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quarta-feira, 29 de setembro de 2021

AMOR E SOCIEDADE, EM TEMPOS DE CORONAVIRUS

 FREI ALOÍSIO FRAGOSO


(24/09/2021)

 

     Crendo antes que o amor humano é dom divino e transcende tempos, espaços, raças, culturas e classes sociais, me atrevo a levantar uma questão: o modelo de vida imposto pelo atual Sistema dominante favorece ou boicota a prática do amor? Eu mesmo não ousaria dar uma resposta que não fosse dialética: nem um "não" total nem um "sim" absoluto.

 

     De tanto produzir o virus do individualismo, o nosso modelo de sociedade hedonista gera o seu antídoto: a sede de autenticidade. O fracasso da tecnologia em cumprir suas promessas de felicidade provocam o retorno a valores tradicionais, tidos em conta de envelhecidos e inúteis. Por outra parte, a sociedade de consumo oferece o produto pronto para uso imediato; você o adquire, utiliza, deleita-se, joga fora a embalagem e recomeça a inútil maratona à procura do objeto que sacie sua insaciável fome de ser feliz. Não se exige esforço prolongado, não há necessidade de ser inteligente, criativo, original. Basta que se abram os olhos e a bolsa. Num mundo de cidadãos e cidadãs continuamente apressados, uma oferta assim seduz como um presente de deuses.

 

    O que tem isso a ver com o amor? -  Muito! Considere-se que este shopping-center global em que virou o planeta terra exibe milhões de objetos do desejo acessíveis às pessoas que se amam, tornam-se formas de dar materialidade aos seus sentimentos e emoções. Prova disso é a superlotação das lojas nos dias convencionados para se demonstrar amor: dia da criança, dia dos namorados, dia das mães, etc.

 

     Ora, o verdadeiro amor não se contenta com coisas prontas, acabadas. Ele esconde em si um impulso criativo. Ele mesmo quer gerar e criar, e se compraz em aventurar e correr riscos. Nunca se tem certeza sobre o final de suas iniciativas. Os seus parceiros não são pré-moldados, seu bom êxito não tem garantia antecipada, não  lhe adianta publicidade,  somente a eles, os parceiros, cabe construir a unidade que supõe diversidade. Em suma, a mais perfeita tecnologia não casa com a utopia do amor que visa crescer e perpetuar-se.

 

     Todos os amantes do mundo sabem disso teoricamente. Na prática, a frágil natureza humana, fustigada pela máquina de consumo e produção, prefere ter em mãos o que é mais fácil, imediato e prazeiroso. E facilmente se confunde o objeto do desejo com o sujeito do amor. Reduz-se o amor ao simples desejo. Daí a catástrofe das relações provisórias e descartáveis, com prazo de validade determinado pelo tempo em que durar a satisfação.

 

     A pandemia do coronavirus chegou desmontando todos estes esquemas armados pelo Poder Econômico. Suas lojas esvaziaram-se e redescobrimos os lugares onde amar é construir vidas e outros onde amar é salvar vidas: o convívio familiar, os leitos dos hospitais, os espaços de socorrer os amedrontados, de estar atento aos solitários, de solidarizar-se com os parentes das vítimas, de revalorizar os pequenos gestos, as palavras confortantes, as coisas simples, os protestos em prol da saúde pública, a fé engajada.

     Aprendemos que a essência mais íntima do amor está na doação.

 

     Esvaziaram-se também os templos, e compreendemos que Deus não se deixa confinar, que Ele mora no mundo, usa nossos trajes e estar a nos dizer o tempo todo: "o que fizerdes a estes, é a mim que estais fazendo". Reaprendemos, enfim que o amor não termina na experiência que dele fazemos, pois tudo que amamos pode ser tirado de nós, mas o amor não; ele sempre volta, em outras  formas ou em outras pessoas.

 

     Enquanto pressentimos o fim da pandemia, escutemos a advertência de Jesus a Nicodemos, que o foi procurar nas trevas da noite: "em verdade, em verdade te digo: quem não renascer não verá o Reino de Deus" Jo.3,3.

Frei Aloísio Fragoso é frade franciscano, coordenador da Tenda da Fé e escritor

sexta-feira, 26 de junho de 2020

A TRANSIÇÃO ECOLÓGICA PARA UMA SOCIEDADE BIOCENTRADA


Por Leonardo Boff

O ataque do Coronavírus contra toda a humanidade nos obrigou a nos concentrar no vírus, no hospital, no paciente, no poder da ciência e da técnica e na corrida desenfreada por uma vacina eficaz e no confinamento e distanciamento social tudo isso é indispensável.

Mas para apreendermos o significado do Coronavírus, precisamos enquadrá-lo em seu devido contexto e     não vê-lo isoladamente. Ele expressa a lógica do capitalismo global que, há séculos, conduz uma guerra sistemática contra a natureza e contra a Terra.

             O capitalismo neoliberal gravemente ferido

O capitalismo se caracteriza pela exacerbada exploração da força de trabalho, pela utilização dos saberes produzidos pela tecnociência, pela pilhagem dos bens e serviços da natureza, pela colonização e ocupação de todos os territórios acessíveis. Por fim, pela mercantilização de todas as coisas. De uma economia de mercado passamos para uma sociedade de mercado.

Nela, as coisas inalienáveis se transformaram em mercadoria. Karl Marx em sua Miséria da Filosofia de 1874 profetizou: “Tudo o que os homens considerável inalienável, coisas trocadas e dadas mas jamais vendidas….tudo se tornou venal como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência… tudo foi  levado ao mercado e ganhou seu preço”. A isso ele denominou o “tempo da corrupção geral e da venalidade universal” (ed.Vozes 2019,p.54-55).É o que estamos vivendo desde o fim da segunda guerra mundial.

O capitalismo quebrou todos os laços com natureza, a transformou num baú de recursos, tidos ilusoriamente ilimitados, em função de um crescimento também tido ilusoriamente ilimitado. Ocorre que um planeta já velho e limitado não suporta um crescimento ilimitado.

Politicamente o neoliberalismo confere centralidade ao lucro, ao mercado, ao Estado mínimo, às privatizações de bens públicos e uma exacerbação da concorrência e do individualismo, a ponto de Reagan e Thatcher dizerem que a sociedade não existe, apenas indivíduos.

A Terra viva, Gaia, um superorganismo que articula todos fatores para continuar viva e produzir e reproduzir sempre todo tipo de vida, começou a reagir e contra-atacar: pelo aquecimento global, pela erosão da biodiversidade, pela desertificação crescente, pelos eventos extremos e pelo envio de suas armas letais que são os vírus e bactérias (gripe suína, aviária, H1N1, zika, chikungunya, SARS, ebola e outros) e agora o covid-19, invisível e letal. Colocou a todos de joelhos, especialmente as potências militaristas cujas armas de destruição em massa (que poderiam destruir toda a vida, várias vezes) se mostraram totalmente supérfluas e ridículas. Agora passamos do capitalismo do desastre para o capitalismo do caos,como diz a crítica do sistema capitalista Naomi Klein.

Uma coisa ficou clara a propósito do covid-19: caiu um meteoro rasante em cima do capitalismo neoliberal desmantelando seu ideário: o lucro, a acumulação privada, a concorrência, o individualismo, o consumismo, o estado mínimo e a privatização da coisa pública e dos commons. Ele foi gravemente ferido. O fato é que produziu demasiada iniquidade humana, social e ecológica, a ponto de pôr em risco o futuro do sistema-vida e do sistema-Terra.

Ele, entretanto, colocou inequivocamente a disjuntiva: vale mais o lucro ou a vida? O que vem antes: salvar a economia ou salvar vidas humanas?

Pelo ideário do capitalismo, a disjuntiva seria salvar a economia em primeiro lugar e em seguida vidas humanas. Mas releva reconhecer que é o que nos está salvando é aquilo que inexiste nele: a solidariedade, a cooperação, a interdependência entre todos, a generosidade e o cuidado mútuo pela vida de uns e de outros.

Alternativas para o pós-Coronavírus

O grande desafio colocado a todos, a grande interrogação especialmente, aos donos dos grandes conglomerados multinacionais é: Como continuar? Voltar ao que era antes? Recuperar o tempo e o lucros perdidos?

Muitos dizem: voltar simplesmente ao que era antes, seria um suicídio. Pois a Terra poderia novamente contra-atacar com vírus mais violentos e mortais. Cientistas já advertiram que poderemos, dentro de pouco, sofrer com um ataque ainda mais feroz, caso não tenhamos aprendido a lição de cuidar da natureza e de desenvolver uma relação amigável para com a Mãe Terra.

Elenco aqui algumas alternativas, pois os senhores do capital e das finanças estão numa furiosa articulação entre eles para salvaguardar seus interesses, fortunas e poder de pressão política.

A primeira seria a volta ao sistema capitalista neoliberal extremamente radical. Seria 0,1% da humanidade, bilhardários, que utilizariam a inteligência artificial com capacidade de controlar cada pessoa do planeta, desde sua vida íntima, privada e pública. Seria um despotismo de outra ordem, cibernético, sob a égide do total controle/dominação da vida das populações.

Este não aprendeu nada do covid-19, nem incorporou o fator ecológico. Pela pressão geral, talvez assuma uma responsabilidade socio-ecológica para não perder lucros e frequezes. Mas seguramente haverá grande resistência e até rebeliões provocadas pela fome e pelo desespero.

A segunda alternativa seria o capitalismo verde que tirou as lições do Coronavírus e incorporou o fator ecológico: reflorestar o devastado e conservar ao máximo a natureza. Mas não mudaria o modo de produção e a busca do lucro. O capitalismo verde não discute a desigualdade social perversa e faria de tudo da natureza, ocasião de ganho. Exemplo: não apenas ganhar com o mel das abelhas, mas também sobre sua capacidade de polinizar outras flores. A relação para com a natureza e a Terra continuaria utilitarista e não lhe reconheceria direitos,como declarou a ONU e seu valor intrínseco, independente do ser humano.

A terceira seria o comunismo de terceira geração que nada teria com as anteriores, colocando os bens e serviços do planeta sob a administração plural e global para redistribui-los equitativamene a todos. Poderia ser possível, mas supõe uma nova consciência ecológica, além de  dar centralidade à vida em todas as suas formas. Seria ainda antropocêntrico. É pouco representado, pelos filósofox Zizek e Badiou além da carga negativa das experiências anteriores e mal sucedidas.

A quarta, seria o eco-socialismo com maiores possibilidades. Supõe um contrato social mundial com um centro plural de governança para resolver os problemas globais da humanidade. Os bens e serviços naturais seriam equitativamente distribuídos a todos, num consumo decente e sóbrio que incluiria também toda a comunidade de vida. Ela também precisa de meios de vida e de reprodução como água, climas e nutrientes. Esta alternativa estaria dentro das possibilidades humanas, desde que superasse o sociocentrismo e incorporasse os dados da nova cosmologia e biologia, que consideram a Terra como momento do grande processo cosmogênico, biogênico e antropogênico.

A quinta alternativa seria o bem viver e conviver ensaiada por séculos pelos andinos. Ela é profundamente ecológica, pois considera todos os seres como portadores de direitos. O eixo articulador é a harmonia que começa com a família, com a comunidade, com a natureza, com o inteiro universo, com os ancestrais e com a Divindade. Esta alternativa possui alto grau de utopia, talvez, quando a humanidade se descobrir como espécie, habitando numa única Casa Comum, teria condições de realizar o bem-viver e o bem conviver.

Conclusão desta parte: ficou evidente que o centro de tudo é a vida, a saúde e os meios de vida e não o lucro e o desenvolvimento (in)sustentável. Vai se exigir mais Estado com mais segurança sanitária para todos, um Estado que satisfaça as demandas coletivas e promova um desenvolvimento que obedeça os ritmos e os limites da natureza. Não será a austeridade que vai resolver os problemas sociais que têm beneficiados ao já ricos, e penalizado os mais pobres. A solução se deriva da justiça social e distributiva, onde todos participam do ônus e do bônus da ordem social.

Como o problema do Coronavírus foi global, torna-se necessário um contrato social global para implementar soluções globais. Tal transformação demandará uma descolonização de visões de muno e de conceitos, como a voracidade pelo lucro e o consumismo, que foram inculcados pela cultura do capital. O pós-Coronavírus nos obrigará conferir centralidade à natureza e à Terra. Ou salvamos a natureza e a Terra ou engrossaremos o cortejo dos que rumam para o abismo.

Como buscar uma transição ecológica, exigida pela ação mortífera do covid-19? Por onde começar?

Não podemos subestimar o poder do “gênio” do capitalismo neoliberal: ele é capaz de incorporar os dados novos, transformá-los em seu benefício privado e para isso usar todos os meios modernos da robotização, da inteligência artificial com seus bilhões de algoritmos e eventualmente as guerras híbridas. Sem piedade podem conviver, indiferentes, aos milhões e milhões de esfaimados e lançados na miséria.

Por outra parte os que buscam uma transição paradigmática, dentro do qual eu mesmo me situo, devem propor outra forma de habitar a Casa Comum, com uma convivência respeitosa para com a natureza e um cuidado com todos os ecossistemas. Devem gerar na base social outro nível de consciência e novos sujeitos sociais, portadores desta alternativa. Para isso, cabe enfatizar, devemos passar por um processo de descolonização de visões de mundo e de ideias inculcadas pela cultura do capital. Devemos ser anti-sistema e alternativos.

           Pressupostos para uma transição bem sucedida

Primeiro pressuposto: a vulnerabilidade da condição humana, exposta a ser atacada por enfermidades, bactérias e vírus. dos ecossistemas e a alimentação humana.

Fundamentalmente dois outros fatores estão na origem da invasão de micro-organismos letais: a excessiva urbanização humana que avançou sobre os espaços da natureza, destruindo os habitats naturais dos vírus e bactérias: saltaram para outros animais ou para o corpo humano. 83% da humanidade vive em cidades.

O segundo fator é a desflorestação sistemática devida à voracidade do capital que busca riqueza com a monocultura da soja, da cana, do girasol ou com a mineração e a produção de proteínas animais (gado), devastando florestas e desequilibrando o regime de umidade e de chuvas de vastas regiões como é o caso da Amazônia.

Segundo pressuposto: a interdependência entre todos os seres, especialmente entre os seres humanos. Somos, por natureza, um nó de relação, voltado para todas as direções. A bioantropologia e a psicologia evolutiva deixaram claro que é da essência específica do ser humano a cooperação e a relação de todos com todos. Não existe o gene egoísta, formulado por Dawkins no fins dos anos 60 do século passado sem nenhuma base empírica. Todos os genes se interligam entre si e dentro das células. Todos os seres estão inter-retro-relacionados e ninguém está fora da relação. Nesse sentido o individualismo, valor supremo da cultura do capital, é anti-natural e não possui nenhuma base biológica.

Terceiro pressuposto: a solidariedade como opção consciente. A solidariedade está na base de nossa humanidade. Os bio-antropólogos nos revelaram que este dado é essencial ao ser humano. Quando nossos ancestrais buscavam seus alimentos, não os comiam sozinhos. Levavam-nos ao grupo e serviam a todos começando com os mais novos, depois com os mais idosos e por fim a todos. Daí surgiu a comensalidade e o sentido de cooperação e solidariedade. Foi a solidariedade que nos permitiu o salto da animalidade para a humanidade. O que valeu ontem, vale também para hoje.

A sociedade vive e subsiste porque seus cidadãos comparecem como seres cooperativos e solidários, superando conflito de interesses para ter uma convivência minimamente humana e pacífica e juntos construir o bem comum. Esta solidariedade não vigora apenas entre os humanos. É uma constante cosmológica: todos os seres convivem, estão envolvidos em redes de de relações de reciprocidade e de solidariedade de forma que todos se entre-ajudam para viver e co-evoluir. Também o mais fraco, com a colaboração dos outros, subsiste e tem o seu lugar no conjunto dos seres e co-evolui.

O sistema do capital não conhece a solidariedade, apenas a competição que produz tensões, rivalidades e verdadeiras destruições de outros concorrentes em função de uma maior acumulação e, se possível, estabelecer o monopólio de um produto ou de uma fórmula científica.

Hoje o maior problema da humanidade não é nem o econômico, nem o político nem o cultural, nem o religioso, mas é a falta de solidariedade para com outros seres humanos que estão ao nosso lado. No capitalismo ele é visto como um eventual consumidor, não como uma pessoa humana com suas preocupações, suas alegrias e padecimentos.

Foi a solidariedade que nos está salvando face ao ataque do Coronavírus, a começar pelos operadores da saúde que generosamente arriscam suas vidas para salvar vidas. Assistimos atitudes de solidariedade em toda a sociedade mas especialmente nas periferias onde as pessoas não têm condições de fazerem o isolamento social e não possuem reservas de alimentação. Muitas famílias que recebiam as cestas básicas, as repartiam entre outros mais necessitados.

Referência especial merece o MST (Movimento dos Sem Terra) que forneceu toneladas alimentação orgânica para os mais vulneráveis. Não dão o que lhes sobra, mas o que têm. Outras ONGs organizaram ações de solidariedade para atenderem aos mais carentes. Mesmo as grande empresas mostraram solidariedade, doando alguns milhões que lhes sobraram para enfrentar o covid-19.

Não basta que a solidariedade seja um gesto pontual. Ele deve ser uma atitude básica, porque é  um dado de nossa natureza. Temos que fazer uma opção consciente para sermos solidários a partir dos últimos e invisíveis, para aqueles que não contam para o sistema imperante e são considerados prescindíveis e zeros econômicos. Só assim ela deixa de ser eletiva e engloba a todos, pois todos somos co-iguais e nos unem  laços objetivos de fraternidade.

Quarto pressuposto: o cuidado essencial para com tudo o que vive e existe, especialmente entre os seres humanos. Pertence à essência do humano, o cuidado sem o qual nenhum ser vivo subsistiria. Nós estamos vivos porque tivemos o infinito cuidado de nossas mães. Deixados no berço, não saberíamos como buscar nosso alimento e dentro de pouco tempo morreríamos.

Ademais cuidado é além disso uma constante cosmológica como o mostraram Stephan Hawking e Brian Swimme entre outros: as quatro forças que sustentam o universo (a gravitacional, a eletromagnética, a nuclear franca e forte) agem sinergeticamente com extremo cuidado sem o qual não estaríamos aqui refletindo sobre estas coisas.

O cuidado representa uma relação amiga da vida, protetora de todos os seres pois os vê como um valor em si mesmo, independente do uso humano. Foi a falta de cuidado para com a natureza, devastando-a, que os vírus perderam seu habitat, conservado em milhares de anos e passaram a outro animal ou ao ser humano para poder sobreviver devorando  nossas células. O ecofeminismo trouxe uma expressiva contribuição à preservação da vida e da natureza com a ética do cuidado, desenvolvida por elas, pois o cuidado é de todos os humanos, mas ganha especial densidade nas mulheres

            A transição para a uma civilização biocentrada

Toda crise faz pensar e projetar novas janelas de possibilidades. O Coronavírus nos deu esta lição: a Terra, a natureza, a vida, em toda sua diversidade, a interdependência, a cooperação e a solidariedade devem possuir a centralidade na nova civilização, se não quisermos ser mais atacados por vírus letais.

Parto da seguinte interpretação: não só nós agredimos por séculos a natureza e a Mãe Terra. Agora é a Terra ferida e a natureza devastada que estão nos contra-atacando e fazendo sua represália. São entes vivos e como vivos sentem e reagem às agressões.

A multiplicação de sinais que a Terra nos enviou, a começar pelo aquecimento global, a erosão da biodiversidade na ordem de 70-100 mil espécies por ano (estamos dentro da sexta extinção em massa na era do antropoceno e do necroceno) e outros eventos extremos, devem ser tomados absolutamente a sério e interpretados. Ou nós mudamos nossa relação para com a Terra e a natureza, num sentido de sinergia, de cuidado e de respeito ou a Terra pode não nos mais querer sobre sua superfície. Desta vez não há uma arca de Noé que salva alguns e deixa perecer os outros. Ou nos salvamos todos ou engrossaremos o cortejo daqueles que rumam para a sua própria sepultura.

Quase todas as análises do covid-19 focaram a técnica, a medicina, a vacina salvadora, o isolamento social, o distanciamento e o uso de máscaras para nos proteger e não contaminar os outros. Raramente se falou de natureza, pois, o vírus veio da natureza. Por que ele passou da natureza a nós? Já o tentamos explicar anteriormente.

A transição de uma sociedade capitalista de superprodução bens materiais para uma sociedade   de sustentação de toda a vida com valores humano-espirituais como a solidariedade, a compaixão, a interdependência, a justa medida, o respeito e o cuidado e, não em último lugar, o o amor, não se fará de um dia para o outro.

Será um processo difícil que exige, nas palavras do Papa Francisco na encíclica “sobre o Cuidado da Casa Comum” uma “radical conversão ecológica”. Vale dizer, devemos introduzir relações de cuidado, de proteção e de cooperação. Um desenvolvimento feito com a naturezas e não contra a natureza.

O sistema imperante pode conhecer uma longa agonia. Mas não terá futuro. Há uma grande acumulação de crítica e de práticas humanas que sempre resistiram à exploração capitalista. Segundo minha opinião, quem o vencerá definitivamente nem seremos só nós, mas a própria Terra, negando-lhe as condições de sua reprodução pelos limites dos bens e serviços da Terra superpovoada.

              O novo paradigma cosmológico e biológico

Para uma sociedade pós-Covid-19 impõe-se a assunção das contribuições do novo paradigma cosmológico que já possui um século de existência. Lamentavelmente até agora não conseguiu conquistar a consciência coletiva nem a inteligência acadêmica, muito menos a cabeça dos “decisons makers” políticos parte de que tudo se originou a partir do big bang, ocorrido há 13,7 bihões de anos. De sua explosão surgiram as grandes estrelas vermelhas e com a explosão destas, as galáxias, as estrelas, os planetas, a Terra e e nós mesmos. Somos todos feitos do pó cósmico.

A Terra que já tem 4,3 bilhões de anos e a vida cerca de 3,8 bilhões de anos são vivos. A Terra, isso é um dado de ciência já aceito pela comunidade científica, não só possui viva sobre ela mas é viva e produz toda sorte de vidas.

O ser humano que surgiu já há uns 10 milhões de anos há 100 mil ano como sapiens sapiens é a porção da Terra que num momento de alta complexidade começou a sentir, a pensar, a amar e a cuidar. Por isso homem vem de húmus, terra boa.

Inicialmente possuía uma relação de convivência com a natureza, depois passou de intervenção mediante a agricultura de irrigação e nos últimos séculos de agressão sistemática mediante a tecnociência. Essa agressão foi levada a todas as frentes a ponto de colocar em risco o equilíbrio da Terra e até uma ameaça de auto-destruição da espécie humana com armas nucleares, químicas e biológicas.

Essa relação de agressão subjaz à atual crise sanitária. Levada avante, a agressão poderá nos trazer crises mais agudas até aquilo que os biólogos temem The Next Big One: aquele próximo e grande vírus, inatacável e fatal que poderá levar a espécie humana a desaparecer da face da Terra.

Para obviar este possível armagedom ecológico, urge renovar o contrato natural violado com a Terra viva: ela nos dá tudo o que precisamos e garante a sustentabilidade dos ecossistemas. Nos,  contratualmente, teríamos que lhe devolver cuidado, respeito a seus ciclos e lhe damos tempo para regenerar o que lhe tiramos. Este contrato natural foi rompido por aquele estrato da humanidade (e sabemos quem é) que explora os bens e serviços, desfloresta, contamina as águas e os mares.

É decisivo renovar o contrato natural e articulá-lo com o contrato social: uma sociedade que se sente parte da Terra e da natureza, que assume coletivamente a preservação de toda vida, mantém em pé suas florestas que garante a água necessária para todo tipo de vida e regenera o que foi degradado e fortalece o que já é preservado.

A importância da região: o bioregionalismo

A ONU reconheceu a Terra como Mãe Terra e a natureza como titulares de direitos. Isso implica que a democracia deverá incorporar como novos cidadãos, as florestas, as montanhas, os rios, as paisagens. A democracia seria socio-ecológica.

A vida será o farol orientador e a política e a economia estarão a serviço, não da acumulação e do mercado mas da vida. O consumo, para que seja universalizado, será sóbrio, frugal e solidário. Destarte, a sociedade seria suficiente e decentemente abastecida.

O acento não se dará à planetização econômico-financeira que seguirá o seu curso, mas à região. A ponta mais avançada da reflexão ecológica atualmente se realiza em torno do bio-regionalismo.

Tomar a região, não como vem definida arbitrariamente pela administração geográfica mas com a configuração que a natureza fez, com seus rios, montanhas, floresta, planícies, fauna e flora e especialmente com os habitantes que aí moram.Na bioregião poder-se-á verdadeiramente criar um desevolvimento sustentável que não seja meramente retórico. As empresas serão preferentemente médias e pequenas, dar-se-á preferência à agroecologia, evitar-se-ão os transportes para regiões distantes, a cultura será o cimento de coesão: as festas, as tradições, a memória das pessoas notáveis, a presença das igrejas ou das religiões, os vários tipos de escolas e outros meios modernos de difusão de conhecimento e de encontros entre as pessoas.

A Terra será como um mosaico feito de distintas peças cm cores diferentes: são as distintas regiões e os ecossistemas, diversos e singulares, mas todos compondo um só mosaico, a Terra.

A transição se fará por processos que vão crescendo e se articulando a nível nacional, regional e mundial, fazendo crescer a consciência de nossa responsabilidade coletiva de salvarmos a Casa Comum e tudo o que a ela pertence.

A acumulação de nova consciência permitirá um salto para um outro nível em que seremos amigos da vida, abraçaremos cada ser pois todos possuímos o mesmo código genético de base, desde a bactéria originária, passando pelas grandes florestas, os dinossauros, os cavalos, os beija-flores e nós mesmo.  Somos construídos por 20 aminoácidos e por 4 bases nitrogenadas ou fosfatadas. Quer dizer, somos todos parentes uns dos outros numa real fraternidade terrenal.

Será a civilização “da felicidade possível” e da “alegre celebração da vida”.

Brasil, nosso sonho bom: a sua refundação

O Brasil, por suas riquezas ecológicas, geográficas e populacionais, tem todas as condições de começar a colocar os fundamentos de uma civilização biocentrada.

Até hoje vivemos na dependência de outros centros hegemônicos. Está madurando, especialmente nas bases, a ideia da refundação de um outro Brasil.

Três pilastras podem dar corpo a esse sonho, por mim exposto com mais detalhe no livro: Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência” (Vozes 2019). Sem entrar em detalhes direi:

A natureza, das mais ricas do planeta em biodiversidade, em florestas úmidas e em água. Podemos ser a mesa posta para as fomes e sedes do mundo inteiro.

A cultura que configura a relação do ser humano com a natureza e com outros seres humanos, diversa, rica em criatividade nas artes, na música, na arquitetura, nas danças e em certos ramos da ciência, não obstante o racismo visceral e as ameaças às culturas originárias e outras exclusões sociais, reforçadas pela atual política de ultra-direita e de viés fascitóide.

O povo brasileiro ainda em fazimento, plasmado por gentes que vieram de 60 países diferentes. A cultura multiétnica e multireligiosa, a cultura relacional, o senso lúdico, a hospitalidade, a alegria de viver e sua criatividade são características entre outras de nosso povo.

O Brasil é a maior nação neolatina do mundo e temos tudo para ser a maior civilização dos trópicos. Para essa utopia viável, temos que retrabalhar no consciente e no inconsciente coletivo, as sombras que nos pesam fortemente: do etnocídio indígena, da colonização, da escravidão e da dominação das oligarquias, herdeiras da Casa Grande e de um governo atual anti-Brasil, anti-vida e anti-povo com traços claros de despotismo que pretende conduzir o país a fases superadas pela humanidade, ao ante iluminismo, ao mundo do atraso, avesso ao saber e aos valores civilizatórios que são já bens comuns das sociedades mundiais.

Para terminar, tomo como referência a proposta do Papa Francisco, quiçá o maior líder ético-político da humanidade. Na reunião com dezenas de movimentos sociais populares em 2015 ao visitar a Bolívia. Na cidade de Santa Cruz de la Sierra disse:

Vocês têm que garantir os três Ts :Terra para morar nela e trabalhar. Teto para morar porque não são animais que vivem ao relento. Trabalho com o qual vocês se autorealizam e conquistam tudo o que precisam.

Em seguida continuou: “Não esperem nada de cima. Pois vem sempre mais do mesmo e geralmente ainda pior. Sejam vocês mesmos os protagonistas de um novo tipo de mundo, de uma nova democracia participativa e popular, com uma economia solidária, com uma agroecologia com produtos sãos e livres de transgênicos. Sejam os poetas da nova sociedade.

Lutem para que a ciência sirva à vida e não ao mercado. Empenhem-se pela justiça social sem a qual não há paz. Por fim, cuidem da Mãe Terra sem a qual nenhum projeto será possível.

Aqui estamos diante de um programa mínimo para um novo tipo de sociedade e de humanidade.

O futuro nos assinala que não iremos ao encontro do capitalismo neoliberal, embora teime em se impor. Ele não deu certo: acumulou demasiada riqueza em poucas mãos à custa do sacrifício de milhões e milhões vivendo em condições sub-humanas e junto a isso devastou a maioria dos ecossistemas e colocou a Terra numa emergência ecológica.

A travessia para uma sociedade ecologicamente sustentada com uma cultura, uma política e economia compatíveis é a grande utopia viável da humanidade e dos grupos progressistas do Brasil.

Cremos e esperamos que esse sonho não seja uma fantasmagoria, mas uma realidade possível que se adequa à lógica do universo, feito não pela soma de seus corpos celestes, mas pelo conjunto das redes de suas relações dentro das quais nós também estamos envolvidos. Para citar Paulo Freire, diria: precisamos construir uma eco-sociedade na qual não seja tão difícil o amor.

O Brasil, libertado de suas sombras históricas, pode ser um embrião da nova sociedade, una, diversa dentro da única Casa Comum, a Mãe Terra.

Leonardo Boff é ecoteólogo, filósofo e escritor e escreveu: Ecologia: grito da Terra, grito dos pobres, Vozes 1995/2015; esm espanhol por Trotta, Madrid 1996, Dabar, México 1996.

 


terça-feira, 13 de agosto de 2019

POR UMA SOCIEDADE NÃO PATRIARCAL





Por Marcelo Barros

O dia dos pais que, no Brasil, foi celebrado nesse domingo nos faz pensar que, apesar dos apelos comerciais desse tipo de comemoração, é sempre bom que haja ocasião como essa na qual os filhos expressam seu amor pelos pais e esses podem pensar em como ser pai em uma sociedade que, a cada dia, passa por profundas transformações.

Estudos arqueológicos e pesquisas antropológicas, feitas no Oriente Médio, na Turquia, na ilha de Creta e na China, nos revelam: há 8 mil anos, a maioria das antigas civilizações antigas se organizava de forma matrilinear. A referência da sociedade era a família da mãe. Nessa forma de organização, homens e mulheres conviviam em situação de maior igualdade e a propriedade da terra era comunitária. Havia certa igualdade sexual e as sociedades eram mais pacificas e não conheciam a guerra.

Há cinco mil anos, mais ou menos, no Oriente Médio e na atual Europa, as sociedades começaram a se organizar a partir da agricultura. Então, os homens passaram a ser chefes da família e as sociedades se tornaram patriarcais. A partir daí, a história da humanidade passou a ser uma sucessão de guerras e conquistas. Conforme essas pesquisas, foram as sociedades patriarcais que geraram as diferenças de classes sociais e inventaram a escravidão, primeiramente dos inimigos conquistados nas guerras e depois de pobres endividados, escravizados para pagar dívidas. (Cf. Walter Link, Engaging the Power, Discernment and Resistance in a World of Domination, Fortress Press, Minneapolis, 1992).

Infelizmente, até hoje, o assunto é atual. As raízes culturais do patriarcalismo são as mesmas. Em tal realidade sócio-política, as famílias não podem respirar clima de diálogo. O modelo patriarcal não funciona mais. Por outro lado, não se encontrou ainda outro estilo de relações familiares. Mães e filhos se desgastam na luta pela sobrevivência e, na maioria das vezes, os homens resolvem o problema pela ausência ou por cumprir meras obrigações econômicas.

Todos sabem que não basta ser pai biológico. Hoje, até as provetas de laboratório garantem isso, sem necessidade de presença humana. O importante e desafiador é ser pai na cotidianidade da construção de uma relação de diálogo familiar, na qual os filhos que crescem precisam de referências de diálogo e apoio afetivo. Não deixa de ser sintomático saber que, no Brasil, a média de duração dos casamentos é de dez anos. Na maioria dos casos, o que sobrevive é uma família nuclear, constituída por mãe e filhos, onde, quase sempre, falta a presença masculina positiva e não dominadora. É claro que, neste modelo, a mulher também tem muita responsabilidade até porque muitas vezes, se apodera dos filhos de forma que não sabe delegar nem repartir responsabilidades. Apesar de sofrer e se queixar, nada faz de positivo na mudança do modelo de pai que o homem tem e pode oferecer.

As comemorações do dia dos pais nos recorda e confirma: o mundo precisa de um novo jeito de ser pai. A função paterna é necessária para o equilíbrio da família, para uma relação mais justa com a mulher, para a saúde psíquica e emocional dos filhos e para a organização de uma sociedade mais paritária e pacífica.

Apesar de que não existem escolas para isso, os movimentos sociais e organizações populares têm sido palcos de discussão deste assunto. Têm conseguido transformar homens e mulheres, formados na cultura patriarcal em protagonistas que ensaiam novas relações familiares e sociais. Novas formas de viver a paternidade não serão descobertas sem a participação das mulheres e de uma relação de gênero tecida na cumplicidade e no diálogo criativo entre todos e todas. Ser pai e mãe em uma forma não patriarcal nem de dominação só podem ser ensaiadas no engajamento pela justiça, no trabalho de criação artística e no compromisso com o futuro do planeta. Pais e mães precisam sempre retomar o apelo dramático do poeta Carlos Drummond de Andrade:

Além da Terra, além do Céu/ no trampolim do sem-fim das estrelas, / no rastro dos astros,/ na magnólia das nebulosas,/ Além, muito além do sistema solar, / até onde alcançam o pensamento e o coração, / vamos!/ Vamos conjugar/ o verbo fundamental essencial,/ o verbo transcendente, acima das gramáticas, e do medo e da moeda e da política, / o verbo sempreamar, /  o verbo pluriamar, / razão de ser e de viver”.

 MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br











terça-feira, 2 de julho de 2019

A SOCIEDADE ATUAL E AS IGREJAS




Por Marcelo Barros

A sociedade contemporânea é marcada pela diversidade cultural e por seu caráter laical. Isso é bom e necessário para uma boa convivência de todos. De fato, não há sentido em uma religião querer dar normas morais ou pretender dominar a sociedade. No entanto, muitas vezes, o caráter laical da sociedade tem como expressão a tendência de restringir a religião ao âmbito privado da consciência de cada um. Isso vai contra a natureza de todas as religiões antigas que vêm de sociedades gregárias e se expressam sempre em formas comunitárias. Uma sociedade pluralista pode ser laica sem ser anti-religiosa e deve se abrir a todas as dimensões culturais dos diversos grupos, inclusive suas expressões religiosas. O importante é que todos os grupos religiosos se respeitem uns aos outros e se insiram na sociedade como colaboradores das melhores causas da humanidade.

No caso das Igrejas cristãs, a proposta do evangelho é que os discípulos e discípulas de Jesus sejam testemunhas de que Deus tem para o mundo um projeto de paz, justiça e comunhão com o universo. Para isso, devem se inserir na sociedade e participar como cidadãos da luta pela vida e atuar junto com todos/as em prol da justiça, paz e cuidado com a natureza.

Desde os seus inícios, a cultura judaico-cristã é marcada pela memória do Êxodo. Nela a intuição da presença divina vem como Palavra que chama quem é escravo a se libertar. Deus não é mais visto como quem nos eleva da terra ao céu e sim como energia de libertação que nos chama a transformar o mundo. Não legitima o poder e sim subverte e transforma as sociedades. Dentro dessa tradição profética, surge Jesus de Nazaré como testemunha do projeto divino de um mundo transformado. Segundo os evangelhos, ele chama isso de “reino de Deus” ou reinado divino.

Conforme os evangelhos, para mostrar esse programa divino, pouco a pouco, emergindo no mundo, Jesus propõe tirar do tesouro da fé coisas novas e velhas (Mt 13). E o mais revolucionário: propôs nova forma de crer e de falar de Deus, como Pai e Mãe de ternura, Amor, presente em nós e solidário aos/as oprimidos/as e excluídos/as do mundo. Afirmou ter sido possuído pelo Espírito de Deus (O Espírito veio sobre mim e me enviou) para curar os doentes, libertar os prisioneiros e anunciar aos pobres e oprimidos a boa notícia da libertação (Cf. Lc 4, 16- 21). Só que a libertação não seria só para um povo (os judeus) nem para uma religião (a sinagoga), mas para todos os humanos, especialmente os “de fora” (Lc 4, 25- 30). Os religiosos da época de Jesus e de todos os tempos têm dificuldade de aceitar esse amor que não tem fronteiras. Para vivenciar essa novidade, Jesus reuniu um grupo de amigos e amigas que, depois do seu desaparecimento, se constituíram como movimento dentro do Judaísmo para abrir as comunidades do Espírito ao mundo inteiro, independente de raça e religião.

Inspiradas em Jesus, ainda no século I da nossa era, nasceram as Igrejas. Igreja é um termo grego que significa assembleia. Nas periferias de cidades do mundo grego, as comunidades de discípulos e discípulas de Jesus tomam o seu nome (Ekkesia: Igreja) das assembleias de cidadãos das cidades gregas e se constituem como novas e revolucionárias assembleias de pobres e de não cidadãos do império (paroiké era o termo pelo qual eram chamados). Ora, segundo a Lei Júlia (44 A.C), no Império Romano, todas as religiões eram permitidas, mas não as associações de pobres e trabalhadores. Mesmo assim, as Igrejas se constituíram, resistiram a incompreensões e mesmo algumas perseguições por parte de autoridades do império e se firmaram no mundo antigo. No início, cada comunidade ou Igreja tinha seu estilo cultural, sua organização e sua forma de expressar a fé. A maioria das comunidades eram constituídas por pessoas pobres que na Igreja tinham reconhecida a sua dignidade e ali ensaiava um jeito novo de viver a partir da igualdade e da comunhão de bens. Essa abertura à realidade fez com que as comunidades cristãs, pouco a pouco, até sem se darem conta, foram absorvendo as culturas dos locais onde se inseriam e foram assumindo alguns elementos das antigas religiões do Império, como o sacerdócio compreendido como classe de homens sagrados e o culto como expressão de sacrifício oferecido a Deus.

Na Igreja Católica, há sete anos, temos um bispo de Roma, patriarca das Igrejas de tradição latina, que, diferentemente dos papas anteriores, insiste no diálogo humilde e despretensioso com a humanidade. Dá prioridade às pessoas sem terra, sem teto e sem trabalho. Propõe uma Igreja em saída, isso é, que bispos, padres e fieis se desloquem dos centros de poder que criam revoluções digitais que excluem a maior parte da humanidade para o mundo dos pobres e excluídos. Em sintonia com o papa, as pastorais sociais católicas e evangélicas cultivam uma espiritualidade sócio- libertadora. Assim, o caminho da intimidade com o Espírito se dá na caminhada social e política por um novo mundo possível. É nas lutas sociais e na inserção em meio aos pobres que as comunidades eclesiais de base e militantes de pastorais sociais experimentam a presença do Amor Divino conduzindo e transformando suas vidas pessoais, à medida que transforma as estruturas do mundo. Uma Igreja cristã deveria ser ensaio de uma sociedade nova alternativa, baseada na justiça, na paz e na comunhão com a Terra e com a natureza.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

terça-feira, 7 de maio de 2019

MEIOS DE COMUNICAÇÃO EM UMA SOCIEDADE ÉTICA




Por Marcelo Barros

Vivemos em uma sociedade de comunicação rápida, na qual o celular, a internet e as redes sociais nos ligam, instantaneamente, ao mundo inteiro. Há pouco mais de 30 anos, em termos de comunicação, a realidade era totalmente diferente. De lá para cá, o mundo viveu uma transformação que, em milênios, não conheceu. Novos meios de comunicação plasmaram uma nova cultura social e deram mais agilidade e eficiência aos meios de comunicação clássicos como a imprensa, o rádio e a televisão. 

Atualmente, os novos meios virtuais formam a opinião pública e, junto com os veículos tradicionais têm poder imenso. Estudos revelam que notícias postas na internet, falsas, ou apenas com algum fundo de verdade,  influem no resultado de eleições e decidem a Política de povos e continentes. Por isso, em todos os países, a função dos meios de comunicação social tem sido tema de reflexão e debates.

A ONU considera o 03 de maio como “dia internacional da liberdade dos meios de comunicação”. É sempre importante se perguntar de qual liberdade falamos e para que. Sem dúvida, a liberdade é fundamental, mas deveria haver liberdade para semear ódio e violência? É justo que os meios de comunicação, nas mãos das pessoas mais ricas do país, tenham liberdade de mentir e propagar notícias falsas desde que favoreçam os interesses da elite que domina o país? Como criar uma reação democrática, popular e que não seja na direção da censura e sim da crítica?

Atualmente, em muitos casos, os proprietários das grandes empresas de comunicação e agências internacionais de notícias são os mesmos acionistas dos conglomerados de petróleo e das indústrias de armamento a serem vendidos nas guerras que a imprensa estimula.

Quem acompanha os noticiários no Brasil sabe como a maioria deles privilegia a violência. Confundem a missão de informar com o trabalho de explorar ao máximo os crimes e doenças que atacam a sociedade. As notícias de um atentado que matou centenas de pessoas se misturam com um jogo de futebol do dia anterior ou o nascimento de um filhote de urso no zoológico.

Ao mesmo tempo, para combater o inimigo que o império quer esmagar, a chamada guerra híbrida usa meios mais baratos e eficientes do que soldados armados. Os meios de comunicação subsidiam uma enxurrada de notícias falsas que criam a opinião pública. Na América Latina, calam sobre o descalabro e o fracasso total do governo argentino, porque esse é de direita, mas, diariamente, divulgam notícias negativas de qualquer governo que pretenda transformar a sociedade. Assim, muita gente passa a acreditar que o governo da Venezuela é ditatorial e a oposição, feita por uma pequena elite violenta, é democrática e justa.

No Brasil, os meios de comunicação fortalecem a campanha de criminalização de movimentos populares. As grandes redes de comunicação e as notícias falsas de internet possibilitaram o golpe que derrubou o governo democrático e honesto da presidenta Dilma, demonizaram o que eles consideraram esquerda e garantiram a vitória da extrema-direita nas eleições de 2018. 

No Brasil, o dia 5 de maio foi instituído como Dia Nacional das Comunicações. Poucas pessoas sabem que, nessa data, em 1865, nascia em Mimoso, perto de Cuiabá (MT), uma grande figura das telecomunicações brasileiras: o Marechal Rondon. O nome deste grande brasileiro, descendente de índios, é lembrado quando se trata de defesa dos povos indígenas e da integração do território nacional, mas poucas pessoas o ligam às telecomunicações.

Em 1955, quando Cândido Mariano da Silva Rondon completava 90 anos, passou a ser homenageado como Patrono das Comunicações do Brasil. Talvez sua origem o impelisse a uma comunicação mais humana com os indígenas. "Morrer, se preciso for. Matar, nunca" - era o seu lema. Com ele, Rondon ganhou projeção e reconhecimento internacionais. Era outra época. Naquele tempo, mesmo se o Brasil era dominado por governos ditatoriais e a sociedade sempre foi violenta, ao menos os governantes não defendiam execuções sumárias e militares não atiravam em cidadãos que passassem de carro pela frente do quartel para irem a uma festa de criança. Provavelmente, o presidente atual e seus ministros nem queiram lembrar a figura de Rondom ou o considerem comunista como Paulo Freire, Dom Helder Camara e outros esquerdistas.

Também as Igrejas e grupos espirituais têm se servido dos meios de comunicação. A fé se torna objeto de espetáculos religiosos televisivos, sejam cultos neopentecostais ou missas-show de padres pop. Estúdios substituem templos. Misturam-se reality-show, ficção e liturgia.. Entretanto, a fé nunca pode ser objeto de publicidade.

Esse panorama está longe do evangelho de Jesus, boa noticia de que o projeto divino de paz e justiça começam a se realizar neste mundo. Por isso, muitas vezes, é fora do universo religioso que jornalistas cumprem a função de verdadeiros evangelizadores e fazem com que os meios de comunicação cumpram sua função de colaborar com a fraternidade humana em comunhão com o universo.

MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br



terça-feira, 20 de novembro de 2018

NEGRITUDE E SOCIEDADE



Por Marcelo Barros

Mais do que nunca, em tempos de intolerância e discriminações, se torna fundamental celebrar o 20 de novembro como dia da união e consciência negra. Há duas décadas, várias cidades brasileiras consagram esse dia como feriado para comemorar o aniversário do martírio de Zumbi dos Palmares. Toda a semana é coroada com eventos sobre a imensa contribuição das raças negras na história e na construção das culturas formadoras do Brasil de hoje. Em todo o Brasil, há eventos que, ao valorizar a negritude, se tornam importantes, não apenas para as pessoas que se definem como de raça e cultura afrodescendente, mas para toda a sociedade brasileira.

No Brasil, de acordo com a Constituição, toda expressão de racismo é considerado crime grave. No entanto, desde a recente campanha eleitoral e por responsabilidade do candidato eleito, temos assistido a nova onda de manifestações racistas, especialmente com as raças e culturas afrodescendentes. Isso não seria tão grave e não teria consequências tão trágicas se, na sociedade, esse tipo de atitude não encontrasse enraizados na memória cultural dos brasileiros o velho preconceito e a brutal discriminação racial, heranças da escravidão. Oficialmente, essa foi abolida, mas, na prática, está mantida em relações de trabalho injustas e em uma estratificação social rígida e impiedosa.

A discriminação social e o racismo não fazem bem a ninguém e não ajudam a criar um mundo mais justo e feliz. Ao contrário, trazem dor e violência tanto para as vítimas da injustiça, quanto para os que a praticam e ainda para os que com esse tipo de prática são coniventes.

O Brasil é um dos países mais negros do mundo. De acordo com o censo mais recente, voluntariamente 50, 7 da população se declarou negra. Isso significa mais da metade dos brasileiros. Infelizmente, a maioria desses irmãos e irmãs ainda representa a parte mais empobrecida da população brasileira. Em todo o Brasil, jovens negros são mais vítimas da violência estrutural de cada dia do que qualquer outra faixa da população. A maioria dos assassinatos atinge a população negra. Nas periferias de muitas cidades brasileiras, quase a cada manhã, se descobrem cadáveres de adolescentes negros e pobres. Também, a cada dia, comunidades religiosas de tradições afrodescendentes são agredidas e atacadas por grupos que se denominam cristãos.

A Constituição de 1988 garante o direito das comunidades negras e remanescentes de quilombos à posse de suas terras ancestrais e à manutenção de sua cultura própria. Conforme cálculos do governo, existem hoje no Brasil cerca de mais de 2.800 comunidades quilombolas. São verdadeiras repúblicas de homens e mulheres livres, formadas por descendentes de escravos, fugidos do cativeiro e de alguns índios e brancos que decidiram viver solidariamente com eles. Esses quilombos se espalham por quase todos os estados do país e são símbolos da resistência dos pequenos. Servem de modelos como comunidades verdadeiramente solidárias. Entretanto, ainda faltam leis complementares para por em prática à Constituição que, quando não favorece à elite, é facilmente esquecida.  Por outro lado, há diversas iniciativas no Congresso, agora facilitadas pela conjuntura do novo governo, que visam anular o prescrito na Constituição federal e dar poder aos estados de retirar quilombolas e indígenas de suas terras ancestrais.
Todos nós, brasileiros, temos responsabilidade social de trabalharmos por um país mais igualitário e justo. Os cultos de tradições religiosas afrodescendentes, mantidos vivos de geração em geração, têm sido instrumentos importantes para a unidade das comunidades e para garantir uma consciência mais profunda da dignidade dos seus membros. Para os cristãos, um valor central que a Bíblia aponta é a consciência da cidadania de todos os seres humanos, como filhos e filhas de Deus e cidadãos do seu reino. Essa revelação divina pode ser encontrada, como valor intuído e praticado nas comunidades afrodescendentes. Paulo escreveu que onde há aspiração e luta pela liberdade, aí está presente e atuante o Espírito Divino (Cf. 2 Cor 3, 16. Que esse aniversário do martírio do Zumbi confirme e reavive em todos nós o caminho de comunhão e partilha!
MARCELO BARROS é monge beneditino e escritor. Tem 44 livros publicados, dos quais  “O Espírito vem pelas Águas", Ed. Rede da Paz e Loyola. Email: irmarcelobarros@uol.com.br

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

MÃES E AVÓS: SUSTENTO E GARANTIA DA SOCIEDADE




 Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Em meio ao conjunto de contrassensos em que se transformou o cenário brasileiro às vésperas das eleições, o universo das mulheres atrai a atenção. São potencial eleitoral respeitável e inimigas a temer. 

É fato que em muitos países a participação política feminina tem sido decisiva para mudar contextos, transformar mentalidades e, inclusive, obter vitórias importantes.  Não seria demais lembrar o grande movimento das mães da Praça de Maio que, caminhando em círculos silenciosamente, todos os dias, com um pano branco sobre a cabeça, ajudaram a desestabilizar a cruel ditadura argentina.

Entre nós, neste momento, a atitude de alguns candidatos com mulheres tem sido particularmente eivada de machismo e preconceito.  Algumas vezes têm chegado às raias do insulto.  Como o candidato que disse a uma colega do Congresso Nacional que não a estupraria porque ela não o merecia.  O (mesmo) candidato atalhou com particular impaciência e grosseria outras mulheres que o entrevistaram ou apartearam, ou dele discordaram. Igualmente foram feitos comentários em discursos ou entrevistas de que era muito normal e até mesmo desejável que a mulher ganhasse um salário menor do que o do homem.

Tudo isso provocou a indignação das mulheres que, em tempos de feminismo já para além da terceira onda e numa sociedade onde a questão do gênero é central, não admitem mais ouvir semelhantes barbaridades.  Porém, o que mais tem provocado estupefação e indignação são as recentes declarações de um candidato a vice-presidente.

Declarou o candidato que famílias onde falta a presença masculina e paterna, e onde as crianças são criadas pelas mães e avós produzem filhos e netos desajustados, que se tornam presa fácil para o tráfico e a criminalidade.  Questionado posteriormente o candidato reafirmou suas declarações, desta vez acrescentando que sua intenção não era depreciar as mulheres, mas defendê-las, devido às duras condições em que são obrigadas a viver. 

Parece-me muito positivo que o candidato se preocupe com a situação das mulheres que não recebem do estado creches e condições adequadas para deixar seus filhos a fim de poderem trabalhar.  Em sua análise, porém, falta um detalhe: a solidariedade dessas mulheres entre si. Ao partir para o trabalho, são ajudadas pelas vizinhas, amigas e conhecidas, que tomam conta de seus filhos pequenos.   

Ao chegar em casa, as mulheres que trabalharam o dia inteiro resgatam seus filhos da casa onde se encontram, lhes dão de comer e à noite ainda participam de reuniões de comunidade, de igreja ou clubes de mães.  Por sua vez, aquelas que se responsabilizaram pelas crianças durante a jornada de trabalho das mães continuarão prontas a ajudar sempre que necessário. E assim se forma a rede de solidariedade feminina, condição fundamental para que a sociedade – e em termos maiores, a humanidade – possa crescer e desenvolver-se sem estar condenada a uma extinção prematura.

Até o presente momento, caro candidato, os homens têm, sim, sido ativos na reprodução da espécie, mas não em sua conservação.  Muitas vezes engravidam as mulheres e se vão, em busca de outras experiências, sobretudo mais novas.  As mães permanecem. E criam os filhos, enfrentando todas as dificuldades, dispostas a defender as crias e tirar o pão da boca para alimentá-las.

Nesta tarefa têm sido muito ajudadas.  Por quem?  Pelos homens?  Não exatamente.  Por outras mulheres, mais velhas, que foram as que as criaram e jamais delas desistiram.  É a cadeia imortal e milenar da maternidade, que se mantém ativa e dinâmica, gerando, nutrindo e protegendo a vida.

Perdi meu pai com nove anos de idade, fui criada por minha mãe e minha avó.  Juntas formaram o marco de ternura e vigor que me constituiu como pessoa.  Ambas foram meus exemplos e guias na vida.  Embora sentindo, sim, muita falta de meu pai, não resultei desajustada e disfuncional. 

A razão pela qual as famílias mais pobres hoje em dia perdem tantas vezes seus filhos para o tráfico não é o fato de terem mulheres como chefes e cabeças.  E sim a pobreza e a injustiça em si mesmas.  É um contexto opressor que não deixa saídas aos jovens, que não lhes apresenta oportunidades, que lhes rouba a esperança.  Dentro desse quadro sombrio, muitas vezes o tráfico e a criminalidade conseguem lançar sua mão mortal sobre eles. Mas outras vezes não.  E quando não conseguem, é quase sempre porque houve em suas origens uma mãe e uma avó para dar carinho, para estar presente, para dar vida ao preço da própria vida. 

Não culpe, por favor, as mulheres pela violência que vitima cruel e maciçamente nossa juventude.  Culpe as estruturas injustas que geram miséria e violência, e que a política teria a obrigação de ajudar a transformar. Nesta missão, sempre poderá contar com o concurso das mulheres. São elas as primeiras interessadas em construir um mundo mais humano para as novas gerações que gestaram em seus ventres. 
  
Maria Clara Bingemer é teóloga, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio e autora de “Mística e Testemunho em Koinonia” (Editora Paulus), sua mais recente obra, entre outros livros.

Copyright 2018 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER – Não é permitida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato: agape@puc-rio.br>


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

TRUMP VIOLA A PRIMEIRA VIRTUDE DA SOCIEDADE MUNDIAL


 por Leonardo Boff



Os USA sempre se distinguiram por ser um país extremamente hospitaleiro, pois, a exceção dos povos originários, os indígenas, toda a população é composta por imigrantes. Bem como o Brasil para onde vieram representantes de 60 povos diferentes.
O espírito democrático e o respeito às diferenças religiosas estão consignados na constituição. Agora surge um presidente, Donald Trump que rompe uma longa tradição norte-americana: o respeito às diferenças religiosas, rejeitando a população muçulmana especialmente vinda da Síria e a tradicional hospitalidade a todo o tipo de gente que acorria e acorre àquele país.
O filósofo Imanuel Kant (+1804) em seu ultimo escrito “A paz perpétua” propunha a república mundial (Weltrepublik) baseada fundamentalmente em dois princípios: a hospitalidade e o respeito aos direitos humanos.
Para ele a hospitalidade (usa a expressão latina “die Hospitalität) é a primeira virtude desta república mundial, porque, “todos os humanos estão sobre a Terra e todos, sem exceção, têm o direito de estar nela e visitar seus lugares e povos; a Terra pertence comunitariamente a todos”. A hospitalidade é um direito e um dever de todos.
O segundo princípio é constituído pelos direitos humanos que Kant considera “a menina-dos-olhos de Deus” ou “o mais sagrado que Deus colocou na Terra”. O respeito deles faz nascer uma comunidade de paz e de segurança que põe um fim definitivo “à infame beligerância”.
Pois esta hospitalidade está sendo negada a milhares de refugiados na Europa, escapando das guerras apoiadas pelos ocidentais, na França punindo até um fazendeiro que acolheu a muitos deles. Esta mesma hospitalidade é explicita e conscientemente recusada por parte de Donald Trump a milhares e até milhões de estrangerios e trabalhadores ilegais.
É neste contexto que vale lembrar um dos mais belos mitos da cultura grega, a hospitalidade oferecida por um casal de velhinhos – Filêmon e Báucis – a duas dividades: Júpiter, o deus supremo e seu acompanhante o deus Hermes.
Conta o mito que Júpiter e Hermes se travestiram de andarilhos miseráveis para testar quanta hospitalidade ainda restava sobre a  Terra. Foram repelidos por todos por onde quer que passassem.
Mas, eis que num entardecer, mortos de fome e de cansaço,  foram calorosamente acolhidos pelos bons velhinhos que lhes lavaram os pés, ofereceram-lhes comida e a própria cama para dormir. Tal gesto de hospitalidade comoveram os dois deuses.
Quando estavam se preparando para repousar, despindo seus trapos, resolveram revelar sua verdadeira natureza divina. Num abrir e fechar de olhos transformaram a mísera choupa num esplênido templo. Espantados os bons velhinhos se prostraram até o solo em reverência.
As divindades pediram que ambos fizessem um pedido e que seria prontamente atendido. Como se tivessem combinado previamente, Filêmon e Báucis, disseram que queriam continuar no templo recebendo os peregrinos e que no final da vida, os dois, depois de tão longo amor, pudessem morrer juntos.
E foram atendidos. Um dia, quando estavam sentados no átrio, esperando os peregrinos, de repente Filêmon viu que o corpo de Báucis se revestia de folhagens floridas e que o corpo de Filêmon também se cobria de folhas verdes.
Mal puderam dizer adeus um ao outro. Filêmon foi transformado num enorme carvalho e Báucis numa frondosa tília. As copas e os galhos se entrelaçaram no alto. E assim abraçados ficaram unidos para sempre. Os velhos daquela região, hoje no norte da Turquia, sempre repetem a lição: quem hospeda forasteiros, hospeda a Deus.
A hospitalidade é um teste para ver quanto de humanismo, de compaixão e de solidariedade existe numa sociedade. Atrás de cada refugiado para a Europa e de cada imigrante para os USA há um oceano de sofrimento e de angústia e também de esperança de dias melhores. A rejeição é particularmente humilhante, pois lhes dá a impressão de que não valem nada, de que sequer são considerados humanos.
Os refugiados vão à Europa porque antes os europeus estiveram por dos séculos lá em seus países, assumindo o poder, impondo-lhes costumes diferentes e explorando suas riquezas. Agora que são tãoo necessitados, são simplesmente rejeitados.
Vale resgatar o valor e a urgência da hospitalidade, presente como algo sagrado em todas as culturas humanas. Temos que nos reinventar como seres hospitaleiros para estarmos à altura dos milhões de refugiados e imigrantes no mundo inteiro.
Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu: A hospitalidade: direito e dever de todos, Vozes 2005.