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terça-feira, 12 de setembro de 2023

No grito dos excluídos, o Mutirão da Profecia


Marcelo Barros


Nesta próxima semana, ao mesmo tempo que, por todo o Brasil,

acontecem cerimônias e eventos que recordam a independência do nosso

país, também as categorias mais pobres expressarão o seu grito por Vida e

por Libertação. Desde 1995, as comemorações da independência do Brasil

têm sido marcadas pelas manifestações populares que se chamam Grito dos

Excluídos. Esse evento teve origem em meio às pastorais sociais ligadas à

CNBB na realização da 2ª Semana Social Brasileira. E embora tenha sido

iniciativa das pastorais sociais, desde o começo, o Grito dos Excluídos e

excluídas se abriu à participação dos movimentos populares e de entidades

cristãs ecumênicas como o CONIC, Conselho Nacional de Igrejas Cristãs.

Neste ano, o 29º Grito tem como sempre o tema: “Vida em

Primeiro Lugar” . O lema é a pergunta: “Você tem Fome e Sede de Quê?”.

A ideia é provocar entre o povo o diálogo baseado na escuta sobre essas

questões. O objetivo é responder quais as fomes e sedes que o nosso povo

sente. Assim, a partir dos anseios do povo mais empobrecido, poderemos

buscar soluções que acabem com toda forma de exclusão e violência.

Atualmente, de norte a sul, em todo o país, há mobilizações do

Grito dos Excluídos. Realiza-se como manifestação coletiva que se soma à

construção em processo da 6ª Semana Social Brasileira. Estão mobilizadas

as pastorais de Igrejas cristãs, movimentos populares e pessoas de boa

vontade sensíveis aos sofrimentos dos mais pobres para que possamos

defender e garantir os direitos dos pobres e marginalizados. Desde os seus

inícios, o Grito dos Excluídos e excluídas nos confirma que não há

verdadeira independência do país, se a imensa maioria do povo vive em

condições de pobreza injusta e de insegurança alimentar. Só poderemos

considerar o país independente no dia em que conseguirmos superar a

imensa desigualdade social e garantir os direitos fundamentais à Vida, à

alimentação, à educação, à moradia e à saúde para todos os brasileiros e

brasileiras.


Essa realidade que vivemos hoje tem profundas raízes no sistema

da colonização que se instalou em nosso continente há mais de 500 anos e

se fortaleceu através das tentativas de extermínio dos povos indígenas e da

escravização dos povos sequestrados na África. Infelizmente, ao legitimar

essa estrutura iníqua, a Igreja Católica e outras Igrejas cristãs contraíram

uma dívida histórica com as populações vítimas desse sistema. Cumpre

agora saldar essa dívida.


Desde tempos imemoriais, os impérios usaram as religiões e os

cultos para se perpetuarem no poder. Por isso, durante toda a história, em

diversas culturas e nas mais diferentes linguagens espirituais, surgiram


profetas e profetizas que protestaram contra a religião usada como

instrumento do poder para dominar as pessoas. Na Bíblia, os antigos

profetas e profetizas sempre insistiram que o nome de Deus é Justiça

libertadora. Maria, mãe de Jesus cantou que se Deus é Deus, derruba do

trono os poderosos e eleva os pequenos. Na sinagoga de Nazaré, Jesus

afirma que o Espírito Divino desceu sobre ele para realizar a libertação de

todas as pessoas oprimidas. Não foi por engano que os funcionários do

templo e da religião ritual o prenderam e o entregaram aos militares

romanos para ser condenado a morrer na cruz!


Atualmente, Francisco, bispo de Roma, propõe uma Igreja em

saída que cuida dos migrantes, dos pobres e das populações excluídas,

apesar de um grande número de padres e bispos se agarrarem a uma

religião autocentrada e tentarem reativar o Catolicismo barroco de tempos

passados.

Diante disso, cristãos de várias Igrejas têm sentido o chamado divino para

reafirmar o caráter profético da fé cristã e querem unir as suas vozes ao 29º

Grito dos Excluídos através do Mutirão da Profecia.


É preciso dizer claramente ao mundo que a fé e a espiritualidade

devem tornar as pessoas mais humanas e atentas ao cuidado dos pobres.

Para isso, temos os sacramentos da Igreja, que, ou são sinais de partilha e

comunhão de vida para todos e todas, ou não são de Jesus Cristo. Assim, a

fé no Evangelho que Jesus anunciou como boa nova de libertação para toda

a humanidade nos levará a clamar que ninguém passe fome nem sede.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

O Grito dos 200 anos e gritos de cinco séculos

Marcelo Barros


 

Por todo o Brasil ecoam os preparativos para as comemorações do 7 de setembro, quando se completam 200 anos do lendário grito da independência do Brasil, em relação ao reino de Portugal. A história mostra que o Brasil apenas mudou de donos. A imensa maioria da população continuou na servidão e na dependência de uma minoria que se adapta às conveniências do momento, mas mantém o controle social e merece bem o nome dado por Jessé de Souza: “a elite do atraso”.

Desde que os europeus invadiram essas terras, escravizaram os povos originários deste continente e sequestraram milhões de africanos/as como escravos/as, o povo oprimido nunca deixou de se organizar, lutar por seus direitos e sempre gritar por vida e dignidade.

Agora, no contexto das comemorações oficiais dos 200 anos da (in)dependência e da instrumentalização político-partidária que o atual desgoverno federal ameaça fazer no dia 7 de setembro, é importante nos juntarmos todos e todas no Grito dos Excluídos e Excluídas.

Será o 28º grito organizado, a partir da iniciativa, que, desde 1995, reúne movimentos populares e pastorais sociais da Igreja Católica e grupos ecumênicos de outras confissões de fé para gritar “A vida em primeiro lugar”. De modo especial, o grito deste ano ecoará o grito que, por cinco séculos, denuncia o genocídio praticado contra os povos originários, revela a crueldade imensa contra os povos negros e o racismo estrutural que faz do Brasil um dos países mais desiguais e violentos do mundo. 

Esse 28º Gritos dos excluídos e excluídas toma como tema: “Vida em primeiro lugar. Terra, Teto e Democracia. Brasil, 200 anos de (In)dependência. Para quem?”. De fato, como falar em independência, quando trinta milhões de brasileiros/as passam fome e um número bem maior vive em insegurança alimentar? Como fazer festa quando nossas cidades e capitais têm seus centros convertidos em ruínas, como depois de uma guerra?

Nossas praças abrigam uma multidão de pessoas sem teto e sem trabalho, que com suas famílias, tentam sobreviver nos escombros do que antes era um país que, há mais de uma década, tinha saído do mapa da fome.   

O  Grito  dos  Excluídos  e  Excluídas não se restringe apenas a uma manifestação de rua que ocorre no dia 7 de setembro. Significa um conjunto de iniciativas que se dão em um processo de construção coletiva de cuidado popular, de debates e mobilizações nas áreas da educação, saúde e  defesa da natureza agredida. Tudo para que a vida das pessoas  e da Mãe- Terra esteja em primeiro lugar.

Esta mobilização dos Mutirões pela Vida coincide com a campanha eleitoral mais importante e mais difícil das últimas décadas. Para que, de fato, possamos caminhar para uma verdadeira independência do nosso povo, precisamos garantir que a mentira não seja vencedora. O  restabelecimento da democracia, mesmo formal, depende do nosso voto.

Nesse momento, é importante que as pessoas que professam qualquer religião ou simplesmente buscam uma espiritualidade humana testemunhem que, se Deus existe, só pode ser Amor e Justiça. Deus não é de direita e está do lado do povo que busca por Terra, Teto e Democracia. 

 

 

 

 

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

“VIDA EM PRIMEIRO LUGAR”: GRITO DOS EXCLUÍDOS EM TEMPOS DE PANDEMIAS

  Francisco de Aquino Júnior




Desde 1995 Igrejas e organizações populares realizam no dia 7 de setembro o grito dos excluídos. É um dia simbólico no país que mobiliza sentimentos patrióticos: pertença a um povo, unidade, amor à pátria, símbolos comuns. Sentimentos que constituem e dão identidade a um povo e são a base de um projeto de nação. Mas o que deveria ser ocasião de celebração da fraternidade e compromisso com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna (verdadeiro patriotismo), tornou-se ocasião de ostentação e exaltação do poder militar a serviço das elites do país (desfile militar, palanque das elites).

Frente a esse patriotismo elitista-miliar (Brasil das elites), o Grito dos Excluídos ecoa como expressão e convocação de verdadeiro patriotismo (Brasil de todos): 

·       reúne igrejas, organizações populares, estudantes etc. em torno da justiça social que é o fundamento de um projeto ético-religioso de sociedade; 

·       denuncia as injustiças sociais, as violações e negações dos direitos humanos e a criminalização das lutas e organizações populares; 

·       celebra as lutas e conquistas sociais de comunidades e organizações populares;

·       reivindica direitos de grupos e comunidades locais e políticas públicas que garantam direitos da classe trabalhadora e dos setores marginalizados da sociedade.

Como no ano passado, o Grito dos Excluídos acontece de novo no meio da pandemia da Covid-19. Se uma pandemia é sempre uma tragédia, quando ela está associada à pandemia das injustiças e desigualdades sociais suas consequências são muito mais trágicas para as populações pobres. No caso do Brasil, a situação é ainda mais agravada pela pandemia política de um desgoverno que banaliza a morte de milhares de pessoas e atenta contra a saúde pública, estimulando e provocando desrespeito às medidas de proteção sanitária: Quase 600 mil pessoas já morreram sem ter sequer um velório e um sepultamento digno. Muitas vidas poderiam ter sido poupadas se tivéssemos um governo e uma política de saúde que respeitassem o povo, a ciência, o dinheiro público e as autoridades sanitárias. O desemprego cresceu assustadoramente. De agosto de 2020 a fevereiro de 2021 o número de pessoas vivendo na extrema pobreza passou de 9,5 para mais de 27 milhões. E a CPI da Covid tem revelado indícios graves de corrupção na compra de vacinas, envolvendo governo e empresas privadas.

Como cristãos e como sociedade organizada não podemos ficar indiferentes a essa situação nem cruzar nossos braços. Temos que reagir e gritar por “vacina no braço e comida no prato”, por auxílio emergencial, por trabalho e moradia, pela suspensão de reintegração de terra, contra a corrupção na compra de vacinas… O grito fundamental é sempre o mesmo: Vida em primeiro lugar! E isso se traduz e se concretiza sempre na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda

A pandemia da Covid-19 exige de nós muito cuidado e responsabilidade com a saúde do nosso povo. Alguns grupos/coletivos acham que não é prudente promover eventos que provoquem grandes aglomerações. Outros insistem que o contexto atual exige mobilização de rua com todos os cuidados necessários. Mantendo sempre o cuidado com a saúde pública, importa usar nossa criatividade e fazer ecoar nossos gritos.  

Muita coisa pode ser feita na preparação e realização do grito: Círculos bíblicos; debates online; encontros de formação, live cultural; programas de rádio; momentos orantes e celebrativos; pequenos vídeos com gritos locais e nacionais a serem postados nas redes sociais; faixas e outdoors; atividade de rua na comunidade ou bairro com cruzes, velas, bandeiras, cartazes (caminhada, alvorada); passeatas, protestos etc.

Importa fazer ecoar nossos gritos. Importa despertar e congregar sentimentos de fraternidade e solidariedade. Importa mobilizar e articular forças sociais e políticas para a reconstrução do país segundo a justiça social que se concretiza na afirmação e garantia dos direitos dos pobres e marginalizados – sinal, critério e medida de realização do reinado de Deus em nosso meio que é um reinado de fraternidade, justiça e paz.

Vida em primeiro lugar!

Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia,
trabalho e renda já!

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

GRITO DOS EXCLUÍDOS


por Frei Betto

       Há décadas o 7 de setembro, data da independência do Brasil em relação à coroa portuguesa, é comemorado pelas pastorais sociais de Igrejas cristãs e movimentos sociais de nosso país como o dia do Grito dos Excluídos.

       Os temas variam de ano a ano, embora haja íntima conexão entre eles. Este ano é a democracia e a defesa dos direitos dos trabalhadores, que no Brasil andam capengas. Somos governados por um executivo que retrocede direitos historicamente conquistados, e cujas principais figuras estão convocadas a sentar no banco dos réus e responder pelos graves crimes de que são acusados.

       Somos governados por um legislativo que majoritariamente atua de costas para os seus eleitores, já que 95% da população desaprova o governo Temer e 81% considera que o presidente deveria responder pelos crimes que lhe pesam aos ombros perante a suprema corte do país.

       Somos governados por um judiciário que se agarra como carrapato às mais aberrantes mordomias, recebe vultosos salários engordados por penduricalhos, e pratica com frequência o nepotismo (parentes e amigos não merecem cadeia).

       A democracia brasileira exclui o acesso de todos ao bem-estar, já que temos 14 milhões de desempregados, 60 milhões de pessoas endividadas e 63 milhões de trabalhadores que ganham por mês menos de dois salários mínimos, dos quais 47 milhões ficam com menos de um.

       Nossa economia não prioriza a inclusão social, e sim o crescimento do PIB. Prefere a especulação à produção. A exclusão econômica e social faz do Brasil uma das nações mais desiguais do mundo. Nas relações pessoais, a exclusão se manifesta no racismo, no machismo, na homofobia, e esta modalidade demoníaca que consiste em discriminar e agredir quem abraça uma prática religiosa diferente da minha.

       A exclusão se estende até mesmo à natureza, vilipendiada em função dos interesses do capital, como o comprova o desmatamento da Amazônia, a poluição de nossos rios e mares, a impunidade de graves crimes ambientais como o provocado pela Samarco no Vale do Rio Doce.

       Há muitas formas de exclusão. A social, que retalha a população em classes objetivamente antagônicas; a cultural, indiferente às expressões artísticas das esferas populares; a semântica, que por ofensas introduz a divergência onde deveria haver apenas diferença.

       Hoje, muitos europeus se sentem incomodados com a chegada de refugiados cujos países, durante décadas, foram saqueados e oprimidos pelas potências europeias. Trump promete erguer um muro entre o seu país e o México, sem admitir que a extensão territorial dos EUA resulta da anexação do Texas, em 1845 e, logo em seguida, do Novo México e da Califórnia.

       Que tipo de gente eu não suporto? A resposta a esta pergunta aponta quem são aqueles que excluo ou apoio quem os exclui. Há exclusões violentas, como as praticadas pelos adeptos da Ku Klux Klan e os assassinos de homossexuais; exclusões preconceituosas, como a de brancos que se julgam superiores aos indígenas; e a autoexclusão de quem cruza os braços ou se entrega à apatia e à indiferença diante de crises como a que o Brasil atravessa.

       O protótipo da prática da não exclusão ou da solidária inclusão, sem nenhuma atitude de preconceito ou discriminação, foi Jesus de Nazaré. Acolheu o cego, o coxo, o hanseniano, e proclamou que todo ser humano é templo vivo de Deus. Acolheu o centurião romano que professava o paganismo; a samaritana que tivera cinco maridos e, agora, vivia com um sexto homem; a prostituta que lhe perfumou os pés e os enxugou com os cabelos. 

       Jesus acolheu pecadores e enfermos, ricos como Zaqueu e pobres como Bartimeu, o cego que mendigava à entrada de Jericó. Não acolheu, contudo, os promotores da exclusão, como os religiosos moralistas; o governador Herodes Antipas, corrupto e assassino; o homem rico que se recusou a partilhar seus bens com os necessitados.

        Data cívica, o 7 de setembro mereceria ser a festa de uma democracia inclusiva, na qual o desfile das forças armadas fosse substituído por uma grande manifestação cívica das forças amadas

Frei Betto é escritor, autor de “Reinventar a vida” (Vozes), entre outros livros.
 Copyright 2017 – FREI BETTO – Favor não divulgareste artigo sem autorização do autor. Se desejar divulgá-los ou publicá-los em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, entre em contato para fazer uma assinatura anual. – MHGPAL – Agência Literária (mhgpal@gmail.com)  

 http://www.freibetto.org/>    twitter:@freibetto.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

O GRITO DOS EXCLUÍDOS E A ESPIRITUALIDADE


Por Marcelo Barros

No dia 7 de setembro, quando o Brasil comemora o aniversário da proclamação da sua independência, as organizações e movimentos populares se juntam para promover o Grito do/as Excluídos/as. Criado por iniciativa da Igreja Católica, o Grito é um contraponto ao ufanismo da parada militar e civil do Dia da Pátria e já está em sua 23ª edição. Com criatividade, bom humor e senso crítico, ele vem mostrar a realidade brasileira vista pelo avesso – a realidade da população mais pobre, cada vez mais marginalizada  excluída dos privilégios que a elite desfruta.
 O Brasil continua sendo, no mundo, um dos países campeões de desigualdade social. Atualmente, o governo e o Congresso brasileiro mexem impunemente na Constituição do país e retiram direitos assegurados dos índios, trabalhadores e aposentados. Tomam várias medidas que isolam o Brasil da comunidade das nações latino-americanas e entregam o petróleo e as riquezas do país às empresas multinacionais. Recentemente, o presidente da República comprou publicamente os congressistas para que esses fechassem os olhos às denúncias de crime e desvio de conduta ética do chefe do governo.
Mesmo se as pesquisas revelam que o presidente detém uma taxa de aceitação mínima por parte da população, não se veem grandes manifestações. Na internet, grupos espiritualistas afirmam: "Pare de reclamar. Valorize o que há de positivo e seja agradecido com o pouco". Essa mensagem não está de acordo com as antigas e mais profundas tradições espirituais. Na Bíblia, os profetas protestaram contra as injustiças e Jesus foi morto por ter denunciado as opressões do poder político e também do religioso. Em seu tempo, o profeta Isaías gritava: "Ai das pessoas que  chamam o mal de bem e consideram o bem como mal" (Is 5, 20).  Eticamente, não se pode aceitar o sofrimento de qualquer ser humano (e também dos outros seres vivos). É especialmente terrível o sofrimento causado pelas escolhas políticas que fazem os ditos representantes do povo. Cada vez mais, as políticas dependem da economia. Absolutizam o mercado e o lucro. Nos últimos tempos, os responsáveis por essas políticas perderam a vergonha. Tranquilamente provocam situações que criam refugiados, órfãos e uma multidão de excluídos. Apregoam como inevitável uma política sacrificial, que para garantir os privilégios de uma pequena elite condenam à morte milhões de pessoas. Zingmunt Bauman, pensador polonês, amigo do papa Francisco, afirmava que, assim como a segurança de um viaduto depende da solidez da viga mais frágil que o sustenta, também a saúde de uma sociedade depende de como está sua parte mais frágil, ou seja, a parcela mais empobrecida da população. A intuição dos movimentos sociais é que essa população tem de se organizar e lutar por seus direitos. Em todo o Brasil, as pessoas já falam nas eleições presidenciais e do Congresso que devem ocorrer no próximo ano. Recentemente, Frei Betto escreveu em um de seus artigos: "É  um erro jogar nas eleições todas as fichas da nossa esperança em um Brasil melhor. O mais importante é investir no empoderamento popular. Reforçar os movimentos sociais e sindicais, intensificar o trabalho de formação política e consciência crítica, dilatar os espaços de pressão, reivindicação e mobilização. Só conseguiremos mudanças significativas se vierem de baixo para cima".
É responsabilidade de toda pessoa comprometida com a paz e a justiça, apoiar e participar dessas manifestações de cidadania. Nesse 07 de setembro, o 23º Grito dos/as Excluídos/as tem como tema “Vida em primeiro lugar!” e como lema “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”. Assumir, hoje, esse caminho de Jesus significa participar das lutas pacíficas e das manifestações dos movimentos sociais, organizados por um mundo mais justo e mais irmão.


Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O GRITO QUE SE FAZ ORAÇÃO


Por Marcelo Barros

Em carta enviada a todos os bispos do Brasil, a presidência da CNBB convida os bispos a mobilizarem as suas dioceses em um "dia de oração e jejum pelo Brasil". E dizem claramente: "o dia sugerido é o 7 de setembro próximo". A carta é assinada pelo presidente, vice-presidente e secretário-geral da CNBB e se conclui com um modelo de oração já publicada por ocasião da recente festa do Corpo e Sangue de Cristo.

Todas as pessoas que buscam viver a espiritualidade compreendem que os pastores de uma Igreja cristã estimulem o povo de Deus à oração e, sem dúvida, todos estão de acordo que o Brasil atual precisa de oração. No entanto, é bom esclarecer: Oração é um termo genéricoRezar é orar, mas o termo oração engloba um sentido bem mais amplo. Na Bíblia, o termo mais próximo do que chamamos de "oração" é tefillah que significa mais profundamente "serviço do coração".

No primeiro testamento e na espiritualidade judaica, a oração mais consagrada, que as pessoas costumam fazer diariamente, é o Shema Israel. Trata-se de uma oração inspirada no Deuteronômio (Dt 6, 4). Começa por "Escuta, Israel", o que é mais um chamado ao povo e não tanto uma palavra dirigida a Deus. Na Bíblia, o povo de Deus fez uma coleção de suas orações e juntou em um só Livro dos Salmos (Salmo quer dizer Louvor). Dos 150 salmos, a maioria junta, em uma só conversa, 1. a pessoa que ora, 2. a comunidade crente e 3. o povo.

Muitos salmos alternam na mesma oração versos dirigidos a Deus e palavras à comunidade, assim como também denúncias e acusações aos opressores. Treze salmos não são diretamente para Deus. São gritos dos oprimidos contra seus opressores (Vejam, por exemplo, o salmo 2, o salmo 13, o 52, o 73 e assim por diante).

Essa é a espiritualidade que os profetas bíblicos ensinam: nunca separar a oração do grito dos oprimidos. Quando os sacerdotes reduzem tudo ao culto, Deus fala pela boca dos profetas: "Eu rejeito as liturgias e festas de vocês. Tenho horror à fumaça dos incensos" (Is 1, 10 ss). "Eu detesto as festas que vocês fazem. As celebrações não me agradam se o direito e a justiça não escorrerem como água e se tornarem uma corrente poderosa" (Am 5, 21. 24).

Na volta do exílio da Babilônia, um discípulo do profeta Isaías resume isso em uma oração que diz: "Por causa de Sião, não me calarei. Por causa de Jerusalém (do povo), não ficarei quieto, até que a justiça surja como a aurora e a salvação brilhe como uma lâmpada. (...). Sobre tuas muralhas, Jerusalém, coloquei guardiães. Sentinelas para vigiá-las. Dia e noite, eles não se calarão. Vocês que estão lembrando as promessas do Senhor (vocês que rezam), não descansem e não deixem Deus descansar até que ele restaure o seu povo"(Is 62, 1. 6- 7).

Na realidade brasileira, parece que esses profetas de Deus que não se calam até que a justiça seja restaurada são os movimentos e pastorais sociais que vão às ruas no Grito dos Excluídos. É isso que aprendemos no evangelho de Jesus. Ele disse: "Não é a pessoa que diz: Senhor, Senhor, que entra no reino dos céus, mas quem faz a vontade do Pai" (Mt 7, 21). Não podemos resumir aqui tantas palavras de Jesus contra o modo de orar e a espiritualidade religiosa dos escribas e fariseus que desligavam a oração da justiça (Mt 6, 5. 7-8; Mc 12, 38- 40).

Diversas vezes, os evangelhos nos mostram Jesus em oração e em silêncio, durante as noites, como em vigília preparatória para descer da montanha e se inserir na missão de testemunhar o reino de Deus como prática de saúde, de integração social e de libertação para os oprimidos. 

A nossa oração não pode ser a um Deus tapa-buraco, cuja função seria preencher os problemas que não podemos ou não sabemos resolver. Deus não anda esquecido do Brasil e nem precisa que o lembremos de suas obrigações. Certamente, somos nós que não estamos cumprindo bem as nossas responsabilidades, como pessoas de justiça e solidariedade. Não seria sincero manifestar atitudes ambíguas em relação aos poderosos de plantão e depois pedir a Deus que venha corrigir os erros e maldades que os mesmos poderosos executam.

Não podemos propor oração, jejum e silêncio no dia 07 de setembro, sem deixar claro que é para preparar o Grito dos Excluídos. Caso contrário, seria desmoralizar a oração, voltando a fazer como os antigos sacerdotes e escribas do templo um tipo de oração que Jesus criticou. Propor oração sem compromisso social claro e como inserção no meio dos pobres e dos seus gritos por justiça é usar o nome de Deus como a tal bancada que se diz evangélica está fazendo no Congresso. Nesse 07 de setembro, nossa oração deve tomar a forma do 23º Grito dos/as Excluídos/as que tem como tema “Vida em primeiro lugar!” e como lema “Por direitos e democracia, a luta é todo dia”.

Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países