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sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Povos indígenas: nossos mestres e Doutores

 Leonardo Boff 


          
                                                        

 Com o assassinato recente do indigenista Bruno Pereira e o do jornalista  inglês Dom Phillips no vale do Jari amazônico e mais que tudo pelo abandono que sofreram por parte do atual governo, de viés genocida, por longo tempo, durante da pandemia do Covid-19 que, ao todo, deve ter custado a vida de cerca de mil indígenas, a questão dos povos originários ganhou as manchetes nacionais e internacionais.

Surpreendente, embora tardio, foi o pedido de desculpa do Papa Francisco em sua visita em julho ao Canadá, às famílias de crianças indígenas, arrancadas de seu meio e internadas em colégios católicos com muitas mortes. Eles não se contentaram com essa desculpa papal. Uma das lideranças corajosamente disse ao Papa:parem de nos fazer superar esta tragédia, queremos que nos entendam, que respeitem a nossa sabedoria ancestral, que favoreçam a nossa cura e nos deixem viver segundo as nossas tradições. Algo semelhante disseram indígenas bolivianos por ocasião da visita do Papa João Paulo II: a Bíblia que nos dão, entreguem-na aos europeus, pois eles precisam dela mais do que nós porque foram eles que de forma desumanizadora nos colonizaram e quase nos dizimaram.

Nunca pagamos a dívida centenária que temos para com os povos originários brasileiros, latino-americanos e caribenhos. Eles são os hóspedes originários destas terras que lhes estão sendo invadidas e roubadas em função da voracidade dos madeireiros, do ouro e da mineração.

O cuidado para com tudo o que existe e vive

 

Agora que estamos sob um alarme ecológico planetário, sem saber que soluções encontrar face ao crescente aquecimento do planeta, descobrimos, finalmente, como eles com sabedoria tratam a natureza, o cuidado para com as florestas e a Mãe Terra. Eles são nossos mestres e doutores no sentimento de pertença, de irmandade e de respeito por tudo o que existe e vive. Nutrem uma profunda concórdia entre eles e com a comunidade de vida, coisa que nós há séculos perdemos. Estamos sofrendo os danos irremissíveis de nossa devastação. Ainda não tiramos as lições que Gaia, a Pacha Mama e Mãe Terra nos está dando com a intrusão do Covid-19. Buscamos volver à ordem anterior, justamente aquela que propiciou a irrupção de inúmeros vírus, o último, a varíola do macaco. Elenquemos alguns valores de seu modo de estar neste mundo natural.

O índio se sente parte da natureza e não um estranho dentro dela. Por isso, em seus mitos, seres humanos e outros seres vivos convivem, e casam entre si. Intuíram o que sabemos pela ciência empírica que todos formamos uma cadeia única e sagrada de vida. Eles são exímios ecologistas. A Amazônia, por exemplo, não é terra intocável. Em milhares de anos, as dezenas de nações indígenas que ai vivem, interagiram sabiamente com ela. Quase 12% de toda floresta amazônica de terra firme foi manejada por eles, promovendo “ilhas de recursos”, desenvolvendo espécies vegetais úteis ou bosques com alta densidade de castanheiras e frutas de toda espécie. Elas foram plantadas e cuidadas para si e para aqueles que, por ventura, por ai passassem.

Os Yanomami sabem aproveitar 78% das espécies de árvores de seus territórios, tendo-se em conta a imensa biodiversidade da região, na ordem 1200 espécies por área do tamanho de um campo de futebol.

Para eles a Terra é Mãe do índio. Ela é viva e por isso produz todo tipo de seres vivos. Deve ser tratada com reverência e respeito que se deve às mães. Nunca se há de abater animais, peixes ou árvores por puro gosto, mas somente para atender necessidades humanas. Mesmo assim, quando se derrubam árvores ou se fazem caçadas e pescarias maiores, organizam-se ritos de desculpa para não violar a aliança de amizade entre todos os seres.

Essa relação sinfônica com a comunidade de vida é imprescindível para garantirmos o futuro comum da própria vida e o da espécie humana.

Sabedoria ancestral.

 

Conhecendo-se um pouco as diversas culturas indígenas, identificamos nelas profunda capacidade de observação da natureza com suas forças  e da vida com suas  vicissitude . A sabedoria deles se teceu  através da sintonia fina com o universo e  da escuta atenta da linguagem da Terra. Sabem melhor do que nós, casar céu com a terra, integrar vida e morte, compatibilizar trabalho e diversão, confraternizar ser humano com a  natureza. Nesse sentido eles são altamente civilizados embora sua tecnologia seja finíssima mas não contemporânea.

Intuitivamente, atinaram com a vocação fundamental de nossa efêmera passagem por esse mundo que é captar a majestade do universo, saborear a beleza da Terra e tirar do anonimato aquele Ser que faz ser todos os seres, chamando-o por mil nomes Palop, Tupã, Ñmandu e outros.  Tudo existe para brilhar. E o ser humano existe para dançar e festejar esse brilho.

Essa sabedoria precisa ser resgatada por nossa cultura secularista e desrespeitosa das várias formas de vida. Sem ela dificilmente pômos limites ao poder que poderá destruir o nosso ridente Planeta vivo

Atitude de veneração e de respeito.

 

Para os povos  indígenas, bem  como para alguns contemporâneos, como o recém falecido James Lovelock, o formulador da teoria da Terra como Gaia, tudo é vivo e tudo vem carregado de mensagens que importa decifrar. A árvore não é apenas uma árvore. Ela se comunica por seus odores. Possui braços que são seus ramos, tem mil línguas que são suas folhas, une o  Céu com a Terra por suas raízes e  pela copa. Eles conseguem, naturalmente, captar o fio que liga e re-liga todas as coisas entre si e com a Divindade. Quando  dançam e tomam as beberagens rituais fazem uma experiência de encontro como Divino e com o mundo dos anciãos e dos sábios que estão vivos no outro lado da vida. Para eles, o invisível é parte do visível. Essa lição importa aprender deles.

       A liberdade, a essência da vida indígena.

 

Nos dias atuais a falta de liberdade nos atormenta. A complexidade da vida, a sofisticação das relações sociais geram sentimento de prisão e de angústia. Os povos indígenas nos dão o testemunho de uma incomensurável liberdade. Baste-nos o depoimento dos grandes indigenistas, os irmãos Orlando e Cláudio Villas Boas: “O índio é totalmente livre, sem precisar de dar satisfação de seus atos a quem quer que seja… Se uma pessoa der um grito no centro de São Paulo, uma rádio-patrulha poderá levá-lo preso. Se um índio der um tremendo berro no meio da aldeia, ninguém olhará para ele, nem irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem livre”. Essa liberdade é tão apresentada pela extraordinária liderança Krenak e por seus escritos, Ailton Krenak.

       A autoridade, o poder como serviço e despojamento.

 

A liberdade vivida pelos indígenas confere uma  marca singular à  autoridade de seus caciques. Estes nunca têm poder de mando sobre os demais. Sua função é de animação e de articulação das coisas comuns, sempre respeitando o dom supremo da liberdade individual. Especialmente, entre os Guarani se vive esse alto sentido da autoridade, cujo atributo essencial é a generosidade. O cacique deve dar tudo o que lhe pedem e não deve guardar nada para si. Em algumas tabas se pode reconhecer o chefe na pessoa de quem traz ornamentos  mais pobres, pois, o resto foi tudo doado.  Nós ocidentais definimos o poder sob sua forma autoritária:“a capacidade de conseguir  com que o outro faça aquilo que eu quero”. Em razão desta concepção, as sociedades são dilaceradas permanentemente por conflitos de autoridade.      

Imaginemos o seguinte cenário: caso o cristianismo, se tivesse encarnado na cultura social guarani e não naquela greco-romana, teríamos então padres pobres, bispos miseráveis e o papa um verdadeiro mendigo. Mas sua marca registrada seria a generosidade e o serviço humilde a todos. Então, sim, poderiam ser testemunhas d’Aquele que disse:”estou entre vós como quem serve”. Os indígenas teriam captado essa mensagem como co-natural à sua cultura  e, quem sabe, livremente aderido à fé cristã.

 Como se depreende, em tantas coisas, reafirmo, os indígenas podem ser nossos mestres e nossos doutores, como se dizia dos pobres na Igreja dos primórdios.

Leonardo  Boff escreveu O casamento entre o Céu e a Terra,contos de indígenas brasileiros,(com um suplemento sobre dados atualizados do seu universo),Planeta 2022.

 


terça-feira, 3 de maio de 2022

Direitos dos povos indígenas e futuro da humanidade

 Marcelo Barros


 

Na segunda-feira, 25 de abril até o 6 de maio, na sede das Nações Unidas, em Nova York, acontece mais uma sessão do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas. Este encontro acontece em formato híbrido, com centenas de representantes dos povos originários e também com participação de comunidades que acessam o Fórum através da internet. Apesar de que a maioria é de etnia indígena, também participam pessoas de outras raças que sabem da importância dos povos indígenas para toda a humanidade e para o futuro da vida na Terra. O tema é sugestivo: “Povos indígenas, negócios, autonomia e os direitos humanos”. Durará duas semanas e tem como objetivo aumentar a integração e promover a coordenação de atividades que ligam as questões indígenas com a ONU.

Na abertura, Abdulla Shahid, atual presidente da Assembleia Geral da ONU, destacou que este encontro celebra a diversidade linguística e cultural que as comunidades indígenas representam. Afirmou que as comunidades indígenas têm muito a ensinar a toda a humanidade, especialmente na relação com a Mãe Terra e toda a natureza. Falou dos muitos desafios que eles enfrentam e reafirmou que governos e sociedades têm obrigação moral de proteger os direitos e bem-estar das comunidades indígenas. E concluiu: “Só se apoiarmos as culturas indígenas, poderemos preservar a biodiversidade da Terra e avançar no cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU”.

Ao fazer essas afirmações, o presidente da Assembleia Geral da ONU não estava se dirigindo ao presidente do Brasil, nem ao seu governo. Certamente, a ONU não tinha recebido ainda o relatório anual das pastorais da Terra e da pastoral indigenista que denunciam os 1.768 conflitos no campo brasileiro, ocorridos somente durante o ano de 2021, com 35 assassinatos, que envolveram povos indígenas, quilombolas, sem terra e todas as comunidades tradicionais. Não tinham ainda notícia do caso recente da criança Yanomami, de 12 anos, estuprada e assassinada por garimpeiros, nas comunidades Aracaça, em Amajarí, no norte de Roraima.

Um dos falsos pretextos que o governo atual e os ruralistas brasileiros alegam contra a demarcação das terras indígenas é de seria “muita terra para pouco índio”. Contra isso, neste fórum, o doutor Shahid confirmou: de fato, os povos indígenas representam menos de 5% da população global. No entanto,  a ONU tem provas de que esses grupos tão minoritários são guardiães fieis de 80% da biodiversidade do mundo inteiro.

Nesta assembleia, Dario José Mejía Montalvo, indígena colombiano, líder da Organização dos Povos Indígenas da Colômbia, foi eleito presidente do Fórum Permanente da ONU sobre Questões Indígenas. Em suas primeiras palavras no fórum, ele denunciou que, em todos os países do continente, os povos originários sofrem ataques e são vítimas de perseguições, na maioria das vezes, exatamente por serem defensores da natureza e dos direitos da Terra, das águas e das florestas. 

Dados da ONU confirmam que 1,6 bilhão de pessoas dependem diretamente das florestas para obter alimentos, abrigo, energia, medicamentos e renda. Muitas comunidades e povos indígenas são beneficiados com sustento e refúgio oferecido pelas matas.  Ao mesmo tempo, protegem as matas. Atualmente, as comunidades indígenas são perseguidas por empresas de mineração, garimpeiros e grandes fazendeiros, justamente porque a presença de comunidades indígenas é a última defesa que resta para que as florestas fiquem de pé, os rios possam ainda se manter limpos e os biomas minimamente protegidos. A ONU denuncia que somente no ano de 2021, foram destruídos no mundo dez milhões de hectares de florestas, a maioria deles na África e na América Latina.

Neste tempo em que as Igrejas cristãs celebram a Páscoa, é importante recordar que os evangelhos falam da ressurreição de Jesus como início de uma renovação da vida para a humanidade, mas também para toda a criação, ou seja, a Terra e toda a natureza. Dom Pedro Casaldáliga dizia que a missão cristã é espalhar ressurreição. Isso pede de todas as comunidades cristãs, solidarizar-se aos povos indígenas e ser, cada vez mais, como eles, guardiães da Vida no planeta Terra.

 

 

 

sexta-feira, 25 de junho de 2021

O ATUAL GOVERNO LEVOU MORTE AOS INDÍGENAS

 Leonardo Boff



É notório o desprezo que o atual presidente dedica aos indígenas. Considera-os sub-gente e claramente declarou no dia 1.de dezembro de 2018:”nosso projeto para o índio é fazê-lo igual a nós”. E avançou mais: ”não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou quilombola”.

O mais perverso foi não aprovar a PEC que devia lhes levar água potável, os insumos básicos contra a Covid-19. É um propósito de morte. Há dias, neste mês de junho, numa manifestação pacífica de várias etnias foram recebidos em Brasília com repressão, balas de borracha e gás lacrimogênio. Há um total abandono deles a ponto de que 163 povos de diferentes etnias foram contaminados, sendo que ocorreram 1.070 mortes.

Diz-nos um conhecedor da história da Amazônia Evaristo Miranda, cujo titulo é uma revelação “Quando o Amazonas corria para o Pacífico, (Vozes 2007):”uma coisa é certa: a mais antiga e permanente presença humana no Brasil, está na Amazônia. Há cerca de 400 gerações diversos grupos humanos ocuparam, disputaram, exploraram e transformaram os territórios amazônicos e seus recursos alimentares (op.cit.p.47). Desenvolveram um grande manejo da floresta respeitando sua singularidade, mas ao mesmo tempo modificando seu habitat para estimular aqueles vegetais úteis para o uso humano. O indígena e a floresta evoluíram juntos numa profunda reciprocidade.

Disse bem o antropólogo Viveiros de Castro: ”A Amazônia que vemos hoje é a que resultou de séculos de intervenção social, assim como as sociedades que ali vivem são resultado de séculos de convivência com a Amazônia”(em Tempo e Presença 1992,p.26).

Releva ainda notar que no interior da floresta com suas centenas de etnias formou-se a partir de 1.100 antes das chegadas dos invasores portugueses um espaço imenso (quase um império) da tribo tupi-guarani. Ela ocupou territórios que iam desde os contraforte andinos, formadores do rio Amazonas até as bacias do Paraguai e do Paraná e alguns chegando até os pampas gaúchos e ao nordeste brasileiro. “Desta forma ”afirma Miranda, ”praticamente todo o Brasil florestal, foi conquistada por povos tupi-guarani (op.cit.92-93).

No Brasil pré-cabralino  havia cerca de 1.400 tribos, 60% delas na parte amazônica. Falavam línguas de 40 troncos subdivididos em 94 famílias diferentes, o que levou a antropóloga Berta Ribeiro a afirmar ”que em nenhuma parte da Terra, encontrou-se uma variedade linguística semelhante observada à América da Sul tropical”(Amazônia urgente, 1990 p.75). Hoje, infelizmente, dada à dizimação dos indígenas perpetrada no decorrer de a história e recentemente pelos garimpeiros, mineradores, extrativistas (a maioria ilegais), restaram somente 274 línguas. Isto significa: perderam-se mais de mil línguas (85%) e com elas conhecimentos ancestrais, visões de mundo e  comunicações singulares. Foi um empobrecimento irreparável para o patrimônio cultural da humanidade.

Entre as muitas tragédias que levaram ao desaparecimento de etnias inteiras, cabe lembrar uma que poucos conhecem.  Dom João VI que alguns admiram, em carta régia de 13 de maio de 1808, mandou fazer uma guerra oficial aos índios Krenak do Vale do Rio Doce, em Minas e no Espírito Santo. Aos comandantes militares ordenou “uma guerra ofensiva que não terá fim senão quando tiverdes a felicidade de vos assenhorear de suas habitações e de fazê-los sentir a superioridade das minhas armas..até a total redução de uma semelhante e atroz raça antropófagas”(L.Boff,O casamento do céu com a terra,2014,p.140).

Por que lembramos isso tudo? É  para dar-nos conta destas ações exterminadoras que continuam ainda hoje, resistir, criticar e combater as criminosas políticas do atual governo genocida de indígenas e do próprio povo brasileiro, deixando morrer mais de 5008 mil pessoas.

Os principais responsáveis e seus cúmplices dificilmente escaparão de terem que enfrentar o Tribunal Internacional de Crimes contra a Humanidade em Haia. O clamor não é só brasileiro, mas internacional. Para tais crimes não há limite de tempo. De onde estiverem e em qualquer tempo não escaparão da severidade dos ju, zelosos, como já mostraram, da dignidade sagrada dos seres humanos.

Estes povos originários são nossos mestres e doutores no que se refere à relação com a natureza da qual se sentem parte e os grandes cuidadores. Agora que com a Covid-19 andamos perplexos e perdidos sem saber como seguir adiante, devemos consultá-los. Como diz uma liderança indígena, sobrevivente da guerra criminosa de Dom João VI, Ailton Krenak, eles nos ajudarão a afastar ou protelar o fim do mundo.

Se seguirmos a rota de destruição nosso habitat, a Casa Comum, explorando-a ilimitadamente e sem qualquer escrúpulo, esse destino poderá ser a tragédia da espécie humana. Mas temos esperança que fez os indígenas sobreviverem até os dias de hoje. Também nós esperamos sobreviver, transformados pelas lições que a Mãe Terra no vem dando.

Leonardo Boff escreveu “O casamento do céu com a terra: contos dos povos indígenas do Brasil, Mar de Ideias, Rio de Janeiro 2014; O doloroso parto da Mãe Terra: uma sociedade de fraternidade sem fronteiras e de amizade social, Vozes 2020.

 

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

POVOS INDÍGENAS CONTRA AS PANDEMIAS DO ÓDIO

  


Marcelo Barros

 

Neste momento no qual, em todo o território nacional, os povos indígenas são ameaçados em sua existência física e nas suas culturas, é mais urgente do que nunca recordar o aniversário do martírio do índio Sepé Tiaraju que no sul do Brasil é considerado santo e se tornou até nome de cidade no Rio Grande do Sul: São Sepé.  É no dia 07 de fevereiro que as comunidades do Rio Grande do Sul celebram o aniversário deste grande mártir indígena.

Como dizem os livros de História, em 1750, no Tratado de Madri, os reis de Portugal e de Espanha decidiram se unir para destruir as comunidades das missões, cuidadas pelos jesuítas. Os Guarani decidiram resistir porque consideravam a terra como dom de Deus e eles tinham que defender a liberdade da terra e a relação íntima entre aquela terra sagrada e o povo que dela cuidava. Os portugueses e espanhóis atacaram os índios com canhões e morteiros. Os índios resistiram com flechas e pedras.

Sepé, cujo nome indígena não parece ter sido esse, foi o líder guerreiro que uniu o povo guarani na luta contra os exércitos espanhol e português. Sepé unificou os índios das sete povoações missioneras com o grito: “Esta terra tem dono”. Até hoje, esse grito ressoa nas lutas indígenas e é reconhecido como legítimo por todos os que têm senso de justiça. Sepé morreu vítima de uma emboscada armada no arroio Caiboaté. Milhares de índios foram mortos ou se espalharam pelas florestas, escondidos para sobreviver. Até hoje, o grito de Sepé Tiaraju, o cacique guarani, ressoa nas lutas indígenas.

A luta dos dois impérios europeus contra os Guarani foi imortalizada no filme A missão, dirigido em 1986, pelo cineasta inglês Roland Joffé com a inesquecível trilha sonora de Ennio Morricone. Mesmo se a história foi romantizada, revela os fatos históricos como eles aconteceram.

Há séculos, o povo o considera São Sepé. Só agora, com o papa Francisco, o Vaticano acolheu o pedido para reconhecê-lo como santo católico. Isso significa que a causa dos povos indígenas não é só uma luta social e política justa. É isso, mas se torna também apelo espiritual através do qual o Espírito Divino se manifesta presente no mundo e nos ilumina.

Agora, depois de séculos de resistência a tantas violências e perseguições, a fidelidade dos povos indígenas à unidade da comunidade, à preservação de suas culturas de origem e a profunda comunhão com a mãe Terra e a natureza se tornam para os cristãos um verdadeiro testemunho (martírio). É o que aparece no testemunho de Marcelo Grondin e Moema Viezzer. Estes companheiros, desde jovens consagrados às melhores causas da humanidade, conseguiram resumir brilhantemente essa história no livro: Abya Yala, que tem como subtítulo: O maior genocídio da história da humanidade: mais de 70 milhões de vítimas entre os povos originários das Américas. (Editora Bambual, 2020).

O livro de Marcelo Grondin e Moema Viezzer conta com um belo e profundo prefácio de Aílton Krenak, o primeiro índio brasileiro a ganhar o prêmio Juca Pato de intelectual do ano 2020.

Este  livro nos conduz a uma peregrinação aos locais de martírio de todos os povos indígenas das Américas. Conseguem contar uma história terrível e arrepiante, sem, entretanto, jamais ceder à desesperança, nem cair na incitação do ódio. Quem lê esse livro impressionante, não pode deixar de concluir: Os povos indígenas podem ser nossos mestres em como resistir nesses dias maus que vivemos Ao ler o livro, celebramos ainda de forma mais profunda a admiração e a gratidão ao ver as novas formas de resistência, de articulação e de profecia dos povos indígenas em nosso continente. 

 Temos de nos unir e nos solidarizar aos parentes, indígenas de todos os povos originários do continente, companheiros e companheiras nas tribulações provocadas pelo Capitalismo e no testemunho do projeto divino no mundo.

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 14 de julho de 2020

POVOS INDÍGENAS, IGREJAS E MISSÃO


Por Marcelo Barros

O mundo inteiro já sabe que o projeto mais profundo do atual governo federal brasileiro é exterminar de vez todos os povos indígenas do Brasil. Diariamente, através de latifundiários, garimpeiros e madeireiros, o governo ataca impiedosamente aldeias e ameaça a vida de índios em todos os estados brasileiros. Nestes dias, a mais eficiente arma desta guerra do ódio tem sido o Coronavírus. Dos 305 povos indígenas em contato com a sociedade dominante, até o final de junho, 101 povos tinham pessoas contagiadas. Nas aldeias indígenas, o contágio chega a 84% acima da média nacional. Em vários povos, como os Xicrim no Pará e os Guarani Kaiwá no Mato Grosso do Sul, o contágio atinge proporções de epidemia. No entanto, como para todos os brasileiros, a maioria das mortes não se deve apenas ao vírus e sim ao descuido, desatenção e falta de tratamento, provocados pela atitude irresponsável e cruel do governo.

Diante disso, muita gente se pergunta o que as Igrejas cristãs, principalmente a Igreja Católica tem feito para atuar em favor da vida e defender as comunidades indígenas. Em 2019, o papa Francisco, junto com bispos e missionários/as de todo o mundo, reunidos no Sínodo para a Amazônia, propuseram uma evangelização baseada no diálogo respeitoso e no reconhecimento da presença divina em todas as religiões e culturas.

De fato, essa postura é nova como posição de um papa e de grande parte dos pastores, missionários e missionárias que atuam na região. Durante séculos, desde os tempos da colonização, as Igrejas confundiram missão com conquista. No lugar de testemunhar o evangelho de Jesus, serviram aos interesses dos impérios. As principais vítimas desse sistema foram os povos originários que há milênios vivem nesse continente. No entanto, sempre houve uma minoria de cristãos e pastores que defendia a causa indígena. Marginalizados pela cúpula eclesiástica e perseguidos pelo Império, insistiam: a missão não pode estar ligada à colonização.

Em toda a América Latina, 17 de julho lembra o falecimento da figura mais conhecida que defendeu essas posições. Foi Bartolomeu de las Casas, missionário dominicano em Santo Domingos e, depois, primeiro bispo de Chiapas, no sul do México. Entre os missionários europeus, foi o primeiro e grande  defensor da dignidade dos índios contra o sistema colonizador e escravagista. Ele tinha vindo da Espanha para a América no começo da colonização para ser senhor de escravos. No entanto, ao ver o sofrimento dos índios, se converteu e se tornou missionário e teólogo para lutar contra a escravidão. Defendeu a dignidade dos índios e escreveu o primeiro tratado de teologia e espiritualidade que ensina: nos corpos dos índios escravizados, é o próprio Jesus Cristo que é explorado.

Atualmente, quase cinco séculos depois, podemos lamentar que ao protestar contra a escravidão indígena, Las Casas não tenha sabido denunciar o próprio sistema colonizador em si mesmo. Há quem o acuse de ter aceito o tráfico e a escravidão dos africanos para substituir os índios nas minas e engenhos da colonização. Não há provas disso. O tráfico de africanos sequestrados para ser escravos na América floresceu mais a partir das últimas décadas do século XVI, quando Bartolomeu de las Casas já tinha morrido. Seja como for, mesmo com contradições inerentes à época, até hoje, os escritos desse grande missionário são referência para nova concepção de missão e de leitura da história a partir das vítimas.  

Nestes dias, a Netflix disponibiliza para acesso a primeira temporada da série A índia Catalina, figura mítica, fundadora da cidade de Cartagena de Índias, na Colômbia. Uma das personagens da série que aparece em vários capítulos é o frei Bartolomeu de las Casas. Apesar de mostra-lo como homem bom e amigo dos índios, o apresenta como funcionário do vice-reinado, o que nunca ele aceitaria ser.

No decorrer da história da Igreja, o modelo de missão inspirado na espiritualidade social libertadora se tornou conhecido como “lascasiana”. Hoje, a espiritualidade lascasiana rejeita qualquer intento de missão que tenha como objetivo conquistar adeptos para a fé. Só a fé vivida como diálogo valoriza a presença divina em toda realidade humana e respeita a diversidade das culturas. A memória de Las Casas nos chama a defender a vida e a liberdade dos índios por motivos humanos e sociais e por exigência espiritual da fé. Não podemos aceitar projetos de desenvolvimento que não levem em consideração o respeito aos povos indígenas e suas culturas. Em um diálogo com os índios, na cidade de Puerto Maldonado, na Amazônia peruana, em janeiro de 2018, o papa Francisco pediu aos líderes indígenas que ajudassem a formar uma Igreja com rosto amazônico e indígena. Que a memória de Bartolomeu de las Casas nos ajude neste caminho.