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quarta-feira, 25 de agosto de 2021

“VIDA EM PRIMEIRO LUGAR”: GRITO DOS EXCLUÍDOS EM TEMPOS DE PANDEMIAS

  Francisco de Aquino Júnior




Desde 1995 Igrejas e organizações populares realizam no dia 7 de setembro o grito dos excluídos. É um dia simbólico no país que mobiliza sentimentos patrióticos: pertença a um povo, unidade, amor à pátria, símbolos comuns. Sentimentos que constituem e dão identidade a um povo e são a base de um projeto de nação. Mas o que deveria ser ocasião de celebração da fraternidade e compromisso com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna (verdadeiro patriotismo), tornou-se ocasião de ostentação e exaltação do poder militar a serviço das elites do país (desfile militar, palanque das elites).

Frente a esse patriotismo elitista-miliar (Brasil das elites), o Grito dos Excluídos ecoa como expressão e convocação de verdadeiro patriotismo (Brasil de todos): 

·       reúne igrejas, organizações populares, estudantes etc. em torno da justiça social que é o fundamento de um projeto ético-religioso de sociedade; 

·       denuncia as injustiças sociais, as violações e negações dos direitos humanos e a criminalização das lutas e organizações populares; 

·       celebra as lutas e conquistas sociais de comunidades e organizações populares;

·       reivindica direitos de grupos e comunidades locais e políticas públicas que garantam direitos da classe trabalhadora e dos setores marginalizados da sociedade.

Como no ano passado, o Grito dos Excluídos acontece de novo no meio da pandemia da Covid-19. Se uma pandemia é sempre uma tragédia, quando ela está associada à pandemia das injustiças e desigualdades sociais suas consequências são muito mais trágicas para as populações pobres. No caso do Brasil, a situação é ainda mais agravada pela pandemia política de um desgoverno que banaliza a morte de milhares de pessoas e atenta contra a saúde pública, estimulando e provocando desrespeito às medidas de proteção sanitária: Quase 600 mil pessoas já morreram sem ter sequer um velório e um sepultamento digno. Muitas vidas poderiam ter sido poupadas se tivéssemos um governo e uma política de saúde que respeitassem o povo, a ciência, o dinheiro público e as autoridades sanitárias. O desemprego cresceu assustadoramente. De agosto de 2020 a fevereiro de 2021 o número de pessoas vivendo na extrema pobreza passou de 9,5 para mais de 27 milhões. E a CPI da Covid tem revelado indícios graves de corrupção na compra de vacinas, envolvendo governo e empresas privadas.

Como cristãos e como sociedade organizada não podemos ficar indiferentes a essa situação nem cruzar nossos braços. Temos que reagir e gritar por “vacina no braço e comida no prato”, por auxílio emergencial, por trabalho e moradia, pela suspensão de reintegração de terra, contra a corrupção na compra de vacinas… O grito fundamental é sempre o mesmo: Vida em primeiro lugar! E isso se traduz e se concretiza sempre na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda

A pandemia da Covid-19 exige de nós muito cuidado e responsabilidade com a saúde do nosso povo. Alguns grupos/coletivos acham que não é prudente promover eventos que provoquem grandes aglomerações. Outros insistem que o contexto atual exige mobilização de rua com todos os cuidados necessários. Mantendo sempre o cuidado com a saúde pública, importa usar nossa criatividade e fazer ecoar nossos gritos.  

Muita coisa pode ser feita na preparação e realização do grito: Círculos bíblicos; debates online; encontros de formação, live cultural; programas de rádio; momentos orantes e celebrativos; pequenos vídeos com gritos locais e nacionais a serem postados nas redes sociais; faixas e outdoors; atividade de rua na comunidade ou bairro com cruzes, velas, bandeiras, cartazes (caminhada, alvorada); passeatas, protestos etc.

Importa fazer ecoar nossos gritos. Importa despertar e congregar sentimentos de fraternidade e solidariedade. Importa mobilizar e articular forças sociais e políticas para a reconstrução do país segundo a justiça social que se concretiza na afirmação e garantia dos direitos dos pobres e marginalizados – sinal, critério e medida de realização do reinado de Deus em nosso meio que é um reinado de fraternidade, justiça e paz.

Vida em primeiro lugar!

Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia,
trabalho e renda já!

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

terça-feira, 23 de março de 2021

ÁGUA E AS PANDEMIAS DA HUMANIDADE



Marcelo Barros

 

Este é o segundo ano no qual celebramos o dia internacional da água em plena pandemia. Lavar as mãos e cuidar mais da higiene pessoal são preocupações primárias para todos. No entanto, como cumprir essas exigências sanitárias em um Brasil no qual água e saneamento ainda parecem luxos aos quais grande parte das pessoas não têm acesso?

 Conforme dados oficiais, quase metade da população do Brasil continua sem acesso a sistemas de esgotamento sanitário. Quase 100 milhões de pessoas, ou seja, 47% dos brasileiros, utilizam medidas alternativas para lidar com os dejetos – seja através de uma fossa, seja jogando o esgoto diretamente em rios. Além disso, mais de 16% da população, ou quase 35 milhões de pessoas, não têm acesso à água tratada, e apenas 46% dos esgotos gerados nos país são tratados.

O fato da ONU consagrar o dia 22 de março como “Dia internacional da Água” nos recorda que, além da pandemia, vivemos uma crise que abrange toda a humanidade e afeta o planeta Terra. O modo de organizar o mundo, baseado na exploração de seres humanos e na destruição da natureza não tem mais sustentação. Dos mais de sete bilhões de pessoas que habitam a face do planeta, apenas 1% goza os privilégios desta sociedade consumista e predadora da humanidade e da Terra.

A consciência dos limites do planeta começou surgir a partir da década de 60, mas aprofundou-se na década de 70 e generalizou-se a partir da década de 80. Entre todos os bens da Terra e da Vida, o mais ameaçado é a Água. É o maior problema ecológico de nossos tempos e é motivo de conflitos e guerras entre vários povos em quase todos os continentes. Se um bilhão e duzentos milhões de seres humanos não têm acesso à água potável e milhões de crianças, em muitos países pobres, morrem em conseqüência do uso de águas impróprias para a saúde, não podemos mais não cuidar com prioridade desta questão. O uso que a sociedade faz da água aumenta sempre. Enquanto isso, por causa da poluição e do aquecimento global, os rios diminuem de volume normal. Muitos estão agonizantes, como o São Francisco. Na região amazônica, grandes rios contaminados por mercúrio. Em Minas Gerais e outras regiões do país, rios mortos pelos elementos tóxicos jogados pelas barragens das mineradoras. A cada dia, em todas partes, as fontes de água diminuem e o uso das águas continua predatório.

Essa realidade ainda se torna mais problemática porque a sociedade capitalista transforma a água em mercadoria e a privatiza. Empresas como a Coca-Cola, a Nestlê e Danoni se tornam donas de fontes de águas. Atualmente, todas as fontes minerais da cidade de São Lourenço, MG e a própria água que serve à cidade são propriedade particular da Coca-cola e são vendidas como mercadoria. 

Muitos grupos da sociedade civil têm se mobilizado contra este crime. O Uruguai conseguiu passar uma lei na nova Constituição Federal que proclama claramente: “A Água é uma necessidade e direito de todos os seres vivos. Por isso, não poderá ser privatizada nem mercantilizada”.

A resistência contra a mercantilização da água continua difícil e violenta. Basta lembrar a lei que privatiza o saneamento, lei sancionada pelo atual presidente em 15. 07. 2020. Mas, a organização da sociedade civil mais consciente e os grupos ecológicos não descansam. Grupos organizados aceitam pagar os serviços da empresa que nos traz água até em casa, mas não pagar pela água.

Na Itália, em 2004, as comunidades se organizaram e conseguiram obter uma grande vitória: obrigaram 136 prefeituras a retirar a deliberação – já muitas vezes, implementada – de privatizar a água. De lá para cá, a luta se ampliou e espalhou-se por outras regiões e países.

É importante que todos/as tomem consciência do problema. É urgente educar-se e educar os seus a tomar todo cuidado para poupar água, proteger rios e fontes próximos à sua casa ou em sua região. Além de cuidar do consumo da água na própria casa e outros espaços que frequenta, quem tem possibilidades, pode formar espontânea e civilmente comissões de defesa das bacias hidrográficas, previstas em lei federal ou participar ativamente nos Comitês de Bacias Hidrográficas onde eles já foram implementados.  

No Brasil e em todo o mundo existem várias organizações consagradas à luta pela democratização da Água. Elas pedem à ONU que proclame a Água como bem comum da humanidade e direito universal de todo ser vivo. Em todas as regiões, se podem participar dessas associações. Assumir, individual e coletivamente,  a responsabilidade desta questão vital e juntar-se a  todas e todos que se propõem a ser Guardiões da Água é fazer com que a Paz e a Justiça possam ocorrer no mundo.   

 

 

 






Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

POVOS INDÍGENAS CONTRA AS PANDEMIAS DO ÓDIO

  


Marcelo Barros

 

Neste momento no qual, em todo o território nacional, os povos indígenas são ameaçados em sua existência física e nas suas culturas, é mais urgente do que nunca recordar o aniversário do martírio do índio Sepé Tiaraju que no sul do Brasil é considerado santo e se tornou até nome de cidade no Rio Grande do Sul: São Sepé.  É no dia 07 de fevereiro que as comunidades do Rio Grande do Sul celebram o aniversário deste grande mártir indígena.

Como dizem os livros de História, em 1750, no Tratado de Madri, os reis de Portugal e de Espanha decidiram se unir para destruir as comunidades das missões, cuidadas pelos jesuítas. Os Guarani decidiram resistir porque consideravam a terra como dom de Deus e eles tinham que defender a liberdade da terra e a relação íntima entre aquela terra sagrada e o povo que dela cuidava. Os portugueses e espanhóis atacaram os índios com canhões e morteiros. Os índios resistiram com flechas e pedras.

Sepé, cujo nome indígena não parece ter sido esse, foi o líder guerreiro que uniu o povo guarani na luta contra os exércitos espanhol e português. Sepé unificou os índios das sete povoações missioneras com o grito: “Esta terra tem dono”. Até hoje, esse grito ressoa nas lutas indígenas e é reconhecido como legítimo por todos os que têm senso de justiça. Sepé morreu vítima de uma emboscada armada no arroio Caiboaté. Milhares de índios foram mortos ou se espalharam pelas florestas, escondidos para sobreviver. Até hoje, o grito de Sepé Tiaraju, o cacique guarani, ressoa nas lutas indígenas.

A luta dos dois impérios europeus contra os Guarani foi imortalizada no filme A missão, dirigido em 1986, pelo cineasta inglês Roland Joffé com a inesquecível trilha sonora de Ennio Morricone. Mesmo se a história foi romantizada, revela os fatos históricos como eles aconteceram.

Há séculos, o povo o considera São Sepé. Só agora, com o papa Francisco, o Vaticano acolheu o pedido para reconhecê-lo como santo católico. Isso significa que a causa dos povos indígenas não é só uma luta social e política justa. É isso, mas se torna também apelo espiritual através do qual o Espírito Divino se manifesta presente no mundo e nos ilumina.

Agora, depois de séculos de resistência a tantas violências e perseguições, a fidelidade dos povos indígenas à unidade da comunidade, à preservação de suas culturas de origem e a profunda comunhão com a mãe Terra e a natureza se tornam para os cristãos um verdadeiro testemunho (martírio). É o que aparece no testemunho de Marcelo Grondin e Moema Viezzer. Estes companheiros, desde jovens consagrados às melhores causas da humanidade, conseguiram resumir brilhantemente essa história no livro: Abya Yala, que tem como subtítulo: O maior genocídio da história da humanidade: mais de 70 milhões de vítimas entre os povos originários das Américas. (Editora Bambual, 2020).

O livro de Marcelo Grondin e Moema Viezzer conta com um belo e profundo prefácio de Aílton Krenak, o primeiro índio brasileiro a ganhar o prêmio Juca Pato de intelectual do ano 2020.

Este  livro nos conduz a uma peregrinação aos locais de martírio de todos os povos indígenas das Américas. Conseguem contar uma história terrível e arrepiante, sem, entretanto, jamais ceder à desesperança, nem cair na incitação do ódio. Quem lê esse livro impressionante, não pode deixar de concluir: Os povos indígenas podem ser nossos mestres em como resistir nesses dias maus que vivemos Ao ler o livro, celebramos ainda de forma mais profunda a admiração e a gratidão ao ver as novas formas de resistência, de articulação e de profecia dos povos indígenas em nosso continente. 

 Temos de nos unir e nos solidarizar aos parentes, indígenas de todos os povos originários do continente, companheiros e companheiras nas tribulações provocadas pelo Capitalismo e no testemunho do projeto divino no mundo.

 

 Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 57 livros dos quais o mais recente é "Teologias da Libertação para os nossos dias", Ed. Vozes, 2019. Email: irmarcelobarros@uol.com.br