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terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A profecia do Natal para toda a humanidade

 Marcelo Barros


 

No dia 24, véspera da festa do Natal, a liturgia latina costuma repetir um refrão, baseado no livro do Êxodo: “Hoje, todos saberão que o Senhor virá e amanhã verão a sua glória”. “Do mundo, será destruída a iniquidade e sobre nós brilhará a salvação”.

Atualmente, a iniquidade do mundo se tornou mais escandalosa. A desigualdade social se multiplica. Milhões de pessoas são excluídas de condições mínimas de vida sadia. Fome e miséria aumentam. Diariamente, milhares de crianças morrem por não terem acesso à água potável. Além disso, o armamentismo ameaça a própria segurança do planeta. 

O evangelho do Natal nos assegura: “A Palavra divina se faz carne em nós e em todas as criaturas” (Jo 1, 14). Essa palavra ressoa, hoje, no grito surdo da mãe Terra, agredida e ameaçada em suas condições de vida. Ecoa nos campos contaminados pelos agrotóxicos. É o grito sufocado da irmã Água transformada em mercadoria e privatizada.

Essa palavra de dor e de resistência da mãe Terra, da Água e de toda a natureza se faz carne e é acolhida e respondida na luta de resistência de tantas pessoas. Pensemos na luta heroica de tantos/as profissionais da saúde nos tempos mais difíceis da pandemia e ainda hoje. Assim, a resistência dos povos indígenas, dos lavradores sem-terra e dos pequenos agricultores, assim como a organização dos trabalhadores/as das cidades e a sobrevivência de tanta gente sem teto, sem trabalho e sem comida. 

Neste Natal, cantar que será destruída a iniquidade do mundo é profecia que nos anima e nos compromete com a esperança. Esperança vai além das fronteiras da fé cristã. É algo que diz respeito a toda a humanidade. Ao ser palavra de amor para toda a humanidade, a mensagem de Natal nos chama a sermos cada vez mais humanos e cuidadores/as do planeta. Isso significa nos abrir cada vez mais aos outros. Implica em priorizar o diálogo, a convivência; reconhecer a dignidade inviolável das pessoas e de todo ser vivo. Quem não é capaz de aceitar o diferente não sabe o que é Natal.

Jesus de Nazaré se revelou como homem (do gênero masculino), mas acolhe também a dimensão divina do feminino. Revela que Deus é Pai e Mãe e permite que o chamemos de Ele ou Ela. Na realidade do nosso mundo tão ferido por desigualdades sociais, raciais e de gênero, o Natal nos revela os rostos plurais do Espírito. Faz-nos descobrir cada ser humano, homem ou mulher, homo, hetero, ou trans, como imagens do amor divino.

Desde criança, Jesus não é encontrado pelos religiosos de Jerusalém e sim pelos pastores do campo. Manifesta-se não no templo e sim nos barracos e acampamentos, como foi a gruta e a manjedoura de Belém. Assim, hoje, o Espírito, Ventania do Amor Divino,  se revela de formas diversas, mas sempre a partir da comunhão com as pessoas mais vulneráveis.

A Palavra feita carne no Natal nos faz reconhecer a presença divina nas manifestações de todas as culturas e religiões. No Brasil, o Natal nos compromete na defesa das comunidades indígenas e afrodescendentes, na luta pela terra e pelo direito a viver suas culturas e expressões religiosas.

A encarnação de Jesus, celebrada neste Natal, deve nos fazer reconhecer e valorizar a permanente encarnação do Espírito Divino nos terreiros afro e ocas indígenas. Em nosso continente, mais do que o Cristianismo, as religiões negras e indígenas foram instrumentos de resistência cultural. Ajudaram as pessoas escravizadas de ontem e as excluídas de hoje a manter reconhecida a sua dignidade humana. 

O mundo inteiro se transforma em imenso presépio. Não do Menino Jesus que, hoje é o Cristo Ressuscitado que nos vem pelo Espírito. É essa energia materna de amor que cobriu Maria com sua sombra e, hoje, fecunda o universo com seu amor e sua força libertadora.

 

Feliz Natal para você e para todos os seus entes queridos. 

Abraço carinhoso do irmão Marcelo Barros

 

 

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A independência inconclusa do Brasil mas promessa de futuro para toda a humanidade

                                             Leonardo Boff


O dia 7 de setembro de cada ano celebramos o dia da Independência do Brasil. Mas se trata de uma independência inconclusa. Foi feita por Dom Pedro I montado em cima de um burro e não como épica e falsamente o pinta Meireles montado num belo cavalo.

Ao independizar-se do Brasil, foram mantidas as mesmas relações da época colonial, dos senhores da Casa Grande e dos escravizados da senzala. Não esqueçamos o fato de que a Independência se fez ainda no quadro do escravismo que foi brutal e cruel para milhões de pessoas trazidas de África e aqui escravizadas. Mesmo depois da Lei Áurea de 1888, os escravizados não tiveram nenhuma compensação seja em terras, trabalhos e oportunidades. Foram lançados ao deus-dará sem absolutamente nada. Hoje os afrodescendente constituem de 54% de nossa população para a qual nunca saldamos a nossa dívida por tudo o que sofreram e ajudaram a construir esta nação.

Como país, fomos sempre dependentes. Primeiro de Portugal, depois da Inglaterra, em seguida dos USA e atualmente dos países opulentos com suas mega corporações que exploram nossas riquezas.

Nunca houve um projeto de nação. Sempre predominou, como foi amplamente mostrado pelos historiadores, uma política de conciliação das classes endinheiradas entre si e de costas para o povo, excluído e covardemente desprezado e odiado. Elas ocuparam  o Estado e seus aparelhos para garantirem seus privilégios, usufruírem das vantagens dos grande projetos, das propinas e da corrupção simplesmente naturalizada. Por isso temos um país profundamente dividido entre um pequeno número de miliardários e bilhardários, uma porção de classe média e entre as grandes maiorias marginalizada e excluídas dos bens da civilização.

Houve, na época colonial, resistências e revoltas de gente do povo, de negros e indígenas, todas esmagadas violentamente com enforcamentos, fuzilamentos ou, no melhor dos casos, com o exílio e com golpes e ditaduras na época republicana.

Na verdade, aqui a democracia delegatícia foi e continua sendo de baixa e até de baixíssima intensidade, com uma  liberdade somente formal e jurídica mas sem o seu insubstituível complemento, a igualdade. Por isso grassa uma vergonhosa desigualdade, das maiores do mundo, que é uma injustiça social tão grave que clama aos céus pelas vítimas que produz.

Olhando para trás nossa história pátria é marcada por sombras escuras, do genocídio indígena, da colonização, do escravismo e da dominação das elites do atraso, como a qualifica o sociólogo Jessé  Souza.

Quando alguém vindo do andar de baixo, sobrevivente da grande tribulação brasileira, chegou ao poder, Luis Inácio Lula da Silva e com sua sucessora Dilma Rousseff introduziram políticas sociais de inserção de milhões de pobres e famintos, logo se armou contra eles um golpe jurídico-parlamentar-judiciário. Desta forma se salvou a velha ordem (da desordem social) e foi continuada por uma figura insana e psicopática que tirou do armário de partes importantes da população tudo o que havia de ódio e de perversão, recalcadas e fruto tardio do tempo da escravidão. Os escravizados eram simplesmente “peças” a serem vendidas e compradas no mercado e tratadas com os famosos três Ps: pau, pão e pano, pau como chibatadas desumanas, pão para não morrem de forme e pano para esconderem as vergonhas. A prática era da violência que continua ainda hoje com a população negra e pobre.

Fine finaliter: aqui nossa independência foi manca e inacabada, o que nos tira qualquer sentido de celebração. Como nunca houve uma revolução, como nos grandes países qu deram seu salto de qualidade, que apeasse do poder-dominação a classe do privilégio e do enriquecimento fácil, nunca nos foi dada a oportunidade de fundar uma nação com um projeto para todos, altivo e ativo. Apenas prolongamos o regime de dependência de vários outros poderes forâneos até a presente data.

Qual seria a nossa chance e o nosso destino? Olhar para frente e par o futuro. Somos uma nação continental, com a maior riqueza ecológica do planeta em termos de água doce, florestas tropicais, solos férteis, imensa biodiversidade e um povo aberto, hábil e inteligente que conseguiu sobreviver a todo tipo de opressão.

Sabemos que a Terra alcançou o seu limite.No dia 28 de julho de 2022 ocorreu o Dia da Sobrecarga da Terra (The Eath Overshoot Day) ou seja, utilizamos todos os bens e serviços naturais indispensáveis para a vida. Entramos no cheque especial. Usamos nos sete meses passados, todo o estoque de água, minerais, vegetais e energia que o planeta pode produzir e regenerar no período de 365  dias. Para continuarmos a viver seria necessária a biocapacidade de 1,75 Terras que não temos.

Com o crescimento inesperado do aquecimento global e com o que já existe de CO2 e metano acumulados na atmosfera, os eventos extremos serão inevitáveis. Chegamos atrasados. Com ciência e técnica podemos apenas mitigar os efeitos extremos que virão com destruição de ecossistemas e milhares de vidas humanas. Segundo dados deste ano do IPCC isso poderá ocorrer nos próximos 3-4 anos. Há muitas nações que não conseguem produzir o que sua população necessita, situação agravada pela intrusão do Covid-19.

Esta realidade sombria poderá se tornar uma catástrofe global. É nesse ponto que entra a  independência possível e real do Brasil. Ele pode ser a mesa posta para as fomes e as sedes de toda a humanidade. Esta dependerá em grande parte do Brasil, da umidade de nossa Amazônia, da proteína de nosso gado e aves e da produção de alimentos de nossos solos. Grande parte dos países, hoje independentes, serão dependentes de nós. Finalmente teremos alcançado a nossa real independência, não para nosso orgulho e benefício mas como serviço para a vida na Terra e a sobrevivência da humanidade.

Finalmente poderemos entoar a canção carnavalesca:”Liberdade, Liberdade! Abre as asas sobre nós. E que a voz da Igualdade seja sempre a nossa voz” e de toda a humanidade.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor e escreveu O doloroso parto da Mãe Terra, Vozes 2021; Habitar a Terra, Vozes 2022.

 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Abrir a ONU à toda a humanidade

 Marcelo Barros


 

Neste próximo domingo, a ONU comemora o seu aniversário. Recorda o 24 de outubro de 1945, quando foi proclamada a Carta das Nações Unidas. Agora, 76 anos depois, a ONU continua necessária para regular as relações entre os Estados. No entanto, cada vez mais, é urgente que a ONU represente toda a humanidade e não apenas os governos. A paz, a justiça entre os povos e o cuidado que a humanidade deve ter com a Terra são questões por demais importantes para serem deixadas apenas aos cuidados de técnicos e governantes. Um princípio jurídico dos tempos antigos afirmava: "Aquilo que diz respeito a todos deve ser tratado e decidido por todos".

Nas últimas décadas, a humanidade caminhou nessa direção. Em junho de 1992, enquanto a ONU reunia os chefes de Estado na Rio 92, movimentos e organizações se encontravam no Aterro do Flamengo na "Cúpula dos Povos". A partir do levante dos índios do Sul do México (1994), os zapatistas organizaram em Chiapas três "Encontros da humanidade pela Vida e contra o neoliberalismo". Em 2001 começou o processo dos fóruns sociais mundiais. Depois de mais de vinte anos, esse processo continua vivo, embora também exija constante renovação e adaptação às novas realidades do mundo.  

O protagonismo dos povos originários e a redescoberta da riqueza de suas culturas nos revelam que o Bem Viver, ideal comum a muitos povos indígenas, pode ser paradigma de civilização e relações de paz e justiça eco-social para toda a humanidade.

Nesse contexto, o papa Francisco pode declarar quantas vezes quiser que esse sistema mata. No dia 04 de outubro, festa de São Francisco de Assis, se reuniram no Vaticano 40 líderes de diferentes religiões do mundo e emitiram um Apelo à ONU em defesa da Terra e para deter as mudanças climáticas. Essa Declaração é importante porque compromete as mais diversas tradições religiosas no cuidado com a mãe Terra. Entretanto, todos sabem que se não se mudar o sistema econômico que  domina o mundo, dentro de algumas décadas, não haverá salvação para a vida no planeta Terra. É urgente que os governos não se comportem como meros gerentes das empresas multinacionais.

 

 

 

 

Neste mês de outubro e em novembro, a ONU fará duas conferências mundiais, uma sobre Biodiversidade e outra sobre Mudanças Climáticas. Nestes dois encontros de cúpula, os governantes e seus representantes poderão aprovar algumas medidas de proteção ecológica, desde que essas não toquem nos interesses e lucros da elite financeira internacional. É fundamental que os nossos governantes não se comportem mais como meros gerentes das empresas multinacionais. É preciso que a ONU retome a sua função e possa ter mais força. Para isso não pode permitir que as organizações que dirigem os destinos da humanidade continuem sendo o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial. A maior parte da humanidade concorda com o papa Francisco quando este declara: Este sistema mata!

A sociedade civil internacional se mobiliza em campanhas e lutas em defesa da Água como bem comum da humanidade e direito universal de todos os seres vivos. Organizam-se fóruns e coletivos como a Ágora dos Habitantes da Terra e a Conferência Internacional dos Povos para que se desmonte o aparato armamentista que ameaça a Vida no planeta. 

É urgente que as Igrejas cristãs e as religiões compreendam que essa luta pacífica da humanidade pela Paz e pela justiça eco-social corresponde ao que, no evangelho, Jesus propõe como "vida em plenitude", ou vida de qualidade (Cf. Jo 10, 10).

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019Email: irmarcelobarros@uol.com.br  

     

segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Esperança contra toda desesperança


Por Francisco de Aquino Júnior


 

Vivemos tempos difíceis e até dramáticos: O crescimento da extrema direita com sua política antissocial de desmonte do que resta de políticas sociais e de aversão aos direitos humanos tem levado a um aumento escandaloso da pobreza e das mais diversas formas de violação dos direitos humanos (feminicídio, racismo, homofobia etc.). Com o agravante de que tudo isso se dá com a cumplicidade – até militante – de amplos setores das igrejas cristãs e de seus pastores, destruindo a herança mais importante da tradição judaico-cristã para a civilização ocidental: o ser humano criado à “imagem e semelhança de Deus” ou a dignidade fundamental de todo ser humano. Mas, precisamente neste tempo, somos chamados a dar testemunho de uma esperança ativa e criativa, provada na cruz, regada com sangue martirial, sustentada e dinamizada pelo Espírito do Senhor que “a partir de baixo” vai reciclando/refazendo/recriando a vida.

Como tanto insistiu Paulo Freire, a esperança é uma dimensão fundamental da vida humana. Aquela dimensão que faz de nossa vida uma obra inacabada e uma tarefa permanente. É a dimensão utópica da vida. Aquilo que nos desinstala, que nos mobiliza, que nos põe a caminho.  É uma “necessidade ontológica” e, enquanto tal, um “imperativo existencial e histórico”. Sem esperança a vida humana se torna impossível. “A desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir ao fatalismo onde não é possível juntar as forças necessárias ao embate recriador do mundo”. Por isso, dizia: “sem poder negar a desesperança como algo concreto e sem desconhecer as razões históricas, econômicas e sociais que a explicam, não entendo a existência humana e a necessária luta para fazê-la melhor sem esperança e sem sonho”. O homem é “um ser da esperança que, por ‘n’ razões, se tornou desesperançado”. Mas a esperança renasce sempre de novo, quando menos se espera e de onde menos se espera. E a razão última ou a fonte última dessa esperança, como indicou o papa Francisco na encíclica Laudato Si’, é a presença salvífica e re-criadora do Espírito de Deus no mundo. Ele “encheu o universo de potencialidades que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo novo” (LS, 80). Por isso, “nem tudo está perdido”. Não se deve esquecer jamais que “os seres humanos, capazes de tocar o fundo da degradação, podem também se superar, voltar a escolher o bem e regenerar-se, para além de qualquer condicionamento psicológico e social que lhe seja imposto”. Nada é definitivo nesse mundo. “Não há sistemas que anulem, por completo, a abertura ao bem, à verdade e à beleza, nem a capacidade de reagir que Deus continua a reanimar no mais fundo dos nossos corações” (LS, 205).

Mas a esperança sozinha não transforma o mundo. Não basta querer e sonhar. É preciso ousar, arriscar, inventar… Nas palavras de Paulo Freire, “a esperança é necessária, mas não é suficiente […]. Pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo”. A esperança que transforma o mundo é uma esperança ativa/criativa que se faz resistência e luta cotidianas. Resistência crítica: na denúncia, no enfrentamento e na luta contra toda forma de opressão, injustiça, exploração e negação de direitos. Resistência criativa: na construção de novos padrões e novas formas de atividade econômica (agroecologia, economia solidária, tecnologias sociais etc.), de novas relações de gênero, da cultura da solidariedade, de articulação das forças populares, de cultivo da dimensão místico-espiritual. E todo esse processo, adverte Ignacio Ellacuría, teólogo-mártir salvadorenho, é marcado por uma tensão fecunda entre o “ideal utópico” e sua “moderação realista”. O “ideal utópico” impede o fatalismo, o conformismo e a resignação diante das injustiças, bem como o pragmatismo político que é fruto de conchavos e negociatas com as elites. A “moderação realista”, por sua vez, “sem perder seu ideal utópico, o modera conforme as possibilidades históricas”. Isso exige lucidez, discernimento e sabedoria. A vida não funciona na base do “tudo ou nada”. Um passo para frente ou mesmo para trás pode ser decisivo para novas conquistas. E, de novo, é importante perceber a dimensão estritamente espiritual desse processo, através do qual o Espírito do Senhor, que é Espírito de vida e que “atua a partir de baixo”, vai reciclando, refazendo, recriando a vida.

 

terça-feira, 27 de outubro de 2020

A MISSÃO DAS IGREJAS, MISSÃO DE TODA A HUMANIDADE

 

Marcelo Barros

A missão de todo ser humano consiste em cuidar uns dos outros e do planeta Terra, que Deus ou a Vida nos confiou. Em meio a esta pandemia, a humanidade pode perceber claramente de que lado estão as pessoas, se a favor da vida ou se a favor do lucro da elite que domina o mundo. Neste sábado 17, pelo you tube, um sarau reuniu mais de 50 apresentações artísticas, entre músicas, encenações teatrais, espetáculos de dança e recitação de poesias. Era o lançamento festivo da campanha pelas vacinas gratuitas para todos os vírus do mundo. Ali se pedia a ONU que declarasse as vacinas contra a Covid 19 bens comuns da humanidade. E a mensagem das músicas e de outras artes nos vacinava contra outros vírus, como os da indiferença social e do individualismo. Afinal, o Brasil voltou ao mapa da fome, com mais de 17 milhões de pessoas em situação de desemprego e mais de 50 milhões em insegurança alimentar.

No domingo 04 de outubro, o papa Francisco surpreendeu a humanidade com uma encíclica que conclama todos/as a retomar a cultura da amizade social e da fraternidade universal. Dois setores da sociedade reagiram forte e negativamente à encíclica do papa. O primeiro setor foi a elite econômica, que se sentiu atacada quando o papa responsabiliza o Capitalismo pelos maiores sofrimentos da humanidade. O outro setor foi uma parte não pequena da hierarquia e do clero da própria Igreja Católica que não compreende um papa que rompeu definitivamente a aliança da Igreja com os poderosos do mundo que sempre a beneficiaram.   

Cada ano, em outubro, a Igreja Católica celebra o mês das missões. O tema deste ano de 2020 foi escolhido muito antes da pandemia que nos surpreendeu. No entanto, parece ter sido escolhido em função do momento que vivemos: “A vida é missão” e o lema que o desenvolve é a palavra do profeta: “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6,8).

Ainda hoje, há cristãos que confundem missão com proselitismo e entendem de forma fundamentalista o mandado de Jesus: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a todas as nações” (Mt 28, 19). O próprio Novo Testamento revela que os apóstolos e discípulos não compreenderam estas palavras ao pé da letra. Eles não saíram pelo mundo afora para anunciar a boa notícia do reino. De fato, Paulo e seus companheiros fizeram viagens pelas cidades do Império Romano até à Europa. Entretanto, eles iam às sinagogas e fortaleciam grupos de discípulos de Jesus dentro do Judaísmo. Nem Paulo nem outros discípulos pediram aos judeus que deixassem sua religião. Nem exigiram dos gregos abandonarem sua cultura. Por isso, ele pode dizer: “eu me fiz judeu com os judeus e grego com os gregos” (1 Cor 9, 20). A mensagem de Paulo é que todas as pessoas, independentemente de sua cultura e religião, podem aceitar a proposta divina. O “reinado divino” vem ao mundo para todos. Somente mais tarde, nos anos 80, a sinagoga não aceitou mais os cristãos como membros da comunidade judaica. Então, o Cristianismo se separou do Judaísmo e se tornou religião autônoma.

Agora, na sua carta sobre a fraternidade universal, o papa Francisco pede a todas as religiões que, independentemente, de suas diferenças, se ponham a serviço da unidade de toda a família humana. Conforme os evangelhos, uma vez, discípulos contaram a Jesus que tinham encontrado alguém que expulsava o mal das pessoas. Eles tinham proibido porque aquela pessoa não pertencia ao grupo deles. Jesus os repreendeu dizendo: “Não façam isso. Quem não está contra nós é porque está do nosso lado” (Cf. Lc 9, 49- 50).

Neste mundo pluralista, é fundamental que as Igrejas recuperem esta abertura de coração. Devem ser comunidades de diálogo e acolhida do outro e nunca de intransigência e rejeição. Não há separação entre a missão das Igrejas e a missão de todas as organizações sociais que trabalham pela paz, justiça e união da humanidade. Homens como o papa João XXIII, Dom Helder Câmara e o pastor Martin-Luther King compreenderam profundamente isso. Foram profetas que transformaram o mundo e fizeram isso como poetas sensíveis e encantados com a humanidade.

No dia 11 de outubro de 1962, depois de um dia inteiro de trabalho no qual tinha inaugurado o Concílio Vaticano II com todos os bispos católicos em Roma, o papa João XXIII soube pelo seu secretário que a praça de São Pedro estava cheia de povo. Todos, com velas nas mãos, pediam para ver o papa. Este apareceu na janela, saudou a multidão e disse: “Olhem a lua cheia. Ela veio embelezar a nossa festa. Voltem para casa e dêem um abraço ou façam um gesto de carinho em nome do papa na primeira pessoa que vocês reencontrarem em casa. Digam que o papa lhes manda este gesto de amor”. Isso continua a ser o núcleo central da missão de todas as pessoas espirituais.

  Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

 

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

O SÍNODO DA AMAZONIA E O FUTURO DE TODA A CRIAÇÃO



                    Por  Maria Clara Bingemer

"Sínodo" é uma palavra antiga muito reverenciada pela Tradição da Igreja, cujo significado está associado ao conteúdo mais profundo da Revelação. Palavra grega, é composta pela preposição (syn – com, em conjunto) e pelo substantivo (odos – caminho).  Indica, pois, o caminho tomado pelos membros do Povo de Deus no seguimento de Jesus. Refere-se diretamente ao Senhor Jesus, que se apresenta como "o caminho, a verdade e a vida”, e o fato de que os cristãos, seus seguidores, eram originalmente chamados "os discípulos" do Caminho ”.


Aplica-se, portanto, aos cristãos, discípulos de Jesus convocados em assembleia e, às vezes, aparece nos textos como sinônimo da própria comunidade eclesial. Como esta é concebida como Povo de Deus a caminho, a sinodalidade não é algo pontual e acessório na Igreja, mas sim seu estado permanente. A Igreja quer ser sinodal, estar sempre em caminho unida no seguimento de Jesus Cristo.  O papa Francisco tem valorizado muito esta nota e este modo de a Igreja ser.  E nesse espírito convocou o Sínodo da Amazônia, acontecido há pouco em Roma.

O documento final dá conta da motivação que levou a convocar o Sínodo e o fruto daqueles dias de caminho.  Na origem está a situação de destruição que afeta a Amazônia e com ela toda a terra e a humanidade.  Se continuar o processo agora vigente, o resultado pode ser a destruição do território amazônico e de seus habitantes, sendo os mais afetados os povos indígenas. E isso impactará em todo o planeta, já que a desaparição do bioma amazônico será catastrófica.

A nota característica do Sínodo foi o desejo e a demanda de integração da voz da Amazônia com a voz e o sentir dos bispos participantes, pastores da Igreja.  Foi, no dizer da assembleia reunida sinodalmente, uma nova experiência de escuta para discernir os novos caminhos pelos quais o Espírito deseja conduzir a Igreja.  Assim, o Sínodo, mais que um evento eclesial, foi um compromisso de abraçar, assumir e praticar o novo paradigma da ecologia integral, o cuidado da “casa comum” e a defesa da Amazônia.

Vimos todos nas mídias mais variadas a presença dos povos originários dentro do Vaticano.  Seus símbolos povoaram nosso raio visual com cocares, que inclusive foram usados pelo próprio Papa e por bispos presentes. Tudo isso é a valorização das culturas autóctones indígenas, algo sem precedentes.   O documento final declara ser indispensável uma conversão ecológica para uma vida sóbria.  Isso implicará mudanças de mentalidade, estilo de vida, modos de produção e práticas relativas ao uso e distribuição dos bens.

O documento diz ainda que a Igreja é chamada a assumir seu papel profético de denunciar a violação dos direitos humanos das comunidades indígenas e a destruição do território amazônico. Para isso, deve ser uma igreja pobre, inculturada e samaritana. Pronta para a solidariedade e a partilha com os povos que habitam a Amazônia e dela vivem, e pedem ao mundo atenção e participação ativa na luta por sua sobrevivência.

Durante a celebração do Sínodo um grupo de bispos renovou o Pacto das Catacumbas. Mais de 40 participantes, sob a liderança do cardeal Cláudio Hummes, relator do Sínodo, assumiu o compromisso de defesa dos pobres, dos territórios e da conservação socioambiental da Amazônia. O texto do pacto – que recebeu o nome de Pacto das Catacumbas pela Casa Comum – se apoia na Encíclica Laudato Si do Papa Francisco.

Algumas questões importantes quanto à organização da Igreja também foram debatidas, tais como a ordenação de homens casados e a criação de um diaconato feminino para atender a região amazônica, onde o clero é muito escasso e  demanda ministros afinados com a cultura local. Estes pontos, assim como todos os outros, devem ser cuidadosamente examinados pelo papa, que então entregará um documento oficial e definitivo em alguns meses.

Em todo caso, segundo o próprio papa, em vídeo amplamente difundido, no momento o principal é assimilar bem o diagnóstico que o Sínodo faz da situação da Amazônia e as urgências que dele decorrem.  Este é o encargo mais importante a ser completado neste momento não apenas à Igreja, mas a toda a sociedade.


 Maria Clara Bingemer é professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), entre outros livros
Copyright 2019 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br> 


terça-feira, 7 de novembro de 2017

AMEAÇAS CONTRA TODA A HUMANIDADE



Por Marcelo Barros

Os tempos são maus. Cada dia, as desigualdades sociais se agravam e a riqueza se concentra nas mãos de menos gente. Em Brasília, para agradar aos empresários do agronegócio, o Ministério do Trabalho abre as portas para legitimar o trabalho escravo. Em São Paulo, o gerente municipal declara que pobre não tem "hábito alimentar" e apresenta comida com prazo de validade esgotado para servir na merenda escolar e como alimento para pobres de rua. Manifestação na Paulista pede a volta dos militares. E Bolsonaro declara que o seu modelo de líder é o presidente Trump.

O pior é que não somente vivemos tempos de opressão, mas também de estupidez. Em vários países, presidentes se destacam, não por sua inteligência, ou capacidade de governar e sim por sua insensatez. E as pessoas vivem como se a intolerância e o ódio fossem o normal. Nos Estados Unidos, a cada ano, morrem mais de 11 mil pessoas, vítimas de armas de fogo. Em todos os estados do país, há mais pontos de venda de armas do que lanchonetes. Com essa cultura, se compreende que, nos últimos dois meses, em todo o país, tenham surgido mais de nove mil focos de racismo declarado. Esses grupos retomam práticas da Klus-klus-Kam. Reúnem-se para atacar, ferir e, quando possível, matar índios, negros e migrantes... Embora de modo discreto, contam com a aprovação e apoio do seu líder maior. Esse, deixa claro que considera a ONU uma idiotice. Prega que o cuidado ecológico é uma fantasia para crianças e o diálogo com outros povos uma perda de tempo. Recentemente, o presidente Trump deu um passo além. Ele e o presidente da Coreia do Norte trocaram ameaças e prometeram simplesmente detonar uma guerra nuclear. Talvez, a insensatez maior seja a das pessoas que não levaram isso a sério. Eduardo Hoornaert, mestre e historiador, lembra que, durante os anos 30, na Alemanha, Adolf Hittler proclamava ao mundo que iria conquistar o mundo e limpar a humanidade das etnias inferiores que não tivessem a pureza da raça ariana. Os líderes da Europa achavam que se tratava apenas de incontinência verbal do ditador alemão. Até que, em 1939, ele invadiu a Polônia. Aí já era tarde para detê-lo. Atualmente, há mais de 38 bombas nucleares armazenadas em algum lugar dos Estados Unidos, da França, da Inglaterra, Alemanha, Japão e Índia. Agora, a Coréia do Norte também pode jogar sobre o mundo o seu artefato nuclear de última geração. Qualquer uma dessas bombas é dez mil vezes mais potente do que as que, em 1945, destruíram Hiroshima e Nagazaki, produzindo mortes e doenças por décadas e décadas.

Há mais de 50 anos que a ONU tenta levar as nações a firmarem pactos de não proliferação de armas nucleares. Agora, o fundamentalismo de governos como o do Irã, o expansionismo de Putim na Rússia e principalmente a loucura insensível de Donald Trump e de King-Jong-Un podem conduzir o mundo a um ponto sem volta. Em meio a grupos da sociedade civil, nasce um movimento para levar o presidente dos Estados Unidos e o líder da Coréia do Norte a um tribunal internacional. Ambos podem e devem ser acusados de crime contra a humanidade.

Nos anos recentes, nos Estados Unidos, várias pessoas têm sido presas e condenadas pela lei de segurança nacional simplesmente por terem feito alguma piada na qual fingiam praticar terrorismo. Era brincadeira, mas o assunto é considerado sério demais para permitir humorismo. Como a sociedade internacional pode aceitar que dois governantes que se destacam pela mediocridade intelectual e falta de sensibilidade com seus semelhantes possam proclamar ameaças tão graves para a sobrevivência da humanidade e de toda a vida no planeta?

Nessa semana, de 10 a 11 decidiu promover no Vaticano dois dias de reflexão sobre “Perspectivas para um mundo livre das armas nucleares e para um desarmamento integral”.  Para esse encontro, o papa convidou 11 vencedores do prêmio Nobel da Paz, a cúpula da ONU, da OTAM e embaixadores de vários países. Ali se encontrarão representantes da sociedade civil e ministros de várias religiões que concordam: armamentos e guerras nunca são soluções justas para o caminho da humanidade.

Todas as tradições espirituais nos convidam a apostarmos que a paz é sempre possível. Crer em Deus é aderir ao seu projeto de paz. Quando a Bíblia diz que Deus transformará as armas de guerra em arados e instrumentos de cultivo, subtende que ele fará isso através de nós. Somos nós que temos de ser as pessoas abençoadas (bem-aventuradas) que, nos comportamos como filhos e filhas de Deus, porque construímos a paz.


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países