisão nos quais se prega a intolerância e se combatem os cultos afro. Esses atos de violência religiosa não são praticados por ateus dogmáticos, contrários à religião. São cometidos por grupos que se dizem cristãos e agem em nome de Deus. Apoiam-se em uma leitura ao pé da letra e fanática de certos textos bíblicos para justificar uma imagem de Deus cruel, violento e intolerante.

No Brasil, a cada ano, apesar do atual governo federal que promove o ódio e a violência, o 21 de janeiro é comemorado como “o dia nacional de combate à intolerância religiosa”. Essa data foi criada pelo presidente Lula, através da lei federal n. 11.635 de 27 de dezembro de 2007. Ao escolher esse dia, se quis homenagear a Mãe Gilda, Ialorixá do Axé Abassá de Ogum, em Salvador. Ela faleceu no dia 21 de janeiro de 2000, vítima de perseguição e ataque de um grupo neopentecostal fundamentalista que invadiu o templo do Candomblé, desrespeitou os símbolos sagrados ali representados e ofendeu gravemente a mãe de santo.

Ainda bem que, até aqui, esses grupos pentecostais e católicos de linha carismática não descobriram ainda que os mesmos livros da Bíblia que mandam perseguir e destruir cultos de religiões estrangeiras,  ordenam também apedrejar mulheres adúlteras, pessoas que transem com animais ou simplesmente que não respeitem o sábado. O que farão esses cristãos, quando descobrirem que as mesmas leis bíblicas que condenam outros cultos, permitem a escravidão de estrangeiros e mandam vender pessoas como escravas, para saldar dívidas não pagas? Será que, em pleno século XXI, essas pessoas que querem cumprir a Bíblia ao pé da letra passarão a praticar essas leis culturais da Ásia antiga?

Em outras épocas, quase todas as Igrejas históricas condenaram hereges à morte. Queimaram na fogueira mulheres consideradas feiticeiras ou bruxas e pessoas que praticassem formas de sexo não aprovadas pela Igreja. Durante séculos, a Igreja Católica se proclamou como a única religião verdadeira e sistematicamente combatia as outras. Somente há 50 anos, em 1965, ao concluir o Concílio Vaticano II que, em Roma, reuniu todos os bispos do mundo, a Igreja Católica publicou a declaração Nostra Aetate, que reconhece o valor das outras religiões e incentiva os fieis a valorizar o diferente e praticar o diálogo. Da parte das outras Igrejas, em 1961, o Conselho Mundial de Igrejas, que reúne mais de 340 confissões evangélicas e ortodoxas, em sua assembleia geral em Nova Dehli, pediu às Igrejas-membros uma atitude de respeito e diálogo com todas as culturas e colaboração com outras tradições religiosas.

No mundo atual, a diversidade cultural e religiosa faz com que os diferentes caminhos espirituais possam se complementar e se enriquecer mutuamente. Faz com que cada grupo reconheça os elementos de verdade que existem em outros grupos  e se abram ao que Deus revela a cada um, não somente a partir da sua própria tradição, mas também através dos outros caminhos religiosos.

Nas últimas décadas, em diálogo com a humanidade, muitos cristãos descobriram como critério da fé o que apóstolo Paulo escreveu ao grupo de Corinto: “Deus nos fez servidores de uma nova aliança, não da letra da lei, mas do espírito, porque a letra mata e o espírito é quem faz viver” (2 Cor 3, 6). Do mesmo modo, a imagem que Jesus transmite de Deus é a de um paizinho carinhoso que “faz nascer o sol sobre os bons, mas também sobre os maus e faz chover sobre quem é justo e quem é injusto” (Mt 5, 45).  

 

 

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Esperança contra toda desesperança


Por Francisco de Aquino Júnior


 

Vivemos tempos difíceis e até dramáticos: O crescimento da extrema direita com sua política antissocial de desmonte do que resta de políticas sociais e de aversão aos direitos humanos tem levado a um aumento escandaloso da pobreza e das mais diversas formas de violação dos direitos humanos (feminicídio, racismo, homofobia etc.). Com o agravante de que tudo isso se dá com a cumplicidade – até militante – de amplos setores das igrejas cristãs e de seus pastores, destruindo a herança mais importante da tradição judaico-cristã para a civilização ocidental: o ser humano criado à “imagem e semelhança de Deus” ou a dignidade fundamental de todo ser humano. Mas, precisamente neste tempo, somos chamados a dar testemunho de uma esperança ativa e criativa, provada na cruz, regada com sangue martirial, sustentada e dinamizada pelo Espírito do Senhor que “a partir de baixo” vai reciclando/refazendo/recriando a vida.

Como tanto insistiu Paulo Freire, a esperança é uma dimensão fundamental da vida humana. Aquela dimensão que faz de nossa vida uma obra inacabada e uma tarefa permanente. É a dimensão utópica da vida. Aquilo que nos desinstala, que nos mobiliza, que nos põe a caminho.  É uma “necessidade ontológica” e, enquanto tal, um “imperativo existencial e histórico”. Sem esperança a vida humana se torna impossível. “A desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir ao fatalismo onde não é possível juntar as forças necessárias ao embate recriador do mundo”. Por isso, dizia: “sem poder negar a desesperança como algo concreto e sem desconhecer as razões históricas, econômicas e sociais que a explicam, não entendo a existência humana e a necessária luta para fazê-la melhor sem esperança e sem sonho”. O homem é “um ser da esperança que, por ‘n’ razões, se tornou desesperançado”. Mas a esperança renasce sempre de novo, quando menos se espera e de onde menos se espera. E a razão última ou a fonte última dessa esperança, como indicou o papa Francisco na encíclica Laudato Si’, é a presença salvífica e re-criadora do Espírito de Deus no mundo. Ele “encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo novo” (LS, 80). Por isso, “nem tudo está perdido”. Não se deve esquecer jamais que “os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também se superar, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionamento psicológico e social que lhe seja imposto”. Nada é definitivo nesse mundo. “Não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a reanimar no mais fundo dos nossos corações” (LS, 205).

Mas a esperança sozinha não transforma o mundo. Não basta querer e sonhar. É preciso ousar, arriscar, inventar… Nas palavras de Paulo Freire, “a esperança é necessária, mas não é suficiente […]. Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo”. A esperança que transforma o mundo é uma esperança ativa/criativa que se faz resistência e luta cotidianas. Resistência crítica: na denúncia, no enfrentamento e na luta contra toda forma de opressão, injustiça, exploração e negação de direitos. Resistência criativa: na construção de novos padrões e novas formas de atividade econômica (agroecologia, economia solidária, tecnologias sociais etc.), de novas relações de gênero, da cultura da solidariedade, de articulação das forças populares, de cultivo da dimensão místico-espiritual. E todo esse processo, adverte Ignacio Ellacuría, teólogo-mártir salvadorenho, é marcado por uma tensão fecunda entre o “ideal utópico” e sua “moderação realista”. O “ideal utópico” impede o fatalismo, o conformismo e a resignação diante das injustiças, bem como o pragmatismo político que é fruto de conchavos e negociatas com as elites. A “moderação realista”, por sua vez, “sem perder seu ideal utópico, o modera conforme as possibilidades históricas”. Isso exige lucidez, discernimento e sabedoria. A vida não funciona na base do “tudo ou nada”. Um passo para frente ou mesmo para trás pode ser decisivo para novas conquistas. E, de novo, é importante perceber a dimensão estritamente espiritual desse processo, através do qual o Espírito do Senhor, que é Espírito de vida e que “atua a partir de baixo”, vai reciclando, refazendo, recriando a vida.

 

domingo, 29 de agosto de 2021

UM BRADO CONTRA A HIPOCRISIA


 Chico Alencar 


(Breve reflexão para cristãos ou não)

Nesse domingo, em milhares de comunidades cristãs pelo mundo, ecoa um clamor: o de Jesus de Nazaré contra a hipocrisia, a falsidade, o fingimento. Contra a cultura da aparência, que nega a essência. Contra os chefes do Templo e os doutores da Lei que não praticavam o que pregavam (Mc, 7, 1-8, 14-15, 21-23).

Na sociedade de consumo, hoje, esse "farisaísmo" do tempo de Jesus está mais forte ainda: o parecer vale mais do que o ser. A mentira faz morada nas pessoas e em quase todas as instituições. Jesus denuncia, citando o profeta Isaías, os que "honram (a Deus) com os lábios, mas têm o coração longe". Contesta aqueles muitos que vivem defendendo a "tradição" mas não exercem a compaixão.  Denuncia os que fazem cultos e ritos e não escutam o grito dos aflitos.

Ele desafia sua gente, a começar pelos discípulos, a descobrir a sacralidade de todas as pessoas e coisas, e a ter uma postura de amor e respeito diante delas: "o que vem de fora não torna ninguém impuro, e sim o que sai dele". O nosso interior, o nosso coração é a grande usina da generosidade... ou das más intenções (maldade, roubo, inveja, calúnia, orgulho, ambição). 

Toda religiosidade autêntica transforma a vida das pessoas. Faz com que o que ela reza, ora, celebra, transborde para a vida cotidiana, na relação com os outros e com a natureza. Sem isso, são palavras vazias de "gente estúpida, gente hipócrita". 

Isso vale não apenas para quem professa uma fé - que "sem obras, é vã" - mas para todo ser humano que não faz o que fala, que é incoerente-raiz. Tantos por aí...

Ser autêntico, viver o que se diz é caminho para crescer e ser feliz: "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além" (Paulo Leminski, 1944-1989).

D. Pedro Casaldáliga (1928-2020), bispo, poeta e profeta, nos desafia: "Ser o que se é, falar o que se crê, crer no que se prega, viver o que se proclama - até as últimas consequências".

Caminhemos e, junto/as, pratiquemos!

sexta-feira, 16 de julho de 2021

ÁGUA: FONTE DE VIDA OU FONTE DE LUCRO? CONTRA A PRIVATIZAÇÃO DA ÁGUA

 Leonardo Boff  


 

Hoje há duas questões maiores que afetam toda a humanidade: o aquecimento global e a crescente escassez de água potável. Ambas obrigam a profundas mudanças no nosso modo de viver,pois podem produzir um colapso de nossa civilização e afetar profundamente o sistema-vida.

Atenhamo-nos à questão da água, cobiçada pelas grandes corporações para privatizá-la e lucrar enormemente. Ela pode ser motivo de guerras como de solidariedade social e cooperação entre os povos. Já se disse que se as guerras do século XX eram por petróleo, as do século XXI serão por água potável. Não obstante isso, ela pode ser referência central para um novo pacto social mundial entre os povos e governos em vista da sobrevivência de todos

Consideremos  os dados básicos acerca da água. Ela é extremamente abundante e ao mesmo tempo escassa.

Existe cerca de um bilhão e 360 milhões de km cúbicos de água na Terra. Se tomarmos toda essa água que está nos oceanos, lagos, rios, aquíferos e calotas polares e distribuíssemos equitativamente sobre uma superfície terrestre plana, toda a Terra ficaria mergulhada na água a três km de profundidade. 97% é água salgada e  3% é água doce. Mas somente 0,7% desta é diretamente acessível ao uso humano. Destes 0,7, 70% vão para a agricultura,22% para a indústria e o restante para o uso humano e a animal.

A renovação das águas é da ordem de 43 mil km cúbicos por ano, enquanto o consumo total é estimado em 6 mil km cúbicos por ano. Há, portanto, superabundância de água mas desigualmente distribuída: 60%  se encontra em apenas 9 países, enquanto 80 outros enfrentam escassez. Pouco menos de um bilhão de pessoas consome 86% da água existente enquanto para 1,4 bilhões é insuficiente (em 2020 serão três bilhões) e para dois bilhões, não é tratada, o que gera 85% das doenças constatáveis. Presume-se que em 2032 cerca de 5 bilhões de pessoas serão afetadas pela crise de água.

O problema não é a escassez de água mas sua má gestão e distribuição para atender as demandas humanas e dos demais seres vivos.

O Brasil é a potência natural das águas, com 13% de toda água doce do Planeta perfazendo 5,4 trilhões de metros cúbicos. Apesar da abundância, 46% dela é desperdiçada, o que daria para abastecer toda a França,  a Bélgica, a Suíça e o Norte da Itália.Carecemos ainda de uma cultura da água.

Por ser escassa, a água doce se tornou um bem de alto valor econômico. Como passamos de uma economia de mercado para uma sociedade de marcado,tudo se transforma em mercadoria. Em função desta “grande transformação”(Karl Polaniy) verifica-se hoje,  uma corrida mundial desenfreada para privatizar a água e ter grandes lucros. Assim surgiram as empresas multinacionais como as francesas Vivendi e Suez-Lyonnaise, a alemã RWE, a inglesa Thames Water e a americana Bechtel, entre outras. Criou-se um mercado das águas que envolve mais de 100 bilhões de dólares. Ai estão fortemente presentes a Nestlé e a Coca-Cola, buscando comprar fontes por toda a parte no mundo.

O grande debate hoje se trava nestes termos: A água é fonte de vida ou fonte de lucro? A água é um bem natural, vital, comum e insubstituível ou um bem econômico a ser tratado como recurso hídrico e como  mercadoria?

Importa, de saída, reconhecer que a água não é um bem econômico como qualquer outro. Ela está tão ligada à vida que deve ser entendida como algo vital e sagrado. A vida não pode ser transformada em mercadoria. É um dos bens mais excelentes do processo da evolução e um dos maiores dons divinos. Ademais, a água está ligada a outras dimensões culturais, simbólicas e espirituais que a tornam preciosa e carregada de valores que em si não têm preço.

Para entendermos a riqueza da água que transcende sua dimensão econômica, precisamos romper com a ditadura da razão instrumental-analítica e utilitarista, imposta à toda a sociedade. Esta vê a água como mero recurso hídrico com o qual se pode fazer negócios. Só atende a finalidades e utilidades. Mas o ser humano tem outros exercícios de sua razão. Há a razão mais ancestral, sensível, emocional, cordial e espiritual.Este tipo de razão vai além de finalidades e utilidades.Esta razão está ligadas ao sentido da vida, aos valores, ao caráter simbólico ético e espiritual da água.

Nesta perspectiva, a água comparece como um bem comum natural, como fonte e o nicho de onde há 3,8 bilhões  de anos surgiu a vida na Terra. A água é um bem comum publico mundial É patrimônio da biosfera e vital para todas as formas de vida. Não o existe vida sem a água.

Obviamente, as dimensões de água como fonte de vida e de recurso hídrico não precisam se excluir, mas devem ser retamente relacionadas. Fundamentalmente a água pertence ao direito à vida. A ONU declarou no dia 28 de julho de 2010 que a água limpa e segura bem como o saneamento básico constituem um direito humano fundamental.

Mas ela demanda, sim, uma complexa estrutura de  captação, conservação, tratamento e distribuição, o que implica uma inegável dimensão econômica. Esta, entretanto, não deve prevalecer sobre a outra, ao direito, mas deve  tornar a água acessível a todos.

Deve-se garantir a todos gratuitamente pelo menos 50 litros de água potável e sã. Cabe ao poder publico junto com a sociedade organizada criar um financiamento público para cobrir os custos necessários para garantir esse direito de todos. As tarifas para os serviços devem contemplar os diversos usos da água, se doméstico, se industrial, se agrícola, se  recreativo. Para os usos na indústria e na agricultura, evidentemente, a água é sujeita a preço.

A visão predominante mercadológica, distorce a reta relação entre agua como fonte de vida e água como recurso hídrico. Isso se deve fundamentalmente à exacerbação da propriedade privada que faz com que se trate a água sem o sentido de partilha e de consideração das demandas dos outros e de toda a comunidade de vida.É muito débil ainda, o princípio da solidariedade social e da comunidade de interesse e do respeito pelas bacias hidrográficas que transcendem os limites das nações como ocorre, por  exemplo, entre a Turquia de um lado e a Siria e o Iraque do outro, ou entre Israel de um lado e a Jordânia e a Palestina do outro ou mesmo entre os USA e o México ao redor dos rios Rio Grande e Colorado.

Para discutir todas estas questões vitais criou-se em 2003 em Florença na Itália o Fórum Mundial Alternativo da Agua. Ai foi proposta a criação de uma  Autoridade Mundial da Água.  Ela seria uma instância de governo publico, cooperativo e plural para tratar  da água a nivel das grandes bacias hídricas internacionais e de sua distribuição mais equitativa  segundo as demandas regionais.

Paralelamente, formou-se uma articulação internacional em vista de um Contrato Mundial da Água.Como inexiste um contrato social mundial, poderia se elaborar ao redor daquilo que efetivamente une a todos que é  a água, da qual depende a vida das pessoas e dos demais seres vivos. Semelhantemente agora com a intrusão do Covid-19,urge um contrato mundial de salvaguarda da vida humana para além de qualquer soberanismo, visto como algo ultrapassado, de outro tempo histórico.

Função importante é pressionar os Governos e as empresas para que a água não seja levada aos mercados nem seja considerada mercadoria. Importa incentivar a cooperação publico-privado para impedir que tantos morram em consequência da falta de água ou em consequência de águas maltratadas.

Diariamente morrem 6 mil crianças de sede e cerca de 18 milhões de meninos/meninas deixem de ir para  a escola porque são obrigadas a buscar água a 5-10  km de distância

Importantíssimo é preservar as florestas em pé e reflorestar o mais possível.São elas que garantem a permanência da água,alimentam os aquíferos além de amenizar o aquecimento global pelo sequestro do dióxido de carbono e a produção de oxigênio vital.

Uma fome zero mundial, preconizada há anos pelas Metas do Milênio da ONU deve incluir a sede zero, pois a água é alimento e não há nada que possa viver e ser consumido sem a água.

Por fim, a água é vida, geradora de vida e um dos símbolos mais poderosos da vida eterna, já que Deus aparece como vivo,o gerador de toda vida  e fonte infinita de vida.

Leonardo Boff, ecoteólogo e escreveu O doloroso parto da mãe Terra:um sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social,  Vozes , 202.

 

terça-feira, 18 de maio de 2021

A UNIDADE DOS CRISTÃOS E A LUTA CONTRA A BARBÁRIE

 

Marcelo Barros


 

Nesta semana, em muitos lugares do hemisfério sul, cristãos das mais diferentes Igrejas se unem na Semana de Orações pela Unidade dos Cristãos. Há mais de cem anos, esta iniciativa surgiu, tanto no ambiente católico, como em meios evangélicos. Ninguém deseja a uniformidade. A meta é a unidade na diversidade e a serviço da humanidade. Nesse ano, o tema da Semana da Unidade se inspira em uma palavra, que conforme o evangelho, depois da ceia, Jesus teria dito aos discípulos e discípulas:  “Permanecei no meu amor e produzireis muitos frutos” (Jo 15, 5- 9). É o amor do próprio Jesus em nós que se tornará elemento fundamental na missão de manifestar a realização do projeto divino para o mundo.

Nos anos mais recentes, em todos os continentes, a concentração da riqueza aumentou enormemente. As desigualdades sociais triplicaram. Mesmo durante a pandemia, enquanto mais de um bilhão de seres humanos afunda na insegurança alimentar e na pobreza extrema, o lucro da elite dos mais ricos aumenta escandalosamente.

Para manter esta realidade, governos e empresas aumentam gastos militares. O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) publicou que, em 2020, apesar da pandemia e da consequente contração da economia, o gasto dos países com armamentos alcançou US$ 1,8 trilhão, ou seja, 3,9% a mais que em 2019. Na América do Sul, o Brasil responde por mais da metade das despesas militares de todos os países juntos. Para 2021, o projeto do governo é gastar 10, 7 bilhões de reais em armas, manutenção e salários dos militares. Isso apesar de que o nosso país  não vive nenhuma guerra declarada, a não ser os massacres que, dia a dia, policiais e militares efetuam contra a população mais pobre.

Em abril de 2020, António Guterrez, secretário-geral da ONU pediu a todos os países que cessassem quaisquer atos de guerra. Toda a humanidade deveria se dedicar à guerra contra a pandemia. Apesar deste pedido, as guerras nacionais e internacionais continuaram. Para não morrerem, milhões de pessoas são obrigadas a fugir de seus territórios. 

É triste constatar que os países que mais desenvolvem a cultura armamentista e agressiva em relação aos outros são aqueles nos quais a cultura dominante é ligada a alguma religião. É mais triste ainda saber que, durante a história, o Cristianismo foi a religião que mais pregou e defendeu guerras. Apesar dos ensinamentos sociais das Igrejas que vêm do final do século XIX, o Cristianismo ainda legitima estruturas de exclusão, de racismo e de desumanidade. Milhões de brasileiros/as sofrem de desemprego e insegurança alimentar. Esta crise foi provocada não só pela pandemia. Vem de antes e tem como causa a reforma trabalhista que retirou direitos dos/as trabalhadores/as. Um dos setores que mais apoiaram essa iniquidade foi a chamada Bancada da Bíblia, formada por pastores que se dizem cristãos. Não poucos padres, bispos e grupos católicos apoiam o governo em sua opção de descuido da saúde e abandono do povo. No Rio de Janeiro o governador responsável pelo recente massacre do Jacarezinho se considera católico fervoroso e carismático. 

Diante disso, partidos e grupos políticos a favor da humanidade procuram se unir e fazer uma frente ampla para vencer o ódio e a desumanidade. Também os grupos cristãos e todas as pessoas que buscam a Deus Amor precisam se organizar em um só ecumenismo contra a barbárie. Hans Kung, o grande teólogo suíço que, partiu no mês passado, afirmou: “O mundo não terá paz se as religiões não aprenderem a dialogar entre elas e as religiões não dialogarão se as Igrejas cristãs não se unirem”.

A verdadeira unidade terá de ser construída a partir de baixo e das periferias do mundo e das Igrejas. Precisamos construí-la no na nossa vida cotidiana e no nosso trabalho. No entanto sabemos que ela é dom divino e precisamos pedi-la e nos dispor para recebê-la do Pai. Na véspera de sua paixão, Jesus orou ao Pai pela unidade de todos/as os que um dia viessem a crer nele: “para que sejam Um, assim como Eu e Tu somos um. Que eles (elas) sejam unidos, para que o mundo possa crer que Tu me enviaste” (João 17, 19- 21).

 

 

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br 

 

 

terça-feira, 9 de março de 2021

DIA DA MULHER NA LUTA CONTRA A COVID

 


Marcelo Barro
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Nesta segunda-feira, 08 de março e durante toda esta semana, o mundo celebra o dia internacional da mulher.  Esta data, promovida pela ONU (Organização das Nações Unidas), celebra as conquistas sociais, econômicas, culturais e políticas que as mulheres realizam no mundo e reforça a luta das mulheres pelo reconhecimento de sua dignidade, igualdade de direitos e protagonismo na construção de um mundo de iguais.

Infelizmente, no Brasil, na comemoração do 08 de março, precisamos nos dar conta de que, durante este tempo de pandemia, têm crescido várias formas de violência contra a mulher. Muitas mulheres têm sofrido agressões dentro da própria casa, muitas vezes por parte dos companheiros. Ainda é comum o estupro e pior ainda o feminicídio, assassinato de mulheres, pelo fato de serem mulheres. Além disso, a violência contra a mulher também toma caráter coletivo no tráfico de mulheres para a prostituição forçada que existe em todos os continentes e em certas políticas que insistem na discriminação da mulher. 

Neste ano, a ONU escolheu como tema para o 08 de março:  Mulheres na liderança: Alcançando um futuro igual em um mundo de COVID-19 ”. A razão deste tema é o fato de que, no mundo inteiro, as mulheres têm assumido a linha de frente no combate à pandemia e na proteção da vida das populações. Elas têm atuado como profissionais de saúde, cuidadoras e organizadoras comunitárias. Em todos os continentes, muitas das lideranças mais exemplares e eficazes na luta contra a Covid são mulheres. Ao mesmo tempo, continuam cuidando da maioria das tarefas de casa e suportam um fardo enorme de exigências. Em todo o mundo os índices maiores de desemprego e de pobreza recaem sobre as mulheres.

A ONU tem destacado que a maioria dos países nos quais o combate à onda da pandemia da COVID-19 tem tido mais sucesso têm sido países governados por mulheres. Estamos nos referindo à Dinamarca, Etiópia, Finlândia, Alemanha, Islândia, Nova Zelândia e Eslováquia. Esses países foram reconhecidos pela rapidez dos cuidados e pela determinação com a qual os seus governos protegeram a população. No entanto, dos 193 países-membros da ONU somente 20 são governados por mulheres.

Apesar das mulheres constituírem a maioria dos trabalhadores da linha de frente, ainda continua sendo desproporcional e inadequada a representação de mulheres nos espaços nacionais e globais de políticas para a COVID-19.

 

 

Devemos todos, homens e mulheres, valorizar e celebrar de todas as formas que pudermos o dia internacional da mulher, para que este possa se estender por todos os dias do ano como tempo de integração de gêneros e o mundo se torne espaço de comunhão no qual mulheres e homens possam viver a complementação de iguais.

Para quem cultiva a espiritualidade, seja em qual for a tradição religiosa ou fora das religiões, o Amor se manifesta como energia fecunda de vida. Os povos indígenas a veneram como Pachamama, mãe Terra. As tradições afrodescendentes a honram nas grandes Mães da vida,  como Iemanjá, Nanã, Obá, Euá, Oxum e Iansã.  A tradição bíblica revela que a divina Ruah, ventania, que os textos traduzem como Espírito Santo, se revela na força própria da mulher e no encanto do feminino em nossas vidas. Na carta aos gálatas, Paulo afirma: “Homens ou mulheres, somos todos um só no Cristo, Jesus nosso Senhor” (Cf. Gl 3, 28).

 

 

 

 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

POVOS INDÍGENAS CONTRA AS PANDEMIAS DO ÓDIO

  


Marcelo Barros

 

Neste momento no qual, em todo o território nacional, os povos indígenas são ameaçados em sua existência física e nas suas culturas, é mais urgente do que nunca recordar o aniversário do martírio do índio Sepé Tiaraju que no sul do Brasil é considerado santo e se tornou até nome de cidade no Rio Grande do Sul: São Sepé.  É no dia 07 de fevereiro que as comunidades do Rio Grande do Sul celebram o aniversário deste grande mártir indígena.

Como dizem os livros de História, em 1750, no Tratado de Madri, os reis de Portugal e de Espanha decidiram se unir para destruir as comunidades das missões, cuidadas pelos jesuítas. Os Guarani decidiram resistir porque consideravam a terra como dom de Deus e eles tinham que defender a liberdade da terra e a relação íntima entre aquela terra sagrada e o povo que dela cuidava. Os portugueses e espanhóis atacaram os índios com canhões e morteiros. Os índios resistiram com flechas e pedras.

Sepé, cujo nome indígena não parece ter sido esse, foi o líder guerreiro que uniu o povo guarani na luta contra os exércitos espanhol e português. Sepé unificou os índios das sete povoações missioneras com o grito: “Esta terra tem dono”. Até hoje, esse grito ressoa nas lutas indígenas e é reconhecido como legítimo por todos os que têm senso de justiça. Sepé morreu vítima de uma emboscada armada no arroio Caiboaté. Milhares de índios foram mortos ou se espalharam pelas florestas, escondidos para sobreviver. Até hoje, o grito de Sepé Tiaraju, o cacique guarani, ressoa nas lutas indígenas.

A luta dos dois impérios europeus contra os Guarani foi imortalizada no filme A missão, dirigido em 1986, pelo cineasta inglês Roland Joffé com a inesquecível trilha sonora de Ennio Morricone. Mesmo se a história foi romantizada, revela os fatos históricos como eles aconteceram.

Há séculos, o povo o considera São Sepé. Só agora, com o papa Francisco, o Vaticano acolheu o pedido para reconhecê-lo como santo católico. Isso significa que a causa dos povos indígenas não é só uma luta social e política justa. É isso, mas se torna também apelo espiritual através do qual o Espírito Divino se manifesta presente no mundo e nos ilumina.

Agora, depois de séculos de resistência a tantas violências e perseguições, a fidelidade dos povos indígenas à unidade da comunidade, à preservação de suas culturas de origem e a profunda comunhão com a mãe Terra e a natureza se tornam para os cristãos um verdadeiro testemunho (martírio). É o que aparece no testemunho de Marcelo Grondin e Moema Viezzer. Estes companheiros, desde jovens consagrados às melhores causas da humanidade, conseguiram resumir brilhantemente essa história no livro: Abya Yala, que tem como subtítulo: O maior genocídio da história da humanidade: mais de 70 milhões de vítimas entre os povos originários das Américas. (Editora Bambual, 2020).

O livro de Marcelo Grondin e Moema Viezzer conta com um belo e profundo prefácio de Aílton Krenak, o primeiro índio brasileiro a ganhar o prêmio Juca Pato de intelectual do ano 2020.

Este  livro nos conduz a uma peregrinação aos locais de martírio de todos os povos indígenas das Américas. Conseguem contar uma história terrível e arrepiante, sem, entretanto, jamais ceder à desesperança, nem cair na incitação do ódio. Quem lê esse livro impressionante, não pode deixar de concluir: Os povos indígenas podem ser nossos mestres em como resistir nesses dias maus que vivemos Ao ler o livro, celebramos ainda de forma mais profunda a admiração e a gratidão ao ver as novas formas de resistência, de articulação e de profecia dos povos indígenas em nosso continente. 

 Temos de nos unir e nos solidarizar aos parentes, indígenas de todos os povos originários do continente, companheiros e companheiras nas tribulações provocadas pelo Capitalismo e no testemunho do projeto divino no mundo.

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

sexta-feira, 3 de julho de 2020

O CORONAVÍRUS: UM ATAQUE DA TERRA CONTRA NÓS


 

por leonardo boff

 

 Até a presente data toda a preocupação face ao Covid-19 está centrada na medicina, na técnica e em todos os insumos que impedem a contaminação dos operadores da saúde. Principalmente se busca de forma urgente uma vacina eficaz. Na sociedade, o isolamento social e evitar a conglomeração de pessoas. Tudo isso é fundamental. No entanto, não podemos considerar o Coronavírus como um dado isolado. Ele deve ser visto dentro do contexto que permitiu sua irrupção.

Ele veio da natureza. Ora, como bem disse o Papa Francisco em sua encíclica “sobre o cuidado da Casa Comum: ”Nunca maltratamos e ferimos nossa Casa Comum como nos dois últimos séculos”(n.53). Quem a feriu foi o processo industrialista: o socialismo real (enquanto existia) e principalmente o sistema capitalista hoje globalizado. Este é o Satã da Terra que a devasta e à leva a todo tipo de desequilíbrios.

Ele é o principal (não o único) responsável pelas várias ameaças que pairam sobre o sistema-vida e o sistema-Terra: desde o possível holocausto nuclear, o aquecimento global, a escassez de água potável até a erosão da biodiversidade. Faço minhas as palavras do conhecido geógrafo norte-americano David Harley: “O COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos e abuso nas mãos de um extrativismo neoliberal violento e não regulamentado”.

Isabelle Stengers, química e filósofa da ciência que muito trabalhou em parceria com o Nobel Ilya Prigogine, sustenta a mesma tese que eu também sustento: ”o Coronavírus seria uma intrusão da Terra-Gaia nas nossas sociedades, uma resposta ao antropoceno”.

Conhecíamos outras intrusões: a peste negra (peste bubônica) que vinda da Eurásia dizimou, ao todo, segundo estimativas, entre 75-200 milhões de pessoas. Na Europa entre 1346-1353 desfalcou a metade de sua população de 475 para 350 milhões. Ela precisou de 200 anos para se recompor. Foi a mais devastadora já conhecida na história. Notória também foi a gripe espanhola. Oriunda possivelmente dos USA entre 1918-1920, infectou 500 milhões de pessoas e levando 50 milhões à morte, inclusive o presidente eleito Rodrigues Alves em 1919.

Agora, pela primeira vez um vírus atacou o planeta inteiro, levando milhares à morte sem podermos detê-la por sua rápida propagação já que vivemos numa cultura globalizada com alto deslocamento de pessoas que viajam por todos os continentes e podem ser portadores da epidemia.

A Terra já perdeu o seu equilíbrio e está buscando um novo. E esse novo poderá significar a devastação de importantes porções da biosfera e de parte significativa da espécie humana.

Isso vai ocorrer, apenas não sabemos quando nem como, afirmam notáveis biólogos. Se vier a temida NBO (The Next Big One), o próximo grande e devastador vírus, poderá, segundo o pesquisador da USP Prof. Eduardo Massad, levar à morte cerca de 2 bilhões de pessoas, diminuindo a expectativa geral de vida de 72 para 58 anos. Outros temem até o fim da espécie humana.

O fato é que já estamos dentro da sexta extinção em massa. Inauguramos segundo alguns cientistas, uma nova era geológica, a do antropoceno e sua expressão mais danosa, a do necroceno. A atividade humana (antropoceno) se revela a responsável pela produção em massa da morte (necroceno) de seres vivos.

Os diferentes centros científicos que sistematicamente acompanham o estado da Terra atestam que, de ano para ano, os principais itens que perpetuam a vida (água, solos, ar puro, sementes, fertilidade, climas e outros) estão se deteriorando dia a dia. Quando isso vai parar?

O dia da Sobrecarga da Terra (the Earth Overshoot Day) foi atingido no dia 29 de julho de 2019. Isto significa: até esta data foram consumidos todos os recursos naturais disponíveis e renováveis. Agora a Terra entrou no vermelho e no cheque especial.

Como frear esta exaustão? Se teimarmos em manter o consumo atual, especialmente o suntuoso, temos que aplicar mais violência contra a Terra forçando-a a nos dar o que já não tem ou não pode mais repor. Sua reação se expressa pelos eventos extremos, como o vendaval-bomba em Santa Catarina em fins de junho e pelos ataques dos vários tipos de vírus conhecidos: zika, chicungunya, ebola, Sars, o atual coronavírus e outros. Devemos incluir o crescimento da violência social já que Terra e Humanidade constituem uma única entidade relacional.

Ou mudamos nossa relação para com a Terra viva e a para com a natureza ou poderemos contar com novos e mais potentes vírus que poderão dizimar milhões de vidas humanas. Nunca o nosso amor à vida, a sabedoria humana dos povos e a necessidade do cuidado foram tão urgentes.

Leonardo Boff é ecoteólogo e escritor.Acaba de escrever um livro:”O Covid-19: A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade” a sair pela Editora Vozes ainda este ano.

 


terça-feira, 17 de março de 2020

A HUMANIDADE CONTRA A ESCRAVIDÃO



Por Marcelo Barros

A ONU consagra o dia 20 de março de cada ano como dia internacional de combate a todos os tipos de escravidão. Essa é uma luta que nos compromete como seres humanos e diz respeito à nossa vocação mais profunda: a liberdade e o amor.  

Organismos internacionais calculam que, atualmente, nos mais diversos continentes, quase 800 milhões de pessoas são, de alguma forma, vítimas de novas formas de escravidão. Apesar de terem assinado, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, quase todos os países do mundo convivem com isso. A sociedade dominante organiza o mundo de forma que alguns dos direitos humanos básicos são sistematicamente violados. Governos e organizações da sociedade civil fazem declarações de combate à escravidão, mas, na prática, sustentam uma organização econômica que torna a maioria das pessoas mais frágeis e expostas a situações semelhantes à escravidão. Empresários convivem com as novas tecnologias, mas, em suas fazendas de soja ou de gado, mantêm trabalhadores em regimes de trabalho forçado e condições desumanas de sobrevivência. Empresas provocam crise econômica em vários países para manter os salários astronômicos de seus dirigentes, mas se negam a garantir emprego justo a uma multidão de pais e mães de família. Só não vê quem não quer: enquanto a humanidade não superar o Capitalismo como forma de organizar a sociedade, a porta estará sempre aberta para a barbárie que se expressa em novas formas de escravidão. Bertold Brech chegava a afirmar que “enquanto houver capitalismos, a cadela do fascismo estará no cio”. Isso pode ser comprovado no Brasil de hoje.

  As Igrejas e religiões deveriam ser pioneiras na defesa dos mais empobrecidos, Infelizmente, em tantos séculos de história, as Igrejas e instituições religiosas, não somente não mudaram essa realidade, como muitas vezes, se tornaram cúmplices e até protagonistas dessa barbárie. Dois mil anos depois, a proposta do Evangelho de Jesus continua ignorada e mesmo desmoralizada. É mais triste constatar que quem mais agride o evangelho e a mensagem de Jesus não são ateus ou  inimigos da fé e sim os próprios cristãos e até ministros e pastores. Muitos se identificam com a instituição religiosa e vestem a roupa do culto e usam os símbolos do poder religioso, mas não aderem à proposta ética e transformadora da fé.

Todas as religiões reconhecem: o divino só pode ser encontrado realmente no humano. O que Irineu, pastor da Igreja de Lyon ensinava aos cristãos no século II vale para toda pessoa de qualquer religião e de todos os tempos: “Como você poderá divinizar-se se ainda nem se tornou humano? Antes de tudo, garanta a sua condição de ser humano e, assim, poderá participar da glória divina”[1].

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 57 livros publicados. O mais recente é Teologias da Libertação para os nossos dias (Vozes). Email: contato@marcelobarros.com



[1] - Cf. IRINEU DE LYON, Adversus Heresis, IV, 39 II, Patrologia Greca, citado por LUCIANO MANICARDI, La vita secondo lo Spírito, in Exodo, n. 4. Ottobre-dicembre 2003, p. 35.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

ESCALADA CONTRA A DEMOCRACIA




Frei Betto

       Não faço parte do time das pitonisas. Prefiro guardar o pessimismo para dias melhores. Contudo, prevejo tempos difíceis para o Brasil, a menos que a nossa indignação se transforme em mobilização. Pelo andar da carruagem, nossa frágil democracia se encontra ameaçada, e nossa liberdade de expressão, amordaçada. 

       Os sinais não são promissores. Nada indica que a economia brasileira sairá em breve do atoleiro em que se encontra. O número de desempregados passa de 13 milhões. As previsões do PIB 2019 encolhem a cada novo balanço. No início do atual governo acreditava-se que cresceria 2,2%. Agora, se prevê 1,7%.  O Brasil retrocede.

       Ainda que alguma reforma da Previdência seja aprovada (sem afetar os privilégios do andar de cima, é claro), nada indica vir do exterior investimentos substanciais. Nosso país está desacreditado. Quem se aventura a embarcar em um navio avariado? E há outras opções mundo afora para os investidores. Preferem multiplicar seu capital em economias robustas e confiáveis. 

       Como se sentir seguro sob um governo que a cada dia se desdiz? Em menos de cinco meses desacreditou as próprias promessas de campanha. O corporativismo e o viés ideológico falam mais alto que a competência. Ministro que se preze deve vestir a farda de recruta e engolir a seco as ordens do comandante. Não se admite o contraditório, o pluralismo, o debate democrático.

       Dança-se ao ritmo leninista: um passo à frente, dois atrás. A embaixada brasileira transferida para Jerusalém permanece em Tel Aviv. A soberania do país se dobra à suspensão unilateral de vistos para estadunidenses. A cultura é sufocada pela falta de recursos. As ações da Petrobras e do Banco do Brasil despencam, porque o governo “não intervencionista” veta o aumento do diesel e a publicidade do banco. 

       A grileiros, desmatadores e invasores de terras indígenas é concedida licença para matar. Aos milicianos se faz vista grossa. Aos corruptos amigos da família, silêncio. O que ao pai, movido a arroubos, não convém manifestar, ao filho é transferida a tarefa, ainda que ofensas ao general eleito vice do capitão. 

       O desmonte é geral. Conselhos federais são extintos; não há médicos em muitas localidades antes atendidas por cubanos; disciplinas que ensinam a pensar, como filosofia e sociologia, são riscadas dos currículos; milícias são toleradas; índios são recebidos em Brasília, não por autoridades abertas ao diálogo, mas pela Força Nacional, como se um bando de feras evadidas da selva ameaçasse avançar sobre o Planalto.

       O clima é de repúdio à democracia. Até quando o STF e o Congresso Nacional serão tolerados? E a liberdade de imprensa? Oitenta tiros do Exército assassinaram dois cidadãos inocentes e o fato é considerado irrelevante. 

       Pelos corredores do governo disseminam o medo e a insegurança. O ministro da Economia fala em obter R$ 1 trilhão com as reformas, e horas depois o presidente reduz para R$ 800 bilhões. O secretário da Receita Federal acenou com novos impostos e foi desautorizado no dia seguinte de sua entrevista. A lei do silêncio impera. Quem pretende se agarrar à sua boquinha no governo que trate de fechar a própria. O atual governo sabe destruir, mas não sabe construir.

       As pesquisas comprovam que a aprovação ao Planalto despenca a cada mês? Ora, puro “fake”, clama o governo. Ele garante que a aprovação, como ótimo, é 98%! Exceto para 2% de gente envenenada pelo marxismo cultural. Gente que não respeita a família, ainda que o acusador tenha tido três. Gente que é a favor dos direitos dos homossexuais e contra a liberação da posse e do porte de armas.

       O rei está nu. Mas não convém admitir isso em público. Cada cidadão que cubra seus olhos indignados com as cores vivas dessa policromia ministerial em 22 tons de cinza.

Frei Betto é escritor, autor de “Calendário do poder” (Rocco), entre outros livros.
 Copyright 2019 – FREI BETTO – Favor não divulgar este artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com) 
  
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sexta-feira, 20 de julho de 2018

O DESAFIO ATUAL: CONTRA O ESTADO PÓS-DEMOCRÁTICO, RESGATAR A DEMOCRACIA




 Por Leonardo Boff  

Não são poucos os analistas sociais e juristas da maior qualidade que denunciam o atual situação política do Brasil como a instauração de um Estado de exceção. O golpe parlamentar,jurídico e mediático de 2016 permitiu que os golpistas passassem por cima da Constituição, modificassem as leis trabalhistas em favor dos patrões, engesassem o país com o teto de gastos, em saúde e educação, impedindo que se crie um Estado de Bem Estar Social.
A justiça deixou de ser imparcial e, mesmo nos níveis mais altos, mostra ter lado, contra o PT e a figura carismática de Lula. O que o juiz federal de primeira instância Sérgio Moro faz, é a aplicação deslavada do lawfare e não esconde o ânimo persecutório ao ex-Presidente, condenando-o sem provas materiais irrefutáveis. Por isso é considerado um prisioneiro político..
Importa observar que este tipo de política obedece a uma ampla estratégia pensada a partir dos interesses do Império com os aliados internos de nosso pais. O Brasil é decisivo em termos de geopolitica e de abundantes bens e serviços naturais, capazes de garantir a base físico-química que sustenta o sistema-vida e o sistema-Terra, já em alto gru de erosão.
O golpe foi dado sob a égide do mais rigoroso neoliberalismo e da voracidade do capital especulativo de cariz capitalista que domina a políitica no mundo inteiro.
É sabido que a ordem capitalista, por seu individualism e a fúria de acumulação nunca se deu bem coma democracia. Se democracia implica mais que o direito de votar, mas de buscar a igualdade de todos os cidadãos com referência às leis, aos direitos basicos, à justiça social e às garantias fundamentais, devemos dizer que ela é antes um engodo que uma realidade. A democracia moderna se construiu como representativa de toda a sociedade. Na verdade, em geral, representou os interesses dos poderosos e sub-representou os do povo trabalhador ou pobre.
Dados de várias entidades sérias nos relatam que cerca de 8 bilhardários controlam grande parte da economia mundial, deixando milhões e milhões na pobreza e na fome. Como a lógica capitalista é a competição e não a solidariedade, entramos numa era de barbárie e de grande desumanidade,
Esse tipo de capitalismo necessita de demcracias de baixíssima intensidade, com um Estado submetido ao mercado, com a menor participação popular possível. A estratégia dos países capitalistas visam a recolonizar a América Latina e o Brasil condenados a ser meros exportadores de commodities (alimentos, minérios e outros)
O golpe de 2016 foi dado com esse propósito, em si, anti-patriótico, anti-popular e profundamente injusto, em benefício dos endinheirados e herdeiros da Casa Grande. Esse golpe liquidou com o Estado democrático de direito. Guardou as aparências e as instituições. Mas não funcionam como a Constitição prevê ou funcionam sem imparcialidade.
Inaugurou-se o “pós-Estado democrático”, categoria usada por Rubens Casara, juz de direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e professor universitário, com notável capacidade teórica de pensar o desastre da democracia brasileira e sua ideologia subjacente. Agora vigora de fato um Estado de exceção, à moda do jurista alemão Carl Schmitt (1888-1985) que justificava o regime de Hitler,pois para ele o critério do político reside na definição do inimigo a ser satanizado e destruido (cf. O conceito do político,Vozes 1992,51-53). Acima de todas as leis está o “Führer” ou o “Ducce”, que sempre têm razão.
A consequência se lê no sub-título do livro:”neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis”. Quer dizer, mantem-se a farsa democrática e se castigam os mais pobres, pois são indesejáveis ao sistema de acumulação e de consumo.
O desafio atual consiste em resgatar a democracia mínima (nem aquela “sem fim” de Boaventura de Souza Santos ou como “valor universal” de Norberto Bobbio, nem a democracia “sócio-ecológica” de Zaffaroni e minha) mas simplesmente a pura e simples democracia, expressa no Estado Democrático de Direito. Devemos repudiar o Estado pós-democrático como excrecência da democracia e outro nome para o regime de exceção.
Leonardo Boff escreveu: “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”, Vozes 2018.