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domingo, 17 de outubro de 2021

AMOR E MISERICÓRDIA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS (2)

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(15/10/2021)

 

     A "Parábola do Filho Pródigo", além de uma das páginas mais belas da Bíblia, é tida como uma obra prima da literatura universal. Sobre ela debruçaram-se alguns gênios da filosofia e da arte, com a intenção de sondar-lhe o tesouro de saber e mistério. Um destes foi o poeta pernambucano Augusto Frederico Schmidt. Ele descreve o que se passaria n'alma do irmão mais novo, no momento em que surpreende seus familiares com a decisão de partir.

 

      "Os seus olhos viviam escondendo desejos de fuga. Ele mesmo não sabia porque, mas se sentia diferente dos outros, dos que nasceram na vasta casa paterna, dos que trabalhavam com o pai no engrandecimento e na prosperidade da família. Sentia-se despreendido da velha árvore. Enquanto os outros dormiam e encontravam no abandono noturno a reparação das longas fadigas do dia, o filho pródigo era assistido pela miragem e a provocação dos seus sonhos."

 

     O poeta também nos convida entender as tensões do coração paterno. "Nada é tão triste como o olhar do pai que se despede do filho. Nada é tão triste como as mãos que se

levantam para a última  bênção sobre a cabeça de um jovem que um dia foi pequeno nos seus braços paternos e cresceu ao lado do pai protetor e vigilante e agora principia a pensar e caminhar por si mesmo..."

 

     Um dos maiores pintores da história foi Rembrant. Um dos seus quadros mais famosos retrata o exato momento em que o terno abraço paterno acolhe o filho arrependido e humilhado. Sua face tem os olhos cegos. Ele os gastara perscrutando sombras na noite. Tentando descobrir no longe do caminho, sol a pino, o vulto do filho regressando. Cego também por não querer ver a culpa do filho. Sem contar as lágrimas escondidas. No centro do quadro observa-se o milagre das suas mãos: uma rude e grossa, é mão de homem; outra longa e fina, é mão de mulher. O artista não consegue admitir, nessa estória, a ausência da figura materna. Parece querer dizer: "Deus é um pai que ama como uma mãe.

 

     André Gide, dos mais renomados escritores franceses do século passado, escreveu "O Regresso do Filho Pródigo". Ele o imagina num encontro individual com um por um dos familiares,  cada qual reagindo ao seu modo. A mãe a reclamar a dor da saudade. O pai, a falta de mais um operário nos trabalhos da família. O irmão mais velho, a irresponsabilidade. No entanto, surge uma surpresa em cena: um terceiro filho que nascera na sua ausência. Este chorava inconsolável. Interpelado, desabafa: todos os dias sonhava acordado com o irmão distante. Era seu herói. Era seu idólo. E agora, na mesma noite em que decidira partir também, aquele volta e destroi os seus planos.

 

     Partir é uma sina irrecusável do desenvolvimento humano. Onde estaríamos muitos de nós, se nossos avós não tivessem trocado as brenhas do sertão pela cidade grande, onde seus filhos pudessem estudar, doutorar-se, "ser gente na vida" (dizia minha mãe).

 

     Durante estes meses sombrios do coronavirus, assistimos a cenas  extraordinariamente tocantes de partidas e regressos. Pessoas queridas contagiadas, trocando o abrigo do lar pelo hospital e, em seguida, a enfermaria pela UTI. O olhar apreensivo de parentes, disfarçando o medo com sinais de esperança. Outras tantas vezes, o regresso dos que se curavam, como um cortejo jubiloso, para o abraço e a festa inesquecível da família.

 

     No entanto, muitos foram infectados porque relaxaram o isolamento doméstico, em busca de aventuras proibidas.

 

     Na verdade, os filhos pródigos, figuras que se reproduzem sempre de novo na história, não regressam para abdicar de ser livres, mas sim para recomeçar o longo aprendizado da liberdade.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

AMOR E MISERICÓRDIA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(11/10/2021)

 

 

     Desde o aparecimento do "homo sapiens" no planeta terra, quantos palavras já foram escritas para se falar de amor? - Só Deus sabe (entenda-se isso ao pé da letra). Poucas, no entanto, alcançam o encanto e a riqueza de um breve trecho bíblico:   " A Parábola do Filho Pródigo". Na verdade, ela trata do amor de Deus, porém encerra o que há de melhor e mais sábio em favor do amor humano.

 

     Logo de início traz uma lição profunda sobre o mistério da liberdade. Nada faltava ao filho mais novo no seio da família, exceto uma só coisa: espaço suficiente para realizar seus sonhos. Autorizado pelo pai, ele partiu, sentindo-se finalmente livre, não porque antes se sentisse escravo, e sim porque a pessoa é sempre maior do que sua casa, maior do que suas posses, maior do que seus laços de sangue e parentesco.

 

     Esta lição tem origem em Deus. Ele deixa-nos partir em qualquer direção, mesmo na direção contrária à sua vontade. Isso nos torna responsáveis pelo caminho de ida e volta. Daí porque tantas pessoas tem enorme dificuldade de ser livres e, de bom grado, trocariam o liberdade pela segurança; adorariam ter a mão segura e poderosa de um super pai guiando-as a cada passo do caminho. Este pai não seria Deus. Ele nos deixa livres, ainda que pressentindo que chegaremos ao fundo do poço. "Eis que vos coloco na encruzilhada do caminho entre a vida e a morte. Escolhei!", declara o livro do Eclesiástico.

      O filho pródigo partiu porque queria partir. O pai deu-lhe a bênção e a herança porque não lhe comprazia a presença compulsória do filho. Quem se contenta em ser amado sob pressão?

Deixar partir, pois, é um sacrifício que o amor exige, a serviço da vida.

      No mundo pragmático em que vivemos, sucesso ou fracasso se mede pelos resultados contábeis. O filho pródigo perdeu anos de vida, estragou a saúde, desperdiçou a herança, sofreu fome e solidão, foi humilhado a ponto de lhe ser negada a comida jogada aos porcos. Mas os critérios da misericórdia são outros, são ditados pelas saldos morais: o filho pródigo aprendeu o caminho de volta às suas origens, voltou mais experiente e sábio,  mais consciente do que é ser filho, mais preparado para ser pai. E aprendeu a lição mais decisiva da vida, a que só se aprende sozinho, através de acertos e desacertos.

      Afinal o que é a misericórdia? Ela é o amor chegando à sua última consequência, o amor da absoluta gratuidade; ela chega na hora em que o amor

 é injustamente ferido; é o amor que abdica de si mesmo e não pergunta se o outro merece ou não merece, antes de se dar, mas simplesmente entrega-se.

      Logo se vê que não há a mínima chance de a misericórdia infiltrar-se em alguma brecha das estruturas do Sistema Capitalista. Este deixaria de existir se, por um só dia, a adotasse.

      Permitam-me, neste momento,  partilhar um fato no qual tive uma pequena participação como coadjuvante. Uma amiga de muitos anos, de idade avançada, modelo excepcional de uma fé heróica, testou covid positivo e a morte a levou do nosso meio em poucos dias. Teve a graça de ver atendido o seu último desejo: "se isso acontecer comigo, não me deixem sofrer muitas dores". Desde então a família vive uma silenciosa e dolorida tensão emocional.  Foi um dos filhos que, voltando de uma viagem, contagiou-a dentro de casa, em seu cauteloso isolamento doméstico. Como superar o possível ressentimento familiar, em favor da harmonia

e da tranquilidade das consciências? Com o exercício da misericórdia. Nenhum filho faria isso em sã consciência. Nenhuma mãe o condenaria por isso. Toda boa mãe se sacrificaria pela paz da família. Que prevaleça, pois, o amor misericordioso.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

AMOR E PARÁBOLAS, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(05/10/2021)

   

     Todos os grandes pensadores da História, creio eu, alguma vez foram convidados a falar sobre o assunto do amor. Poucos ousaram dar definições, a maioria preferiu servir-se de metáforas e alegorias.

      Jesus não escaparia desta regra geral. No entanto, Ele sempre associava o amor a uma prática de vida. "Quem me ama cumpre  os meus mandamentos" Jo.14,23. Quando exigiam mais do que uma simples sentença, Ele contava parábolas, abertas à compreensão dos simples ou dos letrados.

      Uma destas parábolas narra que um doutor da lei, querendo pô-lo à prova, perguntou-lhe: "Mestre, qual é o maior dos mandamentos?" Como se ele mesmo já não o soubesse! Como se os ouvintes ali presentes já não o tivessem decorado! Como se a prática do amor precisasse antes de uma definição verbal!

     Jesus percebe de imediato a intenção do doutor da lei: fazer uma exibição pública de conhecimentos abstratos; preencher o tempo de provar o amor real com intermináveis e teóricas discussões. Então conta-lhes uma parábola, baseada em fatos reais.

       "Um certo homem caminhava de Jerusalém para Jericó e caíu nas mãos de assaltantes, que o  despojaram e o jogaram ferido à margem da estrada. Por ali passou um sacerdote e, a seguir um escriba; viram aquele homem e foram adiante.  Mas passou também um samaritano. Este desceu da sua montaria, tratou das feridas e permaneceu com ele até ter certeza da cura e da segurança. Cfr. Lc.10:25-37. Os dois primeiros pertenciam à elite dos cidadãos piedosos e fiéis praticantes da religião. Já o outro era uma figura detestada por conta de um longo histórico de ódios e preconceitos entre samaritanos e judeus.

      Escolhendo personagens do meio dos seus ouvintes, Jesus transfere a questão das bocas para as consciências, das teorias para o compromisso. Nega-lhes o benefício da neutralidade e a todos nivela na balança de direitos, deveres e dignidade.

      Aí está uma parábola perpetuamente atual. Ela acontece também entre pessoas de boa vontade. Quantas vezes os "anjos" se reúnem horas seguidas para refletir e planejar, enquanto os "demônios" entram em campo e agem, agem, agem! Quando finalmente os "anjos" decidem partir para a ação, o estrago está feito. Então eles voltam para casa  e dizem: precisamos rezar mais tempo pela conversão dos pecadores.

 "E quem é o meu próximo?" Perguntou o doutor da lei.

      Em meio a atual catástrofe sanitária e política do país, os detentores do poder usurpado determinam a lista dos que devem ser excluídos desse direito. Até sobrarem os elementos da única definição admissível: "meu próximo é quem concorda comigo e com os meus projetos". Os outros são execráveis comunistas, inimigos da "pátria amada Brasil".

      A pandemia do coronavirus expôs suas entranhas aos olhos do mundo. No dia 28 de janeiro do ano em curso, diversas entidades religiosas (CONIC, CIMI, CNBB) entregaram à ONU um Documento denunciando seus crimes hediondos com palavras fortes: "a pandemia no país é alimentada por uma conduta política, econômica e social contraditória, negacionista, indiferente à dor, que está ampliando as profundas desigualdades (....) As populações mais afetadas por esta política são as pessoas negras e indígenas, fortalecendo assim o racismo estrutural da nossa sociedade" (....) 

     Contudo, é indispensável considerar também a outra face da realidade, a que nos comove e convence. Para isso voltaremos ao assunto.

      Enquanto isso, não nos é difícil imaginar a razão por que o sacerdote da Parábola do Samaritano passou indiferente pelo corpo ferido e abandonado. Ele tinha pressa de chegar à Sinagoga e  cumprir sua tarefa de pregar a Palavra de Deus. Mas Deus ficou  ali, caído à beira do caminho.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

domingo, 3 de outubro de 2021

AMOR EM EXEMPLOS, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


 FREI ALOÍSIO FRAGOSO

(27/09/2021)

  

     Qualquer um que se proponha a falar deste assunto corre o risco de ser repetitivo, por uma razão muito simples: tudo já foi dito sobre o amor, em milhões de anos em que  esta tem sido a mais irrecusável das necessidades humanas.  Isso não lhe tira a novidade quando se leva em conta que cada pessoa é única, irrepetível e, consequentemente, a experiência amorosa de cada uma é original e nova.

 

     Relembremos algumas destas experiências, tidas como exemplares porque encerram algo comum a todos nós, à nossa grandeza e à nossa pequenez.

 

        Fora do âmbito da Fé, os apreciadores da poesia decerto conhecem a poetisa portuguesa Florbela Spanca e se comovem com a sua tragédia pessoal. Seus poemas revelam uma verdadeira  obsessão  pelo tema do amor. Um deles começa dizendo "minha alma de sonhar-te anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver.... " e termina com um arremate místico: "podem voar mundos, morrer astros, que tu és como Deus, princípio e fim". Aí está a utopia do amor humano, transcender o limite do tempo.  Fracassada em seus amores, Florbela suicidou-se. Mas continua venerada pelos  seus conterrâneos, como poetisa e como pessoa. É que a humanidade admira quem leva o amor até as últimas consequências, mesmo que acabe em loucura.

 

       No campo do testemunho cristão, lembro um exemplo incomparável, que avalio como prova suprema de amor ao próximo.O missionário espanhol Pedro Claver, nascido no ano de 1580, morreu aos 74 anos de idade e viveu mais de 40 destes anos nos porões dos navios negreiros vindos da África. Revoltado com o comércio de seres humanos, ele fez um voto na sua juventude: "serei escravo dos escravos". Todos os dias ele os esperava no porto de Cartagena, Colômbia, um dos maiores entre-postos do comércio de escravos das Américas, nos séculos XVI e XVII. Chegavam  semi-mortos, doentes no corpo, feridos na alma. Pedro Claver descia aos porões escuros e fétidos e, durante semanas  curava-lhes as chagas e o desespero. Por suas mãos teriam passado cerca de 300.000 escravos. Morreu vítima de uma epidemia de peste. Ao canonizá-lo, o Papa Leão XIII declarou: "Pedro Claver é o santo que mais me impressiona, depois do próprio Cristo".

 

      Ao conhecer exemplos que a História dos Povos imortalizou, consideremos que eles devem ser vistos como uma referência, não como modelos acabados. Eles são exemplares porque outras pessoas os complementaram; o anonimato destas pessoas não lhes tira o mérito compartilhado com esses heróis e heroínas. A História seria injusta se não fosse supervisionada pelo Olhar Divino, que "vê o que está oculto e dá a cada um a merecida recompensa" cfr. Mt. 6,6.

 

     A tragédia do coronavirus  abriu a consciência do médico  pneumologista Ivan Mendes Ribeiro e seu depoimento nos serve de lição: "Na minha formação o foco era no profissional médico, na sua atuação. Agora vejo claro que, quando se vai para a prática, descobre-se que sozinho a gente não é nada. O pneumologista precisa do enfermeiro qualificado que mereça a sua confiança; do fisioterapeuta qualificado, para cuidar da reabilitação; do técnico de enfermagem qualificado, para preparar o medicamento; do profissional de limpeza competente, para manter o hospital limpo. Sozinho não se consegue absolutamente nada".

 

      Caso se possa imaginar algum acréscimo de alegria no céu, imagino a alegria de S. Paulo, vendo comprovadas estas suas palavras: "Vós sois o Corpo de Cristo e cada um de vós é um de seus membros.(....). O olho não pode dizer à mão "eu não preciso de você". Nem a cabeça pode dizer aos pés: "dispenso a ajuda de vocês". Pelo contrário, os membros do corpo que parecem os mais fracos são os mais necessários" Cfr.1Cor. 12,1ss.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

AMOR E SOCIEDADE, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(24/09/2021)

 

     Crendo antes que o amor humano é dom divino e transcende tempos, espaços, raças, culturas e classes sociais, me atrevo a levantar uma questão: o modelo de vida imposto pelo atual Sistema dominante favorece ou boicota a prática do amor? Eu mesmo não ousaria dar uma resposta que não fosse dialética: nem um "não" total nem um "sim" absoluto.

 

     De tanto produzir o virus do individualismo, o nosso modelo de sociedade hedonista gera o seu antídoto: a sede de autenticidade. O fracasso da tecnologia em cumprir suas promessas de felicidade provocam o retorno a valores tradicionais, tidos em conta de envelhecidos e inúteis. Por outra parte, a sociedade de consumo oferece o produto pronto para uso imediato; você o adquire, utiliza, deleita-se, joga fora a embalagem e recomeça a inútil maratona à procura do objeto que sacie sua insaciável fome de ser feliz. Não se exige esforço prolongado, não há necessidade de ser inteligente, criativo, original. Basta que se abram os olhos e a bolsa. Num mundo de cidadãos e cidadãs continuamente apressados, uma oferta assim seduz como um presente de deuses.

 

    O que tem isso a ver com o amor? -  Muito! Considere-se que este shopping-center global em que virou o planeta terra exibe milhões de objetos do desejo acessíveis às pessoas que se amam, tornam-se formas de dar materialidade aos seus sentimentos e emoções. Prova disso é a superlotação das lojas nos dias convencionados para se demonstrar amor: dia da criança, dia dos namorados, dia das mães, etc.

 

     Ora, o verdadeiro amor não se contenta com coisas prontas, acabadas. Ele esconde em si um impulso criativo. Ele mesmo quer gerar e criar, e se compraz em aventurar e correr riscos. Nunca se tem certeza sobre o final de suas iniciativas. Os seus parceiros não são pré-moldados, seu bom êxito não tem garantia antecipada, não  lhe adianta publicidade,  somente a eles, os parceiros, cabe construir a unidade que supõe diversidade. Em suma, a mais perfeita tecnologia não casa com a utopia do amor que visa crescer e perpetuar-se.

 

     Todos os amantes do mundo sabem disso teoricamente. Na prática, a frágil natureza humana, fustigada pela máquina de consumo e produção, prefere ter em mãos o que é mais fácil, imediato e prazeiroso. E facilmente se confunde o objeto do desejo com o sujeito do amor. Reduz-se o amor ao simples desejo. Daí a catástrofe das relações provisórias e descartáveis, com prazo de validade determinado pelo tempo em que durar a satisfação.

 

     A pandemia do coronavirus chegou desmontando todos estes esquemas armados pelo Poder Econômico. Suas lojas esvaziaram-se e redescobrimos os lugares onde amar é construir vidas e outros onde amar é salvar vidas: o convívio familiar, os leitos dos hospitais, os espaços de socorrer os amedrontados, de estar atento aos solitários, de solidarizar-se com os parentes das vítimas, de revalorizar os pequenos gestos, as palavras confortantes, as coisas simples, os protestos em prol da saúde pública, a fé engajada.

     Aprendemos que a essência mais íntima do amor está na doação.

 

     Esvaziaram-se também os templos, e compreendemos que Deus não se deixa confinar, que Ele mora no mundo, usa nossos trajes e estar a nos dizer o tempo todo: "o que fizerdes a estes, é a mim que estais fazendo". Reaprendemos, enfim que o amor não termina na experiência que dele fazemos, pois tudo que amamos pode ser tirado de nós, mas o amor não; ele sempre volta, em outras  formas ou em outras pessoas.

 

     Enquanto pressentimos o fim da pandemia, escutemos a advertência de Jesus a Nicodemos, que o foi procurar nas trevas da noite: "em verdade, em verdade te digo: quem não renascer não verá o Reino de Deus" Jo.3,3.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

domingo, 26 de setembro de 2021

AMOR E ECOLOGIA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(21/09/2021)

 

     Hoje em dia faz boa figura quem passeia com seu cãozinho de estimação, em público, e lhe faz afagos, os mesmos que faria a uma pessoa querida. A ideia de fraternidade planetária ultrapassa a fronteira do exclusivamente humano, deixa de ser utopia de poucos, universaliza-se.

     Também faz sentido por em questão os fundamentos desta nova visão ecológica. Ela se funda no puro pragmatismo, no mero instinto de sobrevivência,  ou num sentimento místico, numa eco-espiritualidade?  Frei Leonardo Boff afirma "chegamos a um ponto da história em que percebemos a possibilidade de auto-destruição." Que diferença faz uma ou outra destas concepções?

     No ano de 1987 o Papa João Paulo II proclamou S. Francisco de Assis Patrono da Ecologia. Ele o fez atendendo a um apelo de ecologistas de todas as partes da terra. S. Francisco é visto como um arquétipo da humanidade, alguém no qual homens e mulheres se projetam e refazem sua crença na possibilidade da perfeição humana.

     É indispensável, no entanto, uma visão crítica sobre o Francisco ecológico, a fim de superar uma tendência reducionista, que se limita ao formato romântico-holístico e exclui sua natureza revolucionária. É o que se evidencia no singelo poema de Vinicius de Morais: "lá vai S. Francisco pelo caminho, de pé descalço, tão pobrezinho, bebendo água no ribeirinho, cantando à noite pros passarinhos. Lá vai S. Francisco, de pé no chão, levando nada no seu surrão, dizendo ao fogo "bom dia, amigo", dizendo ao vento "saúde, irmão....".

 

      Historicamente, S. Francisco rebelou-se contra a estrutura social do seu tempo (séc.XIII) em que todo acesso à festa da vida tinha um preço e era o preço do Mercado. Ele se pôs a esboçar uma nova mundivisão onde a felicidade tinha que ser universal e gratuita. E decidiu começar, ele mesmo jovem, rico e pródigo, começar do nada, nada cobiçar e nada possuir. Todas as coisas são dons gratuitos de Deus. Seu olhar sobre o mundo é de absoluta gratuidade.

     A consequência prática foi o que tinha que ser: ruptura com o pai, rico comerciante e, consequentemente, com a sociedade que este representava. Só lhe restou trocar de lugar social, mudando seu endereço do meio dos mais ricos para o meio dos paupérrimos.

    O resto da sua vida foi a saga de um louco: "O Senhor me chamou pra ser um novo louco no mundo", escreve em seu testamento. O que  resultou dessa loucura?  Sigismundo Freud responde ao reconhecer nele o ser humano que mais longe levou a expressão do amor, capaz de criar laços entre os seres mais estranhos.

     Hoje muitos tentam reencontrar a natureza com intenções variadas, seja com finalidade terapêutica ou um sentimento holístico ou uma condição tardia de sobrevivência. S. Francisco procura as criaturas respeitando desde o início, sua identidade original. Não as procura com o intuito de possui-las, de usá-las, mas sim de irmanar-se com elas. Para ele uma flor é sempre uma flor e não um objeto de decoração de nossa sala. Um cachorro é um cachorro e não um guarda fiel da nossa casa. Ao contrário da maioria, que só consegue amar as coisas, prendendo-as a si, só consegue apreciá-las adquirindo-as e, logo que as possui, confinando-as.

 

     A cupidez da posse impede a contemplação da beleza, impede o desfrute do prazer que os seres vivos só partilham com quem não os faz sentir-se ameaçados. É desta maneira que S. Francisco resgata o dom natural, que perdemos há milhões de anos, de comunicar-nos harmoniosamente com as demais criaturas.

     A pandemia do coronavirus obrigou os entendidos e os que querem entender, a avançar mais em suas pesquisas e descobertas. Cedamos a palavra a um epidemiologista de renome internacional, o africano Bernard Bentt: "A crescente aproximação entre animais selvagens e humanos, a invasão de seus habitats naturais, as mudanças climáticas, o tipo de desenvolvimento econômico e de urbanização facilitam a disseminação de patologias entre seres humanos e animais. Quando degradamos seus ambientes selvagens ou estabelecemos nossos assentamentos em suas áreas, tornamo-nos parte do eco-sistema e do ciclo selvático de transmissão viral que ocorre entre animais das florestas".

     Em suma, a natureza sabe cuidar de si mesma. O nosso papel é conservá-la e proteger sua biodiversidade. S. Francisco nos ajudaria a reaver cristãmente a antiga crença mitológica no amor cósmico; segundo esta, nada do que possui vida sobrevive sem o impulso de uma energia amorosa. E assim todas as criaturas seriam vistas como uma universal teofania.

 

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

 

domingo, 12 de setembro de 2021

AMOR A DEUS E AMOR AO PRÓXIMO, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(07/09/2021)

 

     A função de um Princípio Unificador Universal, conferida ao deus Eros na antiga mitologia grega, o Cristianismo transpôs para o Cristo Messias. S. Paulo a descreve com palavras breves e solenes: "Nele, por Ele e para Ele são todas as coisas" Rom. 11, 36.

       No entanto,  a evolução desta idéia, através dos séculos, esteve condicionada à diversidade cultural dos povos e épocas e, simultaneamente, subordinada ao poder político,  com suas ambições e corrupção.

     A despeito disso, jamais se aniquilou a utopia original. Ela foi se recompondo à medida em que a prática monotoista  sobrepujava o politeismo.  As provas disso não se encontram em doutrinas, liturgias e teologias, mas sim na espiritualidade dos grandes místicos.

      Leia-se este poema do místico muçulmano Rabia, do ano 800: "Senhor, se eu te adorar pelo medo do inferno, queima-me em suas fogueiras. Se eu te adorar pelo Paraíso, exclua-me do Paraíso. Mas se eu te adorar pelo que és, não escondas de  mim a tua face. Os bens terrenos que me reservaste, dá-os aos meus inimigos. Os bens que me reservaste para a outra vida, dá-os aos teus amigos. Quanto a mim, Tu me bastas."  E compare-se com este outro de Sta.Teresa d'Ávila, mística cristã do ano 1560:  "não me move, Senhor, para querer-te, o céu que me hás um dia prometido. E não me move o inferno tão temido, para deixar por isso de ofender-te. Moves-me ao teu amor de tal maneira, que, a não haver o céu, inda te amara, e, a não haver o inferno, te temera. Nada tens que me dar porque te queira, pois se o que ouso esperar não esperara, o mesmo que te quero te quisera". Esta convergência  mística foi capaz de abrir o diálogo entre cristãos e muçulmanos infinitamente mais do que as Cruzadas da Idade Média.

     Somos limitados pela pobreza da linguagem ao nosso dispor. Usamos a mesma palavra de quatro letrinhas mágicas para designar idéias contrapostas: "amor de Deus", "morrer de amor", "fazer amor", "matar por amor", etc. E as quatro letrinhas perdem sua magia. Temos, pois, de superar os limites da linguagem para entrar na compreensão do amor divino.

     Nesta busca de superação, os grandes místicos mergulhavam na transcendência. A exemplo de Sta. Teresa d'Ávila: "Vivo sem viver em mim, e tão alto bem almejo, que morro por não morrer".

      Incapazes de ir tão longe, nós, o comum dos mortais, indagamos: o que pode provar que amamos a Deus?  A oração da fé?  A construção de templos suntuosos? A peregrinação a lugares santos? A assistência ao culto? O jejum e a penitência?  Jesus responde com uma regra de ouro:  "tudo que fazeis aos irmãos mais pequeninos, é a mim que fazeis" cf. Mt. 25, 31-36. Isso é que prova, o resto apenas  expressa o amor.

     A pandemia do coronavirus abriu as cortinas do mundo para assistirmos ao drama comovente de fatos reais de amor sem distinção, sem discriminação, para além de fronteiras e crenças. Segue um exemplo brasileiro:

 

     Depois de acordar diariamente às 5h da manhã, Jean Carlos de Assis, 52, se veste e se arma para combater o covid. De macacão branco, máscara, óculos, bota, luvas e touca, ele se põe a desinfetar os espaços públicos em Betim. Percorre quilômetros de ruas e avenidas onde há maior circulação de pessoas. E o faz com a alegria de  quem encontrou uma nova razão de vida. Ele mesmo confessa: "sinto-me orgulhoso e feliz porque estou ajudando a acabar com esta pandemia".

     Aí está uma semelhança do amor de Deus no exercício de uma modesta profissão.

 

 

 

-Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

"O AMOR, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS"

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(30/agosto/2021)

 

     Desconfio de que estarei correndo riscos imprevistos se entrar de peito aberto no assunto acima proposto. Mas, se não entrar, estarei comprometendo tudo que refletimos, anteriormente, a respeito da Fé. "A Fé sem obras é morta" Tg.2,17. Qual é, pois, o único insuspeito comprovante da prática de fé? Sem dúvida é a prática do amor: "se alguém disser que ama a Deus, a quem não vê, e não ama o irmão, a quem vê, é um mentiroso". Jo.4,20.

      Trata-se do mais universal e popular de todos os assuntos. Além disso, ele possui a força mágica de uma idéia simples: "te amo". Hoje esta expressão "te amo" tornou-se uma espécie de gíria na boca de crianças, adolescentes, jovens, adultos, anciãos, amantes, amigos, e até de simples parceiros de humanidade.

      Numa sala de debates ou numa roda de conversas, não há ninguém que não tenha uma opinião "abalizada"  sobre este assunto. Daí, sempre que um orador se dispõe a discorrer sobre ele, toda a assembléia se eriça, na expectativa de uma novidade. Inutilmente. Todos os pensamentos já foram expressos, e todos os sentimentos, manifestos, e todas as palavras, pronunciadas, e cometidas todas as loucuras. A única novidade é aquela que procede da experiência de cada um. O fato de ser eu, de ser você, de ser um de nós a viver esta experiência, isso é o que há de original, uma vez que cada um é único, irrepetível.

      Apesar disso, uma pergunta paira no ar de milhões de anos sem resposta satisfatória, e ela nasce de um desejo humano primário, elementar: o que é o amor? Conhecemos definições coletadas de poetas, romancistas, filósofos, místicos. Nenhuma delas estancou a corrente sanguínea que vai até o coração e o leva a indagar, sempre de novo , "o que é o amor". Como se explica esta teimosia do coração? Decerto porque se trata da única realidade pela qual vale a pena pagar o tributo de uma vida inteira.

     Uma das respostas mais sábias foi dada por duas crianças, a quem fizeram esta pergunta; a primeira disse "o amor? Eu não sei, eu só tenho 4 anos!" E a outra: "o amor é painho e mainha". Profunda intuição infantil! Só sabe o que é o amor quem já trilhou os caminhos de uma longa experiência de vida.  É por isso que, enquanto adolescentes e jovens repetem mil juras de amor (te amo, te amo, te amo...), os mais versados no dom de viver, pela provação dos anos,  guardam suas declarações para os momentos exponenciais. No primeiro caso, as palavras preenchem a lacuna da experiência; no segundo, a experiência não carece de palavras.

     A outra criança nos faz entender que amor não se define por conceitos verbais. Ele não é "o que", ele é "quem". É alguém, feito de carne viva, um homem, uma mulher, painho, mainha, a quem nada do que é humano pode ser alheio, inclusive a frustração de jamais alcançá-lo por inteiro.

     Vamos, pois, descartar a busca de conceitos  abstratos, o inútil florilégio de definições, de "amar é..." e vamos embarcar, como mestres a aprendizes, nesta aventura fantástica e caótica, repetitiva e única, tão antiga e sempre nova, provada em ações, não em palavras, como deve ser o amor. Mestres que somos, pela experiência voluntária ou compulsória,  e aprendizes, que nunca deixamos de ser, pela distância permanente entre a utopia e a realidade, entre o feijão e o sonho.

     No entanto, ao tema do amor acrescentamos  o da catástrofe do coronavirus. Esta será a nossa referência prática. Para tanto, convido leitores e leitoras a uma parceria de coautores. Basta que me enviem breves narrativas de casos práticos de amor heróico, no enfrentamento da covid (com identificações). Estes exemplos servirão para validar as reflexões que se seguirão, com o selo da autenticidade.

     E iniciemos com o depoimento de uma testemunha credenciada, pela coerência entre palavra e vida: "Diariamente assistimos ao testemunho de coragem e sacrifício destes profissionais da saúde que, com competência, abnegação, senso de responsabilidade e amor ao próximo, prestam assistência às pessoas afetadas pelo coronavirus, colocando em risco sua própria saúde". "Iluminados pela  relação humana e humanizadora com os doentes, eles são os santos da porta ao lado".

(Papa Francisco, no Dia Internacional da Enfermagem.)

-Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 14 de julho de 2021

AÇÃO DE GRAÇAS, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(10/07/2021)

 

     "Por tudo, dai graças a Deus" 1Ts.5,18.

       Esta manhã uma andorinha pousou no parapeito da minha janela e fez o que não devia ter feito, o que tinha o universo inteiro pra fazer, a saber, sujou minha camisa branca, recém lavada e exposta ao sol. Pela vida da andorinha, dei graças a Deus, mas, pelo seu procedimento, soltei um palavrão que decerto ela não entendeu, mas entendem os leitores: "droga!". Se este exemplo é pequeno demais para o tamanho do tema sugerido,  reportemo-nos a um acontecimento próximo e recente: as chuvas intermitentes, intermináveis que inundaram a cidade e frustraram os planos de passeios, pique-niques, viagens de férias, visita a parentes distantes. Estas mesmas chuvas também banharam e fertlizaram as terras do campo, que fornecerão alimento para uns e outros. Os primeiros encontraram motivo de maldizer o "mau tempo", enquanto os outros  louvaram ao Criador pelas chuvas benfazejas.

     O que responder a S.Paulo, que nos recomenda "por tudo dai graças a Deus"?

      Duas enormes catástrofes se abateram sobre o nosso país. A pandemia do coronavirus, com seu séquito de mais de 500.000 mortes rápidas e brutais. E a outra tragédia, maior e mais mortífera: a chegada ao poder supremo da nação daqueles que agora ocupam o Planalto. O que daí resultou foram milhões  de filhos e filhas da pátria condenados a uma morte lenta, previsível e camuflada, causada pelo virus cotidiano da fome.

 

         Resultaram também impactos na Fé de muitas pessoas. Seria uma saída sacrílega anular todas as dúvidas com uma confissão de fé do tipo: "seja feita a vontade de Deus".

      Sobre isso a Bíblia traz um exemplo clássico, na pessoa de Jó. Ele reage à notícia de que suas propriedades foram violentamente devastadas, com uma confissão de fé incondicional: "O Senhor me deu, o Senhor me tirou. Bendito seja o nome do Senhor". Mas, com a sequência de outras tragédias, violentando sua família e seu próprio corpo, Jó muda de tom, e extravaza suas emoções em forma de protesto. Primeiro, maldiz o seu nascimento: "por que não pereci nos joelhos de minha mãe,?". A seguir, confronta os amigos: "deixem-me sozinho, vocês não entendem a dor de um homem ferido pelas flechas do Altíssimo!". E por fim interpela Deus: "o Senhor vai destruir a obra de suas mãos?". Depois de muitas inúteis imprecações, ele se humilha: "oh Deus, até hoje eu te conhecera por ouvir dizer, mas agora te reconheço com os meus próprios olhos. Perdoa!"

     De que Jó se arrepende? De sua revolta? De suas imprecações? Não. Ele não confessa que estava errado, mas sim que se deixou cegar pela dor. Demorou a perceber que Deus já tinha entrado em campo, já o armara de novas e suficientes forças, que sua vida passada tinha de ser mudada em vida futura.

     Nestes 15 meses longos e sombrios de pandemia, somos testemunhas do grande aumento numérico de pessoas voltadas para Deus, em busca de respostas, não respostas morais, doutrinárias, mas sim existenciais, vitalizadoras. Descartada a blasfêmia de ver intenção punitiva de Deus nessa catástrofe, não cessemos de dar-lhe graças pelas lições havidas e aprendidas:

     Mais uma vez seus filhos e filhas provaram que jamais se rendem a uma grave ameaça contra seu destino. E provaram também que, a despeito das aparências e do ceticismo da maioria, há neles mais a admirar do que a desdenhar. Mostraram ainda como há milhões de anjos da bondade agindo no silêncio e na surdina, ao contrátio dos demônios, que precisam de palco e publicidade. E assim ficou patenteado que, no duelo entre o medo da morte e dom da vida, esta última está ganhando bonito, graças a Deus, para a sua glória e o bem do seu povo. Amém!

     (Com esta matéria dou por encerrada essa série

 de reflexões e passo a contatar a gráfica para iniciar a elaboração  do segundo volume de "A Fé em Tempos de Coronavirus". Rendo graças a Deus pelo dom que me inspirou e pelos amigos e amigas que acolheram generosamente suas inspirações.)

-Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

segunda-feira, 12 de julho de 2021

A FIGURA DA CRIANÇA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS


FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(09/07/2021)

 

     "Um Menino nos foi dado. Uma Criança nasceu para nós. Deus-Forte é o seu nome"Is.9,5. Com estas palavras o profeta Isaías sinalizava a vinda futura do Messias. Elas se tornaram vaticínio,  incentivo e farol para o Povo de Deus, que fez delas um oráculo durante séculos de marcha forçada, na direção da "terra prometida".

 

     Elas valem ainda para nós, caminhantes desta marcha lenta do coronavirus. Há mais de um ano temos estado sedentos de palavras alentadoras. Contemplemos a imagem da Criança. Ela fala melhor do que muitos discursos filosóficos e teológicos.

 

     Quando éramos crianças, falavam-nos da vida como um belo conto de fadas. Crescemos, ligamos a TV e passamos a conhecer bruxas: o fingimento, a mentira, a corrupção, a maldade. Aprendemos novas lições com mestres hábeis na arte de competir para ter poder, aprendemos que os humildes são uns perdedores, que os honestos não sobem na escala social, que o amor ao próximo é brega. E daí?  Nossos pais nos trairam? Devemos deixar que pereça asfixiada a antiga criança? Não! Absolutamente! Chega a hora de fazer uma escolha decisiva: descartar ou reativar aquela criatura original da primeira infância. Temos de voltar a ser crianças? Sim e não. Não, no sentido da inocência (esta já perdemos para sempre) e no sentido da ingenuidade (insustentável neste mundo de espertos). Sim, no sentido de pureza de intenção, de rebeldia e teimosia. É admirável a capacidade da criança de gritar até conseguir o que quer, de passar, num segundo, do choro para o riso, e de se alegrar com qualquer  divertimento. Não vimos nenhuma criança deixar de ser criança durante a pandemia.

     Não há dúvida que todo mundo adora uma criança, todo mundo mesmo, desde os mais santos até os maiores tiranos, desde S. Francisco até Adolfo Hitler. Há, no entanto, uma distância quilométrica entre olhar a criança com o sentimento de ternura, pelo que ela é, e respeitá-la pelo que ela pode vir a ser. O que ela é não ameaça ninguém, enquanto o que ela deverá ser, a partir dela mesma, interpela e desafia a sociedade em peso.

     Foi o que fizemos durante a pandemia. Livramos nossas crianças da visão dos horrores e temores provocados pelo virus, deixamos que elas continuassem no seu direito de ser crianças. Porém fica pendente a questão mais importante. O mundo que, logo mais, se reabrirá para elas e para nós, será o mesmo de antes, onde milhões delas estão condenadas a não ter infância, a não ter nenhum motivo de dar graças a Deus por ter nascido?

     Adiamos por algum tempo nosso envolvimento nesta polêmica. Voltamos a lembrar que a figura da Criança, neste momento, passa a ser o melhor semáforo para a restauração de nossos planos de vida no pós-pandemia. Afinal, é por elas que todas as gerações lançam-se no alicerce do que se há de construir para o futuro. E já que, nestes 15 meses de covid, elas não foram, nem convinha que fossem, protagonistas da história presente, que  voltem a ocupar o lugar que lhes compete, a razão primeira do nosso presente em vista do futuro.

     Nunca esqueci a última cena de um filme de guerra a que assisti, faz alguns anos. Numa paisagem deserta, mas repleta de escombros e ruínas, surge de repente uma criança a correr e brincar sobre os destroços. Acendem-se as luzes do cinema e fica claro o recado do diretor: a guerra destrói tudo, menos a Esperança.

 

     Se nenhuma mudança excepcional  brotar desta pandemia, se tiver sido fogo fátuo a tímida  profecia inicial, de que "o mundo nunca mais será o mesmo", então, perdemos um capítulo da História. Que nos reprove o eco das palavras de Jesus: "se não vos converterdes e não fordes como as crianças, não tereis lugar no Reino de Deus". Mt.18,3. Amém.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

quarta-feira, 7 de julho de 2021

OBRIGADO, CARA AMIGA, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(05/07/2021)

 

     Depois de divulgar, seguidamente, dois artigos sobre a loucura e quatro sobre a cegueira, fui premiado com uma surpresa, uma obra intitulada "Ensaio Sobre a Lucidez". Na mesma embalagem, uma gentil dedicatória: "....para dar continuidade às tuas profundas reflexões sobre a cegueira, e considerando a proximidade do período eleitoral, envio-te esta obra de Saramago, a ti, que tantas vezes sentes o preço da lucidez".

 

     Obrigado, cara amiga, sei que não foi esta a sua intenção, mas fica sendo como se fosse um sutil protesto contra a unilateralidade: tratar seis vezes seguidas da loucura e da cegueira e nenhuma vez dos seus opostos, a sanidade e a lucidez!  Isso maltrata o estado de espírito de leitores e leitoras, já tão afetado pela cacofonia diária do noticiário nacional, onde, numa visão imediata dos fatos, o placar marca 7 a 1 em favor das trevas.

 

     É certo que na História da Humanidade, e mais ainda na História da Salvação, a luz deve ser procurada em meio às trevas, sua claridade não se revela de imediato, precisa do olhar do espírito, a fim de tornar-se visível. Mesmo assim, não se tem o direito de agredir a alma das pessoas com uma procissão de más notícias, sem ao menos uma velinha acesa em homenagem à Esperança. Obrigado, cara amiga, por essa involuntária fisgada na consciência do autor, e também pela chave inspiradora de uma nova Reflexão.

 

     Na contra-capa da referida obra, estão escritas palavras proféticas. Daqui a alguns anos, elas valerão como uma espécie de retrato vivo dos sombrios tempos que enfrentamos agora:

 

     "Falemos abertamente sobre o que foi a nossa vida, se foi vida aquilo, durante o tempo em que estivemos cegos, que os jornais recordem, que os escritores escrevam, que a televisão mostre as imagens da cidade tomadas depois de termos recuperado a visão, convençam-se as pessoas a falar dos males de toda espécie que tiveram de suportar, falem dos mortos, dos desaparecidos, das ruínas, dos incêndios, do  lixo, da podridão, e depois, quando tivermos arrancado os farrapos da falsa normalidade com que temos andado a querer tapar a chaga, diremos que a cegueira desses dias regressou sob uma nova forma, chamaremos a atenção da gente sobre o paralelo entre a brancura da cegueira de há quatro anos e o voto branco de agora..."

     Não tenho subsídios para me alongar em apreciações sobre esta nova obra de Saramago, pois estou nas primeiras páginas. Apenas refiro que se trata de uma alegoria aos ritos da democracia escondendo   a fragilidade do sistema político e de suas diversas instituições. Numa manhã de votação, igual a tantas outras, os funcionários se deparam com um fenômeno alarmante, que se alastra país afora: a maioria absoluta dos eleitores votaram em branco. A partir deste fato, que Saramago chama de "corte de energia cívica", o seu gênio vai destilando seu veneno benfazejo de críticas sobre a sociedade global, à procura da lucidez.

     Aproveito esta metáfora para ampliar a imagem do "voto em branco", aplicando-a não só ao passageiro movimento da mão na urna, mas, de modo especial, à conduta de passividade e indiferença de numerosas pessoas. Isso é também sintoma de trevas, as da mediocridade, as da ignorância, as do medo.

 

     Proponho-me, no entanto, a dar um enfoque não à escuridão e sim à luz que nela se retrai à espera dos olhos da Fé.

     A Bíblia usa continuamente esta linguagem de contrastes entre luz e trevas, corpo e alma, guerra e paz, vida e morte. O profeta Isaías anuncia a vinda do Redentor com estas palavras: "O povo que andava nas trevas viu uma grande luz" Is.9,2. O nascimento do Redentor é assinalado por uma estrela que brilha sobre a solidão de uma Criança pobre deitada numa manjedoura, numa obscura aldeia da Judéia. O próprio Jesus anima seus ouvintes, após adverti-los sobre grandes tragédias que virão, com estas palavras: " quando estas coisas começarem a acontecer, levantem suas cabeças e exultem, pois é a sua libertação que está chegando" Lc. 21,28.

      Esta visão dialética não é monopólio do Cristianismo, encontra-se em todos os tempos e crenças. Como diz, numa espécie de síntese universal, este provérbio latino: "amor et melle et felle fecundissimus" (o amor é fecundíssimo em mel e fel).

     Com a entrada de Jesus Cristo na História da Humanidade, surge uma visão inteiramente nova. Não se trata mais de alienar-se do meio das trevas para ir ao encontro da luz, trata-se, antes, de entrar nesta batalha, e desvendar o grande  mistério:  é no mesmo campo onde opera o mal, que se oculta o bem, é do mesmo túmulo onde jaz a morte, que ressurge a vida nova. Jesus compara o Reino de Deus a uma mulher na hora do parto; ela está temerosa pelas dores iminentes e, ao mesmo tempo, está feliz por causa da nova vida" Cf. Jo.16,21. O seu apóstolo Paulo coloca-se no lugar desta mulher, numa carta aos cristãos de Corinto: "Sofro em mim como dores de parto, até que o Cristo seja gerado em vocês" 1Cor.4,14-15. Santo Agostinho se serve da mesma imagem para afirmar "o mundo está grávido de Deus".

 

     E nós pensamos, ao final: ora, se o mundo está grávido de Deus, o que poderá nascer desta gravidez senão a Plenitude da Vida? Amém!

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor