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terça-feira, 30 de agosto de 2022

O Grito dos 200 anos e gritos de cinco séculos

Marcelo Barros


 

Por todo o Brasil ecoam os preparativos para as comemorações do 7 de setembro, quando se completam 200 anos do lendário grito da independência do Brasil, em relação ao reino de Portugal. A história mostra que o Brasil apenas mudou de donos. A imensa maioria da população continuou na servidão e na dependência de uma minoria que se adapta às conveniências do momento, mas mantém o controle social e merece bem o nome dado por Jessé de Souza: “a elite do atraso”.

Desde que os europeus invadiram essas terras, escravizaram os povos originários deste continente e sequestraram milhões de africanos/as como escravos/as, o povo oprimido nunca deixou de se organizar, lutar por seus direitos e sempre gritar por vida e dignidade.

Agora, no contexto das comemorações oficiais dos 200 anos da (in)dependência e da instrumentalização político-partidária que o atual desgoverno federal ameaça fazer no dia 7 de setembro, é importante nos juntarmos todos e todas no Grito dos Excluídos e Excluídas.

Será o 28º grito organizado, a partir da iniciativa, que, desde 1995, reúne movimentos populares e pastorais sociais da Igreja Católica e grupos ecumênicos de outras confissões de fé para gritar “A vida em primeiro lugar”. De modo especial, o grito deste ano ecoará o grito que, por cinco séculos, denuncia o genocídio praticado contra os povos originários, revela a crueldade imensa contra os povos negros e o racismo estrutural que faz do Brasil um dos países mais desiguais e violentos do mundo. 

Esse 28º Gritos dos excluídos e excluídas toma como tema: “Vida em primeiro lugar. Terra, Teto e Democracia. Brasil, 200 anos de (In)dependência. Para quem?”. De fato, como falar em independência, quando trinta milhões de brasileiros/as passam fome e um número bem maior vive em insegurança alimentar? Como fazer festa quando nossas cidades e capitais têm seus centros convertidos em ruínas, como depois de uma guerra?

Nossas praças abrigam uma multidão de pessoas sem teto e sem trabalho, que com suas famílias, tentam sobreviver nos escombros do que antes era um país que, há mais de uma década, tinha saído do mapa da fome.   

O  Grito  dos  Excluídos  e  Excluídas não se restringe apenas a uma manifestação de rua que ocorre no dia 7 de setembro. Significa um conjunto de iniciativas que se dão em um processo de construção coletiva de cuidado popular, de debates e mobilizações nas áreas da educação, saúde e  defesa da natureza agredida. Tudo para que a vida das pessoas  e da Mãe- Terra esteja em primeiro lugar.

Esta mobilização dos Mutirões pela Vida coincide com a campanha eleitoral mais importante e mais difícil das últimas décadas. Para que, de fato, possamos caminhar para uma verdadeira independência do nosso povo, precisamos garantir que a mentira não seja vencedora. O  restabelecimento da democracia, mesmo formal, depende do nosso voto.

Nesse momento, é importante que as pessoas que professam qualquer religião ou simplesmente buscam uma espiritualidade humana testemunhem que, se Deus existe, só pode ser Amor e Justiça. Deus não é de direita e está do lado do povo que busca por Terra, Teto e Democracia. 

 

 

 

 

segunda-feira, 19 de março de 2018

CINCO ANOS DE FRANCISCO

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

            Já lá se vão cinco anos que a fumaça branca subiu nos céus de Roma e anunciou a eleição de um novo papa. Pouco depois foi anunciado seu nome à multidão que ali esperava: Jorge Mario Bergoglio, cardeal de Buenos Aires, que escolheria para seu pontificado o nome de Francisco. 

            Ao dirigir-se aos fiéis que o saudavam efusivamente, chamava a atenção a simplicidade de suas vestes brancas, apenas com um crucifixo de metal ao peito.  Nada de casulas bordadas ou ornamentos luxuosos.  Apenas a simpatia de um “boa noite” e o pedido enternecedor de que o povo o abençoasse.

            Ao longo desses cinco anos, o Papa que veio “do fim do mundo” não fez mais que confirmar esta primeira impressão que deixou para uma Praça de São Pedro lotada e emocionada. A simplicidade tem sido sua marca, a comunicação franca, direta e alegre seu modo habitual de proceder. Nada de solenidades excessivas e distanciamentos hierárquicos.  Mas uma maneira autêntica e simpática de estar perto das pessoas. 

            Para muitos católicos, a impressão foi, desde o início, que o Concílio Vaticano II estava de volta: presente nas palavras, nos gestos e nas atitudes do novo pontífice.  Respirava-se novamente os ares de diálogo e abertura que caracterizaram a revolução iniciada pelo bom e santo João XXIII. Os pobres e a justiça brilharam outra vez como prioridades da Igreja.  A esses pobres de muitos rostos – sem teto, refugiados, deficientes, abandonados – o Papa tem voltado de modo privilegiado sua atenção e cuidado pastoral. 

            Para os não católicos, os de outras religiões ou não crentes, o papado atual tem trazido positivas novidades.  Certamente jamais haviam visto um papa tão próximo, tão familiar. E seguramente não esperavam ver um chefe de estado com tamanha habilidade diplomática e tanta liderança.  Para muitos que se encontram fora da Igreja, Francisco é, sem dúvida, um líder.  Para estes e para todos, trata-se  da única liderança mundial positiva no atual momento da história. 

            Entre as vítimas da injustiça no mundo atual há uma que se destaca no pontificado de Francisco: os migrantes.  Diante da massa de homens e mulheres que atravessam continentes em busca de uma vida melhor para si e suas famílias e que terminam muitas vezes mortos afogados no Mar Mediterrâneo, há todo um serviço organizado de acolhida e atendimento, que ocupa a linha de frente da ação do Vaticano regido por Francisco. 

            Sendo chefe de uma Igreja que muitas vezes dá a impressão de estar fechada e distante dos problemas profundos e íntimos da humanidade, o Papa tem traçado uma linha mestra composta de uma só palavra: misericórdia.  Assim o documento Amoris Laetitia, que trata da família e do amor é perpassado do começo ao fim por esse olhar que não é de juízo e punição, mas de acolhida, compreensão, escuta e compaixão. 

            Para os que acompanham seu itinerário cotidiano, feito de surpresas e novidades contínuas que enlouquecem a assessoria de imprensa, Francisco tem mudado radicalmente a imagem do papado como instituição.  E os jornalistas e fotógrafos correm sem cessar atrás desse Papa que sai do Vaticano e anda pelas ruas, que senta para comer um sanduíche ao lado do guarda suíço, que instala duchas e máquinas de lavar roupa para os mendigos de Roma.  E que além disso carrega a própria maleta, vai a uma ótica para trocar os óculos e usa banheiros públicos quando deles sente necessidade. 

            Para os pequenos e desvalidos de toda sorte, Francisco, o Papa das surpresas é todo ternura e carinho.  Beija as crianças, desce do papamóvel para segurar a mão e abençoar uma guarda que levou um tombo do cavalo, acaricia os doentes.  E diz às jovens mães com bebês de peito que choram durante a missa que amamentem seus filhos, pois se choram é porque têm fome. 

            Após cinco anos desse pontificado surpresa, evidentemente Francisco é amado e admirado por muitos, mas também não tão benquisto e combatido por alguns.  Há quem se sinta incomodado por sua maneira de ser e de pensar.  Sua ousadia semeia o temor entre aqueles que temem perder a segurança da vida que levam e não desejam sair da zona de conforto.  

            Ele, no entanto, avança firme, sem voltar atrás nas decisões tomadas que lhe parecem corretas.  Segue adiante com seu sorriso e olhar radiante.  Sendo um chefe religioso, o Papa tem se mostrado como alguém profundamente humano. 

           Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, autora de  Testemunho: profecia, política e sabedoria, Editora PUC-Rio e Reflexão Editorial.
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