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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A independência inconclusa do Brasil mas promessa de futuro para toda a humanidade

                                             Leonardo Boff


O dia 7 de setembro de cada ano celebramos o dia da Independência do Brasil. Mas se trata de uma independência inconclusa. Foi feita por Dom Pedro I montado em cima de um burro e não como épica e falsamente o pinta Meireles montado num belo cavalo.

Ao independizar-se do Brasil, foram mantidas as mesmas relações da época colonial, dos senhores da Casa Grande e dos escravizados da senzala. Não esqueçamos o fato de que a Independência se fez ainda no quadro do escravismo que foi brutal e cruel para milhões de pessoas trazidas de África e aqui escravizadas. Mesmo depois da Lei Áurea de 1888, os escravizados não tiveram nenhuma compensação seja em terras, trabalhos e oportunidades. Foram lançados ao deus-dará sem absolutamente nada. Hoje os afrodescendente constituem de 54% de nossa população para a qual nunca saldamos a nossa dívida por tudo o que sofreram e ajudaram a construir esta nação.

Como país, fomos sempre dependentes. Primeiro de Portugal, depois da Inglaterra, em seguida dos USA e atualmente dos países opulentos com suas mega corporações que exploram nossas riquezas.

Nunca houve um projeto de nação. Sempre predominou, como foi amplamente mostrado pelos historiadores, uma política de conciliação das classes endinheiradas entre si e de costas para o povo, excluído e covardemente desprezado e odiado. Elas ocuparam  o Estado e seus aparelhos para garantirem seus privilégios, usufruírem das vantagens dos grande projetos, das propinas e da corrupção simplesmente naturalizada. Por isso temos um país profundamente dividido entre um pequeno número de miliardários e bilhardários, uma porção de classe média e entre as grandes maiorias marginalizada e excluídas dos bens da civilização.

Houve, na época colonial, resistências e revoltas de gente do povo, de negros e indígenas, todas esmagadas violentamente com enforcamentos, fuzilamentos ou, no melhor dos casos, com o exílio e com golpes e ditaduras na época republicana.

Na verdade, aqui a democracia delegatícia foi e continua sendo de baixa e até de baixíssima intensidade, com uma  liberdade somente formal e jurídica mas sem o seu insubstituível complemento, a igualdade. Por isso grassa uma vergonhosa desigualdade, das maiores do mundo, que é uma injustiça social tão grave que clama aos céus pelas vítimas que produz.

Olhando para trás nossa história pátria é marcada por sombras escuras, do genocídio indígena, da colonização, do escravismo e da dominação das elites do atraso, como a qualifica o sociólogo Jessé  Souza.

Quando alguém vindo do andar de baixo, sobrevivente da grande tribulação brasileira, chegou ao poder, Luis Inácio Lula da Silva e com sua sucessora Dilma Rousseff introduziram políticas sociais de inserção de milhões de pobres e famintos, logo se armou contra eles um golpe jurídico-parlamentar-judiciário. Desta forma se salvou a velha ordem (da desordem social) e foi continuada por uma figura insana e psicopática que tirou do armário de partes importantes da população tudo o que havia de ódio e de perversão, recalcadas e fruto tardio do tempo da escravidão. Os escravizados eram simplesmente “peças” a serem vendidas e compradas no mercado e tratadas com os famosos três Ps: pau, pão e pano, pau como chibatadas desumanas, pão para não morrem de forme e pano para esconderem as vergonhas. A prática era da violência que continua ainda hoje com a população negra e pobre.

Fine finaliter: aqui nossa independência foi manca e inacabada, o que nos tira qualquer sentido de celebração. Como nunca houve uma revolução, como nos grandes países qu deram seu salto de qualidade, que apeasse do poder-dominação a classe do privilégio e do enriquecimento fácil, nunca nos foi dada a oportunidade de fundar uma nação com um projeto para todos, altivo e ativo. Apenas prolongamos o regime de dependência de vários outros poderes forâneos até a presente data.

Qual seria a nossa chance e o nosso destino? Olhar para frente e par o futuro. Somos uma nação continental, com a maior riqueza ecológica do planeta em termos de água doce, florestas tropicais, solos férteis, imensa biodiversidade e um povo aberto, hábil e inteligente que conseguiu sobreviver a todo tipo de opressão.

Sabemos que a Terra alcançou o seu limite.No dia 28 de julho de 2022 ocorreu o Dia da Sobrecarga da Terra (The Eath Overshoot Day) ou seja, utilizamos todos os bens e serviços naturais indispensáveis para a vida. Entramos no cheque especial. Usamos nos sete meses passados, todo o estoque de água, minerais, vegetais e energia que o planeta pode produzir e regenerar no período de 365  dias. Para continuarmos a viver seria necessária a biocapacidade de 1,75 Terras que não temos.

Com o crescimento inesperado do aquecimento global e com o que já existe de CO2 e metano acumulados na atmosfera, os eventos extremos serão inevitáveis. Chegamos atrasados. Com ciência e técnica podemos apenas mitigar os efeitos extremos que virão com destruição de ecossistemas e milhares de vidas humanas. Segundo dados deste ano do IPCC isso poderá ocorrer nos próximos 3-4 anos. Há muitas nações que não conseguem produzir o que sua população necessita, situação agravada pela intrusão do Covid-19.

Esta realidade sombria poderá se tornar uma catástrofe global. É nesse ponto que entra a  independência possível e real do Brasil. Ele pode ser a mesa posta para as fomes e as sedes de toda a humanidade. Esta dependerá em grande parte do Brasil, da umidade de nossa Amazônia, da proteína de nosso gado e aves e da produção de alimentos de nossos solos. Grande parte dos países, hoje independentes, serão dependentes de nós. Finalmente teremos alcançado a nossa real independência, não para nosso orgulho e benefício mas como serviço para a vida na Terra e a sobrevivência da humanidade.

Finalmente poderemos entoar a canção carnavalesca:”Liberdade, Liberdade! Abre as asas sobre nós. E que a voz da Igualdade seja sempre a nossa voz” e de toda a humanidade.

Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor e escreveu O doloroso parto da Mãe Terra, Vozes 2021; Habitar a Terra, Vozes 2022.

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Direitos dos povos indígenas e futuro da humanidade

 Marcelo Barros


 

Na segunda-feira, 25 de abril até o 6 de maio, na sede das Nações Unidas, em Nova York, acontece mais uma sessão do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas. Este encontro acontece em formato híbrido, com centenas de representantes dos povos originários e também com participação de comunidades que acessam o Fórum através da internet. Apesar de que a maioria é de etnia indígena, também participam pessoas de outras raças que sabem da importância dos povos indígenas para toda a humanidade e para o futuro da vida na Terra. O tema é sugestivo: “Povos indígenas, negócios, autonomia e os direitos humanos”. Durará duas semanas e tem como objetivo aumentar a integração e promover a coordenação de atividades que ligam as questões indígenas com a ONU.

Na abertura, Abdulla Shahid, atual presidente da Assembleia Geral da ONU, destacou que este encontro celebra a diversidade linguística e cultural que as comunidades indígenas representam. Afirmou que as comunidades indígenas têm muito a ensinar a toda a humanidade, especialmente na relação com a Mãe Terra e toda a natureza. Falou dos muitos desafios que eles enfrentam e reafirmou que governos e sociedades têm obrigação moral de proteger os direitos e bem-estar das comunidades indígenas. E concluiu: “Só se apoiarmos as culturas indígenas, poderemos preservar a biodiversidade da Terra e avançar no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU”.

Ao fazer essas afirmações, o presidente da Assembleia Geral da ONU não estava se dirigindo ao presidente do Brasil, nem ao seu governo. Certamente, a ONU não tinha recebido ainda o relatório anual das pastorais da Terra e da pastoral indigenista que denunciam os 1.768 conflitos no campo brasileiro, ocorridos somente durante o ano de 2021, com 35 assassinatos, que envolveram povos indígenas, quilombolas, sem terra e todas as comunidades tradicionais. Não tinham ainda notícia do caso recente da criança Yanomami, de 12 anos, estuprada e assassinada por garimpeiros, nas comunidades Aracaça, em Amajarí, no norte de Roraima.

Um dos falsos pretextos que o governo atual e os ruralistas brasileiros alegam contra a demarcação das terras indígenas é de seria “muita terra para pouco índio”. Contra isso, neste fórum, o doutor Shahid confirmou: de fato, os povos indígenas representam menos de 5% da população global. No entanto,  a ONU tem provas de que esses grupos tão minoritários são guardiães fieis de 80% da biodiversidade do mundo inteiro.

Nesta assembleia, Dario José Mejía Montalvo, indígena colombiano, líder da Organização dos Povos Indígenas da Colômbia, foi eleito presidente do Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas. Em suas primeiras palavras no fórum, ele denunciou que, em todos os países do continente, os povos originários sofrem ataques e são vítimas de perseguições, na maioria das vezes, exatamente por serem defensores da natureza e dos direitos da Terra, das águas e das florestas. 

Dados da ONU confirmam que 1,6 bilhão de pessoas dependem diretamente das florestas para obter alimentos, abrigo, energia, medicamentos e renda. Muitas comunidades e povos indígenas são beneficiados com sustento e refúgio oferecido pelas matas.  Ao mesmo tempo, protegem as matas. Atualmente, as comunidades indígenas são perseguidas por empresas de mineração, garimpeiros e grandes fazendeiros, justamente porque a presença de comunidades indígenas é a última defesa que resta para que as florestas fiquem de pé, os rios possam ainda se manter limpos e os biomas minimamente protegidos. A ONU denuncia que somente no ano de 2021, foram destruídos no mundo dez milhões de hectares de florestas, a maioria deles na África e na América Latina.

Neste tempo em que as Igrejas cristãs celebram a Páscoa, é importante recordar que os evangelhos falam da ressurreição de Jesus como início de uma renovação da vida para a humanidade, mas também para toda a criação, ou seja, a Terra e toda a natureza. Dom Pedro Casaldáliga dizia que a missão cristã é espalhar ressurreição. Isso pede de todas as comunidades cristãs, solidarizar-se aos povos indígenas e ser, cada vez mais, como eles, guardiães da Vida no planeta Terra.

 

 

 

sexta-feira, 8 de abril de 2022

O risco da destruição de nosso futuro

Leonardo Boff


 

Em julho de 2021 o grande pensador da complexidade Edgard Morin completou 100 anos . Observador atento ao curso do mundo,entregou-nos um livro-Réveillons-nous! – Despertai! cheio de sábias e severas advertências. Resumiu seu pensamento numa entrevista à Jules de Kiss, publicada em 26 de março de 2022 na Franceinfo e reproduzida em  português pelo IHU de 4/4/22. Leitor assíduo de seus escritos, esta entrevista inspirou o presente artigo.

Morin adverte aquilo que venho há muito tempo repetindo: devemos estar atentos, tentar ver e entender o que está ocorrendo. A grande maioria, inclusive chefes de estado, são inconscientes das graves ameaças que pesam sobre o planeta Terra, sobre a vida e o nosso futuro. Parecem sonâmbulos ou zumbis, obcecados pela ideia do crescimento econômico sempre crescente e também de segurança e de mais  construção de armas de destruição em massa.

Vivemos sob várias crises, todas elas graves: a mais imediata é a pandemia que afetou todo o planeta cujo sentido último ainda não foi identificado. Para mim, é um sinal de que a Terra viva enviou aos seus filhos e filhas: “não podem continuar com a pilhagem sistemática da comunidade de vida na qual se encontram os habitats dos vários vírus que nos últimos anos assolaram regiões do planeta”. Com o Covid-19 foi todo o planeta atingido, não outros seres vivos e domésticos. É um sinal de que não está sendo lido pela maioria da humanidade, nem pelos analistas, centrados nas vacinas e nos cuidados necessários. Quem se pergunta pelo contexto em que apareceu o vírus? Ele é consequência do assalto dos seres humanos sobre a natureza especialmente com o desmatamento de vastas regiões, destruindo a casinha onde habitam os vírus que passaram a outros animais e deles a nós.

Grave é a crise climática pois se não cuidarmos até o ano 2030 o aquecimento pode chegar a 1,5 graus Celsius ou mais, comprometendo a maioria dos organismos vivos e grande parte da humanidade. Junto a isso vem a Sobrecarga da Terra (Earth Oveshoot) que foi constatada no dia 29 de julho de 2021: o bens e serviços importantes para a vida estão se esgotando. Já agora precisamos de 1,7 Terra para atender ao tipo de consumo principalmente das classes opulentas. Arranca-se da Terra aquilo que ela já não pode mais dar. Ela reage aumentando o aquecimento, os eventos extremos, a erosão da biodiversidade e mais conflitos sociais.

O que funciona como uma espada de Dámocles é a possibilidade de uma guerra nuclear que pode destruir toda a vida e grande parte da humanidade. Morin escreve: “Penso que entramos em um novo período. Pela primeira vez na história, a humanidade corre o risco de aniquilação, talvez não total – haverá alguns sobreviventes, como em Mad Max –, mas uma espécie de “reinício” do zero em condições sanitárias sem dúvida terríveis”. A guerra na Ucrânia suscitou este fantasma, pois a Rússia como já dizia Gorbachev pode destruir toda a vida com apenas a metade de suas ogivas nucleares. Mas cheio de confiança de que a história anda não foi fechada, Morin afirma esperançoso:” Precisamos esperar o inesperado para saber como navegar na incerteza”

É de todos conhecida a erosão das ideias democráticas no mundo inteiro. Está se impondo, em muitos países, como no Brasil, um espírito autoritário e fascistoide que faz da violência física e simbólica e da mentira direta, uma forma de governar. A democracia deixou de ser um valor universal e uma forma de viver civilizadamente em comunidade. Este espírito pode provocar um tsunami de guerras regionais de grande de destruição.

Não esqueçamos a advertência do Papa Francisco na Fratelli tutti  (2020): “estamos no mesmo barco, ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”. Somos responsáveis pelo nosso futuro e pela vida no planeta

Temos a confiança de Morin de que, como a história tem mostrado, o inesperado e o improvável podem acontecer. Já um pré-socrático nos ensinava: “se não esperarmos pelo inesperado, quando ele vier, não o perceberemos”. E assim o perderemos.

Essa é a nossa confiança e esperança: estamos no meio de crises que não precisam terminar em tragédias fatais. Mas podem ser o despertar de uma nova consciência e então, a ocasião para um salto de qualidade rumo a um tipo de convivência pacífica dentro da única Casa Comum. Esse seria o próximo passo para a humanidade? Bem haja!

Leonardo Boff é teólogo e filósofo e escreveu:Como cuidar da Casa Comum,Vozes 2017.

 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Desencanto face ao futuro e o esperançar

 Leonardo Boff


 

 Estamos num pleno 2021, ano que não acabou porque o Covid-19 anulou a contagem  do tempo por continuar sua obra letal. O 2022 não pôde ainda ser inaugurado. O fato é que o vírus colocou de joelhos todos os poderes,especialmente, os militaristas, pois  seu arsenal de morte fez-se totalmente ineficaz.

No entanto, o gênio do capitalismo, a propósito da pandemia, fez com que a classe capitalista transnacioalizada se reestruturasse mediante o Great Reset (a Grande Reinicialização), expandindo a recente economia digital mediante a integração dos gigantes: Microsolft,  Facebook, Apple, Amazon, Google, Zoom e outros com o complexo militar-industrial-segurança. Tal evento representa a formação de um poder imenso, nunca havido antes. Notemos que se trata de um poder econômico de natureza capitalista  e que, portanto, realiza seu propósito essencial, o de de maximização  dos lucros de forma ilimitada, explorando, sem consideração, os seres humanos e a natureza.

A consequência desta radicalização do capitalismo  confirma o que  um sociólogo da universidade da Califórnia em Santa Bárbara, William I.Robinson, num artigo recente, bem observou (ALAI 20/12/2021):”À medida em que o mundo vai lse ivrando da pandemia, haverá mais desigualdade, conflitos, militarismo e autoritarismo e nesta mesma medida aumentarão as convulsões sociais e os conflitos civis; os grupos dominantes se empenharão por expandir o estado policial global para conter os descontentes em massa, vindos de baixo”. Com efeito, utilizar-se-á a inteligência artificial com seus bilhões e bilhões de algoritmos para controlar cada pessoa e a sociedade inteira. Esse brutal poder levará a humanidade para onde?

Sabendo da lógica inexorável do sistema capitalista, Max Weber, um dos que melhor criticamente a analisou, um pouco antes de morrer asseverou:”O que nos aguarda não é o florescimento do outono, nos aguarda uma noite polar, gélida, sombria e árdua (Le Savant et le Politique, Paris 1990, p. 194). Ele cunhou a expressão forte que atinge o coração do capitalismo: ele é uma”jaula de ferro”(Stahlartes Gehäuse) que não consegue romper e, por isso, nos pode levar a uma grande catástrofe (cf.a pertinente análise de M.Löwy, La jaula de hierro: Max Weber y el marxismo weberiana, México 2017). Essa opinião é compartida por grandes nomes como Thomas Man, Oswald Spengler,Ferdinand Tönnies, Eric Hobsbown, entre outros.Vários modelos de sociedade-mundo estão sendo discutidos para o pós-pandemia. Os mais importantes além do Great Reset dos bilhardários, são: o capitalismo verde, o ecosocialismo, o bien vivir e convivir dos andinos, a biocivilização, de vários grupos e  do Papa Francisco entre outros. Não cabe aqui detalhar tais projetos,coisa que fiz no livro Cvid-19:A Mãe Terra contra-ataca a Humanidade ( Vozes 2020). Apenas diria: ou mudamos de paradigma de produção, de consumo, de convivência e,especialmente, de relação para com a natureza, com respeito e cuidado ,sentindo-nos parte dela e não  sobre ela como donos e senhores, ou então realizar-se-á o prognóstico de Max Weber: poderemos de 2030 até no máximo 2050, conhecer um armagedon ecológico-social extremamente danoso para a vida e para a Terra.

Neste sentido, meu sentimento do mundo me diz que quem irá destruir a ordem do capital, com sua economia, política e cultura, não seria nenhum moimento ou escola de pensamento crítico. Seria a própria Terra, planeta limitado que não suporta mais um projeto de crescimento ilimitado. A visível mudança climática, objeto de discussão e de tomada de decisão (praticamente nenhuma) das últimas COPs da ONU, o esgotamento crescente dos bens e serviços naturais, fundamentais para a vida (The Earth Overshoot) e a ameaça de  rompimento das principais das nove barreiras do desenvolvimento que não podem ser rompidas a preço do colapso da civilização, são alguns indicadores de uma iminente tragédia.

Um número significativo de especialistas em clima  afirmam que chegamos tarde demais. Com o já acumulado de gases de efeito estufa não poderemos conter a catástrofe, apenas, com ciência e tecnologia, minorar seus efeitos desastrosos. Mas a grande crise irreversível  virá. Por isso se fizeram céticos e  até tecnofatalistas.

Seremos pessimistas resignados ou, no sentido de Nietzche, adeptos da “resignação heróica”? Estimo, como dizia um pré-socrático: devemos esperar o inesperado, pois, se não o esperarmos, quando ele vier, não o perceberemos. O inesperado pode ocorrer, dentro da perspectiva quântica: o sofrimento atual por causa da crise sistêmica não será em vão; ele está acumulando  energias benfazejas que, ao atingir certo nível de complexidade e de acumulação, darão um salto para uma outra ordem mais alta com um novo horizonte de esperança para a vida e para o planeta vivo, Gaia, a Mãe Terra. Paulo Freire cunhou a expressão esperançar:  não ficar esperando que um dia a situação irá melhorar mas criar as condições para que a esperança não seja vã, senão que, com nosso empenho, a façamos efetiva.

Creio que esse salto, com a nossa participação, poderá ocorrer e estaria dentro das possibilidades da história do universo e da Terra: do atual caos destrutivo, podemos passar para um caos generativo de um novo modo de ser e de habitar o planeta Terra.

É nisso que creio e espero, reforçado pela palavra da Revelação que afirma: “Deus criou todas as coisas por amor porque é o apaixonado amante da vida”(Sabedoria 11,26).Ele não permitirá que terminemos assim tragicamente. Ainda viveremos sob a luz benevolente do sol.

Leonardo Boff, ecoteólogo, filósofo e escritor.Escreveu O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteira e de amizade social,Vozes 2021; Habitar a Terra:qual o caminho para a fraternidade universal?  Vozes 2121.

 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

O futuro depende de nós agora

 

Leonardo Boff

A COP26 em Glasgow decepcionou no ponto central: no consenso sobre a mitigação do aquecimento global pois acolheu ainda o uso do carvão, embora gradativamente a ser abolido, como fonte energética. Mas teve o mérito, nunca havido nas sessões anteriores das 25 COPs. Desta vez, sem exceção, se admitiu a existência antropogênica dos distúrbios climáticos. Os eventos extremos, a intrusão do metano,devido ao degelo do permafrost e das calotas polares, 20 vezes mais danoso que o CO2, a erosão crescente da biodiversidade, a gama de vírus como o Covid-19, a Sobrecarga da Terra (Earth Overhoot) que nos atemoriza a cada ano, pois o atual consumo demanda mais de uma Terra e meia (1,75) o que impede sua biocapacidade e a ultrapassagem de algumas das Nove Barreiras Planetárias (9 Planetarian Bounderies) que podem pôr em risco nosso ensaio civilizatório, dobraram os negacionistas que preferiam anteriormente defender suas fortunas e capitais do que a vida do planeta e nosso futuro comum.

Tais eventos fizeram surgir cenários apocalípticos e um verdadeiro terror metafísico, no sentido de temermos por nossa sobrevivência nesse planeta. Muitas são as advertências dessa eventualidade por parte de renomados cientistas e principalmente do Papa Francisco que na última encíclica, paradigmática, Fratelli tutti (2020) taxativamente asseverou:”estamos no mesmo barco; ou nos salvamos todos ou ninguém se salva”(n.34).

Há uma calorosa disputa mundial sobre como seguirá a história no pós-pandemia. Vários modelos estão na pauta. Estimo que os mais radicais devem ser descartados,por serem demasiadamente cruéis e anti-vida humana como o Great Reset, a “Grande Reinicialização” de um capitalismo despótico, sugerido pelo príncipe parasita Charles e assumida pelo 0,1% dos bilhardários mundiais. Também o tentador “Capitalismo verde” que visa a cobrir de verde todo o planeta mas nunca coloca a questão da desigualdade social que penaliza e ceifa milhões de vidas humanas. Aceitáveis e, de certo modo, promissores, são o eco-socialismo e o bien vivir y convivir dos andinos. Ambos seriam viáveis no pressuposto de uma governança global e pluralista, dispondo-se a encontrar soluções globais para problemas globais como o da pandemia e de uma ordem planetária mínima que incluísse a todos na única Casa Comum, também a natureza.

Creio que o Papa Francisco na Fratelli tutti apresentou alguns dos valores fundamentais a partir dos quais se poderia projetar um paradigma que garanta o futuro da espécie e de nossa civilização: uma biocivilização centrada  numa fraternidade sem fronteiras e numa amizade social universal.

Claramente se deu conta de que três pressupostos se fazem necessários: o primeiro, superar o paradigma vigente já alguns séculos, o do ser humano como dominus (dono e senhor) que não se sente parte da natureza mas que a domina com o instrumento da tecnociência. O segundo, assumir uma alternativa ao dominus que seria o frater: o ser humano,homem e mulher, irmãos e irmãs uns dos outros e de todos os seres da natureza por termos todos uma origem comum, o  húmus da Terra, por sermos portadores do mesmo código genético de base e por sentirmo-nos parte da natureza. O terceiro, ativar o “princípio esperança”, mais profundo que a virtude da esperança,  aquele impulso interior que não conhece tempo nem espaço e que sempre está presente no ser humano levando-o à indignação contra os desacertos sociais e a coragem para transformá-los mediante a projeção de novos mundos, de  utopias viáveis e de uma autosuperação de si mesmo.

Os valores não serão tomados das grandes narrativas já ensaiadas, a do iluminismo,do capitalismo e do socialismo que resultaram na crise sistêmica atual,portanto, que não realizaram seus propósitos. Vai beber do próprio poço, na natureza essencial do ser humano.

Ai descobre que somos essencialmente seres de relação ilimitada,cuja melhor expressão reside na amorosidade; seres de solidariedade que nos primórdios da hominização nos permitiu dar o salto da animalidade à humanidade; seres de cooperação pois somente juntos podemos construir nosso habitat que se dá na convivência, na sociedade e nas civilizações, numa palavra, no bem-comum geral; seres de cuidado,pois esse define a natureza humana, de todos os seres vivos e que emerge também como uma constante cosmológica: tudo existe porque todos os fatores sutilmente se combinaram para irrompesse a vida, e como sub-capítulo da vida, a vida humana e o próprio universo que sem o devido cuidado de todos os elementos, não permitiria que estivéssemos aqui escrevendo sobre estas coisas; seres espirituais, capazes de colocar as questões mais radicais sobre o porquê de nossa existência, absolutamente gratuita, qual o nosso lugar no conjunto dos seres, a que destino somos chamados e pelo fato de intuirmos que, por detrás de tudo o que existe e vive. subjaz uma Energia poderosa e amorosa (o Vácuo quântico,a Energia de fundo do universo ou o Abismo gerador de tudo o que existe?) com a qual podemos nos relacionar com veneração e com o silêncio reverente.

A partir destes valores poder-se-á forjar um outro mundo possível e agora necessário. Logicamente a travessia de um paradigma a outro não se fará de um dia para outro e não sem grandes dificuldades, oposições e crises. Mas não temos outra alternativa. Como escreveu Eric Hobsbawn em seu  “A era dos extremos”(1995) em sua última página:”Não sabemos para onde estamos indo. Se a humanidade quer ter um futuro significativo não pode ser pelo prolongamento do passado e do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nesta base vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja,a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão”(p.562).

Isso vale especialmente para aqueles que almejam a volta à antiga normalidade,perversa para a vida da natureza e para a vida humana. Temos que mudar ou então, como disse o Secretário da ONU, António Guterrez, ao abrir os trabalhos da COP26: “Se não agirmos já agora estaremos cavando a nossa própria sepultura”.

O futuro é hoje como  proclamavam os cem mil da COP26 paralela em Glasgow. Se não começamos a nos orientar pelos valores acima referidos, estaremos pavimentando o caminho para um desastre ecológico-social de proporções nunca dantes havido. Mas creio e espero, espero e creio que a pulsão de vida, mais forte que a pulsão de morte, nos levará às mudanças necessárias. Viveremos e ainda brilharemos.

Leonardo Boff, filósofo e ecoteólogo escreveu:O dolorosa parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social,Vozes 2020.

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sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Destruindo o futuro de nossos jovens?

 Leonardo Boff         


     

A parte mais decisiva da COP26 em Glasgow referente a diminuição dos gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global, terminou melancolicamente. O Acordo de Paris de 2015 comprometendo as potências economicamente mais fortes para alcançar a meta de mitigação do aquecimento para em 2030 não chegar a 1,5 graus C não surtiram efeito. Agora em Glasgow se tentou o mesmo propósito.O maior emissor, a China, com 27% e outro grande emissor, a Índia, recusaram metas e apenas afirmaram que até 2030 iriam mitigar o aquecimento. As mudanças não se fazem da noite para o dia, mas num processo duro e consequente. Olhando o passado, podemos com relativa certeza afirmar que até 2030 vamos chegar a 1,5  graus C. A própria ONU com seus consultores especializados advertiu que com a entrada do metano, 80 vezes mais danoso que o CO2,e a seguir os planos atuais vamos chegar a 2,7 graus Celsius.

Isso representa a tribulação da desolação: aumentarão sensivelmente os eventos extremos com tufões, secas severas, inundações por todas as partes, especialmente nas cidades costeiras, erosão da biodiversidade, aumento desesperador da pobreza, da miséria com  milhões de emigrados climáticos,desestabilizando muitos países especialmente no Oriente Médio e África.Não bastou o alerta feito por António Guterrez, Secretário Geral da ONU por ocasião da abertura dos trabalhos da COP26 de que esta é a “última oportunidade” de mudanças radicais caso não quisermos “cavar a nossa própria sepultura”. Aqui ressoam as palavras do Papa  Francisco da Fratelli tutti: “estamos no mesmo barco ou nos salvamos todos juntos ou ninguém se salva”(n.30.34.)

Ficou claro para os analistas mais sérios: o problema não é o clima mas o sistema capitalista que produz as perturbações do clima. Os vários projetos para o tempo pós-pandemia como o Great Reset (a grande reinicialização), o Capitalismo VerdeO futuro que nos espera e a Responsabilidade social corporativa das empresas representam os interesses dos países opulentos e não os gerais da humanidade. As soluções são intra-sistêmicas, sem jamais questionarem a verdadeira causa das atuais ameaças. Pelo contrário, radicalizam o sistema de acumulação imperante com a cultura consumista que gerou. Sua preocupação ecológica é superficial e são negacionistas das ameaças que pesam sobre o sistema-vida e o sistema-Gaia, super ente vivo.E assim vamos gaiamente ao encontro de uma tragédia ecologico-social de proporções inimagináveis. Cabe ainda enfatizar que o avanço sobre as florestas e o aumento da urbanização mundial, associado ao aumento da temperatura, poderão liberar – esta é a advertência dos maiores epidemiologistas – uma gama incalculável de vírus mais perigosos que o Covid-19. Que não seja o next big one,(o próximo grande) já advertido, contra o qual nenhuma vacina seria eficaz e  poderia levar grande parte da humanidade. Et tunc erit finis.

Neste contexto, queremos nos  referir ao Quinto Tribunal Internacional dos Direitos da Natureza. À base de minuciosa investigação científica e jurídica, elaborou dois vereditos, um sobre a violação dos direitos da natureza e outro sobre a Amazônia. Restrinjo-me à Amazônia, por ser a mais dolorosamente afetada. Já o título é significativo:”a Amazônia, uma entidade viva ameaçada”. O detalhado relatório, sustentado pelos mais seguros dados científicos e jurídicos, acrescido pelos testemunhos vivos dos representantes dos 9 países amazônicos, seja de indígenas e de outros habitantes da área, feitos no dia 4 de novembro presencialmente ou virtualmente (o meu caso, do corpo de jurados) são de meter medo.

No veredito, de forma contundente, se afirma “a Amazônia como sujeito de direitos”. Estes são sistematicamente violados. Faz-se a denúncia de que na Amazônia “está em curso um ecocídio, tal é a magnitude das cifras de desmatamento, perda da biodiversidade, contaminação e o secamento das fontes de água, desertificação entre outros que  afetam gravemente a capacidade de restauração natral dos ecossitema da vida e vulnera o drieito de existir da natureza..É um crime de lesa natureza e de lesa humanidade e não prescreve”.

A exposição do especialista em estudos amazônicos Antônio Nobre deixou claro que na Amazônia brasileira (67% do total) estamos próximos ao ponto de inflexão. Um pouco mais, os danos serão irreversíveis e caminharemos para uma espécie de savanização. Tal fato desestabiliza os climas do país,  dos países vizinhos e do próprio sistema mundial. Só incorporando a sabedoria dos povos originários que naturalmente cuidam da floresta, pois, se sentem parte dela, assumindo uma bioeconomia adequada àquela ecossistema e o extrativismo, respeitador da floresta, à la Chico Mendes, poderemos sustar o processo de degradação. No longo e minucioso relatório se constata que na vasta região amazônica,  está ocorrendo um ecocídio, um etnocídio e um genocídio. A situação é desastrosa.

Voltando à COP26, verifica-se por parte dos “decisions makers”, dos governantes das diversas nações, uma falta clamorosa de consciência das ameaças que pesam sobre a Terra viva e sobre a humanidade. Nunca, em nenhum momento, os países que mais representam risco, reconheceram que o sistema sócio-econômico-político, promovido por eles, numa palavra, o capitalismo como modo de produção e o neoliberalismo como sua expressão política é o principal causador do eventual Armagedom ecológico.

Não podemos ficar reféns da bolha capitalista. Urge rompe-la. Como? O Papa Francisco nos aponta uma direção:”Não se pode sair dessa crise sem evoluir para as periferias”. De cima só vem mais do mesmo ou pior. Das periferias, de baixo, a partir dos inúmeros movimentos sociais populares e nos experimentos alternativos, trabalhando o território com outro  tipo de economia solidária, preservando os commons, com uma democracia cotidiana e participativa, com outros valores humano-espirituais (amorosidade, solidariedade, cuidado, compaixão etc) se está gestando uma nova forma de habitar a Casa Comum.

Sem essa viragem necessária, estamos destruindo o futuro de nossos jovens e até o futuro de nossa civilização. Temos pouco tempo e parca sabedoria. Mas com o sofrimento atual, a amorisação pela Mãe Terra e o resgate da inteligência cordial, cada vez mais emergentes, poderemos forjar um futuro de esperança. Que assim o queira Deus.

Leonardo Boff escreveu junto com J.Moltmann,Há esperança para a criação ameaçada? Vozes, Petrópolis 2014; Cuidar da terra – proteger a vida: como escapar do fim do mundo, Record, Rio de Janeiro 2010.

 

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

TEM FUTURO A IGREJA CATÓLICA?

Frei Betto


 

       No atual modelo, a resposta à pergunta acima é não. É a opinião do papa Francisco. Prova disso é que ele acaba de convocar uma maratona democrática intitulada “Para uma Igreja Sinodal: Comunhão, Participação e Missão”. O objetivo é dar voz a 1,3 bilhão de católicos sobre o futuro da Igreja. O que pensam da participação das mulheres, do divórcio, dos grupos minoritários (gays etc.), dos jovens, e de muitos outros temas polêmicos hoje dentro da instituição.

       A primeira das três etapas do processo vai até abril de 2022. Consiste em ouvir os fiéis da base, paroquianos e militantes de movimentos pastorais. A segunda, de setembro de 2022 a março de 2023, é a escuta das opiniões dos fiéis pelos bispos de cada Continente. Por fim, em outubro de 2023, Roma abrigará o Sínodo dos Bispos que resumirá as opiniões colhidas em um documento a ser sancionado e divulgado pelo papa.

       É profunda a crise da Igreja Católica. Embora o Concílio Vaticano II (1962-1965) tenha lançado as bases pastorais, teológicas e bíblicas de uma renovação significativa, os pontificados de João Paulo II e Bento XVI puseram o pé no freio. Valorizaram movimentos anacrônicos, anticonciliares, saudosos da missa em latim e do triunfalismo clerical. 

       Enquanto “a volta à grande disciplina”, na expressão de meu primo, o teólogo jesuíta J.B. Libanio, reafirmava a intocabilidade do celibato, a pedofilia corria solta sob o silêncio cúmplice de bispos e cardeais que optaram por “salvar” seus padres em detrimento das vítimas, muitas delas crianças. E as mulheres continuaram excluídas do sacerdócio, relegadas à condição de seres de segunda classe.

       Muitas causas podem ser apontadas para explicar a crise da Igreja Católica, a evasão de fiéis, a contradição entre o que se prega e o que se vive. Considero uma das mais graves o clericalismo, essa doença infantil do esteticismo eclesiástico, que se segrega do comum dos mortais ao circular de batina nas ruas e aprecia o excesso de incenso em pompas litúrgicas. 

       O clericalismo também é combatido pelo papa Francisco. Enquanto os leigos forem tratados como subalternos, tributários da catequese infantil, destituídos de meios para se manter atualizados em matéria de teologia e Bíblia, veremos as Igrejas Evangélicas crescerem exponencialmente. 

       Aliás, essas Igrejas têm muito a ensinar aos católicos em matéria de “comunhão, participação e missão”. A madame vai à missa; a faxineira dela, ao culto. E os preconceitos católicos, outrora focados nos espíritas e ateus, agora se voltam aos evangélicos, como se todos fossem fundamentalistas. Recomendo, como excelente antídoto ao preconceito, o livro de Juliano Spyer, “Povo de Deus – quem são os evangélicos e por que eles importam” (SP, Geração, 2020). 

       Após o Vaticano II, a Igreja Católica havia plantado as sementes de seu futuro renovado: as Comunidades Eclesiais de Base. Mas o conservadorismo autoritário tratou de arrancá-las. Bem como sabotar qualquer debate sério a respeito de celibato, aborto, divórcio, matrimônio homoafetivo, ortotanásia e, em especial, o direito de as mulheres terem acesso ao sacerdócio, ao episcopado e ao papado. 

       Espero que as opiniões das bases católicas, recolhidas na primeira fase da convocatória de Francisco, não sejam filtradas pelos bispos ao apurarem os questionários. Esperar que bispos ousem abrir mão de seu poder na estrutura hierarquizada da Igreja e admitir mudanças que ponham em risco a posição que ocupam é, no mínimo, confiar no milagre. Mas a fé ensina que ele existe, e o Espírito Santo, que “sopra onde quer”, é capaz de nos surpreender. 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Espiritualidade, amor e êxtase” (Vozes), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

 

Frei Betto é autor de 70 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio. 

 

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quinta-feira, 27 de maio de 2021

TEM FUTURO ESSE FUTURO?

  

Frei Betto


        As pesquisas pretendem encontrar uma forma de dotar bonecos e bonecas revestidos de silicone capazes de imitar a pele humana.

       Quem da minha geração poderia imaginar, há 40 anos, que hoje teríamos em mãos um aparelho que cabe no bolso da camisa e nos permite conectar com o mundo, ver filmes e vídeos, fazer pesquisas e até proferir conferências com visibilidade para o público? 

       Quem poderia supor que as redes digitais quebrariam o monopólio de notícias em mãos da grande mídia ou que um hacker seria capaz de, à distância, sugar eletronicamente arquivos secretos (mas não seguros) dos governos? 

       O que o futuro nos aguarda supera o imaginário da soma de mentes visionárias como Leonardo da Vinci, Júlio Verne e George Orwell. Foi um artigo de Ricardo Abramovay que me chamou a atenção para o livro de Jenny Kleeman, “Sex robots and vegan meat. Adventures at the frontier of birth, food, sex and death” (em tradução livre “Robôs sexuais e carne vegana. Aventuras na fronteira do nascimento, da alimentação, do sexo e da morte”).

       A autora informa que no Vale do Silício pesquisadores buscam como nos assegurar a felicidade com recursos tecnocientíficos. Uma pessoa deixaria de procurar seu parceiro ou parceira ideal, livre do risco de se decepcionar ;com vários relacionamentos; bastaria adquirir um robô dotado de inteligência artificial programado para se adequar perfeitamente ao gosto de seu amo e senhor, inclusive na satisfação de seus desejos. 

       Um cético poderia retrucar que tal hipótese é absurda. Ora, não há milhares de pessoas que prescindem de relacionamentos humanos e vivem felizes em companhia de seus animais? Inclusive porque cães e gatos não falam, não questionam, não exigem DR e se ajustam com facilidade ao gosto do dono.

       As pesquisas pretendem encontrar uma forma de dotar bonecos e bonecas revestidos de silicone capazes de imitar a pele humana. Outros teriam a função de acolher o feto para que ele se desenvolva fora do útero da mãe. Isso a livraria dos incômodos da gravidez e a manteria ativa no mercado de trabalho. 

       Os veganos, que apontam os males que a carne causa ao organismo humano e os rebanhos ao equilíbrio ambiental, poderão desfrutar de um churrasco cujas peças de alcatra, picanha e maminha procedem de vegetais. Não vale, entretanto, indagar se são alimentos orgânicos, pois considerável dose de ingredientes químicos se fazem necessários para tornar o leitão à pururuca tão suculento quanto o do vizinho não vegano que come o mesmo prato sem culpa.

       Todo esse processo tecnocientífico ameaça a autonomia humana e corre o risco de transformar cada individuo em mera peça da linha de montagem da voraz fábrica de lucros. Ao preencher seu cadastro, seu médico, por exemplo, perguntará com que idade e em qual data você prefere morrer. Caso você sobreviva aos fatores imprevisíveis, poderá até mesmo redigir o convite a seus familiares e amigos, para que compareçam ao velório e às cerimônias religiosas.  

       Esse “admirável” mundo novo, visto de hoje, levanta uma questão não abordada pela ciência e a tecnologia: o que faz a felicidade humana? É óbvio que não resulta de fama, poder, dinheiro e beleza. Há muitas pessoas que alcançaram esses quesitos e são também felizes. Mas a legião de infelizes demonstra que não são suficientes. No entanto, sem nada disso, há milhões de pessoas felizes porque encontraram o fator fundamental para atingir esse bem – o sentido que se imprime à vida. E isso nenhuma inteligência artificial será capaz de nos incutir. 

 

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Mario Sérgio Cortella e Leonardo Boff, de “Felicidade foi-se embora?” (Vozes), entre outros livros.

 

 

Frei Betto é autor de 69 livros, editados no Brasil e no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org  Ali os encontrará  a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.