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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Vida em primeiro lugar! Você tem fome e sede de que?

 


Pe. Francisco Aquino Júnior


 

No dia 07 de setembro, dia da pátria, celebramos o Grito dos Excluídos/as. Igrejas, organizações populares e setores diversos da sociedade saem às ruas em todo o país, não para marchar como “soldado cabeça de papel”, mas para gritar como cidadãos e como pessoas de fé: Vida em primeiro lugar. É tanto um grito de protesto contra as várias formas de negação de direitos a amplos setores da sociedade, quanto um grito de afirmação e resistência populares nas lutas por direitos no campo e na cidade, quanto ainda um grito de alegria e celebração das conquistas populares. 

É muito significativo que essa manifestação aconteça no dia 07 de setembro. Uma forma de dizer – no protesto, na resistência e na festa – que o verdadeiro patriotismo e a verdadeira unidade nacional se dão na luta e afirmação da dignidade de todas as pessoas, mediante conquista e garantia de direitos. O Grito é ocasião privilegiada de expressão e animação das lutas e organizações sociais: celebração das lutas e conquistas; animação e fortalecimento das resistências e lutas populares. Como bem recorda Frei Carlos Mesters: “Luta sem festa, derrota na certa. Festa sem luta, vitória falsa”.

O Grito dos Excluídos/as acontece desde 1995. Nasce como fruto da 2º Semana Social Brasileira – “Brasil: Alternativas e Protagonistas”, em sintonia com a Campanha da Fraternidade daquele ano que tinha como tema “Fraternidade e Excluídos” e como lema “Eras Tu, Senhor?”. Em 1996, a Assembleia Geral da CNBB insere essa atividade no Projeto de Evangelização da Igreja no Brasil: “O Grito dos Excluídos será celebrado anualmente, em nível nacional, no dia 07 de setembro, retomando preferentemente o tema da Campanha da Fraternidade” (Documentos da CNBB 56, n. 129). Desde o início, o Grito foi uma atividade promovida com movimentos e organizações populares. Em alguns lugares, articulado pelas pastorais sociais. Em outros lugares, por movimentos e organizações populares. Mas sempre como atividade conjunta.

O tema do primeiro Grito foi “Vida em primeiro lugar”. Nos anos seguintes, isso se tornou o tema permanente do Grito, colocando sempre o desafio e a possibilidade de reconstrução do país: “Reconstrução que vai além de atender as demandas tão urgentes com políticas públicas, seja de combate à fome, à violência contra o povo preto e pobre nas periferias, contra os povos indígenas, à violência contra as mulheres e à população LGBTQIA+. Mas que passa também pelo respeito aos territórios indígenas e quilombolas e pela garantia dos direitos à moradia digna, reforma agrária e urbana, ao trabalho, à educação, saúde, cultura e lazer. Reconstrução que, sobretudo, promova o fortalecimento da democracia e da soberania e aponte para a construção de um projeto de sociedade onde a economia esteja a serviço da vida” (CNBB – Comissão Episcopal para a Ação Sociotransformadora. Carta de apoio ao Grito dos Excluídos 2023).

O lema desse ano é: “Você tem fome e sede de que?”. Uma pergunta que faz ecoar os muitos gritos que vêm do campo e dos becos e periferias das cidades, ao mesmo tempo que exige de todos nós, como cidadãos e pessoas de fé, respostas concretas que atendam às necessidades e direitos de nosso povo. É claro que isso não dá a toque de mágica nem cai do céu. Exige muita luta e organização. Direitos se conquistam na luta. Não podemos cair na ilusão de que determinados governos vão garantir os direitos da população. Todos sabemos que os governos, por melhores que sejam ou pareçam, estão muito mais alinhados e amarrados aos grandes grupos econômicos do que parece…

Importa manter viva a esperança ativa do nosso povo: “esperança do verbo esperançar” que compromete e mobiliza; esperança fundada e dinamizada pelo Espírito de Deus que, a partir de baixo, consola, anima, desperta e mobiliza o povo na luta cotidiana pela sobrevivência e na organização e mobilização populares por direitos.

Que Deus abençoe os movimentos e organizações populares no campo e na cidade. E que o Gritos dos Excluídos e Excluídas anime nossas comunidades, pastorais e organizações populares na luta e conquista de direitos – sinal e instrumento do reinado de Deus nesse mundo que é um reinado de fraternidade, justiça e paz.

 

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

“VIDA EM PRIMEIRO LUGAR”: GRITO DOS EXCLUÍDOS EM TEMPOS DE PANDEMIAS

  Francisco de Aquino Júnior




Desde 1995 Igrejas e organizações populares realizam no dia 7 de setembro o grito dos excluídos. É um dia simbólico no país que mobiliza sentimentos patrióticos: pertença a um povo, unidade, amor à pátria, símbolos comuns. Sentimentos que constituem e dão identidade a um povo e são a base de um projeto de nação. Mas o que deveria ser ocasião de celebração da fraternidade e compromisso com a construção de uma sociedade mais justa e fraterna (verdadeiro patriotismo), tornou-se ocasião de ostentação e exaltação do poder militar a serviço das elites do país (desfile militar, palanque das elites).

Frente a esse patriotismo elitista-miliar (Brasil das elites), o Grito dos Excluídos ecoa como expressão e convocação de verdadeiro patriotismo (Brasil de todos): 

·       reúne igrejas, organizações populares, estudantes etc. em torno da justiça social que é o fundamento de um projeto ético-religioso de sociedade; 

·       denuncia as injustiças sociais, as violações e negações dos direitos humanos e a criminalização das lutas e organizações populares; 

·       celebra as lutas e conquistas sociais de comunidades e organizações populares;

·       reivindica direitos de grupos e comunidades locais e políticas públicas que garantam direitos da classe trabalhadora e dos setores marginalizados da sociedade.

Como no ano passado, o Grito dos Excluídos acontece de novo no meio da pandemia da Covid-19. Se uma pandemia é sempre uma tragédia, quando ela está associada à pandemia das injustiças e desigualdades sociais suas consequências são muito mais trágicas para as populações pobres. No caso do Brasil, a situação é ainda mais agravada pela pandemia política de um desgoverno que banaliza a morte de milhares de pessoas e atenta contra a saúde pública, estimulando e provocando desrespeito às medidas de proteção sanitária: Quase 600 mil pessoas já morreram sem ter sequer um velório e um sepultamento digno. Muitas vidas poderiam ter sido poupadas se tivéssemos um governo e uma política de saúde que respeitassem o povo, a ciência, o dinheiro público e as autoridades sanitárias. O desemprego cresceu assustadoramente. De agosto de 2020 a fevereiro de 2021 o número de pessoas vivendo na extrema pobreza passou de 9,5 para mais de 27 milhões. E a CPI da Covid tem revelado indícios graves de corrupção na compra de vacinas, envolvendo governo e empresas privadas.

Como cristãos e como sociedade organizada não podemos ficar indiferentes a essa situação nem cruzar nossos braços. Temos que reagir e gritar por “vacina no braço e comida no prato”, por auxílio emergencial, por trabalho e moradia, pela suspensão de reintegração de terra, contra a corrupção na compra de vacinas… O grito fundamental é sempre o mesmo: Vida em primeiro lugar! E isso se traduz e se concretiza sempre na luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda

A pandemia da Covid-19 exige de nós muito cuidado e responsabilidade com a saúde do nosso povo. Alguns grupos/coletivos acham que não é prudente promover eventos que provoquem grandes aglomerações. Outros insistem que o contexto atual exige mobilização de rua com todos os cuidados necessários. Mantendo sempre o cuidado com a saúde pública, importa usar nossa criatividade e fazer ecoar nossos gritos.  

Muita coisa pode ser feita na preparação e realização do grito: Círculos bíblicos; debates online; encontros de formação, live cultural; programas de rádio; momentos orantes e celebrativos; pequenos vídeos com gritos locais e nacionais a serem postados nas redes sociais; faixas e outdoors; atividade de rua na comunidade ou bairro com cruzes, velas, bandeiras, cartazes (caminhada, alvorada); passeatas, protestos etc.

Importa fazer ecoar nossos gritos. Importa despertar e congregar sentimentos de fraternidade e solidariedade. Importa mobilizar e articular forças sociais e políticas para a reconstrução do país segundo a justiça social que se concretiza na afirmação e garantia dos direitos dos pobres e marginalizados – sinal, critério e medida de realização do reinado de Deus em nosso meio que é um reinado de fraternidade, justiça e paz.

Vida em primeiro lugar!

Na luta por participação popular, saúde, comida, moradia,
trabalho e renda já!

Francisco Junior Aquino é Presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE; professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

sábado, 26 de dezembro de 2020

NATAL EM TEMPOS DE CORONAVIRUS - UM LUGAR PARA O MENINO NASCER

 

Frei Aloísio Fragoso


 

    Em alguma região da terra, um casal pobre, em ansiosa calma, procura um lugar seguro para seu filho nascer. Cansados, sentam-se em um banco da praça, sobre o qual alguém deixara aberto o jornal do dia. Então aquela que estava grávida falou:

 

    - José, a Criança se mexe em meu útero. Onde encontraremos um lugar para ela nascer em paz e segurança?

    - Bendito seja o nome de Javé! Que tal repetirmos o cenário da primeira vez: Belém!  Que achas, Maria?

    - Não. Não dá. Veja o que está escrito aqui na primeira página: "Governo de Israel proíbe visitas de migrantes aos Lugares Sagrados". Se apresentarmos nosso filho como pacificador, "o que vem transformar espada em arado", eles dirão que somos traidores".

 

    - Vamos então apostar naquelas terras que por primeiro foram cristianizadas. Roma, por ex.

    - Esqueçamos Roma, José;  ali, como em outros países do continente europeu, seremos proibidos de deitar nosso filhinho  sobre palhas,  numa manjedoura. Não deixarão que entrem no recinto a vaca, o jumentinho e os cordeiros. Trarão um berço de ouro cravejado de pedras preciosas. E eu me sentirei uma péssima atriz.

 

    - Pensemos em um lugar bem mais distante, habitado por gente pobre igual à gente: a África negra, que dizes?

    - Maria silencia um momento, folheando o jornal, e se depara com uns versos, na "Coluna Cultural": "pintor de santos de alcova / pintor sem pátria no peito / que quando pintas teus santos / não te lembras do teu povo / que quando pintas tuas virgens / pintas anjinhos bonitos / porém nunca te lembraste / de pintar um anjo negro". Mostra os versos a José e diz: trata-se de um justo protesto. Aquelas terras foram escravizadas, durante séculos, pelos que tem a cor do nosso filho. Quem garante que não seremos odiados?

 

    - Em meio a tantos perigos, Maria, proponho que nos refugiemos na nação mais poderosa da terra, governada por um homem imensamente poderoso. Com certeza eles nos protegerão, os Estados Unidos...

    - Cala-te, José! Malditas sejam tuas palavras, elas me fazem lembrar Herodes, o assassino de crianças. Maria acabara de ler outra manchete do jornal,  "Presidente dos Estados Unidos decreta expulsão de migrantes mexicanos, separando crianças de seus pais". Apressemo-nos, José, estão voltando as dores de parto.

 

    - Estou pensando numa melhor solução: um país do hemisfério sul; ali habita o maior número de pessoas que acreditaram na Palavra do nosso Filho. A fé deles nos dará segurança. O Brasil, o Brasil. Desta vez José mesmo avistou, no jornal, em mãos de Maria, esta notícia: "Caos no Brasil, 180.000 mortos de coronavirus".

     Os dois se olharam assustados e rezaram em silêncio uma oração pelos mortos da pandemia. A seguir, tendo invocado o nome do Altíssimo, decidiram: vamos dar à luz o nosso filho em um lugar que ninguém saiba onde seja,  nenhum jornal noticie, os orgulhosos jamais cheguem lá e os simples da terra procurem até encontrá-lo.

    E saíram caminhando à  procura de uma manjedoura. Maria se pôs a cantar: "O Senhor fez

em mim maravilhas..."

 

    E sobre o banco da praça, o jornal do dia estampava sua principal manchete: "Lojas e supermercados temem fracasso de vendas neste Natal".

 Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

A VIDA EM PRIMEIRO LUGAR




Por Marcelo Barros

A vida em primeiro lugar” continua sendo o horizonte que dá sentido ao tema fundamental do 25º grito dos excluídos que acontece nessa semana e especificamente, em todo o Brasil, nesse 07 de setembro. Nesse ano, esse grito em favor da Vida se concretiza em uma denúncia que partiu do papa Francisco, ao dizer aos movimentos sociais: Esse sistema mata! .
A articulação de pastorais e movimentos sociais traduz isso ao colocar no cartaz desse 25º  grito a voz de todo o povo pobre nas diversas regiões do país: “Esse sistema não vale. Lutamos por justiça, direitos e liberdade”. A intenção dos que coordenam nacionalmente o Grito dos Excluídos é que nesse 25º ano se possa:
1º - resgatar o projeto que deu origem e sentido ao Grito dos Excluídos.
2º - apontar caminhos a seguir nesse momento atual, tão difícil para o nosso país.
Falar em grito é optar por comunicação. É preciso reavaliar quem grita e para quem se grita. É preciso de fato dar voz e vez aos mis pobres e excluídos. Infelizmente grande parte de nosso povo pobre nem tem consciência de ser excluído e não se interessa por gritar. Por isso, tão importante quanto o Grito que se realiza a cada 07 de setembro, é o processo de formação e discussão com as bases que antecede o grito e que dura praticamente o ano inteiro. Significa dialogar com os movimentos sociais e através deles escutar as realidades que precisam ser denunciadas no Grito. E não basta tomar consciência delas. É preciso saber como lhes dar voz e fazê-las participar ativamente do Grito.
Evidentemente, quando se fez o primeiro grito dos excluídos no ano de 1995 e os dias atuais, o Brasil mudou muito. É preciso perceber essas mudanças para ver em que devemos mudar. Os/as excluídos/as de hoje não são mais apenas os trabalhadores rurais e urbanos. Desde 1995 para cá, a massa de desempregados aumentou muito. E há ainda muitos excluídos pela cor de sua pele. Outros/as são excluídos/as por sua orientação sexual. Nesse ano, em várias regiões do Brasil, povos indígenas estão manifestando presença e gritando como vítimas de profunda exclusão social e humana.
Ao grito dos excluídos humanos, temos de expressar o grito incontido e mudo da mãe Terra agredida. Nesses dias, choramos a destruição progressiva e escandalosa da Amazônia. E não basta chorar. Apesar do papa Francisco ter proposto um Sínodo de bispos católicos do mundo inteiro para tratar da Amazônia, no próprio Brasil, muitos bispos e dioceses continuam alheios ao que está acontecendo. Quando se fala em “Vida em primeiro lugar”, até agora, muitos pastores católicos e grupos de Igreja se interessam apenas pela vida uterina e fazem passeatas pela vida contra o aborto. É preciso integrar no Grito dos Excluídos a voz dos povos da Amazônia e todos os seres vivos ameaçados pelas queimadas, pelo agronegócio e pelas mineradoras que destroem a região. Que esse Grito dos Excluídos seja o grito da terra e da natureza (criação de Deus) que, como diz o apóstolo Paulo, “geme e sofre como em dores de parto e conosco espera a libertação integral de nossas vidas” (Rm 8, 22 ss).
 Atualmente há certo consenso de que a concentração e a caminhada do Grito não podem mais ter o estilo único de comício político. A palavra deve ir além do discurso e tomar formas diferentes de arte, gestos e música. Precisa da participação de grupos artísticos, de profissionais do teatro, cantores/as e principalmente garantir um maior diálogo com a juventude, principalmente juventude de periferia. Ainda hoje, no Brasil, é uma tragédia o número de jovens de periferia, principalmente negros, assassinados impunemente.
O projeto do Grito é de fato dar voz e vez a essas pessoas e esses grupos excluídos da sociedade. E ao possibilitar que gritem, que possam estar mais organizados em sua mobilização e saibam exatamente não apenas a situação que estão denunciando, mas também e principalmente, a organização social a que aspiram e desejam.
Apesar de ter nascido pela inspiração de setores das pastorais sociais católicas e com apoio da CNBB (Conferência dos bispos católicos do Brasil), a natureza do Grito dos Excluídos é ser laical e aberta a todos os movimentos sociais. O papa Francisco tem sido um exemplo de diálogo com representantes de diversos movimentos sociais para escutá-los e acolher a sua palavra. Quando no final do encontro, o papa fala é para expandir a voz dos movimentos, apoiá-los e lhes dizer que ele se sente com eles e elas nesse caminho. É essa a proposta do evangelho que mostra Jesus inserido na realidade do povo sofrido. Até hoje, ecoa a palavra do evangelho que afirma sobre Jesus que ele  tinha compaixão e vivia a solidariedade com o povo pobre porque eram como ovelhas sem pastor”( Mc 6, 34).

 
MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 4 de setembro de 2018

“VIDA EM PRIMEIRO LUGAR”




Por Marcelo Barros

Esse é o tema do 24º Grito dos/as excluídos/as que, nesse 07 de setembro, tomará conta das ruas e praças de muitas cidades brasileiras. O Grito começou em 1994 como proposta das pastorais sociais da Igreja Católica. O objetivo dessa iniciativa é gritar a todos que precisamos continuar e atualizar o grito da independência. Não é possível pensar em verdadeira independência se se ostenta o título de 3º país do mundo em desigualdade social. Como é possível povo livre e soberano em uma sociedade na qual apenas cinco homens possuem a renda equivalente à metade da população brasileira?
Os movimentos sociais e também outras Igrejas cristãs apoiaram e passaram a participar do evento. O grito dos excluídos se contrapõe ao desfile militar. Infelizmente, esse parece mostrar suas armas, não para defender a população e sim para garantir os privilégios da elite que domina o país. Nesses dias, na campanha eleitoral para presidente da República, um militar que tem apenas patente de coronel se apresenta como representante da extrema direita. Os militares precisam tomar consciência de que esse senhor não representa as forças armadas brasileiras. Essas existem para defender o povo e proteger o país contra inimigos externos e não para incitar a população à violência e ao ódio contra o diferente.
A defesa da pátria se dá de outras formas e para outros fins. Atualmente, seus inimigos não invadem o país com caravelas, nem precisam nos dominar militarmente. Eles se apoderam de terras na Amazônia e compram todas as fontes de água em cidades mineiras do Circuito das Águas. A preço de banana se apoderam do nosso parque produtivo e de tudo o que o atual governose dispõe a vender das riquezas naturais do país.
Diante da barbárie a que estamos diariamente expostos, os movimentos sociais e representantes de diversos setores da sociedade civil se unem em Frentes Populares. Organizam iniciativas educativas que conscientizam a população. E, anualmente, no 07 de setembro, através da criatividade e do protagonismo dos grupos de base, fazem manifestações e caminhadas para fazer ressoar o Grito dos Excluídos. Seja participando diretamente, seja sendo solidários/as com essa movimentação, somos todos convidados a dialogar e expressar que projeto de país queremos para o Brasil e como devemos pensar a relação entre governo e sociedade civil.
Desde muitos anos, o Grito dos Excluídos deixou de ser apenas brasileiro. A cada ano, no 12 de outubro, dia que recorda a conquista e a colonização dos europeus em nosso continente, em vários países latino-americanos,  acontecem expressões do Grito dos Excluídos.
Nesse momento atual, o império norte-americano tem produzido golpes parlamentares e vem realizando uma guerra de comunicação contra os governos da Venezuela e da Bolívia, assim como contra qualquer governo que ouse ser independente. Nesse contexto, é bom recordar os três caminhos do novo bolivarianismo que o presidente Hugo Chávez nos deixou:
1 – fortalecer a integração latino-americana e caribenha. 2 – libertar-nos de todos os colonialismos externos e internos.  3 – caminhar para uma justiça econômica, em um novo socialismo democrático, construído a partir das tradições ancestrais de nossos povos.
Seja no dia 07 de setembro no Brasil, seja no 12 de outubro em diversos países da América Latina, o Grito dos Excluídos acontece para deixar claro: mesmo se as pessoas e instituições não são as mesmas, os sonhos de justiça e libertação nunca morrem. Atualmente, no mundo todo, grupos da sociedade civil e dos movimentos sociais se organizam para fortalecer instrumentos de diálogo e de caminho comum para a sociedade humana. Já que a ONU é boa, mas representa apenas governos e Estados, de muitos lugares do mundo, partem propostas para se formar uma OMHU, ou seja, uma Organização Mundial da Humanidade Unida que possa falar verdadeiramente em nome de todos/as os/as habitantes da Terra.
As Igrejas cristãs são chamadas a se lembrarem de que, etimologicamente, o termo grego Igreja significa assembleia. No seu tempo, o apóstolo Paulo chamou de Igrejas as comunidades de discípulos/as de Jesus que tinha formado. A proposta era que esses grupos fossem ensaios de uma humanidade nova e unida. Igreja deveria existir em função do projeto divino da paz, da justiça e da comunhão universal no mundo. Por isso, hoje, mais do que nunca, as Igrejas cristãs deveriam fortalecer essas iniciativas de diálogo e unidade de toda a humanidade. Só assim, poderão ser o que o papa Francisco tem proposto:Igreja em saída.

Marcelo Barros, monge beneditino e escritor, autor de 26 livros dos quais o mais recente é "O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede-Loyola, 2003. Email: mostecum@cultura.com.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

"VIDA EM PRIMEIRO LUGAR"


Por Marcelo Barros



Colocar a vida em primeiro lugar, tanto no dia a dia pessoal, como, principalmente, no modo de organizar a sociedade é o espírito do "Grito dos Excluídos". Trata-se de uma iniciativa das pastorais sociais da CNBB, junto com os movimentos sociais que, a cada ano, se realiza na Semana da Pátria e, especialmente, no dia 07 de setembro.

O objetivo do "Grito dos Excluídos" é provocar uma nova mobilização social das comunidades e grupos de base. Essa iniciativa ajuda as comunidades e movimentos sociais a fortalecerem a unidade na defesa dos seus direitos e no exercício de sua cidadania. Nesse ano de 2016, em todas as capitais e em muitas cidades do Brasil, acontecerá a 22a edição do grito. O lema desse ano foi tirado de uma afirmação do papa Francisco no encontro que, em agosto de 2015, na Bolívia, teve com representantes dos movimentos sociais de todo o mundo. Ali, o papa afirmou e, nessa semana, o povo repete nas praças e ruas de nossas cidades: "Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata".

Atualmente, vivemos na América Latina e no Brasil, uma manifestação muito clara da crueldade de um sistema imperial que se aproveita da fragilidade e mesmo de erros dos governos mais progressistas do continente e paga à elite conservadora de plantão para encontrar os meios legais, legítimos ou não, para instalar governos que sirvam a seus interesses e roubem da população e, especialmente dos trabalhadores, os poucos direitos sociais que esses tinham conquistado.

Infelizmente, muita gente, anestesiada pela comunicação alienada e enganosa dos grandes meios de comunicação, só se dará conta quando for tarde demais. Nessa semana, o grito do povo organizado e dos movimentos sociais por mais vida e justiça se fará através de fóruns temáticos, seminários e caminhadas que visam fortalecer a consciência social das pessoas e reuni-las em um grande mutirão para construir um Brasil novo e mais justo com todos os seus cidadãos. Se conseguirmos isso, nunca mais será possível uma elite sem votos tomar o poder com aparência de legalidade e atrelar de novo o país aos interesses do império, cujos interesses estão por trás de todos os golpes, militares ou parlamentares, (mais de 108 em menos de cem anos) que ocorreram em toda a América Latina.

 Nas cidades gregas antigas, a Ágora era a praça da cidade ou o pátio, onde se realizavam as discussões públicas. Ali, os cidadãos tomavam as decisões sobre o rumo a seguir para toda a cidade. Na cultura do antigo Oriente Médio e no Israel bíblico, as cidades eram rodeadas de muros. Na porta principal de entrada, havia um pátio onde se reuniam os cidadãos para os julgamentos de pessoas aprisionadas ou suspeitas de crimes. No entanto, naquele mundo, só eram considerados cidadãos os homens adultos, casados e proprietários de terra. Mulheres, adolescentes e crianças, além de estrangeiros e lavradores sem terra não eram cidadãos e não tinham direitos constitucionais. Não participavam da ekklesia, assembleia dos cidadãos. Foi justamente esse nome (ekklesia) que, nos meados do século I de nossa era, Paulo de Tarso tomou do mundo grego para denominar as comunidades de discípulos e discípulas de Jesus. A partir de então, essas comunidades de periferia urbana que não faziam parte das assembleias do Império, passaram a se constituir como “assembleias de Jesus Cristo” ou Igrejas, nome que a História guardou para designar as comunidades cristãs.  Nos primeiros séculos, o termo Igreja designava principalmente as assembleias locais de cristãos/ãs reunidos/as como comunidades fraternas. O termo que mais caracterizava a vida dos cristãos/ãs era a participação plena na comunidade. Toda Igreja cristã deve ser sinal do amor divino no mundo. Deveria se organizar como uma espécie de ensaio, ou modelo de fraternidade que se poderia propor para o mundo todo. É esse exercício concreto de participação que os movimentos sociais ensaiam no Grito dos Excluídos. Nele, somos todos chamados a retomar nossa esperança no Brasil e a trabalhar juntos por uma Reforma Política, necessária e urgente do sistema brasileiro e por uma sociedade mais justa e solidária.



 Marcelo Barros, monge beneditino e teólogo católico é especializado em Bíblia e assessor nacional do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares. É coordenador latino-americano da ASETT (Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo) e autor de 45 livros publicados no Brasil e em outros países.